3 • O cara que ela imaginava quando era adolescente.
Maio.
Eu me arrependia amargamente de fazer faculdade em período vespertino, porque isso significa que o meu turno no Daily é sempre de matutino e o jornal pela manhã era um verdadeiro inferno. O meu trabalho era fazer tudo, sempre me colocavam para fazer várias coisas ao mesmo tempo. Limpar almoxarifados, arrumar papeis, entregar notas, cobrar matérias, verificar as impressões do dia e entregar, pelo menos, cinco relatórios no final do dia. Era exaustivo, eu odiava e ganhava pouco. Porém, o núcleo universitário me forçava a crer que eu era sortuda e deveria agradecer de, ao menos, ter um estágio.
Para falar a verdade, já tinha um tempo que eu tinha dúvidas sobre ser jornalista. Eu gostava de escrever, me interessava pela área, sim. Mas nunca fora minha paixão. E quanto mais eu conhecia, menos eu me via fazendo aquilo no futuro. Eu nunca tinha conseguido me encaixar perfeitamente em qualquer profissão, nada parecia certo para mim.
Muitas vezes eu pensava em desistir do jornalismo, mas desencadearia muitos problemas e complicações para mim, mais do que eu sou capaz de lidar. Eu gostava de escrever e informar, sim, mas a última coisa que me deu prazer de fazer foi trabalhar no Centro Comunitário nas férias. Eu amava ir para aquele lugar, eu gostava de me sentir necessária, de ajudar e era boa nisso. Acho que fui influenciada pelo meio em que vivi durante toda a minha vida.
Jeins era um bairro perigoso e considerado perdido por muitos. Eu gostava de lá, minha infância e adolescência no local foram marcantes, mas quando isso atrapalhou no meu futuro, não pensei duas vezes em me mudar. Todo o bairro se conhecia e metade dos jovens de minha geração acabaram entrando para o mundo do crime.
Eu era uma das únicas do meu grupo de amigos de infância que almejava um futuro que não envolvia drogas ou prisão. Eles brincavam dizendo que eu era a salvação do grupo e no final, eu acho que acabei sendo mesmo. A maioria deles não tinha maldade alguma no coração, só eram muito influenciáveis.
Ironicamente, nunca consegui influenciá-los a mudar de vida.
Eu passei a manhã toda no jornal, pedi para sair mais cedo e recebi um belo de um "não" na cara. Eu tinha que estudar para prova que teria no outro dia e agradeci mentalmente pelo professor Manuel ter adiado as aulas dele que teriam hoje.
Então, assim que saí do trabalho, liguei para Bela, uma amiga de turma, me encontrar na universidade. Eu e Bela prometemos que não iríamos sair da biblioteca enquanto não estivéssemos com, pelo menos, 70% da matéria fixada na memória. Éramos as únicas atrasadas da nossa sala, o que fazia com que nós tivéssemos fama de desesperadas.
Já eram quase 18h quando meu celular vibrou duas vezes em cima da mesa, tirando minha atenção do artigo de quase 40 páginas.
%Filipe% %Buchart% (17:48):
Oi E lá se vai todo o meu foco.
Respondi, simplesmente. Eu definitivamente não curto isso de ficar nervosa mesmo ele não estando presente.
%Filipe% %Buchart% (17:49):
Muito ocupada?
Eu (17:49):
Só revisando algumas matérias%Filipe% %Buchart% (17:49):
Vai fazer o que depois? Queria te ver hoje... A pergunta que eu estava esperando, finalmente, surgiu e acabei suspirando profundo demais e atraí a atenção de Bela.
— Também não aguenta mais? Vamos parar por hoje? — Ela nem esperou minha resposta. Já começou a fechar os livros e guardar as suas coisas dentro da bolsa. — Vou devolver os livros.
— Leva os meus também, por favor? — Empurrei os livros na direção dela, vendo-a fazer um malabarismo para equilibrar os livros em seus braços finos. Meu celular vibrou novamente em minha mão.
%Filipe% %Buchart% (17:50):
Posso?Eu (17:52):
Você tirou a minha concentração e da minha parceira de estudos também
Ou seja
Estou te esperando
%Filipe% %Buchart% (17:52):
Hahahaha não vou pedir desculpas por isso
Sorri com sua resposta bem-humorada, guardando meus materiais dentro da bolsa. Assim que Bela voltou, fomos ao banheiro, comentando sobre os assuntos que tínhamos estudado.
— Você está segura para a prova? — perguntei, queria falar sobre qualquer outra coisa que tirasse minha atenção de %Filipe%. Eu já sentia meu coração bater descompassadamente só de pensar em vê-lo.
— Sim, depois que eu chegar em casa, vou dar uma lida em uma coisa ou duas. Mas estou bem e você? — Saí do box, indo lavar minhas mãos.
Ela passava pó compacto no rosto, encarando-se no espelho manchado do lugar. Bela era irritantemente magra, tinha cabelos cacheados e tingidos de roxo. Ela sempre estava maquiada e sempre usava coturno. Era extremamente simpática e era uma daquelas pessoas que chamavam atenção simplesmente por serem o que eram.
— Provavelmente vou fazer o mesmo. — Olhei para o pequeno nécessaire de Bela lotada de produtos de maquiagem e me chequei no espelho. — Me empresta o rímel? O que geralmente fica na minha bolsa acabou.
— Procura aí. — Ela empurrou a bolsinha para mim com uma mão e com a outra continuou fazendo aqueles delineados dignos de tutoriais de YouTube. Coisa que parecia impossível para mim e ela fazia com apenas uma mão e enquanto conversava comigo.
Eu adorava assistir esses tutoriais na internet, mas se eu fosse tentar fazer algo, eu provavelmente andaria igual uma palhaça na rua. Passei algumas camadas de rímel e um batom matte cor de pele, num tom mais queimado, que eu costumava usar no dia a dia. Nem me atrevi a tirar o meu cabelo do rabo de cavalo alto que eu usava, não estava de todo mal assim.
— Essa produção toda é para alguém? — perguntou Bela, com um sorrisinho irritante no rosto.
— Vou sair com um carinha aí. — Devolvi o rímel e joguei meu batom dentro da bolsa. Não que houvesse muita coisa, mas não queria ter que explicar minha relação com %Filipe%. — E você e o Mac? Ainda fingindo que esse negócio de amizade colorida dá certo? — Tentei ignorar a ansiedade que só aumentava, puxando outro assunto.
— Hoje nós vamos ao jantar de aniversário da irmã dele — contou, mordendo o lábio inferior.
— Uh, vai conhecer a família? — provoquei.
Fomos andando em direção a saída do campus. Cumprimentei algumas pessoas pelo caminho, estranhei a grande quantidade de pessoas da minha turma por ali. Acho que eu e Bela não éramos as únicas inseguras com a prova, afinal.
— Como amigos, é claro. A irmã dele é bem legal, então imagino que toda a família deve ser — supôs.
