6 • Agosto é um mês diabólico.
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Agosto.
Eu nunca tive certeza do que eu queria fazer profissionalmente falando. Por isso, quando tinha quinze anos, fui em uma feira de profissões que aconteceu no centro comunitário do Jeins, distrito onde eu morava. A cada stand que visitava, eu saía de lá querendo seguir a profissão que me fora apresentada.
Lembro que no stand de artes cênicas uma colega de turma falou que a função do ator é mentir bem. Eu mentia muito bem, logo, quis ser atriz. Hoje em dia, eu sei que foi até desrespeitoso o que a Gina falou.
Sempre fui curiosa, sempre gostei de aprender coisas novas, minha sede pelo saber era grande. Pela manhã, eu tinha as maiores vontades do mundo, tipo, fazer trabalho voluntário na África. Pela noite, eu já tinha outras vontades, vontades ínfimas, como aprender a fazer crochê. Eu tentei aprender a tocar piano, mas o tempo acabou rebaixando essa vontade ao esquecimento. Eu também queria fazer bordado e aprender a fazer a torta de limão com merengue que a dona Ana vendia na rua da minha casa aos domingos.
Eu sempre fui o tipo de garota que queria muitas coisas, até que algo triste aconteceu comigo. Talvez uma das coisas mais tristes que se pode acontecer com um ser humano.
Eu desisti.
Desisti de ser atriz, desisti do bordado, desisti da torta de limão quando percebi que não tinha amido de milho no armário.
De repente, a vida se fez presente, o tempo parecia inexistente e todas as minhas vontades acabaram ficando para trás. Na ânsia de um futuro, a preocupação de ter um emprego, notas boas, uma vida social e todas essas aspirações que tentamos ter, as coisas que não eram essenciais e urgentes acabaram ficando lá, na ilha do "quase".
— Ele está usando o meu texto. Ele simplesmente copiou e colou o meu texto sobre a união europeia! — expus o acontecimento ao meu chefe, irritada ao extremo. — Eu juro que deixei os papéis em cima do balcão e...
Senti todo o ar que existia no ambiente acumulando-se na minha garganta quando Ray simplesmente levantou uma mão, sinal claro que eu deveria parar de falar.
Ray, meu chefe, designou a mim a tarefa de entregar uma pasta especificamente nas mãos de Ronald Mayer, o babaca que pedia para ver meus peitos. Eu tinha quase certeza de que algum político estava molhando a mão de Mayer para beneficiá-lo em suas matérias, mas eu tinha que ficar calada. Porém, quando fui entregar os papéis, acabei vendo o meu texto sobre blocos econômicos em seu computador. O texto que eu tinha escrito à mão em 20 minutos após assistir uma reportagem da BBC e deixei em cima da mesa enquanto ia receber uma entrega de tinta para impressão.
— Deixa eu explicar uma coisa para você, %Julieta%. Você é uma porra de uma estagiária. Mayer trabalha aqui há quase 20 anos. Se ele quiser usar seu rascunho como base de texto, ele pode! E sabe o que você faz? Entrega a merda dos papéis e serve a porra do café a hora que eu mandar! — gritava e apontava o dedo, quase tocando em meu rosto.
Tudo fica mil vezes pior quando você simplesmente não gosta mais do que faz. Eu escrevia textos que ninguém lia, fazia trabalho que eu não deveria estar fazendo.
Eu era assediada, explorada e, agora, plagiada. Eu não sabia que diabos eu estava fazendo com a minha vida.
O jornalismo havia se tornado um fardo pesado demais para mim. Eu sabia que não devia basear minha profissão inteira em um local de trabalho, que as coisas poderiam ser diferentes fora dali, mas o jornalismo nunca fora uma certeza. E ultimamente, não era nem mais uma vontade.
Minhas frustrações estavam a mil. Eu não tinha uma boa noite de sono fazia semanas, minhas olheiras estavam tão profundas que passei a usar base e pó compacto nos dias de semana. Eu era uma pilha de nervos o tempo todo.
Alguns dias atrás, lembrei de meus tempos conturbados na faculdade e do remédio que fora receitado para mim com o objetivo de apaziguar minha situação. Eu fui burra o suficiente para achar que era uma boa ideia voltar a usar a medicação, com isso, acabei tomando os benzodiazepínicos por alguns dias.
A medicação causou-me uma intensa confusão mental e eu tenho quase certeza que foi por conta disso que perdi os malditos papéis. Eu não sabia exatamente o conteúdo que continha nele, mas a julgar pelo jeito que Ray tinha mobilizado o escritório inteiro na busca, devia ser coisa grande. Eu até tentei me envolver na busca dos papéis, mas Ray gritou comigo por mais uns 20 minutos e me mandou embora.
Encarei-me no espelho retrovisor do meu carro e desabei em prantos antes mesmo de conseguir sair da garagem do prédio. Exaltada e atormentada, procurei em minha mente por respostas ao meu descontrole emocional. Não era TPM, não era estresse, eu estava tão desmotivada, que minha ansiedade e frustração estava em níveis alarmantes.
Eu nunca havia me sentido tão desnecessária, tão inútil quanto estava me sentindo nos últimos dias. Ter que acordar e sair de casa todos os dias era simplesmente difícil. Eu me odiava por isso, odiava me sentir tão fraca por coisas tão pequenas.
A última vez que saí com meus amigos foi para um almoço em restaurante e eu só pude ficar por uns 30 minutos. A vida de todos parecia tão mais saudável e tranquila que a minha, eu odiava isso. Odiava vê-los tendo vidas normais e perfeitamente saudáveis.
É possível ser normal e saudável aos 25 anos?
