5 • A complicação.
Julho.
Hillswood era uma cidade que não apresentava muitas variações climáticas. A temperatura era amena e estável quase sempre, sendo esse um dos motivos pela minha escolha de viver no lugar. Havia dias que tinham picos, de frio ou calor, mas eram casos isolados. Aquele final de semana em especial, o calor resolveu aparecer, deixando a agradável HW em clima quase tropical.
Os jornais argumentavam que o aquecimento global tinha uma parcela de culpa nisso, mas eu, particularmente, acreditava que era apenas uma forma do universo de agradecer e honrar o nascimento de %Filipe% %Buchart%. O rapaz nascera no primeiro dia do signo de leão, um dos signos de Fogo, cujo Sol é o planeta regente. Por isso não fiquei surpresa ao dar de cara com temperaturas altas no final de semana que tínhamos planejado ir ao litoral para comemorar o aniversário do nosso pequeno astro em ascensão.
Eu não acreditava muito em astrologia e seus afins, mas eu recorria a qualquer coisa para obter explicações sobre %Filipe% e sua plenitude.
Eu deveria estar "de molho" em uma piscina, sentindo meus dedos se enrugando a cada minuto mais. Eu poderia estar em uma praia, sentindo o sol degradando a minha pele. Poderia estar vendo Jack e %Filipe% fingindo que gostam de jogar futebol na areia (ou em qualquer lugar) e/ou ouvindo Cameron fazendo piadas sobre a falta de jeito dos mesmos com a bola, ou inventando piadas sujas envolvendo o biquíni vermelho de Dana.
Queria estar dentro do mar, sentindo as ondas me embalando e os lábios de %Filipe% tocando-me, como se fosse o brinde perfeito. Entretanto, eu estava condenada a trabalhar até às cinco da tarde, presa em uma sala do tamanho de um elevador, com cheiro de queijo.
%Filipe% alugou uma casa na praia para comemorar seu aniversário e todos os garotos já estavam no lugar, exceto eu e Dana, por culpa minha. Eu teria que trabalhar e não poderia faltar, nem pedir folga. Dizzy falou que não iria sem mim e não queria que eu fizesse uma viagem de três horas durante a noite e sozinha. Então, ela decidiu que iria esperar até o final do meu expediente. Disse que iria ao shopping comprar um presente para o amigo e a ideia de ter que dar algo me deu arrepios.
O que eu deveria fazer? Fingir um relacionamento, ser doce e legal? O que dar de presente para uma pessoa que é muito (muito!) mais que um amigo e menos do que um namorado? Nós ainda estávamos meio estremecidos por conta das semanas tensas que tivemos. Não trocamos muito após a conversa que tivemos no quintal dele, ele preferiu deixar quieto tudo o que tinha se passado. Como ele não tocou mais no assunto, eu também me mantive calada sobre.
Quase chorei de felicidade quando, finalmente, fui liberada do jornal e corri em direção ao meu carro. O sol já se despedia e dava lugar a um céu azulado e alaranjado ao mesmo tempo. Praguejei alto pois o pôr do sol na praia devia estar incrível e eu estava vendo-o de uma avenida dentro de um carro.
Adentrei meu apartamento quase correndo e limpando a gotícula de suor que escorria pelo meu pescoço. Julho e agosto costumavam ser os meses um pouco mais quentes e andar nas ruas de Hillswood nessa época era terrível. O calor deixava as pessoas irritadas e mal-humoradas.
Eu estava irritada e mal-humorada. Tudo o que eu queria era estar na praia com meus amigos. Dei uma última olhada nas nossas malas em cima do sofá, já devidamente arrumadas e equipadas. Joguei minha bolsa de qualquer jeito na sala e fui em busca de Dizzy.
- Dana? Vou tomar banho bem rápido. Se corrermos agora, chegamos antes das nove! — gritei, indo para o meu quarto. Voltei ao corredor quando não obtive resposta da morena. Fui até o quarto em frente ao meu, para ter certeza que a mesma não estava no shopping, como tinha me avisado antes.
Bati duas vezes na porta entreaberta antes de entrar. Dizzy estava sentada no meio de sua cama, com as pernas cruzadas e o celular apoiado à sua frente em cima de uma almofada de panda. Assim que percebeu minha presença, chamou-me com a mão e colocou o celular no alto falante.
— Não estou entendendo esse seu surto, pai. Eu me formei, estou fazendo o que eu gosto, estou até me tornando conhecida no meu meio de trabalho. É algo que eu sempre quis e vocês me apoiaram — Dana falava de um jeito choroso —, não faz sentido me pedirem para voltar agora!
