10 • Evanesce
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Limerick - Verão de 1847
%Nalla%:
Já havíamos completado pouco mais de quatro meses de casados, era a estação mais quente do ano, porém, em raros momentos, eu sentia uma certa frieza rondando minha vida. Isso se iniciou assim que recebi o convite formal para o noivado de Freya, em um papel branco com letras douradas e bem adornadas, o nome de seu noivo ainda era uma incógnita, porém, a estranheza veio ao ver que o evento seria recepcionado no castelo de
Meagher, em Limerick.
A princípio percebi que um desconforto pairou na face de %Sebastian% quando leu o convite, porém, não havia nenhum motivo para recusar nossa presença, pelo contrário, Freya era minha irmã e minha presença era demais necessária. O ponto mais crítico e assombroso foi o fato do meu marido ter que se ausentar, por uma semana teria que resolver alguns assuntos em Nottinghamshire, onde ficava os terrenos que sua família criava animais.
Aquela ausência significava que eu ficaria uma semana em Limerick, algo que de alguma forma o perturbava visivelmente, mas seu cavalheirismo era maior em relação a não me manter afastada de minha família. Não era somente ele que ficaria frustrado com a distância, era um fato que havia uma parte do meu passado em Limerick, porém, meu presente com %Sebastian% importava bem mais para mim.
— Ainda me lembro da última vez que estivemos aqui. — comentou Marg sentada ao meu lado na carruagem.
— Sim, o dia que seria meu noivado com sir Ulrich e acabou sendo o anúncio do meu casamento com %Sebastian%. — dei um suspiro ao me lembrar nitidamente daquela noite.
— Verdade, todos fomos pegos de surpresa. — Marg me olhou. — Papai foi um tanto direto ao dizer que você estava prometida ao %Sebastian%, mesmo sem lhe perguntar se queria.
— Talvez ele já imaginasse que eu aceitaria. — desviei meu olhar para a janela, olhando para o sol que já se punha atrás das colinas do campo. — Somente hoje percebo que realmente não sentia algo forte por Ulrich, que vale-se lutar naquela época.
— Mas, você teria coragem de falar não, minha lady? — Sophie que estava sentada em nossa frente, me perguntou em um tom curioso.
— %Nalla% sempre teve coragem para enfrentar nosso pai e estabelecer seus sentimentos. — respondeu Marg prontamente com um leve sorriso nos lábios. — Gostaria de ser assim.
— Marg, nem sempre dizer 'não' é o melhor caminho, mas estou feliz por ter dito 'sim' ao %Sebastian%. — a olhei e sorri junto. — Deixemos o passado para trás, de fato, também estou curiosa para saber o motivo pelo qual o noivado será feito no castelo dos
Meagher, entretanto, não me importo mais com Ulrich e seu destino.
— Pois eu já suspeito do motivo. — disse Marg.
— Sabes que a Lewis Castle está em ruínas de tão vazia e sem adornos, quase todas as nossas obras de arte já foram vendidas, somente restam lá dois quadros que são sua herança da família de sua mãe. — explicou Marg num tom amargurado. — Tenho certeza que o orgulho do papai não o deixaria fazer nenhuma recepção em nossa casa.
— Faz sentido e além do mais, o falecido pai do conde sir Ulrich era um grande amigo de nosso pai, talvez seja por cavalheirismo que esteja sendo planejado neste lugar. — concordei.
— Pelo menos poderemos estaremos em um lugar que conhecemos. — disse Marg empolgada. — Não vejo a hora que poder andar a cavalo novamente, tivemos que vender os nossos.
— Hum…. — desviei meu olhar para a janela. — Espero ser bem recebida, após todo aquele constrangimento.
— Ah, tenho certeza que irá, você é casada com o homem mais rico da Inglaterra, acha mesmo que vão te maltratar? — Marg riu. — Se não for por naturalidade, acredite, será por interesse, já sabemos que todas as pessoas em nossa volta querem sempre agradar o senhor Winchester.
