9 • O início do que parecia ser o fim.
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Eu sempre gostei de estudar. Nunca fui o tipo de criança que chorava na porta da escola para não entrar. Nunca fui o tipo de adolescente que cabulava aula. Na faculdade, apesar de todas as adversidades, eu ainda tinha uma das maiores médias da turma. Entretanto, existiam exceções para minha vibração com os estudos. Sabe aquela aula tão chata que você não conseguia manter seus olhos abertos? Quando uma piscada que deveria durar um attosegundo, acaba durando três segundos? Isso resume bem o que era a aula do professor Victor.
Graças a ele, eu havia desenvolvido uma técnica, que metade da sala já havia aderido: Anotar cada palavra do professor. Eu apostava comigo mesma que conseguiria anotar um parágrafo inteiro sem interrupções, para isso eu tinha que escrever bem rápido. O professor Victor ajudava bastante, já que ele sempre falava como se estivesse com cinco batatas na boca e numa lentidão terrível. No final, todos comparavam seus cadernos, se alguém estivesse com uma frase a menos que todo mundo, já sabíamos que essa pessoa havia perdido um parágrafo.
Eu já estava igual um zumbi, sentia meus olhos arderem, mas esse método mantinha todos acordados, gerava uma divertida competição e ainda éramos obrigados a prestar atenção na aula. Às vezes, ficava um pouco confuso, mas na prática geral, funcionava direitinho.
— %Julie%? — Ouvi a voz de Toni chamar meu nome em uma cadeira atrás da minha, mas não quis me mover. Olhei para o lado, preocupada com a disputa e notei que Bela escrevia tão rápido que já tinha uma frase inteira antes da minha. — Quer que eu passe na sua casa hoje?
Franzi a testa, em dúvida sobre o que ele estava falando. Inclinei meu corpo um pouco para trás, tentando ouvi-lo melhor. Toni foi um dos primeiros amigos que fiz em Hillswood. Fizemos nosso primeiro projeto de área juntos, nos tornamos bem próximos após isso e eu até conheci sua adorável família.
O "adorável" foi ironia.
— Para quê? — questionei, confusa. Resmunguei quando precisei pular uma grande quantidade de palavras para chegar na frase atual do professor.
— O aniversário da Heide. Você esqueceu? — reclamou, cutucando meu ombro. Eu tinha esquecido completamente, é claro. Com o semestre chegando ao fim e minha vida amorosa explodindo de uma forma diferente a todo final de semana, eu acabava ficando bem alheia a tudo em minha volta. — Droga, %Julie%! Você me prometeu...
Toni era o típico "pobre menino rico". Ele não se adequava aos padrões que sua família, podre de rica, impunha sobre ele.
Começando pelo fato de ser uma família cristã ortodoxa e ele era bissexual assumido. Acho que só não o expulsavam de casa pois ele era inteligente e estava sempre salvando a editora da família de afundar-se em polêmicas e mal gosto. Apesar de todo o dinheiro e status, o homem não gostava nada da vida que levava. Ele, na verdade, sempre quis ser pintor.
Heide, sua irmã mais velha, era diferente dele. Ela era atriz e cantora, já havia até participado de um musical na Broadway. Heide era uma mulher legal, mas sua criação no meio do luxo e riqueza acabaram deixando marcas fortes em sua personalidade. O nariz empinado e o esnobismo era uma delas. Apesar de eu ter problemas com gente rica, acabamos nos tornando amigas. Eu adorava musicais e Heide encontrou em mim uma parceira em potencial para suas festas musicais, já que Toni fugia dos padrões impostos sobre gays/bissexuais e odiava musicais.
— Ah! É claro que eu não esqueci! É que eu estava concentrada aqui. — Larguei a caneta, olhando para os lados, vi Bela e Ed sorrindo debochados ao perceberem minha desistência. Aceitei a derrota no jogo que eu mesma criei. — Que horas? É hoje mesmo?
— Posso passar às 22h? — concordei, assentindo. Sorria, mas por dentro, quis morrer.
Quando voltei às aulas, após o acidente, a psicóloga da faculdade achou melhor que eu me focasse apenas em uma coisa de cada vez. Na semana seguinte, eu já havia pedido demissão do Daily, jornal em que eu trabalhava e que era culpado pelos meus recentes surtos. Mas é claro que eu não ficaria quieta, focada em apenas uma meta. Agora eu era monitora da disciplina Ética Jornalística. Com meu recente desemprego, eu tive tempo o suficiente para melhorar minha situação na faculdade e agora eu tinha tempo para dar aulas todas as quintas e sextas.
A aula terminaria 20h e eu tinha monitoria até às 21:30. Como diabos eu ia ficar apresentável para uma festa de aniversário da família Hall em 30 minutos? Eu já tinha experiência o suficiente com eles para saber que não importava o quanto diziam que as festas eram simples, eu não acreditava. Sempre envolviam gente rica, vestidos elegantes e ternos caros. Eu só queria saber disso na primeira vez que fui em uma festa deles.
Saí correndo pelo campus até meu carro assim que minha monitoria chegou ao fim. Fui o caminho inteiro arriscando minha segurança, procurando fotos de penteados no celular. Quando cheguei, entrei correndo no apartamento, mas parei no meio do caminho. Jack, Cam e %Fil% estavam na sala com Dana. Já tinha se tornado um costume vê-los ali. Era até estranho eu chegar em casa na sexta-feira e eles não estarem na minha sala, planejando ficar bêbados ou já bêbados, o que parecia ser o caso naquele dia.
— %Julie% girl! Finalmente! Vem beber com a gente. — Empolgado, Jack esticou os braços para cima assim que me viu entrar no local. — Hoje é uma noite de comemoração!
— Comemoração? — questionei, confusa. Apressada, quase não prestei atenção no que meus amigos falavam. Fui em direção a geladeira, abrindo-a, sem realmente pegar nada lá de dentro.
— Eu e Dana fomos contratados, como você já sabe — citou Cam e eu assenti. Cameron e Dizzy, que viviam fazendo bicos em uma empresa de marketing, foram contratados, finalmente. Observei que minha mesa estava cheia de porcarias, embalagens de lanches, refrigerante, garrafas de cerveja. Me perguntei desde que horas eles estavam ali. — Jáck conseguiu transar com a polaca e %Filipe% vai viajar amanhã!
— Viajar? Polaca? Vocês não estão fazendo sentido algum — reclamei e antes de abaixar para desamarrar o tênis, dei uma olhada em %Filipe%. Ele desviou o olhar assim que o olhei, não parecia estar cintilando de felicidade, para falar a verdade.
Há alguns dias, %Filipe% havia me contado que iria ficar fora durante seis meses (ou mais). Desde então, nós não havíamos tido muito tempo sozinhos. Ele estava ocupado demais com a preparação para a pequena turnê e nos dias livres, saíamos todos juntos, curtindo nossos momentos juntos antes da ausência de %Filipe%.
— Ele vai viajar hoje, lembra? Ah, %Julie%, só faltava você aqui! — Jack abraçou-me pelos ombros e virou um shot de vodka na minha boca, de surpresa. Fiz uma cara feia quando senti o líquido arder no meu estômago, lembrando-o que eu não comia nada desde o almoço.
Turnê de seis meses.
— Lembro, sim — afirmei, atordoada. É claro que eu lembrava, porém parecia fazer anos desde que %Fil% comentou a data de sua ida. Não consegui nem pensar direito, o fato dele estar indo despertou uma queimação em meu estômago. Ou talvez fosse a vodca pura. Talvez. — H-hoje eu não posso.
— Mas eu comi a polaca! — gritou Jack, como se estivesse lidando com o maior e melhor feito da face da terra.
— Ele comeu a polaca! — tentou Dana, mas eu neguei com a cabeça. Eu não conseguia desviar os olhos de %Filipe%, este, porém, não desviava os olhos do celular.
— Hoje é aniversário da Heide. Eu esqueci, mas vou ter que ir — esclareci a todos. — Já havia prometido.
— Então, você vai trocar a gente por aquele bando de gente fresca que gosta de cantar? — perguntou Dana, fazendo careta para mim.
— Ei, cadê o respeito? %Fil% é um cara fresco que gosta de cantar! — Cameron abraçou %Filipe% de lado. Olhei para %Filipe% o tempo todo, mas quando ele me olhou, desviei o olhar.
— Está tudo explicado agora, oras.
%Julie% gosta de gente fresca, %Fil% é um cara fresco, logo...
— Desculpa, gente. Hoje não dá — interrompi Jack antes que ele completasse a frase e eu morresse de vergonha. — A gente pode curtir se vocês ainda estiverem aqui quando eu voltar...
