Talvez Não Seja Uma História de Amor


Escrita porJuliana M.
Revisada por Lelen


8 • A Guerra Fria.

Tempo estimado de leitura: 53 minutos

  Outubro.
  Há algo extraordinário no mundo: as festas universitárias.
  A união dos alunos de todos os cursos em prol de uma única causa — ficar bêbado — era algo que deveria ser explicado pelos mais renomados cientistas. A Universidade Nacional liberava o espaço no campus para qualquer turma que estivesse precisando arrecadar dinheiro para a formatura. Então, a cada três meses, turmas de diferentes cursos se uniam para promover uma grande festa no campus.
  A prática acabou tornando-se uma tradição e as festas eram esperadas e famosas entre os estudantes universitários de Hillswood, tão famosas que algumas turmas até recebiam patrocínio. Mesmo que alguém do seu grupo de amigos sempre saia arrependido de algo que fez na festa, mesmo com todas as situações inusitadas que víamos acontecer no campus naqueles finais de semanas, as festas da UNH eram sempre as mais aguardadas e comentadas do ano. Turmas ansiavam pelo festejo durante meses e a resposta só pode ser uma: Open bar!
  É claro que nem sempre é necessário a ingestão de álcool para garantir a diversão, mas convenhamos, um copo de cerveja não faz mal a ninguém após uma semana desastrosa de provas e trabalhos na faculdade. E sem falar que as festas não são uma desculpa para ficar bêbado e fazer besteira. Muitas vezes, elas são essenciais para descarregar nossas baterias sempre lotadas. Uma simples reunião com seus amigos já era o suficiente para diminuir a pressão do dia a dia, um pouco de socialização não faz mal a ninguém.
  A minha turma era uma das responsáveis pela festa desse ano e até então, nós tínhamos ido com a intenção de vender ingressos e bebidas para arrecadar dinheiro o suficiente para a formatura.
  Entretanto, conseguimos patrocínio de um bar da cidade, que não só nos ajudaram com as bebidas, mas nos deram alguns presentes pessoais. Como, por exemplo, uma caixa com doze garrafas de... Tequila.
  — %Julie%! — Assustei-me com a voz desconhecida me chamando. Tateei em volta de mim antes de abrir os olhos. Couro, era o que eu sentia. — Já chegamos. — Quando abri os olhos, confirmei que eu estava realmente em um carro. Demorei dez segundos para perceber que estávamos parados e que o motorista, que esperava por alguma reação minha, não era um desconhecido.
  — Neil! — exclamei, animada ao ver o senhor gordinho, olhando-me preocupado. Peguei umas notas na minha mochila e joguei no banco da frente, já me inclinando para sair do carro. — Você sempre salva a minha vida!
  — Já foi pago, %Julie%. — O senhor de 40 e poucos, que parecia muito o James Avery, riu e tentou devolver as notas amassadas que joguei para ele.
  Neil era pai de uma garota da minha turma, ele sempre transportava todo mundo no final de festas ou palestras que terminavam tarde demais. Era um cara muito legal e confiável. Também era o único que aceitava levar sete pessoas bêbadas em um sedan. Nem um pouco seguro, porém, logo tornou-se o motorista oficial da turma.
  — Já? Então, me dá isso de volta, é meu dinheiro da passagem do ônibus da semana inteira. — Estiquei as mãos para pegar o dinheiro, mas alguma coisa no meu movimento deu errado e eu notei que não sabia nem o que estava falando. — Você sabia que eu sofri um acidente de carro? Minha mão está ferrada, meu carro está ferrado… Até meus relacionamentos estão ferrados, Neil! — Tudo ao meu redor girava, mas eu fingia que estava tudo bem.
  — Sim, querida. Você citou algumas vezes. Quer ajuda para descer? — Neil continuava a rir do meu estado de embriaguez. Neguei, dei um abraço desajeitado no simpático senhor antes de sair do carro e fui me despedindo, gritando pelo caminho que Neil era um anjo.
  Fui andando, trôpega, até a entrada do meu prédio. Entrei em um duelo com a porta de ferro gigante, que insistia em não abrir. Neil gritou do carro, oferecendo ajuda ao ver minha enorme dificuldade. Neguei quando percebi que eu simplesmente não havia destrancado com a chave e comecei a rir feito uma louca.
  Corria mais tequila do que sangue em minhas veias.
  Eu me desequilibrei várias vezes até conseguir trancar a porta novamente. Minhas pernas estavam fracas e doloridas, talvez eu tenha dançado mais do que deveria. Eu tinha consciência que estava ridícula engatinhando até o elevador, mas minhas pernas não obedeciam mais a mim. Sentei no chão do elevador, procurando meu celular na mochila, mas foi uma ação sem sucesso. Olhei para o visor no elevador, tendo que apertar os olhos para enxergar em que andar eu estava. Eu já tinha apertado em algum botão?
  Era apenas 1h da manhã, Dana não costumava dormir cedo nas sextas-feiras, porém eu não achava meu celular para ligar, para ela me socorrer. Eu estava completamente tonta, mas isso não era nada perto do sono que eu estava. Eu costumava ser uma bêbada muito consciente, mas a tequila e a aula cansativa do dia me destruíram. Fiquei um tempo sentada no chão do elevador até me sentir melhor para levantar e acho que até dormi por alguns minutos. Ainda bem que ninguém do prédio chamou o elevador. Se chamasse, eu não ligaria, talvez nem sequer notaria. Não demorou muito (na verdade, eu não faço ideia se demorou ou não) para eu me sentir mais lúcida e menos tonta.
  Um forte barulho de música e várias pessoas falando sobressaltou-me assim que a porta do elevador se abriu no meu andar. Já amaldiçoava mentalmente qualquer vizinho que estivesse dando uma festa até perceber que o som vinha do meu apartamento. Se Jack e %Filipe% estivessem fazendo outra festinha surpresa, dois rapazes iam ser achados mortos no meu banheiro hoje. Como se fosse um milagre, minhas pernas voltaram a funcionar e eu andei rapidamente até a minha porta, destrancando-a imediatamente.
  Quando universitários estressados são colocados à frente de um open bar — e no caso da minha turma, tequila de graça —, as coisas podem tomar outro rumo. Durante a noite inteira, eu acabei assistindo muitas coisas nojentas, mas nada que me deixasse tão enjoada quanto o que estava na minha sala.
  Modelos. Mulheres e homens bonitos demais para a minha realidade. Alguns deles eu reconheci das festas que Dizzy me levava, o que me levava a crer que quem tinha organizado aquela baderna no meu apartamento, tinha sido ela.
  Olhei em volta, minha visão turva voltando ao normal após algumas piscadas. Cameron também estava lá, ele estava apoiado na janela e ficou apreensivo assim que me viu chegar com a feição confusa.
  Procurei por Dana, deixando minha irritação tomar o lugar da confusão. Então agora ela fazia festas em nosso apartamento sem nem falar comigo?
  Já fazia algumas semanas que parecia que Dana vinha me punindo de um jeito silencioso e sorrateiro. Ela não falava nada, nem seus motivos, mas eu sabia que era por ainda sair com %Filipe%. Tudo isso porque eu fui burra o suficiente de prometer que ficaria longe do rapaz.
  Eu sei que eu devia deixar de ser bunda-mole e mandar a real para ele, ou então, simplesmente dizer que eu não queria mais nada, mas era difícil dizer que não o queria mais, quando uma simples mensagem dele me fazia vibrar. Se fosse qualquer outra pessoa, seria fácil de manter-me afastada. Mas era %Filipe%, o cara que me usou como inspiração para escrever, que aceitava um pseudo relacionamento com uma garota complicada como eu e sem fazer grandes questionamentos.
