Talvez Não Seja Uma História de Amor


Escrita porJuliana M.
Revisada por Lelen


Epílogo

Tempo estimado de leitura: 95 minutos

  André Gorz escreveu um livro chamado Lettre à D. - Histoire d'un amour. André escreveu uma carta de amor à mulher que viveu ao seu lado e sofria de uma doença degenerativa. Na página 101, ele escreve: “Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz quarenta e cinco anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca”.
  Peço licença — e desculpas — a Gorz e Dorine, mas pegarei emprestado suas palavras para dizer:
  Você acabou de fazer trinta e nove anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz vinte anos que vivemos juntas...

  — Está errado! — esbravejou ela, me olhando e fingindo estar consternada. — São vinte e cinco anos! Nos conhecemos aos dezessete! Na verdade, aos quinze... E se formos pensar bem...
  — Dana... — resmunguei, apertando minhas têmporas, já impaciente.
  — %Julieta%, eu estou morrendo aqui. Literalmente. A única coisa que eu peço são fatos corretos e concretos na minha carta...
  Mesmo com a voz debilitada e a fala quase arrastada, Dana falava e gesticulava com a energia que devia pertencer a uma adolescente líder de torcida, não uma moribunda.
  Lá pela primavera de uns cinco anos atrás, logo após o casamento de Jack, eu e Dana decidimos passar um tempo morando juntas de novo e com isso, toda nossa antiga rotina havia voltado e essa rotina incluía uma lista de check-ups médicos, já que nós realmente não ligávamos muito para nossa saúde quando sozinhas. E foi assim que eu e minha melhor amiga descobrimos o pâncreas.
  É claro que nós sabíamos o que era pâncreas, mas fala sério, quem poderia imaginar que aquela parada de vinte centímetros carregava dentro de Dana um câncer com alta taxa de mortalidade?
  Bom, nós não imaginávamos.
  Vou poupá-los da parte triste. Sabe aquela parte da descoberta, do choro, o medo e tudo que um bom dramalhão pode conter? Vamos deixar para trás, já não faz muito sentido agora. Dana viveu com a doença durante muito tempo e viveu bem. Fez tudo que queria fazer, foi deserdada pela família, voltou a ser rica quando seus pais descobriram sua luta contra o câncer, vomitou por todo o meu banheiro por conta da forte reação da quimioterapia, viajou para todos os lugares que sempre quis (e me levou junto), porém, Dana sempre seria... Dana.
  Alguns meses atrás, a mulher enfiou na cabeça que queria fazer a tal cirurgia paliativa. Ela dizia que estava confiante, que sentia que sua vida iria melhorar, mas de verdade, eu acho que ela só estava cansada. A cirurgia de alto risco ia acabar matando-a e todos nós sabíamos disso. Apesar de conseguir viver com câncer, é bem difícil lidar com ele.
  Como o câncer de pâncreas pode progredir rapidamente e não há um tratamento, a maioria dos médicos rejeitou veementemente o pedido de Dizzy, mas não há nada no mundo que o dinheiro não pague, principalmente quando esse dinheiro pertence a uma pessoa que sabe muito bem como ter todos na palma de suas mãos.
  E foi assim que todos nós viemos parar em um hospital oncológico particular no meio do inverno severo de HW.
  — E minha licença poética? Você nem devia estar lendo, eu ainda não terminei! — Puxei o caderno de sua mão, irritada. — A graça é você só ler quando ela estiver finalizada. — A mulher havia me obrigado a escrever uma carta, para que ela lesse antes de entrar na sala de cirurgia. Porém, eu já estava irritada comigo mesma, pois tudo que eu escrevia, saía no papel com um tom de despedida.
  — E se eu não estiver mais aqui quando você terminar? — perguntou, cobrindo seu corpo magro com uma manta.
  — E onde mais você estaria? Morta? — retruquei, irônica. Nos entreolhamos e antes que eu pudesse me sentir mal pelo comentário pesado, ambas caímos na risada, achando graça no terrível destino que se fazia presente.
  — Vocês são mórbidas demais para o seu próprio bem — comentou Victoria, fazendo uma careta de estranhamento.
  — Usamos o humor como mecanismo de defesa. — Dana deu de ombros e logo em seguida fez careta, percebi que ela sentira dor no ato.
  — “Humor”, claro. — Vic revirou os olhos, empurrando-se com dificuldade contra o corpo de Dana e deitando junto a mulher na cama hospitalar. — E quem vai ser a candidata a me fazer uma massagem nos pés? — Esticou a perna em minha direção.
  — Você só pode estar de sacanagem... — murmurei, desviando o olhar dos pés inchados e gordos da minha amiga.
  — Ah, elas merecem, %Julie%! — Dana apoiou a mão na barriga gigantesca de oito meses de gravidez de Vic, que continham lá dentro uma menina com alguns quilos, alguns tios, duas tias e muitas, muitas regalias.
  O casamento de Jack e Victoria não ia nada bem. Foi uma época difícil pois ver Jack e Vic abalados e tristes era muito ruim. Então, veio o divórcio e eles encararam isso da melhor forma possível: dando uma festa. O problema todo foi que na festa, o ex-atual casal acabou transando no sofá e desse “sexo de despedida” vieram as duas coisas que nós mais esperávamos: a tão esperada volta do casal e a nossa mais esperada ainda, Diana, o primeiro bebê do grupo.
  — São três abusadas, todas vocês! — reclamei, rindo e também me aproximei, encostando a boca na barriga da minha amiga. — Mas tudo bem, bebê, você eu perdoo, mas só porque você ainda nem nasceu. — Rimos juntas, curtindo o momento gostoso entre nós.
  — Eu quero muito conhecer ela. — Foi de partir o coração a confissão suspirada de Dana.
  — Você vai. — Vic assentiu, garantindo com uma segurança assustadora e sorrindo de lábios fechados. Dana também sorriu e encostou a cabeça no ombro dela, fechando os olhos.
  Eram poucos os momentos em que Dana parecia preocupada, nervosa ou assustada com a cirurgia — ou com o que aconteceria depois dela. Desde o início, ela estivera segura de sua decisão. Esses momentos de “fraqueza” só surgiam quando estávamos sozinhas ou quando Diana (o que ela tomou como homenagem, mas na verdade, era o nome da avó de Victoria) era citada. Ou então, quando ela estava com Cameron.
  — Argh, eu queria tanto um bebê também — resmunguei, quebrando o gelo. Eu ainda tinha essa vontade e já tive planos, mas as coisas não aconteceram da forma que eu queria.
  — Não é preciso um casamento para você ter um filho, %Julie% — afirmou Dana e Vic concordou.
  — Vocês dizem isso só porque ambas têm marido — emiti, sarcástica.
  — Ei, quem disse que eu tenho marido?! — questionou Dana, rindo.
  — Essa aliança no seu dedo diz outra coisa — repliquei.
  Dana e Cameron eram aquele casal do Instagram, em que o feed é lotado de fotos lindas, conceituais e apaixonantes. Aquele casal que vemos nas redes sociais e pensamos: não é possível. Aquele casal que quando conhecemos na vida real pensamos: não é possível mesmo. Eram lindos separados, porém, juntos eram um trem fora de controle. Ninguém resistia a eles, às vezes dava vontade de ficar apenas assistindo eles serem um casal simplesmente bonito.
  E quando perguntado qual era o segredo de tanto companheirismo, a resposta modesta era sempre a mesma: “A gente se dá bem, só isso”.
  — Por falar nisso, vou atrás de Cam com o meu café. — Levantei da cama e fui em direção à porta. Cam havia deixado a sala para ir buscar algo para comer e ainda não havia voltado. — Volto já. — Ambas assentiram e voltaram a conversar com Diana, que devia estar deixando tudo remexido dentro da barriga da mãe de tanto que estava se mexendo.
  Saí do quarto e fui abatida pelo frio assim que deixei o cômodo aquecido. Chovia muito lá fora, já fazia algumas horas que a chuva não parava e o frio só aumentava. Puxei as mangas do moletom e abracei meu corpo. Toda vez que eu saía daquele quarto, eu sentia o peso do desânimo me abater.
  O quarto particular de Dana havia sido transformado em uma cópia do quarto dela mesmo, então não parecia nada com um quarto de hospital. Era quente, aconchegante e íntimo. Mas quando eu saía de lá, dava de cara com uma recepção branca, fria e melancólica. Apesar de ser um lugar bonito e refinado, não deixava de ser um hospital e isso me lembrava o que estávamos fazendo ali.
  Minha melhor amiga iria passar por uma cirurgia difícil assim que o sol nascesse e estávamos todos juntos de novo para passar por isso com ela.
  Cameron estava no balcão oposto à lanchonete, carregava uma pequena bandeja com alguns copos e conversava com Balcio, pai de Dana. O homem havia perdido a esposa — mãe de Dana — há alguns meses e com a situação difícil da filha, ele parecia irreconhecível. Estava emagrecido, pálido e sempre parecia sem forças.
  — Tudo certo? — perguntaram quando me aproximei e eu assenti.
  — Sim, vim atrás do café. — Sorri de lado. — Onde está Jack?
  — Foi comprar biscoito. Acho que está nervoso, saiu daqui suando em bicas. — Cameron sorriu, dando de ombros.
  — E não estamos todos? — refleti, pegando um copo de café da bandeja e bebendo.
  — Eu sei que eu estou, então, se não houver problemas para vocês, prefiro ir para o hotel e deixar Dana com vocês. Tudo bem? — confessou Balcio, passando a mão na cabeça.
  — Não se preocupe, não sairemos daqui — assegurou Cameron, firme.
  — Eu conversei com o médico e, bom... Ele disse que vai dar o seu melhor, mas acho que todos nós sabemos como isso vai acabar. — Suspirou, pesaroso. Engoli em seco a vontade de chorar. Estávamos todos entregando as pontas, mesmo que inconscientemente. — Filho... — Tocou o ombro de Cam, despedindo-se.
  — Descanse, Balcio. Assim que houver novidades eu prometo que ligarei primeiro para você — afirmou Cam, atencioso. O homem virou-se para mim e pude ver a dúvida em seus olhos por não saber como me cumprimentar.
  Eu tive minhas diferenças com o pai de Dana desde que nós nos conhecemos, o homem não tinha muito apreço por mim e vice-versa. Mas tudo que o homem fez — não querendo perdoar todo o terror psicológico e emocional — foi pensando em Dana. Ele era louco pela filha e só queria o melhor para ela.
  Estiquei meus braços, abraçando o tronco do homem fortemente. Apesar de tudo, ele era pai e eu não conseguia imaginar como estava sendo para ele assistir a filha se despedindo todo dia. Dava para ver em seus olhos que ele estava dilacerado. Ele encostou os lábios em minha testa, dando um beijo protetor.
  — Fica bem, tio — murmurei. Fazia anos que eu não o chamava assim. As lembranças dos dias pós aula, em que vivíamos grudadas na casa grande da menina, invadiram minha mente.
  — Você também, %Julie%.
  Cam e eu assistimos com pesar o homem andar até a porta do quarto onde Dana estava e suspirar profundamente antes de bater. Nos entreolhamos, sentidos, sem querer nem imaginar o que ele falaria quando entrasse, logo nos afastamos. Quando as complicações por conta da doença ocorriam ou quando Dana tomou a decisão de fazer a cirurgia, eu e Cameron quase não conseguíamos nos falar. Era difícil explicar o porquê.
  Acho que era porque nós éramos os únicos que entendiam tudo.
  — Eu vou sentar lá na frente, pegar um pouco de chuva, sabe? — Ri fraco, desconversando. Ele sorriu, concordando. — Depois eu volto.
  — Vou atrás de Jack — informou, assentindo, indo no caminho oposto ao meu.
  Caminhei até a entrada já conhecida após tantas idas e vindas naquela clínica. Chovia tanto que estava dando até aflição em ficar do lado de fora, com todo aquele vento e aquelas trovoadas estourando no céu escuro. Sentei em um banquinho de madeira largo e estreito e encostei a cabeça na parede.
  Antes de fechar os olhos, notei um homem de costas largas encostado em uma pilastra, falando ao celular. Franzi o cenho, confusa e fiquei analisando-o de forma contínua e curiosa até o mesmo desligar o celular. Virou-se e, quando seu olhar me encontrou, acenou com a cabeça e se aproximou.
  — Achei que você já tinha ido embora — comentei, alto.
  — Eu ia, mas Jack sumiu com meu carro — justificou-se, sentando ao meu lado. — Ele não está sabendo lidar muito bem com o que vem acontecendo. — Assenti, concordando, mas não falei mais nada. Jack estava surtando. Na verdade, todos nós estávamos, mas ele era o único verdadeiro e sensível o suficiente para deixar transparecer.
