19 • Need U
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Derbyshire - Primavera de 1847
%Sebastian%:
Durante todo o inverno tive que me ausentar, a estação mais fria do ano e eu estava longe de casa, longe de todos. Lee havia me acompanhado naquela viagem até Paris, meu segundo objetivo seria estabelecer meus negócios na França, nos hospedamos na casa de Remy Chermont, meu mais novo amigo. Ele, assim como lady %Nalla%, de certa forma era o que me fazia suportar os nobres.
— Bonjour, %Sebastian%. — disse Belle, ao adentrar a biblioteca com seu jeito eufórico de ser. — Senti sua falta na mesa do café.
— Não queria atrapalhar uma comemoração em família — respondi tranquilamente, mantendo minha atenção ao livro que estava lendo.
— Como se você também não fosse. — ela se aproximou se forma sinuosa. — Papai praticamente o considera um filho.
Eu ainda me sentia um pouco desconfortável com a forma que as moças francesas se comportavam, eram bem mais ousadas que as inglesas. Não podia negar que Belle era uma moça atraente, seus lábios delicados estavam sempre destacados pelo batom vermelho, acompanhado pelos decotes chamativos de seus vestidos.
Eu, como sempre, fingia não notar suas suaves investidas em mim, mesmo que já houvesse discretamente declarado seus sentimentos em cartas. Em meus olhos a via como uma criança mimada que não aceitava perder, primeiro que eu não seria como um brinquedo em suas mãos, segundo, meu coração já pertencia a outra pessoa, jamais olharia para Belle. O que me deixava preocupado, pois minha amizade com vosso pai era de suma importância para meus negócios no país.
— Eu aprecio muito a amizade de vosso pai, mas eu já possuo uma família. — fechei meu livro e a olhei suavemente. — Não deveria estar em outro lugar?
— Que outro lugar seria mais interessante que estar aqui em vossa companhia? — ela mordeu o lábio inferior, natural de sua forma de tentar seduzir-me.
— Um passeio pelas ruas de Paris, pelo que vi, o dia está lindo hoje. — respondi desviando meu olhar para a janela. — Você não estava ansiosa para fazer compras?
— Meu desejo por gastar o dinheiro do meu pai já se foi. — ela se aproximou ainda mais de mim. — Sabe que quando está na cidade, não consigo fazer mais nada além de querer lhe fazer companhia.
— Agradeço a gentileza e hospitalidade, mas sabe minha posição quanto a isso — voltei meu olhar mais sério para ela.
— Não voltemos a este assunto. — a interrompi antes que pudesse fazer todo o seu drama, sobre eu não corresponder seus sentimentos. — Meu coração sempre irá pertencer a outra.
— Lady %Nalla%? — ela cruzou os braços, sua face se preencheu de decepção e frustração. — E se ela não o quiser? Como ficará?
— Não importa, mesmo se isso acontecer, ela é a única a quem eu quero. — deixei que toda a minha sinceridade transparecer em meu olhar de segurança. — Sinto-me mal por ter que lhe dizer isso novamente, não a quero nenhum mal e menos ainda machucá-la, mas o que busca em mim, jamais terá. Espero que entenda desta vez.
Eu respirei fundo, vendo em seu olhar algumas gotas de lágrimas se formarem, deixei o livro na poltrona em que estava sentado e me voltei para a porta. Assim que retornei para o hall de entrada da mansão, Remy e Pierre conversavam perto da porta de entrada.
— Aqui está ele, o homem mais silencioso da Inglaterra — brincou Remy rindo um pouco.
— Em minha concepção, és o mais silencioso do mundo — reforçou Pierre.
— Ao longo dos anos, percebi que se pode aprender muito com o silêncio — retruquei de forma singular.
— Eis aqui um sábio homem de negócios. — Remy olhou para seu filho. — Aprenda com ele.
— Prefiro me divertir a gastar meus anos com preocupações, sou um nobre, meu pai — Pierre riu e se dirigiu para entrada da sala.
— Ah, essas crianças. — ele deu um suspiro e desviou o olhar para mim. — Vejo algumas preocupações em seu rosto.
— Não tente me decifrar. — sorri de canto e voltei meu olhar para a porta. — Mas tenho algo a dizer.
