14 • Keep Your Head Down
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Londres - Primavera de 1844
%Sebastian%:
Finalmente eu estava de volta a Londres, após todos aqueles anos fora, estava com saudade e minha família além de curioso por notícias de lady %Nalla%. Porém, antes de voltar para casa tinha que me estabelecer naquela sociedade onde os aristocratas achavam que eram os superiores.
— O que pretende fazer de início, senhor? — perguntou Lee, um leal amigo que conheci recentemente e se tornou meu braço direito.
— Mostrar aos nobres que Londres possui um novo hóspede. — voltei meu olhar para frente e sorri de canto, estava ansioso por aquele momento. — Vamos começar com o melhor imóvel da cidade.
— Disso eu já cuidei. — assegurou ele. — O corretor está a nossa espera, senhor.
Seguimos até a carruagem alugada que nos levou ao lugar combinado pelo corretor. O homem trajava um terno aparentemente desgastado, consegui notar um pequeno rasgo nos punhos da manga direita. Seu modo de falar era de uma pessoa apressada, típico de corretores de imóveis que já havia encontrado.
— É um imenso prazer lhe conhecer, senhor Winchester — disse ele esticando a mão em cumprimento.
— Igualmente. — respondeu Lee por mim aceitando o cumprimento em meu lugar. — O senhor Winchester está ansioso para ver seu imóvel.
— Ah, sim claro. — o homem logo recolheu sua mão envergonhado pela minha reação. — Sigam-me por favor, verão que separei a melhor propriedade de Londres para o senhor.
O homem começou a caminhar em nossa frente. Eu sabia que depois daquela compra, muitas pessoas iriam saber sobre mim, meu nome correria não somente naquela cidade, mas em toda a Grã-Bretanha. Por isso, continuaria agindo de forma fria e silenciosa, não demonstraria nenhuma reação muito chamativa e cativante entre as pessoas, mas faria com que toda a sociedade me respeitasse.
— A entrada desta casa é por aqui senhor, vai perceber que mesmo sua construção sendo antiga, a estrutura é muito boa — comentou ele assim que nos aproximamos da grande porta de madeira.
Estrutura boa, observei cada detalhe do lugar. A casa estava caindo aos pedaço, além das várias teias de aranha que se destacavam mais que aquela decoração antiquada do período renascentista.
— Eu por curiosidade andei ouvindo um pouco sobre seus negócios, senhor Winchester. — comentou o corretor como se quisesse tirar alguma informação mais importante sobre mim. — Estou admirado que um britânico tenha conquistado laços econômicos com o oriente, suas mercadorias e frotas estão ficando muito famosas e mencionadas...
— O senhor Winchester agradeceria se não fizesse perguntas ou comentários que não estejam relacionados a propriedade — disse Lee o interrompendo.
— Ah, sim, claro. — ele respirou fundo. — Então, o que achou, senhor?
Olhei para Lee e assenti com o olhar para que seguisse com o planejado, eu já sabia qual propriedade ele estava me mostrando, a quem pertencia e o quão importante era a localização, a parte mais nobre e rica da cidade.
— O senhor Winchester gostou do lugar, está interessado tanto na propriedade, como em sua localização, já imaginávamos que nos traria aqui — comentou Lee.
— Como? — o homem pareceu surpreso.
— Tenho certeza que podemos fechar o negócio, meu senhor aqui presente faz questão de pagar pela propriedade à vista e em raras moedas de ouro — continuou meu mordomo fiel.
— Ficarei honrado em preparar todos os documentos necessários — o corretor deu um sorriso aliviado.
Por certo ele estava mesmo precisando vender aquele imóvel, já que a família de nobre a qual pertencia estava na falência e precisava urgente do dinheiro. Para minha surpresa, os documentos ficaram prontos de forma rápida e precisa, como Lee tinha muitos conhecimentos de leis e direito, serviu a ele o dever de analisar cada linha da escritura e documentos. Assim que tudo foi oficialmente transferido, registrado e a propriedade passou para meu nome, Lee entregou ao corretor o pagamento pela venda, assim como uma pequena bonificação pela sua discrição.