— Não sei se devo levar isso como algo positivo ou negativo. — dei um suspiro fraco. — Nunca sabemos quem está sendo sincero e quem está sendo falso, fico feliz que pelo menos a família de %Sebastian% não me julga por eu ter me casado inicialmente por dinheiro.
— Acho que o argumento de ter sido por dinheiro já foi quebrado há muito tempo, basta olhar em seus olhos para ver o brilho que aparece quando fala o nome dele. — Marg riu. — Está mesmo muito apaixonada pelo senhor Winchester, já é visível.
— Acho que sim. — dei um suspiro esperançoso ao sentir a carruagem parar. — Acho que chegamos.
Logo o cocheiro abriu a porta para que saíssemos, a mãe de Ulrich já estava ao lado de fora do castelo, bem na entrada, acompanhada de minha madrasta, nos aguardando. Respirei fundo ao desembarcar da carruagem e segui com Marg e Sophie pelo caminho de pedras ornamentais até chegar a elas.
— Seja bem-vinda, lady %Nalla% Winchester. — a ênfase que a senhora Lira havia dado ao sobrenome do meu marido me causou um certo desconforto. — Seja bem vinda também Margareth, e quem é esta jovem ao lado?
— Esta é Sophie, minha dama de companhia. — respondi mantendo meu tom de voz baixo, porém firme, acho que estava absorvendo um pouco da superioridade que meu marido exalava perto dos nobres.
— Uau, dama de companhia. — ela desviou seu olhar para Sophie por um momento e depois voltou para mim. — Pensava que somente a realeza se agraciava com isso.
— Foi um singelo presente de casamento do meu marido. — expliquei segurando o sorriso de satisfação que queria sair.
— Imagino, o senhor Winchester é muito conhecido em Limerick também. — Lira tentou-me jogar um olhar de desdém, porém, não conseguia.
— Bem, quem no Reino Unido não o conhece? — sorri de leve. — Ainda assim, agradecemos pela estadia, tenho certeza que ficarei muito confortável em seu castelo, mas devo anunciar que só poderei ficar enquanto o senhor Winchester estiver longe.
— Então, ele não se hospedará aqui? — Evelyn me olhou curiosa.
— Como sabe, ele possui suas próprias propriedades, onde quer que necessite. — expliquei tranquilamente. — Somente permitiu que ficasse no castelo de Meagher para que pudesse estar perto de minha irmã em um momento tão importante.
— Não é surpreendente saber que ele tenha alguma propriedade em Limerick. — Lira desviou seu olhar para Evelyn.
— Pois quanto a mim, estou demasiadamente surpresa. — ela deu um sorriso forçado. — Se seu pai soubesse, talvez tivesse pedido para que o casamento fosse planejado…
— Oh não, isto também foi uma surpresa para mim, afinal, foi adquirida recentemente. — completei, interrompendo ela.
— E podemos saber qual propriedade ele comprou? — perguntou Lira.
— Ah, digamos que ele não comprou…. — mordi de leve meu lábio inferior.
— Não? — Evelyn me olhou curiosa.
— Não, bem… A família do marquês James Allen contraiu uma grande dívida com o senhor Winchester, dívidas de muitos anos que não poderia ser paga de outra forma.
— Este é o pior lado dos burgueses, sempre querem tudo o que pertence aos nobres. — Lira finalmente conseguiu me lançar aquele olhar de superioridade.
Eu engoli seco, pensando por um breve momento se deveria ao não responder à altura de seu projeto de humilhação.
— Bem, é uma via de mão dupla. — respirei fundo mantendo meu olhar tranquilo sobre Lira. — Já que os nobres também desejam ter a fortuna dos burgueses.
— Ah…. Está me dando uma fome... — disse Marg querendo quebrar o clima de confronto. — Tenho certeza que a senhora nos preparou um delicioso chá, como quando éramos crianças.
— Ah sim, claro. — Lira se virou para Marg e sorriu. — Venham, os servos irão acomodar suas bagagens nos devidos quartos. — Lira se voltou para mim. — Como não sabíamos que traria uma serviçal, espero que não sinta desprezo se ela ficar na ala da criadagem.