  O cantor sentou ao meu lado e bateu com o ombro no meu, chamando minha atenção, já que eu estava com a cabeça perdida em algum lugar do universo. Sorri fraco, sem nem tentar disfarçar minha melancolia ao lado do homem que conhecia muito bem meus sorrisos, olhares e suspiros.
  Eu e %Filipe% éramos uma história linda. Tivemos todas as estações — primavera, verão, inverno, outono — em nós e entre nós. Nos amamos da forma mais bonita que se podia amar alguém. Éramos apaixonados, fissurados e enlouquecidos um no outro. Mas lá pela sétima primavera, algo mudou em nós. Eu queria morar em outra cidade, conhecer a Índia, ser promovida novamente, fazer ballet, me formar na faculdade novamente. Eu queria mais, muito mais. Ele queria... menos.
  %Filipe% atingiu o ponto da fama que ele jamais havia desejado para si mesmo. Começamos a ter problemas em casa por conta da fama lá fora, tivemos que contratar seguranças e estivemos a dois passos de perdermos a nossa privacidade. Então, ele parou. Investiu todo o dinheiro que tinha (para não perder a estabilidade financeira), deu uma pausa na carreira e sumiu.
  Foi aí, nesse meio de caminho, que nos perdemos um do outro. E ele encontrou Camilla. Ou melhor, reencontrou.
  Desde a infância, %Filipe% viajava com a família para o litoral em época de verão e férias escolares e foi onde conheceu Camilla, a garotinha da casa vizinha, com quem ele compartilhou o seu primeiro beijo. Eles se reencontrarem anos depois, de forma despretensiosa, no casamento do melhor amigo dele. Foi coisa de filmes de comédia romântica.
  Sim, Camilla era a mulher de olhos azuis e vestido roxo que havia sido molhada pela taça de champanhe do meu ex-namorado.
  — Como nós estamos? — Ergui uma sobrancelha, sem entender muito bem o ponto dele. Era uma pergunta com vários sentidos. — Eu quis dizer, você! — corrigiu-se, envergonhado. Tentei muito não sorrir ao notar suas bochechas coradas. — Tem alguma coisa que eu possa fazer por você? Comprar mais café? Pedir você em casamento ou algo do tipo... — brincou, fazendo-me rir verdadeiramente pela primeira vez em semanas.
  — Você precisa parar de falar sobre isso em momentos inoportunos — adverti-o, ainda rindo.
  — Ué, eu sei que faz um tempo que não nos vemos e nem tivemos oportunidade de conversar, mas achei que você tinha perdido o medo de casamento — provocou, insinuante. É claro que ele não perderia essa oportunidade de me provocar.
  Como eu disse, %Filipe% sumiu por um tempo, afastou-se quase que totalmente do resto de nós e acabou perdendo alguns episódios de nossas vidas, como quando eu e Dizzy voltamos para Springfield e moramos lá novamente, logo quando descobrimos a doença da mulher. Dana queria ficar perto da família e eu também queria a minha por perto de novo.
  Passávamos a maior parte do tempo na casa de Dana, mas de vez em quando meus pais nos convenciam a andar pelos lugares que costumávamos frequentar juntas. Foi em um desses passeios ao centro que reencontrei Gabriel Santiago, o agora “ex-chefe de gangue”. Tivemos um breve relacionamento e, acreditem ou não, o cara me pediu em casamento. E o pior? Eu disse sim.
  Pois é, as coisas ficam meio malucas quando tudo que conseguimos pensar é: “minha melhor amiga está morrendo”. Porque naquele tempo — até os dias atuais — era só nisso que eu pensava.
  — Você é péssimo em disfarçar alegria. — Apontei, estalando a língua em reprovação.
  — Eu não estava tentando — afirmou, com um sorriso enorme e indiscreto, que me fez rir de novo.
  — É? E como vai seu namoro? Aquele que começou duas semanas depois que você terminou comigo? — provoquei, semicerrando os olhos, mas ele apenas riu, balançando a cabeça negativamente.
  — Todos cometemos erros. — Concordei. Eu que o diga, quase me casei só por estar em negação ao câncer de Dana. — Não vai a lugar nenhum — confidenciou, dando de ombros.
  — Aparentemente, somos péssimos em manter um relacionamento — brinquei, erguendo o punho para cumprimentá-lo.
  — Exceto um com o outro — sinalizou, rindo de leve.
  — É claro! — concordei, também sorrindo.
  Já fazia alguns dias que estávamos todos juntos de novo, mas acho que aquela era primeira vez que nós dois ficávamos sozinhos e tínhamos a oportunidade de nos instigarmos. Era bem estranho, parecia que tudo que havia acontecido depois do nosso término havia sido apenas um grande borrão, parecia que só havíamos dado um tempo e logo estaríamos juntos de novo.
  Éramos quase dois velhos e eu ainda ficava ansiosa ao vê-lo e ele ainda gaguejava ao falar comigo. Dois idiotas, cheios de tesão e mágoas um com o outro. No fundo, eu sei muito bem que o que nos levou ao fim não foi Camilla ou Santiago. A gente se levou ao fim. Mesmo nos amando, nos cansamos um do outro.
  E é horrível e desesperador deixar alguém que você ama ir simplesmente porque você a ama o suficiente para isso.
  — O que aconteceu? — ousei perguntar, nervosa com a resposta que eu ouviria.
  — Queríamos coisas diferentes, eu acho. Ou somos muito diferentes — tentou explicar, olhando para frente, observando a chuva caindo de forma mais amena do que antes. — Demos um tempo. Até hoje eu não sei muito bem se já terminamos ou não. — Riu sem graça, passando a mão no cabelo.
  — Você nunca gostou de dar um tempo — comentei, pensativa.
  — É, mas gostei dela — falou, baixinho.
  É quase uma tortura chinesa ouvir seu ex-namorado assumir o quanto gostava de outra pessoa.
  Nosso término não teve briga, apenas muita tristeza e pesar de ambos os lados. Não nos odiávamos e tentamos conviver da melhor forma possível, principalmente por conta de tudo que estava acontecendo com Dizzy. Assim, eu ainda cheguei a conhecer Camilla em algumas reuniões, nos tratávamos como bons amigos e respeitávamos um ao outro. Entretanto, eu ainda morria de ciúmes toda vez que eu o via com ela.
  Eu só conseguia pensar que aquela mulher estava andando de mãos dadas por aí com o namorado.
  — Era estranho, diferente — ele continuou. — Eu não tive muitas relações a que posso me basear, mas com a gente, eu e você, era mais... — Soltou uma risada anasalada e contida ao refletir. — Pode parecer até estranho para quem nos conhece, mas era mais leve. Tudo funcionava quando estávamos juntos, %Julieta%.
  %Filipe% ainda tinha seus modos de “cara que escreve”. %Filipe% ainda me chamava de %Julieta%. %Filipe% ainda era o cara mais bonito no ambiente. %Filipe% sempre seria %Filipe% e eu temia ainda ser dele.
  — E me peguei aceitando certos comportamentos e ações que não me agradavam e eu não sei por que aceitei. A gente acaba aceitando certas coisas sem nem perceber, não é?
  — É... — Eu sabia muito bem. Cruzei as pernas em cima da cadeira, apertando meus tornozelos apenas para aliviar a tensão que havia se instalado em mim.
  — E você? Como foi que você surtou com o tal de Santiago? — brincou, beliscando meu braço. Tentei rir, mas o que saiu foi um murmúrio quase esganiçado.
  — Não surtei! — Rolei os olhos. — Somos amigos, não é? Quer dizer, nunca fomos só amigos, mas acho que agora somos. Um pouco, não é? — enrolei-me, inquieta.
  — Bom — refletiu por uns segundos antes de continuar —, estamos... Tentando. — Assenti, concordando.
  Eu entendia bem o que ele queria dizer. Não tínhamos uma relação de amigos antigos que ainda eram amigos, éramos claramente ex-namorados tentando ser amigos.
  — Bom, aconteceu o mesmo. Queríamos coisas diferentes — respondi, apertando as mãos e resolvi confidenciar meus problemas conjugais com meu ex. — Eu queria filhos. Dois, três, quatro e até cinco mini versões de mim correndo pela casa. E ele... não. É o direito dele, claro! Eu jamais o obrigaria a alguma coisa, mas eu não me privo mais de minhas vontades, %Fil%. Entre ele e os filhos que ainda não tenho, eu escolho as minhas crianças.
  — Hum… — murmurou, pensativo, talvez escolhendo as palavras certas para dizer. — Cinco mini %Julieta%s correndo pela casa. Que pesadelo! — Sorriu, travesso. Rindo levemente, fingi socar seu ombro. — E eu mal conseguia lidar com uma…
  — Ah, você foi o único que soube lidar, acredite! — Bufei, me sentindo quase indignada com o resto de meus namorados que não entendiam nada da minha personalidade meio... de mais. — E além disso, teve você! — resmunguei, cruzando os braços.
  — Eu?! — indagou, confuso.
  — É, você! O Sr. Perfeito! É muito chato namorar um cara que não é chato igual você! — reclamei de forma irônica, fazendo-o rir.
  — Entendi, eu fui seu melhor namorado e ninguém nunca vai ocupar meu lugar, é isso? Melhor ir se acostumando para uma série de decepções. — Deu de ombros, convencido. Rolei os olhos fingindo barulho de vômito, fazendo-o gargalhar. — Mas falando sério agora, eu entendo — continuou, virando o rosto para me olhar. — Nós elevamos a expectativa um do outro em níveis extremos. Somos bons juntos, %Julieta%.
  — Fomos — corrigi, mordendo o lábio. Ele ergueu uma sobrancelha. — “Fomos” bons. No verbo passado — expliquei. Ele, com a sobrancelha erguida, abriu e fechou a boca algumas vezes, porém não disse nada, apenas desviou o olhar e continuou com aquele puta sorriso apertado, convencido, como se soubesse algo que ninguém mais sabia. — %Filipe%…
  — Eu não disse nada — defendeu-se de meu tom repreensivo.
  — %Filipe% %Buchart%, eu conheço você como ninguém conhece — afirmei, despretensiosa. — Talvez sua mãe.
  — Ela mandou abraços, a propósito. — Sorri agradecida. Minha ex-sogra era uma mulher incrível e era uma pena que nós não tivéssemos muitos momentos juntas pessoalmente, mas sempre nos falamos por mensagens de texto.
  — Como ela está? Aposto que radiante por ter o filhinho em casa novamente — comentei. %Filipe% havia comentado que também havia voltado para a casa de sua mãe no seu ano sabático. Acho que, de uma forma ou de outra, todos acabamos voltando para nossas primeiras casas quando as coisas apertam.
  — Eu acho que nem lembro mais como se lava roupa — brincou, abraçando o próprio corpo.
  A chuva diminuiu gradativamente, porém o frio da chuva se juntava com o da noite que se aproximava, deixando tudo ainda mais cinza. Ficamos em silêncio por um tempo, observando a forma que a chuva caía e como a melancolia nos atingiu novamente mesmo após o pequeno momento de descontração.
  Eu sabia que nosso pensamento já havia voltado para Dana. Era como minha vida funcionava atualmente. Eu fazia tudo que tinha para fazer, falava o que tinha que falar, mas no fim, meu pensamento inteiro se resumia a ela. E nada mais.
  — Você está bem, %Julie%? — Estranhei sua pergunta e o olhei, confusa. Ele já havia me perguntado aquilo assim que nos encontramos no mesmo dia.
  — Sim — respondi e voltei a olhar para frente. Ouvi %Filipe% suspirar alto ao meu lado e entendi a pergunta. Ele queria saber a verdade.
  — Você quer saber por que eu vim? — Virei o rosto para olhá-lo. Ele mantinha o rosto próximo ao meu e olhava em meus olhos fixamente. — Claro que vim por Dana e tudo mais, todos estão aqui para apoiar ela e eu também. Mas no fundo, eu vim por você. — Fechei os olhos, absorvendo todo o conforto que as palavras de carinho dele me proporcionaram. — O tempo todo, eu só queria saber como você estava, %Julieta% — confessou.
  — Eu acho que... — Mordi os lábios tentando encontrar palavras e engolir o choro que quase me sufocava de tão forte que queria ouvir. — Estou com medo, %Fil%. — Suspirei, lagrimando. Ele limpou minhas lágrimas fujonas com o dedo indicador, olhando-me pesaroso.
  — Eu também estou, mas estou aqui com você. Eu sei que você não vai parar de apoiar e ajudar todo mundo, mas me deixa ser seu suporte enquanto isso, eu juro que aguento o tranco. — Funguei, dando uma risadinha. Passei a mão pelo seu rosto, apertando de leve sua bochecha.
  — %Filipe% %Buchart%, eu sinto sua falta. Você sente a minha falta? — murmurei, chorosa, olhando-o enquanto ele sorria amável.
  — Só um pouquinho.