Corri para o meu quarto antes que alguém falasse mais alguma coisa. Tudo o que fiz em seguida foi como se eu estivesse no modo automático, pois eu só conseguia pensar em duas palavras.
Seis meses.
Tomei um banho em tempo recorde, enrolei-me na toalha e fiz a melhor maquiagem que eu sabia fazer, o que não era muito. Depois de um tutorial rápido na escola de moda chamada YouTube, fiz um penteado no meu cabelo de modo em que ele ficasse amarrado, quase como um coque. Parecia meio solto, mas a moça do YouTube garantiu que estava tudo bem. Coloquei minhas lentes de contato e só não sabia passar a porra do delineador, porque isso já era pedir demais da minha coordenação motora recém afetada. Corri até a sala, segurando a toalha em meu corpo.
— Amiga, me ajuda? — pedi, entregando o delineador na mão dela e me sentei ao seu lado no sofá.
— Belo vestido, %Julie% — debochou Cam da toalha amarela do Piu Piu que cobria meu corpo. — Vai conquistar todos os rapazes da festa desse jeito.
— Cala a boca — resmunguei, tentando não me mexer enquanto Dana fazia a mágica em meus olhos.
— Pelo menos é fácil de tirar. — Jack também entrou na brincadeira, puxando a barra da minha toalha.
— Sai! — Empurrei-o com uma perna, sem me importar com minha calcinha aparecendo. Todos riram de Jack, que continuava a beliscar minha perna. O interfone tocou nesse instante, devia ser Toni. Ele e sua mania de ser irritantemente pontual. Dana anunciou que estava pronta e eu corri para atender seu segundo toque.
— Estou aqui, vamos. — Toni, irritantemente pontual.
— Estou quase pronta, Toni. Quer subir? — Não esperei sua resposta, apenas desliguei e apertei o botão para abrir o portão.
— Espera, você vai acompanhada? — perguntou Jack, meio surpreso e sendo nem um pouco discreto, olhando de esguelha para %Fil%.
— Com o Toni? — Dana ergueu uma sobrancelha, também curiosa.
— É só uma carona, gente. A festa é da irmã dele — justifiquei, não conseguindo não olhar para %Filipe%. Ele desviou o olhar antes que eu o olhasse, abriu a garrafa de vodca e se serviu.
Desde a notícia da partida de %Fil%, parece que suspendemos todos nossos assuntos pendentes e passamos a apenas aproveitar os momentos com o grupo todo reunido. Nossa situação com Dana acabou ficando para trás. Dana já não comentava nada. Nem ele insistia em querer conversar. Parece que todos nós entramos em um acordo silencioso de ignorar tudo que se passou.
E entre nós… Bom, eu fiz merda, como sempre. Na noite em que o cantor me contou sobre a turnê, não conversamos. Eu apenas disse que estava com sono, e ficamos os dois ali, deitados lado a lado, fingindo estar dormindo para não ter que falar sobre o nosso futuro.
Corri até meu quarto, jogando a toalha na cama. A campainha tocou e eu gritei para que Dana abrisse a porta e torci para que eles não massacrarem o coitado do Toni. Sofri um pouco para colocar o vestido já que era bastante apertado no busto, fazendo surgir uns peitos que eu não costumava ter. Peguei uma bolsa carteira prateada, colocando o necessário ali e um scarpin preto comum e confortável.
Olhei-me no espelho mais uma vez, analisando meu corpo inteiro. A barra do vestido estava quase no meio de minhas coxas, fazendo-me questionar quantos quilos eu havia engordado desde a última vez que usara aquele vestido. Eu estava bonitinha demais para quem arrumou-se em 20 minutos.
— Anthony, cuidado com minha garota! — Voltei a sala no momento em que Dana ordenava, com a fala já arrastada e apontando o dedo para o loiro ao meu lado.
— Ela que costuma cuidar de mim, mas eu faço o possível. — Lembrei que quem havia deixado a minha viagem com Neil paga, no fatídico dia do meu porre, havia sido Toni. E não havia sido a primeira vez, cuidávamos um do outro o tempo todo.
— Uau, olha você! Nem parece que estava usando um poncho na aula — brinquei, vendo Toni todo elegante em seu terno, encostado no balcão, já com um copo na mão. Meus amigos não suportavam ver ninguém sóbrio.
— Você estava dormindo de olho aberto e com o cabelo na cara, garota. — Nós dois rimos da nossa situação deplorável na aula do Sr. Victor Callam. — Não vem me humilhar, não!
— Então? — Dei uma voltinha na frente dos meus amigos, fazendo meu vestido girar e eu me sentir a melhor pessoa do local.
— Você está tão linda que quando você chegar em casa, eu vou te dar uns beijos! — Dana apontou para mim e sibilando um "prepare-se".
— Eu também! — falou Jack e recebeu um tapa de Cam, negando com a cabeça.
— Você está um poço de lindeza, pequena %Julie%. — Cameron abaixou a cabeça em reverência, do jeito que sempre fazia, sorrindo. Ele bateu no ombro de Jack e depois no próprio peito, como se dissesse "assim que se fala".
Olhei para %Filipe%, agora em pé, encostado na janela. Esperei que ele falasse algo, mas ele apenas olhou-me dos pés à cabeça, com uma sobrancelha erguida e aquele sorrisinho irritante. Revirei os olhos bem visivelmente, mas não desviei o olhar. Queria obrigá-lo a me elogiar, mas a frase que veio em seguida não me deixou reagir.
— Eu odeio quando você não se comunica comigo. — Arregalei os olhos, sentindo o peso da sua fala me abater imediatamente. O cantor me provocou da forma que mais me envergonhava. Falou sobre nossas pendências na frente de nossos amigos. Meus lábios abriram-se levemente em entendimento quando o rapaz deu de ombros, sorrindo de lado. Era uma cilada.
Eu sabia que ele havia falado isso justamente por conta da minha falta de ação com o seu afastamento. Ele sabia que se estivéssemos sozinhos, eu desviaria o assunto, mas com sua atitude de "chamar minha atenção" na frente de todos, eu teria que falar sobre isso.
Um silêncio constrangedor instalou-se na sala, ninguém sabia o que falar ou fazer para quebrar o clima estranho. %Filipe% encarava-me, sério e inabalável. E eu não desviei o olhar nem por um segundo. Pareciam sair faíscas de provocação e desafio de nossos olhos e nós podíamos nos matar ali menos, só com o olhar.
Céus, como eu sentiria falta dos nossos jogos maliciosos. A maioria das pessoas era contra joguinhos e provocações em relacionamentos, mas %Filipe% e eu vivíamos disso. Era estranho pensar que para muitos isso significava imaturidade, manipulação, mas entre nós não era bem assim que funcionava. Nos chamem de loucos e dissimulados, mas não tinha jeito. Éramos o sinônimo de paixão desavergonhada.
— Uau, eu tenho certeza de que seria divertido ficar aqui, mas... — Toni pigarreou, tentando chamar minha atenção. — Atrasados, lembra?
Assenti, ainda encarando %Filipe%, sem abaixar minha cabeça. Me corroía por dentro não responder sua provocação, mas eu não daria esse gostinho a ele. Ele revirou os olhos, prendendo um sorriso entre os dentes ao notar que eu não revidaria sua afronta. Acenei para meus amigos, querendo ficar ali com eles, mas eu prometi a Toni e também não ia aguentar uma noite inteira de provocações como aquela.
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— Mais um giro e chegamos na porta de entrada, %Julieta%!
Os pais de Toni faziam questão que ele ficasse até o final da festa, mas já eram quatro da manhã e já tinha tocado a discografia inteira de Rent e vários outros musicais. Eu gostava muito de Rent, mas quando começou a tocar Mamma Mia, sabíamos que era hora de sumir dali ou alguém ia acabar empolgando-se na hora de Voulez Vous. O único jeito de sair sem que os pais dele vissem e nos impedissem era saindo pela porta de entrada, que pelas quatro da manhã, ficava desprotegida. Eu gargalhava enquanto Toni me girava pelo salão ao som de Mamma Mia até chegarmos lá.
Ficamos dançando na porta até Heide parar de fitar-nos, provavelmente entendendo nosso plano, e saímos correndo pelo lobby do hotel até chegarmos no estacionamento. Joguei-me no banco do carro, ofegante e sentindo minhas pernas dormentes por ter corrido com um salto de 15 cm.
— Eu queria entender o porquê que em toda festa que vamos juntos, nós saímos assim, na correria — questionei, tentando normalizar minha respiração e ignorar a dor intensa nos meus membros inferiores.