— Prepare-se para voltar de lá apaixonada por ele.
Chegamos ao portão principal. Dei uma olhada em volta, aparentemente %Filipe% ainda não estava por ali. Tinham alguns grupos de estudantes por ali, mas não estava cheio. O horário que aquilo ali lotava era depois das 19h, quando todas as turmas já tinham sido liberadas.
— Está maluca? Como assim?
— Você vai ver ele com a família, sendo amável, toda a família vai chamar vocês de namorados, vocês provavelmente vão ter um momento romântico no fim da noite e na próxima vez que vocês se beijarem, as coisas já vão estar diferentes — eu expliquei, com toda a minha experiência em histórias de amor. Bela pareceu chocada por uns segundos e depois revirou os olhos.
— Você é maluca, %Julie%! Anda vendo muitos filmes de comédia romântica.
— Se você quiser apostar... — sugeri.
Eu já tinha acertado tantas vezes nas minhas previsões, que depois da quinta vez, decidi começar a lucrar com elas. Eu não tinha uma história bonitinha, mas pelo menos ganhava um dinheiro com isso.
— Vou ignorar isso apenas para dizer que %Filipe% %Buchart% acabou de descer de um táxi aqui na frente. O que será que ele veio fazer aqui? — indagou, olhando para trás de mim com um ar curioso.
— %Buchart%? Você o conhece?
Vasculhei o local com os olhos, procurando por ele, que estava parado na porta, parecendo fazer o mesmo. Incrivelmente, senti todo o nervosismo sumir assim que o vi.
%Filipe% estava lindo com sua jaqueta de couro marrom por cima da camisa cinza e de calça jeans preta. Queria gritar na cara de todas as meninas que estavam suspirando por ele, que eu já tinha beijado aqueles lábios e que aquele olhar atento procurava por mim.
— Quem não conhece? Esse cara é um absurdo de lindo! — Bela me fez rir com seu comentário, mas eu super entendia ela.
— É, eu concordo. Tenho que ir — falei, rapidamente arrumando a bolsa no ombro e agarrando minha pasta contra meu peito.
— O que? Já? — Bela refutou, me olhando confusa.
— É meu carinha — expliquei, já me afastando e saindo do lado de Bela e entrando no campo de visão de %Filipe%, que guardou o celular e me lançou um sorriso de menino que balançava o meu coração.
Ouvi Bela gritar um "me liga mais tarde", meio alterada com minha revelação. Ri, balançando a cabeça negativamente. Eu não decidi ainda se me sentia lisonjeada ou magoada com a surpresa das pessoas ao descobrir minhas histórias com %Filipe%. Senti como se todos a nossa volta estivessem olhando e eu acho que estavam mesmo.
— Quando você vai tomar vergonha na cara e comprar um carro? — brinquei quando parei em frente a ele.
— Quando eu sentir necessidade — respondeu, dando de ombros.
Fiquei em dúvida em como cumprimentar, mas como sempre, %Filipe% foi mais rápido. Beijou meu rosto, mas logo se afastou. Peguei a chave do carro e o guiei até o estacionamento.
— Você quer sair para fazer alguma coisa? — Ele tirou a bolsa do meu ombro e pegou a pasta dos meus braços. Agradeci por seu cavalheirismo.
— Quero, mas você escolhe o lugar — sugeri, porque se dependesse de mim, acabaríamos sem nunca decidir aonde iríamos.
— Tudo bem, quer que eu dirija? — Ele se ofereceu quando me viu indo ao lado do motorista. Ergui uma sobrancelha com a nova informação. Eu achava que %Filipe% era uma daquelas pessoas que nunca aprendera a dirigir e sobrevivia de táxi e caronas. Porque eu nem o imaginava dentro de um ônibus.
— Então você dirige, só não quer ter um carro. — Cruzei os braços, semicerrando os olhos em sua direção. — Me parece preguiça.
— Se chama economia! — ele replicou e eu gargalhei.
— Você fica cada dia mais rico, %Buchart%. — Joguei as chaves do carro para ele enquanto trocávamos de posição pelo lado de fora do carro. Entramos no carro, joguei minha pasta no banco de trás e deixei minha bolsa nas minhas pernas. — Admita sua preguiça.
— Admitir? Jamais. Eu cuido do meio ambiente! — Ele se inclinou e me deu um selinho rápido enquanto eu sorria por conta de sua resposta deslavada. — Posso te levar para qualquer lugar?
Perguntou, fazendo a baliza quase perfeitamente. E eu não conseguia desviar o olhar dele. Eu tinha uma tara enorme em ver homens dirigindo, até o cara menos viril do mundo conseguia parecer gostoso dirigindo. Ou não, mas na minha cabeça funcionava assim.
— Depende. Quais são suas intenções para o dia de hoje comigo? — questionei, sinalizando a saída para ele.
— Comer, oras! — Deu de ombros e eu arregalei meus olhos, surpresa com sua sinceridade. O tom de voz que ele usava não me deixava identificar nem um tipo de brincadeira em sua voz. %Filipe% conseguia ser misterioso e transparente ao mesmo tempo. Virei meu corpo inteiro para encará-lo, tentando ver em seu rosto se ele falava sério ou eu tinha uma mente muito suja. Olhou-me com um sorriso zombeteiro, rindo quase com deboche. — Eu estava pensando naqueles food trucks que tem na beira do rio, sabe? Mas se você tiver outra coisa em mente...
— Você é um idiota! — resmunguei, dando um beliscão de leve em seu braço, fazendo-o gargalhar com minha breve revolta. Tentei desviar o olhar dele e sintonizar em alguma rádio boa.
%Filipe% perguntou como foi meu dia e eu logo comecei a reclamar do jornal e de como estava cansada de ter que trabalhar lá. Ele me contou das cidades que visitou nos últimos dias, sobre os lugares que ele tinha cantado. Perguntei se ele já era famoso e ele apenas riu.
Eu adorava que %Filipe% não era um falso modesto, ele realmente era simples e tranquilo demais. Geralmente, se espera o contrário de um cantor em ascensão. Costumam ser esnobes, arrogantes e nem tão talentosos assim. Esse talvez fosse o diferencial de %Filipe%, por isso ele crescia e se tornava melhor e mais conhecido a cada dia.
Chegamos no Takeo, que era uma área ampla e aberta que ficava nas margens do lago de mesmo nome. Quase inteiramente rodeada por food trucks e várias mesas espalhadas pelo centro, era um dos pontos mais frequentados da cidade. Ao fundo, as águas do rio calmo refletiam as luzes dos carros que passavam na rodovia do outro lado e um sol tímido que já ia embora. Um píer longo e largo ia até o meio do lago, de onde saíam alguns pedalinhos.
