Talvez Não Seja Uma História de Amor


Escrita porJuliana M.
Revisada por Lelen


7 • Dilemas.

  Enquanto revirava o catálogo de filmes e séries da Netflix pela terceira vez seguida naquela terça, eu tinha a impressão que já tinha assistido tudo o que tinha ali, quando na verdade, eu só tinha visto uns dois ou três filmes. Nenhum título chamava minha atenção, tudo parecia chato e sem graça. Eu, provavelmente, ia acabar assistindo Friends ou algum desenho animado pela milésima vez.
  Havia passado uma semana desde o acidente. Eu ainda estava de licença médica por conta da cirurgia em minha mão e pela primeira vez desde que eu me mudei para Hillswood, eu não tinha nada para fazer. Eu acordava tarde, passava o dia inteiro no quarto, saía apenas para o almoço ou jantar e logo voltava ao meu quarto.
  A Netflix, o YouTube e os programas de culinária tinham se tornado meus novos melhores amigos. Toda essa inércia fez-me perceber que eu podia ser classificada como workaholic. Ficar sem trabalhar, sem algum relatório para fazer ou alguma pesquisa em mãos estava me enlouquecendo! Gostava de trabalhar, gostava de estudar e era boa nas duas coisas. Às vezes, eu perdia o foco, mas em geral, eu sabia muito bem o que fazer.
  Eu estava tão entediada que tinha feito uma linha do tempo da monarquia holandesa, li um livro sobre a democracia ateniense, arrumei meu armário depois de meses enrolando, organizei todos meus livros e dormi (muito!). Todas as atividades feitas com muito esforço, pois como já foi citado, eu tinha muita dificuldade em usar apenas a mão esquerda.
  Aproveitei também para resolver minha vida estudantil e profissional. Tardei a organizar isso pois cada vez em que pensava em pegar o celular e ligar para os meus superiores, a ansiedade me sufocava. Na quarta tentativa, liguei para o conselho estudantil do Jeins (que eram os responsáveis por mim e minha graduação) e expliquei tudo o que aconteceu. Eles conversaram com a reitoria da universidade em Hillswood e um dia depois, ligaram-me, dando a resposta.
  Tinham entrado no consenso de que eu poderia voltar as aulas se eu iniciasse acompanhamento psicológico e conseguisse acompanhar a turma. Chorei um pouco quando recebi a ligação porque achava que não merecia todas as oportunidades que eu estava recebendo.
  Joguei o controle remoto da TV para longe de mim, sentindo raiva da coitada da Netflix, que não tinha culpa alguma da minha monotonia. Bufei estressada, preparando-me para pegar o controle remoto de novo. Quase pulei de alegria ao ouvir alguém bater à porta do meu quarto. Olhei no relógio do celular para ter a certeza de que a única pessoa que poderia estar ali era ela.
  — Está acordada? — perguntou Dana, colocando apenas a cabeça pela fresta da porta.
  — E entediada, ainda bem que você chegou. Vem aqui! — implorei, recebendo-a com os braços abertos. Ri quando Dizzy veio correndo, jogou-se na cama de joelhos e abraçou-me com força. — Tudo isso é saudade?
  — Também... — respondeu, meio aérea, amarrando os cabelos longos em um coque. Olhou para a TV, que exibia o logo inicial do serviço de streaming e perguntou: — Vai assistir o quê?
  — Não sei, queria assistir algum filme, mas nem um parece ser tão legal. Tentei assistir aquela série dos vampiros, ou zumbis, que você gosta, mas não passei dos primeiros episódios — resmunguei, lembrando da péssima atuação e narrativa da história. — %Filipe% também estava me infernizando para assistir essa!
  — Ah, que pena que você não curtiu. — A morena desviou o olhar para a TV, parecendo desconfortável de repente.
  Na real, ela não parecia muito, mas eu conhecia Dana mais do que a mim mesma. Eu não sabia o que tinha acontecido, mas tudo estava estranho. Dizzy não citava mais %Fil% nas conversas, ele parecia fugir da garota quando ia até nosso apartamento.
  A lembrança do que tinha acontecido na sala, na noite em que voltei do hospital, fez-se presente. Não sabia o que tinha acontecido entre eles, mas o que quer que fosse, Dizzy devia estar com a cabeça lotada e morrendo de vontade de conversar. Então eu pensei que era melhor não adiar isso.
  A hora da verdade.
  — Você é minha pessoa e sabe disso, não é? E nós sempre fomos sinceras uma com a outra, certo? — A morena levantou a cabeça, fazendo seus cabelos caírem do coque e descerem como cascatas pelos seus ombros. Olhava-me surpresa e confusa, perguntando-se onde eu queria chegar com aquilo. — Eu preciso que você me diga o que está acontecendo, Dana.
  — Do que você está falando? — Ajeitou sua postura, encarando-me atenciosa.
  — Se você gosta dele, tudo bem. — Decidi ser direta e clara quando notei que ela iria mudar de assunto ou se fazer de desentendida. — Ele fez alguma coisa para você? Me diga algo, Dana. Eu preciso que você me ajude a te ajudar.
  A surpresa e incredulidade passaram pelo belo rosto de Dana e logo transformaram-se em negação.
  — Você está falando do %Fil%? — tentou disfarçar. As mãos inquietas, mexendo nos cabelos a todo instante. — %Julie%, eu sinto muito se nós dois demos a entender que temos algo, eu sinto muito se fiz você ou ele achar que poderia ter algo mais...
  — Dana! — a interrompi. Vendo seu nervosismo e sua tentativa falha de negar, eu meio que já sabia o que vinha a seguir. Levantei uma sobrancelha com um meio sorriso, tentando ser mais agradável e acolhedora possível. Ela me encarou por meio segundo, com os lábios entreabertos e os olhos pesados. Fez um som de descontentamento com a boca e esfregou o rosto rapidamente. — Está tudo bem, pode falar!
  — Eu o beijei — sibilou e depois suspirou, como se estivesse aliviada. Não tive tempo de reagir, apenas ergui minhas sobrancelhas.
  É claro que eu já esperava algo acontecendo. Entretanto, eu esperava por alguma conversa mais atenuada, uns toques de mãos, flertes e coisas básicas. Eles já tinham passado da primeira base! Um beijo sempre significa alguma coisa.
  — E aí? — questionei. Eu não estava fingindo interesse, eu realmente queria saber.
  Queria que ele e Dana decidissem o que eles queriam um com o outro, assim eu poderia voltar a minha antiga vida, sem nenhum romance e ficar triste enquanto assistia Grey’'s Anatomy.
  — Ele não me beijou de volta... mas eu quis beijar ele, então, eu beijei. Acho que fiz errado, mas preciso te falar que eu quis, %Julie%. Eu quis muito — contou, sentando-se ao meu lado, meio receosa. A expressão carregada de arrependimento e ansiedade, esperava pela minha reação.
  — Eu não sei você, mas eu culpo aqueles braços. — Joguei minhas pernas em cima das pernas dela e entrelacei nossos braços. Dana expirou fortemente, como se estivesse prendendo sua respiração desde que entrara no quarto, e balançou a cabeça em negação.