— Eu trago emoção para sua vida. — Riu e deu partida com o carro. Liguei o rádio, ainda arfante. — Se bem que eu acho que você tem emoção o suficiente na sua vida. Não tivemos tempo de conversar hoje, mas foi impressão minha ou era %Filipe% %Buchart% lançando indiretas para você na sua sala?
— Somos amigos… Éramos — tentei responder, mas acabei mais confusa. — Eu não sei mais.
— Ok, eu entendi tudo. — Balançou a cabeça em entendimento, olhando-me de esguelha.
— Entendeu o quê? — Franzi o cenho, não tendo a certeza se queria ouvir a conclusão de seus pensamentos. — Não há nada para entender.
— Ele quebrou seu coraçãozinho? — Imediatamente, fechei meu rosto em uma carranca. Tudo que eu menos queria era Toni, que não sabia cuidar nem da própria vida, dando uma de conselheiro amoroso para cima de mim.
— Eu, possivelmente, quebrei o dele, mas sabe, isso não é da sua conta — enunciei, séria. Mexi meus pés, esticando-os e estalando meu calcanhar ainda dolorido.
— Ok, assunto ruim? — Toni tomou meu silêncio como resposta e parou de questionar sobre o que eu, obviamente, não queria falar. Comecei a puxar assunto com Toni sobre a festa e sobre os vestidos bizarros que vimos por lá, tudo que fosse capaz de tirar %Filipe% da minha cabeça e minha ansiedade em relação a ele.
Dei um abraço forte em Toni antes de sair do carro quando ele estacionou em frente ao meu prédio. O loiro quase chorou em meu ombro depois de me agradecer mais uma vez por ido à festa com ele. Os pais estavam tratando-o como se ele fosse um merda, mas a conta bancária daquela família só respirava por causa dele. Eu desconfiava que esse fosse o único motivo que Toni ainda não havia sido completamente excluído daquele círculo social. Os pais eram uns interesseiros, que não sabia nada sobre finanças e economias, mas também não se importavam em aprender. Apenas queria esbanjar e ostentar.
Observei a Ferrari de Toni afastar-se e continuei em pé, no meio da rua, brincando com o barulho que meus saltos faziam no asfalto úmido, adiando minha subida até aquele andar. Olhei para cima, as luzes do meu apartamento ainda estavam acesas. Eu não queria voltar lá e ser obrigada a aceitar a existência de %Filipe%. Acabei indo de escada, apenas para prolongar o momento ainda mais, no entanto, quando cheguei a porta do 305, não tinha volta.
Quando entrei em casa, dei de cara com uma cena nada inusitada. Cameron dançava em cima da mesa de centro, Dana filmava com seu celular e %Filipe% estava deitado no sofá, gargalhando. O primeiro que eu quis agredir foi Cam, por estar com aqueles pés imundos em cima da minha mesinha. O segundo foi %Filipe% por ter parado de rir e assumido uma postura mais séria assim que entrei na sala. O terceiro foi Jack, que nem estava na sala, mas eu já desconfiava do motivo de sua ausência.
Provavelmente, já tinha apagado de tão bêbado.
— Você chegou! — Dizzy veio correndo até mim, trôpega. Segurou meu rosto entre suas mãos e beijou-me, arregalei os olhos com a atitude inesperada. Cam e %Filipe% começaram a gritar, como se estivesse comemorando um gol.
Os vizinhos deviam estar querendo nos matar e eu definitivamente ia pagar uma multa por perturbar a paz.
— Tira a roupa dela! — gritou Cam, empolgado. Dana desgrudou os lábios dos meus rapidamente e depois juntou-os novamente, sugando meu lábio inferior de leve.
— Eu estou ficando com ciúmes! — %Fil% acompanhou a gritaria de Cam. Afastei-me dela, rindo. E ela gargalhou, jogando a cabeça para trás, abraçando-me.
— Você está bem? — Segurei seu corpo, que se curvava cada vez mais para trás, pela cintura. — Vamos parar por hoje? Começou a me beijar significa que já está na hora de parar!
— Agora que você chegou, eu posso me retirar desse aposento. — Dana assentiu várias vezes para si, sob reclamações de Cam e %Filipe%. — Jack vomitou até o fígado dele e está dormindo no seu quarto.
Joguei meus sapatos longe, sentindo meus pés quase agradecerem e coloquei a bolsa em cima da bancada. Eu só rezava para que Jack não vomitasse na minha cama, como da vez em que ele vomitou na cama de Dana. Ajudei-a desencostar-se da parede sem cair, Cam e %Filipe% cochichavam entre si, mas não consegui entender nada já que Dana chamava minha atenção.
— Eu vou ali... — A morena foi cambaleante até o banheiro, ela parecia muito concentrada em não cair. Tentei segui-la com os braços em sua volta, mas ela desvencilhou-se de mim. — Dorme no meu quarto, %Julie%.
Ofereci ajuda, mas ela não respondeu, apenas se dirigiu ao banheiro. Olhei a sujeira que estava minha sala e me surpreendi com o número de garrafas vazias. Eles tinham bebido muito e misturado vários tipos de bebida. Não era de se estranhar que Jack estava quase morto na minha cama. Todo mundo estava destruído demais, não tinha como continuar com a "festa", meu trabalho agora era só deixar todos dormirem seguros.
— E você, garoto? Vamos parar? — Fui até Cam, que ainda estava em pé na minha mesa, e peguei a garrafa de cerveja de sua mão.
— Você acabou com a festa — reclamou, fazendo um biquinho triste e pulou da mesa.
— Pode ir dormir no quarto da Dana. — Direcionei ele, que me parou no meio do caminho. O rapaz estava em um estado deplorável. O cabelo todo para cima, olheiras profundas e um short jeans que parecia curto demais para ele. Espera aí… — Cameron, esse short é meu?
— Claro que não! — Bufei. É claro que era! — Espera, eu preciso que você me faça um favor. Eu preciso que você leve %Fil% em casa. — Olhei para %Filipe% jogado no meu sofá, acenando para mim com um sorriso insolente e bêbado. — Ele vai viajar amanhã, o voo dele sai às 6h.
— Já são 4h! — constatei, olhando para o relógio na parede oposta.
— E ele ainda nem fez as malas. Eu disse que ia levar ele, mas no momento, eu acho que não é uma boa ideia porque eu estou vendo três de você e você não está bêbada, você está? — Não entendi metade das coisas que Cam disse, mas imaginei que ele queria que eu desse carona para %Filipe%.
— Ele pode pegar um táxi. — Ignorei a verborragia de Cam, pensando num método mais fácil de deixar %Fil% longe de mim. Eu não queria ter que lidar com um %Filipe% bêbado, provavelmente falante e o pior, irritado comigo.
— Está vendo, Cam? Ela não consegue ficar sozinha comigo — debochou %Filipe% e eu revirei os olhos. Aproveitei a garrafa de cerveja de Cam ainda pela metade e virei o resto do líquido em minha boca. Se eu tivesse que lidar com %Filipe% agora, teria que ter um pouco mais de álcool no meu sangue.
— Agora é a hora em que eu saio e deixo vocês resolvendo o problema de vocês. — Cameron riu das nossas feições raivosas. Eu nem sei mais o porquê de estarmos irritados um com o outro. Era pura implicância. — Vou dormir com um pijama seu, %Julie%.
— Chega de usar minhas roupas, Cameron! — reclamei, rolando os olhos.
Cam ignorou-me totalmente e foi até %Fil%, eles se abraçaram e %Filipe% beijou sua testa. Mais uma vez, as palavras "seis meses" voltaram a minha mente. O último dia do rapaz na cidade e eu não fiquei com ele nem cinco minutos. Eu definitivamente não chamaria um táxi.
— Cara, amo você. — Cam segurou o rosto de %Filipe% próximo ao seu. Olhei com a expressão debochada para a cena que os dois bebuns dramatizavam em minha frente.
— Eu também amo você, irmão. — Eu não sei dizer se %Filipe% estava emocionado ou apenas bêbado.
— Não, é sério. Você precisa me ligar todo dia! — Apontou um dedo, em tom de ameaça.
— Não pira, Cam! Não vou virar seu namoradinho. Jack vai me matar se eu ligar mais para você do que para ele. — %Filipe% empurrou Cam e ambos começaram a rir. Eu sorri com cena, era invejável o carinho entre eles. A masculinidade nada frágil ou tóxica de ambos deixava tudo ainda mais adorável.
— Verdade, você já tem uma namoradinha. — Perguntei-me de quem ele falava. Eu ou Dana? Ou Jack? — Boa viagem, cara. Avisa quando chegar!