— Porque será que já imagino o que seja? — ele parecia pensar um pouco sobre: — Belle.
— Não quero que nenhum mal entendido fique entre nossa amizade — disse prontamente.
— Sei o quanto minha filha está obcecada por você, também tenho conhecimento sobre seu posicionamento quanto a isso. — ele suavizou seu olhar. — Belle sempre foi uma criança mimada, não vamos nos preocupar com seus sentimentos volúveis, temos assuntos importantes para tratar.
E tínhamos mesmo, antes de voltar para Londres, queria finalizar todos os meus assuntos comerciais na França. Lee, como meu advogado nas horas vagas, estava encarregado de todas as partes jurídicas como sempre. E como esperado, meu nome já era famoso e conhecido por toda Paris, concluindo a fase três dos meus planos.
— Silencioso e pensativo. — comentou Lee enquanto analisava alguns contratos com os comerciantes da cidade. — Posso saber o que anda confabulando em sua mente?
— Você não consegue me decifrar? — o olhei de forma irônica. — Me diga você, o que eu estou pensando?
— Duas palavras. — disse ele segurando o riso. — Lady %Nalla%.
— Cinquenta por cento correto. — respirei fundo. — Confesso que estou inconformado com a resposta dela…
— Foi o senhor mesmo que lhe deu duas opções. — suas palavras soaram com ironia também. — Ela escolheu não se casar, apesar da outra condição.
— Não iria me sentir bem a obrigando se casar comigo — mantive meu olhar sincero para ele.
— De alguma forma, não está mais em dívida com ela. — Lee tentou me levar ao lado positivo de tudo isso, porém não via aquilo como uma dívida. — Você salvou a vida do pai dela, assim como ela salvou a sua.
— Queria que fosse simples assim. — suspirei fraco me levantando da poltrona. — Apenas pagar a dívida do pai dela e me esquecer de tudo.
— Então, após essa temporada aqui, quando voltaremos? Já estamos no início da primavera. — indagou ele. — Ainda temos a parte final do seu plano.
— Acho que está mesmo na hora de voltar para casa. — assenti dando alguns passos até a janela. — Não está sendo confortável me hospedar aqui na casa de Remy.
— Isso me leva a crer que vai comprar uma casa em Paris — constatou com exatidão.
— Gostaria que cuidasse disso antes de partirmos. — confirmei meu desejo. — Da próxima vez que vier a Paris, quero passar em minha própria mansão.
— Seu desejo é uma ordem senhor — ele sorriu de canto e desviou o olhar para os documentos novamente.
Mais dias se passaram com a preparação para minha partida, decidi não fazer uma despedida demorada antes do embarque, pois sabia que em breve retornaria a França para fazer mais negócios ainda. Sentia que aquele ano o progresso havia chego de vez em toda a Europa, eu certamente me beneficiaria de todas as formas possíveis, já que a melhores mercadorias estavam sendo comercializadas através das minhas embarcações.
— Oh, meu anjo — minha mãe veio ao meu encontro, assim que eu e Lee adentramos minha nova residência em Londres.
— Como sabiam que eu estava retornando? — perguntei após ser abraçado por ela.
— Para ser sincero, não sabíamos. — respondeu meu pai da porta de entrada para a sala. — Recebemos uma carta do arquiteto avisando do término da obra, então viemos para ver como ficou.
— E o que acharam? — perguntei curioso.
— Esplêndido! — minha mãe soltou um sorriso de animação e se aproximou do meu pai. — Deveríamos fazer uma comemoração por isso.
— Não — disse num tom sóbrio e sério.
— Não quero nobres na minha casa. — continuei não a deixando insistir. — A senhora já obteve uma grande festa de aniversário de casamento, não é o bastante?
— Ah, mas aqui é Londres — ela cruzou os braços como uma criança mimada, era fofo aquele seu lado, eu queria vê-la feliz, mas não cederia desta vez.
— Não irei repetir — me mantive sério e virei para as escadas.
Estava cansado demais e frustrado demais para isso. Assim que entrei no meu quarto, o principal da mansão, Lee entrou em seguida com outros dois empregados que carregavam minha bagagem. Assim que eles saíram, Lee me entregou uma carta antes de fechar a porta, a primeiro momento achei estranho, mas meu coração acelerou ao ler que era o remetente.