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  É curioso como algumas coisas na vida funcionam. Deve existir alguma ciência social que explique algumas coisas, deve ter existido algum sociólogo que explicasse em palavras difíceis o que era uma relação social e como ela se caracterizava. Deve existir um porquê, às vezes de forma inconsciente, de nos unirmos a uma pessoa ou um grupo para a vida toda sem sabermos como exatamente deu certo.
  Mas deu certo, de alguma forma. Mesmo com tudo indo contra, mesmo com o tempo, com as idas e vindas de relacionamentos, com as brigas e, principalmente, com a distância.
  Se pensarmos bem, meu grupo de amigos — desde que nos conhecemos — passamos mais tempo separados do que todos juntos. Alguém sempre estava longe, alguém sempre estava viajando ou morando em outro lugar. E mesmo assim, era como se estivéssemos juntos todos os dias.
  — Jack, eu imploro, cala essa boca! — Cam pegou um dos travesseiros e atirou no loiro.
  — Fala sério, é claramente CGI! — reclamou, com a boca cheia de batatas fritas.
  — O cara jogou um carro do prédio, Jack. — %Filipe% acrescentou em tom de obviedade.
  — E limpa essa boca, toma. — Vic jogou um lenço de papel no marido, nos fazendo rir.
  Estávamos espalhados pelo chão do quarto de Dana enquanto lanchávamos. Dana tinha que estar em jejum, mas fez questão de comprar um banquete recheado de hambúrgueres e batatas fritas para nós. Ela estava tão fraca que não havia saído da mesma posição que a colocamos deitada e eu podia ver que ela estava se esforçando para interagir. Ela e Vic — que estava deitada ao seu lado — usavam o corpo uma da outra como apoio. Vic estava no auge de seus oito meses e mesmo que implorássemos para que a mulher pegasse leve nos esforços, ela não ligava muito. Porém, vez ou outra, ela também cansava e pedia suporte.
  — Com licença. — A enfermeira chefe do setor entrou no quarto sem bater. Já vinha com uma expressão severa, mas sem conter o sorrisinho. A mulher já nos conhecia por sempre estarmos aos arredores do quarto de Dana e eu arriscava dizer que ela até nos apreciava. De vez em quando, eu a pegava rindo de algum gracejo espalhafatoso de Jack. — Ouvi dizer que é nesse quarto que minhas enfermeiras estão sendo chantageadas e subornadas.
  — Ah, sra. Diaz! Agora não! — lamentou-se Jack, jogando a cabeça para trás e fazendo todo mundo rir.
  — Subornamos uma ou outra com hambúrguer e fritas, não é nada demais — balancei as mãos, explicando.
  — São quase onze horas da noite, senhores! A minha paciente precisa descansar. — Reprovou. Ela apoiava as mãos na cintura e mantinha uma pose quase maternal.
  — Alguém ainda tem privilégios para usar? — questionou Cam, rindo.
  — Eu já usei a fama — citou %Filipe%, brincando e levantando a mão.
  — E eu o dinheiro — acrescentou Dizzy, fraca.
  — Eu já usei a lábia, Cam usou a beleza... — contabilizei, risonha.
  — Nosso último recurso foi a gravidez, acho que chegamos ao fim aqui. — Jack riu, apontando para a barriga de Vic.
  — Então é isso. Vamos lá, família! Circulando... — A enfermeira loira começou a nos enxotar do quarto, visto que tínhamos ultrapassado o horário de visitas de forma extrema.
  Todos levantaram e, entre gritos e gargalhadas, foram até ela, enchendo-a de abraços e beijos. Dana, com dificuldade, sentou-se na cama para receber melhor todo o amor que estava recebendo. Engoli em seco enquanto assistia a cena. Jack a fazia rir tanto, %Fil% a amava tanto... Eu tentei afastar da minha mente a concepção daquela ser a nossa última vez, não queria “entregar os pontos”, mas estava cada vez mais difícil.
  — Cuida bem desse bebê — murmurou Dizzy, beijando a barriga de Vic.
  — Não se preocupe, ela cuida bem de mim — comentou Jack, distraído, novamente nos fazendo rir.
  %Fil% e Jack ficaram agarrados a ela por uns segundos, repetindo o quanto a amavam e prometendo que tomariam um bom porre depois que tudo aquilo acabasse. Cam se aproximou e o olhar cúmplice entre eles dizia tudo e nada ao mesmo tempo. Ele agachou-se, falando algo em seu ouvido que fez seus olhos marejarem e olhá-lo meio surpresa, mas em seguida ela riu e assentiu. Ele avisou que estaria lá fora caso ela precisasse e afastou-se, piscando para ela.
  Eles também passaram por mim, despedindo-se, já que eu era sua acompanhante oficial e ficaria ao seu lado até o horário da cirurgia.
  — Dana, é o seguinte. %Fil% prometeu que compraria uma casa na praia quando saísse daqui. Não estrague isso para gente, garota! — brincou Jack, apontando o dedo e sendo empurrado para fora do quarto por Vic. Eu imagino quantas cervejas ele bebeu escondido para que não estivesse surtando neste momento.
  — Eu não prometi nada! — negou %Fil%, quase indignado.
  — E sim, eu sei que você é rica, mas o cara tem uma boa fortuna da porra e... — acrescentou Cam, reflexivo.
  — Eu não tenho nada! — negou o ex-cantor novamente como uma criancinha, fazendo Dana gargalhar.
  — Eu não sei se você sabe, mas uma vez, ele e a ex-namorada alugaram uma casa de praia no verão passado e não fomos convidados... — contou Jack em tom de segredo, lembrando do dia em que eu e %Filipe% comemoramos nossos seis anos de namoro em uma casa no litoral, apenas nós dois.
  — Babaca! — brigou %Filipe%, mas gargalhou.
  — Puta merda, você é insuportável! — resmunguei, batendo em seu braço e o empurrando na porta.
  Era uma puta algazarra. Todos falavam alto, rindo e dizendo palavrões como se estivéssemos no nosso primeiro apartamento, onde não tínhamos reservas para nada. Eu fiquei contente, era disso que Dana precisava. Era como se estivéssemos apenas nos despedindo após um dia normal de farra. E foi bom vê-la rindo, apertando a barriga tentando se controlar e também parecia aliviada e feliz de estar ali.
  — Estarei na recepção — murmurou Cam ao passar por mim e eu assenti. Eu sabia que ele não sairia dali, mesmo que eu fosse a acompanhante oficial. Suspirei quando o silêncio recaiu sobre o quarto novamente.
  Ajudei Dana a deitar, cobrindo-a com a manta enquanto ela ria sobre o quão bagunceiros nossos amigos eram. Tudo me remetia ao passado e logo eu estava lembrando como sempre acabávamos juntas após qualquer festa, comentando os acontecimentos da noite. Parecia o mesmo.
  — É tão bom ver Jack e Vic juntos de novo — comentou, sorrindo.
  — Sim! Aquela época foi terrível. — Relembrei o término do casal mais engraçado que eu conhecia.
  — Foi péssimo. Quando Cam e eu podíamos, finalmente, ter encontros de casal com vocês, todos decidiram se separar. Que saco! — Dei risada, balançando a cabeça. — Por falar nisso, você e %Filipe%...?
  — O que tem? — questionei, confusa.
  — Vocês conversaram?
  — Sobre? Não temos nada para resolver, ué. — Esfreguei a bancada com força, fazendo o lenço de papel se rasgar sem que eu percebesse.
  — %Julie%. — A mulher me olhou, insistente. — É bastante nítido o quanto você e ele ainda se gostam.
  — Bom, nunca deixamos de nos gostar, Dizzy. Terminamos justamente porque nos amávamos — expliquei, sentida.
  Comecei a recolher o lixo que aqueles animais haviam deixado espalhado, empilhando as caixas e separando as latas de refrigerante. Dana observava atenciosamente meus passos.
  — O que foi? — perguntei e ela negou com a cabeça.
  — Eu amo todo mundo, mas amo quando ficamos sozinhas. — Sorri, emocionada. Logo desviei o olhar, recolhendo os papéis no chão. — E eu também queria muito saber por que você está com raiva de mim.
  — Não estou... — respondi, estranha.
  — Sim, você está. Mal consegue me olhar e não é porque eu estou feia igual o diabo. — O que estava bem longe de ser verdade. Dana jamais conseguiria ser feia. Os cabelos curtinhos antes de chegar ao ombro pareciam mais uma tendência da moda, não consequência da doença. Até seus olhos ainda eram brilhantes, mesmo com a pele pálida. — Mas tudo bem. Sentirei sua falta.
  — Não se preocupe, você estará sedada durante a cirurgia e não sentirá tanto — desconversei, impaciente. — Quando acordar, eu estarei por aqui.
  — Você sabe o que eu quis dizer — insistiu.
  — Sei? — ironizei, jogando as coisas no lixo e indo sentar na poltrona.
  — %Julie%...
  — Dana. — Cruzei os braços, esperando que a mulher falasse algo mais.
  — Fale comigo, %Julie%. Me fala o que está incomodando você — pediu, enfraquecida. Respirei fundo e resolvi chutar o balde.
  Eu nunca fui de ter reservas e pendências para falar com minha melhor amiga, não é agora que eu teria.
  — Eu sei bem o que você está fazendo. Todos sabem, Dana — proferi, ríspida. Ela ergueu uma sobrancelha, confusa. — Você quer morrer. É por isso que você está fazendo essa cirurgia, sabe que não tem muitas chances de sobreviver. Você está torcendo para que tudo dê errado, não é?
  Desabafei e mencionei o elefante na sala. Todos sabiam, mas ninguém havia mencionado nada. Todos entendiam. Era difícil, viver com câncer era difícil e as coisas só estavam piorando. Dizzy mal conseguia andar, tudo a machucava e ela não estava vivendo, apenas sobrevivendo.
  — Então é isso. É por isso que você está brava — concluiu, apática.
  — Sim, estou com muita raiva — confirmei, batendo o pé no chão e levantando novamente. Usando toda a energia acumulada para arrumar o quarto que, sem o lixo, sequer estava bagunçado. — Tenho raiva que você tenha decidido isso sozinha.
  — Bom, a vida é meio que minha, então... — satirizou.
  — Bom, isso é meio que egoísmo — rebati, rude.
  — Como diabos isso se torna egoísmo? — Ela riu, desdenhando da minha fala.
  — Você sabe que vai morrer! — vociferei, raivosa. — Isso para mim é suicídio!
  — Eu vou morrer de uma forma ou outra, %Julie% — falou, calma demais.
  — Não é assim e você sabe disso. Você pagou pela sua morte! — Fui dura novamente. Não porque eu queria, mas sim porque eu precisava de uma reação incisiva dela. Não queria aquela aceitação.
  — Poucas pessoas têm esse privilégio — comentou, rindo fraco.
  — Não é possível! — resmunguei, passando a mão pelo cabelo. — E o resto de nós? Seus amigos, sua família? Temos que ficar sentados assistindo? E eu, Dana? Eu, que parei minha vida inteira nos últimos meses por você, o que diabos eu vou fazer? — questionei, cruzando os braços, irritada. Talvez eu estivesse sendo dura, mas era o que eu pensava e sentia.
  — Acho que você está surtando pelos motivos errados — insistiu.
  — Não, acho que passei a vida surtando pelos motivos errados quando, na verdade, esse momento é o único que eu deveria surtar de verdade — resmunguei, ainda irritada, porém, sentindo toda a minha fragilidade aflorada, principalmente após minha tarde com %Filipe%.
  — Posso contar um segredo? — murmurou.
  — Não, estou com raiva de você! — choraminguei, recusando de forma infantil, mas que a fez rir.
  — Você não manda em mim, então vou falar de qualquer jeito — informou, atrevida. — Você sabe que eu não tenho religião, mas tenho algumas crenças. Eu acredito em um paraíso, onde não existe inferno. Apenas um lugar de redenção, elevação espiritual e essas merdas. Acho que após a morte é para lá que eu vou. Isso tem me incomodado — confessou.
  — Por quê? Tem muitos pecados para pagar? — brinquei, fungando e ela riu.
  — Também — concordou, rindo. — Mas eu fico pensando em Londres e acho que vai ser como quando me mudei para lá. Um lugar completamente novo, onde eu não vou saber aonde ir ou o que fazer e, principalmente, estarei sozinha. Sem você. — Suspirei, virando a cabeça para olhá-la. — Vai ser muito estranho estar lá sem você ao meu lado.
  — Se servir de conforto, me sentirei da mesma forma aqui — garanti, entristecida.
  — Não serve. — Rimos novamente. — Mas vai ficar tudo bem, você nunca vai ficar sozinha, sabe disso.
  — Eu não sei o porquê de estarmos agindo como se fosse o fim. — Levantei, sentando em frente dela. — A cirurgia pode dar certo, não é? — questionei, de forma inocente.
  — É claro... — concordou ela, mas sei que foi apenas para me acalentar.
  — Dana, por favor... — Me preparei para implorar novamente para que ela não entrasse naquela sala de cirurgia, mas prevendo o que viria a seguir, a mulher me interrompeu.
  — %Julieta% — chamou, sentando com dificuldade e me olhando, consternada. — Eu fiz cocô nas calças. Não uma, nem duas vezes. Várias. Você limpou a minha bunda incontáveis vezes. — Engoli em seco, sentindo as lágrimas descendo pelo meu rosto e dessa vez, eu não impediria. — Eu mal consigo andar, não consigo comer por essa sonda sem vomitar, meu corpo dói de uma forma descomunal. Eu acho incrível quem é forte o suficiente para lidar com essa doença maldita, mas eu não sou. Não mais. — Ela respirou fundo, procurando fôlego para continuar. Notei que seus olhos também lacrimejavam. — Amiga, eu estou tão, tão cansada...
  Funguei, sentindo meu corpo inteiro tremer e tudo dentro de mim parecia vidro quebrado. A tristeza, a dor e o desespero me abateram. Meus lábios tremiam e eu chorava quase desesperadamente, pois eu sentia que jamais conseguiria parar.
  — E o pior, ou o melhor, é que você entende. — Neguei com a cabeça, desesperada, procurando recompor meu fôlego, mas toda vez que eu respirava, saia um soluço. — No fundo, você sabe que entende. E até concorda porque... Você está tão cansada quanto eu, %Julie%. Estamos exaustas, precisamos descansar.
  Sentia meu coração bater descompensado por conta do choro que me acometeu de forma rápida e intensa. Cobri meu rosto com as mãos, sem lembrar a última vez que eu tinha chorado daquela forma tão infantil.
  — O que eu vou fazer? Ah, meu Deus! O que eu vou fazer agora? — Desesperei-me, colocando a mão entre meus cabelos. Eu não conseguia ver o mundo sem Dana ao meu lado. Até quando estávamos afastadas, eu ainda estava bem porque eu sabia que ela estava ali por mim.
  — Ei, vem aqui... — chamou, compadecida, limpando as lágrimas do rosto e esticando os braços, que me recebeu em um abraço carinhoso e me acolheu em seu colo.
  — Dizzy, eu posso viver de qualquer jeito, menos sem você. — Chorei, apoiando minha cabeça em suas pernas enquanto ela acariciava meus cabelos.
  — Eu preciso que você preste bem atenção no que eu vou falar, ok? — Eu chorava tanto que sequer conseguia ficar com os olhos abertos. Senti ela limpar meu rosto com as mãos e encostar os lábios na ponta do meu nariz de leve, depositando seu habitual ato de amor. — Não há nada que eu me arrependa. Caramba, %Julieta%. Nós vivemos! E como vivemos. Você foi a responsável direta por me dar uma vida incrível.
  Dana ficou murmurando e cantarolando coisas desconexas em meu ouvido enquanto eu chorava, desolada. Aceitar a morte de alguém querido era um sentimento terrível de impotência e desespero que eu não desejava para absolutamente ninguém no mundo. Todo dia eu me questionava do porquê nós estarmos passando por aquilo. Por que eu? Por que ela? Por que a gente? Tinha um porquê? Será que esse havia sido o propósito da minha existência? A vida com ela ou a vida após a vida dela? Não importava. Eu ficava procurando justificativas e nada era o suficiente. Nunca seria.
  Dana Tomanzio tivera tantas histórias de amor falhas quanto eu. A única história de amor dela que havia dado certo era a mesma que a minha. A nossa história de amor.
  De alguma forma — entre homens, bebidas, brigas, empregos, outras amizades e até quilômetros de distância — tinha dado certo. E eu sei que ela me amaria até o fim da sua vida, literalmente.