Cam foi cambaleante em direção ao banheiro, mas a porta estava trancada, provavelmente Dana ainda estava lá, então ele simplesmente se abaixou e deitou ali mesmo. Eu ri da situação, sendo consumida pela preocupação com minha melhor amiga e o nervosismo de ter que lidar com %Filipe%.
— Você vai vomitar no meu carro? — questionei, tentando manter a expressão fechada para esconder minha ansiedade.
— Eu, sinceramente, não sei! — Gargalhou alto como se fosse a coisa mais engraçada já dita.
— Só vou pegar um casaco, aí nós vamos — avisei, virando o corpo para procurar o meu casaco.
Foi difícil alguém do meu tamanho ter que praticamente carregar %Filipe% até o carro, foi difícil até chegar no elevador, mas difícil mesmo foi fazê-lo desistir da ideia de ir comprar milk-shake de morango. Eu falo sério quando eu digo que ele abriu a porta do carro em movimento quando eu passei em frente ao McDonald's 24h, ignorando seus pedidos. Acabei dando a volta e comprando-lhe o maldito milk-shake.
A cena tornou-se sutilmente nostálgica para mim. Eu, dirigindo pela chuva fina, enquanto %Buchart% cochilava no banco ao meu lado, o mesmo que havia acontecido meses atrás, quando o conheci no Carté. Nas mãos dele, o milk-shake pela metade, quase derretido. Revirei os olhos, odiando-me por ceder as vontades dele. Peguei o copo da sua mão e tomei, sentindo o gosto do nosso beijo no píer.
Talvez essa fosse a intenção, me fazer lembrar do início agora que parecíamos estar no fim.
— %Julieta%? — A voz baixa e rouca de %Filipe% me chamou de modo suave, arrancando-me da minha lembrança. Eu amava que apenas %Filipe% me chamava pelo nome inteiro. Nem meus pais me chamavam de %Julieta%, todos só me chamavam de "%Julie%". Eu gostava disso, pois parecia uma coisa só dele. Coisa nossa.
Eu só conhecia duas %Julieta%s. %Julieta% Capuleto e %Julieta% Sobanitela.
De %Julieta% Capuleto, eu só tinha o azar e o dedo podre para relacionamentos, mas eu tinha muito de %Julieta% Sobanitela. Ela era uma cantora argentina que tinha os cabelos vermelhos e em todas as vezes que a vi, ela usava um vestido amarelo. Eu sempre a via quando ia à feira do outro lado da cidade aos sábados pela tarde. Eu amava vê-la xingando as pessoas e furtando peras das barracas.
Acho que eu era a única pessoa que gostava de %Julieta%, o resto do mundo só a via quando ela cantava. E como cantava! Ela dizia que era triste, referia-se a Etta James como Deus e me disse que o amor era superestimado e supérfluo. Um mês depois, eu vi Sobanitela de novo. Estava apaixonada e casada.
Uma vez, contei a ela que meu nome também era %Julieta%. Ela sorriu, entregou-me uma de suas peras roubadas e disse: "O fardo de ser %Julieta% só existe graças ao Shakespeare, aquele cuzão". Identifiquei-me pela referência literária, pela incoerência e pela leve inclinação ao antagonismo.
— Você estava simplesmente deslumbrante hoje — articulou, lentamente. Estranhei %Filipe% não estar falando exageradamente, talvez ele não estivesse tão bêbado assim.
— O elogio que eu esperei a noite inteira — confessei, sem conter um sorriso.
— Você me desculpa não ter falado antes? — perguntou, achei adorável ao extremo ele estar receoso comigo.
— Antes tarde do que nunca, não é? — Virei o rosto para olhá-lo no mesmo segundo em que ele virou também. Como dois adolescentes envergonhados, viramos o rosto para frente logo em seguida, não suportando o nosso próprio peso.
Parei no início da rua de pedras já tão conhecida por mim. Estacionei e apoiei as mãos no volante. Pela segunda vez, eu não sabia como agir perto dele. Não sabia como dizer adeus, não sabia se o abraçava, acenava. Não sabia o que nós éramos, o que não éramos mais.
Antes que eu fizesse algo, %Filipe% abriu a porta, mas pensou por dois segundos e fechou a porta novamente. Olhou-me interessado, estudando minha expressão.
— Sobe comigo? — Eu não sei o que acontecia comigo quando se tratava de %Filipe% %Buchart%. Eu travava, tropeçava, me atrapalhava, meus pensamentos se tornavam incoerente.
O que era isso, afinal? Eu costumava ser uma pessoa centrada e calma, mas era apenas %Filipe% falar algumas palavras a mais e eu me perdia completamente. Nem era minha intenção tratá-lo mal ou algo assim, eu tinha plena consciência que não o merecia, mas não conseguia evitar questionar suas intenções comigo.
O universo brincou comigo várias vezes, me colocando em histórias de amor como coadjuvante e antagonista, que quando chegou minha vez de ser protagonista, eu acabava pisando na bola e me tornando uma babaca gigantesca.
— %Filipe%… — interrompeu-me, provavelmente percebendo que eu ia dar para trás. Eu nem sabia por que ia dar para trás! Eu estava desesperada para pular no colo dele e beijá-lo a noite inteira.
— Que porra, %Julieta%? Eu vou embora amanhã, vou sumir da sua vida por um tempo! Será que dá para subir comigo e deixar eu te beijar? Porque eu acho injusto você aparecer assim, estupidamente linda e sair com outro — retrucou, meio embolado. Ok, talvez eu estivesse errada e %Fil% estava um pouco bêbado, sim. Era fácil medir seu nível de álcool quando falava sem parar. — Eu sei que tem alguma coisa acontecendo, e que Dana está no meio disso tudo. Só que eu ainda estou tentando entender muita coisa e você deve achar que eu sou o maior idiota da face da Terra, mas será que você pode fazer o favor de deixar eu me despedir de você do jeito que eu quero?
— Você não vai embora para sempre — tentei argumentar, sentindo o nervosismo cada vez maior conforme ele aproximava-se. Estremeci quando ele citou Dizzy na conversa, ele sabia? Dana avisaria se falasse com ele. Ambos estavam bêbados demais hoje, poderia algo ter saído sem querer.
— Você é impossível. — Riu sem humor, bagunçou o próprio cabelo e saiu do carro, batendo a porta com força. Trombei a cabeça no volante, sentindo-me uma completa idiota.
%Filipe% %Buchart% estava ali, vulnerável e pedindo por mim. Por mim. Ele passou a noite ao lado de Dana e pediu para ficar comigo. Ele sempre voltava para mim e eu voltava para ele. Eu o queria tanto quanto ele me queria, por que era tão difícil para mim simplesmente deixar essa angústia de lado? Eu não tinha mais dúvidas de meus sentimentos por ele, por que eu não ligava o foda-se e arriscava?
Eu só precisava de dois segundos de coragem.
Sem importar-me com a chuva, sem me importar em estar descalça, estacionei o carro do melhor jeito que pude, sem conseguir conter a tremedeira em minhas mãos. Saí do carro, dando uma corridinha para alcançá-lo e quando cheguei ao seu lado, segurei sua mão. Ele não me olhou de volta, mas deixou que eu segurasse sua mão desajeitadamente. E isso já significava muito.
A casa dele era a última da viela de pedras, então até lá, fui apenas sentindo as gotas de chuva tornarem-se fortes e geladas contra o meu rosto, embaçando minha visão. Tudo o que fizemos desde que entramos em sua casa foi automático e não trocamos uma palavra sequer. %Filipe% fora direto para o banheiro e eu fiquei meio em dúvida do que fazer a seguir, mas lembrei que estava ali para levá-lo até o aeroporto então fui até o quarto dele. Uma mala aberta em cima da cama e uma mochila por fazer deixavam a área ainda mais bagunçada do que de costume. Aproveitei para dobrar algumas roupas amassadas e controlar a ansiedade enquanto ele não saía do banheiro. Engoli em seco quando abri o armário dele e notei-o quase vazio.
Seis meses. Eu ainda não conseguia lidar com a ideia de ficar tanto tempo longe dele. Sentiria uma falta absurda.
%Filipe% entrou no quarto poucos minutos depois. A neutralidade em sua expressão era tradição. Não parecia ter mudado muita coisa, só estava mais esperto. Agradeci baixinho quando me entregou uma toalha. Parou ao lado da cama, encarando-me suavemente enquanto eu parei a ação de colocar suas calças de moletom na mala de modo que não ocupasse muito espaço, para secar meus braços. Não parecia raivoso, nem magoado. Apenas parecia estar esperando por mim, como sempre.