— Lady %Nalla% Lewis… — sussurrei sentindo um pouco de falta de ar.
Caminhei até a janela, mesmo ainda não sabendo o conteúdo da carta, já sentia minhas pernas um pouco bambas. O que ela queria naquela carta? Abri a gaveta da escrivaninha e peguei a lâmina para cortar a aba do envelope, assim que retirei o papel, senti um breve e suave perfume feminino, provavelmente dela. Respirei fundo, ao desdobrar aquele papel e comecei a ler.
Para minha surpresa, era uma carta de agradecimento por tudo que eu estava fazendo por sua família, principalmente por não obrigá-la de fato a se casar comigo. Meu olhos percorriam cada uma daquelas palavras um tanto intrigado e surpreendido, várias coisas se passaram por minha mente enquanto lia. Principalmente por ela ter escrito um trecho do livro
Orgulho e Preconceito ao final da carta.
— Cordialmente, lady %Nalla% Lewis. — sussurrei novamente. — Qual o propósito desta carta? Você quer me enlouquecer?
Sim, certamente ela queria me enlouquecer ainda mais. As palavras de gratidão que percorria por toda aquela carta ficaram gravadas em minha mente, algo que tomou parte do meu pensamentos por dias e mais dias. O que não me deixava concentrar nos negócios e menos ainda assuntos familiares.
— Senhor Winchester — disse Lee ao entrar em meu escritório.
— Me lembro vagamente de tê-lo enviado a uma missão — desviei meu olhar do jornal para ele, curioso pelo seu retorno rápido.
— Acredito que o que me traz aqui é ainda mais importante — retrucou ele.
— Lorde Lewis em pessoa está no hall desta casa, pedindo uma audiência com o senhor — seu olhar sereno me fazia pensar que aquilo era algo bom e positivo.
— Ele adiantou o assunto? — mesmo com a segurança de meu amigo, fiquei um pouco receoso. — Será que ele quer mais dinheiro e está cogitando a ideia de usar sua filha desta vez?
— Não sei senhor, mas parece importante. — ele respirou fundo. — Acho que deveria recebê-lo, tudo é possível.
— Seguirei seu conselho. — sorri de canto. — Diga-o para entrar e peça a Isla que traga chá, acho que os nobres gostam disto.
Lee se retirou prontamente. Não demorou muito até que retornasse anunciando a entrada de lorde Lewis e nos deixando a sós. Seu ar parecia menos superior do que da primeira vez que nos encontramos em Derbyshire, um breve silêncio se instalou entre nós, até que ele deu alguns passos para mais perto de minha mesa.
— Acredito que já tenha recebido a carta de minha filha — iniciou ele, com uma certa dificuldade.
— Mesmo que minha filha tenha escrito aquela carta a próprio punho, ainda me senti na obrigação de agradecer novamente em pessoa. — ele curvou a face levemente como uma cordial reverência. — Sinto que devo minha vida, agora, ao senhor.
— Não me deve nada. — mantive a seriedade em minha face, analisando as suas expressões. — Cumpri minha palavra, basta cumprir a vossa.
— Este é mais um dos motivos de minha visita. — acrescentou ele. — Haverá um casamento.
— Como? — eu me levantei da minha cadeira confuso.
— Minha querida %Nalla% voltou em sua decisão. — ele respirou fundo, senti um certo peso em sua voz. — Ela aceitou vosso pedido de casamento.
Ao ouvir aquelas palavras, todo o frio do inverno que ainda mantinha meu coração congelado, deu lugar ao sol e calor da primavera. A esperança estava retornando para minha vida.
- x –
Lewis Castle...
%Nalla%:
— %Nalla% — Marg deu alguns toques na porta e entrou — Atrapalho vossa leitura?
— Não — voltei meu olhar para ela na porta — Pode entrar, tenho tido insônia há algumas noites, somente os livros me acalmam.
— Por causa da carta que enviou para o senhor Winchester? Ou pela vossa decisão de se casar com ele? — ela adentrou um pouco mais a biblioteca e veio se sentar ao meu lado. — Seu olhar parece preocupado.
— Não consegui pensar em outra coisa durante todo o inverno. — suspirei fraco fechando o livro. — Por que um homem como ele, que poderia ter qualquer mulher de Londres, insistiria em me ter?