%Filipe% e eu fomos andando pelos caminhões até decidirmos o que a gente ia comer, o que parecia ser uma tarefa impossível. Eu queria comer um pouco de tudo e %Fil% partilhava do meu pensamento, a gente só não sabia por onde começar.
Observei nosso reflexo em um caminhão espelhado enquanto ele lia o cardápio de comida japonesa. Eu e %Filipe% tínhamos uma diferença de altura significativa e isso era engraçado. Ele era provavelmente o cara mais alto que eu já tinha saído e o mais bonito também. O fato dele estar andando com a minha bolsa vermelha de modo transversal no corpo só tornava tudo ainda mais engraçado. %Filipe% era educado e cavalheiro sem parecer forçado. Acredito que foi criado assim e eu acho que isso era o que mais me encantava nele.
Tudo bem, eu ainda estava meio indecisa sobre o que eu mais gostava nele.
— Vamos de tacos — ele sugeriu, enquanto a gente andava pelo local pela terceira vez, ainda indecisos.
— Não, eu queria provar aqueles mini-hambúrgueres! — retruquei, apontando para o caminhão dos mini-hambúrgueres que ficava do outro lado do local.
— Mas isso não enche! — reclamou.
— E desde quando tacos enchem? — retruquei.
Acabamos comprando beirutes. %Filipe%, por pura implicância, comprou os malditos tacos. Então, eu comprei meus mini-hambúrgueres também. Nos sentamos na mesa mais próxima do início do píer. Por ser uma quarta-feira, o local não estava lotado como eu ouvi dizer que ficava nos fins de semana.
— Você é impossível! — reclamou, dando uma mordida no seu taco.
— Prova um pedaço e diz que não é um presente dos deuses — desafiei-o, colocando um mini na boca dele. Esperei enquanto ele mastigava, resmungando de boca cheia. — Então...?
— Odeio você. — Revirou os olhos e eu ri com sua negação.
— Cala a boca e come logo — ele reclamou, empurrando o beirute em minha direção, me fazendo rir mais ainda.
O céu já estava totalmente escuro quando eu notei que não sabia que horas eram exatamente, visto que eu nem olhei meu celular pelas últimas horas. O fluxo de carros do outro lado do rio já tinha diminuído bastante, então presumi que já tinham se passado algum tempo desde o horário de pico.
A conversa com %Filipe% era tão fácil e espontânea que esqueci do mundo ao nosso redor. Contou-me sobre sua família, contou sobre os pais serem separados e sobre a relação próxima com a irmã caçula.
Quando percebi já tinha relatado minhas dúvidas em relação a faculdade, coisa que eu ainda nem tinha comentado com Dana. Ele foi compreensivo e realmente prestava atenção no que eu falava. Ele não me disse o que fazer, apenas deixou claro que eu deveria tomar uma decisão logo. Também disse que se eu precisasse de qualquer coisa, ele estaria ali. Eu me derreti um pouco, mas a gente ignora essa parte. Eu e %Filipe% nos levantamos da mesa depois de horas de conversa. Comprei um milk-shake de morango, que acabamos dividindo e fomos andando pelo píer, comentando sobre a cidade.
— O que tem para lá? — perguntei, apoiando-me no parapeito, olhando para o lago sendo iluminado pelas luzes do centro e seguindo para uma parte escura.
— Vai para a reserva ambiental — respondeu, inclinando-se por trás de mim para sugar o milk-shake que estava na minha mão.
— Aqui é bonito — comentei, sentindo o corpo dele encostar-se ao meu.
— É, você precisa ver no inverno... É a primeira vez que te vejo de jeans — comentou, cutucou meu quadril com um dedo e depois beijou meu ombro.
Mais uma vez, me arrependi de não ter trocado de roupa. Eu estava usando uma calça jeans azul skinny com uma camisa social branca e um cropped por baixo e sapatilhas. %Filipe% era um guerreiro por me querer mesmo que ele nunca tenha me visto arrumada de verdade.
— É? — Virei de frente para ele, que apoiou os braços atrás de mim, deixando-me presa entre seu corpo e o parapeito da ponte.
— Sua bunda fica incrível. — Mais um beijo no pescoço, agora subindo pelo meu rosto.
— É? — repeti, já desorientada.
— Você devia usar mais jeans — sugeriu, descendo as mãos para meus quadris e prensando-me mais contra a madeira da ponte.
— Eu uso, você que não vê — informei. Pensando bem, todas as vezes que %Filipe% tinha me visto, eu estava usando vestidos ou shorts de tecido. Eu sabia que minhas pernas ficavam incríveis quando eu usava jeans.
— Eu devia ver você mais vezes, então. — Encostou os lábios nos meus levemente e depois afastou-se. Analisou meu rosto por um tempo enquanto eu pensava no que dizer.
Por algum motivo, a história do terreno baldio veio à minha mente novamente.
— Nós nos vemos bastante, %Fil% — assegurei, passando a mão pelo seu cabelo.
— Ainda não é o suficiente para mim.
E beijou-me suavemente, sem pressa, como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Pousei uma mão no seu quadril pois a outra ainda segurava o copo. E eu agradeço a mim mesma por ter comprado aquele milk-shake. Ele ainda estava com a língua e os lábios gelados do último gole que deu. Então quando ele sugava meu lábio inferior, parecia o paraíso.
Meu celular começou a tocar na bolsa e %Filipe% não parecia se importar. Sem quebrar o beijo, abri a bolsa — que ele ainda usava — e tirei meu celular. Afastei-me dele, ouvindo um resmungo e atendi sem olhar na tela de identificação. Ele pegou o copo da minha mão e foi levar até o lixo, me deixando parada ali, me apoiando na ponte devido as minhas pernas trêmulas.
—
%Julie%? Onde você está? — Era Dana. A garota não me ligava ou mandava mensagem desde cedo, sendo aquela ligação a primeira vez que eu falava com ela no dia.
— Estou no Takeo, aquele lugar que a gente queria conhecer, lembra? — expliquei.
—
Sozinha? Poxa, você nem me esperou! — reclamou.
— Estou com %Filipe% — informei, insegura se devia ter contado ou não.
—
%Buchart%? — Mais uma vez, a surpresa. Confirmei. —
Tipo, um encontro? — Me assustei com a dúvida e a reação de Dizzy. Achei que ela gritaria do mesmo jeito que Bela, no mínimo.
— Eu não sei, na verdade — respondi, mordendo os lábios. Observando o rapaz voltar para perto de mim, me questionei mais uma vez que tipo de relacionamento %Filipe% esperava ter. Ou se queria um relacionamento, já que eu não tinha tanta certeza se estava disposta a ter um.
—
Ok, me conta tudo depois. — Ela tentou parecer empolgada, mas eu conhecia Dana bem demais para saber que ela só não queria me deixar chateada com sua falta de interesse. —
Escuta, não vou dormir em casa hoje. Vou para casa da Vi e, provavelmente, vou ficar por lá. — Dana, no meio da semana?! — reclamei, resmungando.