Não me atrevi a fitar seus olhos, com medo de toda a verdade e os variados sentimentos que eu poderia encontrar ali. O silêncio entre nós era incômodo, ele parecia esperar que eu tomasse uma iniciativa, provavelmente, por pirraça. Então, eu só precisei de mais dois segundos de coragem para responder suas perguntas de algumas noites atrás.
— Você a beijou — proferi, subitamente, sentindo meus músculos se enrijecerem. Apertei a toalha em minhas mãos, definitivamente nervosa e preocupada com o rumo da conversa.
— Ela me beijou — afirmou, já ciente do que eu estava falando, e eu assenti, ainda sem levantar a cabeça.
Eu sabia que sim, mas o que me incomodava em toda essa história, não era %Fil% tendo lances com outra garota, e sim com Dana, especificamente. Eu nunca tive inveja da minha melhor amiga, mas quando ela chamou atenção dele, mesmo que inconsciente, as coisas mudaram em mim. Se fosse qualquer outra pessoa, como Rachel (a groupie nova iorquina de peitos gigantes), eu provavelmente não ficaria tão mal. Mas era Dana. Eu entendia todos os motivos de alguém apaixonar-se por ela e até achava estranho que alguém não sentisse uma queda por ela.
O controverso de tudo isso é que se fosse qualquer outra pessoa, eu aceitaria a derrota. Mas com Dana, eu me recusava.
— Ela gosta de você! — Cobri minha boca com uma mão assim que percebi a besteira que eu tinha feito ao contar, impulsivamente, o segredo da morena justamente para quem não deveria saber.
Felizmente, (e infelizmente para Dizzy), o cantor não se interessou com o que foi dito.
— E eu gosto de você! — O tom de voz dele parecia o de quem estava explicando 2+2 para uma criança e eu não sei se fiquei feliz com isso. Ele parecia seguro demais de si e de seus sentimentos. Seria mais difícil fugir dele, se ele estivesse certo do que queria.
— Mas ela é linda e incrível, e… — Novamente, fui interrompida.
— Sim, ela é, mas… Que inferno, %Julieta%! Só você não percebe! Você está sempre aí, achando-se melhor que tudo e que todos, você precisa parar de ficar ditando o sentimento alheio. Você parece incapaz de entender que eu sou louco por você. Nunca sei como devo agir, não entendo seu jeito de pensar. Eu não sou, nunca fui assim, mas você me deixa inseguro como eu nunca fiquei com ninguém. Eu nunca sei com qual das suas 30 personalidades eu vou ter que lidar. Mas adivinha só? Eu gosto de todas elas. Eu sou apaixonado por você, %Julieta%!
Meus olhos não conseguiram segurar o amontoado de lágrimas que se formaram e eu senti meu rosto umedecer assim que ouvi %Filipe% proferi, suave e contidamente, o que eu sempre quis escutar e nem sabia. Sentou na cama e começou a atirar as peças de roupa restantes de qualquer jeito na mala, o que faltava guardar. Fiquei uns segundos paralisada no mesmo lugar, impactada com suas palavras. Quando percebeu que eu não iria me mover, continuou:
— Nós nos damos bem e seria estranho alguém não a querer, Dana é uma garota linda e qualquer cara daria tudo para ficar com ela. Mas eu olho para você e… É ridículo falar isso, mas parece que meu coração pula no meu peito toda vez que você aparece.
Desde o início, até mesmo quando contei que estava apaixonada por ele, %Fil% nunca tinha se declarado para mim daquele jeito. Tão seguro de suas escolhas, falava cada palavra com propriedade. E fazia isso com tranquilidade, enquanto jogava as roupas dentro da mala. Eu parecia estar flutuando, então resolvi me mexer e ajudá-lo.
— Você nunca disse nada sobre ela ter te beijado — comentei de um jeito que não parecesse acusatório, apenas curioso. Estendi a ele algumas roupas dobradas, que ele atirou na mala de qualquer jeito.
— Porque eu nunca sei o quanto do que a gente tem é real, %Julie% — explicou, pacientemente. — Eu não sabia se você ia ficar chateada, se você não ia ligar, fiquei preocupada com a amizade de vocês. E teve dias em que eu realmente esqueci que esse beijo tinha acontecido. Eu literalmente nunca sei como você vai reagir as coisas, você me deixa…
Ele não completou a frase, apenas esfregou o rosto (coisa que ele fazia constantemente, principalmente quando se sentia cansado ou confuso) e deitou-se na cama, empurrando a mochila preta com o pé para o outro lado e jogou a mala grande no chão, assustando-me com o barulho. Parecia desgastado depois de ter falado tudo o que eu nunca pensei que ele pensava.
Eu subestimei %Filipe% e seus sentimentos, agora estava sentindo-me terrivelmente negligente com o rapaz. Achava que éramos apenas um sexo casual, umas confusões com uma garota sem noção como eu e ponto. Aparentemente, para ele, era mais. E agora eu estava querendo arrancar cada fio de cabelo só de pensar que talvez eu tenha sido tóxica e abusiva com ele.
— Vocês conversaram sobre isso? — questionei, não aguentando a dúvida. Precisava saber com o que eu lidaria quando chegasse em casa e encontrasse uma Dizzy sóbria. — Você e ela.
— Hoje mesmo, na verdade. Pediu desculpas pelo beijo, estava se sentindo culpada. Falou que tinha estragado tudo para você. — Neguei com a cabeça. A garota só era aberta demais para ignorar e esconder seus próprios sentimentos. — É, eu também não concordei. A culpa disso não foi dela, você ia arranjar um jeito absurdo e estranho de ferrar com a gente.
— O quê?! — Abri a boca, indignada, mas meu corpo não obedeceu aos meus comandos e não consegui segurar a risada.
%Filipe% me conhecia bem, mesmo que eu negasse.
— Você sabe que é verdade, por isso está rindo! — Peguei uma camisa dobrada que estava na cama e joguei nele, meio indignada, mas ainda sem conseguir controlar a gargalhada. — Você é neurótica.
Balancei a cabeça, ainda rindo. Eu e %Filipe%, era tão fácil.
Aos poucos, nosso riso foi se dissipando e as dúvidas e lacunas entre nós foram voltando a nossa mente.
— Foi por isso que você sumiu nos últimos meses? Por causa da Dizzy? — Assenti, quase imperceptivelmente. Não queria dar mais informações sobre o sentimento alheio. — Me magoou, %Julie%.
— Eu sei. — Fechei os olhos, sentindo agonia por conta de sua confissão. O murmuro dolorido, os olhos magoados, foi um golpe baixíssimo. — Na minha cabeça, era o certo a se fazer.
— Talvez até fosse. Eu sei que é sua melhor amiga, que vocês se conhecem a anos e que amizade é acima de tudo para você, mas… — proferiu, pensativo. — Sei lá, você não pensou duas vezes de me descartar.
Franzi o cenho, confusa. De início, tive dificuldades, mas quando entendi seu raciocínio, suspirei profundamente. Dei a volta na cama, sentando ao lado dele, que continuava deitado. Sorri tristonha, encarando seus olhos, que não deixaram meu rosto por um segundo sequer.
— %Fil%, quantas vezes estivemos juntos desde que você e Dana…? — Não completei a frase, pois ainda era estranho demais dizer em voz alta, então apenas gesticulei.
— Nunca paramos de nos ver — respondeu.
— Exatamente. Foi por isso que eu e Dana brigamos na semana passada — revelei, finalmente. — Eu nunca consegui me manter longe de você, %Filipe% %Buchart%.
— Então, você gosta de mim — concluiu, sua feição se iluminou e mordeu os lábios para segurar um provável sorriso.
— Que pergunta, %Filipe%! — Rolei os olhos, mas no fundo, senti uma terrível tristeza. Afastei-o tanto que o rapaz chegou a pensar que eu não era apaixonada por ele. — Eu só não queria ficar com alguém que poderia vir a preferir outra pessoa.
— Mas eu não… — tentou falar, mas eu o impedi.
— Quem me garante que você não vai mudar de ideia completamente? — Exaltei-me. Olhou-me com pena quando me viu com os olhos lacrimejados. — Vai ser demais para mim, %Fil%! Não seria a primeira vez, sabe?
Pensei em todo o meu histórico e em todas as minhas histórias de amor que não deram certos. Eu não suportaria perder o cara de novo, e dessa vez, minha melhor amiga ia de bônus.
— Ninguém nunca pode garantir nada, %Julieta%. Assim como eu não posso te prometer nada, você não pode prometer que sempre vai me querer por perto. Você precisa deixar essa sua insegurança de lado e… — Parou abruptamente, sentando-se.
— E…? — Estendeu uma mão para mim antes de completar. Aceitei e ele puxou-me para sentar ao seu lado. Encostei-me na cabeceira estofada de sua cama, tremi quando ele jogou seu braço por cima das minhas pernas, acariciando minhas coxas levemente.