  Eu não sei em que momento meu choro consternado transformou-se em um cochilo esgotado, mas acabei dormindo nos braços da minha melhor amiga. Despertei ao sentir o toque frágil de Dana em meu rosto, fazendo-me levantar rapidamente. Ela estava deitada de lado, com os olhos fechados e com a mão pousada no peito, respirando com dificuldade.
  — O que houve? — questionei, preocupada, olhando sua feição abatida.
  — Está difícil respirar — murmurou, a voz estava tão fraca que pareceu um sussurro.
  — Quer que eu peça o oxigênio para a enfermeira? — Ela assentiu, concordando de leve com a cabeça. — Volto já.
  Levantei da cama e fui até a porta, olhando-a novamente antes de sair e suspirando. Fui até o posto de enfermagem, informando à plantonista que Dana estava com dificuldade de respirar e ela prontamente foi em busca de um cateter de oxigênio para instalar em minha amiga.
  Resolvi ir até a sala de estar na recepção, ver o clima lá fora e encontrar Cameron, mas a visão que tive quase me fez chorar novamente.
  Meus amigos estavam todos sentados na sala de estar, um ao lado do outro. Victoria estava com a cabeça no colo de Jack e as pernas em cima de %Filipe%, cobertos por uma só manta. Os três pareciam dormir, menos Cameron, que levantou a cabeça ao me ver entrando na sala e sorriu de lado. Parecia exausto, com olheiras profundas e o cabelo nunca esteve tão bagunçado. Olhei no relógio em meu pulso, estranhei a presença de todos ali, haviam se passado algumas horas desde que nos despedimos no quarto.
  — Está tudo bem? — perguntou, baixinho, temendo acordar todo mundo.
  — Sim, ela só está precisando de um pouco de oxigênio — contei. Olhei para trás, a enfermeira estava entrando no quarto de Dana, me dando um pouco de tempo para conversar com Cam. — O que aconteceu? Por que todos ainda estão aqui? — Ele assentiu, mas pareceu infinitamente mais triste ao me responder em seguida.
  — Ninguém conseguiu ir embora.
  Engoli o choro, tentei ignorar o aperto no peito e fui até eles, sentando ao lado de Cam. Eu entendia, também não conseguiria sair dali se fosse o contrário. Respirei fundo, passando a mão no rosto, sentindo-o inchado e vermelho por conta do choro. Olhei em volta, observando o clima terrível que um hospital ficava durante a noite. Algumas luzes estavam apagadas, poucos profissionais estavam por ali e apenas meus amigos ocupavam a recepção do lugar.
  — Você escreveu a carta? — questionei, num fiapo de voz. Estava desesperada para que Cam falasse comigo.
  Cameron sempre teve um certo problema em compartilhar suas aflições e depois do que aconteceu com Dana, o homem se fechou quase que completamente. Parecia um robô, agindo automaticamente, falando apenas quando era citado e quase não ria, nem chorava. Era como se ele estivesse vivendo um luto antes da hora.
  — Sim. E você? — Sua voz trêmula fez com que meus olhos imediatamente enchessem de lágrimas.
  — Não terminei, não consegui... — respondi, frustrada. — Você quer ler? — ofereci, ansiosa. Ele apenas assentiu lentamente. Retirei a folha de papel do bolso e antes de entregar em suas mãos, o adverti: — Você tem que chorar, ok?
  — %Julie%! — Ele mordeu os lábios, forçando uma risada e negando com a cabeça.
  — Estou falando sério! Cameron, olhe para mim. — Abaixei a cabeça, forçando-o a me olhar. Ele engoliu em seco, encarando meu rosto sério. — Você tem que chorar. — Entreguei o papel em sua mão, desviando o olhar no momento que vi seus olhos encherem-se de lágrimas.
  Senti-me envergonhada por não ter conseguido terminar de escrever o que a minha amiga tanto pediu, mas eu simplesmente não conseguia sequer juntar 1+1. Ao meu lado, Cam fungou, limpando o nariz com a costa da mão.
  — Você quer ler a minha? — ofereceu, murmurando baixinho, ainda sem me olhar. Sem esperar resposta, tirou um pedaço de papel rasgado de dentro do bolsa da calça e me entregou.
  Ao ler suas palavras, soube naquele momento que nunca mais seríamos os mesmos e era difícil dizer o quanto disso seria bom ou ruim. A única certeza que eu tinha era que nós (todos nós, mas, principalmente, eu e ele) nos recuperaríamos do que aconteceria após aquela maldita cirurgia.
  Me senti pequena, me senti impotente e principalmente, me senti triste como nunca estive em toda a minha vida enquanto eu lia as cincos palavras escritas no papel rasgado.
  “Dana Tomanzio de Baptista, casa comigo?”