  Então, no último sábado, nos reunimos no Carté e entre uma conversa e outra, %Fil% deixou escapar que tínhamos saído na noite anterior. Ninguém percebeu, mas Dizzy ficou aparentemente brava. Novamente, eu não a culpava. Eu me torno uma babaca suprema cada vez que não cumpro com a minha palavra. Mas em minha defesa, %Filipe% e eu só iríamos ao McDonalds. Eu estava morrendo de fome, porém, zerada. E nos beijamos um pouquinho. E acabamos encostando na casa dele para tomar uma água.
  E nos beijamos mais um pouco e talvez nós tenhamos acariciado algumas partes específicas do corpo um do outro um pouco mais fervorosamente, mas nossas roupas nem ao menos foram tiradas.
  Como eu disse, Dana ficou enfurecida e, ao invés de conversar comigo sobre, preferiu me punir com coisas pequenas. Como por exemplo, não tirar o lixo. Pedir meu carro emprestado e devolver ele na reserva, "acidentalmente" ocupar Cam de todas as formas possíveis para que ele não tivesse tempo de me ajudar com o trabalho de fotografia da faculdade. Coisas pequenas do dia a dia que me infernizaram e irritavam bastante.
  Você sabe o que acontece quando algo pequeno te incomoda e você não fala sobre isso? Essa coisa vai crescendo e se torna maior do que realmente é. Essa, pelo menos, é a explicação que eu consigo encontrar para o que estava acontecendo entre mim e Dana. Eu tinha a teoria de que a garota nem ao menos notava que estava agindo daquela forma comigo. Ela costumava "se desligar" do mundo quando algo a incomodava, fazendo só o que tinha vontade de fazer.
  Cumprimentei algumas pessoas conhecidas pelo caminho, sentindo-me pequena no meio de todas aquelas pernas longas, até chegar em Cam, em quem dei um beijo no rosto.
  — Cadê ela? — questionei com o semblante enraivecido. Cameron sabia da pequena guerra fria que Dana e eu tínhamos travado uma com a outra.
  Aliás, o fotógrafo sabia de muitas coisas, incluindo o que eu não sabia sobre o terceiro fator dessa equação. Às vezes, eu sentia vontade de conversar com ele e perguntar algumas coisas, mas eu sei que ele também iria questionar bastante e eu não gostava de expor meus sentimentos e opiniões assim, então eu ficava na minha. Fingindo que não sabia das coisas que ele sabia. E ele fingindo que não sabia mais que todo mundo.
  — No quarto, eu acho. — Cam observou-me, temeroso, por uns segundos. Logo em seguida, indagou: — Você está bêbada?
  — Não! — protestei, levantando a cabeça, rápido demais. Cambaleei sem nem sair do lugar e ele me segurou pelos ombros.
  — Claro que está. — Bufou, ainda me segurando. — Vocês não vão se estapear, não é?
  — Eu não prometo nada. — Ríspida, segui em direção ao quarto de Dana. Antes que eu chegasse próximo, ela saiu pela porta. A figura imponente de Dana Tomanzio causou algo em mim.
  De repente, ao vê-la tão segura, o olhar forte bem marcado pela maquiagem escura tornando-se mais intenso ao focar em mim, eu senti raiva. Senti raiva da minha melhor amiga.
  Muito se passava pela minha cabeça, mas principalmente, uma: Por que diabos ela tinha que querer o cara que eu queria? Nós nunca tivemos problemas com isso antes. Nunca nos interessamos pelo mesmo cara. Dana estar agindo com total frieza e arrogância justamente comigo era uma novidade. Mais novidade ainda era eu estar me sentindo completamente injustiçada e irritada com ela.
  — Obrigada pelo convite. Ah, é! Você não me convidou para sua festinha, mas, pelo menos, me avisou. Ah, espera! Você também não me avisou — ironizei, cruzando meus braços. Ela revirou os olhos e ajeitou a blusa em si mesma, deixando bem a mostra um decote invejável.
  — Decidimos entre uma palestra e outra, a única casa disponível era a minha — respondeu, ainda sem me olhar.
  — Nossa. É nossa casa! — corrigi-a, sentindo minha visão turva. Não de raiva, eu apenas estava bêbada demais. — Você devia ao menos ter me mandado uma mensagem!
  — Não deu tempo. — Deu de ombros, sorriu e piscou para alguém que passou por nós, indo ao banheiro. Eu odiava quando Dizzy agia assim, dissimulada e debochada.
  — Não deu para pegar o celular e me ligar quando você foi comprar todas aquelas comidas que estão no balcão? — Eu continuava cambaleando no lugar.
  — Na hora da afobação, eu nem pensei em nada disso, %Julie%. Deixa de ser chata, nem é uma festa mesmo, é só uma reuniãozinha — retrucou, a voz dela estava arrastada ou era impressão minha? Tirei meus óculos e esfreguei meu rosto com força tentando externar minha irritação. — Pega uma cerveja, sei lá!
  — Dana! — chamei-a antes de sair do quarto. Eu sentia as palavras escapulindo dos meus lábios sem conseguir me conter. — Você… Você quer que eu me desculpe? Eu sei que eu disse que não ia ver o %Filipe%, é só que...
  — Agora não, %Julieta% — respondeu rapidamente, provavelmente tentando fugir do assunto. Tentou sair do quarto, mas eu me postei em sua frente.
  Logo que notei a mudança de atitude de Dana comigo, tentei conversar com a garota, mas ela decidiu ser como eu e passou a fugir do assunto, fingindo que estava tudo bem.
  — É difícil para mim também. Para nós dois… Eu tentei, juro... — comecei a me explicar de uma forma totalmente confusa, mas Dana interrompeu-me.
  — Claro, porque vocês não vivem um sem o outro. — Revirou os olhos teatralmente e eu suspirei. Não tinha como odiá-la. Se eu estivesse em seu lugar, faria o mesmo.
  — Dizzy… — choraminguei.
  Eu estava tão cansada daquela situação toda. Cheguei a pensar que preferia não ter conhecido %Filipe% para manter a paz entre mim e minha melhor amiga intacta.
  — Eu estou bem com isso, juro! Só preciso de mais um tempinho, fazia tempo que eu não me sentia assim, você sabe… — Antes que ela terminasse a frase, Jack e Cameron apareceram no corredor, cada uma entregando um copo em nossas mãos.
  — O que vocês querem? — resmunguei e virando o líquido na minha boca sem pensar muito.
  — Só verificando. — Jack deu de ombros, olhando atentamente para nós. — Eu queria ter certeza de que vocês não vão cair no soco, Cameron está aqui só para assistir mesmo — explicou.
  — Argh! Eu estou vendo cois… Não vou usar drogas nunca mais na vida — exclamou Dizzy, esfregando os olhos. Imediatamente, virei o rosto para a garota, olhando-a atentamente. Olhos vermelhos, eu sabia que havia algo diferente nela. O rastro preto de maquiagem logo abaixo de seus, intensificou-se ainda mais quando seu olhar se focou atrás de mim, tentando identificar algo. — Esse é o…
  — %Fil%! — exclamaram Cameron e Jack, alegres, erguendo a mão para o amigo. Os três se abraçaram afetivamente, como se não tivessem se visto a dias.
  — Vocês estavam juntos? — Toda a animação dos garotos foi cortada pela voz fria, dilacerante e questionadora de Dana. Ainda sem olhar para o garoto, abaixei a cabeça, apoiando-a na mão, murmurei "puta merda" bem baixinho. Eu já sentia que ia dar merda. — O que você está fazendo aqui? — questionou, olhando friamente para %Filipe%.