— Está tudo bem, lady Meagher, sou somente uma criada. — Sophie manteve sua face levemente abaixada em forma de respeito.
— Pois eu gostaria que Sophie fosse instalada no quarto ao lado do meu. — intervi sem o menor receio.
Senti todos os olhares virem de encontro a mim, porém, mantive meu olhar em Lira, acho que estava sendo divertido a confrontar em sua própria casa.
— Minha lady? — Sophie me olhou desacreditada.
— Tenho certeza que com mais de duzentos quartos neste castelo, não haveria problema, não é mesmo, lady Lira? — dei um sorriso pretensioso.
— Claro que não. — ela deu um sorriso forçado. — Não queremos causar nenhum desconforto em sua estadia, mandarei a governanta cuidar disso pessoalmente.
— Agradeço a gentileza. — retribui com uma sorriso singelo, daqueles que sempre fazia meu pai se lembrar de minha mãe.
— Lady %Nalla%. — disse uma voz masculina que bem conhecia, vindo de trás de mim. — A quanto tempo.
Era a voz de Ulrich, em quem estive parte de minha vida solteira fascinada, quem um dia sonhei que me casaria e teria filhos, era algo de meu passado que há muito havia decidido esquecer, mas como poderia esquecer completamente dele, já que me salvara de um afogamento quando criança. Respirei fundo de forma discreta e me virei com leveza em sua direção, logo meu corpo paralisou ao ver Freya ao lado de braços dados com ele, como um casal feliz.
— Sir Ulrich…. — voltei meu olhar para minha irmã que dispunha de uma sorriso de satisfação como se tivesse vencido algo ou alguém. — Boa tarde, Freya.
— Olá, %Nalla%. — o olhar de Freya exalava vitória. — Fico feliz por ter vindo.
O que me fazia de fato constatar que o noivo de Freya era ele, pior, lembrar de como sua face superior estava quando anunciou que se casaria. Agora estava entendendo porquê a pressa, o noivado seria celebrado formalmente no sábado à noite e logo pela manhã teríamos a cerimônia na catedral da cidade. Senti até mesmo minha face ficar rígida e imóvel, meu olhar não conseguia se desviar dos braços deles que estavam entrelaçados.
— Nos sentimos honrados por voltar de Paris só pelo nosso casamento. — Ulrich parecia sem graça com a situação, por certo deve ter entendido que eu não sabia que ele era o noivo. — Soube que esteve todo este tempo lá com o senhor Winchester.
— Sim, Paris também é bela no verão, mas após quatro meses longe, já estava sentindo falta de casa, Londres, sim, é o melhor lugar para mim. — expliquei ponderando minha voz e tentando achar equilíbrio interno. — Além do mais, não poderíamos prolongar ainda mais nossa lua de mel, o senhor Winchester tem muitos negócios.
— Por mim, teríamos ficado ainda mais. — comentou Margareth sem nenhum pudor. — Sua casa em Paris é como um sonho de verão, principalmente por causa da vista.
— Vejo que se divertiu muito, pequena Margareth. — Ulrich deu um breve sorriso de canto, mantendo seu olhar em mim. — Paris é realmente mágica.
— Sim, fomos convidados a todos os bailes e recepções organizados durante esse tempo, apesar de %Nalla% e o senhor Winchester não aceitarem participar de todos. — ela deu um suspiro frustrado.
— Ainda assim conseguiu se divertir, Marg. — a olhei com repreensão.
— Desculpe-me, sim, me diverti muito mesmo. — ela olhou para Freya. — E vocês, já escolheram onde passarão a lua de mel?
— Não nos olhe assim, pois não a levarei como %Nalla%. — ela se agarrou um pouco mais a Ulrich. — Quero minha privacidade.
Ulrich deu uma risada baixa e se afastou um pouco dela, beijando-lhe a mão.