Odiei ter que deixar o local, atolada de trabalhos para fazer enquanto todos se divertiam e riam das últimas aventuras sexuais de Jack. Fazia tempo que Dana não tinha tempo para sentar e me perguntar como eu estava. Não que fosse culpa dela, eu também não estava sendo a pessoa mais fácil de lidar nos últimos tempos.
Eu odiava agir assim, sentia-me a pessoa mais mimada e dramática do mundo. Quando eu me sentia frágil e exposta demais, tinha tendência a me afastar. Com %Filipe%, não foi diferente.
Após voltarmos da praia, acabamos vivendo uma semana de lua de mel, por assim dizer. Nós saíamos quase todos os dias da semana, a gente também transou muito e nunca nos sentamos para conversar sobre o status do nosso relacionamento. Aparentemente, meu breve romantismo e minha doce declaração à beira da piscina fora o suficiente para ele. Tudo estava perfeitamente bem, até ele viajar por duas semanas para outro estado.
Quando voltou, %Filipe% teve que lidar com uma %Julie% irritada, impaciente, nervosa e confusa. Eu sabia que ele não tinha obrigação nenhuma em ser legal comigo quando eu estava sendo uma vadia, então preferi me manter longe naqueles dias para que ele não desistisse de mim permanentemente.
Entretanto, o número dele foi o primeiro que procurei quando sai do Daily.
— Oi, baby — %Filipe% atendeu no terceiro toque e suspirei, quase aliviada, só de ouvir sua voz, sempre tão atenciosa.
— Ei, está ocupado? — Limpei as lágrimas do meu rosto, forçando minha voz a voltar ao normal. Não queria que %Filipe% notasse algo de errado comigo.
— Só um pouquinho. Você está bem? — questionou.
— Anh... Sim. Eu só queria... Sei lá, eu não tenho nada para fazer e preciso me distrair um pouco. — Desconcertada e encabulada, minhas palavras acabaram saindo da minha boca de forma confusa.
— Agradeço a preferência! — respondeu, sarcástico, e eu senti-me pior imediatamente.
— Não! Eu não quis... — comecei a me retratar e pedir desculpas, mas a risada dele interrompeu meu pesar.
— Calma, %Julieta%, eu entendi! Você pode ir lá para casa. A chave reserva fica presa no interruptor da campainha. O interruptor é solto, você puxa pelo lado.... — Parei de prestar atenção nas instruções dele e me perdi nos meus próprios pensamentos por um segundo. Não é possível que %Filipe% seja tão legal assim. O cara estava ali, de braços abertos, me entregando a chave de sua casa quando eu ao menos perguntei como tinha sido a viagem. — %Julieta%?
— Oi, estou aqui. Tem certeza de que está tudo bem eu ir? — Procurei pela afirmação de que estava tudo certo entre nós.
— Claro que sim! Eu tenho que ir. Vejo você em casa, beijos! — E desligou. Encarei o celular, ainda meio atordoada e surpresa com a boa vontade de %Fil%. Eu não estava acostumada com homens sendo bons comigo sem esperar nada em troca.
Dirigi meio desatenta, ainda pensando nas merdas gigantes que eu vinha protagonizando naqueles dias. A demissão era uma certeza. Na faculdade, eu era financiada pelo governo, então, eu não sabia como essa demissão iria ficar aos olhos deles. Mais uma incerteza. Eu nem queria começar a avaliar minhas relações pessoais, minha cabeça iria explodir.
Quando entrei na casa de %Filipe%, um sentimento bom de acolhimento e saudade me atingiu. A cada passo que eu dava no local, minha mente materializava as lembranças da última vez que estive no local.
Andando de calcinha pela sua sala, pulando entre seus sofás e almofadas por conta de nossas brincadeiras idiotas, bagunçando sua cama da melhor maneira possível. Sorri quando cheguei em seu quarto e notei que ainda havia malas jogadas pelo chão e que as portas do closet estavam abertas. Imaginei-o saindo de casa atrasado e deixando tudo pelo meio do caminho. Tirei minhas roupas e fui direto para o banheiro, desejando o chuveiro maravilhoso de %Filipe%.
Senti a água quente descer pelos meus ombros, falhando miseravelmente na missão de levar pelo ralo tudo o que me incomodava. Eu estava envergonhada, com raiva e chateada. Ainda sentia toda a angústia presa no meu peito e na minha mente, eu sentia que cada célula do meu corpo estava constrangida de ter que estar ali, no corpo de uma garota tão chata.
Quando saí do meu longo banho, procurei por uma camisa de %Filipe% dentro do armário e joguei-me em sua cama, sem me importar com meus cabelos molhados em seu travesseiro. Era bom demais ficar ali, longe de tudo e de todos, imersa no cheiro dele. Eu já sentia um arrependimento muito grande de estar ali e não estudando ou fazendo algo produtivo, mas parecia impossível fazer outra coisa agora.
Eu também não gostava de como eu estava lidando com meus problemas. Nunca gostei de me sentir frágil. O choro havia me deixado ainda mais sonolenta e cansada, logo dormi, sem pensar muito no que tinha acontecido.
Senti que adormeci por poucos minutos e acordei com %Fil% gesticulando à minha frente. Cansada e precisando desesperadamente dormir mais, ignorei-o e virei de costas para ele, voltando a fechar meus olhos, tentando me concentrar na realidade.
Toda vez que eu despertava, ficava muito grogue e não lembrava de quase nada dos primeiros minutos depois que eu acordava. Tudo isso fora causada pelo remédio e nas primeiras vezes que tive essa forte reação, decidi parar com o uso.
Quando senti que estava sã o suficiente para lidar com outra pessoa, levantei-me da cama e fui em busca dele. %Filipe% estava deitado no sofá em sua sala e falava ao celular. Ele já olhava na direção da porta do quarto quando saí, como se estivesse esperando por mim.
