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Kyoto (Japão) - Inverno de 1843
%Sebastian%:
Assim como o planejado, o navio atracou em um porto desconhecido ao norte de Hyogo, o plano dos marujos seria saquear as cidades do litoral, já o capitão me levou até uma trilha secreta que estava entre os bosques. Nem mesmo os outros sabiam sobre aquela trilha, pois fazia parte do pergaminho que ele havia me entregado.
— Chegamos, Mascote. — disse o capitão Salazar. — A partir desta trilha, Kyoto está à leste daqui, basta somente seguir de acordo com o pergaminho.
— Obrigado por tudo, capitão — disse quase em sussurro.
— Você fala? — o capitão me olhou surpreso e logo riu exageradamente. — É por isso que ganhou minha confiança, continue sábio assim que ganhará o mundo.
Assenti com a face, durante todo aquele tempo com os piratas aprendi que ficar em silêncio era uma qualidade útil, além de me fazer mais observador, minha audição havia se tornado bem mais aguçada que o normal. Porém, toda a minha evolução ao longo dos anos não estava relacionado ao poder, só havia um motivo para eu querer ser uma pessoa importante e respeitada na sociedade, ou melhor, uma palavra determinava todo o meu esforço: %Nalla%.
Eu havia perdido minhas poucas economias quando fui levado ao navio dos piratas, nesses meses que estive com eles não consegui juntar muita coisa e tudo o que possuía além daquele velho pergaminho que já havia decorado totalmente, estava em uma trouxa de pano juntamente com um cantil de água. Me despedi do capitão, que voltou pela mesma rota em que viemos, a partir daquele momento eu estava sozinho novamente.
Andei por dias, sem saber onde estava e nem exatamente onde chegaria, entre bosques e montanhas, até que decidi sair da trilha principal e pegar o caminho alternativo, que estava indicado com uma fina linha tracejada no pergaminho. Mais dias de caminhada, percebi que até a água do cantil havia acabado, meu corpo quase desidratado não conseguia mais se manter de pé.
Em pleno sol que se encontrava bem ao centro do céu, minhas vistas escureceram e logo que meu corpo desabou sobre a terra, perdi a consciência. Fui despertando aos poucos sentindo meu corpo balançar, como se estivesse sendo carregado por algo ou alguém, nem mesmo meus olhos tentaram se abrir e desmaiei novamente. Não sei quanto tempo permaneci desacordado, mas despertei novamente sentindo alguém me dar água de um cantil.
— Você está bem agora! — era uma voz feminina, transmitia calma. — Nós cuidamos de você.
— Onde estou? — sussurrei abrindo os olhos.
Minha visão embaçada foi tomando forma, diante de mim a figura de uma jovem dama surgiu, seus traços orientais de sua face eram mais finos e delicados que as nobres damas de Londres, até mesmo seus trajes eram diferentes e de acordo com o que tinha aprendido, deveria ser uma jovem japonesa. Ela mantinha um sorriso singelo nos lábios, enquanto me olhava com serenidade.
Retirando com cuidado o tecido que estava em minha testa e o umedecendo, colocou novamente sobre mim, curiosamente aquilo me fazia sentir refrescância já que minha temperatura parecia elevada além do normal.
—
Senpai, ele acordou — disse ela assim que um homem entrou na tenda.
— Onde estou? — sussurrei novamente tentando me levantar, porém meu corpo ainda estava sem forças.
— Nós é que perguntamos, que és? — retrucou ele parando em frente o lugar onde estava deitado.
— Meu nome é %Sebastian%. — respondi ainda sentindo um pouco de tontura. — O que aconteceu comigo? Quem são vocês?
— Eu sou Michimiya — disse a jovem — e este é Daichi senpai, nós te resgatamos na trilha secreta ao oeste.
— Trilha secreta? — não conseguia entender o que eles queriam dizer com isso.
— Como conseguiu achar aquela trilha? — perguntou o homem de nome Daichi. — O que veio fazer aqui?
— Eu tenho um pergaminho que me trouxe até aqui. — expliquei.
O homem se afastou.
— Fique de olho nele, Michimiya.
Assim que ela assentiu com a face, ele se retirou. Voltei meu olhar para ela, parecia ser uma pessoa caridosa e gentil, aparentemente estava cuidando de mim, então mesmo que de forma receosa poderia confiar nela.
— Michimiya, onde estou? — perguntei.
— Estamos no vilarejo Akaashi. — respondeu ela. — Como conseguiu seu pergaminho? Poucas pessoas sabem da nossa localização.
— Ganhei de um amigo. — respondi. — Mas, por que este lugar é tão escondido e secreto?
— Porque o homem do mundo externo não sabe conviver com nossas riquezas — respondeu um outro homem, um pouco mais velho e de cabelos brancos ao entrar na tenda.