— Ficar comigo. — Os olhos de %Filipe% pareceram maiores e mais dourados quando emitiu o pedido. Nossa posição apenas reforçou nosso contato mais próximo. Ele estava meio sentado e deitado ao mesmo tempo, de modo que seu rosto ficou na altura do meu ombro quando sentei ao seu lado. — Caralho, %Julieta%, eu quero ficar com você.
— E eu quero ficar com você, mas... — Não suportei o seu olhar afetuoso em minha direção e não o olhei de volta. Coloquei os dedos pelos seus fios de cabelo na nuca, acariciando suavemente, fazendo-o suspirar fortemente, como se estivesse expelindo toda a exaustão que eu estava causando nele. — Você vai embora, %Fil%.
A sua feição, habitualmente serena, mostrou-se conturbada e chateada. Eu estava novamente negando os pedidos de %Filipe%, mas dessa vez, eu não estava tendo motivos puramente egoístas.
%Filipe% era um cara de vinte e poucos anos, iniciando a carreira, entrando em uma turnê de seis meses pelo país. A última coisa que ele precisava era de uma namorada prendendo-o. Eu também não estava pronta para ser classificada como namorada de cantor.
Ambos respirávamos pesado e estávamos absortos em nossos próprios pensamentos. Cada um tentando lidar com seus monstros e sentimentos sem forçar nada ao outro. Me peguei considerando aceitar seu pedido, mas eu sabia que precisava ser madura em relação a nós. Perdemos nosso tempo, eu sou a culpada pelo nosso atraso e agora era tarde demais para ficar ao seu lado.
— Você ficaria, se eu ficasse? — insistiu.
— Você não vai ficar! — Balancei a cabeça e apertei meus olhos. Eu não tinha dúvidas que repetir isso doía mais em mim do que nele. Doía pensar no que poderíamos ser se não fosse por mim. Doía pensar até no que nós costumávamos ser.
— Não vou, mas eu preciso saber se você ficaria! — %Filipe% parecia implorar por uma resposta minha quando eu o olhei. Seus olhos ternos procuravam pelos meus, ansiavam por uma resposta que ele já tinha.
— Eu estou aqui, %Filipe%. — Inclinei meu rosto em sua direção e encostei meus lábios em sua testa.
— Você ficou — concluiu, com a expressão exalando entendimento do meu ato. Assenti de leve, sendo avaliada por ele constantemente.
Estar ali com ele, naquele momento, já significava algo. Aquilo já era o meu "sim". Desde o momento que eu decidi descer do carro e correr atrás dele, eu havia dito "sim".
— Eu estou aqui desde o dia em que você apareceu na minha faculdade, a fim de me levar para um encontro. Não sei bem o porquê, mas toda vez penso nesse dia quanto tento lembrar quando minha obsessão por você começou. — Deu risada leve com a minha declaração, pegando minha mão e entrelaçando nossos dedos.
Era a segunda vez no dia em que ele fazia isso. Só um recente casal, em exploração de seus próprios sentimentos, sabia dizer que um entrelace de dedos pode ser mais íntimo que um ato sexual em si. Eu e %Filipe% nunca andamos de mãos dadas. Fora a primeira vez que eu senti que eu era dele e ele era meu.
Subitamente, passou o braço em volta do meu pescoço, puxando-me para baixo de seu próprio corpo, deitando e deixando-me por cima dele, em nossa habitual posição. Fez um carinho na minha nuca, fazendo-me fechar os olhos tamanha foi sua ternura. Cegamente, mapeei seu rosto com meus lábios, sentindo cada pedaço de sua pele. Meus lábios, finalmente, tocaram os seus e antes de aprofundarmos o beijo, movi minha língua delicadamente pelo seu lábio superior e me afastei. Ri quando ele grunhiu, irritado.
— Que horas nós vamos sair? — questionei, preocupada com o horário do voo do rapaz. Revirou os olhos, frustrado com a minha interrupção.
— Não vamos. — Franzi a testa, confusa e ele sorriu ladino. — O pessoal da banda vem para cá às 5h e vamos todos sair juntos.
— Eu achei que fosse precisar te levar no aeroporto — comentei, bagunçando seu cabelo, estranhando os novos planos.
— Nah! — Sorriu sapeca e eu revirei os olhos, sabendo o que vinha a seguir. — Foi só mais um dos planos malignos de Cameron Koernig.
— É claro que foi! — Balancei a cabeça negativamente. — Não sei por que não pensei nisso antes.
— Aparentemente, nossos amigos são nossos maiores admiradores. — O rapaz riu, deixando-me com a feição abobalhada. — Já estou com saudades desses idiotas…
Seis meses.
— Eu não acredito que você vai embora! — exclamei ao fazer um biquinho triste porque senti que ia chorar. A ideia do garoto longe não me agradava em nada. — Uma turnê! %Filipe%, você vai ser famoso!
— Eu não quero ser famoso. Só quero fazer o que eu gosto e ganhar um pouco de dinheiro com isso. — Deu de ombros, colocando uma mecha solta do meu cabelo atrás da orelha.
O penteado permanecia o mesmo e isso me fazia querer deixar um comentário positivo no vídeo do YouTube que me ensinou.
— A consequência disso é a fama, %Filipe%! — exclamei. Eu não sei se estava pronta para dividir %Filipe% com o resto do mundo, mas é o preço que se paga, certo? — Eu vou sentir tanto a sua falta…
Antes de ser o cara que eu beijava pelos corredores, %Buchart% era um amigo. Um que eu via quase todos os finais de semanas, que jantava no meu apartamento nas quintas-feiras. Fazia maratonas Marvel com Cameron e eu. Comprava brownies para Dana e sempre era cuidadoso quando Jack ficava bêbado. Seria difícil não sentir saudades.
— Só por uns dias, baby. — Encostou os lábios nos meus, beijando-me rapidamente.
— 182 dias é muito, %Fil%! — choraminguei e prendi minhas pernas na cintura dele. Ficar presa ao corpo dele, enrolada em seus lençóis, não era uma novidade para mim. Tornou-se minha atividade preferida, inclusive.
— Envio nudes para você todos os dias. — Apertou meu nariz, rindo suavemente.
Algo se alertou em minha mente e fui direcionada para a última vez que tínhamos transado.
Flashback.
Eu já sou uma pessoa distraída por natureza, já era bem difícil manter a concentração em algo, mas com o barulho de várias pessoas falando e música no apartamento ao lado tornava-se quase impossível. Naquela noite, eu experimentei o que os meus vizinhos sentiam quando nós fazíamos festas em casa. A irritação acumulava-se em mim a cada gargalhada alta de alguém na sala ou uma batida remixada de alguma música horrível, mas eu explodi em nervos quando alguém se empolgou e começou a fazer um sexo barulhento no cômodo que dividia parede com o meu quarto. O barulho era tanto que me deixou com a boca escancarada pelo choque e susto de uma pessoa desconhecida gemendo alto demais.
Em segundos, guardei meus materiais em uma mochila, coloquei um short jeans e por cima do pijama, coloquei um moletom gigante que havia ganhado de Tom, o empresário de %Fil%. Era preto e na parte de trás, estava escrito "%Buchart%" em letras garrafais. Enquanto saia do quarto, Dana estava fazendo o mesmo. Rimos ao notar que estávamos vestidas quase da mesma forma.
— Estamos provando do nosso próprio veneno, não é? — brincou e eu concordei. — Estou indo para a casa do Cam.
— Eu vou…
— A gente se fala depois, beijo! — Não deu tempo para minhas explicações, apenas saiu quase correndo, batendo a porta de casa. Suspirei, sabia que ela não queria ouvir o que eu tinha para falar e contar para onde eu ia.
Procurei outras alternativas que não fossem %Filipe%. Mandei mensagem para Jack e ele demorou demais para responder, então segui em frente e mandei mensagem para Toni, que respondeu com um mísero: "estou acompanhado". Procurei em minha agenda pelo nome de pessoas que eu fosse próxima o suficiente para surgir durante a noite em sua residência. Eu não conhecia tanta gente assim, muito menos tinha tantas amizades.
A biblioteca municipal já estava fechada, eu não tinha dinheiro nem para comprar uma água em alguma lanchonete e não conseguia pensar em qualquer lugar público. Meu dedo automaticamente deslizou para a letra F da minha agenda e eu sorri de lado. Eu sabia que acabaria lá e eu, inconscientemente ou não, desejava por isso. Disquei seu número em um impulso, demorou três toques e ele atendeu.
— Baby! — Aquelas palavras já tão familiares e amadas por mim.