━━━━━━◇◆◇━━━━━

  “VENDA. DOAÇÃO. FICAR”
  O gosto do café desceu terrivelmente amargo pela minha garganta. Fiz uma careta, deixando a xícara no balcão e voltei minha atenção aos blocos adesivos. Decidi dividi-los da forma mais simples que encontrei para terminar aquela tarefa de forma mais rápida. Olhei em volta, descrente no fato que nosso apartamento acabaria daquela forma. Fragmentado e dividido em post-its.
  Na primeira vez que entrei em meu antigo apartamento, aquele que eu costumava dividir com minha melhor amiga, eu chorei e jurei que nunca mais entraria naquele lugar de novo. Até uma mulher chamada Margarida me ligar e me informar que o apartamento que estava em meu nome não estava sendo usado há meses e precisaria ser alugado, mas os móveis ainda estavam lá dentro.
  Primeiro, fiquei puta com %Filipe% e quase desliguei a ligação apenas para gritar com ele por não ter tirado meu nome do contrato de nosso antigo apartamento. Mas quando ela informou o endereço e citou o famigerado número 305, minhas pernas fraquejaram e eu me senti completamente perdida.
  — Você acha que consegue fazer isso em quanto tempo? — questionou a mulher loira que usava um terninho completamente fora de moda, olhando meio enojada para os móveis cobertos de poeira.
  — Quatro dias — respondi, secamente enquanto pregava um post-it de “vender” em cima do abajur quadrado e caro que ficava no canto da sala.
  — Mas eu dei dois dias para os novos compradores — contou, demonstrando irritação.
  — Não me apresse — informei, simplesmente. Senti que ela já estava impaciente com a forma ríspida com que eu falava, mas não liguei nenhum pouco.
  — Sra. Cooper... — a interrompi, erguendo a mão direita.
  — É “senhorita” — a corrigi, séria. — Não sou casada.
  — Isso importa? — questionou, irritada, cruzando os braços.
  — Se quer usar pronomes de tratamento, use-os de forma correta — adverti, grosseira.
  — %Julieta%! — A voz que vinha do banheiro me repreendeu, fazendo-me morder os lábios com força para impedir a mim mesma de responder outra grosseria. — É Margarida, certo?
  — Sim, mas todos me chamam de Marga. Um apelido carinhoso que ganhei na faculdade... — respondeu, mexendo nas pontas do cabelo loiro, piscando os olhos tal qual um desenho animado jogando charme para o personagem bonitão.
  Eu sei que %Filipe% era bonitão e tudo mais, mas fala sério, eu ficava completamente irritada com as pessoas que perdiam totalmente o profissionalismo apenas para tentar um flerte com o cantor. Acontecia muito quando namorávamos e íamos nos lugares de forma profissional e %Fil% era tratado pelas pessoas interesseiras — mulheres, em sua maioria — de forma muito antiprofissional.
  — Marga, é que o apartamento tem valor extremamente sentimental para minha nam... amiga aqui, espero que você entenda que precisaremos desses dias, talvez até mais. Vamos viajar amanhã e estaremos de volta a cidade só na segunda — explicou %Filipe%, pacientemente. Não pude deixar de notar que a palavrinha “namorada” quase escapou da boca do meu nam... do meu amigo.
  Eu não julgava, eu também ainda sentia estranheza em apresentá-lo como amigo.
  — Eu entendo, sr. %Buchart%. — A mulher exalou delicadeza ao falar, deixando claro que sabia muito bem com quem estava conversando. — Eu tentei entrar em contato com a outra proprietária, mas não tive sucesso. Eu não sei o que pode ter acontec...
  — Ela morreu — respondi, colando outro post-it de “doação” na geladeira antiga.
  Andei pela cozinha, procurando a classificação correta para aqueles bloquinhos em minhas mãos. Durante alguns segundos, o único som no ambiente foi o barulho de meus saltos no chão do lugar. Estranhei o súbito silêncio, então olhei para trás, encontrando %Filipe% e a corretora me olhando de forma quase consternada.
  Senti vontade de vomitar.
  — E-eu sinto... — Virei de costas novamente antes que ela completasse a frase. Colei um “ficar” na cafeteira Expresso Prima. Era uma ótima cafeteira. E cara também. “Uma das extravagâncias de Dana”, pensei.
  Era difícil até pensar em seu nome.
  A minha vida pausou no dia daquela cirurgia, mais especificamente no momento em que o médico saiu pela porta do bloco cirúrgico e nos olhou de forma pesarosa. Foi quando descobrimos que as coisas dentro dela estavam tão fodidas que, mesmo sem a realização da cirurgia, ela logo nos deixaria. A mulher literalmente olhou para a morte e disse: “se for pra morrer, quem escolhe o dia sou eu, Dona Morte!”.
  Talvez, parafrasear Brás Cubas seria a única forma de explicar o que aconteceu comigo após aquele dia. No primeiro mês, eu quis me matar. No segundo, eu não saí de casa durante um mês inteiro e por conta disso, quase perdi meu emprego. No terceiro mês, eu chorei todos os dias. No quarto mês, eu senti muita falta de Jack, então passei duas semanas com ele, Vic e nossa pequena Diana. No quinto mês, eu decidi viajar, então pedi férias. Diretamente para o dono da Editora Hall, Toni, pois o Departamento Pessoal não estava muito feliz com minhas faltas frequentes.
  Fui a Paris. Fui a Notre-dame, passeei pelo rio Sena e conheci a porra da Torre Eiffel. E adivinhe só? Chorei quase o tempo inteiro. Paris foi o único destino que eu e Dana não conseguimos conhecer juntas. Voltei antes da hora e como uma criança assustada, corri direto para a casa de meus pais. Passei uns dias lá, apenas tentando me reerguer, tentando me reconstruir.
  As longas caminhadas com Pat, as sessões de filmes com Clarissa e as horas que eu passava com meu amado sobrinho Ben acabaram me deixando pronta. Foi uma surpresa que as coisas mais simples da vida, como tomar café na porta de casa com meu pai e assistir novelas antigas com minha mãe, foi o que me deixou pronta para retornar a vida, para sair do pause.
  No dia que voltei a HW, o único que me esperava no aeroporto era %Filipe%. Com um pequeno buquê, um sorriso tímido e alguns fãs indiscretos tirando fotos do rapaz, ele me abraçou ternamente. Cheirou meu cabelo, pegou em minha mão e me levou para casa. De um jeito que simplesmente parecia certo.
  — Eu vou deixar o meu cartão com você, senhor. Caso precisem de alguma coisa, qualquer coisa... — Rolei os olhos, negando com a cabeça, insatisfeita com a indiscrição da mulher.
  — Ah, sim, claro. P-pode deixar — respondeu %Filipe%, sem graça, coçando a parte de trás da cabeça.
  Fui até a porta e abri, esperando a mulher passar por ela. Encarou-me inconformada com minha má atitude, mas novamente, não liguei.
  — Srta. Cooper — cumprimentou-me, de nariz empinado.
  — Marga. — Forcei um sorriso fechado. Bati a porta quando a mulher passou, bufando. — Ei, você.
  Fui até %Filipe% no meio da sala e estiquei a mão. Ele me olhou confuso, sem entender minha exigência. Impaciente, coloquei a mão em seu bolso e puxei o cartão de lá, rasgando no meio e jogando no chão.
  — Você não precisa disso — informei, voltando a andar pela sala. — Eu tenho o número dela no celular, caso o Sr. %Buchart% precise de qualquer coisa. — Ele gargalhou, balançando a cabeça.
  — Ciumenta — murmurou.
  Dei de ombros, ignorando o comentário. Passeei pela sala, tentando ver os objetos apenas como objetos e não como itens de profunda importância para mim. Passei o dedo pela mesinha de centro, que havia retornado para a sala após muita implicância minha. Sorri, lembrando de todos os jantares, almoços, bebidas e até pés que já tinham passado por ali.
  Parei em frente as janelas. Nossas lindas, grandes e maravilhosas janelas. A vista não havia mudado, mesmo com as odiosas grades que agora estavam lá. Ainda era lindo olhar de cima a cidade em movimento. Encostei a mão no vidro, sentindo meu peito se aquecer de uma forma diferente.
  Que puta vida nós tínhamos ali.
  Fechei os olhos. Eu quase conseguia escutar nossas vozes, nossas risadas e as tantas histórias ecoando pela casa. Senti vontade de chorar como o tempo não sentia. Mas dessa vez, eu não senti tristeza, nem raiva ou dor. Eu me sentia muito, muito grata pela oportunidade que eu tive de ter conhecido Dana, e de alguma forma estranha, sob algum plano bizarro do universo, aquela garota incrível havia se tornado minha melhor amiga. E caramba!, moramos juntas, viajamos, dançamos, bebemos, fizemos absolutamente tudo que queríamos.
  Que puta vida!
  — Ei, tudo bem? — questionou %Fil%, colocando as mãos em meu ombro. Não respondi, apenas virei de frente para ele. O homem sorriu de leve ao notar meus olhos marejados. — Quer acabar logo com isso? Aí vamos pegar a estrada. — Assenti. — Aqui. Sofá? — Apontou.
  — Venda. — Entreguei o adesivo a ele.
  — Televisão? — perguntou de novo, apontando para o objeto.
  — Umm, acho que doação — avaliei. — Está bem antiga, pode ser difícil arranjar um comprador.
  — Ok. — Ele colocou o post-it de “doação” na TV e virou-se de frente. — Mesa? — Apontou para a mesa de centro.
  Suspirei, confusa. Eu amava a mesinha, estava em ótimas condições, mas eu não sei se conseguiria ficar com ela. Como pode um objeto carregar tantas lembranças e emoções? Era um pedaço de madeira, pelo amor de Deus.
  — Eu não faço ideia. — Tentei rir sem realmente ter vontade. %Fil% também riu e disse que deixaríamos para decidir depois.
  Continuamos na saga cozinha/sala por alguns minutos, tentando organizar o máximo de objetos possíveis. Jogamos algumas correspondências fora, colocamos as louças em caixas e decidimos doar a maioria. Minha mãe conhecia alguns abrigos que estavam precisando desse tipo de doações e eu também conhecia bastante gente no Centro Comunitário, seria fácil conseguir novos donos.
  — Vamos ser rápidos, ok? — O cantor me assegurou quando paramos em frente a primeira porta do corredor. O olhei temerosa, sentindo minha respiração começar a falhar. — Prometo. — Ele acariciou minha nuca suavemente.
  Fazia quase dois anos que eu não entrava no quarto de Dana e eu não fazia ideia do que eu encontraria ali dentro. Engoli em seco e entrei no quarto, dando de cara com a maior bagunça. Exatamente do jeito que ela havia deixado.
  — Ai, Deus. — Suspirei, tocando em algumas peças de roupas jogadas em cima da cama. — Eu não deveria... É injusto que eu tenha que fazer isso.
  — Seria injusto se não fosse você — comentou, colocando as mãos no bolso e olhando em volta, também parecendo tão sensibilizado quanto eu.
  Suspirei e fingi ter forças o suficiente para fazer aquilo. Comecei a distribuir os adesivos nos objetos, sem pensar muito, apenas querendo acabar o quanto antes. Tinha bastante coisa. Os armários, a penteadeira e a estante de madeira na parede seriam os objetos mais difíceis de serem cedidos. Alguns eu achava melhor vender e dar o dinheiro a Balcio, mas a maioria iria para a doação. Até porque Balcio também não ficaria com o dinheiro.
  Fui até a mesa de vidro ao lado de sua cama e me ajoelhei em frente a peça delicada. Em cima da mesa estava sua vitrola antiga, aquela que tocou tantas vezes e trilhou nossas vidas durante maior parte do tempo que vivemos ali. Passei a mão no disco de vinil que ainda estava ali. Para falar a verdade, foram poucas as vezes que aquele saiu dali. Let It Bleed dos Rolling Stones.
  — Acho que encontrei. — Sorri de lado, tirando o disco da vitrola e procurando a capa na caixa que ficava embaixo da mesa, onde ficavam o resto de seus vinis.
  — O quê? — perguntou, curioso.
  — O presente de aniversário do Cam. — Apontei, sorrindo. Ele iria gostar, seu aniversário seria no dia seguinte e nós estávamos nos preparando para comemorarmos na casa de Jack, na cidade vizinha.
  Cameron também se isolou e quase não falava com o resto de nós. O fotógrafo enfrentou uma depressão quase sozinho e era horrível vê-lo daquela forma, mas nós entendíamos. Ele perdeu um de seus maiores amores, talvez a única história de amor que tenha vivido.
  Ele teria continuado a viver só, se não fosse %Fil%, insistindo para que nos encontrássemos novamente. Seria a primeira vez que estaríamos juntos de novo, sem Dana. E antes mesmo do encontro acontecer, já estava sendo absurdamente terrível. Todos sabíamos que para manter nossas amizades de forma saudável — o que era prioridade para nós — teríamos que quebrar o gelo e nos vermos.
  Naquela noite, nós tentamos fingir que nada havia acontecido, mas não deu certo. Cam não aguentou e chorou como nunca em nossa frente e acabamos chorando todos juntos.
  E nós precisávamos daquele momento para chorarmos e celebrarmos nossas dores juntos, como deveria ser.
  — Olha isso. — %Fil% apontou para a parede, próximo a mesa do computador de trabalho dela. — Que amor!
  Aproximei-me de onde o homem olhava e sorri. Estavam lotadas de fotos nossas, com alguns bilhetes e pequenas poesias escritas no canto das fotos. %Filipe% correu o dedo entre as fotos, sorria emocionado e isso acabou me emocionando também.
  Meu ex-namorado realmente segurou as pontas enquanto todos nós definhamos de tristeza. %Fil% foi nossa cola, foi quem nos manteve juntos. Ligava, mandava mensagens e nos obrigou a nos vermos pelo menos uma vez no mês desde o falecimento de Dizzy. E durante esse tempo todo, eu só o vi chorar uma vez.
  — Ah, eu amo essa foto! — exclamei, pegando a foto de Jack e Dana na cachoeira há anos atrás. Eles riam, o sol brilhava por trás dos dois e a foto havia sido clicada por Cam, então, é claro que estava ótima. Peguei outra foto de Dana e Cam se beijando na frente da televisão, imitando o casal na tela. Chandler e Monica.
  — Isso é muito estranho — comentei, suspirando. — É como se ela estivesse fazendo uma longa viagem e logo vai voltar para casa.