  — E-eu? — gaguejou %Filipe%, confuso. Provavelmente não estava esperando a frieza de Dana, que nunca tinha tratando-o mal, nem questionada sua presença em nossa casa. — Eu…
  — Alguém convidou você? — repetiu, brava.
  — Não fala assim com ele! Eu moro aqui e também não fui convidada! — retruquei, elevando minha voz. Seja babaca comigo, não com meus amigos.
  — Eu posso ir… — %Filipe% tentou falar, mas interrompi-o, erguendo uma mão, exigindo seu silêncio.
  — Fica quieto, ninguém sai. Ninguém nem devia estar aqui! — vociferei, fuzilando-a com os olhos.
  — Eu odeio isso, %Julieta%! Eu odeio que você esteja fazendo isso comigo! — exclamou Dizzy, afetada.
  Revirei os olhos com o exagero dela e repeti na minha cabeça como um mantra: "Ela está alta e eu estou bêbada". Eu sabia que devia explicações a garota, mas não era o momento certo para isso. Definitivamente.
  Olhei para Cam, que parecia implorar com os olhos para que eu não fizesse confusão. %Filipe% estava com Jack apoiado nos ombros, ambos estavam de olhos arregalados, surpresos com a explosão de Dana e sem entender nada.
  — Quer saber? Eu não sou obrigada — falei, impaciente.
  Dana segurou meu braço, impedindo-me de sair. Olhei para o meu braço e percebi que estava sendo apertada com mais força que o necessário. Puxei-o de suas mãos com força, e devido a embriaguez (minha e dela), se desequilibrou, indo para trás e batendo as costas no pequeno criado mudo que tínhamos ali. A nossa aparente agressividade chamou a atenção dos outros, todos paralisaram na hora que viram Dana começar a chorar.
  — Você me trata como se eu fosse inútil, %Julieta%! — Dizzy começou a falar mais forte e eu já estava completamente irritada. — Me olha como se eu fosse um grandioso nada!
  Dei as costas para Dana, pronta para ir ao outro cômodo. Minha intenção era deixá-la gritando sozinha, me trancar no quarto e esperar o porre dela passar, mas senti novamente seus braços me puxando para trás.
  Tudo aconteceu tão rápido que eu esqueci que nós duas estávamos com copos nas mãos. Só lembrei do detalhe quando senti uma pontada nas minhas têmporas e fechei os olhos quando o fragor do vidro quebrando chegou aos meus ouvidos e o estilhaço rebentou pelo lugar.
  Dana aproveitou o meu momento de distração e confusão para virar meu corpo com força. Eu tinha certeza de que não iria avançar nela, nem ela em mim, mas mesmo assim, agradeci inconscientemente pelo reflexo de Cam e %Fil% serem mais rápidos que nós duas, ambas com o cognitivo alterado.
  Os três pularam de seus lugares e colocaram-se entre nós rapidamente. %Fil% colocou-se em minha frente, segurando-me pela cintura, me empurrando para trás e Cam segurou os braços de Dana, que gritava sem parar. Jack tentava nos manter longe dos vidros no chão. Eu sentia o olhar das outras pessoas em nós, mas eu não ligava. Minha mente girava e mesmo com tudo acontecendo ali, tudo o que eu queria era dormir.
  — Você me olha como se eu nem fosse uma ameaça! — gritou esganiçada, jogando-se contra o corpo de Cam, tentando aproximar-se de mim. — Eu odeio isso!
  — Se você está incomodada com alguma coisa, conversa comigo! — retruquei, perdendo a paciência e tentando tirar as mãos de %Filipe% de mim, sem sucesso. — Para de agir como uma completa idiota! Você foge toda vez que eu tento conversar!
  — Porque eu estou cansada de você! — esbravejou. — Porque eu sei que não importa a conversa, o final sempre vai ser o mesmo: Você e el… — Cobriu a boca com as mãos, em choque com sua própria impulsividade, quase revelando a todos o motivo de nossa desavença.
  Ficamos em silêncio por alguns segundos. Meus lábios se abriram alguma vezes, tentando dizer algo, mas nada saía. Eu não conseguia desviar o olhar dos olhos tristonhos de Dana.
  Eu estava começando a achar que estava certa em toda essa situação, que eu estava certa em manter a relação da qual eu cheguei primeiro, aí vem Dizzy e mostra novamente como eu estava sendo egoísta e injusta. A garota vinha sendo sincera comigo desde o início.
  — Leve ela para o quarto, %Fil%! — implorou Cam enquanto segurava Dana. Antes que eu tentasse ter uma noção melhor da situação em minha volta, %Filipe% literalmente me carregou e arrastou-me para o meu quarto, já que eu me recusava a sair do lugar. Parecia que meu corpo ia explodir de tão quente, minha cabeça parecia pesar e minhas mãos coçavam e tremiam.
  Não era minha primeira briga com Dana, pelo contrário, já tínhamos brigado várias vezes, mas assustou-me imensamente Dana ter começado tudo isso, a reação repentina da garota me deixou surpresa. %Filipe% só me soltou quando chegamos ao meu quarto. Ele me deixou sentada na cama e foi trancar a porta, receando que Dana ou outra pessoa aparecesse.
  Peguei um travesseiro, enfiei no rosto e gritei. Comecei a bater minhas pernas no colchão enquanto esperneava. Tentando aliviar toda o estresse que a situação havia me causado.
  — Para, para! Que porra foi essa que acabou de acontecer, %Julieta%? Eu não entendi nada! — questionou, segurando minhas pernas, fazendo com que eu parasse de me debater. Eu ainda precisava descarregar toda aquela adrenalina e raiva que estava dentro de mim. Usando a mão esquerda, comecei a bater no travesseiro mais próximo, grunhindo a cada luta minha com a almofada. — %Julieta%! Ei, para! Sua mão ainda não está totalmente cicatrizada! — bradou, segurando meus pulsos. Fechei os olhos, com a respiração entrecortada.
  — Eu quero ir embora! Me deixa ir para casa, %Fil%! — choraminguei, completamente embriagada.
  — Você já está em casa, amor… — explicou pacientemente, tentando manter meus braços imobilizados. Fechei meus olhos, sentindo muita dificuldade de abri-los novamente. Tudo em minha volta parecia se mover, eu odiava aquela sensação.
  — Eu não quero ficar aqui, baby — resmunguei, dessa vez, chorando de verdade. — Me leva!
  — Nós vamos para minha casa, mas vamos tomar banho primeiro? — Eu sentia %Fil% tentando me levantar, mas meu corpo parecia três vezes mais pesado.
  — Vamos dormir? — insisti, tendo total noção que quem falava era meu eu-bêbado.
  Todos nós somos um tipo de bêbado, certo? A pessoa que nos tornamos quando passamos da conta. Esse era o meu aspecto de bêbada. Eu ficava com um sono descomunal e resmungava demais. %Fil% não se calava nunca, sempre surgia com assuntos e comentários desnecessários. Cam era o bêbado sentimental, ele começava a se declarar para todos, amava todo mundo e distribuía selinhos. Jack, era o cara que sempre era o primeiro a cair, o primeiro que vomitava e sempre dava o famoso PT. Dana, como deve-se imaginar, era uma bêbada raivosa. Toda a irritação e sapos que ela engolia eram liberados depois de umas doses a mais.
  — Eu vou tirar os seus sapatos, está bem? — explicou, enquanto tirava minhas botas e eu apenas dificultava seu trabalho, mexendo minhas pernas incessantemente. — Não vou tirar suas roupas, vamos apenas ficar debaixo do chuveiro, ok?
  — Eu disse que eu estou com sono, %Fil%. — Tentei mais uma vez, mesmo sabendo que era quase inútil.