Eu não suportava dormir sozinha no apartamento. Aos finais de semana, se Dana não passasse em casa, eu daria um jeito de sair também, mas numa quarta-feira ficava complicado. E também não gostava muito da ideia de Dana farreando no meio da semana.
Dizzy era um pouco dispersa e podia tornar-se até um pouco irresponsável se não tivesse alguém para mantê-la na linha. %Filipe% puxou-me pela mão e fomos andando em direção ao fim do píer. Senti a %Julieta% adolescente pulando dentro de mim.
—
Eu sei, desculpa — lamentou Dizzy e eu imaginei-a fazendo o bico característico dela.
— Tudo bem, Dizzy. Se cuida, e qualquer coisa, me liga. — Dana desligou sem falar mais nada e eu estranhei. Encarei a tela do celular, mostrando a tela de ligação encerrada. Fiquei olhando alguns segundos para ter certeza de que ela havia desligado, não eu ou a ligação tinha caído.
— O que foi? — perguntou %Filipe%.
— Dana não vai dormir em casa hoje — contei, guardando o celular na bolsa presa ao garoto.
— Ah! — Percebi suas bochechas ficando cada vez mais coradas a cada segundo que seu pensamento de formava. Ele esperava que eu não visse seu rosto na escuridão do final do píer e eu esperava que ele não visse meu sorriso encantado só para ele. — Quer ficar lá em casa?
Entendi seu acanhamento quando ele emitiu a frase lotada de segundas, terceiras e quartas intenções. Fiquei imediatamente em alerta. Eu sou mulher que vai para casa com o cara no primeiro encontro?
━━━━━━◇◆◇━━━━━━
— Está tudo bem para você?
— Eu estou quase totalmente nua em cima de você, %Buchart%. É claro que está tudo bem para mim.
Fomos para a casa de %Filipe%. Não me preocupei em passar em casa, eu sempre levava roupas íntimas e outras coisas de emergência dentro da bolsa. Normalmente, eu ficava muito tempo longe de casa e nunca sabia quando ia ter que dormir em outro lugar.
O plano inicial era assistir filmes, reclamar da vida, ele ia responder alguns e-mails e eu ia revisar a matéria da prova uma última vez, mas entre uma taça de vinho e outra, um beijo foi roubado, surgiu uma carícia na perna e quando minha mente clareou e eu parei para prestar atenção ao meu redor, estava sentada no seu colo, apenas de calcinha.
— Você não precisa estudar para a prova de amanhã? — Desfez meu cabelo do coque, jogando-o para trás.
— Não... — Ele pareceu meio distante por alguns segundos, perdido entre meus fios de cabelo e eu fiquei imediatamente receosa. — %Filipe%, você quer parar? Está tudo bem se você quiser — perguntei e afastei meu tronco do dele, mas sem sair de cima de suas pernas.
— Não! É só que... — hesitou.
Olhou-me por alguns segundos, desviou o olhar para meus seios e depois encostou a testa no meu ombro direito. Fechei os olhos fortemente, sentindo a respiração ofegante dele no meu pescoço.
Uma dose cavalar de insegurança e vergonha tomou conta do meu corpo imediatamente. Havia sido rápido demais? Ele não gostou do que viu por debaixo das minhas roupas? Talvez ele tivesse em mente algo melhor.
— Você acha que não está com a pessoa certa? — questionei, temerosa por sua resposta. Ele queria Dana no início, certo? Talvez ele estivesse arrependido ou confuso e ele tinha todo direito de estar.
— Como assim? Do que você está falando? — levantou o rosto, encarando-me com o cenho franzido.
— %Fil%, você está me confundindo. — Acariciei os cabelos de sua nuca, sendo amável até demais. Geralmente, eu não tinha paciência com pessoas indecisas, apesar de ser uma.
— Não... É só que... Eu não sei como você é... Entendeu?
Sua frase saiu cheia de pausas e hesitações, quase não entendi sua emissão. Ergui uma sobrancelha, me sentindo levemente ofendida. Senti raiva dele por estar sendo prolixo e senti raiva de mim por ainda estar ali, sem roupa em cima dele, quando ele claramente não sabia o que queria.
— Não, não entendi. Quer saber? Acho melhor eu ir embora antes que você me ofenda ainda mais! — Irritei-me e tentei sair de cima dele, mas ele segurou minha cintura com força, prendendo-me no lugar.
— Não, %Julie%. Eu estou me expressando errado. É que eu gostei de sair com você e queria te ver mais vezes, mas você parece ser o tipo de garota que não responde no dia seguinte.
Pensei um pouco em sua frase e em como eu deveria interpretá-la. Duas palavras fora do lugar e ele realmente estaria me ofendendo e eu precisaria sair dali o mais rápido possível. Porém, %Filipe% parecia estar constrangido e meândrico, então a frase finalmente fez sentido na minha cabeça. Meus lábios abriram em entendimento.
— Oh! Você acha que eu vou transar com você e sumir?
Apertou os lábios, parecendo envergonhado com a própria insegurança e vulnerabilidade. Fiquei surpresa porque %Filipe% parecia estar sendo sincero e talvez aquele, realmente, fosse o motivo. Fiquei mais surpresa ainda por meus motivos estarem errados. Meus pensamentos estavam equivocados. Eu não vou negar que eu já havia sido realmente a garota que não atende as ligações do dia seguinte.
Nos últimos tempos, principalmente.
Mas com %Filipe%, as coisas eram, no mínimo, diferentes. Ele chamava minha atenção de todas as formas. Eu me interessei por ele como nunca tinha me interessado por ninguém. Queria saber mais da sua personalidade, saber seus gostos e odiar seus defeitos. Queria conhecer seu corpo e queria que ele conhecesse a mim como ninguém conhecia. Eu o queria muito. E talvez eu não soubesse lidar com a dimensão do meu anseio e minha cobiça por ele.
Eu não sabia dizer o que rolava entre nós, também não sabia se eu sentia algo mais que uma atração intensa, quase imoral. Não queria aprofundar as coisas com ele sem ter certeza do que eu queria. Eu era uma puta de uma confusão e %Filipe%, até aquele momento, sempre pareceu tão certo de seus sentimentos e ações.
— Eu... — Percebeu minha confusão e diminuiu o aperto em minha cintura, como se estivesse me deixando livre para sair a hora que eu quisesse. — Não sei o que dizer para você.
— Você vai sumir? — questionou, enrolando uma mecha do meu cabelo em seu dedo indicador.
— Não — respondi e estranhei a falta de hesitação.
— Então, não precisa me dizer nada. Nós resolvemos o resto depois... — Segurou meu rosto entre suas mãos, não me deixando pensar sobre mais nada que não fosse seus lábios sobre os meus.