  Senti que Dizzy estava nervosa então achei melhor brincar para amenizar o clima para ela. Detestava ver a garota ansiosa, não combinava em nada com sua personalidade espontânea. Eu também não queria que parecesse que eu me importava.
  Não que eu não me importasse, só não queria Dana soubesse disso. Pelo menos, não por enquanto.
  — Fala sério, garota! Estou aqui, abrindo meu coração para você! — reclamou, batendo com seu ombro no meu, mas rindo. — O que vamos fazer?
  — Você sabe, Dizzy, se você quiser, ele é todo seu — assegurei com toda a sinceridade.
  Eu não deixaria um cara legal tipo o %Filipe% ficar preso comigo e minha loucura quando ele poderia ter uma garota excepcional como Dana. Além do mais, me pouparia da humilhação de ter que ser posta em disputa com Dana. Era até injusto comigo.
  — Mas…. Você e ele, %Julie%! — contestou Dana e apoiou a cabeça em meu ombro.
  — Não somos tudo isso. — Essa parte era meio verdade. Eu não sabia se %Fil% e eu éramos alguma coisa. Tudo entre nós era subentendido e eu não imaginei que isso acabaria me causando problemas.
  — Mas você e ele não conseguem ficar separados — declarou, choramingando.
  — Como você sabe? Se você quiser, eu me afasto. — Suspirei, oferecendo soluções ao nosso infortúnio.
  Não acreditava que realmente estava jogando o meu cara para os braços de outra, mas era mais forte que eu. Quando se tratava de Dana, eu perdia meus egoísmos e pensava nela primeiro sempre.
  — Vocês dormem juntos. — Ela tentou de novo.
  — Eu também durmo com você.
  — Ele cancelou um show para ficar com você! — insistiu.
  — Você também já cancelou uma viagem a trabalho por mim! — Revirava os olhos enquanto rebatia todas as tentativas de Dana.
  — Ele te beija, %Julie%. — Desencostou a cabeça do meu ombro, ficando séria demais, de repente.
  — A gente também já se beijou, ué — repliquei, dando de ombros. Acabamos rompendo em risadas por conta da breve conversa pingue-pongue.
  — Caramba, %Julie%. Fala sério, poxa! Ele não me beijou de volta, sabe? Ele falava o tempo todo que estava com você. — Encarei o rosto retorcido de Dana e quase fiquei com dó. Quase. A %Julieta% antagonista adorou o que foi dito, mas eu me recusava a deixar a %Julie% vilã e malvada aparecer com Dizzy.
  — Amiga, você pulou no cara do nada! Ele deve ter ficado assustado, com medo ou algo assim — tentei contornar a situação, tentei não criar nenhuma expectativa em relação ao que Dana contou. Nem para ela, muito menos para mim. — Quando isso aconteceu?
  — No dia do acidente. Amiga, eu quis morrer! — confidenciou, chorosa. — Quando o telefone tocou com a notícia do que tinha acontecido com você eu entrei em pânico. Parecia que Deus sabia exatamente como me punir! — Fiz um biquinho quando notei seus olhos pequenos cheios de lágrimas.
  — Meu amor, isso foi coisa do acaso — consolei, passando um braço em volta de seus ombros.
  — Foi tudo tão pesado — exprimiu, tristonha.
  — Ia acontecer de uma forma ou de outra. Só calhou de tudo acontecer no mesmo dia.
  — Você acha que ia acontecer? Quando todos nós nos conhecemos, eu até achei que poderia rolar algo — murmurou, brincando com os próprios dedos. — Mas nunca quis comentar nada pois vocês trocam saliva desde o primeiro dia.
  — Eu desconfiei de vocês dois desde o início. Sabia que eu estava certa! — confidenciei a Dana e ergui uma mão em comemoração. Ela encarou-me de boca aberta.
  — Você percebeu! — gritou, apontando o dedo para mim e eu gargalhei.
  — Desde o início — contei, ainda rindo da cara dela. Dana ainda duvidava das minhas grandes capacidades de percepção.
  — Porra, %Julie%! Nada passa de você mesmo. — Encostou-se em mim, novamente. Suspirei, pensando no que falar.
  Agora era o aquele momento. O momento em que eu tinha que decidir entre ser uma pessoa amiga e altruísta ou uma pessoa egoísta e maldosa. Eu já tinha todo um plano maquiavélico em minha mente de como fazer %Filipe% e Dana sentirem raiva um do outro e pararem de se ver e qualquer coisa que fosse deixar o meu caminho livre.
  Mas quem estava ali, segurando minha mão, abrindo o jogo comigo de forma honesta e consciente, era Dana.
  Então, eu não precisei nem pensar duas vezes.
  — Se um cara pode ser provável de nos dividir, eu prefiro me manter longe e deixá-lo para você. Eu prefiro ser sua amiga, Dizzy, acima de tudo.
  Ela não se moveu, não me olhou, continuou com a cabeça encostada em meu ombro. Também não falou, apenas ficou quieta por alguns segundos. Quando comecei a ficar tensa com sua demora para responder, sua mão entrelaçou na minha.
  — Eu amo você. — Ouvi a voz baixinha de Dana e sorri. Virei o rosto, virando o rosto de Dana com a minha mão machucada. Encostei meus lábios na ponta do seu nariz de leve. Foi meu jeito de responder que eu também a amava. — O que vamos fazer?
  — Você decide, Dana. — Ela ficou em silêncio. Provavelmente pensando em alguma resposta para esse dilema, em como resolver o trabalho sujo que eu havia jogado em suas mãos.
  — Você acha que estamos sendo injustas com ele? — perguntou-me Dana. — A gente nem sabe como ele se sente, %Julie%.
  — Pergunta para ele, ué. — Dei de ombros. Peguei de volta o controle remoto, voltando à caça de filmes na Netflix. Decidida a me distrair o suficiente para esquecer o meu futuro fracasso amoroso.
  — Está maluca? Pergunta você, tem mais intimidade com ele do que eu.
  — Mas se eu perguntar vai parecer que eu estou cobrando alguma coisa! — comentei, fazendo uma careta.
  Era tudo o que eu menos precisava naquele momento. Deixar %Filipe% acreditar que nós tínhamos um futuro quando eu já estava decidindo nosso término sem ele saber.
  — Ótimo entrar nesse assunto, inclusive. E você, %Julieta%, como você se sente? — Dana me encarou, com os braços cruzados. Atentando-se a cada feição minha, esperando por qualquer reação que meu rosto fosse explanar.
  — Um pouco dolorida. — Passei a mão pela lateral do meu corpo e fiz uma careta.
  — %Julieta%! O que rola entre vocês? Quão sério é? — insistiu ela, dando um peteleco na minha testa.
  — Eu estou normal. %Fil% é legal e tudo mais, a gente sai e só. Eu já disse que estou disposta a me afastar. — Enrolei um pouco na resposta, mas Dana não pareceu notar. — Está em suas mãos, Dizzy.
  Olhei em volta do quarto enquanto Dana colocava a engrenagem para funcionar. Encarei meus dedos, estavam sem o gesso agora, deixando à mostra o quão inchados estavam.