— Te assusta ser tão desejada por alguém? — Freya, apareceu misteriosamente encostada na porta.
— O que fazes aqui? — Marg perguntou.
— Você nunca soube ser silenciosa em suas escapadas na madrugada. — explicou ela. — Mas estou surpresa por não ter ido à cozinha desta vez.
— Estávamos conversando — explicou Marg não dando importância às palavras de Freya.
— Não me respondeu — reforçou Freya desviando o olhar para mim.
— Não sei, para ser honesta, o que me motivou a voltar em minha decisão foi a curiosidade — respondi de forma sincera.
— Devo admitir que também estou curiosa. — Marg disse de forma empolgada. — Ouvi dizer que o senhor Winchester é um homem muito reservado, misterioso e que nunca comparece nas recepções em que é convidado, ele sempre manda a família no lugar.
— Uau, Margareth, meus parabéns, só falta mostrar a árvore genealógica dele. — Freya riu debochadamente. — Ah, me esqueci, ele é bastardo, não é? Talvez seria mais interessante se ele fosse um daqueles velhos burgueses que estão a um passo da morte.
— Ai Freya, não seja desagradável. — Marg fez uma singela careta para ela. — Está com inveja porque ele não a quis, o senhor Winchester pagou uma fortuna só para ter a oportunidade de se casar com a %Nalla%, nenhum homem faria isso por você.
— O senhor Winchester é um burguês, que honra tem em uma nobre se casar com pessoas dessa classe? — Freya intensificou seu olhar se superioridade, algo que sempre me incomodava de sua parte.
— Pare as duas com essas trocas de carinho. — disse mantendo meu tom suave. — Agradeço por suas pesquisas, Marg, fico feliz que tenho você para me contar sobre as pessoas, e Freya, sei que também está curiosa para saber quem ele é… Afinal, ele nunca se mostrou de fato para a sociedade desde que voltou a Inglaterra.
— Seria engraçado se ele não aparecesse na igreja no dia do casamento. — brincou Marg rindo, mas depois ela me olhou séria. — Será que ele a aceitará? Afinal, você o rejeitou primeiro.
— Se o senhor Winchester for uma pessoa rancorosa… — Freya sibilou um pouco, mordendo seu lábio inferior. — Será que ele ficou furioso ao ser rejeitado pela desejada lady %Nalla%?
Eu não havia pensado desta forma, mas lá no fundo as insinuações de Freya tinham fundamento. Talvez, tê-lo rejeitado de início poderia ter sido um gatilho para despertar-lhe uma ira sobre minha família, afinal, não conhecia de fato o senhor Winchester, nem imaginava do que ele poderia ser capaz de fazer.
— Freya, por favor, não devemos encher a mente de %Nalla% com isso. — Marg a repreendeu. — Se analisarmos bem, um homem quando está rancoroso por ser rejeitado não iria esperar o inverno passar, certamente ele teria nos expulsado do castelo como fez com muitos nobres após seu retorno.
— Vai me dizer que estamos aqui no conforto ainda por causa da %Nalla%? — ela me olhou com desdém, querendo ignorar a suposta realidade.
— Sim. — Margareth assentiu com firmeza. — Vamos pela lógica, ele pagou todas as dívidas do papai, não porque é um homem bom, mas porque seu desejo era se casar com a %Nalla%, mesmo ela tendo o rejeitado, o senhor Winchester cumpriu com sua palavra e não nos fez nenhum mal. Não há outra resposta para isso.
— Por que um homem que nem conheço faria tal coisa por mim? — desviei meu olhar para Margareth.
— Esta, de fato, é uma boa pergunta — disse Freya suspirando fraco.
— De qualquer forma, não voltarei atrás agora. — disse com firmeza. — Mesmo que inicialmente seja por curiosidade, irei me casar com o senhor Winchester, somente assim conseguirei as respostas de que preciso.
Eu estava mais que decidida, ainda que todos achassem que fosse pelo dinheiro, eu me casaria com ele para saber os motivos de seu interesse por mim. Senhor Winchester, o homem que a pouco tempo já estava tomando meus pensamentos para si.
“Venha para mim.
Me aceite, eu preciso de você.”
- Need U / Monstar X