— Adoraria desfrutar do chá com a belas damas, mas tenho outro compromisso agora. — ele se voltou para mim. — Espero que possa se acomodar confortavelmente, deve estar acostumada com lugares mais luxuosos oferecido pelo senhor Winchester.
— Agradeço a preocupação. — fiz uma breve reverência.
Ele se afastou de nós, em direção a carruagem da família que já o aguardava pronta.
— Bem, vamos ao nosso chá. — disse Lira estendendo a mão para a direção onde a mesa já estava posta nos esperando.
A seguimos pela lateral o centro do jardim, nos acomodamos devidamente, apesar de Sophie ter que ficar de pé um pouco mais afastada, o que me deixou um tanto incomodada pela forma que tratava minha dama de companhia.
- x -
— Está mesmo tudo bem? — perguntou Marg ao entrar no meu quarto.
— Sim. — eu me encolhi um pouco, estava encostada na parede ao lado da janela, olhando para o jardim. — Não deveria estar tão preocupada, tivemos uma longa viagem até aqui, deveria estar descansando.
— Eu sei, mas não consegui deixar de pensar em sua cara de surpresa. — ela fechou a porta e deu alguns passos para se sentar na cama. — Confesso que também fui pega de surpresa, mas já era de se esperar algo assim…
— Não consigo entender, como papai pode fazer isso. — segurei todas as lágrimas que queria rolar em minha face. — Não me importo que seja o Ulrich, me importo que não tenham me contado, o pior foi o olhar de vitória, de superioridade…
— Freya e sua inveja. — Marg bufou. — Não consigo acreditar nisso, pelo menos você tinha mesmo o direito de ser a primeira a saber.
— Não pensarei mais sobre isso, pelo menos até amanhã, já que terei que conviver com ambos juntos durante esta semana. — voltei meu olhar para minha irmã. — Nunca desejei tanto que o tempo passasse rapidamente.
— Você vai ficar bem? — Marg se levantou da cama e veio me abraçar.
— Tentarei. — retribui o abraço e sorri de leve. — Agora já para cama, Marg.
Eu a acompanhei até a porta.
Antes de me deitar, certifiquei que a porta estava devidamente trancada para não ter nenhuma visita indesejada, seja por Freya ou pelo próprio sir Ulrich. Assim que meu corpo tocou o fino lençol, senti como se um peso tivesse saído de mim e logo fiquei relaxada, isso possibilitou para que meu sono não demorasse a chegar.
Os dias que seguiram foram monótonos, quando não estava em meu quarto lendo o livro que %Sebastian% havia me indicado, estava na biblioteca folheando outros livros para passar o tempo. Havia momentos em que me esquivava de Ulrich, que sempre tentava orquestrar um encontro a sós comigo, em outro momento, me sentia entediada com os assuntos das mulheres na mesa de chá ou na sala de música.
Pior ainda eram os momentos em que Freya sentia sua necessidade habitual de demonstrar que sabe tocar melhor que eu, apesar de sempre falhar miseravelmente.
— Graciosa como sempre. — elogiou Lira ao aplaudir.
— Agradeço, minha lady. — Freya sorriu com satisfação.
— Você toca melhor do que ela. — cochichou Marg que estava ao meu lado, me fazendo segurar o riso.
— O que disse, Margareth? — Evelyn a olhou atravessado.
— Nada mamãe, só pensei que Freya tocaria algo como Mozart. — respondeu Marg segurando o riso.
— Todos sabemos que Freya tem dificuldades com Mozart. — expliquei de forma natural.
— Não deveria. — retrucou Marg. — Até mesmo um burguês sabe tocar.
— De quem está falando? — Freya se levantou do bando que sentava em frente ao piano.
— Margareth, não deveria dizer tal coisa. — olhei para Marg tentando repreendê-la, mas por dentro estava aplaudindo sua ousadia. — Não deve espalhar a intimidade dos outros.
— De quem estão falando? — sir Ulrich apareceu da porta e me olhou curioso, dando alguns passos para mais perto de onde Freya estava.
— Nada de mais importante. — Freya sorriu.