  Graças a %Filipe%, estavam bem higienizados. Ele aparecia no apartamento sempre que podia e reclamava por eu ter sofrido um acidente justo quando ele não podia ficar comigo o tempo todo devido sua agenda apertada. Mas sempre que possível, ele cuidava dos meus pontos inflamados, passavam remédio no meu olho roxo e fazia massagem nas minhas costas.
  — Vamos deixar rolar. — Dana me tirou dos meus pensamentos. — Eu falo com ele sobre o beijo, vejo o que ele vai falar e te conto. Só vamos prometer uma coisa: Sem traições, sem boicotes. Se ele quiser ficar com você, é isso e pronto. Se ele quiser ficar comigo, é isso e pronto.
  — Por mim, tudo bem. — Sorri para ela, mas eu não estava tão bem assim. Eu sabia que %Fil% escolheria Dizzy. Quem em sã consciência escolheria a mim?
  — Só a gente mesmo para discutir como dividir um cara tão amigavelmente. — Ela riu e deu um beijinho no meu nariz. — Você é a melhor!
  Gargalhei. O pior é que isso era realmente engraçado. Tragicamente engraçado, mas, ainda assim, Dana era a última pessoa do mundo que eu escolheria para entrar em um triângulo amoroso.
  — Almas gêmeas, não é? Não esperava menos. — Rimos juntas. Peguei o controle da TV e voltei a minha busca por entretenimento.
  — %Julie%, ele não falou nada sobre o beijo? — perguntou, curiosa, após alguns segundos de silêncio.
  — Não e nem vai — concluí. Dana olhou-me confusa, questionando o porquê. — Eu acho que ele tem medo de fazer qualquer coisa que faça parecer que estamos em algo sério. — Dei de ombros enquanto expus minha opinião.
  — Está vendo, %Julie%? Eu não sei nada do que se passa entre vocês. Vocês conversam sobre relacionamentos sérios?
  — Não é nada demais. Ele acha que se comentar de relacionamento comigo, eu vou sumir. E eu vou mesmo, você sabe.
  — Porra! Ele quer namorar você! — A morena jogou-se na cama, quase parecendo derrotada.
  — Não, é menos sério do que parece. — Gargalhei do seu breve desespero.
  — A gente não pode simplesmente convidar ele para um ménage e esquecer tudo isso? — sugeriu, olhando para o teto.
  — Dessa vez, acho que não.
  Eu até queria que aquela fosse a solução, mas nossas aventuras sexuais não eram o suficiente para um cara como %Buchart%. A situação agora era outra. Eu e Dizzy não estávamos só procurando um orgasmo. Dana não queria só sexo, ela nunca abriria o jogo comigo se fosse só desejo carnal, ela daria um jeito de outra forma. Ela queria se comprometer, namorar. E eu….
  Bom, não sei muito bem o que eu queria. Só sabia que eu gostava de ficar com %Fil%, muito. E entregá-lo com um laço na cabeça para Dana me parecia dolorido.
  Passamos o resto do dia assistindo filmes da Disney, mas Dizzy sempre acabava voltando para o assunto %Filipe% e eu tinha que fingir que aquilo não estava me incomodando. Dana perguntava sobre ele, como falar com ele, já que ela não o conhecia tanto como eu. Com isso, acabei descobrindo que conhecia mais de %Filipe% do que deveria.
  Conhecia seu jeito leve e calmo de ser, sabia que ele sempre estava atrasado (não por arrogância e, sim por ser meio desligado em relação a horários), sabia que ele gostava de cozinhar, mas não tinha o menor talento para isso. Sabia que ele tinha um grupo fiel de seguidores, que iam em seus shows sempre, até quando ele cantou em cada pub e casa de shows da cidade.
  Sabia que ele sempre tomava banhos gelados antes de dormir e que dormia de cueca samba canção (eu particularmente amava quando ele usava). Que odiava ir à academia, mas gostava de se manter em forma, então ia sempre que podia.
  Em um plot engraçado de Mulan, que sempre fazia eu e Dizzy quase morrermos de tanto rir, meu celular tocou. Tínhamos tantas piadas internas que envolviam frases de filmes da Disney, que se tornavam mais engraçadas do que realmente eram. Dana esticou-se para pegar o meu celular e me entregou, transitando do sorriso para uma expressão chateada rapidamente. O nome de %Filipe% na tela me despertou do transe que Mulan sempre me deixava.
  — Deixa tocar. — Coloquei o celular no silencioso, ignorando minha vontade de falar com ele.
  — %Julie%, atende. Sem problemas. Ele não está na cidade, deve estar querendo falar com você. — Pegou o celular de volta, estendendo-o até mim.
  — Estamos vendo filme, Dizzy! — retruquei, ignorando-a.
  — Que já assistimos umas setenta vezes. Atende, vai! — insistiu ela e estendeu-me o aparelho novamente. Revirei os olhos e deslizei o dedo pela tela, confirmando a chamada.
  — Fala, baby! — atendi naturalmente. Era natural para mim e %Filipe% atendermos nossas ligações assim, esse lance de chamarmos um ao outro de “baby” era uma piada interna nossa.
  Uma vez fomos a um bar e nos sentamos ao lado de um casal muito bizarro. Ela parecia saída de um catálogo da Victoria’s Secret e ele parecia um mendigo. Seriam até bonitinhos, mas ambos tinham a voz irritante demais e falavam "baby" no final de cada frase. Sem exageros. No final de cada frase.
  Começamos com uma brincadeira, uma piada, mas a palavra acabou tornando-se um cumprimento carinhoso e contínuo entre nós. Porém, repreendi-me, pois, lembrei que Dana não sabia disso. Não queria que parecesse que eu estava jogando as coisas na cara dela ou algo assim.
  — Escuta essa música! — %Filipe% quase gritou do outro lado da linha e eu fiz uma careta ao escutar o som estourado. A ligação estava fraca e tinha muito barulho onde ele estava.
  Também reprimi a vontade de perguntar onde ele estava e com quem. Não só porque Dana estava ali, mas também porque eu sempre me censurava quando podia vir a ter ações de namorada e cobrá-lo demais, como aconteceu com a situação da nova iorquina de peitos grandes.
  — Não dá, está barulho demais — reclamei, tampando o outro lado do meu ouvido, tentando ouvir melhor.
  — Agora! — gritou mais uma vez e logo depois foi possível ouvir um coro de pessoas cantando Bob Dylan, sorri profundamente.
  Nós sempre tínhamos grandes discussões sobre Bob Dylan. Eu achava o cara superestimado, até conhecer %Filipe%, que era um grande fã do mesmo. Qualquer oportunidade que ele tinha de tocar Bob Dylan, ele usava.
  Ele dizia que eu não podia andar ao seu lado enquanto eu não aceitasse Dylan como uma das divindades da música. Eu já estava acostumada a jantar na casa dele ao som de Nashville Skyline.
  — Dylan! — Ri suavemente, reconhecendo a letra de Peggy Day com um pouco de esforço. — Tudo bem, %Filipe%, o cara é bom. E isso é o máximo que você vai conseguir de mim.
  %Filipe% comemorou e ainda tentava falar, mas o barulho estava demais e eu logo expliquei que estava assistindo filme com Dana, que a gente se falava melhor outro dia. Ele apenas disse “tudo bem, ligo mais tarde, beijo para Dizzy”.