— Dana, deixamos você fazer o que queria fazer. Você está morando em outra cidade, pelo amor de Deus! — Franzi o cenho ao reconhecer a voz forte de Balcio, o pai de Dana. — Não acha que já está na hora de nos agradecer?
Nunca vinham boas notícias ou coisas agradáveis quando alguém da família de Dana resolvia dar as caras.
— Agradecer, largando a minha vida? — A voz da mulher já estava afetada, pelo tremor evidente, pude perceber o quanto ela estava segurando o choro. Sentei-me ao seu lado e puxei sua mão para mim, entrelaçando nossos dedos.
Balcio era o sinônimo de abusivo e desnecessário. Dana acumulava umas boas doses de ansiedade quando o homem resolvia lembrar que tinha uma filha. Eu odiava o que eles faziam com ela.
Por serem pais adotivos de Dana, achavam que tinha o poder de fazer com ela o que bem entendessem, e até um tempo atrás, Dizzy concordava. Achava que deveria mostrar gratidão a eles de alguma forma e aceitar calada era a forma que ela achava o certo a se fazer. O abuso psicológico deixava marcas irreparáveis na garota.
Eu moveria o mundo por Dana, voltaria no tempo, faria o que fosse possível para livrá-la daquela cambada de pessoas maldosas.
— Qual o problema? Você sempre gostou de ficar por dentro dos negócios da família, sempre gostou do conforto que nós te oferecemos. Estamos pedindo demais que você simplesmente volte para casa? Não sente nossa falta? — Revirei os olhos com a arrogância e a chantagem emocional que Balcio estava fazendo. Era típico.
— Claro que sinto, pai. O problema é...
— Você viver uma vida boêmia e sem grandes conquistas não é uma vida. Você já é uma adulta. Não importa mais as baboseiras liberais que %Julieta% põem na sua mente! — Dana abriu a boca, indignada.
Fiz uma careta e meus olhos quase explodiram de tanto que eu revirei. O homem simplesmente não conseguia me esquecer e me culpava por seus fracassos como pai.
— %Julieta% não tem nada a ver com isso, pai! — gritou com o telefone e eu a repreendi. — Vocês sempre colocam %Julieta% no meio das nossas conversas! Ela não tem nada a ver com as minhas escolhas e vontades!
O pai de Dizzy nunca foi um exemplo de simpatia comigo. Odiava quando ela me defendia com unhas e dentes, odiava quando ela acabava me colocando antes da própria família. Ele era um homem muito inteligente, habilidoso, mas não sabia lidar com sua própria fortuna, não sabia lidar com sua família e principalmente, não sabia lidar com sua própria filha.
— Dana, eu só estou... — tentou falar, mas foi interrompido por ela.
— Não! Pai, vê se entende isso: Eu gosto da minha vida, gosto do que eu faço. Mesmo que eu não estivesse satisfeita, eu preferiria qualquer coisa a ter que voltar à vida padronizada que vocês insistem em ter. Eu prefiro qualquer coisa a ser um poço de amargura e arrogância! — Desligou o celular e jogou-se na cama de costas, bufando alto. — Argh!
— Dana! — Surpreendi-me quando ela desatou a falar, desafiando o pai.
Acho que Balcio não gostava de mim justamente por esse motivo. Eu despertava uma coragem em Dana que ela não costumava ter. Passei a influenciá-la a ser uma mulher forte e independente quando percebi que ela não fora criada para ser assim. Por muito tempo, ele achou que eu e Dana tínhamos um caso e se revelou um cara homofóbico e intolerante.
— Eu não vou voltar, %Julie%! Eu gosto daqui, achei que já tivessem passado dessa fase de me querer perto — exprimiu, raivosa.
— São sua família, devem mesmo querer você por perto — tentei amenizar sua raiva e chateação, mas dessa vez ia ser difícil.
— Não, %Julieta%. A sua família te quer por perto. Eu ainda não entendi exatamente o que a minha quer comigo. — Enrolou-se em seus travesseiros e puxando o lençol até sua cabeça, começou a choramingar. — Posso ficar em casa? Quero ficar e chorar a noite toda.
— Podemos arranjar uma desculpa e ficar. Se precisar se afastar, tudo bem. Mas você sabe que eu sou sempre contra "choro a noite toda" — digo, limpando o rímel escorrido no belo rosto de Dizzy. — Veja pelo lado bom: nós temos a melhor oportunidade de fuga do mundo para hoje mesmo!
— Encher a cara com aqueles idiotas sempre é uma boa ideia. — Sorriu, porém, ainda tristonha. Senti meu celular vibrar no bolso traseiro da minha calça jeans. Sorri ao ver a foto de Jack segurando uma garrafa de tequila no visor do celular.
— E como Jack tem o melhor timing do mundo... — Deslizei o dedo pela tela, aceitando a ligação. — Jack, Jack!