  — Eu sei, linda. — Ele ficou em silêncio por mais de 5 segundos e eu logo estranhei. Abri os olhos e ele me olhava, sorrindo de canto, seu rosto sempre juvenil me fez sorrir também. — Vou tirar seu vestido, tudo bem?
  — %Filipe%, você me vê nua todo dia! — ladrei, irritada, voltando a fechar os olhos e deitando na cama de onde eu nem percebi que tinha levantado.
  — É diferente agora — declarou, senti suas mãos desabotoarem os botões do meu vestido curto e logo começar a ser retirado. Eu sabia que ele estava falando sobre todo aquele papo de consentimento, sabia que ele estava tentando ser respeitoso comigo enquanto estava bêbada até o talo.
  Eram por coisas assim que eu explodiria Dana e ficaria com ele só para mim.
  — Vem dormir, vem. — Bocejei. Estiquei os braços, tentando encontrar seu rosto, entretanto, não achei nada.
  Abri os olhos, ressaltada. Minha visão turva só piorava a situação, pois eu enxergava tudo borrado. A sensação de abandono cobriu-me inteira e minha mente me levou ao dia do acidente, onde todos que eu gostava, eram apenas alucinações. Vergonhosamente, comecei a chorar, chamando pelo nome dele.
  — %Fil%! — Chorei, me remexendo na cama, tentando levantar.
  — O que houve? Estou aqui! — %Filipe% voltou a minha visão. Saiu de dentro do banheiro em passos largos até mim. Observei sua expressão se contorcer quando viu minhas lágrimas grossas descendo pelo rosto. — O que foi, meu amor? Eu estou aqui.
  Respirei fundo, engolindo alguns soluços e passando a mão pelo meu rosto. Eu sentia que podia explodir por conta da grande fusão e imensidão de meus sentimentos dentro de mim. Muito tinha acontecido em poucos minutos e eu ainda não havia digerido nada. Tudo ainda estava ali. A mágoa, a irritação, o gosto da tequila e logo a realidade me abateu.
  — Está, mas eu acho que não por muito tempo — respondi, quase inconsciente. Cerrei os olhos para tentar ver o rosto dele, já que devido o álcool, minha visão estava embaçada. Apenas notei que ele suspirou pesadamente e balançou a cabeça.
  Como se estivesse cansando dos meus despautérios.
  — Vem, ajudo você até o banheiro — falou, simplesmente.
  Fiquei debaixo do chuveiro apenas de calcinha e sutiã. Tudo parecia quente entre meus fios de cabelo, mesmo que eu estivesse com um jato de água gelada. Eu não estava com raiva de Dana, estava com a raiva da situação em que nós nos colocamos. Parecíamos duas adolescentes idiotas, parecia que não tínhamos condições de resolvermos nossas diferenças como adultas. E o pior, tudo havia acontecido, por causa de um cara.
  E eu prometi a mim mesma que nunca mais me prestaria a esse papel.
  — Eu queria odiar ela, %Filipe% — confidenciei, baixinho e de olhos fechados. O jato de água que caia sobre minha cabeça parecia estar liberando tudo que tinha dentro de mim e eu não sabia. — Mas eu não consigo. Ela é tudo para mim. — Eu apenas sentia respiração de %Filipe% próxima a mim, mas ele não falava nada. — A culpa é sua.
  — O que eu tenho a ver com isso? — questionou, após uns segundos em silêncio.
  — Eu gosto de você. E você gosta de mim também. Mas eu gosto só de você e eu não sei se você gosta só de mim — articulei, totalmente desconexa. Minha cabeça pesou, meus olhos relutaram ainda mais contra mim e eu nem me importei em encostar minha cabeça em seu ombro.
  — %Julieta%, você quer me contar alguma coisa? — Ouvi sua voz ecoar, quase virando um sussurro.
  Mas suas palavras não fizeram sentido para mim, visto que eu já havia conseguido cumprir o grande feito de dormir em pé, encostada em %Filipe%. Não senti ele me levar para o outro cômodo, não senti minhas roupas serem trocadas. A última coisa que eu senti foram os braços de %Filipe% em volta de mim, apertando-me com força.

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  — Merda! — xinguei, limpando o canto da minha boca e corri direto para a pia, enchendo minha boca com enxaguante bucal. Voltei para a cama, cambaleante e me deitei de forma desengonçada após vomitar toda a tequila da noite passada no vaso sanitário.
  Ao contrário do que eu esperava, nenhuma lembrança da noite passada estava nebulosa. Eu lembrava de tudo. De cada palavra, de cada sentimento, de todas as sensações e de todas elas, a pior era brigar com minha melhor amiga.
  Peguei meu celular, checando minhas mensagens e respondi apenas Cam, que perguntou como as coisas estavam e se Jack ainda estava por lá. Fui dar uma olhada no quarto de Dana e Jack dormia na cama, ainda usava as mesmas roupas da noite passada. Imaginei que ele tenha ficado por lá para fazer companhia a Dana, que deve ter tido uma noite ruim. Avisei a Cam que estava tudo bem e voltei para meu quarto. Parecia que eu tinha disputado em uma maratona de triátlon, eu só não sabia dizer se todo o meu cansaço e exaustão eram físicos ou psicológicos.
  Quando ia voltar a deitar confortavelmente, meus olhos abriram-se em pânico quando pensei na última coisa que eu me lembrava da noite passada.
  "Você quer me contar alguma coisa?"
  O questionamento de %Filipe%.
  É claro que eu queria contar! Porém, não eram apenas meus sentimentos, eram os de Dana. E eu não podia colocar a boca no trombone e espalhar por aí coisas que não cabiam a mim contar. Sim, eu estava cansada. Sim, eu queria consertar as coisas, mas não dependia apenas de mim. Eu sabia que se quisesse arrumar as coisas o mais rápido possível, a conversa com Dana não podia mais ser adiada.
  Passei a manhã de sábado inteira na cama, com uma ressaca dos infernos, arrependida de todas as minhas ações dos últimos tempos, principalmente de não ter sido clara o suficiente sobre meus sentimentos e agora estar sendo obrigada a ficar longe de %Filipe% e em maus lençóis com Dana. Quem me tirou da cama foi Bela, que me ligou umas sete vezes até eu lembrar que tínhamos um artigo para fazer e finalmente atende-la.
  Eu já estava arrumada, preparada para sair e almoçava calmamente no balcão quando Dizzy chegou em casa. Ela entrou no apartamento e assim que nos olhamos, ela abaixou a cabeça, parecendo extremamente envergonhada. Qualquer pessoa que a visse na rua saberia que ela estava de ressaca. Seus cabelos estavam presos quase no topo da sua cabeça e quando ela tirou os óculos escuros, percebi que suas pálpebras estavam inchadas. Ela, provavelmente, tinha chorado a noite toda.
  Eu também choraria a noite toda, se eu não estivesse ocupada demais estando praticamente morta de tão bêbada.
  — %Julie%… — Aproximou-me, sentou ao meu lado e eu apenas continuei a comer, sem olhá-la. — Eu perdi a cabeça, não é? — Com a voz falhada, parecia querer chorar de novo.
  — Você acha? — ironizei, erguendo uma sobrancelha. — O que aconteceu, Dana?
  — Eu não sei! Eu pirei! Me perdoa — choramingou, lágrimas acumulavam-se no canto de seus olhos. É claro que essa era a explicação. — Eu saí com uns amigos, usamos umas coisas erradas e… Eu juro que não sei o que me deu, Julie. Eu também achei que estava bem!
  — Eu vou me atrasar se eu não sair agora. — Olhei para o relógio em meu pulso. Levantei e fui jogar a louça na pia, deixando para lavar quando eu chegasse pela noite, ignorando sua fala. — Seu almoço está no micro-ondas. Fiz o suco de abacaxi com limão que você gosta.