— Papai — Michimiya se levantou e o olhou — Daichi foi avisar sobre…
— Agradeço sua dedicação, minha filha, mas acho que a partir de agora, nosso hóspede conseguirá se mover sozinho — disse ele num tom de ordem, mas não era para mim.
Logo a jovem entendeu aquilo como se fosse um recado para ela, então em silêncio e discreta frustração se retirou da tenda.
— %Sebastian% é seu nome. — continuou ele e elevando sua mão direita, mostrou estar segurando meu pergaminho. — Isto? Devo presumir que não lhe pertença.
— Atualmente sim, mas antes, não. — concordei. — Ganhei de um amigo.
— Foi o que presumi, você sabe onde este caminho o leva? — perguntou ele novamente.
— Não senhor, só tem um caminho para qual eu quero chegar, não é aqui. — fui claro e um pouco verdadeiro em minhas palavras.
Assenti com a face, mesmo sem saber se realmente conseguiria. Apoiando minhas mãos onde estava deitado, ergui meu corpo e me levantei com um pouco de dificuldade, o senhor continuou me olhando atentamente em cada movimento.
— Venha, meu jovem, vamos conversar um pouco — disse ele caminhando em direção à saída da tenda.
Assenti com a face o seguindo, do lado de fora me deparei com um lugar encantador, haviam várias tendas montadas pelos arredores, a mistura entre a natureza e as simples construções do homem traziam uma harmonia incomum ao lugar. À direita onde estávamos, haviam alguns arbustos que davam flores e frutos, à esquerda, ao longo do monte, haviam várias plantações do que parecia ser arroz.
Me peguei impressionado com tudo o que via ao meu redor, consegui sentir que não somente o lugar era puro e aconchegante, mas as pessoas que ali moravam mesmo eu sendo tão diferente, não me olhavam com preconceito ou superioridade, mas só conseguia enxergar a curiosidade neles.
— Presumo que você seja de muito longe — disse o senhor.
— Sim, sou, mas tem muito tempo que não volto para casa. — assenti me lembrando vagamente da minha família. — O senhor é o líder deste vilarejo?
— Não diria assim…. — ele riu baixo — Porém, sou o ancião mais velho, por isso sinto que devo proteger a todos.
— Um lugar tão lindo, deve mesmo ser protegido — concordei — Agora entendo sua palavras sobre as riquezas daqui, um lugar que nenhum ouro pode comprar.
Senti o olhar admirado do ancião vir sobre mim.
— Você parece ser um jovem muito sábio. — comentou ele. — Acho que pode ficar aqui até estar melhor por completo.
— Agradeço por poder ficar.
Após algumas horas de longos passeios pelos arredores do vilarejo sendo apresentado para os moradores, acabei descobrindo o nome daquele ancião, o senhor Takashi havia me acolhido com gentileza e eu ficaria naquela mesma tenda sob a companhia de Daichi, que seria responsável por mim. Passei algumas semanas aprendendo um pouco mais sobre a cultura deles, desde o idioma e sua escrita, até a agricultura, era ainda mais fascinante meus momentos de conversa com o senhor Takashi ao pôr do sol.
— Então seu desejo é se tornar importante para conquistar esta jovem — concluiu o senhor Takashi assim que terminei de contar sobre minha história.
— Sim, meu coração tem batido por ela desde o primeiro momento em que a vi. — confirmei serenamente, enquanto mantinha meu olhar para frente vendo o sol de pôr. — É um dos motivos de ter saído de casa, %Nalla% pertence à nobreza e eu não era ninguém no mundo.
— Te conhecendo um pouco mais através desses dias, começo a perceber que ainda é uma criança pura e inocente — disse ele com seu tom suave de sempre.
— Criança? — o olhei confuso.
— Sim, ainda é uma criança sob o olhar dos gananciosos. — explicou ele. — Espero que seu coração jamais se corrompa pela a ambição das riquezas e do poder, para isso, mantenha sempre seu olhar nesta jovem que te motiva a ser melhor.
— Me lembrarei deste conselho, senhor. — me curvei de leve em forma de respeito. — Irei primeiro.
Assim que ele assentiu, me afastei indo em direção a Daichi, que já se preparava para fazer sua ronda noturna pelo perímetro dos bosques, eu havia me oferecido para ajudá-lo e, mesmo relutante em aceitar minha companhia, teve que acatar a ordem do senhor Takashi.
— Estou aqui, podemos ir agora — disse num tom respeitoso, já que Daichi era o segundo no comando por ser o guerreiro mais forte e corajoso do vilarejo.