Gesticulou com a mão, batendo no espaço ao seu lado. Não prestei atenção no que ele falava, apenas me deitei ao seu lado, abraçando sua cintura. Ele deu uma risada provocativa quando desceu uma mão para minha bunda e sentiu que eu estava sem calcinha.
— Preciso ir. Eu passei o dia com você, Tom, não aguento mais escutar sua voz! — reclamou, com a voz arrastada. Tomáz era o empresário e produtor de %Fil%. Ele dizia que Tom era muito competente, mas que também tinham muitas divergências criativas. Eu ainda não o conhecia, mas Jack costumava dizer que o cara era tão chato quanto era bom em seu trabalho.
Comecei a distribuir beijos suaves pelo seu queixo, sua bochecha e descendo para seu pescoço, sem pretensão alguma, apenas curtindo nossa proximidade. Ele fechou os olhos, aproveitando meu carinho e resmungando no telefone.
— Tom, é sério, tem uma garota tentando me beijar agora e você está atrapalhando! — resmungou, após eu ter apenas encostado em seus lábios e afastei-me.
— É a tal da %Julie%? Fala sério, %Filipe%, se ela esperou você até agora, ela não vai morrer se esperar você resolver isso. — Ouvi a voz alta e ranzinza de Tom mesmo que a ligação não estivesse em autofalante.
Levantei a cabeça, olhando para %Fil% com uma sobrancelha erguida, sorrindo por saber que o empresário dele sabia quem eu era, mesmo sem nunca termos sido apresentados. As maçãs do rosto de %Fil% ficaram avermelhadas.
— Tomáz, boa noite! — Irritou-se, encerrando a ligação de uma vez.
Dei risada da expressão emburrada do rapaz. Puxou meu corpo para cima do dele, deixando minhas pernas esticadas entre as dele, abraçou minha cintura com os dois braços e beijou-me lentamente.
— Não queria atrapalhar, desculpa. — Afastei-me e encostei meus lábios em seu pescoço.
— Não atrapalhou, ele só está nervoso com a viagem para Austin. — Puxou a camisa que eu usava um pouco para cima, posicionando suas mãos em minha cintura por baixo do tecido.
— É amanhã? — %Filipe% tinha um show marcado em Austin, no Texas. Todos estavam pirando porque iria ser o lugar mais longe onde %Filipe% iria se apresentar. Ele assentiu levemente. — Você está nervoso?
— Bastante, mas não posso pensar nisso ou então, surtarei! — Balançou a cabeça, como se estivesse expulsando os pensamentos. — E você, sonâmbula? Como você está?
— Sonâmbula? — Sua afirmação me fez franzir o cenho.
— Sim, fui acordar você hoje e você parecia outra pessoa. Só ficou me encarando e voltou logo a dormir. Ou você é sonâmbula ou estava apenas sonhando.
— Ah, devo ser mesmo, não sei dizer — respondi, confusa com seu relato. — Enfim... você chegou rápido. Falamos no celular agora há pouco.
— %Julieta% — %Filipe% deu uma risadinha e apontou para a janela, onde o céu escuro mostrava claramente que já não era mais dia —, são quase dez horas da noite. — Fiz uma careta com sua constatação.
Estava estranhando muito os novos efeitos colaterais do remédio que estavam aparecendo em mim. Eu tinha tomado apenas por alguns dias, já havia parado por dois, mas tudo ainda estava tão confuso. Eu lembrava de %Filipe% ter me acordado, mas algo parecia me impedir de falar com ele. Eu o via na minha frente, sabia quem era, mas não conseguia entender o quanto ele era real e não fazia o menor sentido ele ali na minha frente. A ligação que eu tinha feito parecia ter sido minutos atrás, quando, na verdade, já fazia onze horas desde que ela aconteceu.
— Ei, obrigado por me deixar ficar. — Dei um beijo no seu rosto em agradecimento, mudando de assunto logo, pois se %Fil% pedisse explicações, eu não teria como dar uma.
— Não foi nada. Você me recebeu sem calcinha, %Julieta%. Já estamos quites! — brincou, beliscando minha bunda. Gargalhei, dando um tapa na mão dele. — Ei? — chamou, segurando meu queixo para que eu o olhasse. — Está tudo bem mesmo? — Assenti, sorrindo e beijei-o mais uma vez.
Sempre que Felipe queria uma resposta verdadeira, me forçava a olhar em seus olhos. Aqueceu-me por dentro o fato de que ele realmente queria saber como eu estava.
Era segunda-feira e eu estava cheia de coisas para fazer em casa. Dana já tinha enviado várias mensagens, querendo saber minha localização. Eu precisava voltar para casa, então avisei a %Filipe% que tinha que ir embora e ele insistiu em me levar.
— Sério, linda. Você não parece bem e eu ainda estou preocupado com esse seu sonambulismo recente — enunciou, enquanto vestia uma camisa. — Não vou deixar você dirigir assim.
— Como você sabe que é recente? — Cruzei os braços, questionando-o. Eu não quis colocar minhas roupas novamente, então coloquei um short que eu havia deixado na casa de %Filipe%, coloquei minhas meias e permaneci com sua camisa.
— Dormi com você nos últimos três meses e nunca tinha notado nada. Imagino que seja recente...
Espantei-me com sua fala. Três meses? Eu estava saindo com %Filipe% há três meses? Pode parecer pouco, mas para uma garota com o histórico como o meu, já era o suficiente. Fez-me pensar no meu último relacionamento sério e na sua duração.
Eu tinha namorado com Haniel durante um ano, oito meses e cinco dias. Em comparação com o último (e único) relacionamento de Dizzy — que durou três anos —, parecia bem pouco. Mas algo nos meus três meses com %Filipe% parecia ser a mesma quantidade dos meus dias com Hani.