— Onde vocês estão? Essa casa está precisando de umas presenças femininas. — A voz grossa de Jack estourou. Olhei para Dana, que olhava para o teto, perdida em seus próprios pensamentos e questões. — Que horas vocês vêm?
— Eu não sei, Jack. — Joguei meus sapatos longe e aconcheguei o corpo de Dizzy no meu. Abraçou-me de volta imediatamente.
— Como assim "não sabe"? — Jack quase gritou. Um breve barulho surgiu, como se o celular estivesse passando de mão em mão.
— Como assim "não sabe"? É meu aniversário, %Julieta%! — Ouvi a voz de %Filipe% e sorri automaticamente. Não fazia nem uma semana que ele estava longe e eu já estava com saudades dele. Maldito %Buchart%! — A minha exigência do dia são vocês chegarem aqui ainda hoje!
— Estamos com uns problemas — comentei, passei as mãos nos cabelos de Dana. Olhou-me com os olhos cheios de lágrimas. Passei o dedo em suas pálpebras antes de dar chances às lágrimas caírem e encostei meu nariz no dela.
— Mas que porra! Eu vou pegar meu carro e vou aí pegar vocês, agora! — falou Cameron pela primeira vez tão alto, que Dizzy conseguiu escutar devido nossa proximidade. A voz alterada do inglês causou uma risadinha em Dana.
— Não precisa, nós vamos! — Sentando e limpando o próprio rosto, afirmou. — Nossas malas já estão prontas mesmo.
— Você tem certeza? — questionei, preocupada. Não queria que ela se sentisse forçada a ir.
— É meu aniversário! — gritou %Filipe%, empolgado. Ele era daquelas pessoas que amava aniversários e parecia uma criança de cinco anos quando o assunto era o seu próprio aniversário.
— É aniversário dele! — confirmou Dana, falando em tom de obviedade.
Não demoramos muito a sair de casa após a ligação dos rapazes. Tomamos banho, arrumamos as coisas no carro e saímos. Após três horas de viagem, muitas lamentações, acessos de raiva de Dana por culpa de sua família complicada, cinco playlists no Spotify e muitas ligações de Jack, nós finalmente chegamos ao litoral.
A casa que %Filipe% alugou era bem simples, não muito grande. Tinha as paredes amarelas, dois quartos, dois banheiros, uma cozinha pequena e uma sala menor ainda, mas era extremamente aconchegante. Diferente da casa, o quintal era bem amplo; tinha um deck inteiro de madeira, uma piscina de sete metros e algumas espreguiçadeiras. A casa era em uma ladeira íngreme, não tinha muros e era possível ver a praia lá embaixo. Por isso %Fil% a escolheu, talvez ela fosse a única que nós conseguíamos ver a praia mesmo se estivéssemos sentados na cozinha.
Chegamos antes das 22h devido à falta de trânsito no nosso caminho. Dana brigou várias vezes durante a viagem comigo e minha despreocupação com excessos de velocidade, mas ela não parecia brava agora que todos nós já estávamos jogados na piscina e bêbados devido a mistura de várias bebidas.
— Já sei! Eu nunca brinquei de verdade ou desafio! — %Filipe% compartilhou, empolgado até demais. — É isso que vamos fazer!
— %Filipe%, você vai fazer 25 anos daqui a... — Dana puxou o braço de Jack para ver o relógio — 30 minutos! É assim que você quer passar seus últimos minutos com 24?
— Eu nunca brinquei dessas coisas, Dizzy! Me deixa viver. É meu aniversário e todo mundo vai fazer o que eu quero fazer! — Cruzou os braços, fazendo um beicinho para a censura e deboche de Dana.
Ela revirou os olhos e jogou água em seu rosto. Ele revidou e eles entraram numa briguinha. Desviei o olhar e peguei meu copo. Eu havia começado bebendo apenas cerveja e agora não fazia ideia do que era aquela bebida azul no meu copo. Jack realmente não economizou na variedade de bebidas.
— Ok, vocês dois, chega! — Cam — que estava sentado ao meu lado na borda da piscina — pulou na água e colocou-se entre os dois. — %Filipe%, verdade ou desafio?
— Ah, sou eu! Calma, deixa eu pensar! — Gargalhei, assim como todos também riram. %Filipe% já não estava em suas plenas faculdades mentais e era sempre engraçado quando ele ficava mais bêbado que todo mundo. — Desafio!
— Sempre quis desafiar isso! — confidenciou Dana, gritando antes que alguém se pronunciasse. — Desafio você a beijar a pessoa mais bonita daqui!