  — É ridículo, mas às vezes me pego procurando o número dela no celular, para mandar uma mensagem, ligar... Aí eu lembro que... — O cantor soluçou, abaixando a cabeça e esfregando os olhos. Meus olhos marejaram novamente. Acariciei seu cabelo e me estiquei para beijar sua bochecha. Não havia muito o que eu pudesse falar, sequer sabia como confortá-lo. Acho que era impossível.
  Havia poucas fotos nossas ali, já que eu nunca fui muito fã de câmeras, mas ela e Jack eram campeões de fotos na parede. As mais inúmeras selfies divertidas e fotos lindas em paisagens diferentes. Peguei outra foto de %Filipe% e Dana, no casamento de Jack. Estavam abraçados e pareciam um casal, como sempre.
  — Caramba, olha como vocês são bonitos. — Entreguei a foto, fazendo-o rir. — Você devia ter namorado ela — provoquei.
  — É, eu devia. Mas sabe como é, acabei me apaixonando por outra. — Encarou-me, divertido.
  — Você é um idiota. — Dei risada, beliscando seu ombro e retornando para a minha função.
  Perdemos uma boa parte da tarde de sexta dentro daquele quarto, embalando e jogando em caixas as coisas dali. Ainda havia muito para embalar na sala, então decidimos deixar para a segunda, pois estávamos famintos e nós ainda tínhamos que pegar estrada até a cidade vizinha. Quando saímos de lá, entramos no banheiro, mas não havia muita coisa a se guardar, a maioria eram produtos vencidos, então foi tudo para o lixo.
  — Acho que é só, vamos deixar o resto para semana que vem. — %Fil% fechou a porta do banheiro, com um saco em mãos. — Vamos para casa?
  — A minha ou a sua? — questionei, indo até o meu próprio antigo quarto.
  — Onde tiver comida — informou, rindo e me seguindo.
  — A sua, então... — comentei, estranhando muito ver o meu quarto daquela forma.
  Estava completamente vazio. Laura, a garota que morou ali a alguns anos, havia se mudado já tinha algum tempo, então o quarto estava desocupado. Entrei no cômodo, achando bizarro como parecia que eu havia acabado de sair dali, mas na verdade, faziam anos que eu não entrava lá.
  — Estranho, né? — comentou %Fil% atrás de mim. — Olha só, Laura não apagou minha música! — O homem foi até um canto da parede, apontando para algumas palavras rabiscadas ali. Sorri, lembrando daquele momento em nossas vidas.
  %Filipe% estava no início de sua carreira e transpirava música naquele tempo. Em uma das noites que passamos juntos, o rapaz não conseguiu encontrar um papel a tempo antes de vomitar palavras e rimas, então usou minha parede como rascunho.
  — Deve ter achado conceitual. — Dei de ombros, rindo e me aproximei.
  “and you're making the typical me, break my typical rules”
  Era a frase que iniciava a pequena estrofe rabiscada no espaço onde costumava ficar minha estante de livros. Sorri de lado, me forçando a ter em mente que o cara ao meu lado era meu ex.
  — É sobre mim? — questionei, brincalhona.
  — Uma música escrita na parede do quarto da única garota que eu namorei por muito tempo. — Fingiu ponderar, acariciando levemente a barba por fazer. — Eu não sei, o que você acha? — Dei risada, negando com a cabeça.
  — Sobre nós, eu nunca sei o que achar — respondi, sincera. Suspirei, abalada com meu próprio comentário impróprio, acariciei seu ombro de leve e me afastei.
  Encarei a parede descascada, com metade do papel de parede moderno que Laura havia colocado rasgado ao meio. Puxei a pontinha, tendo um breve vislumbre da minha antiga parede roxinha. Viajando no tempo, nem notei que deixei %Filipe% tempo demais com seus próprios pensamentos, o que novamente, provou-se ser um perigo. Ele estava com o celular na mão, digitando de forma rápida e concentrada.
  O analisei por alguns segundos antes que sua atenção voltasse para mim. Sua feição estava diferente, como se estivesse vendo algo pela primeira vez, como se estivesse fazendo uma grande descoberta.
  — Nós deveríamos transar aqui — falou como se estivesse comentando sobre o clima lá fora.
  Ou não.
  — E-eu... O quê? — gaguejei um pouco, mas sequer consegui colocar em palavras a minha surpresa. — Você fumou alguma coisa?
  — Não! É que o último sexo que esse quarto viu foi feito por Laura...? E nada contra ela e nem querendo queimar meu amigo, mas fomos obviamente os melhores que esse quarto já viu — comentou, guardando o celular e empurrando-me pelos ombros para fora do quarto.
  — Cameron? Ela transou com Cameron? — questionei, ignorando os absurdos e focando no que interessava, a fofoca que eu ainda não sabia.
  — Bom, não era segredo, até Dizzy sabia! — esclareceu enquanto apagava as luzes da casa.
  — Eu não sabia! — contei, indignada. — Eu vou só ignorar tudo que acabou de ser dito aqui. Vem, vamos comer. — Me dirigi até a porta, confusa.
  — Tipo nós dois ou eu vou comer...?
  — %Filipe%! — Abri a porta com força e apontei para fora enquanto ele gargalhava. — Vaza! Anda, esse lugar deixou você meio abalado, saia.
  — Bem... — Desligou a luminária da sala e foi até mim. Ignorando todo meu espaço pessoal e quase prendendo meu corpo contra o vão da porta, parou na minha frente, olhando em meus olhos. — Eu me apaixonei por você naquele sofá, naquela cadeira, naquela parede e até contra aquela janela ali. É normal que eu esteja um pouco fora dos trilhos.
  E seguiu seu caminho, indo até o elevador e apertando no botão ao lado. E eu fiquei paralisada, com uma mão na maçaneta e a outra apertando a chave tão forte que eu já sentia um certo incômodo. O observei em frente ao elevador, parecendo tão sereno, como se não tivesse acabado de balançar o meu mundo inteiro.
  Droga, %Filipe%. Sabe quantos dias eu demorei para fingir que estava te superando? Sabe quantas horas de livros e podcast de autoajuda eu tive que consumir para tentar te esquecer? E como se num passe de mágica, só por ter ficado sob a atenção de seus olhos nebulosos por três segundos, eu já estava totalmente rendida de novo.
  Senti meu coração acelerar, ansiosa. Pigarreei, não querendo chamar sua atenção, mas conseguindo mesmo assim. Ele me olhou e ao notar o estado meio catatônico que eu estava, sorriu de lado. Não convencido ou algo assim, apenas sorriu. Fechei a porta, apressando-me em trancar ao ouvir o sinal de que o elevador estava no nosso andar, sequer notei que prendi a barra do meu vestido na porta. Ouvi a costura estalando-se completamente na lateral da roupa quando tentei me afastar.
  Completamente alterada e com meus pensamentos totalmente desorganizados, tentei sair do lugar mesmo com a porta ainda fechada, isso fez com que a costura lateral do vestido se abrisse quase que totalmente, deixando boa parte da minha perna e calcinha à mostra. Xinguei a porta e destranquei novamente. Abri com força sem imaginar que isso faria com que a costura da parte inferior inteira do meu vestido fosse junto com a porta.
  Ouvi a gargalhada alta de %Filipe% atrás de mim e bufei irritada. %Filipe% costumava ser o desastrado, era %Filipe% que gaguejava e paralisava quando falava comigo, era o corpo dele que tremia quando eu o tocava. Quando diabos nós tínhamos trocado de papel?
  — Puta merda! — bradei, irritada. Olhei para baixo, encarando metade do meu corpo exposto. Levantei a cabeça, tentando não virar para trás e olhar no rosto de %Filipe%.
  — Como isso aconteceu? — questionou, ainda rindo da minha desgraça.
  — Um vestido barato de beira de estrada, foi isso que aconteceu — resmunguei, abaixando-me para pegar o tecido.
  Tentei amarrar o pano no que restava da parte de cima do vestido, mas paralisei ao sentir os braços de %Filipe% em volta da minha cintura. Ele amarrava o próprio casaco em minha cintura, mas o problema não foi esse.
  O problema todo começou quando minhas costas ficaram superaquecidas pelo seu peitoral e quando seus braços fortes quase me fizeram prisioneira durante aqueles segundos em que ele passou amarrando as mangas de seu casaco. E ele respirou tão fundo que eu quase pude senti-lo cheirando meu cabelo. Mordi os lábios com força para me forçar a voltar à realidade. Acho que nem %Filipe% imaginou o que aquele gesto causaria em nós. Suspirei, segurando suas mãos no mesmo lugar quando ele fez menção de se afastar.
  “Não, não, não. %Julieta% Young, solte esse homem agora!”, meu subconsciente berrava e eu, como uma mulher totalmente plena de suas faculdades mentais, o ignorei. Vergonhosamente, meu corpo trabalhava sozinho. Toquei em suas mãos, subindo para os pulsos, deixando-o com os braços presos em volta de mim. Senti minhas pernas tremerem quando ele deu um passo à frente, colando seu corpo inteiramente no meu.
  É, não tinha mais jeito.
  Num ímpeto de coragem, virei-me de frente para ele, sendo praticamente engolida por seus olhos curiosos e famintos. Senti as mãos dele se posicionando em minhas costas, tocando diretamente minha pele, que agora estava desprotegida do tecido.
  — Isso é tão estranho — murmurei. Senti meus olhos arderem, senti vontade de chorar. Eu não sabia dizer se eu estava sentindo atração de verdade ou apenas saudades do meu ex-namorado e do que costumávamos ser.
  — É... — Felizmente, ele concordou, parecendo tão confuso quanto eu.
  — Não deveria ser estranho. Certo? — Subi as mãos pelos seus braços até chegar em seu rosto, tocando cada centímetro de pele, como se estivesse fazendo reconhecimento de terreno.
  — Certo — concordou novamente. Uma de suas mãos foi até meu cabelo jogando-o todo para trás e deixando meu pescoço à mostra. Me arrepiei ao sentir a ponta de seus dedos correndo na curvatura do meu pescoço e indo até meu ombro.
  Esse deveria ser o contato mais íntimo que eu e %Filipe% compartilhávamos em anos. A última vez que o abracei foi no enterro de Dana, após isso nosso contato não passava de toques distraídos e acidentais. Eu esperava mais, eu queria sentir tudo o que eu costumava sentir quando ele me tocava, mas agora eu não estava sentindo muita coisa além de receio. De ambos.
  — %Julieta%, eu vou beijar você. Tudo bem para você? — Seus dedos percorreram meus lábios ao anunciar seu próximo passo. Engoli em seco, me sentindo mais nervosa do que na primeira vez que nos beijamos. Estávamos tão próximos.
  — A gente pode não fazer isso no meio do corredor? — murmurei, enfraquecida com a forma que os dedos dele se moviam no entorno de meus lábios e como acariciavam minha costa. %Filipe% %Buchart% iria me beijar.
  — Se estiver tudo bem para você, a beijarei onde você quiser.
  — Eu estou de calcinha! — rebati, quase fugindo dos lábios dele que chegavam aos meus.
  — Eu já vi você com bem menos do que isso — retrucou, suspirando. — %Julieta%, eu vou beijar você. Tudo bem para você?
  — E-eu tenho vizinhos. — Eu sinceramente não sei por que estava inventando tantas desculpas.
  Talvez, só talvez, fosse meu subconsciente tentando me avisar do que me aconteceu da última vez que sofri por este homem.
  — Você não mora aqui. — Vi o desespero me abater quando notei que %Filipe% se preparava para se afastar de mim.
  — O que você escreveu no celular? — murmurei, curiosa, chamando. Ele deu uma risada anasalada, nossos lábios quase se tocavam e eu sentia meu corpo inteiro pulsar no ritmo das batidas do meu coração. Senti meu corpo sendo empurrado para dentro do apartamento escuro.
  Quando %Filipe% bateu à porta atrás de si, o local ficou iluminado apenas pelos últimos raios solares do dia e ver seu rosto através das listras alaranjadas que vinham da janela era quase um lembrete. Um lembrete de como ele era bonito, de como ele (de alguma forma) ainda era meu. De como o mundo era outro quando estávamos juntos.
  — Nada passa por você mesmo.
  — Não vai contar? — insisti.
  — Eu apenas... Continuei a frase que já estava na parede — confessou, tocando na ponta dos meus cabelos longos.
  — Achei que tinha parado com a música. — Ele assentiu e logo em seguida, deu de ombros.
  — Eu também, mas estranhamente, me senti inspirado como há muito tempo não me sentia.
  Foi assim que venci o medo e uni nossos lábios. No momento que nossas peles se encontraram e nós nos sentimos de novo, depois de muito tempo, nada ficou calmo e delicado. %Fil% suspirou e entreabriu os lábios, deixando que eu o beijasse da forma que eu sequer sabia que queria. E se for pensar bem, eu sempre queria beijá-lo, seria estupidez dizer que não.
  — Espera... — sussurrou ele com a boca grudada na minha.
  — Desculpa, e-eu... — comecei a me retratar antes de sentir o peso da rejeição.
  — Não! Não é isso... É que se você me beijar agora, acho que não tem mais volta. — Franzi a testa, totalmente confusa com a situação e absurdamente hipnotizada com a cor bonita que seus olhos ficavam quando se misturava com a luz do pôr do sol. — A gente vai ficar junto de novo, %Julieta%. Eu vou beijar você e acho que não vou conseguir fingir que isso não aconteceu. E você vai vender aquela casa e vou vender a minha. E nós vamos voltar a ter a nossa casa, nosso sofá, nossa sala. E vamos mandar toda a rotina, mágoa e qualquer coisa que tenha nos separado para puta que pariu.
  Minha boca secou, engoli em seco, minha frequência cardíaca estava disparada, meu estômago se revirava dentro de mim e todos aqueles sentimentos adormecidos tentavam despertar. Eu só conseguia pensar em como aquilo estava acontecendo de maneira extremamente rápida. Mal tínhamos nos beijado e %Filipe% já tinha tanta certeza e firmeza no que queria que me assustava pensar que talvez tenha sido o que ele sempre quisera.
  Entretanto, contrariando toda a minha racionalidade, no fundo do meu coração, eu sabia que era inevitável. Eu e %Filipe% %Buchart% éramos uma história de amor inevitável.

