3 • Hug
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Londres – Primavera de 1847
%Nalla%:
Ele se afastou de mim em silêncio, seguindo em direção à porta. Continuei imóvel onde estava, observando seus passos com meu olhar, respirei fundo sentindo meu coração se acalmar, porém uma certa melancolia por ele ter que partir logo em nossa primeira manhã juntos.
— Minha lady %Nalla%? — disse Isla ao se aproximar de mim.
— Sim? — eu a olhei despertando de meus pensamentos.
— Minha lady deseja que algo em especial seja preparado para o almoço? — perguntou ela de forma natural, o que atestava ainda mais que eu era a nova dona daquela mansão.
Respirei fundo, não sabia o que responder, ainda mais por não conhecer os gostos e hábitos de %Sebastian%. Aquela simples pergunta acabou me deixando um pouco insegura, pensando que se escolhesse de forma errada o cardápio a ser servido, talvez ele ficasse decepcionado ou irritado.
— Bem, eu ainda não… — a olhei — Preciso de alguns minutos para me decidir.
— Como quiser mi lady, caso queira me chamar, basta tocar. — disse ela deixando o sino de mão sobre a mesa.
Isla fez uma breve reverência e se retirou. Desviei meu olhar para a fonte ao meu lado, mantendo meu corpo de frente para ela. Um lado novo em ser a dona da casa, ter que decidir por tudo que acontecia. Por mais que tivesse sido preparada para isso durante toda a minha infância, estar casada e ter uma família para cuidar era bem mais complexo quando não se conhece o seu marido.
O que me despertava a vontade de descobrir quem ele era, internamente. Seus gostos, desejos, seus pensamentos, quem era %Sebastian% por trás daquele olhar intenso e silêncio constante.
— Lady %Nalla%. — disse Lee retornando ao jardim. — O senhor Zachary, a senhora Poppy e o senhor Aidan estão no hall, aguardando a senhora.
O que a família de %Sebastian% estava fazendo aqui? Perguntei para mim mesma, tentando não imaginar o que eles queriam. Acompanhei Lee até o hall de entrada da mansão, eles estavam perto da porta conversando entre si, enquanto me esperavam.
— Bom dia. — disse no meu tom baixo e habitual de falar.
— Oh, aqui está ela! — disse a senhora Poppy vindo me abraçar com euforia. — Confesso que contei as horas para vir aqui esta manhã, estava curiosa para saber como foi a primeira noite do casa.
— Oh. — eu retribui o abraço dela com mais suavidade e me afastei um pouco. — Foi tranquila, na medida do possível.
— Não seja tímida, meu filho esperou tanto por esse casamento com você, tenho certeza que tranquila é um adjetivo que não classificou esta noite. — ela riu alto e deu um leve tapa em meu ombro.
Eu dei um sorriso meio tímido, desviando meu olhar para o senhor Zachary, pai de %Sebastian% e depois para o senhor Aidan, sobrinho do senhor Zachary.
— Oh, sim. — ela riu ainda mais olhando para seu marido. — Me esqueci que estamos na presença dos senhores.
— Não se contenha por minha causa. — Aidan deu um leve sorriso malicioso. — De minha parte, adoro saber sobre essas coisas, a visão feminina sobre o amor é tão atraente.
— Modere suas palavras diante de duas senhoras casadas. — repreendeu o senhor Zachary num tom mediano.
Me encolhi um pouco, sentindo-me desconfortável com a presença deles, e mais ainda com as indagações da senhora Poppy.
— Senhores, fiquem à vontade na sala. — disse a senhora Poppy me pegando pela mão. — Quanto a nós, vamos ter conversas femininas.
Ela me puxou em direção às escadas sem que eu conseguisse me opor, subimos correndo e entramos no quarto principal. A senhora Poppy fechou a porta assim que entramos, então me fez sentar no sofá que tinha em frente à janela, ao seu lado.
— Senhora... — comecei a tentar fazê-la não se animar muito com o assunto.
— Minha querida, sei que está envergonhada. — ela segurou minha mão e me olhou de forma gentil. — A primeira noite de uma mulher é como um marco em sua vida, tenho certeza que não é somente eu que estou curiosa sobre isso.