Passar aquela noite em claro com %Filipe% não deixou nada explícito e compreensível para mim. Até mesmo piorou minha situação. Eu era boa em manter as coisas casuais, sabia muito bem lidar com situações pós sexo para que não houvesse constrangimento de ambas as partes. Eu era muito boa em ser boa e %Filipe% era muito bom em ser bom.
Nossa química era explosiva demais para o nosso bem. %Filipe% estava se mostrando ser o tipo de cara que eu sempre quis, mas nunca achei que realmente existisse. Era calmo, gentil, ótimo em falar sacanagem, mas suas bochechas rosadas mostravam o menino dócil e respeitoso que ele era.
Nós não falamos sobre rótulos, mas na minha cabeça, era implícito que nós ficaríamos no bom e velho sexo casual. Mas sei lá, não dá para acreditar muito que as coisas vão permanecer casual quando você passa uma madrugada inteira, deitada com uma pessoa assistindo documentários sobre arquitetura e urbanismo sem propriedade alguma no assunto e aquele acaba se tornando o seu melhor programa da semana.
Casual, hein? Vai ser bem complicado.
━━━━━━◇◆◇━━━━━━
Junho.
Hillswood* é uma cidade de 200.000 habitantes, conhecida por ser uma cidade universitária, ter um clima ameno e por suas paisagens simples. Encarei a cidade imposta a minha frente pela janela da minha sala. Cheia de elevados, o sol de 17h se perdia entre os prédios e as luzes dos carros. O céu azulado e sem nuvens de junho me fazia sorrir, mesmo com o calor suportável de 30º que fazia.
Era sexta-feira, o horário de pico se aproximava e por meu apartamento ser afastado do centro, eu conseguia vê-lo da minha janela. Gostava de ver os carros vindo de todas as direções e se aglomerando na avenida principal, o que mais tarde causaria um enorme congestionamento.
As minhas aulas acabaram mais cedo, o que me livrou de estar nesse mesmo congestionamento. Eu passaria horas olhando a paisagem, apenas pensando. Gostava de criar histórias sobre as vidas das pessoas dentro daqueles carros. De onde vinham e para onde iam. Coisa de gente meio distraída, que não tem muito o que fazer.
Sorri de leve ao ver os carros se amontoando aos poucos, concretizando minhas previsões. A mobilidade social dessa cidade é algo que realmente deveria ser melhorado. Eu não os culpo pelas barbeiragens e atrocidades que cometiam no trânsito na ânsia de chegar logo ao seu destino. Era sexta, afinal. Todo mundo estava ansioso para sair, encontrar alguém ou simplesmente ir para casa e dormir.
Por falar em curtir o fim de semana, Dana e Cam foram convidados para uma festa em um hotel no litoral de uma agência publicitária que estava de olho nos dois para algum novo trabalho. Claro que eles não perderiam a oportunidade de passar o final de semana em um hotel chique enquanto comiam canapés à beira da praia. Isso só nos rendeu umas boas piadas sobre eles estarem transando escondido do resto de nós.
Até nos convidaram, mas todos estavam ocupados demais para viajar. Eles voltariam para casa apenas na terça da outra semana e para mim, isso significaria três dias de aula perdidos.
Eu estava bastante ocupada com a faculdade naqueles dias, mas também estava bem animada porque esse passe livre para ter a casa só para mim, me renderia quatro dias de sexo da melhor qualidade com %Filipe%.
E nós já tínhamos começado.
Eu estava apenas de calcinha, mas ainda parecia que o diabo estava soprando em meu rosto. Eu estava com fome, calor e preguiça. Tendo isso como motivação, fui até minha geladeira, à procura de algo fácil e rápido de cozinhar no meio de toda a comida que Dana tinha estocado para mim. Eu gostava de cozinhar e era até boa nisso, mas só me via na obrigação de ir para a cozinha quando eu tinha que fazer comida para Dana também.
Portanto, quando ela não estava presente, eu sobrevivia de comidas instantâneas e congelados. Achei uma caixa de lasanha à bolonhesa e coloquei-a no micro-ondas. Não era a minha preferência, mas era o que tinha. Deitei-me de bruços no sofá, esperando dar tempo de a lasanha ficar bem aquecida.
Peguei meu celular, checando as últimas mensagens, me deparei com uma foto que Cam e Dizzy mandaram e me fez rir. Ambos estavam com poses pomposas e de nariz empinado, bebiam champanhe numa piscina, a praia ao fundo deixou a foto, que deveria ter sido uma piada, realmente bonita.
Eu até senti inveja, mas o sentimento durou três segundos apenas porque %Filipe% entrou na sala naquele instante. Com os cabelos bagunçados, bocejando e se espreguiçando, usando uma boxer vermelha que destacava em seu corpo.
%Filipe% %Buchart% andando de cueca confortavelmente pela minha cozinha era, definitivamente, melhor do que champanhe à beira da praia.
Uma mensagem de Jack tirou minha atenção do cara bonito abrindo minha geladeira. Comentou nas mensagens que %Fil% faria um show no domingo e ele preferia ir ao show do amigo do que ir à praia. Depois ele se desmentiu, falando que preferia a praia mesmo, já que de todos nós, ele era o que ia em quase todos os shows de %Buchart%. Seu comentário me fez perceber algo.
— %Fil%? — Ele respondeu com um murmúrio. — Eu nunca fui em um show seu.
— E daí? — Ele abriu o micro-ondas e tirou minha lasanha de lá, jogando em cima do balcão e olhando para os próprios dedos depois, provavelmente queimados.
— Sério? — Ele pareceu nem acreditar, fazendo uma careta em seguida.
Eu já conhecia %Filipe% há quase quatro meses e o máximo que eu ouvia de sua voz era quando ele cantava no chuveiro e um vídeo de seis segundos no Instagram.
— Claro que sim, por que a surpresa? — questionei, sem entender seu espanto.
— Eu só achei que... — titubeou, pareceu indeciso sobre o que falar, mas balançou a cabeça, como se estivesse espantando as ideias. — Eu levo você no show de domingo. Tudo bem? — Ele veio até mim e assenti, sorrindo.
Senti meu corpo arrepiar-se completa e instantaneamente quando ele parou ao meu lado no sofá. Seus olhos passearam pelo meu corpo estirado no sofá. Sentia-me ainda mais nua, se fosse possível.
— Algum problema? — perguntei e ergui uma sobrancelha ao perceber que seus olhos indecentes ainda percorriam meu corpo, totalmente sem vergonha de observar cada pedaço de pele exposto.
Sorriu travesso, quase beirando a lasciva e pegou-me de surpresa quando soltou um tapa na minha nádega direita. Meu corpo balanceou no sofá com o impacto da palma da sua mão. Foi como se meu corpo tivesse entrado em chamas imediatamente. "Apressado!", exclamei ao sentir suas mãos puxando as laterais da minha calcinha.
— Não vai nem me dar um beijinho? — Mesmo contrariada, levantei meu quadril para ajudá-lo no ato.