Imediatamente, minha mente criou a imagem de %Filipe% beijando Dana. Seria muita informação e muitos sentimentos juntos, eu não sei o que eu faria se isso acontecesse. Mas não aconteceu. %Filipe% pulou nos braços de Cameron, segurou seu rosto entre suas mãos e beijou os lábios do mesmo. Todos nós ficamos de boca aberta e começamos a gritar como um bando de loucos, surpresos com o ato inesperado de %Filipe%.
— Me senti pessoalmente ofendido, não vou negar! — reclamou Jack, jogando seu copo para fora da piscina. Eu era a única que estava sentada na borda, aproveitei para me esticar e puxar o cooler para mais perto da piscina.
— Eu também! Você devia me beijar! — esbravejou Dana. Ainda bem que eu estava de costas para eles, assim ninguém viu minhas sobrancelhas se erguerem. Recriminei-me a sentir algo sobre isso. Estavam todos bêbados, brincando um com o outro, não haveria fundo de verdade algum nisso, certo?
Existe a paranoia e a intuição. A linha entre as duas é extremamente tênue, assim como seus lados. A intuição é sutil, mas ótima em trazer o caos. Intuição e paranoia também são boas em nos deixar alerta no que está acontecendo à nossa volta e pronta para algo que possa vir a acontecer. O lado ruim é justamente esse. Diferente da paranoia — que é apenas paranoia —, a intuição nos dá quase certeza de que algo vai acontecer.
Tudo o que eu queria era estar sendo completamente paranoica.
— Invejosos! — gritou Cam enquanto comemorava e se gabava por ter sido a escolha de %Filipe%. Voltei ao meu lugar à beira da piscina, joguei minhas pernas na água, puxando o cooler para meu lado. Tudo o que eu queria era ingerir mais cinco litros de álcool para ignorar todos os pensamentos que pareciam errados demais.
— Eu não vou nem comentar — brinquei e comecei a encher os copos vazios.
— Desculpa, amor. Esse cara mexe comigo! — gracejou %Filipe% e fez um carinho na minha perna. Sorri pelo adjetivo que nunca tinha sido usado comigo antes.
— Você não tem critérios mesmo — brincou Dana, balançando seus cabelos e esticando seu copo para que eu enchesse.
— Olha quem fala, você já pegou o Jack! — debochou Cameron, jogando água no rosto dela.
— Não fala assim, ele é lindo! — ela defendeu o loiro, que se aconchegou nela como se fosse um gato, quase ronronando.
— Obrigado, Dana! — agradeceu Jack e jogou água no resto de nós. — Você é a única aqui que me respeita!
— Vamos ser sinceros. Todo mundo aqui beijaria o Cam! — declarou %Filipe%, bebendo um gole de sua bebida e colocando-se entre minhas pernas.
Cameron era realmente a escolha mais óbvia. Os lábios inchados, aquele ar britânico e os olhos verdes lhe davam a vitória.
— Concordo! — Lembrei de uma conversa minha e de Dana alguns meses atrás. Sabia que ela também lembraria, logo, aproveitei a situação para ajudar a concretizar as vontades da minha garota. — Dizzy, verdade ou desafio?
Todos começaram a fazer um "Uh" prolongado enquanto ela pensava. Dizzy olhou em meus olhos por alguns segundos, como se estivesse tentando ler meus pensamentos. Dei uma risada e pisquei um olho para ela, que rapidamente entendeu o que ia acontecer.
— Desafio! — respondeu e eu abri um sorriso malicioso.
— Beije a pessoa mais bonita daqui — ordenei, sem pestanejar. E ela, sem nem me dar tempo de terminar a frase, puxou Cam pelo braço e beijou-o.
Todos nós começamos a gritar e jogar nossas bebidas para cima, sem acreditar no que estávamos assistindo. Dana e Cameron se pegando bem em frente aos nossos olhos. Não era de hoje que Dana tinha vontade de dar uns beijos sem compromisso em Cam. Eu vi a brincadeira como a oportunidade perfeita para ela. E também... Bom, não tinha mais como negar que Dana estava cultivando uma possível vontade de dar uns beijos em %Fil%.
Eu só dei uma ajudinha para tirar o que era meu da reta.
— Que noite, meus amigos! Que noite! — %Filipe% ergueu seus braços para cima enquanto ria.
— Eu que o diga! — exclamou Cameron, com a feição abobalhada. Todos nós rimos e continuamos na brincadeira, que agora parecia divertida de verdade.
Cam teve que responder umas perguntas muito indelicadas de Jack, Dana teve que fumar um cigarro inteiro (ela odiava), eu tive que dar um beijo em Jack (sob protestos de %Filipe% e Dana) e o mesmo teve que ligar para a ex-namorada, desafio sugerido por %Fil%. Todos já tínhamos perguntado e desafiado uns aos outros, exceto...