Ela realmente poderia não ser a única, porém, eu sabia que minha família conseguiria ser bem mais discreta que ela. Mesmo com costumes visivelmente diferentes, eu conseguia sentir que a senhora Poppy era muito gentil e queria ser minha amiga, estava tentando encontrar alguma forma de retribuir seu carinho evidente por mim. Só não sabia como fazer.
— Senhora Poppy... — disse num tom mais baixo que de costume — A senhora disse que o senhor Win... %Sebastian%, me esperou por muito tempo, o queria dizer com isso?
— Você não sabe? — indagou ela me olhando surpresa.
— Bem. — ela deu um sorriso disfarçado. — Eu disse isso me referindo aos três anos que ele passou interessado em você, desde que retornou para Londres.
A explicação dela não me parecia convincente, menos ainda sincera, parecia que algo a mais tinha nesta história. A senhora Poppy passou a mão em seus cabelos e ajeitou um pouco a saia do vestido azul marinho que estava vestindo, suspirou um pouco como se escolhesse suas próximas palavras.
— Bem, voltemos para sua noite de núpcias. — disse ela se animando novamente. — Como foi? Meu filho foi gentil com você?
— Senhora Poppy, não quero ser indelicada com a senhora, mas gostaria de não mencionar sobre isso, é algo muito íntimo para mim. — eu me encolhi um pouco mais.
— Ah, sim, eu imagino que esteja me achando muito curiosa. — ela riu alto. — Mas em parte é preocupação de mãe, %Sebastian% é um homem muito silencioso e pouco sociável, fico imaginando como poderia ser a convivência de vocês.
— A senhora não deveria se preocupar tanto, eu já percebi algumas características do %Sebastian%, certamente me acostumarei com elas de acordo com o tempo. — assegurei com segurança.
— Posso ver em seus olhos uma ponta de curiosidade. — ela deu um largo sorriso. — Se quiser, posso lhe contar como encontrei %Sebastian% ainda criança.
— A senhora faria isso? — disse me surpreendendo por ela ter confirmado os boatos. — Sempre ouço comentários indiretos sobre ele ser adotado.
— Bem, eu chamo %Sebastian% de meu pequeno anjo, ele salvou minha vida em um momento em que eu não queria ser salva. — explicou ela com um pequeno brilho nos olhos. — E mesmo tendo passado alguns anos longe de casa, estou feliz e orgulhosa por ele ser meu filho, mesmo que adotivo.
— A senhora não pôde ter filhos? — perguntei meio receosa.
— Não. — ela suspirou fraco. — Infelizmente, Deus não quis que eu tivesse esse prazer, tenho um certo alívio por meu marido nunca ter cobrado, mas fico triste.
— Eu lamento. — coloquei minha mão sobre a dela e sorri de leve, não sabia ao certo o que falar.
— Ah, mas a vida me deu dois filhos lindos de criação. — ela sorriu também, era notável as pequenas gotas de lágrimas no canto de seus olhos. — Aidan às vezes me dá um certo trabalho, porém, me divirto com ele.
— Soube que os pais dele morreram em uma tempestade. — comentei.
— Soube de muitas coisas sobre nossa família. — ela riu um pouco.
— Perdoe-me senhora, se fui intrusa nos assuntos pessoais da família.
— Não precisa se desculpar. — ela riu novamente. — Não é novidade que minha cunhada e seu marido, morreram em uma viagem de navio para a Espanha.
Ela se levantou respirando fundo.
— Mas, vamos deixar o passado para trás e olhar para o futuro. — ela pegou em minha mão e me levantou da cama. — Temos um almoço para preparar, acredito que esteja curiosa para saber as preferências do seu marido.
— Confesso que um pouco, senhora.
— Vou adorar te contar tudo. — ela riu ainda mais alto me puxando para fora do quarto.
Descemos as escadas com ela ainda rindo, me contando algumas histórias de quando %Sebastian% era criança, passamos pela sala de visitas, indo diretamente para a cozinha. Fiquei um pouco próxima à porta, observando a senhora Poppy montar todo o cardápio do almoço de forma bem detalhada, explicando à cozinheira, com a companhia da senhorita Isla, sempre reforçando em como deveria sair o sabor dos alimentos.