— Três meses? Jura? — questionei, ainda surpresa demais. Eu podia jurar que era menos. Entretanto, quando eu parava para pensar em nós, eu esperava que fosse muito mais.
— Você deve me achar um idiota por saber há quanto tempo estamos juntos, não é? — indagou.
Estava com o sorriso típico de %Buchart%. O rapaz tinha a ousadia de falar certas coisas, mas suas bochechas avermelhadas explanavam o cara doce e gentil que ele era.
— Estamos juntos? — Descruzei os braços e coloquei as mãos na cintura, com as sobrancelhas erguidas. Perguntei de novo, dessa vez, foi apenas para perturbá-lo.
— %Julieta%! — exclamou, revirando os olhos quando percebeu que eu estava claramente zombando.
— Me leva para casa, baby — ordenei, beijando seus lábios rapidamente e jogando as chaves do meu carro para ele.
— Você está bem mesmo? — perguntou mais uma vez, parecendo genuinamente preocupado enquanto seguíamos para fora da casa.
— Só estou cansada, %Fil% — garanti.
E eu estava mesmo. Fui o caminho inteiro deitada no banco de trás do meu carro e dormi de novo quase imediatamente. O dia inteiro tinha sido um borrão e agora eu estava ainda mais confusa em estar no meu quarto.
Apertando meus olhos para ter a certeza de que o cômodo em que eu estava era realmente meu quarto, passei a mão na testa, arrancando um post-it que estava preso lá.
"Você apagou de novo. Sério, estou preocupado. Estou escrevendo na sua testa e você nem se mexe. Me liga quando acordar.
%Fil%."
A caligrafia torta de %Filipe% fazia-me crer que ele realmente tinha escrito aquilo apoiado em mim e eu não senti nada. Procurei pelo meu celular e não achei. O relógio na minha parede mostrava que já era uma da manhã. Eu estava no meu quarto e definitivamente não lembrava de ter vestido os meus pijamas. Será que %Filipe% me trouxe?
Levantei-me, ignorando a dor de cabeça e fui procurar Dizzy, na esperança de que ela pudesse me dizer o que estava acontecendo comigo, mas eu nem me atrevi a sair do quarto. Ignorei a sede, sentindo minha garganta ainda mais seca ao ver a cena a minha frente.
Eles estavam sentados, um de frente para o outro. Separados pelo balcão da cozinha, inclinados na direção um do outro. Olhavam-se de um jeito diferente, eu não sabia explicar. Não falavam, apenas dividiam um pote de sorvete. Seria algo inocente, se não fosse pelos olhares compartilhados a cada colherada.
O sentimento de dejavu atacou-me ferozmente. Aquilo já tinha acontecido tantas vezes comigo, que parecia a mesma cena com pessoas diferentes.
Um movimento rápido me pegou desprevenida e pelo olhar surpreso, fisgou %Filipe% também. Dana esticou o braço, limpando com o polegar um traço de sorvete que se acumulou no lábio inferior do cantor. Ela levou o dedo até a própria boca, sugando o líquido e abaixou o olhar para o pote de sorvete. Naturalmente. Como se fizessem isso todos os dias.
Soube que eu precisava voltar ao quarto quando notei seus olhos se encontrando novamente.
Fechei a porta com cuidado, evitando fazer barulho para não ser notada. Eu piscava insistentemente, pois não podia chorar. Eu não ia chorar. Aquela tristeza conhecida instalava-se dentro de mim e mesmo parecendo ser uma velha amiga, eu não podia deixar ela fazer-se presente. Seria fatal para minha sanidade.
Parte de mim queria ir até lá, quebrar todo aquele clima que tinha se instalado ali. Mas a outra parte de mim, (a parte boazinha) sabia que quando tinha que acontecer, até os ventos sopravam a favor.
Eu acabaria sendo mais uma peça descartável naquela história.
A noite fria e meu coração machucado fizerem encolher-me mais na cama, cobrindo-me quase que completamente. Queria sumir do mundo por alguns minutos. Estava magoada, triste, com raiva e com o ego ferido. E para piorar, o sono tinha se esvaído completamente. Justo agora que eu precisava ficar fora de ar por um tempo.
Como queria voltar a dormir, procurei pelo antigo remédio, aquele que me fazia dormir instantaneamente. Engoli a cápsula sem nem tomar água e me joguei na cama.
Não conseguia entender como diabos eu tinha parado em uma outra história de amor que não era minha. Não entendia como eu tinha acabado presa em um escritório fazendo o que eu odiava. Não entendia minhas notas estarem cada vez mais baixas. Não estava entendendo como, em um minuto, eu estava na casa de %Filipe%, com ele inteiramente para mim. E no outro minuto, eu tinha voltado a ser uma garota solitária e bagunçada, a coadjuvante. Então, algo triste aconteceu: Eu desisti de novo.
Só que dessa vez de algo maior que uma simples vontade. Desistir de algo mais forte que eu seria fatigante.
No dia seguinte, acordei grogue, tão zonza que devo ter passado quarenta minutos sentada na beira da cama, tentando entender que eu era uma pessoa. Comecei a pensar em como o dia anterior tinha sido um grande borrão e eu sentia que tinha tido um pesadelo. Encarei a caixinha azul em meu criado mudo, a faixa preta em volta do medicamento quase gritava comigo. Bati a mão na testa várias vezes.
Burra, burra! Eu era uma garota estúpida! Preferia passar por maus bocados e prejudicar minha própria saúde, do que lidar de forma racional e madura com meus problemas.