— Ah, não! — reclamei quando Cam apontou para mim e eu percebi que o único que ainda não tinha sugerido desafios para mim era ele. — Cam é pior que Jack, ainda mais se tratando de mim.
— Calma, pequena %Julie%. Não sou tão terrível assim — afirmou, mas seu sorriso sarcástico só me deixou mais temerosa. Depois de ter beijado Jack, minha cota de desafios estava quase no fim.
— Eu só quero dizer uma coisa. — Dizzy levantou o braço, pedindo a fala. Puxei seu braço de volta. Certeza de que Dana vinha com alguma coisa constrangedora como sugestão. — %Julie% é boa em lap dance! — alertou e todos começaram a rir. Joguei a cabeça para trás, cobrindo os olhos.
— Cameron, eu acho que não haverá prova de amizade maior que essa! — recomendou %Filipe%, deu um gole na sua bebida e uma tapinha despretensiosa no ombro de Cam.
— Eu te amo, cara! — Cam deu um beijo na testa de %Filipe% e virou-se para mim com o dedo apontado. Arregalei os olhos, ele ia cumprir o que estava prometendo. — %Julieta%, eu te desafio a dar uma lap dance para o aniversariante do dia, agora! — decretou sob comemorações e bebidas sendo jogadas para cima.
— Você tinha que falar... — reclamei com Dana, dando um gole na minha bebida. Apesar de que dançar em cima de %Filipe% não seria sacrifício algum, eu não era totalmente atrevida e sem-vergonha.
— Amiga, estou aqui para enaltecer seus talentos! — Ela me puxou pela perna, me fazendo cair na piscina. Gargalhei com seu susto e sua tentativa de não me deixar afundar.
— Presente de aniversário, ué — sugeriu Jack e foi como se uma lâmpada se acendesse em minha mente. Sexo, é claro! Eu finalmente havia achado o presente perfeito para %Buchart%.
— Mas na frente de todo mundo? — protestei, jogando meus cabelos molhados para trás. — Vocês nunca nem viram a gente se beijando!
— Aceite o fato que você vai ter que rebolar essa bunda em mim, baby... — %Filipe% apontou para o seu próprio colo e eu cobri meu rosto com as mãos, envergonhada com sua escolha de palavras. Todos começaram a gritar e jogar água em nós.
Era engraçado quando %Filipe% falava assim comigo na frente dos outros porque, geralmente, nós não ficávamos exaltando nossa relação e expondo nossa intimidade. Então, imagino que foi um pouco surpreendente para nossos amigos nos enxergarem como um casal.
— Ainda não é aniversário dele! — relatei, usando isso como desculpa para não ter que cumprir o desafio.
— Sinto informar, %Julieta%, mas são exatamente 00:05. — Jack olhou em seu relógio e informou. Significava que já era 22 de julho, aniversário de %Filipe% %Buchart%. Dana berrou e jogou-se em cima de %Fil%. Cameron fez o mesmo. Logo em seguida, Jack e eu acabamos nos juntando ao abraço grupal em %Filipe%, que gritava sem parar que seu aniversário havia chegado, finalmente!
A partir desse momento, as coisas começaram a ficar nebulosas na minha mente. Foi o momento que nós abusamos da nossa juventude e ingerimos o máximo de álcool que nosso corpo foi capaz de aguentar.
Sabe quando todos já estão muito bêbados, cantando as músicas antigas do N'Sync a plenos pulmões e você já está tão bêbada que fica em dúvida do lugar onde você se encontra? Geralmente, essa era a hora em que eu começava a parar de beber. E aos poucos que a sobriedade chegava, a divagação sobre tudo vinha junto.
Eu ficava bêbada e logo começava a me tornar super ciente de mim mesma e do que acontecia na minha vida. Notei que me sentia ansiosa e preocupada com os rumos que minha vida estava tomando. A minha grande indecisão em relação ao meu futuro profissional estava cada dia mais preocupante. Ainda assim, eu estava bem. Pela primeira vez, a minha vida pessoal estava completa.
A maioria das pessoas acham que tem amigos de verdade, acha que sabe o que isso significa, mas a verdade é que você só sabe o que é amizade depois de conhecer as pessoas certas. Eu olhava para Jack, Cameron e Dana e sentia meu coração preencher-se de carinho e afeição. Era até estranho confiar tanto em pessoas que você não conhece a vida toda e que não são da sua família.
E existe aquele momento, que todos estão correndo pela praia, provocando um ao outro. E um abraço surge no meio do caminho, e uma mão entrelaça na sua e o sentimento de amor profundo quase te engole e até assusta. Naquele momento, com a lua iluminando nossos caminhos pela areia branca, nada mais importava no mundo.