— Acordei sozinho e excitado. Não acho que você esteja merecendo beijinhos — enunciou, intransigente.
— Eu só vim comer, baby. — Mordi os lábios quando senti seus beijos irem do início ao fim de minhas costas e tive que segurar-me para não arfar alto demais com o toque mínimo.
— Eu também vim comer, baby.
Depois de uma longa e torturante trilha de beijos pelas minhas costas, seus lábios (finalmente!) desceram até o meio das minhas pernas, fazendo-me jogar o celular em qualquer canto. Senti todo e qualquer vestígio da fome e preguiça sumirem, ficando apenas o calor.
━━━━━━◇◆◇━━━━━━
— Eu chorei assistindo esse filme — confidenciou %Filipe% enquanto zapeava pelos canais da TV. O filme em questão era Intocáveis. Eu também já tinha assistido, mas não chorei. Eu era bem difícil de chorar com filmes, ou com qualquer outra coisa.
Depois de transar em cada lugar da sala, %Filipe% e eu estávamos exaustos demais para mais uma rodada. Pelo menos, por enquanto. Depois de comermos a lasanha, — que estava horrível, por sinal, — nós fomos para meu quarto e acabamos decidindo por assistir alguma coisa. Mas desde que nos deitamos, a única coisa que não fizemos foi assistir TV.
%Filipe% não achava nada bom o suficiente para prender sua atenção, já que a minha estava completamente desviada e muito entretida com o jogo de zumbis no celular dele.
— Eu não choro com filmes — contei, sem prestar muita atenção na nossa conversa. Minha mente estava toda voltada a passar de fase no joguinho dos zumbis, que era viciante demais.
— Nenhum? — duvidou %Filipe%, virando sua cabeça para me olhar de forma estranha, já que eu estava deitada de lado e ele, apoiando a cabeça nas minhas nádegas. Neguei com a cabeça para respondê-lo. — Marley e eu?
— Eu não gosto de cachorro — relembrei-o do fato. Já me disseram que quem não gosta de cachorros, boa pessoa não é. Eu concordo plenamente.
Não sou mesmo uma pessoa tão boa assim.
— Titanic? — sugeriu mais uma vez.
— Não! — Gargalhei. — Não acredito que você chorou com Titanic!
— Só lagrimei no final. Sua estranha! Você não chora nunca? — quis saber, ainda olhando-me torto.
— É claro que eu choro, %Fil%. Só não com filmes — grunhi irritada por ter perdido no jogo e saí do aplicativo. Decidi entrar no Instagram de %Filipe%. Era legal entrar na rede social de alguém que todos conheciam, sempre tinha uma coisa nova para ver. %Fil% desistiu de achar algo bom para assistir e desligou a TV. — Eu desconto minhas frustrações no boxe.
— Ah, é! Você faz boxe, eu sempre esqueço disso — comentou. Virei o celular para mostrá-lo o que eu estava fazendo, caso ele não quisesse que eu estivesse ali, mas ele apenas deu de ombros como das outras vezes que usei sua rede social para fofocar. — Por isso você é gostosa.
— Olha como você é maluco por dizer isso. — Rolei os olhos e mostrei a foto de uma garota linda e sarada que ele seguia e que apareceu no feed justamente na hora daquele comentário de %Filipe% para exemplificar.
— Ela fez lipoaspiração, %Julieta%. Tanto silicone que os peitos são duros como pedras — %Filipe% me contou e fiz careta ao refletir em como ele sabia dos peitos.
— Você não se importa que eu seja... Um pouco mais gordinha? — perguntei, franzindo os lábios, ainda rolando o feed pela tela do celular.
— %Julieta%, você tem um corpo normal. Não tem nada de errado nisso — assegurou, fazendo-me sorrir. — E também não faria a menor diferença você sendo gorda, dura, magra. E-eu acho que eu ficaria com você de qualquer jeito.
Um mês atrás, eu reclamava que %Filipe% era prolixo, indeciso e não sabia me explicar o que ele queria. Infelizmente, o rapaz parece ter aprendido muito bem como falar sobre seus sentimentos, mesmo que sua voz gaguejada ainda demonstrasse um pouco da sua insegurança. Agora eu era a pessoa que não sabia lidar com %Filipe%, nem com as coisas que ele falava para mim. Sentou-se ao meu lado e puxou meu braço para me fazer sentar também, mas ignorei seu toque e virei-me para deitar de bruços.
Ao ponto que estávamos, %Filipe% já conhecia cada ponto do meu corpo, cada passo da minha rotina e por algum motivo desconhecido por mim, me incomodava quando ele começava a falar de sentimentos.
— Por que você fica me falando coisas assim? Fica falando como se gostasse de mim? — questionei, apoiando-me nos cotovelos, encarando meu travesseiro.
Toda vez que %Filipe% falava coisas assim, eu sentia que ele estava me fazendo favores. A %Julieta% malvada que vivia dentro de mim fazia-me pensar que talvez ele só quisesse garantir uma foda legal, por isso falava algumas coisas bonitas para mim. É uma coisa horrível de se pensar, ainda mais de %Filipe%, que é o oposto do tipo de pessoa que faria isso. Mas nunca se sabe, é impossível conhecer completamente e saber tudo sobre uma pessoa.
— Por que eu gosto, talvez? — Ele reuniu todo o seu desprezo em sua voz e eu ri do seu gracejo. Abracei o travesseiro quando ele não falou mais nada, apenas começou a dar umas tapinhas na minha bunda, formando um ritmo meio solto.
Ele já estava aprendendo a lidar comigo, já sabia que me ganhava muito no humor e esse era meu medo: Pessoas me conhecerem bem demais. O medo triplicava quando tratava de algo (ou alguém) que poderia causar graves danos ao coração franzino de %Julieta%.
Fazia tempo desde a última vez que alguém havia gostado de mim. Eu andava com Dana quase sempre e quase todo mundo que a gente conhecia, queria conversar com ela e saber mais dela. Ninguém queria saber meus gostos e vontades quando Dizzy estava por perto. Tudo bem que eu não gostava muito de falar de mim mesma, eu sei que não sou a pessoa mais interessante do mundo e que a parte mais legal de mim é a Dana. Por isso, ter %Filipe% no quarto comigo naquela tarde em que ele poderia estar fazendo qualquer outra coisa, significava muito.
É até irritante o quanto eu sou triste e depreciativa, eu sei.
Reclamei quando ele soltou uma tapa um pouco mais forte no meu quadril. Ele fez um "shiu" para mim e eu me irritei, empurrando suas mãos e me virando de lado, não deixando-o continuar, mas ele me puxou de volta e me segurou com força no lugar, continuando a batucar.
— %Filipe%, não faz shiu para mim, para! — Tentei me mexer, mas ele me segurava com força. — Vou quebrar seu celular, sério.