O cardápio, segundo a senhora Poppy, seria pudim Yorkshire de entrada,
roast beef, ou como ela costumava pronunciar, rosbife, acompanhado de puré e vegetais cozidos para o prato principal. Era um pouco engraçado ver como a senhora Poppy pronunciava o nome dos pratos, e um pouco animador ver como ela ordenava tão bem os empregados.
Para sobremesa, segundo a senhora Poppy, seria uma surpresa dela para os recém-casados, então contive um pouco minha curiosidade. Assim que todas as instruções foram passadas, a senhora Poppy pegou minha mão e me levou de volta para a sala de visitas, onde o senhor Zachary e Aidan estavam conversando, sentados nas confortáveis e luxuosas cadeiras que compunha o mobiliário.
— Estou surpreso que %Sebastian% tenha saído. — comentou o senhor Zachary.
— Deve ter sido algum problema grave no porto, para deixar sua esposa logo na manhã de recém-casado. — Aidan deu uma risada discreta, se levantando e caminhando em direção ao quadro de William Hogarth que estava na lateral direita da sala.
Eu o segui com meu olhar e analisei um pouco a obra de arte que estava dentro da moldura, vagamente poderia afirmar que já tinha visto este quadro quando criança, talvez na casa de algum aristocrata amigo do meu pai. Era curioso uma obra de arte de tanto valor estar na casa de um burguês, será que teria comprado?
O tempo foi passando. O senhor Zachary continuava seus assuntos sobre os negócios da família com Aidan, enquanto isso, a senhora Poppy, que se sentou na cadeira ao lado da minha, sempre puxava alguns assuntos triviais relacionados ao meu cotidiano em Derbyshire. Ela havia me contado que morou por anos em uma casa ao sul de Nottinghamshire, porém, após Aidan ir morar com eles, decidiram vir para Londres.
— Oh, %Sebastian%. — a senhora Poppy se levantou da cadeira e caminhou em sua direção. — Estávamos à sua espera.
— O que fazem aqui? — disse surpreso.
— Viemos acompanhá-los para o almoço. — respondeu a senhora Poppy com um sorriso descontraído.
Ela parecia não se importar com o tom da voz dele, menos ainda com sua face séria. Seu olhar veio de encontro ao meu, estabelecendo assim aquela intensidade que sempre me deixava envergonhada.
— Não me lembro de tê-los convidado. — retrucou %Sebastian% mantendo-se sério.
— Ah, deixe de pedir formalidade com sua própria família, queríamos fazer surpresa. — a senhora Poppy fez que iria se irritar, porém se virou para mim e piscou de leve.
Como se sua reação fosse uma forma de ensinamento para mim. Eu me levantei da cadeira e caminhei até ele, sorri de leve desviando meus olhares pelo percurso.
— Você chegou. — disse no meu tom baixo de sempre.
— Disse que viria para o almoço. — ele mantinha seu olhar em mim sem nenhum constrangimento de toda aquela intensidade que colocava. — Sempre cumpro minha palavra.
Senti um breve arrepio em meu corpo.
— Bem, já que está assim tão mal-humorado que não pode ter a companhia de sua família... — pronunciou a senhora Poppy, que estava ao nosso lado nos olhando.
— Sejamos honestos querida, estamos invadindo a privacidade do casal em seu primeiro dia juntos. — disse o senhor Zachary de forma franca.
— É claro que estamos agradecidos pela presença de vocês. — afirmei, mantendo meu olhar em %Sebastian%.
— Eu já imaginava que sim. — a senhora Poppy riu um pouco e se dirigiu para o centro da sala, sentando ao lado do seu marido.
%Sebastian% pegou em minha mão com suavidade e me guiou até o jardim. Ele parecia um pouco nervoso e desconfortável, mas não conseguia identificar se era pela presença de sua família ou pelo motivo que o fez sair pela manhã. De qualquer forma, parecia sério e a cada instante segurava minha mão ainda mais forte sem perceber.