E %Filipe%... Ah, maldito %Buchart%.
Ele definitivamente era o maior causador das minhas dúvidas sobre mim mesma e tudo que eu acreditava, mas também era o maior causador da minha ambição. Era culpa dele meu estômago revirar dentro de mim toda vez que ele me tocava. O causador dos meus suspiros. Eu sempre o quero. Quero tudo o que ele é, tudo o que ele pode me oferecer, tudo o que ele não é. Quero ele de todas as formas possíveis. E isso era assustador.
Eu sentia urgência em tê-lo por perto e comigo, uma necessidade que eu nunca sentira com ninguém. E era ainda mais bizarro assistir à atração fatal que havia entre nós acontecendo.
Eu achava que estava obcecada por ele ser absurdamente legal e adorável, por ele ser tão ele. Achei que poderia ser por causa da sua beleza juvenil demais, que lembrava muito aqueles garotos bonitos que nós vemos na rua, mas parecem existir num mundo alheio ao nosso.
Entretanto, afeiçoei-me até pelos seus defeitos, pelos seus erros e falhas. Comecei a dormir mal sem ele ao meu lado, logo eu, que dormi sozinha a minha vida toda. Era assustador demais estar completamente completa, por mais redundante e pleonástico que isso seja.
Eram 5h da manhã quando nós percebemos que ninguém tinha condições nem de manter-se de pé, então decidimos ir dormir, planejando voltar para a praia no dia seguinte e ficar horas por lá. Gargalhei ao ver Dizzy e Cam tentando subir as escadas com Jack quase pendurado em seus ombros, tão bêbado que suas pernas não funcionavam. Ia segui-los, para ajudá-los a se acomodar nos quartos, mas percebi que %Filipe% não estava atrás de mim.
— %Fil%? — chamei um pouco alto. Um "aqui" veio da cozinha. Fui até lá e encontrei com %Filipe% sentado na pequena mesa de jantar que tinha no meio do cômodo. Franzi o cenho e aproximei-me dele. — O que faz aqui?
— Tentando ficar sóbrio para não vomitar do seu lado. — Deu uma risadinha fofa e bebeu um gole de água. Não conseguia mais controlar meus suspiros e sorrisos perto dele.
— Vamos dormir juntos? — questionei. Posicionei-me entre suas pernas e espalmei minhas mãos em suas coxas. Desde que chegamos, ainda não tínhamos tido tempo de ser um casal, nem de se beijar apropriadamente. Eu estava sedenta por um tempo a sós com ele.
— Não imagino ficar na mesma casa que você e não dormir ao seu lado — confessou. Colocou as mãos em meu rosto e acariciou minhas bochechas. Fechei os olhos, agraciada com sua fala e seu carinho.
— Será que eles não ficam chateados com a gente? — externei uma das minhas maiores dúvidas.
Eu tinha muito medo de nós sermos inconvenientes sem perceber. Tinha receio de que nossos amigos ficassem desconfortáveis com a gente, mesmo que nós não déssemos tantos sinais de que estávamos juntos.
— Não, eles já teriam dito algo se os incomodasse, você sabe. — Tentou me tranquilizar, acariciando meu ombro. Dei uma risada e acabei concordando.
A intimidade era tanta que nós não tínhamos mais reservas em falar coisas que não gostávamos um no outro. Semana passada, Dana e Jack entraram em guerra porque Jack reclamou do jeito que Dana desligava o celular na cara de todo mundo e ela falou do seu jeito desastrado de comer. E logo nós estávamos naquela cena de Friends, em que um aponta o defeito do outro, esquecendo do maior causador da discórdia, Chandler.
Cameron era o nosso Chandler.
— Você está com muito sono? — perguntei.
— Nem um pouco, por quê? Vou ganhar minha lap dance agora? — Sorriu malicioso e empolgado, me puxando com as pernas para mais perto dele.
— Não! — Rolei os olhos, rindo. Com a posição em que estávamos, meu rosto estava quase encostado em seu peito. Nossos corpos tocando-se de uma forma sutil, mas eu já sentia nossa pele esquentar. — Assiste o nascer do sol comigo? Não falta muito...
— Claro, será um prazer. — Sorriu docemente e puxou meu lábio inferior com o polegar. — Vamos tirar essas roupas molhadas? Essa areia toda está me incomodando.
— Vamos, mas… Você pode me dar um beijo primeiro? — pedi do jeito mais dócil e descarado que consegui. %Filipe% sorriu de lado e desceu da mesa, quase me devorando com os olhos.
— Não acho que seja possível recusar um beijo seu, %Julieta%.