Eu tinha entrado em piloto automático. Com muita dificuldade, consegui tomar banho e arrumar-me para o trabalho. Passar o dia no jornal ouvindo o diretor gritar comigo por conta da perda de papéis do dia anterior fora mais fácil do que pensei.
Os efeitos do remédio ainda estavam pelo meu corpo, deixando-me anestesiada. Perder aqueles malditos papéis acabou atrapalhando o trabalho de todo mundo e acabei sendo hostilizada e ignorada pelo resto do dia. Ainda tive que aguentar a arrogância e o desdém do babaca de Ronald Mayer.
Quase suspirei de alívio quando Ray me mandou ir embora mais cedo novamente, mas minha respiração travou e minha cabeça quase explodiu quando eu lembrei que teria que ir para a universidade lidar com o Conselho, que queria minha cabeça numa bandeja e todo o dinheiro investido em mim de volta.
Acontece que a minha faculdade era patrocinada pelo governo e quando eu não atingi as médias altas, agora eu era perda de tempo para eles, desnecessária. Agora o Conselho me pedia explicações do porquê da queda no meu desempenho e eu não sabia como me defender. Não sabia como dizer que eu não tinha mais interesses, motivos e vontades.
Eu sentia meu estômago revirar, estava com muita ânsia, minhas mãos tremiam e eu sentia como se tivessem pedras gigantes dentro dos meus bolsos. Tentei esperar minha respiração normalizar para ir, mas quando percebi que nada iria mudar, liguei o carro e saí mesmo assim.
No meio do caminho, eu vi meu pai. Gritava no banco de trás, mandando-me olhar para frente. Ao seu lado, minha mãe chorava e dizia que sentia minha falta. Quando virei para frente, subitamente, já não estava mais a avenida, apenas um policial covarde levantando a mão para me bater. A bofetada dele doeu pelo meu corpo inteiro.
Então, entre a gravação da melodia de uma música inacabada de %Filipe% e alguma canção do Radiohead, senti minha cabeça pesar abruptamente. Então, eu apaguei.
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— Cameron, cadê você? — gritou Dana, irritada e com razão. — Eu já liguei mais de dez vezes e você não me atendia!
Cameron e Dana decidiram ser parceiros em três projetos: Dois fotográficos e um audiovisual. Os dois primeiros estavam quase prontos, o terceiro, e o mais complicado, seria trabalhado naquela tarde mesmo, mas Cam estava quase uma hora atrasado e ele quase nunca se atrasava. Dana sabia que havia algo errado, mas não pôde evitar sentir raiva. Aquele dia já estava sendo um dia infernal e mal havia começado.
— Eu sei, Dizzy. Mil desculpas, de verdade. Juro que explico tudo quando eu chegar. — Ele parecia mesmo estar chateado, então Dana achou melhor não duvidar.
— O estúdio está fechado, não tem como esperar você aqui! — Olhou em volta, vendo todos pegarem suas bolsas e saírem para o almoço mais cedo, devido a uma manutenção interna.
— Tem como você ir para a minha casa? As fotos estão lá mesmo — sugeriu, quase arrancando seus próprios cabelos, vendo um trânsito infernal se formar na 10ª avenida.
Era quase horário de almoço, era normal o acúmulo de carros naquele horário. Mas após perceber que nenhum carro havia se movido, Cam achou melhor olhar no celular, para tentar entender o porquê de o trânsito estar completamente parado.
Segundo um aplicativo, havia acontecido um acidente de carro no início da 10ª, próximo de onde ele estava. Cameron suspirou e não pensou duas vezes antes de entrar em uma rua alternativa para tentar facilitar sua chegada em casa.
— Mas... — A morena tentou refutar, mas foi interrompida pela voz abatida de Cam.
— Eu já estou no caminho de casa, chego logo! — Cameron largou a mão na buzina quando um carro tentou cortá-lo. Já não bastava a noite terrível que tivera, agora tinha que lidar com babacas que claramente compraram a carteira de motorista.
— Tudo bem! — cedeu, não tinha nada a perder. O dia não estava ruim apenas para Dana, ela notou. Todos estavam lidando com altas doses de estresse naquele dia. Eles só não sabiam que iria piorar. — Como eu vou entrar?
— Tem uma chave reserva debaixo do tapete da entrada — informou.
— Ok, você não tem cachorro? — perguntou Dana, preocupada.
— Não. Quer dizer, eu tenho o %Fil% — respondeu, rindo e fazendo-a rir também, mas ela sabia que %Filipe% estava longe de ser o tipo de cara que pode ser chamado de cachorro. Despediu-se de Cam e fez seu caminho até sua moto.
Já fazia um tempo que Dana vinha tendo a sensação de que %Filipe% %Buchart% estava ocupando um espaço maior que o necessário em seus pensamentos. Desde então, sentia-se incomodada com ele. Exceto, na noite passada.
Ela só estava tomando seu sorvete de chocolate tranquilamente, pensando em como o dia seguinte seria corrido, mas assim que ela o viu saindo sorrateiramente do quarto de %Julie%, não conseguiu não fazer piada. Deveria ser só isso. Eles dariam umas risadas, desejariam boa noite e cada um para o seu canto. Certo? Por educação, ela ofereceu o sorvete. Talvez também por educação, ele aceitou.
Após ficarem uns bons segundos em silêncio, iniciou-se uma conversa cheia de risos, intimidade e até alguns flertes. Era inevitável, %Filipe% era um cara lindo, agradável, engraçado e fazia tempo desde que Dizzy tivera uma conversa tão boa. Aquela conversa baixinha, sobre assuntos meio sérios, mas com algumas piadas. Conversa com compreensão.
Conversa olho no olho. Todos os caras que ela conversava nos últimos tempos pareciam tão superficiais, exceto %Fil%, agora ela sabia.