  — Ele mandou um beijo — repassei a mensagem enquanto desligava o celular. Dizzy soltou uma risada sarcástica e revirou os olhos. — Dana….
  — Está tudo bem, %Julie% — assegurou, deixando um beijo carinhoso na ponta do meu nariz e voltando a olhar para a TV. Suspirei, queria falar mais, porém, fiz o mesmo.
  Eu queria ser legal com tudo isso, queria ajudar Dizzy, eu sabia o quanto um amor e um relacionamento faziam falta na vida dela, mas não consegui não ficar com o coração apertado de ter que ser coadjuvante em mais uma história. Ou pior, na minha própria história.

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  Setembro.
  Você já tentou se manter longe de alguém que você sabe que te faz bem? Já se sentiu um completo intruso, mesmo que todos te tratem bem e você seja totalmente incluída no grupo? Já se sentiu a pessoa mais solitária do mundo, mesmo que estivesse rodeada por pessoas queridas? Não são sentimentos agradáveis. Eu me sentia perdida em minha própria confusão. Como se estivesse em luta com minha própria persona, sentindo-me presa em um labirinto.
  Debrucei-me sobre a janela do carro e fechei os olhos, sentindo apenas o vento forte golpear meu rosto. Senti-me pequena demais para ter tanto vazio dentro de mim. Eu não estava triste, nem com raiva. Estava simplesmente desguarnecida, alheia a tudo e a todos. Minha presença incomodava a mim mesma e tinham dias que eu me sentia desconfortável ao extremo.
  Estávamos indo para uma reserva ecológica que Jack tinha conhecido há uns anos. Decidiram passar o fim de semana acampando lá, usando a desculpa de que todos estavam cansados da rotina de trabalhos e compromissos e só queriam se divertir, mas eu sabia que eles só estavam tentando me distrair.
  Depois do acidente, Dana reuniu todos em casa e me fez explicar a todos o que tinha acontecido comigo. Ela me fez entender que eu precisava compartilhar com as pessoas que mais me ajudaram no momento difícil, pois o modo como eu estava lidando com tudo — ignorando tudo e todos — era injusto com nossos amigos. Eles mereciam uma explicação.
  No início, eu não queria falar sobre meus problemas para ninguém, fiquei até chateada por Dizzy me forçar a isso. Já tinha sido difícil o suficiente ter que contar para %Filipe%, mas depois, percebi que eu precisava disso, compartilhar minhas angústias. No mesmo dia, Jack contou sobre sua mãe e o câncer. Dana, finalmente, contou sobre sua família adotiva e Cam sobre a ausência de família.
  Acho que foi a primeira vez que conversamos a noite inteira sem um pingo de álcool em nossos organismos. Contamos histórias que não tinham sido contadas para ninguém, trocamos experiências e naquela noite foi como se eu tivesse encontrado meus amigos pela primeira vez. Firmamos nossa amizade. Não era mais apenas coisa de bar. Era compreensão, carinho. Amizade na sua melhor forma.
  Então, por que eu ainda me sentia tão distante?
  Abri os olhos e olhei para frente no momento que tive a sensação de estar sendo observada. %Filipe% olhava-me pelo espelho retrovisor, focado e absorto ao mesmo tempo. Ele tinha sido obrigado a dirigir, já que era o único que não dirigia durante o dia a dia. Obriguei-me a desviar meus olhos do olhar atencioso de %Filipe% e passei a observar a paisagem, mantendo-me um pouco distante da brincadeira deles.
  Ultimamente, as coisas com %Filipe% estavam assim. A gente se falava mais com os olhos do que com palavras propriamente ditas. E parte disso era culpa minha. Desde a conversa quase nada esclarecedora com Dana, eu tentava me manter afastada deles dois. Eu recusava os convites de %Filipe% para sair, mesmo que isso me doesse. Só saia com ele se todos estivessem juntos e mesmo assim, era complicado. Eu podia evitar sair sozinha com ele, dizendo estar ocupada, mas quando estávamos todos juntos, ficava difícil recusar seus beijos delicados e seus carinhos. A cada recusa minha, eu lembrava da nossa conversa sincera na praia. E doía demais.
  Concordei em acampar porque todos iriam, mas quando me foi dito que nós só tínhamos duas barracas, eu já comecei a ficar nervosa. A ideia de dormir com %Filipe% e Dana estava deixando-me enjoada, mas se eu pedisse para dormir com Jack e Cam ficaria estranho e %Fil% poderia ficar chateado. E se isso acontecesse, Dana também ficaria chateada por %Filipe% estar chateado de não estar comigo. Aí eu estaria chateando a todos. Deu para entender? É um processo complicado, eu sei.
  Ficamos afastados do Camping e montamos nossas barracas numa clareira a alguns metros da cachoeira. Ninguém comentou nada sobre quem dormiria com quem, então fiquei calada também. O lugar era absolutamente lindo. A cascata era um pouco alta e não muito larga, mas era totalmente coberta pelas árvores. A água transparente transmitia uma calma gigante em mim, que tinha pavor de entrar em lugares em que eu não enxergava o chão. As árvores em volta projetavam sombra, mas não tampavam o sol. Agradeci mentalmente por estar ali. Eu precisava mesmo ficar longe de tudo, nem que fosse por um dia.
  O problema de ficar longe de tudo que me mantinha ocupada é que eu acabava me perdendo nos meus próprios pensamentos, nas minhas próprias neuroses. As centenas de %Julieta%s faziam-se presentes e eu acabava me escondendo de todas elas dentro de mim mesma.
  Ajeitei as alças do meu biquíni preto, ajustando meus seios e arrumei o blusão branco transparente que eu usava. Sentei debaixo de uma árvore após arrumarmos as barracas, brincando com a água rala que vinha da cachoeira e chegava aos meus pés. Gargalhei vendo Jack tentar escalar algumas pedras para chegar no centro da cachoeira e caindo de barriga na água. Todos nós gritamos um "ouch", fiz careta imaginando a ardência que ele iria sentir.
  Olhei para a pedra maior, quase ia até no meio da água e a ponta ficava coberta por uma fina camada de água. %Filipe% e Dana estavam ali, olhando em volta, comentando coisas entre si. Os dois tinham quase a mesma altura, corpos bonitos, talentosos e eu era toda ao contrário. Dana inclinou-se um pouco, olhando para água. %Fil% veio por trás, segurando-a pela cintura, fazendo menção de jogá-la, ela deu um gritinho, gargalhando e se agarrando nos braços dele. Virei o rosto pois eu podia ser muita coisa, mas não era masoquista. Olhar para eles quando estavam juntos era quase torturante. Pareciam a porra de um casal perfeito.
  — Então... — Cameron sentou-se ao meu lado, entregando um filtro solar em minhas mãos e apontando para os próprios ombros. — Eu geralmente não costumo me meter na vida alheia, nem fazer comentários, mas eu gosto muito de você, %Julie%, então...
  Eu e Cam éramos muito parecidos quando o assunto era observar, então quando ele veio falar comigo, eu já sabia qual era o assunto.