— Como não? — Marg o olhou. — Só estava falando que o senhor Ulrich sabe tocar Mozart.
Eu senti a afronta que aquelas palavras causaram não somente em Freya, mas em todos os outros presentes.
— Ele sabe… Não acredito que um burguês consiga ser assim tão suave com a teclas de um piano. — Lira me olhou.
— Você se surpreenderia ao ouvi-lo tocar. — comentei tranquilamente.
Logo o mordomo entrou na sala.
— Sir Ulrich, minha ladies. — ele se curvou de leve. — Anuncio meu lord, conde Lewis e o senhor Winchester.
Meu olhar se voltou para porta automaticamente, assim que ele apareceu meu coração acelerou de forma inesperada.
— Agora vai ficar mais interessante. — sussurrou Marg.
— Meus cumprimentos, senhores. — sir Ulrich se aproximou deles e os cumprimentou com um aperto de mão.
Mesmo %Sebastian% tendo aceitado o cumprimento, o olhar do meu marido estava fixo em mim como sempre, eu que me sentia ainda tímida com aquela intensidade no olhar, agora estava sentindo um conforto inexplicável. Como esperado, em menos de vinte minutos de conversa, %Sebastian%, que mantinha seu olhar em mim todo aquele momento, se retirou da sala, um sinal de que queria estar sozinho em minha presença.
Eu me levantei discretamente e segui em direção à porta, ouvindo alguns cochichos vindos de trás. Caminhei por toda a extensão do corredor até chegar a escada principal, lá estava ele, olhando o grande estandarte na parede com o brasão dos Meagher bordado com fios de ouro.
— Oi. — disse quase em sussurro. — Está tudo bem?
Ele deu alguns passos até mim e pegou em minha mão.
— Agora estou melhor. — ele sorriu de leve. — Perdoe-me por todo este tempo longe.
— Infelizmente, devo me acostumar com suas breves ausências, agradeço por sempre ter uma companhia.
— Hum. — ele moveu seu olhar para o carpete do chão.
— Claro que nenhuma companhia se compara à sua. — minha voz saiu tão suave.
Ainda segurando em minha mão, %Sebastian% entrelaçou nossos dedos e se virou para a escada.
— Que tal um passeio? Sei que gosta de jardins. — convidou ele.
— Seria um prazer passear com meu marido. — respondi sorrindo de leve. — O jardim do castelo do Meagher é lindo.
— Não estava me referindo a este jardim. — ele me olhou tranquilamente. — Estava me referindo ao jardim que construí para você.
— Para mim? — o olhei surpresa.
— Sim. — ele sorriu de canto e respirou fundo. — Vamos.
Assenti, me deixando ser guiada por ele, ao chegarmos na entrada do castelo, nossa carruagem já nos aguardava. Nos acomodamos e silenciosamente seguimos o caminho até o castelo que ele havia comprado, mesmo ainda passando por reformas internas, %Sebastian% mantinha sua vontade de se instalar em algo que é dele. Assim que a carruagem parou e ele me ajudou a desembarcar, meu coração paralisou e pulsou mais forte.
Era lindo o jardim que compunha a entrada do castelo, ele segurou minha mão entrelaçando nossos dedos e começou a me guiar em direção a entrada. O jardim era como um leve desenho de formas em arabescos, com os canteiros precisamente posicionados da forma para que o caminho de pedras ornamentais traçassem esse desenho.
— Camelia…. — disse ele tranquilamente. — São suas flores favoritas.
— Não me lembro de ter comentado sobre isso com…. — sorri de leve, me lembrando vagamente de uma conversa que tive com sua mãe. — A senhora Poppy lhe contou.
— Minha mãe é uma boa pessoa para contar informações. — ele riu baixo. — E margaridas são as flores preferidas da sua mãe.
Senti um breve arrepio em meu corpo, uma emoção tomou conta do meu coração de maneira surpreendente, poucas pessoas sabiam daquilo, ou melhor, apenas eu e meu pai sabíamos. %Sebastian% era mesmo uma caixinha de surpresa, aquela havia sido a mais intensa de todas, ele realmente me conhecia além do que eu poderia saber.