Geralmente, %Julie% era a única que Dana conseguia entrar nesse tipo de conversa profunda. Quis se estapear quando percebeu que estava dando em cima do cara que tinha acabado de sair de uma provável transa com sua melhor amiga. Em um dado momento, ficaram em silêncio, apenas se encarando ocasionalmente. E a gota de chocolate ali, pendurada no lábio dele. Dizzy não sabe o que deu nela para ter a coragem e audácia de limpá-lo e ainda levar seu dedo a própria boca.
Fora o contato mais íntimo que tivera com o cantor, e ao notar o olhar surpreso dele e a dimensão do que estava fazendo, ficou nervosa. Desviou o olhar, tentou brincar, mas o estrago estava feito.
Ela havia criado um clima.
Deu a desculpa que já estava tarde e quase expulsou o coitado do apartamento. E ele, com toda sua educação e carisma, apenas sorriu em compreensão e deu-lhe um beijo na testa.
Seria tão melhor e mais fácil se ele fosse um babaca.
Precisava acabar com isso, antes que sua impulsividade falasse mais alto. Era bem verdade que desde o aniversário de %Filipe%, Dana vinha olhando para o rapaz com outros olhos. Não sabia bem o que era, mas sempre queria estar perto dele, sempre queria chamar sua atenção. Amava quando o rapaz lhe dava toda a atenção do mundo, como no dia na praia, em que %Filipe% percebeu uma Dana mais quieta e parou de beber e conversar com todos para perguntar o que a afligia.
Dana, talvez, ainda estivesse sentida por toda a discussão com o pai, mas a mão de %Filipe% no ombro dela, acariciando-a enquanto a garota desabafava, fez uma diferença e causou uma mudança de sentimentos inesperada nela.
Quando chegou até a casa de Cam, Tomanzio estava decidida a ignorar qualquer pseudo sentimento que ela poderia estar tendo por %Filipe%. E seria até fácil, se o mesmo não estivesse deitado no sofá de Cameron, assistindo TV. Sem camisa. Rindo do Bob Esponja.
Ela pigarreou. Não para chamar atenção dele, mas porque sua garganta tinha ficado completamente seca naquele segundo. Ele a olhou, assustado por uns segundos, mas depois abriu um sorriso, aquele sorriso.
— Oi, Dizzy. — Sentou-se no sofá e diminuiu o volume da TV, olhando-a. — O que você está fazendo aqui?
— Eu vim... Trabalho. Cam. — Ele soltou uma risadinha e ela se sentiu estúpida por ter engasgado. Dana nunca se engasgava, não gaguejava, não se sentia envergonhada. Ela odiou sentir isso, olhar para alguém e se sentir nervosa não era algo que ela queria. Devia ser o contrário. Era como sempre acontecia, afinal. — Ele não me disse que você estava aqui.
— Ele provavelmente acha que eu já não estou mais aqui. — Ela se aproximou e se sentou no sofá, mesmo que seu inconsciente estivesse dizendo para não fazer isso.
— Ou ele disse e eu não entendi. — Riu, lembrando de Cam falando sobre cachorros e citando %Filipe%. — Está fazendo o quê? Espera, eu sei o que você está fazendo... Você entendeu. — Dana enrolou-se com suas próprias palavras, acabou ficando ainda mais envergonhada. Jogou a bolsa do seu lado e aproximou-se ainda mais de %Filipe%. Sua consciência parecia gritar "saia daí agora".
Dana ignorou sua consciência.
— Cam tem pacote de canais infantis e eu não. Logo, aqui estou. — Apontou para a TV, onde ainda passava Bob Esponja. Dana achou fofo que ele parecia meio envergonhado. Ela só não sabia se era por causa do Bob Esponja ou por causa dela. Esperava que fosse por causa dela. Deu uma olhada rápida para a TV, mas ela não estava interessada na ganância de Seu Sirigueijo.
Ela tinha a própria ganância para lidar agora.
— Tudo bem? Como foi no trabalho hoje? — perguntou, diminuindo o volume da TV e voltando toda a sua atenção a ela.
Dana ouviu %Filipe% fazer a mesma pergunta para %Julie% alguns dias atrás e até ousou pensar que ele poderia vê-la do mesmo jeito que via %Julie%. Sua mente dizia que aquilo não era nada demais, que %Filipe% era apenas educado, mas o seu coração...
Não conseguiu evitar colocar-se no lugar de %Julie% por alguns segundos, sua mente trabalhou rápido demais.
E se fosse ela quem beijasse %Filipe% naquela noite no Carté? Ele a levaria para jantar na beira do rio? Ficaria acariciando sua perna e colocaria o braço em seus ombros por puro costume?
Será que a relação de %Filipe% e %Julie% era real? Será que eles realmente se gostavam ou só gostavam de curtir um com o outro? Era uma das maiores curiosidades de Dana. Ela via os raros beijos que os dois compartilhavam quando não estavam entre amigos, eram leves e dóceis. Via o carinho que %Fil% sentia por %Julie%, via o cuidado que ele tinha com ela. Mas e quando estavam?
Quem eram %Julieta% Young e %Filipe% %Buchart% quando estavam sozinhos?
%Filipe%, sempre tão atencioso, devia escutar com prazer cada palavra que %Julie% falava. Ou então, %Filipe%, sempre tão carinhoso, também poderia ser o motivo de estarem sempre no quarto. Pedindo perdão pelo termo, senhoras e senhores, mas a curiosidade é foda. O problema é ainda maior quando a curiosidade e o desejo estão de mãos dadas.
Dizzy entrou em um grande conflito interno. A última vez que tinha ficado tão confusa foi com Mitch, o fotógrafo, seu último relacionamento sério. Razão e coração brigavam insistentemente.