  — A resposta é sim. Eu já percebi e torço para que eles se entendam. — Espalhei o creme pelos seus ombros. Suspirei com força, ouvindo a risada alta de Dana, imaginando a cena que eles deveriam estar protagonizando ali.
  — Você não se importa? — questionou, parecendo meio surpreso.
  — Formam um belo casal, você não pode negar — comentei, olhando para os dois, que agora tiravam fotos na cachoeira com Jack.
  — Não com a situação, com %Filipe%. Você não se importa com ele? — explicou e perguntou, virando um pouco o rosto para mim. Apenas ignorei a pergunta e continuei espalhando o creme pelas suas costas largas.
  — Ele comentou alguma coisa com você? — questionei, entregando a embalagem para ele. Virei de costas, abaixei minha blusa pelos meus ombros e pedi para ele passar o creme em mim também.
  — Não, ele não costuma falar de sentimentos abertamente assim. — Cam jogou mais creme do que o necessário em meu ombro. — Vocês são parecidos nisso.
  — Sério? — Comecei a rir, tirando a montanha de creme do meu ombro direito e passando no outro.
  — Ele só comentou uma vez, na verdade. Veio pedir ajuda porque queria sair com você, mas achava que você não curtia isso. — Lembrei da primeira vez que saímos sozinhos.
  %Filipe% %Buchart% me chamou para um encontro.
  Eu tinha vontade gargalhar quando pensava nisso. Não por ser engraçado de fato, e sim porque eu sentia uma vontade imensurável de rir à toa quando isso vinha a minha mente. Parecia ter acontecido a anos atrás, mas fora apenas alguns meses. Também foi o dia que transamos pela primeira vez. Às vezes, eu me questionava se as coisas não aconteceram rápido demais entre nós. As coisas simplesmente iam acontecendo e nós não ficávamos fazendo jogos um com o outro.
  Nós simplesmente sempre fazíamos o que tínhamos vontade. E quando eu percebi, a gente já tinha se tornado o “casal” do grupo. Ri com a lembrança, balancei a cabeça tentando tirar esse pensamento dali, porque as coisas pareciam diferentes agora.
  — Eu me importo com ele o suficiente para deixá-lo fazer o que ele quiser. — Amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo e encostei no tronco da árvore. Cam se aconchegou ao meu lado, curtindo a sombra tanto quanto eu, assistindo Jack, %Fil% e Dana se aventurando pela cachoeira e tentando ficar de pé nas pedras cobertas de limo.
  — E você? — questionou. Não parecia nem um pouco satisfeito com minhas respostas e pensamentos.
  — No momento, minha maior meta é me manter longe de remédios que podem me causar problemas — brinquei, mostrando meus três dedos, ainda meio tortos por conta da fratura, mas sem pontos e com quase 90% dos movimentos. Tentei disfarçar e enrolar Cameron na resposta porque a %Julieta% malvada me fazia essa mesma pergunta todos os dias.
  “E você, %Julie%? Vai continuar sendo boazinha e legal demais? Vai entregar sua história de amor para outra pessoa? Vai acabar sozinha nessa sessão? De novo?”
  — Ainda dói? — Mexeu de leve no meu dedo mindinho.
  — Só no frio. — Lembrei que Cam tinha seu próprio drama rolando e já que eu tinha falado até demais para ele, decidi perguntar.
  — E a Nicole? Tudo na mesma? Ela tem entrado em contato? — perguntei, curiosa. Cameron tinha um relacionamento de muitos anos. Uma relação tão bonita e saudável que fora muito estranho as coisas terem acabado do jeito que foi.
  — Sinto falta todos os dias, não vou negar. — Suspirou, pesaroso.
  — É claro que sente, você passou quatro anos com ela — proferi num tom leve, para confortá-lo.
  — É, eu sei. Eu não sei se o que mais me incomoda é sentir falta dela ou ter que desacostumar de ter alguém por mim no final do dia. Essa é a verdadeira dificuldade. — Colocou os óculos escuros e pegando a sua câmera, apontou em direção a cachoeira. Parecia querer disfarçar o desconforto de falar sobre sentimentos.
  — Eu posso ser por você no final do dia — brinquei, mas eu sabia que tudo era mais intenso que isso.
  — Ultimamente, todos vocês estão sendo. — Deu uma risadinha fofa, fazendo vários cliques. Pelo ângulo que ele apontava a câmera, o jeito que a segurava e pela luz que iluminava as três pessoas que estavam sentadas na pedra, eu sabia que fotos lindas sairiam dali. — Engraçado isso, não é? Justo nós dois, os mais “fortes” e independentes, somos os que mais precisam de apoio emocional.
  — É, justo nós…. — Entrelacei meu braço no dele e deitei minha cabeça em seu ombro.
  Cameron Koernig era uma das pessoas mais sensíveis e sinceras que eu conhecia, eu esperei muito para ter um amigo como ele um dia. Ele era o tipo de pessoa que passava o dia inteiro de mau humor, tinha fama de mandão no trabalho, mas pararia tudo o que estava fazendo para tomar um sorvete com um amigo. A ausência da família o fez desenvolver a ideia de que seus amigos eram sua família. E eu achava isso lindo, pois a maioria das pessoas falava isso, mas Cam realmente acreditava nisso.
  — No dia em que Nicki terminou comigo, foi no dia do seu acidente — comentou. Franzi o cenho, não sabendo onde ele queria chegar. — Eles estavam sozinhos na minha casa quando eu cheguei.
  — Aparentemente, tudo aconteceu nesse dia. Eles se beijaram — relatei, Cameron me olhou, com as sobrancelhas erguidas, surpreso com a informação. — Ela me contou. Ele não falou nada até agora. Você acha que ele está com medo de me magoar ou está sendo otário?
  — Acho que ele só tem medo de você não se importar. — Fechei os olhos quando uma brisa mais forte nos alcançou. Eu me sentia esquisita toda vez que alguém insinuava que eu não me importava com %Fil%.
  Estava longe de ser verdade.
  — Eu estava precisando de um lugar como esse — comentei, ainda de olhos fechados, sentindo o cheiro de mato molhado invadir minhas narinas. — A propósito, obrigada por isso.
  — Não foi minha ideia, %Filipe% achava que você precisava ficar longe da cidade por algumas horas. — Abri os olhos e Cam me encarava, como se esperasse minha reação.
  — Por que ele não disse nada, então? — questionei, com o cenho franzido.
  A ideia de ir acampar pôr um fim de semana surgiu em um jantar na casa de Jack. Lembro bem de Cam dando a ideia e %Fil% apenas concordou. Eu sabia que não estava bêbada porque naquele dia fomos para a casa do Felipe antes da meia-noite, ia passar uma maratona de Velozes e Furiosos e não queríamos perder.
  — Ele me pediu para dar a ideia. Acho que ele tem medo de demonstrar demais e você fugir. — Olhei em seus olhos azuis acusatórios e revirei os olhos para aquela maldita sobrancelha erguida.
  — Para, Cameron! — reclamei, notando que ele queria dar uma de conselheiro comigo.