— Presumo que desta vez tenha sido meu pai. — sorri naturalmente, sentindo uma paz grande ao olhar aquele jardim.
— Sim. — assentiu. — Achei que gostaria de ter algo que lembrasse sua mãe aqui, já que ela nasceu em Limerick.
— Você sabe tantas coisas sobre mim. — observei. — Gostaria de saber algo a mais sobre você.
— Saber que eu te amo não lhe é suficiente? — ele parou e me olhou. — O que mais quer saber?
— Como sabe tanto sobre mim? Quando exatamente me viu pela primeira vez? A senhora Poppy menciona tanto sobre seu amor por mim e sua vontade de se casar quando retornou a Londres aos dezenove anos, fico me perguntando sobre isso. — suspirei fraco. — Às vezes sinto que há algo mais profundo que nos une.
— Sim, o nosso amor. — ele sorriu. — Sou grato a Deus por nosso amor.
Ele foi se aproximando pouco a pouco de mim, até que seus lábios tocaram os meus. Senti meu corpo estremecer de imediato assim que ele envolveu seus braços em minha cintura, o beijo de %Sebastian% ainda me deixava sem direção e totalmente entregue, seja em qualquer momento ou lugar que acontecesse.
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— Minha lady. — Sophie se aproximou de mim discretamente e me entregou um bilhete.
Eu peguei sem que Margareth, que estava ao meu lado, percebesse.
— Distrai minha irmã, por favor. — sussurrei para ela, que assentiu sem problemas.
Olhei para a direção em que %Sebastian% estava, naquele momento sua atenção se voltava para os nobres que meu pai o apresentava, de fato sua presença estava sendo o destaque da noite. Me aproximei mais das laterais, o grande salão estava cheio de nobres convidados, então seria fácil conseguir me afastar sem que percebessem. Assim que cheguei ao corredor, senti uma mão segurar a minha e me puxar.
— O que…. — tentei me soltar mas sem sucesso.
— Não lhe farei nenhum mal. — a voz era de Ulrich.
— Para onde está me levando?
Subimos alguns lances pela escada dos serviçais, até que entramos na biblioteca.
— Sir Ulrich, tem noção do que está fazendo? — olhei para o bilhete que estava em branco. — Presumo que isso lhe pertença.
— Perdoe-me por meu impulso. — ele pegou o bilhete. — Mas lhe devo mais desculpas.
— Não me deve nada, sir Ulrich. — o olhei.
— Eu realmente pensei que soubesse sobre eu e Freya. — seu tom estava um pouco mais baixo. — Sinto que lhe devia algumas explicações, já que…
— Repito que não me deves nada. — respirei fundo. — Sei que tivemos algo no passado, mas não estamos mais no passado, hoje sou uma senhora casada, e você se casará com Freya.
— Me casar com ela não significa que meu coração pertença a ela. — ele segurou em minha mão. — Ainda penso em você.
— Sir Ulrich, pedirei somente uma vez. — respirei fundo segurando sua mão, para que soltasse a minha. — Esqueça o passado, seu coração deve pertencer somente a Freya, assim como seus olhos devem estar na direção dela.
— Ulrich, eu…. — Freya adentrou na biblioteca de forma repentina. — %Nalla%.
Me afastei dele mais que depressa para que ela não imaginasse coisas erradas.
— O que está havendo aqui? — seu olhar fuzilante para mim era intenso.
— Não está havendo nada. — Ulrich fez uma breve reverência com a face e saiu da biblioteca.
— Não deveria estar com seu marido, %Nalla%? — perguntou ela dando dois passos para frente.
— Não gosto de participar de conversas políticas ou econômicas, além do mais, isso não é assunto para uma dama. — a olhei com tranquilidade. — Temos que concordar que meu marido está sendo o centro das atenções de todos os convidados, em seu próprio noivado, devo pedir desculpas por isso?