— Está em casa? — Mordi uma unha enquanto chegava a garagem do prédio.
— Não, por quê? — questionou.
— Eu tenho coisas para fazer e não tenho para onde ir, também não dá para ficar em casa agora.
— Você sabe onde fica a chave, ué — respondeu sem hesitação e eu sorri com sua frequente gentileza.
— Estou indo para lá, então. Tudo bem mesmo, não é? — No fundo, eu esperava que ele dissesse que não, aí eu cairia na real e voltaria para casa. E desistiria dessa ideia de ficar provocando minha melhor amiga.
Mas %Filipe% nunca seguia meus roteiros imaginários. Sempre indo na minha contramão.
— Claro, %Julieta%! Anh… Talvez eu demore um pouco. — Sua voz parecia um pouco apreensiva ao me informar.
— Tudo bem, eu posso ir só depois. — Dei uma risadinha, achando fofo sua tentativa de justificativa, tentando não parecer estar dando uma.
— Pode ir agora, sem problemas. É que eu vou num pub com uns amigos e…
— %Filipe%, você não precisa me dar satisfações — garanti. Sentei no banco do motorista, ligando o carro. — Vou dirigir, a gente se fala depois.
Desliguei o celular, pensativa. Ir para casa de %Filipe% seria sacanagem com Dana? Seria. Eu estava me importando? Não. Eu estava frustrada comigo mesma por não estar me importando? Sim.
Dirigi até o apartamento de %Fil%, cheia de pensamentos conflitantes, como o usual. Assim que entrei, joguei-me no sofá, liguei o carregador no notebook e mergulhei nas palavras por horas. Eram duas da manhã quando eu finalmente levantei a cabeça e percebi que já tinha estudado tudo. Comemorei igual uma criança, pulando no sofá de %Filipe% sem me importar com o barulho eu poderia estar fazendo ou com os danos ao móvel.
Era a primeira vez desde que eu tinha iniciado a faculdade que eu havia conseguido finalizar várias matérias e revisar tudo. E a melhor parte: Sem me distrair, sem procrastinação, sem enrolação, sem surtar por não entender algo. Eu sabia que isso era efeito dos novos remédios que o psiquiatra havia receitado, então isso se tornou um terceiro motivo para comemorar: Remédios que me deixam viva, sem bater em postes e sem sonolência. Eu precisava tomar remédio para dormir, mas levando tudo em consideração, valia a pena.
Sentia-me muito cansada então voltar para casa nem era uma opção enquanto eu tinha a cama grande e confortável de %Filipe%.
Tomei um banho quente, procurei por alguma roupa intima minha nas gavetas de %Filipe%, porém, não achei nenhuma. Acabei ficando apenas com o moletom. Soltei meus cabelos e me joguei em sua cama. Eu não senti o sono até encostar a cabeça no travesseiro e apagar quase que imediatamente.
Eu teria um sono longo e renovador se eu não sentisse algo cutucando o meu nariz uns dez minutos depois que me aconcheguei entre os lençóis grossos que continham o familiar perfume. Abri os olhos e dei de cara com %Filipe% próximo demais do meu rosto. Seu rosto estava vermelho e ele só ficava assim quando tomava bebidas destiladas, o que parecia ser o caso já que um forte cheiro de vodca emanava dele.
— Oi, meu amor! — saudou alegremente e esmagando meus lábios em um beijo apertado.
— Você está bêbado. — Empurrei—o, pronta para ignorá-lo e aproveitar meu merecido sono.
— Só um pouquinho — exemplificou com o dedo indicador e o polegar. — Como você está? — perguntou e soltou um soluço logo depois, que me fez rir.
— Com sono e cansada — assegurei, voltei a fechar os olhos e tentei dar as costas ao bebum ao meu lado, mas seus braços me impediram.
— Acredita que o Tom me obrigou a tocar no Jaiskai Club? Ele sabe que eu odeio aquele lugar! — %Fil% ignorou o que eu disse e continuou falando sem parar.
%Filipe% era o segundo pior bêbado de todos nós, Jack continuava invicto no primeiro lugar.
— Eu disse que eu estou com sono, %Fil% — tentei mais uma vez, mesmo sabendo que era quase inútil.
— Você não sabe o quanto eu odeio aquele lugar. Eu lembro de um dia que… — começou a reclamar, sentando no chão, ao lado da cama e encostando a cabeça na cômoda.
— Eu sei, baby, você passou três horas reclamando quando fomos lá — eu o interrompi antes de ele começar a falar e terminar só no outro dia. A melhor estratégia era essa, não o deixar começar a contar histórias.
Ele ficou em silêncio por mais de 5 segundos e eu logo estranhei. Eu não estava brincando quando disse que %Filipe% era o bêbado falante. Nós contamos uma vez. Ele falou sem parar por quatro horas seguidas e a festa durou apenas três. Abri os olhos e ele me olhava sorrindo de canto, seu rosto sempre juvenil me fez sorrir também.
— O que foi? — questionei, sem conseguir não sorrir por conta do seu sorriso infantil.
— Não consigo odiar nada quando estou com você — declarou, com a cabeça um pouco inclinada, como se fosse um filhotinho de cachorro.
Eram por momentos assim que eu explodiria Dana e ficaria com ele só para mim.
— Vem dormir, vem. — Bocejei. Puxei seu queixo para mais perto de mim. Beijei-o de leve, mas logo me afastei ou ele se empolgaria e eu ainda estava cansada e com sono.
— Só vou tomar um banho e já venho. — Depositou um beijo em meu rosto e levantou. Rápido demais, acabou esbarrando em tudo, derrubando a sua estante de quadrinhos e eu também escutei mais alguns sons de coisas caindo vir de dentro do banheiro.
— Nem fodendo que eu vou levantar daqui para arrumar a bagunça dele — resmunguei sozinha e me aconchego novamente debaixo dos cobertores.
Cochilei gostoso até meu corpo se arrepiar ao sentir o corpo gelado e emanando o cheiro gostoso do sabonete grudar-se ao meu por debaixo do edredom. Encostei a cabeça em seu peitoral e joguei minha perna em sua cintura.
— Boa noite. — Deixei um beijo leve em sua clavícula, mas é claro que %Fil% não ia parar de falar.
— Vou passar alguns dias em Chertsey, a gente podia ir à praia quando eu voltasse, que tal? Eu, você, uma pousada, sexo, comida legal, sexo, praia, um pouco de sol, sexo… — sugeriu, acariciando minhas costas e brincando com meus cabelos.
— Eu disse que estava com sono, %Filipe% — reclamei mais uma vez, lembrando-o novamente.
— É só dizer sim ou não, %Julieta%! — choramingou enquanto brincava com meu cabelo.
— O que você quiser, baby — enunciei, sem realmente confirmar minha presença na sua pequena viagem.
— Preciso tirar uma foto sua depois! — Inclinou-se, murmurou ao pé do meu ouvido antes que eu questionasse seus motivos: — Você, com a bunda de fora e meu nome grafado nas suas costas, é o tipo de coisa que eu gosto de ver quando chego em casa!
Sorri abertamente com seu enunciado. Virei um pouco o rosto para facilitar o caminho dos seus lábios até os meus. As mãos de %Filipe% desceram da minha cintura e infiltraram-se dentre minha camisa, aproveitando-se mais uma vez d'eu não estar usando calcinha. Arfei quando senti Felipe e seus dedos atrevidos brincando de um jeito inocente numa área do meu corpo não tão inocente assim. Meu corpo entrou em alerta geral no momento que %Filipe% apertou seu corpo contra o meu ainda mais.
Soube ali, que nossa noite estava apenas começando.
A lembrança do sexo devasso, lotado de lascívia, provocado pela breve embriaguez de %Filipe%, fez meu corpo esquentar e as partes do mesmo que estavam em contato com ele, pulsaram.
— Por falar nisso, faltam quinze minutos para as 5h. — Olhei o visor do celular de %Filipe%, que tinha uma mensagem de Tom, perguntando se ele estava acordado. — Consegue fazer milagres? — Levantei e fiquei ao lado da cama, de pé e de costas para ele.
— Você está falando do zíper ou…? — perguntou, confuso e eu quis ver sua feição.
Ainda de costas, eu mesma abaixei o zíper do vestido até o final e deixei o escorregar no meu corpo. Inclinei-me um pouco para sair de dentro do vestido e no ato, fiz questão de empinar meu traseiro do modo mais sensual possível. Quando virei de frente, %Filipe% cravava um olhar totalmente arrepiante em meu corpo. Mordeu os lábios quando viu meus seios à mostra, já que eu não usei sutiã aquela noite.