━━━━━━◇◆◇━━━━━

  Foi uma das viagens mais estranhas que já fiz na vida. Passar quase quatro horas dentro de um carro ao lado de %Filipe% foi agoniante, principalmente porque não sabíamos muito bem o que falar. Não sei dizer como ele estava se sentindo, mas eu estava confusa, envergonhada, preocupada e tensa.
  %Filipe% e eu havíamos feito amor, de novo. Tivemos nossa segunda “primeira vez” no chão do meu antigo quarto, sendo iluminados apenas pelas luzes da noite que chegava. Em meio a tropeços e mãos trêmulas, o cantor tirou o que sobrou do meu vestido e se reconectou com meu corpo de uma maneira absurda. %Filipe% me conhecia, isso era fato. Mas senti-lo beijando meu pescoço, acariciando meu quadril e o resto das coisas que só ele sabia que eu gostava era incrível. Quase senti vontade de chorar.
  Tê-lo em meus braços de novo era uma volta para casa. Nada havia mudado naqueles anos todos, ele ainda era meu abrigo preferido, meu abraço apertado e o cara que fez meu coração tremer na base. Tomei todo cuidado do mundo ao saborear cada centímetro de pele nova que eu ainda não conhecia, passeei com os dedos pelo seu rosto bonito e beijei seus lábios com doses extras de saudades e carinho.
  Minha cabeça insistia em pensar nas consequências de nossos atos e meu coração lutava contra, querendo jogar tudo para o alto e avisar a %Filipe% que ele seria meu novamente.
  — Estamos bem? — A voz rouca chamou minha atenção para dentro do carro de novo. Já estávamos chegando à casa de Jack e Vic, e eu admirava as luzes noturnas da cidade interiorana pela janela do carro. — Porque precisamos estar antes de entrar lá. Nossos amigos são perspicazes quando se trata de nós dois, você sabe.
  — É, eu sei. — Dei uma risada baixa e mexi meus pés dormentes pela posição fixa por muito tempo. — Estamos bem. — Dei de ombros, totalmente fingida.
  — Estamos? — Fiquei em silêncio, pensando na resposta. Se é que havia uma.
  — Você falou sério? — murmurei, olhando para baixo.
  %Filipe% deixou bem claro suas vontades assim que o beijei. Ele queria tudo de novo.
  As coisas que deixamos para trás quando a convivência dificultou e nossos desejos se tornaram opostos. Mas as coisas estavam diferentes agora. Eu era outra pessoa, tinha um novo emprego, tinha novos amigos, um novo corpo, uma nova casa, novos móveis. E eu não sei se havia espaço para meu antigo namorado na minha nova vida estável.
  — Você sabe que sim — respondeu. Não precisei nem especificar, ele sabia exatamente o que eu estava perguntando. — Sei que vai ser complicado, difícil e talvez não dê certo, mas eu estou disposto a tentar de novo. %Julieta%, a parte mais feliz que tive na vida foi ao seu lado. Hoje senti como se fosse um jovem de novo e satisfeito como há tempos não me senti e eu não quero mais fugir disso. Quero ter coragem o suficiente para arriscar algo em troca da minha felicidade.
  — Quer nos arriscar? Arriscar o que construímos separados? Arriscar nossa amizade? — questionei. Minhas preocupações vazavam pelos meus poros, mas eu não conseguia evitar.
  — Não somos amigos, %Julieta%. Nunca fomos, você sabe disso, você me disse isso.
  — Mas temos amigos em comum, %Fil%. E se arriscarmos tudo de novo e fizermos merda? Como a nossa relação com o resto de nós vai ficar? — Passei a mão pelo cabelo, pensativa. Eu sei que minha preocupação era válida, mas eu sinceramente me sentia apenas procurando desculpas para o que talvez fosse inevitável.
  — Acho que somos maduros o suficiente para lidar com isso. Antes não éramos, mas agora somos pessoas diferentes. Nós mudamos, crescemos, mas isso não quer dizer que devemos parar de ir em busca do que nos faz bem. Não fomos ruins um para o outro, a única mágoa entre nós dois foi o nosso fim.
  Reconheci a fachada avermelhada da casa de Jack e Victoria quando dobramos a esquina. A conversa estava longe de acabar, eu sabia, mas ela seria adiada para fingirmos em frente aos nossos melhores amigos que não tínhamos transado algumas horas antes. Após estacionar, %Filipe% suspirou profundamente, apoiando os pulsos no volante.
  — Não sei se estou disposta a lidar com isso de novo. — Fui sincera, sentindo meu coração apertar ao olhar seu rosto compreensivo. — Eu nunca deixei de amar você, %Filipe%. Até quando eu mais tentei, eu falhei. Mas me acostumei sem você. Estou com medo. Assustada com o quanto eu sou vulnerável perto de você. Já passaram anos desde que nos conhecemos naquele bar e eu ainda fico nervosa quando vejo você chegar. Sou uma mulher adulta, %Fil%. Uma mulher que tem seu ponto fraco ao seu lado o tempo todo.
  %Filipe% me olhava concentrado em cada palavra da minha explicação. Tentei ser o mais sucinta possível já que a confusão era parte de mim. Carinhosamente, o homem colocou as mãos em meu rosto e acariciou minha face com seus polegares, me olhando de forma terna.
  — %Julie%, você é meu grande amor, mas eu não vou insistir. Quando você estiver pronta, estarei aqui. Serei vulnerável por você. — Sorriu, encostando os lábios levemente na minha testa. — Temos que ir, Jack está quase para explodir de ansiedade naquela janela. — Apontou com a cabeça para trás.
  Dei risada ao notar Jack debruçado na janela de sua casa, olhando de forma curiosa para o carro parado em sua porta. Assenti, disposta a ignorar minha própria ansiedade e focar no que importava no momento, que era passar um tempo ao lado das pessoas mais especiais em minha vida. Ouvi um pequeno grito de comemoração de Jack quando saímos do carro.
  — Acabei de ganhar três notinhas de 20 graças a você, %Julie%. É sempre um prazer! — Jack me abraçou assim que abriu a porta de sua casa para mim.
  — Ué, o que eu fiz?
  — Cameron achou que vocês viriam separados, eu apostei que viriam juntos. Quando apenas um carro chegou, soube que eu já tinha vencido essa! — explicou enquanto beijava a testa de %Filipe% de forma exagerada.
  — E eu perdi três notinhas de 20 graças a você, pequena %Julie%. Que estrago você causa!
  Procurei de onde vinha a reclamação e encontrei Cam no sofá, arrumando as lentes de uma câmera. Gargalhei, empolgada, joguei minhas bolsas e o casaco nos braços de Jack e corri em direção ao meu grande amigo. Pulei em seu colo, abraçando-o pelo pescoço. Era sempre bom vê-lo tranquilo, foram muitos dias de reclusão e tristeza de Cameron, era reconfortante vê-lo entre nós tão tranquilo e leve, do jeito que deveria ser.
  — Feliz trinta e poucos, lindo! — comemorei, depositando vários beijos por todo o seu rosto. — Trouxe um presente para você — murmurei, mexendo em sua barba por fazer.
  — Não precisava, você sabe. — Levantou-se do sofá, recebendo o abraço e felicitações de %Filipe%.
  — Ei, olha só, seus tios chegaram! — Ouvi a voz animada de Victoria e já sabia com quem ela falava.
  Andei quase hipnotizada em direção a minha amiga e o pacotinho em seus braços. Diana era um bebê rechonchudo de sete meses e meio, com cabelos finos que não se decidiam entre o loiro e o ruivo. Meu apego pela criança era tão grande quanto meu amor e dedicação que eu tinha pelo meu sobrinho. Estiquei meus braços, roubando a bebê para mim sem pensar duas vezes.
  — Meu Deus, Jack! Como você conseguiu fazer uma criança tão linda? — questionei, passando o nariz pela cabecinha cheirosa da criança, que ressonava tranquilamente e parecia nem sentir que estava passando de braço em braço. — Oi, minha princesa!
  — Ei! — reclamou o músico.
  — É que teve minha participação — explicou Vic, rindo e abraçando %Filipe% de lado.
  — É claro que teve, olha que narizinho mais lindo! — choraminguei, encostando a ponta do dedo no nariz da pequena e fiquei balbuciando coisas incompreensíveis enquanto brincava com a bebê.
  — É, pessoal, perdemos a %Julie% para a Lady Di — brincou Cam enquanto tirava algumas fotos minhas com a bebê.
  — É claro que perderam, ela é tudo que importa! — Jack esnobou e entregou garrafas de cervejas para %Fil% e Cam.
  A comida preparada por Cameron já estava a postos. Jack, agora que era um pai de família, já não surgiu com bebidas suicidas que nos fariam ter uma ressaca de dez dias seguidos. O músico agora preferia as bebidas mais suaves ou uma simples cerveja, que era o que ele dividia com %Filipe%, enquanto conversavam sobre trabalho. %Fil% ainda se mantinha com alguns bicos musicais e sempre ajudava Jack, que estava empenhando em se tornar um produtor.
  Diana já estava acordada e se empurrava dos braços de Cameron. Contrariando totalmente a natureza alegre e bem-humorada de seus pais, Diana era um bebê meio ranzinza e isso nos causava muitos risos.
  Apesar do pouco tempo de vida, já era possível ver os traços marcantes da personalidade forte da garotinha, que não sossegava nos braços de ninguém e sempre estava chorando e resmungando, a não ser quando estava mamando.
  Estávamos espalhados pela sala, rindo e conversando de um jeito leve e acolhedor, porém, aquele lugar vago ao lado de Cam chamava minha atenção a todo minuto. Aquele lugar tinha dona, sempre teria. E eram em momentos como esse que a saudade apertava.
  — Ei — chamou Vic, sentando ao meu lado e acariciando meu ombro. — Volta para a gente — murmurou ao notar que eu estava com o pensamento em outro lugar.
  — Desculpa — disse, simplesmente e aceitei a taça de vinho que ela me entregou.
  — Está difícil hoje? — Neguei com a cabeça e entrelacei nossos braços.
  — Hoje está fácil, vocês estão aqui. — Ela sorriu, beijando meu rosto e voltando a se concentrar nas histórias de Jack, que ela já deveria ter escutado várias vezes.
  Encarei o perfil do rosto de %Filipe%, que ria das imitações de Jack. Minha cabeça parecia estar fora do lugar. Desde que deixei os braços de %Filipe% e andei cambaleando pelo meu antigo quarto, tudo parecia ter mudado. A atmosfera dentro de mim já era outra, eu me sentia fora de ar. Eu queria que houvesse algo no mundo que dissesse se aquilo, essa minha vontade de correr para ele novamente, era amor ou saudades. Queria que houvesse algum baralho, mágica ou qualquer ritual ocultista que me mostrasse qual era o caminho certo a seguir.
  Era estranho pensar que %Filipe%, que sempre fora minha constante, no momento, era minha dúvida. Eu ficava tentando lembrar os motivos da nossa separação, tentei ficar com raiva lembrando de como ele começou a namorar dias depois de ter terminado comigo, fiquei tentado sentir desconforto com ele. Mas nada vinha. Eu apenas sentia muita vontade de voltar para casa com ele.
  — Aconteceu — sussurrei no ouvido de Victoria, que me olhou, confusa. — Eu e %Filipe%. Nós transamos. — Antes mesmo que eu terminasse a frase, minha amiga teve uma crise de tosse ao se engasgar com o vinho, derramando o restante do líquido da taça em minhas pernas. — Vic, que porra!
  — Ah, meu Deus. Desculpa! — Tossiu, batendo no próprio peito. Jack puxou um lenço de papel e colocou sobre minhas pernas, ajudando a absorver o líquido. Era uma calça de cor clara, que ótimo. — Vamos trocar essa calça, antes de manchar. — Puxou-me pelo braço em direção ao pequeno escritório onde eu ficaria hospedada naquele fim de semana.
  — Não preci… — Seu olhar mortificante paralisou minha frase e eu apenas deixei a ruiva me guiar.
  Fui praticamente lançada para dentro do cômodo. Victoria parou em minha frente, cruzou os braços e ficou me encarando. Ergui uma sobrancelha, confusa.
  — O que foi? — questionei.
  — Cinco semanas. Você ficou na fossa mais de um mês depois do %Filipe%.
  — Eu sei, eu lembro — murmurei, indo até a mala em busca de uma nova peça de roupa.
  — E agora vem dizer na maior tranquilidade do mundo que vocês estão juntos de novo — resmungou.
  — Opa, eu não disse isso — neguei veemente. — Eu disse que nós transamos, é diferente. Foi algo... casual. — Dei de ombros.
  — A última vez que transei casualmente sem estar em um relacionamento eu acabei engravidando, %Julie%. Desembucha, você está muito séria. Em outros tempos você estaria rindo e brincando com sua própria trapalhada.
  — Você falou certo, é uma puta trapalhada. — Suspirei. Tirei a calça e coloquei um short confortável. — Vic, o %Filipe% quer voltar — revelei.
  Victoria ficou me olhando por um minuto inteiro, como se estivesse avaliando minhas reações. Seus olhos agateados corriam pelo meu rosto enquanto eu quase me enterrava no chão abaixo de mim, intimidada pela avaliação precisa da mulher. Quando abri a boca, pronta para questionar, fui interrompida pelo abraço de Victoria.
  — Já estava mais do que na hora! — enunciou, feliz.
  — Oi? Você não estava me brigando segundos atrás?
  — Sim, mas... Ah, %Julieta%, você e %Fil% são o casal principal desse grupo, acho que no fundo todos nós sabemos que vocês iriam ficar juntos de novo. Me surpreende não ter acontecido antes — confessou, tranquila.
  — É, a mim também, mas… Ah, Vic, sei lá. Não é muita coisa para se encarar em pouco tempo?
  — Pouco tempo? Faz anos que vocês terminaram, %Julie%. Já passou do tempo. É claro que eu fico preocupada, mas você sabe que %Filipe% jamais faria nada para te magoar de novo. E além do mais, as coisas estão diferentes agora…
  — Exatamente, tudo está diferente… Eu estou diferente, Vic!
  — Diferente a ponto de não o amar mais? — perguntou, atenta.
  Suspirei, consciente da certeza que eu tinha em minha resposta.
  — Nunca a ponto de não o amar.
  — Então, para de querer controlar tudo. Eu sei que a vida meio que exigiu que você se tornasse essa mulher mais centrada, mas acho que chegou o momento de trazer a sua %Julieta% juvenil de volta e arriscar mais.
  Quando era mais jovem, eu não tinha muitos problemas em arriscar as coisas na minha vida. Apesar de reclamar, apesar de sempre pensar duas, três vezes, eu fazia. Afinal, foi assim que meu relacionamento com %Filipe% começou. Sem muita pressão, sem muitas cobranças.
  — Minha mãe vai me matar… — Victoria gargalhou ao ouvir meu lamento.
  Meu pai amava %Filipe%. Desde que os apresentei, os dois desenvolveram uma espécie de bromance da terceira idade, visto que ambos amavam xadrez e era assim que passavam a maior parte do tempo, como dois velhos em um banco de praça. Surpreendentemente, foi minha mãe que criou uma barreira protetora comigo em relação a %Filipe%. Ela achava que a fama me afastaria dele e bom, basicamente foi isso mesmo que aconteceu. Só que ao contrário.
  Fomos tiradas do quarto pelos gritos chorados de Diana, que fazia seu pai e seu padrinho Cameron andarem desesperados pela sala com a neném. Troquei olhares com %Filipe%, que ria quase desesperadamente da situação dos dois homens em sua frente.
  — O que houve? Ela está com fome? — questionou Vic e esticou os braços, buscando pela bebê.
  — Não, está irritada, não sei mais o que fazer. Fralda limpa, barriga cheia, brinquedos preferidos… — Jack enumerou a lista de afazeres que Diana impunha.
  — Deixa eu tentar — sugeri. Peguei a bebê no colo. Balancei, cantei e nada adiantou. Cameron tentou o mesmo e logo começamos a suspeitar que talvez ela estivesse sentindo alguma dor ou incômodo.
  — Bom, ninguém me pediu, mas… — %Fil% levantou do sofá, tirou o casaco e veio até nós. — Me passa a criança.
  — Ow, ow, calma aí, senhor %Buchart%. — Jack passou em sua frente, barrando–o. — Você não vai derrubar minha filha no chão, vai? — %Filipe% bufou, empurrando Jack e pegando a bebê dos braços de Cameron.
  — Vem aqui, Lady Di. É, eu sei, essas pessoas em sua volta te deixam nervosa, eu sei… — murmurou %Filipe% no ouvido da pequena, afastando-se para o outro lado da sala.
  Enquanto isso, assistimos embasbacados os gritos de Diana tornarem-se um choro baixinho e logo, transformou-se em pequenos balbucios. Aparentemente, eu não era a única naquela sala que me derretia nos braços de %Filipe% %Buchart%.
  — Como…? — Jack apontou, confuso.
  — Desde quando você sabe carregar uma criança? — Cameron também expressou sua surpresa.
  — Aprendi com ela — respondeu %Filipe%. Como se estivesse respondendo, Diana deu um gritinho e balançou os braços, e nós nos olhamos assustados. — Sim, você também é a minha preferida.
  — %Fil%, vem morar com a gente? — brincou Victoria, rindo. — Sério, isso nunca acontece. Ela demora muito para parar de chorar. O que você fez?
  %Filipe% deu de ombros, negando com a cabeça. Olhou para Diana com um sorrisinho no rosto e passou o dedo pelo cabelo da pequena, que logo procurou a mão do cantor para levar até sua boca.
  — Ah, droga — murmurei, frustrada. Virei-me para Victoria, que me olhava divertida. — Eu vou ter que casar com ele, não é? — Minha amiga gargalhou, puxando-me pela mão e indo até a cozinha, colocar o jantar na mesa.
  Passamos o jantar inteiro rindo e atazanando %Filipe%, que quase não conseguia comer bem com Diana nos braços, já que a bebê chorava em recusa a qualquer menção de ser carregada por outra pessoa ou ser colocada na cadeirinha. Após o jantar, cantamos parabéns para Cameron, nos abraçamos, brindamos e tiramos umas centenas de fotos com a câmera analógica do rapaz.
  Todos nos emocionamos quando Victoria e Jack fizeram a ele o convite de ser o padrinho de Diana. Jack até brincou dizendo que já havia mudado de ideia, visto que a criança claramente preferia %Filipe%. Mas é claro que quando fosse mais velha, seu tio preferido seria Cameron, não havia dúvidas.
  Após isso, decidimos começar a nos organizar para dormir. Já era madrugada e tínhamos planos turísticos para o dia seguinte. %Filipe% havia ido para o banho enquanto Jack e Victoria se preparavam para colocar a nossa pequena Lady Di para dormir pela terceira vez.
  — Se ouvirem gritos, não hesitem em mandar %Filipe% ao nosso resgate. — Rimos, concordando. Victoria ajudou Jack, que carregava Diana já quase adormecida, deixando Cameron e eu sozinhos na sala de estar. O olhei de canto de olho, sorrindo e ele gargalhou.
  — É agora que, finalmente, nós vamos nos agarrar? — Gargalhamos juntos. Levantei e estiquei a mão em direção a ele.
  — Vem comigo. — Busquei as chaves de %Filipe% dentro da sua carteira e o arrastei até a porta.
  — Espera, é isso mesmo? Porque se for, não acho que seja de bom tom fazermos isso, principalmente no carro do %Fil%…
  — Deixa de ser idiota, Cam! — reclamei, interrompendo-o e indo até o carro. — Quero mostrar algo para você. — Abri o porta-malas, deixando à mostra a vitrola de mesa e os diversos discos que Dana havia deixado em nosso antigo apartamento. Ele era a pessoa certa a receber.
  — Eu sei bem o que é. — Sorriu de lado e se aproximou do interior, passando a mão pelo disco gasto dos Rolling Stones, o seu preferido.
  — Eu sei que sabe. É seu. — Ele me olhou, surpreso. — Feliz aniversário, Cam. — Seus olhos marejados olharam de volta para a vitrola, deixando algumas lágrimas descerem pelo seu rosto. — Ei. — O confortei, passando a mão pelo seu rosto, afastando as lágrimas fujonas.
  — Está tudo bem. É que… Eu sinto que, de alguma forma, você acabou de trazer ela de volta para mim. — Sorri, emocionada e entrelacei nossos braços. Encostei a cabeça em seu ombro enquanto nós dois olhávamos para aqueles discos que continham mais do que lembranças do grande amor de nossas vidas. — Quer testar? — sugeriu e nos entreolhamos, sorrindo cúmplices.