— Sua retaguarda está desprotegida, não devia me ameaçar assim. — Ele me deu uma mordida de leve na nádega esquerda. Comecei a me remexer novamente e ele começou a rir. — Você é linda.
Calei-me com sua declaração e sorri, esperando os batuques desorganizados darem lugar a um ritmo concreto, o que não demorou muito. Ele levantou e pegou um caderninho dentro do bolso do seu casaco, uma caneta que estava na minha estante e se sentou na beira da cama. Ficou anotando alguma coisa ali, compenetrado demais para perceber que eu o observava.
— Então, você escreve — constatei, preocupada.
— Ultimamente, bem mais do que o normal — respondeu ele sem desviar sua atenção do papel.
Forcei minha mente a ir em outra direção, mas eu não consegui não pensar que sua inspiração poderia ser culpa minha.
— Li em algum lugar que se meter com caras que escrevem é perigoso — comentei, bloqueei seu celular e virei meu corpo para vê-lo melhor e chegar próximo o suficiente para apoiar meus pés em suas costas.
— É? Por quê? — perguntou ele com um sorrisinho de lado.
— Ah, eu não lembro muito bem, mas era algo que dizia para não se apaixonar por caras que escrevem pois eles têm lábia, vão te romantizar etc.
Enquanto a caneta em sua mão não parava, meus pés pequenos demais pareciam se perder em suas costas largas. Ele levantou a cabeça e olhou para o lado, sério demais, de repente.
— Você já se apaixonou por um cara que escreve? — perguntou e eu travei no lugar.
Eu não sabia se ele estava perguntando se eu estava apaixonada por ele ou se já tinha me apaixonado, mas %Filipe% sempre me deixava confusa com sua neutralidade e nebulosidade.
— Você quer a verdade? — perguntei.
Eu realmente não sabia. Não sabia se estava apaixonada e principalmente, temia estar. Ele assentiu para si mesmo e voltou a escrever no bloco. Ele não perguntou nada diretamente e eu também não respondi do melhor jeito, mas tudo entre nós sempre acabava subentendido.
— O que rima com confusão? — perguntou, ainda rabiscando em seu pequeno bloco. Pensei por uns segundos, reunindo as rimas em minha mente, antes de responder.
— Emoção. Razão. Fusão. Desilusão. Eclosão. Combustão. Imaginação — citei algumas que vieram em minha mente.
Encarei o teto, pensando no significado de cada palavra e como poderia se aplicar em "confusão". Também pensei que se ele estivesse escrevendo sobre mim, a palavra "confusão" parecia muito correta de se usar. Meus pensamentos foram quebrados quando %Filipe% me deixou pensando com sua escolha de palavras.
— Você está perguntando por...?
— O texto, %Julieta%. O que fica melhor com confusão? — Virou-se para mim completamente, sentando-se de pernas cruzadas e apoiando o bloco de notas na perna. E me encarando com aqueles olhos cheios de neblina, que não me deixavam ver nada além disso.
— No texto, elas até ficam bonitinhas juntas. Na prática, talvez nem tanto — respondi, mordendo o lábio. — Lidar com uma atração confusa era mais simples do que ter de lidar com uma paixão confusa.
E foi assim, sem falar exatamente o que pensava, que eu soube qual era nossa situação, a quantas andava nossa relação. Minhas palavras fizeram ainda mais sentido quando as apliquei ao nosso contexto.
— Toda paixão começa com uma confusão. — Ele deu de ombros, abaixando a cabeça e escrevendo novamente, só que dessa vez com mais afinco.
Como eu nunca percebi que %Filipe% era um cara que escrevia? O cara transpirava arte. Sempre havia um quê mais poético em suas frases, seu jeito misterioso de ser, mesmo que ele não fizesse questão de esconder nada que dizia respeito a ele.
— Sobre o que você está escrevendo, afinal? — perguntei, não entendendo mais o sentido de nada e morrendo de curiosidade.
— Sobre você. E de alguma forma, todas as palavras servem.
Fiquei calada, senti meu peito se aquecer de uma forma que a muito não aquecia. As batidas do meu coração se fizeram presentes, fiquei nervosa e agraciada com sua presença. Tive vontade de gritar, bater as pernas e comemorar pela cidade.
Queria ir em cada esquina e contar que aquele garoto bonito estava escrevendo para mim, sobre mim.
— Até mesmo "combustão"? — perguntei com um sorriso que nem cabia em meus lábios.
— Principalmente combustão, linda — respondeu ele, balançando a cabeça.
— E desilusão? — perguntei baixinho, com medo da resposta. Ele me olhou, mas não parecia estar me vendo, parecia estar com o pensamento a mil.
— É a palavra que a razão usa para me torturar.
Dito isso, levantei-me, tirei o bloco de suas mãos e me sentei em seu colo, com uma perna de cada lado do seu corpo e abracei seu torso. Ele deu uma risada doce e me abraçou de volta. Eu acho que nunca tinha abraçado %Filipe% e isso só me deu mais certeza de que eu estava no lugar certo.
— Eu vou te dizer algo agora e eu acho melhor você usar isso em alguma música e nunca, nunca esquecer. — Descolei meu corpo do dele e olhei-o nos olhos. Aqueles malditos olhos castanho-claros, que não saíam da minha cabeça todos os dias, o dia inteiro. Ele assentiu, encarando-me com a mesma intensidade que eu o encarava. Respirei fundo e acariciei seus ombros. - Eu acho que você vai ser "o cara que escreve" por quem eu vou me apaixonar. Tudo bem para você?
%Filipe% sorriu lindamente, segurou meu rosto entre suas mãos e me beijou de um modo lento e apaixonante. O tipo de beijo que sempre antecede algum acontecimento, o tipo de beijo que vai ser lembrado por mim futuramente entre suspiros.
Assim que seus lábios deixaram os meus e tocaram a pele fina do meu pescoço, a última frase do texto que li tempos atrás surgiu em minha mente, como se fosse uma placa com luzes neon e vibrantes.
"Não se apaixone por caras que escrevem. Ame—os". Eu só precisava descobrir se ele era minha atração, minha paixão ou minha confusão. Ainda que algo dentro de mim dizia que ele poderia ser os três, porque %Filipe% %Buchart% já tinha esse poder. De ser e significar várias coisas para mim.
━━━━━━◇◆◇━━━━━━
Eu era boa em ficar sozinha. Sabia ficar e ser sozinha sem solitária. Porém, desde que %Filipe% apareceu em minha vida, eu já não era mais tão só assim e parecia que eu tinha desaprendido a ficar só. Cada momento meu e dele estava gravado em minha mente e tudo o que eu fazia me levava a ele, de alguma forma.
O cinema, por exemplo. Toda vez que eu passava em frente ao cinema, eu lembrava do dia em que nós dormimos no meio do filme e a lanterninha veio nos acordar quando as luzes acenderam. A gente tinha trabalhado o dia inteiro e estávamos exaustos, mas não queríamos ter que desmarcar um com o outro.