  — Não, %Julieta%! Você devia quebrar tudo comigo, me dar uns tapas, me ignorar, não falar comigo por uma semana! — protestou a morena, jogando a bolsa no sofá e indo pegar um prato.
  — Não é como se eu estivesse certa, Dizzy. Eu fiz tudo errado, não cumpri minha parte do trato — afirmei, saindo da cozinha e indo ao banheiro.
  Enquanto escovava os dentes, tentei desembolar o nó que estava em minha cabeça, entretanto, eu mal conseguia manter os olhos abertos. A dor de cabeça era tanta que eu desconfiava que não era apenas a ressaca me penalizando.
  Pensando melhor em tudo, nós duas estávamos erradas. Dana errou em beijar o cara que eu estava pegando, sim, mas eu entendia atitudes impulsivas o suficiente para não a culpar por isso. E eu errei ao fazer promessas a ela, dizendo que iria manter-me afastada. O problema é que eu não sabia o quão difícil seria.
  — Você ainda quer que eu me afaste dele? — perguntei, chamando atenção dela, que olhava para o prato de comida com um olhar vago. Peguei meu casaco e minha bolsa.
  — Ele gosta de você! — contestou. — Não precisa ser assim, %Julie%, vamos conversar. A gente pode resolver isso de outra forma! — pranteou, puxando-me pela mão. — Eu me sinto terrível de deixar você fazer isso consigo mesma por mim.
  — Terrível vai ser como nossa amizade vai ficar se não resolvermos isso — assegurei. Dana fez um biquinho inconsciente, perdendo as palavras. — Olha, eu não posso falar sobre isso agora, estou cheia de coisas para fazer. Mais tarde, a gente conversa, pode ser? — sugeri.
  — Quem está fugindo agora? — zombou, mostrando a língua para mim.
  — Dizzy... — Aproximei-me, beijei de leve seu nariz. — Mais tarde.
  Eu estava completamente desconfortável com a situação, também não sabia como agir e tinha quase certeza que me afastar de %Fil% era uma atitude inconsequente e deplorável. Considerando que %Filipe%, por sua vez, não tinha a menor pretensão de ficar longe de mim.
  O dia de sábado estava bem bonito para um dia nublado, mas eu estava com o que parecia ser a minha pior ressaca, então nada estava agradável. Tive que ir de ônibus até a casa de Bela, já que meu carro ainda estava parado na oficina e eu estava até gostando. No ônibus, eu conseguia observar mais a paisagem pelo caminho. Quando cheguei a casa de Bela, a maldita não poupou piadas sobre meu estado físico e minha aparente ressaca.
  — E eu achei que eu estivesse de ressaca... — Gargalhou quando me viu revirar os olhos.
  A minha junção de jeans, moletom e minhas sandálias Nike Benassi casavam perfeitamente com meu casaco rosa gigante e meu rosto pálido e cheio de olheiras. Joguei minha mochila no sofá, já procurando um canto confortável para me acomodar.
  — Como você pode estar tão bem? Você e o ridículo do Mackenzie beberam mais do que eu! — questionei, indignada. Agora, Bela e Mac namoravam sério, se apaixonaram de verdade depois de insistir na besteira de amizade colorida. Tudo se sucedeu depois do jantar na casa dele, onde tudo o que eu sugeri que ia acontecer, acabou acontecendo mesmo.
  Eu devia ter apostado.
  — Tive uma boa noite. — A garota continuou a me encarar mesmo depois de terminar de falar. Ergui uma sobrancelha, não entendendo a expressão empolgada dela. Subitamente, esticou os braços, erguendo sua mão direita em minha frente, deixando a vista uma puta de uma aliança.
  Meu queixo foi no chão.
  — Você está noiva?! — quase gritei, o som de minha voz incomodando a mim mesma. — Annabela, você ainda nem terminou a faculdade, pelo amor de Deus!
  Bela e Mac começaram seu relacionamento na mesma época que eu comecei a sair com %Filipe%.
  Literalmente no mesmo dia, pois foi no dia do nosso primeiro encontro que Mac e Bela resolveram parar de fingir amizade. E isso me deixava completamente assustada. Fala sério, eu e %Filipe% nem saímos do estágio "casual".
  — Não é casamento! — Gargalhou. Olhou para a própria mão, sorrindo suavemente. Eu quase conseguia ver seus olhos brilharem. — É apenas… Compromisso.
  Puxei a mão dela, encarando a joia simples e bonita, totalmente desacreditada. Bela insistiu tanto que não gostava de Mac dessa forma que eu quase acreditei.
  — Caramba, não acredito que você definitivamente não é mais solteira! — Dei risada. — Me deixou sozinha na pista!
  — %Julieta%, tenha dó. — Revirou os olhos, procurando seus materiais e jogando em cima da mesa de jantar. Levantei, fazendo o mesmo. — Você não é solteira já tem um tempo. Inclusive…
  — Inclusive nada! Vamos logo começar, temos muito o que fazer. — Tentei distrai-la para evitar a conversa que eu sabia que viria a seguir.
  — %Julie%, nunca falamos sobre você e %Buchart%. Vamos ser meninas e falar sobre garotos? Nunca pedi nada! — exclamou, pedindo empolgada e batendo palminhas.
  — Olha o tanto de livros aqui, Bel! — choraminguei, encostando a cabeça na mesa. A dor de cabeça me incomodava demais, nem um analgésico estava do meu lado naquele momento. — Eu entendo mais Foucault do que meu relacionamento com %Fil%.
  — Ok, não gostamos disso, mas eu preciso fazer a fofoca. — Puxou uma cadeira, sentando ao meu lado, parecendo afoita. — Lembra da ruiva de ontem? Aquela que surgiu do nada e acabou ficando no nosso grupo pelo resto da noite? — Assenti, mordendo os lábios com a lembrança.
  A ruiva. Meu Deus, aquela ruiva.
  Ontem, na festa da UNH, eu e Toni conhecemos uma garota. Eu não sei o nome dela, mas ela era tão linda que dava raiva. Os cabelos ruivos e compridos, as sardas nas maçãs do rosto, o sorriso encantador. Tudo nela era dócil. Não lembro como a conhecemos, mas lembro muito bem do quanto dançamos e bebemos.
  — Então, ela é da UCH, a universidade onde Mac estuda — explicou. — Mac me contou que ouviu ela conversando com uma amiga e aparentemente ela descobriu que estava na mesma festa que a atual do ex-namorado dela.
  Parei para pensar por alguns segundos enquanto Bela via minha engrenagem funcionar. Isso só pode ser brincadeira.
  — Não! — duvidei.
  — Mac contou que %Filipe% estudava na UCH, mas então, a carreira dele decolou e a faculdade não fazia mais sentido — contou, revelando o que eu não queria ouvir. Eu sabia que %Fil% havia estudado na UCH por um tempo, mas a vida dele antes de mim não me interessava muito. Tanto que os questionamentos do passado já foram objetos de discussões entre nós. — E o namoro também não.
  É claro que a ruiva gostosa — que eu havia adorado (ela era divertida, poxa) — era ex-namorada de %Filipe%. Eu lembro de vê-la comentando e encarando a mim e ao meu grupo de amigos antes de tudo começar, mas eu só achei que ela estava observando o grupo mais divertido e louco da festa. Aí, de alguma forma, ela se aproximou, fez amizade e logo ficou próxima demais de mim. Eu, inocente, estava até empolgada achando que aquela coisa maravilhosa estava dando em cima de mim.
  — Como diabos ela sabe que eu…? — questionei, confusa.