Ele era considerado um protetor por todos, tão silencioso e observador como eu. Seguimos pela nascente primeiro até chegar ao rio, caminhamos por mais algumas horas entre as árvores do bosque, me afastei um pouco de Daichi ao ouvir um barulho estranho ao sul perto da trilha. Quanto mais próximo do som eu chegava, mais nítido dava para entender que eram vozes de homens, me aproximei de um arbusto e fiquei abaixado observando.
— São piratas orientais. — sussurrou Daichi aparecendo misteriosamente ao meu lado. — Não é a primeira vez deles aqui.
— Estão bem perto do nosso perímetro, não vamos fazer nada? — perguntei mantendo meu olhar naqueles homens.
— Não. Enquanto estiverem longe de nós, ficaremos longe deles. — respondeu mantendo a firmeza em sua voz.
Ficamos por um longo tempo observando-os, até que adormeceram, aproveitamos para sair daquele lugar, ao chegar na metade do caminho, eu que estava caminhando na frente, senti Daichi me empurrar forte. Assim que olhei para trás, ele já estava caído e sendo preso por uma armadilha estranha, sua calça de linho estava rasgada e o sangue já se escorria pela roupa.
— Vá embora, volte e não deixe ninguém te seguir — disse ele num tom preocupado.
— E te deixar aqui? Jamais. — me levantei depressa e indo até ele, comecei a analisar como era feita aquela armadilha. — Eu já vi uma assim antes.
— Deixe-me aqui à minha própria sorte. — ele me empurrou novamente. — De certo não valerei mais nada.
— Pare de dizer tal coisa, sempre há como reverter algo. — mexi em alguns pinos que compunham a armadilha e desprendendo uma ponta solta, consegui abri-la sem que fizesse algum barulho ou machucasse mais ele. — Vamos agora.
O ajudei a se levantar e o fiz se apoiar em mim, tinha que levá-lo imediatamente ao vilarejo, assim, Michimiya com sua sabedoria em ervas, poderia ajudar de alguma forma.
— Acho que te devo essa — sussurrou ele, sua cara demonstrava o quanto era forte a dor que sentia.
— Você me salvou antes, quando me empurrou. — ri de leve. — Estamos acertados.
Assenti, parei por um momento para que ele pudesse descansar, não estávamos muito longe da trilha que levava ao vilarejo, porém Daichi não estava conseguindo andar. O ajudei a se sentar e rasgando uma parte de sua calça, amarrei o tecido na região em que sua perna estava ferida, para estancar o sangue. Meus conhecimentos da medicina eram poucos, mas o básico conseguiria fazer para ajudá-lo.
— Onde aprendeu tudo isso? — perguntou ele.
— Eu tenho uma vida fora daqui. — disse de forma descontraída. — Passei um tempo com alguns marujos, pude aprender muita coisa.
— Perdoe-me — sussurrou ele.
— Pelo quê? — o olhei confuso.
— Por achar o pior de você. — ele suspirou fraco. — Talvez por ciúmes.
— Fique tranquilo, jamais haverá algo entre eu e Michimiya. — o assegurei com confiança. — Meu coração já está ocupado por alguém, mesmo que ela venha não me querer, serei somente dela.
— Vejo a sinceridade em seu olhar, desejo que consiga o amor dela — Daichi desviou seu olhar para trás de mim e suas pupilas se dilataram.
— Levante-se — uma voz grossa surgiu.
Eu me levantei cautelosamente, precisava de uma ideia para mudar aquela situação, se aquele homem tivesse acompanhado, poderia ser um perigo para nós e mais perigoso ainda se eles encontrassem a trilha. Assim que me virei para o homem, fiz um movimento rápido para derrubá-lo, antes mesmo que ele perdesse completamente o equilíbrio, peguei sua espada e cortei sua mão.
Era a minha primeira vez ferindo alguém em uma luta, em muitas batalhas que enfrentávamos no mar, o capitão sempre me deixava trancado em sua cabine para que eu não me machucasse, mesmo sendo o melhor em armas de toda a tripulação. Em segundos, os outros vieram e Daichi, mesmo machucado levantou e, com sua força e coragem, ajudou-me a desarmar e ferir todos.
Era admirável como Daichi me superava de todas as formas em um manejo com a espada, talvez por seu modo de lutar ser um tanto diferente do meu, entretanto, suas habilidades mesmo machucado não estavam sendo afetadas.
— Pela contagem, estão todos aqui. — disse assim que empurrei o último corpo pela colina abaixo, todos estavam feridos e desmaiados. — Analisando agora, acho que sabiam que estavam sendo vigiados.
— Talvez, ou deve ter sido pela armadilha — Daichi se escorou em uma grande rocha e colocou a mão na altura da barriga.
— Oh, não. — disse ao ver uma ponta de sangue surgir. — Está mais ferido ainda.