— O senhor acha mesmo que ele ficará em silêncio? — comentou Lee assim que entramos no quarto em que eu estava hospedado no luxuoso Hotel Kingdom Mont’ Blanc.
— Após gastar seu bônus com bebidas e prazer, tenho certeza que não. — caminhei até a janela. — Vamos para o segundo passo, contrate o melhor e mais requisitado arquiteto, quero colocar aquela casa a abaixo e construir uma melhor e mais luxuosa ainda.
— Como quiser, senhor — assentiu ele.
— Não me importo quando o valor que irá gastar, quero que a construção se inicie o mais rápido possível. — suspirei fraco olhando as carruagens que passavam pela rua. — Prepare também nossa partida para amanhã, vamos para Nottinghamshire.
— Voltará para casa, senhor? — sua voz era de ansiedade.
— Sim, além da saudade, sinto que tenho bons negócios a fazer por lá. — ri baixo. — Sinto-me ainda mais preparado para mostrar aos nobres que seus títulos não valem mais nada nos dias de hoje.
— Devo concordar que a burguesia está mesmo sendo notória, principalmente em Londres.
— Os farei desejar conhecer o dono do sobrenome Winchester — disse com firmeza e segurança.
Lee riu baixo, ele sabia parte do meu propósito inicial, tinha certa confiança em contar-lhe algumas coisas, já que me devia sua vida, sabia que a sua lealdade era real e eterna.
Mais dias se passaram até que finalmente cheguei ao meu antigo lar, não me preocupei em me instalar ao ser anunciado perante a nobreza local, meu foco era minha família.
Assim que a carruagem parou em frente àquele humilde casebre que já mostrava traços ainda mais fortes de desgaste, meu coração se apertou em ver que minha família passava por uma situação ainda pior do que quando eu havia partido. Estava ansioso para saber se ainda moravam ali e como haviam passado todos aqueles anos em que estive fora.
— Anjo? — disse uma voz feminina e trêmula, certamente de minha mãe.
— Mãe. — me virei para trás e a olhei, estava um pouco suja de barro. — Sou eu.
— Meu %Sebastian%. — ela veio ao meu encontro e sem se importar com a roupa, me deu um forte abraço. — Minha criança, que saudade.
— Sinto o mesmo, minha amada mãe — segurei as lágrimas de saudade que se formaram no canto de meu rosto.
— Onde esteve todo esse tempo? — ela passou a mão em minha face. – Oh, céus, como está bonito! E eu estou te sujando.
Ela se afastou um pouco pela vergonha de estar suja.
— Não, seu abraço me aquece. — eu a puxei novamente e a abracei, como sentia falta do seu colo. — Senti falta disso.
— Ah, minha criança, deve ter sofrido tanto longe de casa — sussurrou ela em lágrimas.
Sim, eu sofri um pouco longe do amor dela, mas meu sofrimento valia pelo resultado que hoje havia em minha vida. Minha mãe me convidou para entrar novamente em casa, ela me contou detalhadamente algumas coisas importantes que haviam acontecido enquanto eu estava fora, e enfatizou várias vezes que se fez forte e permaneceu viva para me ver novamente. Ela dizia que todas as noites pedia a Deus para cuidar de mim e me trazer de volta para casa, certamente ele ouviu sua oração.
— Então todos esses anos não serviu para que ele aprendesse. — concluí ao ouvi-la dizer sobre as inúmeras dívidas do meu pai. — Os nobres que deviam a ele, não o contrário.
— Seu pai sempre teve medo da aristocracia, por isso…. — ela limpou suas lágrimas. — Sinto por não tê-lo ajudado como deveria.
— %Sebastian%? — disse uma voz conhecida e muito surpresa. — %Sebastian%, é você mesmo?