  — Ele está certo. Você vai fugir, não vai? — Peguei a câmera da mão dele e focalizei em Dana, sentada na pedra, com sua postura perfeita, seus longos cabelos presos num rabo de cavalo, seu sorriso que sempre parecia maior quando ela estava do lado de %Filipe%. Esperei o sol iluminar seu rosto e tirei a foto, que havia saído angelicalmente linda.
  — Talvez, mas vou deixar um presente bem legal para ele. — Dei de ombros, entregando a câmera á Cam, com a foto de Dana amostra. — E melhor.
  — Você e eu somos parecidos demais, pequena %Julie%. — Cam deu uma risadinha, balançando a cabeça negativamente e depois depositou um beijo em minha testa.
  Nesse momento, Jack conseguiu chegar na pedra mais alta, no meio da cachoeira e começou a gritar como um louco, causando risada em todos.
  — Ei, Cam! Para de dar em cima da %Julie% e tira uma foto desse momento histórico! — gritou Jack, abrindo os braços e eu ri. %Filipe%, que estava de costas, virou a cabeça rapidamente, nos olhando. Cam me olhou, falando que ia até lá e eu assenti. %Filipe% ainda me olhava e eu evitava olhá-lo de volta.
  — Ei, vem para cá! — Dana me chamou, acenando com a mão. Levantei-me, limpando a terra da minha bunda. Passei pelas pedras iniciais, brincando com a água rasa que passava por entre elas e quando tentei entrar na parte funda, percebi que minha altura não me deixava ficar de pé, então sentei em uma pedra na beira.
  Balancei meus pés na água, minhas unhas pintadas de vermelho se destacavam na água transparente. Ouvi um clique, característicos da câmera de Cam, quando olhei para cima, o rapaz ria, registrando várias fotos minhas, interrompendo-me a todo momento que eu tentava reclamar. Dana veio e se sentou do meu lado, dando um sorriso e falando que não ia perder a oportunidade de tirar uma foto comigo sem que eu passasse uma semana reclamando. Logo Jack e %Fil% juntaram-se a foto, ficando do nosso lado. A proximidade mínima de %Filipe% já tinha me deixado alerta. E a %Julie% do passado, que sempre foi tão segura de si, ria da minha idiotice.
  Cam foi colocar a câmera dentro de uma das bolsas e veio correndo, pulando no fundo, espirrando água em todos nós. Bom, em mim, que era a única que ainda estava seca.
  — Dizzy, aposto que eu e você chegamos lá em cima mais rápido que Jack — apostou Cam, nadando até a cachoeira. Dana gargalhou ao ver a cara de indignação de Jack com a afronta do amigo. Jack tentou começar uma luta para impedir Dana e Cam de chegarem até a queda d’água, mas eram dois contra um e eles acabaram conseguindo deixá-lo para trás.
  Minha risada parou quando senti %Filipe% se aproximar, segurando minhas pernas e ficando entre elas. Respirei fundo, tentando manter em mente que a intenção era não ficar tão próxima dele.
  — Não vai entrar? — perguntou, remexi meus pés quando as mãos dele fecharam-se em meus tornozelos.
  — É fundo para mim — respondi, mordendo o lábio inferior. Parecia que a cada dia que passava longe dele, meu nível de dependência parecia aumentar. E quando ele se aproximava, eu me sentia como uma viciada em recuperação.
  — Entra comigo, eu seguro você — sugeriu e fez menção de me pegar, mas recuei. Franziu a testa, confuso com a minha reação e eu me senti mal por ter que fingir frieza com ele.
  — Eu entro depois, tudo bem. — Desviou o olhar, parecendo confuso e levemente chateado.
  Passei a mão pelo meu próprio rosto, me odiando, para variar. Eu estava sendo injusta com ele sem motivo aparente. Eu estava sendo injusta comigo ao tentar manter-me afastada dele e estava sendo injusta com Dana pelo que eu ia fazer.
  — Ei — chamei sua atenção, colocando minhas mãos em seus ombros. — Você passou protetor solar? — Não era o que eu ia falar, mas sua pele ficou instantaneamente vermelha assim que o toquei.
  — Não. Ia pedir, mas você parecia ocupada — respondeu, sarcástico. Provavelmente, estava falando isso porque eu passei protetor em Cameron.
  — Enfim…. — Revirei os olhos para o tom de voz sarcástico dele, mas continuei a dizer o que eu queria. — Obrigada por me trazer aqui.
  — Eu não- — interrompi-o antes de começar a inventar desculpas.
  — Eu sei que a ideia foi sua — confidenciei, arrumando uma mecha de seu cabelo molhado, grudado em sua testa.
  Ele abriu e fechou a boca para falar duas vezes. Quando não encontrou as palavras certas, olhou para trás, procurando por Cam — que estava virando Jack de cabeça para baixo — e balançou a cabeça negativamente. Provavelmente, recriminando o melhor amigo.
  — Contanto que você esteja bem…. — Me deu um selinho demorado e eu soube que não teria condições de me afastar. Quando senti as mãos grandes de %Fil% em minha cintura e o que devia ser um selinho se transformar em um beijo mesmo, afastei-me subitamente.
  — A-acho que quero entrar na água agora — pedi nervosa, empurrando-o pelos ombros, fazendo-o rir deliciosamente. Achei que isso facilitaria as coisas para mim, mas quando %Filipe% me puxou pelo quadril, fazendo nossos corpos colidirem com força, eu sabia que ainda não estava a salvo.
  Passamos a tarde inteira na cachoeira, apenas curtindo a presença um do outro. A tarde acabou sendo incrivelmente boa, exceto pelos momentos de reflexão em que eu lembrava o tanto de indecisões e confusões que eu tinha relacionadas ao garoto ao meu lado, que sempre estava com os braços sob meus ombros. Todos nós acabamos subindo no topo da queda d'água para assistimos o sol ir embora.
  Foi um momento muito bonito, que eu nunca esqueceria. Não por conta do pôr do sol exuberante, mas sim, pela cumplicidade e o amor entre meus melhores amigos. Quando a noite chegou, nos enrolamos em nossos cobertores, acendemos uma fogueira e ficamos bebendo e comendo besteiras industrializadas. Conversamos muito e sobretudo, mas assim que as cervejas acabaram, o sono e o cansaço, por conta do dia agitado, apareceram e a minha preocupação sobre as barracas voltou.
  — Jack, se você passar a mão em mim — Cameron brincou em tom de ameaça, indo em direção a sua barraca, fazendo-nos rir —, juro que te agarro!
  — Não quero vocês de sacanagem do meu lado — alertou Dana, amarrando seu cabelo castanho em um rabo de cavalo alto.
  — Vai dormir com a gente? — questionou Jack.
  — Claro! Ou vocês querem que eu durma com o casal ali? — O tom de voz brincalhão de Dana deve ter enganado a todos que não olharam em seus olhos. Ela lançou um sorrisinho triste em minha direção, provavelmente odiando aquilo tanto quanto eu.
  Fechei meus olhos, sentindo-me um lixo. Eu odiava deixar Dana chateada, também não gostava nada da ideia de todos acabarem presumindo que eu e %Filipe% iríamos dormir juntos. Como se fossemos um casal de verdade, como se nossa vontade prevalecesse. Continuei sentada no tronco mesmo depois de todos entrarem em sua barraca, desejando “boa noite” a nós.