— Penso em desistir agora — disse ele cambaleando um pouco.
— Não vai. — o segurei firme. — Você irá continuar e ainda o verei se declarar para Michimiya.
— Acha mesmo que ela aceitará? — ele me olhou, suas pálpebras pareciam pesadas. — Michimiya anda com seu olhar em outra pessoa.
— Ela já sabe o que penso sobre isso. — assegurei. — Já disse, ainda quero vê-lo se declarando para quem está em seu coração...
Seu corpo desfaleceu antes mesmo que pudesse terminar o que dizia, o joguei em minhas costas e segui em direção à trilha. Uma noite em claro de caminhada, até que cheguei ao vilarejo gritando por socorro, os homens vieram ao meu encontro e sem demora levaram Daichi para a tenda. Meu corpo também desfaleceu no chão, porém permaneci consciente, vi ao longe Michimiya sendo solicitada e correndo para a tenda.
Permaneci lá mesmo, na terra onde havia caído, pedindo a Deus para que meu novo amigo sobrevivesse. Assim que Takashi veio até mim, contei a ele tudo o que havia se passado, desde o momento em que saímos do vilarejo até nosso retorno. Ele havia confirmado que não era a primeira vez daqueles homens ali, assim como todas as outras pessoas que já se aproximaram da trilha para o vilarejo, eles estavam à procura das riquezas daquele lugar.
— Sua coragem foi admirável. — disse o senhor Takashi ao se aproximar de mim. — Muitos deixariam Daichi para trás.
— Não costumo fazer isso. — assegurei. — E ficarei mais aliviado quando vê-lo em segurança novamente.
— Mesmo ele te tratando com indiferença todo este tempo, vejo que ainda o respeita e considera — o ancião era sempre direto e sincero em suas palavras, sejam elas quais forem.
— Sim, sempre serei. — suspirei fraco. — Além do mais, não queria privá-lo de receber os cuidados de Michimiya.
— Ah, sim, todo este tempo que esteve aqui, Daichi sempre lutou para despertar o interesse de minha filha. — ele manteve seu olhar na direção da tenda. — Agora ele terá, me entristece que seja nessas circunstâncias.
As horas foram se passando, eu descansei um pouco na tenda do ancião, quando acordei recebi a notícia que Daichi estava bem e já havia acordado. Meu coração se alegrou por isso e logo fui vê-lo pessoalmente.
— Você está realmente bem. — disse ao entrar na tenda. — Está pronto para outra aventura.
— Por favor, deixe-me mais um pouco aqui. — brincou ele. — Estou em meu melhor dia.
— Imagino o motivo. — desviei meu olhar para fora da tenda onde Michimiya estava pegando mais água. — Então se declarou?
— Quando pensei que realmente iria morrer — respondeu ele.
Assim que terminei minha pergunta Michimiya adentrou na tenda.
— Meu pai o aguarda lá fora — disse ela ao se aproximar de mim.
Assenti em silêncio e me afastei dela indo em direção ao ancião.
— Espero que esteja melhor hoje, meu jovem — disse ele.
— Venha, quero lhe mostrar algo — disse ele seguindo para o leste.
Assenti o seguindo, não sabia ao certo para onde estávamos indo, mas confiava no ancião. Foi uma longa caminhada entre as colinas, até que chegamos a uma escadaria que parecia ainda mais infinita, ao topo uma espécie de templo, que estava em ruínas. Virei meu olhar para trás e contemplei um pouco o horizonte rico de belezas naturais, o ancião me fez esperar sentado por um tempo. Segundo ele, só poderíamos entrar naquele lugar quando a lua surgisse no céu.
E assim aconteceu, ao anoitecer, ele acendeu a tocha que havíamos levado e encontrando em uma velha pira, logo o fogo tomou a pira, seguindo por toda a extensão da lateral. Deste modo, adentramos o lugar que já se encontrava totalmente iluminado pelo fogo, meu corpo congelou e minha mente parou assim que coloquei meus olhos em todo aquele tesouro que ocupava o salão principal do tempo.
— Um dia eu lhe disse sobre nossa riqueza. — se pronunciou o ancião. — Mas não me referia às belas paisagens que nos rodeia.
Agora, sim, eu entendi, principalmente sobre o modo em que mencionava sobre a ganância do homem por ouro e prata, me faz imaginar que todo este tempo em que Takashi me deixou ficar no vilarejo, era um teste para saber se eu era ou não digno de saber sobre a verdade que se escondia naquele lugar.
“A estrada é longa e a água era profunda,
Meus pés estão congelados e houve luz além do oceano,
O tempo flui, mesmo em dias que não são calmas,
Você estava comigo durante todo o meu tempo."
- Islands / Super Junior