— Sim. — voltei meu olhar para porta, era Aidan com seu olhar curioso e espantado para mim. — E você está bem crescido.
— É claro que estou. — ele veio ao meu encontro e me deu um abraço de irmão caloroso. — Por onde andou todo esse tempo? O que fez? De onde veio aquela carruagem? Essas roupas são tecidos finos.
— Você conhece de tecido? — perguntei me interessando.
— Bom saber. — sorri de canto já pensando em alguns negócios que poderia fazer e envolveria Aidan nisso. — Eu estive bem todo esse tempo, estava conquistando meu espaço na sociedade.
— E conseguiu? — perguntou ele curioso.
— Logo saberão. — respirei fundo. — E o papai? Onde está?
— Indo para o matadouro — disse minha mãe num tom dramático de sempre.
— Como assim? — olhei para Aidan, a fim de que me explicasse melhor.
— Meu tio foi entregar sua última criação de javali a um nobre que insiste em cobrá-lo por uma dívida que não existe. — ele suspirou fraco. — Aqueles filhotes são nossa última ninhada, os pais também foram mortos e levados por outro nobre.
— Você sabe ao certo onde fica a casa deste nobre? — perguntei.
— Sim, conde Dominos — assentiu ele.
— Então me leve até lá — disse.
— Mas assim, querido? — minha mãe segurou em meu braço. — Está todo sujo por minha causa.
— Tenho roupas limpas na carruagem, eu ficarei bem. — sorri gentilmente para ela e voltei meu olhar para meu primo. — Vamos, quero chegar lá o mais rápido possível.
Aidan assentiu e seguiu para a porta. Ele iria na frente com o cocheiro para mostrar-lhe o caminho, Lee me acompanhou do lado de dentro da carruagem me ajudando a me trocar para ficar apresentável novamente. Assim que chegamos ao castelo do tal nobre, já avistei meu pai ajoelhado ao chão aparentemente pedindo desculpas; tive que respirar fundo várias vezes antes de sair e ir ao seu encontro.
— Não deveria cobrar uma dívida de alguém cuja mesma não pertence — disse em um tom mais firme e elevado.
A partir daquele momento, eu seria o %Sebastian% que jurei ser diante dos nobres.
— Quem é você, criança, para falar assim com um nobre como eu — o homem todo pomposo me olhou com arrogância.
— Eu sou o dono desta dívida. — mantive meu olhar nele. — Por isso, devolva os filhotes que erroneamente aceitaste.
— E sob qual direito pensas que pode exigir isso? Quem és para dizer tais afirmações? — insistiu o tal conde.
— %Sebastian% Winchester. — assim que falei, senti o olhar do meu pai vindo em minha direção. — Este é meu pai, portanto, sua dívida é minha, e vim quitá-la.
Eu estalei minha mão e Lee que estava atrás de mim jogou um pequeno saco de moedas de ouro.
— Creio que isto seja o bastante, para uma dívida que nem existe. — entonei meu tom com arrogância. — Agora, vamos falar da vossa dívida comigo.
— Minha dívida? — o olhar dele que já estava crescido no saco de moedas, se voltou para mim com espanto. — Não lhe devo nada.
— Como disse, este senhor é meu pai e tudo o que deve a ele, deve a mim também. – sorri de canto com prepotência. — E terei o imenso prazer de cobrar cada moeda.
Sim, felizmente, todos aqueles anos fora, Aidan e minha mãe haviam cumprido a promessa de anotar cada dívida que os nobres faziam com nossa família. Eu não estava ali somente para fazer justiça, estava também para deixar gravado meu nome naquela província e começaria tomando aquele castelo para mim.
Mesmo que não tivesse como comprovar que aquele nobre me devia, eu tinha o Lee, que conseguiria fazer isso legalmente sem nenhum problema. Assim, da mesma forma em que meu pai foi humilhado todos aquele anos pelo conde Dominos, a humilhação voltou dobrada ao ser despejado de seu majestoso castelo, porém, a facada final foi ter todos os outros bens confiscados e ainda saber que meus pais morariam ali.