— Não, ele tem um singelo crédito neste dia. — ela deu um sorri de satisfação. — Já que foi ele quem deu dinheiro ao papai pelo meu dote, hum… Devo agradecer por isso?
Meus punhos se fecharam automaticamente, senti uma forte raiva pairar em meu interior.
— Tenha uma boa noite. — Freya saiu rindo da biblioteca.
Passei um longo momento paralisada remoendo todas as palavras que Freya havia dito, %Sebastian% era o responsável pelo dote e provavelmente sabia que o noivo era Ulrich, logo, me lembrei da visita que meu pai fizera no dia seguinte a minha noite de núpcias. Não era exata para me visitar ou por preocupação, certamente sua visita foi para obter dinheiro para o dote de Freya.
— Minha Lady? — uma voz me despertou de meus pensamentos, era Sophie.
— Sim? — a olhei respirando fundo. — Algum problema?
— Estava à sua procura, o senhor Winchester…
— Entendi. — tomei impulso para a direção da porta.
— Está tudo bem? — perguntou ela.
Dei um sorriso forçado e segui em direção ao corredor.
%Sebastian% já nos aguardava perto da carruagem, meu pai estava ao seu lado, ambos pareciam falar sobre assuntos rotineiros. Me aproximei em silêncio deles e me despedi do meu pai, entrei na carruagem, primeiro sendo seguida por Sophie, e pedi para que se sentasse ao meu lado. %Sebastian% entrou instantes depois e mesmo sabendo que seu olhar ficaria em mim por todo o caminho, mantive meu olhar direcionado para a janela e minha atenção bem distante dali.
— Está tudo bem? — perguntou %Sebastian% assim que adentrou o nosso quarto.
— Por que não estaria? — eu que estava de frente para o espelho olhei seu reflexo.
— Talvez pela sua voz não estar normal, seu olhar distante…. — ele respirou fundo. — Está assim por Freya estar se casando? Ou pelo noivo ser ele?
— Talvez esteja assim por ter sido a última a saber que meu marido foi o financiador de tudo. — não resisti em dizer o real motivo. — O que sinto não é referente a sir Ulrich.
— Pode realmente confirmar isso? Posso acreditar que se não fosse ele a se casar com Freya, também reagiria assim?
— O que está querendo afirmar com isso? — me virei e o olhei.
— Que ainda não o esqueceu, por isso está agindo com tanta indiferença a mim. — sua voz tinha um pouco de amargura. — Mas como eu poderia competir, mesmo que tenhamos nos casado, continuo sendo um mero burguês, não é mesmo?
— Como podes insinuar tal coisa? — um sentimento de chateação tomou meu coração. — O que me deixou assim não foi pelo fato dele ser o noivo, o que me deixou assim foi saber que escondeste de mim por achar que meu sentimento por você é leviano e frágil, vejo que ainda sente que o que nos uni é somente seu dinheiro, sinto-me por completo indignada por ainda pensar assim.
— Perdoe-me, não queria lhe causar este tipo de sentimento. — ele deu alguns passos até mim estendendo sua mão para me tocar, porém recuei.
— Não sei se consigo lhe perdoar, não neste momento. — me virei em direção à janela. — Preferiria que não me tocasse durante este tempo.
— Como desejar. — sua voz ficou seca e áspera.
Instantes depois ouvi o som da porta bater, fazendo meu corpo se arrepiar e minha alma estremecer. Senti como se estivesse atiçado o pior lado do meu marido, entretanto, estava chateada demais para me importar com os sentimentos dele. Respirei fundo e mantive meu olhar no jardim ao lado de fora, mesmo que o dia seguinte fosse algo especial para meu pai e os outros, eu não seria tão cordial assim e não colocaria meus pés naquela igreja.
“Não sei por quê (não sei por quê)
Me diga por quê (me diga por quê)
Por que o amor acaba?
Por que as coisas
Desaparecem?
Tão bonito?
É apenas um sonho,
O amor é como um sonho
- Evanesce / Super Junior