━━━━━◇◆◇━━━━━

  O clima estava ameno e por ser uma cidade afastada do centro, o único som que ouvíamos eram as cigarras, o coaxar dos sapos e o estalar do vinil antigo que escutávamos, sentados no chão da varanda da casa de Jack e Victoria. Enquanto o vinil tocava de forma suave as notas pesadas de Let It Bleed, nós celebramos a vida de Dana Tomanzio.
  Muitas lágrimas foram derrubadas no caminho, mas estávamos em paz. Conversamos sobre ela, trocamos experiência, compartilhamos histórias, relembramos até seu cheiro. Tudo para que ninguém esquecesse até seus mínimos detalhes. Era doloroso, mas era necessário e, até mesmo, acolhedor. Era acolhedor e amoroso assistir as mãos dadas de Cameron e %Filipe%, se apoiando. As lágrimas sinceras de Jack, o preferido de Dana. E os olhares cúmplices que eu e Victoria trocávamos de vez em quando, os olhares de quem conheceu o íntimo e o superficial de uma mulher inesquecivelmente incrível.
  Aos poucos, o cansaço começou a aparecer e todos foram dormir. Decidi ficar um pouco mais, apenas com a luz da varanda iluminando, abracei os joelhos enquanto a canção baixa tocava na vitrola. Suspirei profundamente.
  Era quase possível sentir Dana ao meu lado. A saudade só piorava, apertava nos piores momentos. Eu faria qualquer coisa para vê-la mais uma vez, abraçá-la e contar que eu tinha largado a faculdade, tinha sido promovida a secretária geral da editora e que estava pensando seriamente em voltar com meu ex-namorado. Com sorte, ela me daria a resposta para todas as minhas dúvidas. Após me provocar sobre cada uma delas, é claro.
  Então, nós fumaríamos mais um cigarro, onde ela diria que seria o último. É claro que não seria, mas toda vez que dividíamos um, dizíamos que seria o último.
  Ela reclamaria de Cameron, falando que era impossível reclamar de qualquer coisa dele. Tentaria inventar alguma complicação sem realmente haver uma. Então, riria e diria o quão sortuda era por ter um homem como ele ao seu lado.
  Então, nós faríamos planos de levar Diana para Disney e vesti-la de princesa, a Mérida do filme Valente, que era bem parecida com sua mãe. Victoria reclamaria, é claro, mas no fim, deixaria.
  E aí, a gente fumaria mais um cigarro e antes de dormir, ela beijaria meu nariz, do jeito de sempre.
  Mas ela não está mais aqui, ela não vai mais voltar. Apesar da dor, sigo fingindo que estou bem, que sou forte, que me recuperei. Minto para Deus e o mundo para ver se assim convenço a mim, que já deixei ela ir. Mas é tudo mentira. Dana, minha melhor amiga, era minha maior história de amor, eu jamais a deixaria ir. Então eu me contento com os amigos que ficaram e tento viver da melhor forma possível, pois sei que ela me obrigaria a isso.
  Já me sentindo mais melancólica do que o que eu me permitia ser, levantei a agulha do vinil e a música parou.
  A vida tinha que continuar.
  Quando me preparava para levantar do chão, a porta da frente se abriu e %Filipe% apareceu, acenando com a cabeça:
  — Ei, um de nós dois vai ter que dormir na sala.
  — Por quê? O que houve?
  — Cam se recusa a dormir no mesmo quarto que nós dois — contou, parecendo envergonhado e com isso me fazendo rir.
  — Você contou a ele? Sobre…? — perguntei.
  — Claro que sim! — Deu de ombros e sentou ao meu lado no chão. — Não contei ao Jack porque ele iria…
  — Enlouquecer, é — concordei, sorrindo. Eu já havia contado a Victoria, era questão de tempo Jack descobrir, apesar de ter certeza que Vic não falaria nada sem a minha permissão.
  — Você está bem? — perguntou, preocupado. Pensei um pouco antes de responder.
  — Não. — Ele assentiu e olhou para o toca-discos, pensativo. Retirou o vinil e o guardou cuidadosamente. Levantei uma sobrancelha, sentindo-me estranhamente risonha. — Não vai falar nada?
  — Ué, se não há nada que eu possa fazer para mudar, melhor ficar quieto. — Deu de ombros novamente.
  %Filipe% sempre pareceria mais jovem do que realmente era, especialmente quando fazia ações infantis que estava acostumado, como dar de ombros, fazer perguntas repetidas ou apenas sorrir. Ele tinha um sorriso de menino.
  “Nossa casa, nosso sofá, nossa sala”. Minha mente parecia repetir incansavelmente a mesma frase desde a hora que foi dita por ele.
  Desviei o olhar e observei a rua de pedras que estavam em nossa frente, silenciosa e serena. As casas todas eram simples, mas extremamente bem cuidadas e limpas. Era de uma tranquilidade que até me assustava.
  — É um bom jeito de viver, não é? Essa cidade é coisa de outro mundo — comentei, analisando em volta.
  — É… — concordou, vagamente. — Você não conseguiria.
  — Como não? — questionei, curiosa.
  — Você ama a cidade e todo aquele barulho — explicou, informalmente. O olhei, meio surpresa com a forma que sua explicação básica havia mexido comigo.
  Amo mesmo. Amo as minhas cidades, todas elas e suas marcas permanentes.
  Eu estava cheia de marcas. As marcas que todas as cidades que vivi e amei deixaram em mim. As marcas do Jeins, infelizmente, foram profundas demais e o ar poluído que respirei lá, viveria em mim para sempre. As marcas que Hillswood deixou foram diferentes. Lá encontrei o que nunca tinha conhecido. Encontrei maturidade, encontrei uma felicidade diferente e um tipo de amizade saudável e completa que eu não fazia ideia que existia. Lá também encontrei o amor de uma forma que eu ainda não tinha visto. Agora, eu podia dizer que conhecia o amor, sabia sobre ele e vi o amor nascer em cada amigo meu que viveu um romance fugaz.
  De repente, parecia bastante nítido, inconfundível e óbvio.
  — Eu quero aquilo — murmurei, enquanto via os olhos nebulosos de %Fil% me encararem. — “Nossa casa, nosso sofá, nossa sala”. — O homem em minha frente sorriu de lado, nem um pouco surpreso, mas aliviado. — Quero que você pegue minha mão e volte a ser meu, porque eu estou cansada de não ser mais sua, %Filipe% %Buchart%.
  Seus lábios chegaram nos meus de forma urgente e beijaram-me com vontade e a mesma energia que eu senti no dia do primeiro aniversário dele que passamos juntos, naquela casa no litoral. O dia em que eu finalmente, admiti para ele e para mim mesma o quão apaixonada eu estava por ele. E talvez eu ainda seja. Inclinou-se sobre mim, fazendo com que deitássemos no chão de madeira.
  — Eu tenho uma pergunta para fazer antes disso tudo. — Afastei-me de seus lábios enquanto ele beijava meu rosto ternamente.
  — Qualquer coisa.
  — Qualquer coisa? — Ergui a sobrancelha, desafiando-o.
  — Qualquer coisa, %Julieta% — reafirmou, colocando meu cabelo atrás de minhas orelhas e acariciando meu rosto. Sorri diabólica.
  — Você beijou ou não beijou a Rachel, aquela groupie nova iorquina de peitos gigantes? — Primeiro ele me olhou assustado, depois soltou uma risada tão alta que até mesmo a bebê Diana devia ter se assustado.
  — Completamente maluca! — sussurrou para si mesmo, olhando-me de uma forma apaixonada. — Quer saber? Beijei. — Abri a boca, surpresa, sem estar esperando realmente uma confissão. Ele ria enquanto eu estapeava seus braços, tentando me livrar de seu aperto. — Mas se você, %Julieta% Young, voltar a usar aquela aliança, eu prometo que não beijo mais ninguém além de você... E das nossas futuras mini %Julieta%s, é claro.
  — Mini %Julieta%s? — perguntei, ansiosa em busca de sua confirmação que nós teríamos filhos um dia.
  — Ou mini %Filipe%s. Eles decidem o que querem ser. — Assenti, emocionada demais para conseguir falar algo mais relevante, então apenas o beijei novamente, sabendo que tinha feito a decisão certa.
  Eu precisava me dar uma chance de ser feliz completamente de novo. Precisava aceitar logo o fato de que %Filipe% %Buchart% era o cara certo para mim, ele era o homem da minha vida. Eu precisava aceitar o fato de que eu tinha os melhores amigos que poderia pedir, de que minha irmã havia se apaixonado por um homem, mesmo que tivesse amado mulheres durante sua vida inteira e que Barbara, a garotinha de cabelos loiros que roubou minha paixonite na pré-escola, era apenas uma garotinha.
  E não, eu não era imune a histórias de amor, eu só não havia identificado as várias que eu havia vivido intensamente. E eu sei que disse que não morreria em um acidente de carro e bom, eu não morri, apenas estou presa a fisioterapia por quase toda minha vida por conta de um. Eu também disse que eu não teria câncer. Pois é, eu não tive. Mas minha melhor amiga o teve e foi isso que a tirou de mim para sempre.
  Mas no momento, enquanto eu estava deitada no chão da varanda dos meus melhores amigos, recebendo os beijos e carinhos do meu melhor amor, eu não queria pensar em nada que foi tirado de mim. Eu não queria mais pensar em nada, eu passei muito tempo pensando antes de fazer e não fazendo nada. Agora eu queria gozar das facilidades e diversidades que a vida traria para mim com clareza e maturidade.
  Dito isso.... Nós vamos ficar bem. Todos nós. Algum dia.

Fim

  Nota da autora: Após algumas crises políticas globais, uma copa do mundo, uma olimpíada, uma pandemia, Talvez Não Seja uma História de Amor chegou ao fim! HAHAHAHAHA
  
  TSHA foi postada lá no finalzinho de 2018, mas já era planejada há bem mais tempo que isso. Foi minha primeira história publicada e finalizada e eu tenho muito, muito orgulho da minha história e do caminho que percorremos até aqui.
  Eu sempre disse que TSHA é uma história de gente de verdade, de humanos para humanos. Eu sempre quis escrever de forma clara que meus personagens não são perfeitos, pelo contrário, todos são cheios de defeitos, mágoas, tristeza, inveja, insegurança e, muitas vezes, inadequados.
  Será que Dana realmente é mimada? Será que %Julieta% é arrogante? Será que Jack é imaturo? Será que %Filipe% é chato? Bom, eu tenho minha opinião, %Julieta% (cuja história é narrada sob seu ponto de vista) tem uma opinião e você pode ter outra opinião. A gente nunca está 100% certo ou 100% errado.
  E se você chegou até aqui irritada com o final quase "inconclusivo", te convido a refletir sobre o que faz um final feliz de verdade. E como sempre, me desculpem qualquer coisa hahahaha
  Me sigam nas redes sociais pra acompanharem as novidades que vem por aí. Por enquanto, eu só uso o Twitter/X (@julianamff2), porém estou aberta a sugestões.
  No mais, eu nunca vou conseguir agradecer o suficiente a quem passou por aqui e me deu a oportunidade de finalmente me tornar uma autora. Às vezes, é difícil acreditar que tem gente que acredita no nosso trabalho e lê cada palavrinha que sai das nossas mentes criativas. Muito obrigada por terem adotado meu primeiro filho! Hahahaha
  Um agradecimento especial a quem comentou em cada capítulo, o sentimento de contar uma história falando com as paredes passou longe de mim e eu me senti acolhida de verdade. Obrigada a quem não comentou, mas que gostou de verdade de TSHA, eu também agradeço de coração. Eu espero do fundo do coração que tenham gostado da minha história, nem que seja só um pouquinho.
  
  Nos vemos em breve, cuidem de si e dos seus, abraços! ♥

Epílogo
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Lelen

EU NÃO TAVA ESPERANDO POR ESSE FINAL.
Meu coração não tava pronto para isso. Tava nem no meio da história e já tava chorando. Eu tava achando o casal “Dana e Cameron” tão lindinho, COMO TU ME FAZ ISSO, MULHEEEER???
E o final da Julieta e do Fil, eu quero acreditar que finalmente deu certo e eles vão ter um monte de Julietinhas e Filzinhos, vão ter netos e bisnetos e vão viver felizes para sempre porque eu preciso acreditar que na vida real existe “felizes para sempre” também HASOIDNASOIDNASOID
Foi muito gostoso acompanhar a evolução dos personagens, tive altos e baixos com eles, mas no final todo mundo terminou no positivo HAHAHA
Vou sentir saudades dessa turma <3

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