Eu e %Fil% não éramos o casal chato que se excluía do grupo, mas houve um dia em que ignoramos as ligações do pessoal para sair porque a ideia de ter que levantar da cama dele era insuportável demais. Eu também adorava lembrar do dia em que eu fui assistir os vídeos de ele cantando no YouTube, mas ele pegou o notebook e saiu correndo pela casa como uma criancinha, reclamando que sentia vergonha. Eu reclamei do fato de ele cantar para centenas de pessoas toda noite e não sentir vergonha. Quando ele respondeu: "Mas nenhuma daquelas pessoas significa tanto", eu me calei. Como sempre fazia quando %Filipe% demonstrava demais.
E também quando eu o vi cantar ao vivo pela primeira vez.
Ele fez um show no Unplugged, um pub famoso em Hillswood por promover shows acústicos e também por ser demasiadamente caro. Eu cheguei atrasada — como sempre — e tinha uma grande fila na porta que eu tive dificuldade de driblar, mesmo com meu passe VIP.
Quando entrei no local, %Filipe% já estava cantando fazia uns 20 minutos então achei melhor ficar ali pelos fundos mesmo e assistir o resto do show tranquila e sozinha, longe do amontoado de gente que se exprimia em frente ao palco, onde Jack provavelmente estava.
Então, eu vi %Filipe% %Buchart% cantar ao vivo pela primeira vez.
Eu não sei foi o cover de Hey Jude, se foi o público cantando sincronizadamente, se foi a camisa social cinza que o deixava irresistível, se os chacras se alinharam, ou seja lá o que caralhos aconteceu ali, mas eu estava extremamente encantada.
Talvez encantada não seja a palavra certa, mas eu me recuso a aceitar a outra palavra.
A voz rouca e rasgada de %Filipe% preencheu cada canto do lugar e deixava um rastro de serenidade em todos. Ele era bom, tinha presença de palco, o baterista dele era bem bonito e %Filipe% %Buchart% era o sinônimo vivo de carisma. Era cativante, envolvente e apaixonante demais.
Um perigo real para a pobre %Julieta%, que já se encontrava sem defesas.
Quando finalmente consegui desviar o olhar de %Fil%, já me sentindo idiota demais por estar quase babando por ele, percebi que eu não era única. O número de meninas que tinha ali até me assustou. %Filipe% deu uma pausa no show para beber água e achei melhor procurar por Jack. Após alguns minutos de procura, encontrei-o quase na beira do palco e aproximei-me dele, perguntei por que tantas mulheres ali.
— Groupies — murmurou Jack no meu ouvido, como se fosse segredo.
— Groupies? %Filipe% tem groupies? — questionei sem acreditar.
— Sim, mas não se preocupe, ele parou de aproveitar depois que te conheceu. — Jack deu de ombros.
Uma garota de vestido colado que ostentava um belo par de pernas e um busto farto passou por nós. Soltei um assobio, vendo tamanha exuberância.
— Tem certeza? — Gargalhei, apontando para a mulher com a cabeça, para que Jack olhasse também.
— É... A gente acha. — Jack pareceu tão em dúvida quanto eu. A mulher era linda mesmo, até eu a pegaria. Sem pensar duas vezes. — O que eu sei é que a gente aproveita tanto ou mais do que ele.
Jack apontou para trás de mim e eu vi John, um amigo em comum, de costas para o palco, sem nem ligar para %Filipe% ali, falando algo no ouvido de alguma mulher. Gargalhei e olhei para o palco. %Filipe% voltou ao palco e anunciou que ia cantar uma música que eu não conhecia. Quando me viu ao lado de Jack, deu um sorriso infantil e divertido. Ri e lancei-lhe um beijinho.
Escorei-me em uma parede meio escondida ao lado do bar assim que %Filipe% encerrou o show e saiu do palco. Assisti Jack paquerar todas as pessoas do sexo feminino do recinto e %Filipe%, que cumprimentou cada uma das meninas na beira do palco, educadamente falou e bateu foto com todos que queriam falar com ele.
Fiquei observando cada movimento dele, sentindo-me uma adolescente idiota, uma fã de 17 anos, principalmente por estar tocando uma sessão de indie rock antiga.
"Oh, that boy's a slag the best you ever had". A frase que saiu na voz inconfundível de Alex Turner fez todo o sentido pois foi o exato momento que %Filipe% veio em minha direção, com sua jaqueta de couro, parecendo um sonho e fazendo meu coração pular uma batida. Aquele talvez não fosse o contexto correto exposto na música, faltava uma estrofe para complementar a frase, mas me fez questionar.
Teria sido ele o melhor que eu já tinha tido?
— Você viu? — Ele me deu um selinho e um beijo no pescoço, abraçando minha cintura assim que se aproximou. Assenti, meio anestesiada com seus carinhos. — Então...?
— Bom, é uma opinião meio paradoxal — eu comecei e ele me encostou na parede novamente, apoiando um braço do lado da minha cabeça, me encarando de jeito que me faria tirar as roupas para ele ali mesmo. — Eu queria e devia sair correndo daqui agora porque você cantando me deixou de um jeito que ninguém nunca deixou e isso me parece perigoso, mas também quero que você me leve para sua casa hoje. Então, como eu disse, paradoxal.
— Você achou perigoso? Imagina como eu me senti quando eu fui subir no palco e só queria estar jogado na cama com você. E a coisa que eu mais gosto no mundo é cantar.
O sorriso dos meus lábios sumiu de imediato e o dele também, ficamos nos encarando intensamente. O local parecia ter ficado pequeno e abafado com o peso de nossas palavras.
— Você precisa parar de me falar coisas assim — pedi, fechando os olhos fortemente, temendo me perder em seus olhos. Não suportando o peso de sua intensidade.
— Por quê? — perguntou, como se fosse um menino de sete anos. Abri os olhos, ainda tendo que lidar com seus olhos que pareciam despir a minha alma.
— O quanto eu vou ter que brigar com suas groupies por sair com você hoje? — brinquei, ajeitando a gola de sua camisa. Ele deu um sorrisinho, parecendo chateado por eu ter mudado de assunto mais uma vez.
— Não vai precisar. Vem, quero te apresentar umas pessoas.
%Filipe% me apresentou para toda a sua equipe, alguns amigos, me olhou torto quando eu dei em cima do baterista descaradamente, e no fim da noite, acabamos sentados no banco de trás do meu carro, bebendo vinho e encarando um ao outro. Não trocamos muitas palavras naquela noite, apenas ficamos nos olhando.
Tentando entender o que era todo aquele sentimento, aquele choque que acontecia cada vez que a gente se via, aquela explosão que sentíamos toda vez que nossas peles se tocavam. Tentando entender toda essa dependência que estava tornando-se cada vez mais forte e agressiva.
Eu não sabia e principalmente, não queria mais ser só.