  — Sem sacanagens na barraca ao lado, %Buchart%! — gritou Jack, já dentro da barraca. — Mantenha suas mãos longe da garota.
  — Não prometo nada! — gritou %Filipe% de volta e imaginei que a cabeça da Dana deveria estar a mil. Mesmo contra sua vontade, mesmo tentando negar, ela deveria estar sentindo-se estranha com tudo da mesma forma que eu estava.
  Agora que eu tinha conhecimento sobre os sentimentos de Dana, eu sentia que precisava ter cuidado com qualquer movimento e ação que eu pudesse vir a ter. Mas como %Filipe% não estava ciente de toda a situação, era difícil deixá-lo de fora.
  %Filipe% veio até mim após apagar a fogueira, estendendo a mão em minha direção. Meu peito apertou de dó quando me vi ignorando sua mão e entrando na barraca. A nossa barraca era a menor, ia ser impossível não dormir perto dele. Apalpei o travesseiro e me preparei para deitar, puxando as mangas do meu moletom grosso, tentando amenizar o frio. %Fil% entrou na barraca sem dizer uma palavra e fez o mesmo. Deitei-me de costas para ele, encarando o nada. Senti os olhos dele em minhas costas e o ar tornava-se cada vez mais denso, tendo em mente que nós dois estávamos acordados.
  Não aguentei sentir a respiração dele perto de mim. Sua presença me deixava com calor, mesmo que estivesse frio demais lá fora. Pensei em todo o esforço que tive que fazer durante a tarde para me manter afastada dele o tempo todo. Pensei no quanto ele tinha sido um amor em fazer meu jantar, secar meus cabelos com sua toalha depois de sairmos da cachoeira e em como ele me deu o cobertor dele lá fora. Percebi que, mesmo com ele ao meu lado o dia inteiro, eu estava morrendo de saudades e ainda estava tentando entender como isso era possível.
  Apertei no botão mental do foda-se e virei, dando de cara com seu rosto — como sempre — calmo e neutro. Não parecia com raiva. Para o meu azar, apenas parecia esperar por mim. Suspirei derrotada, jogando-me nos braços dele, que me receberam sem problema algum, como se eu nem tivesse sido uma completa imbecil com ele. Apertei meus braços em volta dele, beijando várias vezes seu pescoço.
  — Quer me contar o que está acontecendo? — murmurou no meu ouvido. Não ousei levantar meu rosto para olhá-lo, apenas encostei meus lábios em seu pescoço e fiquei ali, mergulhada em seu cheiro, em seu aconchego. A pergunta seguinte me pegou completamente desprevenida. — Você cansou de mim?
  O saldo de pessoas que eu tinha machucado acabara de aumentar. Senti meus olhos marejarem. Queria chorar por ele e principalmente por mim, que estava cada dia mais apaixonada. Eu odiava admitir isso.
  — Não…. — Deitei em cima dele, fechou os olhos quando acariciei seu rosto levemente. Segui com o dedo indicador as veias que, de alguma forma, destacavam-se em seu rosto. Desci por suas bochechas, avermelhadas do sol. A pequena cicatriz perto dos lábios, que de longe, era imperceptível. — Eu não cansei de você. Esse é o problema, baby.
  Assim como na maioria das vezes que falávamos de coisas mais sérias, não falamos nada. Eu me mantive em silêncio e %Filipe% também. O que eu tinha dito havia sido autoexplicativo e %Filipe% parecia ter entendido. Limpou mais algumas lágrimas que brotaram em meus olhos, mas logo o cansaço me atingiu. Pensei ter ouvido %Fil% murmurar algo, mas o sono já estava tão grande que não consegui identificar. Logo, dormi imediatamente.

━━━━━━◇◆◇━━━━━━

  O dia seguinte fora divertido, contudo, ainda mais cansativo. Passamos a manhã inteira brincando na cachoeira como se fôssemos crianças, voltamos ao camping e bebemos com algumas pessoas que conhecemos lá. Brincamos de futebol, beer pong e um monte de outras baboseiras que os argentinos que conhecemos inventaram.
  Voltamos para a cidade pela tarde, já que era domingo e todos precisavam estar descansados para a segunda-feira. Passamos muito tempo presos em um maldito engarrafamento. Cam veio dirigindo na volta e foi deixando cada um em suas respectivas casas.
  Quando paramos em frente a viela que levava a casa de %Filipe%, ele, sem aviso prévio, puxou-me para fora do carro junto com ele. Não tive como voltar para o carro sem parecer agressiva ou maldosa, então apenas o segui pela rua de pedras. Dei uma olhada rápida para trás, tentando ver Dana. Mesmo com os vidros fechados e impossível de ver dentro por conta da película, eu sabia que ela também me olhava.
  — Eu não sabia que vinha para cá — reclamei, abrindo minha bolsa, procurando por algum item de higiene, enquanto ele destrancava a porta de sua casa. — Não trouxe outras roupas.
  — Você pode usar alguma minha — comentou, coçando os olhos, sonolento. — Tem calcinhas suas aí, está na minha gaveta.
  Entramos na casa parecendo dois zumbis após quatro horas dentro de um carro. Minhas pernas ainda pareciam reclamar por terem ficado sentadas por tanto tempo. Tudo o que eu queria era dormir em uma cama. Estava tão cansada que não tive nem forças para brigar com %Filipe% por praticamente me obrigar a ir com ele. Tomei uma ducha rápida, coloquei uma calcinha e o moletom azul que %Filipe% sempre usava para dormir quando estava com frio. Ele já estava deitado na cama quando saí do banho, de bruços e parecia já estar cochilando.
  Suspirei, encarando as costas nuas do rapaz. Fui até a cama, deitando ao lado dele, aconchegando-me em seu corpo quente e jogando um braço por cima de sua cintura. Ele virou apenas a cabeça, depositou um beijo na minha testa e voltou a ressonar tranquilamente.
  Dana que me perdoe, mas não existia lugar algum no mundo que eu preferia estar.
  Quando acordei, estava sozinha e desorientada. Procurei por minhas roupas pelo quarto de %Fil%, mas não achei nada. Olhei no relógio e me surpreendi ao ver que já eram 23h. Peguei meu celular e vi que havia uma mensagem de Dana.
  Dizzy (22:00): Te espero?
  Mordi os lábios, temerosa. Sabia que a pergunta que ela realmente queria fazer era se eu passaria a noite com %Filipe%. Eu não sabia em quantas andava os sentimentos de Dana em relação a tudo, mas sabia que ela provavelmente estava chateada. Eu, no lugar dela, estaria. Eu sabia o que era começar a gostar de alguém que não gostava de você do jeito que você preferia.
  Dizzy (22:30): Não tem problema se você quiser ficar.
  Era o que dizia em outra mensagem. Joguei meu corpo para trás, enfiando o rosto no travesseiro. Eu me sentia genuinamente mal com isso. Sabia que minha amiga estava lutando contra seus sentimentos e eu não gostava nem um pouco disso. Eu precisava tirar isso a limpo com %Fil%, antes que alguém se magoasse de verdade.
  Provavelmente, seria eu.