%Filipe% foi o único homem que conseguiu a proeza de me fazer esquecer todas as minhas inseguranças. Olhava-me como se eu fosse a maior gostosa de todos os tempos. Eu odiava atribuir essa responsabilidade a ele, mas não tinha como negar.
— 182 dias, %Filipe%. — Soltei meus cabelos do penteado improvisado e baguncei-os. Abri sua mesa de cabeceira e tirei dois preservativos de dentro, jogando-os no peitoral do rapaz. — Você tem 15 minutos para me manter satisfeita por 182 dias.
— Talvez eu precise de 20 minutos. — Engoliu em seco quando me viu engatinhando pela cama até chegar a ele. Quis cravar meus olhos nos dele, mas ele estava perdido demais analisando o meu corpo, parado na mesma posição quando cheguei à sua frente. — Meu desempenho pode não ser dos melhores. Me deixa nervoso pensar que tem pessoas vindo para cá nesse momento. Tom tem a chave da casa, sabe? Ele entra quando eu não atendo de primeira…
— Eu não me importo em ter plateia. É até pecado que a população não veja o jeito bonito e gostoso que só a gente sabe fazer… — %Filipe% arfou, jogando a cabeça para trás. Talvez não suportando em me ver na sua posição favorita sem ele por trás, como de costume. Ou talvez estivesse apenas surtando com minha libertinagem.
Soltei um suspiro de aprovação quando, sem aviso prévio, o rapaz puxou meu rosto para si com as duas mãos e logo em seguida eu senti sua língua quente enrolar-se na minha. Afastou-se apenas para dizer:
— Um dia, você ainda vai me matar. E de várias formas diferentes, %Julieta% Young.
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Um gemido de frustração deixou meus lábios no momento em que abri minha porta e vi minha sala/cozinha em estado deplorável. O cheiro de cerveja, cigarro e queijo embrulhou meu estômago e a careta que surgiu em minha face foi instantânea. Até o chão parecia imundo.
Sabia que, mesmo exausta, não conseguiria pregar os olhos enquanto eu não deixasse aquele lugar, pelo menos, habitável. Comecei separando todos os lixos em categorias. Vidros, plásticos, louça suja e restos de comida. Achei que me ocupando com a limpeza, a imagem de %Filipe% acenando para mim naquele portão de embarque não ia perseguir meus pensamentos. Eu não poderia estar mais errada.
Não conseguia parar de pensar nele e em tudo o que ele me disse naquela madrugada. Em tudo que nós conseguimos fazer em 15 minutos, eu ainda sentia seus toques por todo meu corpo. E o abraço apertado do adeus, tão dolorido. Ainda era difícil acreditar que %Filipe% era tão apaixonado por mim quanto eu era por ele.
— %Julie%? — Dana apareceu na sala. O rosto amassado e inchado, o cabelo bagunçado, denunciavam seu estado pós álcool. Seus olhos baixos denunciavam uma possível ressaca que estava por vir.
— Oi, como você tá? — cumprimentei-a. Agachei para pegar uma fatia de pizza que estava grudada no chão e xinguei qualquer um que tenha feito aquilo. Após essa, eu nunca mais arrumaria a bagunça daqueles selvagens.
— Mal, eu vomitei logo depois que você saiu. Chegou agora? — perguntou-me, confusa ao me ver com as roupas da noite passada.
— Estava com %Filipe%. — Olhei-a de soslaio, atenta a sua reação. A morena apenas deu um meio sorriso e seguiu para a cozinha, indo em direção a cafeteira. — Fui ao aeroporto com ele e o pessoal da equipe.
— E como foi? Aposto que você chorou — brincou a morena. Sentou no balcão após pegar uma garrafa de água grande e bebeu na boca mesmo, desistindo da ideia do café.
— Eu sou de chorar com despedidas, realmente — debochei, revirando os olhos. — Chorei antes, na verdade. Nós conversamos.
— Como foi? — perguntei, atenciosa.
— Difícil e… Esclarecedor, como eu imaginei que ia ser — enunciei, jogando o saco de lixo do outro lado da porta. Desviei o olhar para Dana, que encarava a janela em nossa frente, pensativa. — Como você se sente? Tudo bem eu ter ido lá, não é?
— Eu conversei com %Filipe% ontem, %Julie%. Eu pedi desculpas por tudo, falei que no dia do beijo, eu estava confusa e estressada. Acabei usando-o, confundindo tudo e etc — explicou.
— Você mentiu para ele, então? — questionei. Dana não estava confusa, nem estressada. Ela nutria sentimentos verdadeiros por %Filipe%, eu sabia disso.
— Claro! %Julie%, é você. Ele é louco por você. E você nunca esteve tão apaixonada e uma pessoa nunca gostou tanto de você como ele. Talvez Hani, mas ele foi otário e estragou tudo! — exclamou e gargalhei ao notar ressentimento contra Haniel em sua voz. — Eu conversei com Cameron ontem, sobre algumas coisas. Relacionamentos, a história dele com a ex…
— E você chegou a alguma conclusão?
— Ele falou tudo o que eu estava sentindo sem nem saber, %Julie%. — Soltou uma risadinha, quase envergonhada. — Eu não sei como ele entrou na minha cabeça dessa forma. Mas cheguei à conclusão de que eu não posso forçar %Filipe% a ter sentimentos por mim, sabe? Eu posso ter me apegado ao imaginário de %Filipe% ser o cara para mim porque eu não tenho ninguém. Ou talvez eu realmente tenha sentimentos por ele. Mas tanto faz, não importa! — exclamou, coçando os olhos. — Eu acho que você não percebeu, mas vocês já estão em outro patamar! Seria desrespeitoso da minha parte ficar entre vocês agora. Por isso, eu pedi desculpas a ele. E tenho que pedir a você também.
— Você não tem que pedir nada, Dana! — retruquei, arrancando as luvas de plástico das minhas mãos e fui até a morena. — Tudo o que eu fiz foi por você, sim! Mas também foi por espontânea vontade minha.
— Exatamente, você fez por mim. Você faz tudo por mim desde quando nos conhecemos! Está na hora de me deixar retribuir e fazer algo por você também. E %Filipe% é o começo da minha quitação com você.
O olhar carinhoso que eu via na face de Dana era o motivo de eu não ter dúvidas em relação a mulher. Ela era minha relação mais recíproca, verdadeira. Assim como todos os relacionamentos do mundo, tínhamos nossas diferenças e algumas desavenças, mas no final do dia, ela era por mim.
Me matava notar que Dana Tomanzio, minha melhor amiga, a garota mais bonita do colégio, era tão (ou talvez mais) solitária que eu. Eu não precisava dizer que ela poderia ser muito mais, porque ela já era algo de outro mundo. Mas ela merecia mais, muito mais.
Impactada com as palavras da morena, estanquei no lugar. Estive tão presa em meu egoísmo e em meu mundo que nunca notei a solidão de Dana. Nunca notei que a garota tinha tantas histórias de amor falhas quanto eu. E foi por puro azar que a vida nos fez nos encantarmos pela mesma pessoa.
Larguei a vassoura e ignorei a limpeza e fui me sentar ao seu lado, no balcão. Abracei-a pela cintura, antes que eu pudesse falar alguma coisa, ela enunciou:
— Desculpa por ter feito você desistir dele por mim. Eu sei que compliquei tudo para vocês — murmurou, de cabeça baixa.
— Eu faria tudo de novo — afirmei, convicta. Encostei meus lábios em sua bochecha e recebi um delicado afago no cabelo. — Eu faria qualquer coisa para você ser feliz, Dana.
— Eu não mereço isso, %Julieta% — retrucou, sentida.
— Você salvou minha vida algumas vezes, pode ter qualquer homem que você quiser! — exclamei, bem-humorada. Fui bem-sucedida na missão de arrancar uma risada da moça ao meu lado.
Isso era eu e Dana. Como eu disse a algum tempo atrás, sem muitas complicações. Eventualmente, tudo ficava bem.
— Esse é o preço da sua vida? Homens? Porque eu acho que você vale o preço triplo de todos os homens do mundo. — Dizzy exagerou nas estatísticas e acabamos gargalhando juntas.
— Esse é o melhor elogio que uma feminista pode receber! — Sorri quando ela encostou a cabeça em meu ombro. Olhei em volta, prestando mais atenção a minha volta do que o normal.
O lugar ainda estava um nojo, mas o silêncio das 6h da manhã trazia uma calmaria necessária a nós duas, Cameron ainda dormia no chão em frente a porta do banheiro e nossas janelas de vidro gigantescas nos ofereciam o nascer do sol como um espetáculo particular. Parecia perfeito.
Eu, ela e nosso pequeno (e imundo) mundinho.