O rapaz nunca tinha expressado segundas intenções com ela. Sempre fora respeitoso e gentil, talvez por isso ela estivesse confundindo as coisas. Ponto para a razão.
Mas ele a olhava de uma forma diferente. Toda mulher sente quando um homem a olha diferente. Ponto para o coração.
Ele tinha um relacionamento com a melhor amiga dela. Ponto para a razão.
Ele estava especialmente mais bonito naquele dia. Ponto para o coração. Ele correspondia seus olhares prolongados. Ponto para o coração.
— Me desculpa. — As palavras saíram da boca de Dana em um sopro.
Era isso. 3x2. Se a luta continuasse, a razão tinha mais chances de ganhar e Dana sabia disso. Então, decidiu parar com a luta enquanto seu time, (o coração), estava ganhando.
— Ok... pelo que, exatamente? — questionou, franzindo a testa.
— Pelo que vou fazer agora.
E então, com toda a impulsividade e atitude que só uma ariana pode ter, o beijou. Bom... Tentou. Encostou os lábios nos dele, apressada, mas sentiu o corpo dele se retrair e ela se afastou.
A consciência gritava, o coração batia desenfreado. Os olhos confusos de %Filipe% encontraram os olhos castanhos de Dana. Os olhos dele mudaram de direção e passou muito tempo olhando para os lábios dela e ela já estava enlouquecendo com as possibilidades. Ele a olhava muito.
O que ela devia fazer? Beijava ele de novo? Deixava-o tomar alguma iniciativa? Pegava suas coisas e saia dali o mais rápido possível?
— Dana... — ele iniciou, mas logo foi interrompido.
— Eu pedi desculpas! — justificou-se antes de ouvir qualquer reclamação. — A gente pode ignorar o que aconteceu, se você quiser. Ou... sei lá, tentar de novo... se você quiser.
Já nem tinha mais consciência do que estava falando. Tudo que vinha em sua mente, logo era despejado por sua boca. Ele gaguejou, também não parecia estar pensando muito bem, não conseguia parar de olhar para os lábios dela. Ela não sabia se ele estava hipnotizado com seus lábios ou estava indignado demais para se mexer. Ainda estavam tão próximos, por que não tentar de novo?
Então, Dana, com toda sua confiança e atitude, tentou de novo.
Encostou os lábios nos dele de novo. Dessa vez, foi mais suave e durou três segundos. Foi o quanto custou a dignidade de Dana. Pouco para sentir mais dos lábios macios de %Buchart%, mas o suficiente para bagunçar ainda mais a cabeça da garota. Também foi o suficiente para despertá-lo.
— Dizzy, espera... — A afastou gentilmente pelo ombro, completamente sem jeito. Suspeitava que seu rosto estava prestes a explodir devido à grande quantidade de sangue que estava concentrado lá.
— Ah, meu Deus! O que eu fiz? — A consciência decidiu sair para brincar, deixando-a imediata e irrevogavelmente envergonhada por suas atitudes.
— Calma — enunciou, porém, ele mesmo não parecia nem um pouco calmo. As bochechas estavam extremamente coradas e ele mexia incessantemente no próprio cabelo.
— Você deve estar achando que eu sou maluca. Deve achar que eu sou uma vadia, traidora, você...
— Dana, para! — ele a interrompeu, falando forte, quase como se estivesse ficando irritado. — O que foi isso? Por quê?
— E-eu... Eu não sei. Desculpa! — Ela sabia, mas desde que ele não a beijou de volta, achou melhor não compartilhar seus pensamentos. Não estava nem um pouco acostumada a lidar com rejeições.
— Eu estou com a %Julie%. — %Filipe% não parecia muito certo do que estava falando, talvez nem ele soubesse o próprio status de relacionamento.
— Eu sei disso — choramingou Dana, jogando todo o cabelo para trás, nervosa.
— Eu acho melhor a gente...
— Esquecer que isso aconteceu? — Ele apenas assentiu, mas como Dana poderia concordar com essa opção se ele não parava de olhar para os lábios dela.
Dana achava que estava confusa, até ver que confusão mesmo era o que se passava nos olhos dele, pois ela sabia muito bem o que queria. Ele desviou o olhar, levou as mãos até o cabelo e o bagunçou. Dana se perguntou quantas vezes %Julie% já tinha bagunçado aquele cabelo, se perguntou se ele já tinha recusado algum beijo dela.
— %Fil%, me desculpe de verdade. Se você quiser, eu posso falar com a %Julie% e dizer que eu fiz merda — sugeriu, sentindo a adrenalina ir embora, dando lugar a mais pura vergonha. — "Posso", não. Eu vou falar com ela!
Beijou o namorado (?) da sua melhor amiga. E ela nem tinha certeza dos sentimentos de %Julie%, não sabia se ela quebraria sua cara ou simplesmente não ligaria. %Julieta% quase nunca demonstrava o que sentia e podia ser bem imprevisível quando queria. Mas ela sabia que isso não era desculpa para nada.
Tinha errado, e feio! Sentia que tinha traído todos os seus amigos no momento que tinha dado a vitória ao seu inconsequente coração.
— Dizzy, eu... preciso saber o porquê! — expressou, ainda nervoso com tudo o que havia acabado de acontecer.
— Isso é importante? — perguntou. Ela sentiu o seu coração, abatido pela luta, acordar.
— Talvez... — Deu de ombros, desviando o olhar e apoiando o cotovelo nos joelhos.
O silêncio instalou-se na sala. Cada um com seus pensamentos e dúvidas. Dana não sabia como explicar algo que nem ela entendia e %Filipe% não entendia porque ele precisava entender alguma coisa. Ela sentia que seus corpos chamavam um pelo outro, mas toda a moralidade e circunstâncias não deixava que eles se aproximassem.