  — Então, uma vez Mac me perguntou sobre vocês e…
  — Um belo de um fofoqueiro esse seu namorado! — Rolei os olhos, interrompendo-a. Bela me entregou o próprio celular, nele estava aberto o perfil no Instagram da ruiva. Fala sério, não basta ser bonita, tem que tirar foto como se vivesse em um ensaio fotográfico? — Natasha. Ela é muito bonita... Olha, Mac mandou mensagem, vou responder é agora: "Você é um fofoqueiro!" — Gargalhamos juntas antes de Bela começar a falar novamente.
  — Ele perguntou sobre vocês. Eu não quis dizer nada porque eu sei que você é reservada com sua vida pessoal, mas ele já sabia de tudo, só queria a minha confirmação. Ao que parece, todo mundo na UCH sabe que %Filipe% está namorando uma garota da UNH — completou, receosa: — Principalmente após o acidente.
  — As pessoas sabem do acidente? — questionei, surpresa e alarmada, colocando as mãos entre meus cabelos, embaraçando-os ainda mais. %Filipe% ainda nem era extremamente famoso e eu já estava tendo problemas com nossa intimidade sendo exposta. — E o que diabos essa menina queria saber de mim? Em pensar que eu quase a beijei…
  — Sei lá, queria sondar, ver a nova garota do %Buchart%… — supôs, dando de ombros. Depois arregalou os olhos, olhando-me. — Espera, você quase a beijou?
  — Eu achei que ela estava dando em cima de mim! — confessei, rindo, cobrindo o rosto com uma mão, me sentindo envergonhada.
  — Eu também achei… — confidenciou, concordando rindo.
  Parece que nossas linhas de pensamento se encontraram no meio do caminho e nos olhamos, surpresas. Mas e se…?
  — Será que ela estava? — questionei, temerosa.
  — Meu Deus, a ex do seu namorado estava dando em cima de você. Isso é uma coisa muito %Julieta% de se acontecer! — Gargalhou alto, jogando sua cabeça para trás, balançando seus cachos roxos.
  — Ele não é meu namorado, para começar… — comecei a falar, mas fui diminuindo meu tom de voz aos poucos ao notar o olhar de Bela.
  — Quando você vai parar com essa palhaçada e aceitar que vocês são um casal? — questionou, ácida. Abri a boca para falar algo, mas fui interrompida antes de falar. — Olha, eu entendo, é complicado, mas a parte mais difícil já passou. Assumir o "gostar" é algo desesperador e libertador ao mesmo tempo e vocês já passaram dessa fase! O que falta?
  Suspirei pesadamente, puxando algum livro aleatório e esfolheando as páginas sem realmente ler algo. A garota ao meu lado expirou fortemente, pensando que eu iria ignorar o assunto novamente. E eu iria mesmo, mas pensei duas vezes.
  Bela era a amiga mais próxima que eu tinha depois de Dana, eu não tinha muitas amizades femininas em HW e eu sentia falta disso. Na minha cidade natal, eu vivia cercada por mulheres, fortes e independentes, que teriam me tirado dessa situação confusa em que me meti.
  Cameron, Jack, Toni eram ótimos amigos, incríveis conselheiros, mas eram homens. Sempre seriam.
  — Dana gosta dele. — Expirei, revelando rapidamente o motivo de minhas recentes aflições. Observei o rosto de Bela se contorcer de surpresa para uma careta.
  — Desde quando? — quis saber, fechando o livro e focando sua atenção em mim.
  — Eu não sei bem, só sei que ela o beijou no dia do acidente e eles nunca mais falaram sobre isso. Ela me contou, ele não falou nada desde então — contei, abaixando a cabeça, muito interessada no meu jeans rasgado.
  — Espera, o acidente em que ele cancelou tudo para ficar com você? — Assenti. — E ele beijou de volta? — Balancei a cabeça, negando. — E ela fez isso depois que vocês já estavam juntos? — questionou novamente, me fazendo assenti, receosa com sua opinião. — Poxa, %Julie%, eu não quero ser desagradável, mas tudo me parece simples aqui.
  — Eu sei que parece errado, mas ela me contou! Ela estava nervosa, mas me contou logo quando perguntei se algo estava errado. E eu sei que ela não é uma má pessoa, sei que ela não tem agido de má fé comigo. Pelo contrário! Diferente dele, ela fez questão de deixar tudo bem claro — expliquei. — Nós tentamos resolver isso. Eu ia me afastar, mas… As coisas aconteceram, nós começamos a acumular mágoa uma da outra e isso me preocupa e…
  — %Julieta% — interrompeu-me para afirmar duramente logo em seguida: — A sua amiga beijou o cara que você estava ficando!
  — Eu sei, mas…
  — E você diz que tudo começou após seu acidente, mas antes disso você já estava ignorando seus sentimentos e fugindo de um relacionamento mais sério. Você está se sabotando, de novo! — exclamou, alterada.
  — Eu tenho medo! — desabafei. Ouvir a frase saindo de mim foi estranho, pois nem em meus pensamentos mais profundos eu admitia isso. — Eu tenho medo de não ser… suficiente.
  — Uou! — exclamou, batendo na mesa e levantando na cadeira, com a expressão fechada.
  — Não, não! Não é isso! — Estendi a mão, pedindo calma a garota, que me encarava raivosa. — Annabela, você está me deixando nervosa! — Também me levantei da cadeira, batendo o pé no chão.
  — Nunca mais… — começou a falar pausadamente, apontando o dedo indicador em minha direção. Nada tirava mais Bela do sério do que mulheres se rebaixando por homens.
  — Eu só me expressei errado, garota. Calma! — Dei risada da sua indignação com a minha depreciação. — Eu sei que sou suficiente, eu sei que sou incrível e maravilhosa, eu tenho minhas inseguranças, mas o problema real não sou eu. É só que… — Sentei novamente, soltando todo o ar acumulado em meus pulmões, sentindo meus olhos marejarem com o punhado de lembranças me atingindo. — Eu não tenho um bom histórico.
  É claro que todas minhas falhas histórias de amor tinham um pé de culpa nisso. Eu sou tão traumatizada com isso. Toda vez que alguém gosta de mim, eu associo como alguém que um dia vai me trocar por um outro alguém. Eu já tinha dificuldade com %Filipe% antes de tudo, sempre preocupada e temerosa que um dia ele iria me trocar por alguém. Aí minha melhor amiga — conhecida por ser deslumbrante e apaixonante — se apaixona por ele também.
  Foi inevitável. Isso acordou o monstrinho da insegurança e fragilidade que habitava em mim desde a infância, quando o garotinho da pré-escola preferiu brincar com Barbara, não comigo.
  — Isso tem a ver com Haniel? — perguntou, não mais aborrecida, agora estava apenas compreensiva.
  — Se fosse apenas ele. — Ri sem humor, cabisbaixa. — É muita coisa, de muito tempo, tudo acumulado.
  — A gente nunca vai saber o nosso futuro com alguém, mas não dá para ficar sentada, esperando o mundo e as experiências se tornarem seguras de se viver. Você precisa apostar tudo. Se houver um coração partido, a gente lida depois. Mas agora... — Sentou-se novamente ao meu lado. Puxou um notebook, posicionou em minha frente, pegou os livros de Bourdieu e Foucault (alvos da nossa pesquisa) e me olhou fixamente. — Tudo o que você precisa fazer é escrever, pelo menos, 20 páginas. E se dar uma chance de ser feliz.
  E foi de Annabela, a menina dos cabelos roxos, aquela do delineado perfeito, que ouvi tudo o que eu queria e precisava ouvir.
  — Aliás... — completou como quem não quer nada, mas o tom ácido em sua voz me fez sorrir ladina. Eu amava aquela garota. — Você chegou primeiro. Não é você que tem que sair fora.