Era o início de uma nova vida para eles e continuação dos meus planos. Rapidamente se espalhou a notícia que o filho bastardo do pobre açougueiro tinha voltado para casa rico e cheio de influência. Isso acabou por desencadear uma série de convites para festas e recepções, formalidades estas que não me contive em enviar meus pais como meus representantes.
— Queria ser uma mosca para ver a cara daqueles nobres interesseiros ao verem meus pais no meu lugar. — ri baixo imaginando. — Eles sempre humilharam minha mãe por tudo, agora terão que conviver com eles.
— O senhor está seguindo muito bem o curso de seu propósito. — comentou Lee. — Após duas semanas aqui em Nottinghamshire, conseguiu adquirir três propriedades rurais, dois castelos e muitas riquezas em obras de arte e mobília. O que fará agora?
— Ainda não terminei de cobrar a todos as dívidas que tinham com meu pai. — respondi. — Primeiro, vou reaver o que deveria ser da minha família a muito tempo, depois, irei estabelecer meu investimento aqui, esta cidade é a melhor em termos rurais e preciso expandir o açougue, já que agora pertence a mim oficialmente.
— Quando voltaremos para Londres, senhor? — perguntou ele.
— Em breve. — virei meu olhar para ele. — Já contatou com o arquiteto?
— Sim senhor, Monie François é um dos melhores arquitetos que existe atualmente, é muito conhecido na França. — Lee ponderou um pouco em continuar a falar. — Ele sugeriu que somente uma reforma e restauração fosse feita, já que a construção dispões de um alto valor histórico.
— Não gosto muito da ideia de reformar — disse relutante.
— Senhor, ele me garantiu de o projeto ficará tão moderno quanto possível, e que a reforma só valorizaria ainda mais a propriedade, mesmo que a decoração possa ser diferente da original, tudo ficará ao seu gosto — assegurou.
— Bem, se o valor de minha mansão será aumentado, tem minha autorização para a reforma, mas ao final de tudo, não quero nem por um momento me lembrar daquela visão de como está agora — o olhei sério e inexpressivo.
— Será como ordenado — Lee assentiu e se retirou da sala.
— Oh, meu querido. — minha mãe adentrou com um largo sorriso no rosto. — O que achou de minhas roupas?
— Está linda, mamãe — sorri para ela gentilmente.
— Fiquei tão emocionada quando entrei na biblioteca e aquela estilista francesa estava lá me esperando, senti-me tão importante, meu anjo — ela deu um suspiro de alegria.
— A senhora é importante — continuei a olhando com carinho.
Estava feliz em poder finalmente ver minha mãe confortável e com um brilho no olhar, o mesmo brilho de quando eu a salvei.
— Ando curiosa para saber como ficou tão rico — comentou ela, seu olhar estava mesmo curioso.
— Passei por muitas coisas até conseguir o que tenho hoje, mas a motivação de todas foi a senhora e ela — confessei.
— Lady %Nalla%? — seu olhar de curiosidade deu lugar para a admiração. — Depois de todos esses anos, ainda pensa nela?
— Sim. — adimiti. — Depois de todos esses anos, meu coração ainda a deseja mais do que tudo o que poderia desejar nesse mundo.
— Oh, meu querido. — ela me abraçou. — Desejo que conseguia realizar este sonho que parece ser tão distante.
— Sempre terei esperanças — sorri.
— E tenho orgulho disso, principalmente o que está fazendo por seu pai. — ela acariciou minha face. — Você é mesmo o nosso anjo.
— Eu só quero minha família em segurança.
Minha mãe me abraçou novamente, me senti agradecido por tudo o que havia conquistado longe de casa, além da riqueza que um dia poderia acabar, eu tinha algo que nem os nobres poderia tirar de mim: conhecimento e perseverança.
“Por que você é assim? Por que você é assim?
Já sou o cara mau da história."
- Keep Your Head Down / TVXQ