Puxou-me pelo quadril e encostou seus lábios no meu. %Filipe% respirou forte e profundamente quando eu mexi meus lábios nos dele, matando toda aquela saudade que nós sentimos um do outro. Tentei falar, mas a boca dele grudada na minha, não deixou. Puxou meu corpo em direção a parede, deixando as mãos bem encaixadas nas minhas nádegas. Quando senti seus dedos no fio do meu biquíni, desamarrando-os sem dificuldade alguma, intervi de novo.
— O plano era só trocar de roupa, baby! Vamos... — resmungou quando me desvencilhei dos seus braços e puxei-o pela mão em direção às escadas.
O barulho que vinha do quarto ao lado do nosso era composto por gritos de Cam e as gargalhadas de Dana. Eu até já sabia o que estava acontecendo lá. Jack, provavelmente, estava tão bêbado que não conseguia se mexer e Cam não tinha a menor paciência com ele. As gargalhadas de Dizzy só me confirmavam isso.
— Eu preciso ver o que eles estão fazendo! — Ri e fui em direção ao quarto, mas %Filipe% me puxou antes de eu entrar.
— Não, você precisa trocar de roupa, seu biquíni está solto! — articulou de um jeito arrastado e bêbado.
— Amarra para mim, ent... — Antes que eu terminasse a sentença, %Filipe% puxou a outra cordinha do meu biquíni, fazendo com que a peça caísse no chão e meus seios ficassem expostos. — %Filipe%!
— Está vendo? Você precisa entrar no quarto agora. — Riu como se fosse um menino que tinha feito alguma traquinagem.
— Se você acha que vai transar agora — aproximei-me dele e fiz questão de tirar a parte de baixo do meu biquíni em sua frente, sem me importar se estávamos no meio do corredor —, está muito enganado! — Corri para o banheiro antes que ele chegasse até mim. Se ele conseguisse me tocar, não sairíamos do quarto tão cedo e eu queria muito ver o nascer do sol para deixar que isso acontecesse.
Após tomar um banho cheio de mãos bobas e umas carícias mais elaboradas, saímos do quarto mais despertos e sóbrios. Colocar uma roupa mais adequada foi um sacrifício e eu quase desisti da ideia de ver o sol nascer. Estava tão cansada, só queria dormir, mas %Filipe% não me deixou nem chegar perto da cama. A casa inteira já estava em silêncio, fazendo-me crer que todos já dormiam, assim %Filipe% e eu poderíamos ser o casal mais grudento possível, sem causar constrangimento ou estranhamento.
Sentamo-nos no chão, perto da beirada da piscina, de onde tínhamos uma vista privilegiada da praia. O céu ainda estava escuro e o vento frio maltratava meus pés descalços. %Filipe% estava sentado bem em minha frente e não parava de me olhar nem por um segundo.
— Então... vinte e cinco anos. — Comentei, brincando com as pontas dos meus cabelos ainda molhados, desviando a todo custo do olhar intenso dele. Ele sorriu ao perceber meu acanhamento com seus olhos atentos. Me encabulava quando ele me lançava olhares mais intensos. Eu estava tão tímida que nem parecia que tínhamos tomado banho juntos poucos minutos atrás.
— Pois é, vinte e cinco anos de vida e você só apareceu nos últimos quatro meses. — Puxou-me para mais perto de si, fazendo minhas pernas ficarem cobertas pela sua calça de moletom grossa, me aquecendo um pouco contra o vento frio que vinha do mar.
— Ei, estamos no tempo certo. Se eu aparecesse na sua vida antes, eu seria apaixonada por outra pessoa, imagina só? — sugeri, esticando meu braço e tocando em seu rosto.
— Isso quer dizer que você está apaixonada por alguém atualmente? — indagou, sugestivo. — Algum cantor de beira de esquina, talvez?
Gargalhei, jogando minha cabeça para trás. Decidi abrir o jogo, pois estava cansada de fingir que não era louca por ele. Fingir que eu não sentia trinta coisas diferentes toda vez que pensava nele e mais quarenta quando ele me tocava. Era exaustivo. Ou talvez eu só tenha decidido fazer isso porque meu teor alcoólico ainda estava alto e eu poderia culpar as bebidas no dia seguinte.
— Ele, na verdade, é um cantor profissional. Ele é tão bom para mim que me faz até questionar se eu mereço — afirmei, despretensiosamente, olhando para a lua nova destacando-se no céu azulado.
— Ei? — murmurou, segurando minha nuca e mantendo meus olhos fixos nos dele. — Se vai dizer que está apaixonada por mim, fala olhando nos meus olhos.