  Respondi que iria para casa, quando percebi que Dana não me responderia de volta. Levantei da cama, decidida a conversar com ele. A casa inteira estava fria e o chão gelado incomodava meus pés enquanto eu procurava pelo cantor nos cômodos da casa.
  Queria falar do beijo, tendo em vista que ele ainda não sabia que eu sabia. Ouvi sua voz vindo da cozinha e respirei fundo antes de entrar. Eu sabia que o que quer que acontecesse ali, qualquer conversa que nós teríamos, seria intenso.
  — É claro que vai dar certo! Eu disse que ia fazer, não disse? — %Filipe% estava de costas para a porta, encostado na mesa redonda e falava ao celular. — Ah, claro, você é masterchef! Dizzy, para de rir, eu sei o que estou fazendo!
  Voltei alguns passos lentamente, encostando-me no lado oposto da parede da cozinha. Fechei meus olhos, encostando a cabeça na parede, ignorando a vontade de bater a mesma ali repetidas vezes.
  Estava acontecendo.
  Eu entendia que Dana e %Filipe% eram amigos e conversavam e eu estava bem com isso. Mas eu também tinha minhas dúvidas. Se eles estavam se falando, quer dizer que alguém tinha ligado.
  Se %Fil% tivesse feito a ligação, eu devia ficar mais atenta aos sentimentos dele em relação a garota. Porém, se a ligação partiu de Dana, quer dizer que ela havia ligado, mesmo sabendo que eu estava com ele e eu não sabia o que fazer com essa informação.
  Pode ser que ela tenha ligado com a desculpa de saber sobre mim e se eu iria para casa, mas não pude evitar me perguntar se Dana estava agindo de má fé. Será que ela se importava com meus sentimentos tanto quanto eu me importava com os dela? Sentia-me ainda mais culpada por ter dúvidas em relação ao caráter da minha melhor amiga. Eu me sentia estranha, não sabia como agir.
  Nunca estive em situações assim na vida. Ninguém nunca tinha preferido a mim antes, eu não estava sabendo lidar com o total contrário do que eu estava acostumada. Eu temia já não estar tão disposta a ceder %Filipe% e a culpa foi dele por ter sido um verdadeiro príncipe o final de semana inteiro.
  Devo ter ficado alguns minutos divagando no lado oposto da parede pois quando me movi novamente, %Filipe% já tinha terminado a ligação com Dana e agora parecia concentrado, fazendo algum tipo de creme de frutas, pelo menos era o que parecia ser devido aos ingredientes espalhados pela mesa. Ele abriu o liquidificador e provou um pouco da pasta avermelhada que continha ali. Deu um sorriso satisfeito, como se fosse uma criança que tinha finalmente terminado de montar um quebra-cabeça difícil, assentindo para si mesmo. Entrei na cozinha, chamando sua atenção.
  — Oi, linda. — Olhou-me, sorrindo. Meu coração parecia dar piruetas quando ele falava assim comigo. Eu adorava que ele sempre me chamava de “linda” e isso não parecia uma cantada barata ou irônico. Era um simples cumprimento e saia tão naturalmente dos lábios dele que era difícil não acreditar. — Olha isso, ganhei um conjunto de paletas mexicanas, mas até agora acho que não fiz nada certo.
  Dei uma risadinha, balançando a cabeça. Estava ficando cada vez mais difícil ser uma boa pessoa.
  Ele despejou o conteúdo do liquidificador em um pote grande e sentou na cadeira, oferecendo-me uma colher. Aproximei-me e provei do creme que tinha uma textura não muito legal, mas até que estava gostoso.
  — Não está tão ruim — assegurei.
  — Você jura? — perguntou, como uma criança insegura. Assenti e fiquei entre as pernas dele. Passei o dedo pelo creme e depois passei em seus lábios. Suguei o creme dos seus lábios antes que escorresse. — Assim parece bom de verdade. Faz de novo?
  Coloquei as mãos nos ombros dele e inclinei-me, beijando-o de verdade. Ele me puxou para mais perto e me fez sentar em seu colo, com as pernas estendidas em cada lado do seu corpo. Brinquei com os lábios dele por alguns segundos e me afastava quando ele parecia afoito por mais. Eu me movimentava sobre ele conforme ele acariciava minha pele do traseiro e subia as suas mãos toda vez que ele tentava colocar as mãos por dentro da minha calcinha.
  Acabou irritando-se e subiu as mãos para minha cintura, pedindo para tirar o moletom e eu assenti. Lambuzou o dedo de creme e passou pelos meus seios, agora expostos, sugando cada pedaço de pele. Perdemos um tempo naquela provocação idiota, deixando mais marcas na nossa pele do que pretendíamos, até que ele se empolgou e sugou meu seio direito tão forte que uma marca quase roxa surgiu instantaneamente.
  — Devagar! — reclamei, empurrando a cabeça dele para trás, afastando-o do meu seio. Desculpou-se, rindo e sorrindo de um jeito sapeca que também me fez sorrir. Fiquei um tempo encarando seu rosto.
  Era egoísmo o querer só para mim? Era maldade que eu estivesse considerando seriamente ignorar Dana e seus sentimentos e ficar com ele?
  Olhei em seus olhos, que por conta da posição, estavam na altura dos meus. A intensidade que nos olhávamos era quase palpável. Seus olhos pareciam dizer tanta coisa e eu não sabia decifrar nada do que se passava naquela íris. Ele segurou minha cintura com força e se levantou, comigo presa em seu corpo. Colocou-me sentada na mesa, sem desconectar nossos olhares. Ele foi me deitando sob a mesa, enquanto eu puxava sua calça do pijama para baixo com os pés. Empurrou as frutas e as louças no chão com um braço, sem desviar o olhar do meu em momento algum, mantendo-me presa somente a ele. Beijou minha testa, meus lábios, meu umbigo e retirou minha calcinha.
  Então, eu perdi toda a noção. Eu só o sentia, preso entre minhas pernas, apertando meu corpo e beijando-me como se precisasse de mim para viver.
  O sexo sério, lento e bonito que fizemos naquele dia foi diferente. Não tínhamos feito amor, mas também não tinha sido uma transa qualquer. Era um sexo de descobrimento. Tinha compreensão, carinho, paixão. Não nos preocupamos com nada. Não nos preocupamos com a louça quebrada, nem com a mesa rangendo, nem com os vizinhos que, provavelmente, tinham escutado nossos sons de pura satisfação sexual. Esquecemos em que mundo estávamos, nada que não fosse nossos corpos fundindo-se importava. Deixei todas as minhas razões para trás quando ele sussurrou ao pé do meu ouvido:
  — Fica comigo?

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Lelen

PELO AMOR DE DEUS, FICA COM ELEEEEEE!!
Ai, gente, não consigo com isso, esse casal já tá feito, WHY NÃO FICAM JUNTOS JUNTOS DE VEZ?
Ok, não precisa nomear o relacionamento, mas são exclusivos? É algo aberto? É algo fixo? O que pode? O que não? IOASHDOIADHOI
Julieta, vai tratar esse trauma de relacionamentos e síndrome de coadjuvante e vem ser feliz, por favor. Obrigada.

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