━━━━━━◇◆◇━━━━━━

  Eu ainda estava com a mão toda ferrada, mas ainda assim, passei cinco horas digitando, corrigindo texto e lendo os livros empoeirados da biblioteca municipal, acompanhados de uma dor de cabeça chata, náuseas e sono. Já era noite quando consegui ir à farmácia e ao banco, para finalmente pagar o conserto do meu carro. Quando cheguei em casa, tudo o que eu queria era tomar um banho e ir direto para a minha cama.
  Soube que meus planos não dariam certo quando cheguei em casa e encontrei %Filipe% %Buchart% no meu sofá.
  — O que você está fazendo aqui? — perguntei, indistinta. Tirei meu casaco e coloquei no cabide atrás da porta. — Você tem as chaves da minha casa, por acaso?
  — Boa noite, %Julieta%. É assim que nos cumprimentamos agora? — Cruzou os braços e encarou-me, carrancudo.
  — Por quê? Você quer um beijinho? — provoquei. Belisquei sua bochecha quando passei por ele, seguindo em direção ao meu quarto.
  — Depende. Você vai me beijar e esquecer que eu existo logo em seguida? — retrucou, friamente. — Porque é isso que você vem fazendo comigo ultimamente.
  — Não faz nem uma semana que a gente…O que você quer, afinal? — Irritei-me com suas cobranças, mas também me recriminei por estar sendo rude. Ele quase não tinha culpa de nada, entretanto, eu estava de ressaca, com fome, tinha escutado uma avalanche de verdades durante o dia inteiro e eu só queria chegar no meu quarto.
  — Uma explicação, talvez? — refutou, mas ainda mantinha a expressão neutra. Suspirei ao ouvir sem tom de voz raivoso e, ao mesmo tempo, chateado. Saí andando pelo meu quarto, fazendo meus procedimentos rotineiros após um dia longo e ignorando um %Filipe% %Buchart% falante e mal-humorado atrás de mim.
  — Sobre? — Fui até o banheiro, em busca de uma camisola preta que eu havia deixado por ali. Prendi meus cabelos no alto e sem me importar com %Filipe% ali, retirei minha calça jeans e joguei no cesto de roupas sujas. — Eu que devia pedir explicações. Você sumiu com meu carro, onde ele está? Eu andei de ônibus o dia inteiro.
  Cameron ficou responsável por cuidar do conserto do meu carro após o acidente, mas o idiota pegou a irmã do mecânico, causando sua expulsão perpétua da melhor oficina da cidade. Cam não se arrepende, diz que foi sua melhor transa pós Nicole. Mas eu acabei sem mecânico, recorrendo ao vizinho de %Filipe%, que entendia uma coisa ou outra.
  — E mesmo assim, você não me ligou — acusou-me. — Nem sequer para perguntar sobre seu carro.
  — Eu não entendo nada de carros! — retruquei, jogando meus braços para o alto. — Eu confio em você, tenho certeza que o que quer que estejam fazendo, meu carro vai ficar ótimo! E por falar em ficar ótimo...
  Abri minha mochila, retirando duas caixas de remédios e jogando nas mãos do cantor. %Filipe% tinha um sério problema em seguir recomendações médicas. Nunca fazia as dietas, nem tomava os remédios receitados. Parecia esquecer que sua voz era o seu ganha pão e ignorava até os conselhos de seu fonoaudiólogo. Eu tinha que comprar os remédios e deixar na casa dele, como se fosse uma emboscada.
  Da última vez, cometi o erro de misturar o remédio com o chá gelado do rapaz, para forçá-lo a tomar. Ele tomou. Dois goles e vomitou o jantar inteiro logo em seguida.
  — Argh! — resmungou, lendo as informações na caixa. — É o mesmo que você comprou da última vez. Você lembra o que aconteceu, não é?
  — Esse aí é de morango, senhor "Sabor laranja me faz vomitar". — Rolei os olhos, zombando da minha criança de 25 anos.
  Entrei no meu banheiro, deixando %Fil% e suas reclamações para trás. Tudo o que eu queria era meu banho quente e era isso que eu teria. Retirei o restante de minhas roupas enquanto esperava a água esquentar. Não consegui conter o sorriso ao ouvir os resmungos dele vindo do quarto ao lado.
  No início, quando conheci %Filipe%, eu o achava o cara mais perfeito do mundo. Ter um relacionamento com ele significava que eu devia estar à altura de suas perfeiçoes. Entretanto, com o tempo, a rotina e a intimidade, descobri que %Filipe% %Buchart% estava longe de ser perfeito.
  Eu era confusa, meio prepotente, cheia de manias, irritante e, às vezes, problemática demais. Mas %Filipe% conseguia ser mais confuso e mais cheio de manias que eu. Era resmungão, gostava de reclamar e sua constante expressão neutra e calma com tudo e todos, irritava.
  Mas ainda assim, era tudo o que eu queria para mim. Reclamava, mas sempre fazia o que eu queria. Sua neutralidade sempre me deixava mais calma. Seus defeitos encaixavam-se em minhas lacunas. Sua calma completava minha sempre agitada personalidade.
  %Filipe% tornar-se imperfeito aos meus olhos dificultou tudo para Dana, pois agora, eu tinha a certeza de que ele era certo para mim.
  Saí do banho totalmente relaxada e renovada. Coloquei a camisola preta de alças finas — a que eu sempre usava quando queria dormir relaxada e bonita. Sim, eu ficava linda naquela camisola — e saí do banheiro, secando meus cabelos com a toalha. Sorri ao ver %Filipe%, sentado confortavelmente em minha cama, alternando o olhar entre o celular e a televisão.
  — Ei — chamei sua atenção. Seus olhos me analisaram dos pés à cabeça, demorando um tempo considerável em meus peitos, que ficavam evidentes no tecido sedoso fino. Estalei os dedos, fazendo-o erguer o olhar até meu rosto novamente. — Conheci sua ruiva ontem.
  — Natasha? — exclamou, surpreso, erguendo as sobrancelhas.
  — Que rapidez em saber de quem estou falando! — rebati, sarcasticamente. Peguei meu creme hidratante preferido e joguei para o cantor. Sentei ao seu lado na cama e estendi minhas pernas sobre ele.
  — É a única ruiva que eu conheço, ué. E a julgar por esse tom de voz ciumento, que eu já conheço muito bem, só podia ser ela. — Deu de ombros, derramando uma certa quantidade de hidratante em minhas pernas e massageando-as. — Se alguém falar "ei, conheci sua baixinha ontem" ou "ei, conheci sua maluca ontem", eu vou saber que estão falando de você.
  — Você é um idiota — murmurei, fazendo-o rir e apertar minha coxa em um afago. — Estávamos na mesma festa ontem, a da faculdade. Ela é divertida e muito, muito bonita.
  — Sou um homem de bom gosto. — Piscou para mim, erguendo uma alça que estava caída em meu ombro e deslizando sua mão pelo meu braço, ainda espalhando hidratante.
  — Ela estava interessada demais em me chamar para dançar, dividir bebida comigo, então, naturalmente, eu achei que ela estava querendo… — Balancei as mãos sugestivamente.
  %Filipe%, cuja mão estava quase chegando em minha cintura por debaixo do pijama, parou subitamente, olhando-me de forma exasperada.
  — Por favor, diz que você não pegou a minha ex! — implorou, arregalando os olhos.
  — Não vou mentir, eu até queria, mas logo descobri que o interesse dela em mim já tinha nome, sobrenome e mãos bobas — brinquei, puxando as mãos do rapaz para longe dos meus quadris.
  — O que diabos ela queria? Nós terminamos bem, sabe? Sem pendências, sem brigas… — comentou, pensativo.