— %Sebastian%. — disse ao parar de anda, puxando um pouco minha mão para que ele percebesse o grau de sua força.
— Perdoe-me. — ele soltou minha mão e olhou para o céu, parecia tentar controlar sua voz. — Eles não deveriam estar aqui.
— Eu gostei da visita deles. — disse, tocando de leve seu rosto para que olhasse para mim.
Ele permaneceu em silêncio me olhando, percebi que o problema não era realmente sua família.
— Sua mãe é muito simpática. — disse suavizando ainda mais minha voz. — Ela me ajudou a descobrir suas preferências para a gastronomia, além de contar sobre sua infância...
Em um piscar de olhos senti os lábios de %Sebastian% tocarem os meus, em uma profundidade incomum que fazia minhas pernas estremecerem. Suas mãos envolveram minha cintura, aproximando nossos corpos, eu pousei de leve minha mão direita em seu tórax, senti seu coração um pouco acelerado.
— Pelo aroma, teremos um almoço especial. — comentei ao me afastar um pouco dele.
%Sebastian% sorriu de leve mantendo seu olhar em mim. Voltamos para o interior da mansão, ao chegar na sala, Aidan estava contando mais uma de suas aventuras vividas em sua última viagem para a Espanha. Caminhei até a cadeira do canto, me sentando de frente para a senhora Poppy.
%Sebastian% permaneceu de pé ao lado da lareira com seu olhar em mim, sua face estava um pouco mais serena, o que me fez ficar estranhamente bem mais aliviada.
— %Sebastian%, você já mostrou à sua bela esposa, minha lady Winchester, seu dotes artísticos? — perguntou Aidan que estava de pé em frente ao outro quadro de Rembrandt.
— Ah, sim, toque para nós %Sebastian%. — insistiu a senhora Poppy. — Tenho certeza que %Nalla% ficaria admirada em ver como é talentoso.
Meu olhar, que estava na mesa de centro, se desviou para ele encontrando os seus. Naquele momento, não conseguiria reagir de uma outra forma, que estar surpresa. Porém percebi uma certa movimentação na porta, era o mordomo Lee, que discretamente acenou sua face para %Sebastian%, que assim como eu, tinha olhado em sua direção.
— Vamos. — disse %Sebastian% ao se aproximar de mim e estender sua mão.
Assenti, pousando minha mão em seu braço, o senhor Zachary estendeu seu braço para a senhora Poppy e nos seguiu em direção da sala de jantar, acompanhado de Aidan. O almoço estava mesmo saboroso, a surpresa especial para a sobremesa foi gelado de baunilha, diferente do que costumávamos ver na sorveteria, havia sido encomendado com um sabor diferenciado, especialmente para aquele dia.
Foi um momento descontraído, que contava sempre com os comentários espontâneos da senhora Poppy. Eles não demoraram muito para partir após as xícaras de café que foram servidas na sala de visitas. Apesar de sempre se mostrar alegre para %Sebastian%, ela havia percebido que ele precisava ficar a sós comigo.
Assim que me despedi deles na sala, deixei que %Sebastian% os levasse até a porta. Caminhei para o jardim e me sentei em um dos bancos com encosto em frente da fonte no lado esquerdo, fiquei por um tempo olhando as águas que caíam do chafariz de escultura em mármore. Fechei meus olhos por um momento, graças à presença da família dele, aquele dia havia sido um pouco agitado para mim.
Logo senti alguém sentar ao meu lado, permanecendo em silêncio. De olhos fechados, tombei minha cabeça para o lado, encostando em seu ombro, uma breve sensação de conforto passou por mim, que me fez suspirar de leve. O aroma do seu perfume foi me envolvendo, acompanhado de suas carícias em meu cabelo, me fez adormecer lentamente.
"Quero te ver dormir confortavelmente, carinhosamente nos meus braços,
Por você, resolvo todos os problemas e tudo o que te incomoda,
Inclusive o monstro dos teus pesadelos.
[...]
Fico curioso pensando o quanto você gosta de mim,
Quero ser como seu diário, para saber os segredos do seu coração."
- Hug / Dong Bang Shin Ki