— Estou apaixonada por você — declarei logo em seguida, vendo a surpresa em seu rosto. Analisei-o atentamente. Sua feição suavizou e seus olhos se fecharam. Soltou a respiração, como se estivesse aliviado. Subi minhas mãos em seu rosto e acariciei cada pedaço do mesmo a cada palavra que eu proferia. — É até vergonhoso o quanto eu estou a fim de você. Pode ser um erro, pode ser um acerto, mas eu não ligo. Eu só preciso que você saiba disso: Eu estou apaixonada por você. Por cada pedaço teu, por cada lado e pelo que você é.
Expirei profundamente, sentindo-me meio tonta. Talvez por conta da bebida, talvez pela exposição intensa dos meus sentimentos, que não costumava acontecer tanto. %Filipe% finalmente abriu seus olhos, encarando-me intensamente. Dei de ombros, com um sorriso de lado, pouco me importando com as consequências da minha impulsividade.
— %Julieta%, você é... — %Filipe%, sorrindo, balançou a cabeça. Esfregou seu rosto com as mãos, bagunçou seus cabelos e olhou-me. Sorri pelo seu jeito doce e espontâneo de ser. — Tudo. Você consegue ser tudo. Eu nem consigo completar uma frase, %Julieta%. Você é...
Simplesmente desistiu de expressar seus sentimentos e beijou-me. Emocionei-me com a ideia de que %Filipe%, um compositor, ótimo com palavras e extremamente criativo, perdeu as palavras.
Seus lábios eram urgentes sobre os meus e eu já sentia toda aquela saudade que eu tinha dele se dissipar. Inclinou-se sobre mim e quando eu percebi já estávamos deitados no deck de madeira, entrelaçados um no outro.
— Então, você vai querer sua lapdance agora? — Rimos entre os beijos.
— Põe na conta, eu cobro outro dia. — Puxou minhas pernas para prender na sua cintura e apoiou-se em seus cotovelos ao meu lado. Passei meus braços pelos seus pescoços, beijei seu queixo e fui dando selinhos até sua boca. — Hoje eu só preciso de você assim, comigo.
O nascer do sol daquele dia foi o mais bonito que eu já vi.
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A sede, causada pela grande ingestão de bebidas alcoólicas, já estava insuportável para Dana. Estava deitada não havia nem cinco minutos, seu porre ainda nem havia evaporado e já estava sedenta por um copo de água bem gelada.
Com preguiça de levantar-se, ela olhou para os lados, pretendendo pedir para alguém ir até o andar de baixo por ela. Porém, aparentemente, ela era a única que parecia estar em condições de se mover. Cam estava jogado ao seu lado na cama, roncava tão alto que ela se perguntou como conseguiria dormir ao seu lado por tanto tempo. Jack estava deitado no pequeno sofá que tinha no canto da suíte, ela riu da forma desajeitada que o mesmo estava deitado. O loiro sempre ficava com os piores lugares para dormir.
Tudo seria mais fácil se %Julieta% e %Filipe% não fossem um casal e não precisassem dormir juntos. Nenhum dos dois nunca exigiu nada. Pelo contrário, eles sempre insistiam para dormirem todos juntos. Mas era implícito, eram o único casal do grupo, precisavam de seus momentos.
Era como se fosse um acordo silencioso entre todos eles. %Julieta% e %Filipe% sempre ficariam no mesmo quarto. E era aniversário de %Filipe%. Dana tinha certeza de que os dois estavam transando loucamente no quarto ao lado. Isso a incomodava. E ela odiava o quanto isso a incomodava.
As certezas de Dana foram por água abaixo quando ela chegou à cozinha e olhou pela pequena janela, que mostrava a parte de trás da casa e a praia.
%Julieta% e %Filipe%.
Estavam sentados à beira da piscina, um de frente para o outro e com as pernas entrelaçadas. Conversavam baixinho, quase ao pé do ouvido de tão próximos. As mãos dela subiam pelo seu pescoço até seu rosto, acariciava a pálpebra fechada dele com os polegares.
Dana pegou-se querendo saber desesperadamente sobre o que falavam. O que ela estaria dizendo que causava tanta serenidade nele? Ele nem abria os olhos, parecia embebido pelas palavras que saiam da boca dela. E Dana não entendia nada daquilo. Não entendeu quando %Filipe% pareceu ter despertado e beijou %Julieta% de uma forma tão bonita e necessitada. Não entendia a urgência dos dois amigos um com o outro.
E aqueles sorrisos. Ela nunca tinha visto um sorriso daqueles em %Julieta%. Nunca tinha visto a amiga passar tanto tempo com alguém, nunca tinha visto-a ser tão carinhosa com uma pessoa que não fosse ela.
Em meio a sentimentos tão conflitantes — dos quais ela não sabia diferenciar — havia um ali, que a fazia sentir nervosa, ansiosa. Um que, estranhamente, só aparecia quando ela olhava para o belo rosto juvenil de %Filipe% %Buchart%.