  — Eu não faço ideia, só sei que nem somos oficiais e já estou tendo problemas com garotas por sua causa — declarei, pensando que Natasha não era a única garota na história que queria %Filipe% um pouco mais para si. Fui guardar a toalha e o hidratante e voltei a sentar na cama, sabendo que na manhã seguinte, eu iria me arrepender de não fazer algo no meu cabelo, mas estava cansada demais para lidar com cremes e formas.
  — Uau! Oficiais. É a primeira vez que essa palavra aparece em alguma conversa nossa — exprimiu, surpreso. Rolei os olhos e busquei pelo meu celular, abrindo as notificações.
  — Não começa, %Filipe%. — Uma mensagem de Dana apareceu na tela, informando que estava na casa de Cam e não sabia se ia voltar para casa. Dana estava fazendo o mesmo que eu. Fugindo de conversa sérias. — Como você entrou, afinal?
  — Quando cheguei, Jack ainda estava aqui. Ele me deixou entrar — explicou, buscando pelo controle remoto novamente. — Por que você nunca quer falar sobre nós?
  — Não é isso, só não quero falar sobre isso agora. — Enrolei na resposta.
  — Ok, podemos falar sobre ontem? — perguntou, cruzando os braços. Desviei o olhar para o meu celular novamente.
  Parecia que fugir era algo mais forte que eu. Mesmo sabendo que estava mais do que na hora de resolver tudo, eu continuava esgueirando-me pelos cantos e escapando de conversas sérias.
  — Não acho que tenha algo a se falar.
  — Por que a briga? Por que você me disse aquelas coisas? O que diabos está acontecendo entre você e Dizzy? — %Filipe%, finalmente, contextualizou suas perguntas. Fez vários questionamentos e eu não queria responder nenhum.
  — Brigamos por assuntos nossos, eu não lembro o que disse para você e nada está acontecendo entre a gente — respondi suas perguntas, respectivamente. Continuei olhando-o nos olhos, pois sabia que o contato visual facilitaria que ele acreditasse em mim. Pelo menos, era o que eu achava.
  — Dana te contou, não é? — Analisou-me, com os olhos estreitados.
  Bum. Aí estava. %Filipe% estava, finalmente, falando sobre o tal acontecimento. A pergunta me pegou de surpresa. Eu sabia que o rapaz já estava impaciente comigo e com minhas trapaças, mas não imaginei que ele seria tão direto.
  — Havia alguma coisa para contar? — retruquei, rapidamente, erguendo uma sobrancelha. Olhei para o seu rosto atentamente pela primeira vez desde que entrei em casa. Não sei o porquê, mas naquela noite, ele estava bonito demais para os bons modos. Ele estava barbeado e eu amava homens sem barba. Então, como a boa proteladora que sou… — Você está bonito demais hoje, %Buchart%.
  Seu olhar percorreu pelo meu rosto e mordi os lábios assistindo o desejo tomar conta de seus olhos.
  — Eu devia ir embora dessa casa e nunca mais olhar na sua cara, %Julieta%! — esbravejou, esfregou o rosto com força, puxou-me pela cintura, sentando-me em seu colo e me beijou.
  Ele me apertava, pressionava meus braços, me afastava, beijava de novo e eu fiquei ali, à mercê dos seus devaneios e confusões, mas sem conseguir negar seus beijos. Eu sentia nos movimentos do homem algo a mais. Nossos beijos sempre eram intensos, energéticos e demasiadamente quentes. Mas o jeito que ele me abraçava, que segurava meus cabelos úmidos e chupava meus lábios, determinava que algo estava diferente. Estremeci só com a ideia de %Filipe% sumir da minha vida.
  — Mas você não vai. — Receosa, afastei-me, passando o dedo indicador por seus lábios avermelhados, meu olhar encontrando seus olhos dourados. — Não é?
  — Hoje não. — Suspirou, encarando meu rosto. Intimidei-me com sua avaliação e enfiei meu rosto em seu pescoço, beijando-o do jeito que ele gostava. Esse era um dos "problemas" com %Fil%. Eu não cansava dele e ele não cansava de mim.
  %Filipe% e eu parecíamos fogo e oxigênio. Era só ficarmos perto um do outro, que tudo parecia explodir e nada importava, além de nós. Dana apenas retratou a verdade quando disse que o final seria sempre o mesmo. Sozinhos ou não, %Filipe% e eu sempre íamos acabar o dia juntos. Era inevitável. Nós éramos inevitáveis.
  — Espera... — pediu quando segurei a barra de sua camisa, pronta para puxá-la para cima. — Eu vim até aqui para conversar.
  — Sobre? — Receosa, me encolhi, aconchegando minhas pernas em volta dele.
  — Não sobre o que deveríamos conversar, mas… — murmurou, de cabeça baixa, observando o próprio movimento das mãos em minhas coxas. — Eu preciso contar algo para você.
  Tremi quando parei para observar o ambiente em nossa volta. A porta do quarto estava fechada, havia uma garrafa de água e um pacote de doces na mesinha ao lado da cama, a TV desligada, eu podia ver nossos celulares distantes de nós.
  %Filipe% arrumou o ambiente inteiro para uma conversa séria e eu nem percebi.
  — O que foi? Você está grávido? — brinquei enquanto mexia em seus cabelos.
  — De alguma forma, isso seria mais fácil. — Sorriu triste, olhando-me pesaroso. — Lembra que eu comentei sobre a série de shows em outros estados que estava sendo negociada? — Assenti, lentamente. O coração já parecia apertado. — Foi confirmada. Seis meses, com possibilidade de meses a mais.
  Minha mente trabalhou mais rápido que meu corpo. Foi como se meu cérebro abrisse uma calculadora mental no momento em que %Filipe% falou "seis meses". Calculei dias, horas, pensei o que eu estava planejando para os próximos meses e como eu faria tudo sem meu garoto por perto. Pensei nos bares, nos parques, nos lugares que queríamos conhecer e tudo que seria adiado por seis meses ou mais. Uma guerra fria parecia acontecer dentro de mim.
  — Quando? — perguntei, sentindo que minha voz, no momento, era apenas um fiapo.
  — Mês que vem.
  — O mês acaba daqui a alguns dias. — Saí de seu colo, completamente atordoada, sentei ao seu lado.
  Senti que seus braços relutaram de me deixar sair e seus olhos observando cada movimento meu atentamente. Respirei fundo, ainda tentando compreender no que essa ausência implicaria a nós.
  Estiquei o braço, tocando seu rosto levemente, acariciando sua bochecha lisinha. Ele fechou os olhos e suspirou, parecendo inebriado com meu afago.
  — Eu estou muito orgulhosa de você — declarei, experenciando o sentimento se aflorando em mim.
  — Obrigada, baby — agradeceu, emocionado.
  Ficamos sentados lado a lado, encostados na cabeceira da cama, cada um com seus pensamentos. Olhou-me quando eu o encarei, sorrindo tristonho. Era possível já sentir sua falta ali, naquele momento? Parecia muita arrogância e egoísmo pensar isso, mas para mim, %Filipe% sempre estaria ali e é difícil pensar o contrário.
  — %Julieta%? — Eu amava quando ele chamava por mim. Meu nome parecia se deliciar em sua boca, as silabas pareciam sair dançando ao som da sua voz incrível. O olhei. Seus olhos pareciam úmidos e suas maçãs do rosto estavam coradas. Soube antes de sua fala, que tínhamos a mesma dúvida. — E agora?

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Lelen

Eu tô só o meme de Girls In The House, falando: “Anda, não estraga meu shipp!”

Gente, o Fil é um tchuco, TÁ FALTANDO O QUE PRA FICAR COM ELE, PELAMORDEDEEEEEEEEEEEUS!!!
AGARRA ELE E NÃO LARGA MAIS
Também quero saber: e agora?

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