Dana só queria que %Fil% a beijasse do jeito que beijava %Julie%. Queria que ele saísse do seu quarto no meio da madrugada. Queria dormir na casa dele, queria ter aquela maldita troca de olhares que ele tinha com %Julie%.
— Eu preciso ir. Não quero atrapalhar seu trabalho com Cam. — Ele nem deu tempo a ela de se manifestar. Saiu em disparada, subindo as escadas. Ela jogou-se no sofá, sem ligar para a postura. Esfregando o rosto com as mãos, pouco se importando de manchar a maquiagem.
"O que eu tô fazendo?" murmurou para si mesma. Ficou alguns minutos refletindo sobre o que tinha acabado de acontecer. Tudo aconteceu rápido, parecia um borrão em sua mente e se perguntou se %Filipe% estava fazendo o mesmo, já que ele ainda não tinha descido.
Antes que pudesse entrar em pânico, a voz urgente de Cam pedindo desculpas tirou-a de suas análises e cismas contraditórias, fazendo-a perceber o rapaz entrando afobado pela porta da frente.
— Sem problemas. O que aconteceu? — perguntou, abatida, sem realmente querer saber a resposta.
Só queria fazer seu trabalho e sair daquela casa. Queria se trancar em seu quarto e repassar cada detalhe do que tinha acontecido ali. Não queria esquecer o breve gosto dos lábios de %Filipe% %Buchart%, mas queria esquecer para sempre a rejeição dele.
— O estúdio da HN pegou fogo — contou, jogando sua mochila no sofá e dando-lhe um abraço rápido.
— O quê? Você estava lá? — perguntou, preocupada e surpresa, já que não vira nenhuma notícia sobre isso.
— Não! Não tinha ninguém, mas tinha coisas minhas lá. Aí eu tive que ir fazer milhões de backup, estava cheio de bombeiros, foi uma confusão. — Cam jogou-se no sofá, apoiando a cabeça no encosto do objeto. — Para piorar, o trânsito estava caótico!
— Caramba! Ninguém se machucou? — questionou, pensando em alguns amigos que também trabalhavam no estúdio.
— Eu acho que não, foi no último andar. Ei, %Fil% ainda está aqui? — perguntou, apontando para a TV.
Dana sorriu ao ver o Bob Esponja ainda na tela. Nunca mais conseguiria ver o desenho sem lembrar de %Filipe%.
— Já estou de saída — anunciou %Filipe%, descendo as escadas. Dana tentou ler sua expressão para saber se ele estava com raiva ou qualquer outra coisa, mas era pura neutralidade.
— Espera, eu preciso contar uma coisa — avisou Cam, mas não parecia feliz. — Eu e Nicole terminamos. Quer dizer, ela terminou comigo.
— Terminou? — indagou %Filipe%, surpreso. — A garota que quase te pediu em casamento uns meses atrás?
— Acho que ela está com outra pessoa — revelou Cam, suspirando.
— Por que você acha isso? — perguntou Dana.
Estava mesmo tentando prestar atenção na recente decepção amorosa do amigo, mas seus olhos a traiam e sempre procuravam por %Buchart%. Queria flagrá-lo olhando para ela, mas o olhar dele não abandonou o rosto de Cameron desde o início da conversa.
— Intuição. — Deu de ombros. Cam era extremamente observador e perspicaz, não foi difícil perceber quando a namorada começou a se distanciar dele e aproximar-se demais do celular. Das mensagens no Instagram, para ser mais exato. — E é ridículo, sabe? Se ela estava curtindo outra pessoa, por que não me falou logo?
Foi como se Cameron estivesse dando um soco em %Filipe% e Dana. As situações não eram similares, mas a escolha de palavra do rapaz deixou os dois amigos cobertos de vergonha e receio.
— Talvez não seja isso, talvez ela só não quisesse mais namorar. Ou só está confusa demais... — Dana tentou amenizar a raiva aparente de Cam. Queria fazê-lo entender que as coisas nem sempre saem como o planejado. — São anos de namoro, Cam. As coisas não podem acabar assim.
— A gente conversava sobre tudo, nunca tivemos reservas. Se ela fosse honesta, eu não ficaria com raiva. Pelo contrário, ficaria até mais satisfeito — explicou, sentindo toda a mágoa e chateação de volta. Quando Nicky pediu para conversar na noite passada, não foi difícil de descobrir o que viria a seguir. — Significa que tudo o que vivemos tinha validade, sabe?
— Talvez ela não soubesse, Cam. As pessoas têm o direito de ficarem confusas, oras. — Dana tentou de novo, o rosto retorcido em uma careta.
O momento estava irônico demais e Dana já estava sentindo seu corpo tremer de nervoso. Esperou que %Filipe% comentasse algo para acalentar Cam, mas ele não falou nada.
Apenas olhava o amigo com pesar e balançava a cabeça negativamente. A morena percebeu que %Filipe% queria falar algo sobre, mas não na frente dela. Talvez quisesse falar em particular com o amigo ou estava recriminando-a por tentar apaziguar as coisas.
— Eu não sei, ainda não tive tempo de analisar nada, nem sofrer. Eu nem sei se estou triste ou com raiva. Hoje o meu dia está uma bagunça! Eu preciso da %Julie%, daquele saco de areia que ela tem e vodca, muita vodca. — A menção do nome de %Julie% estremeceu %Filipe% e Dana. E ambos pensaram o mesmo.
Precisavam de %Julieta%.
Ficaram conversando por alguns minutos na sala. Dana incomodada, %Filipe% parecendo não ligar para nada que não fosse a história de Cameron e o mesmo falava pelos cotovelos.
Até que o barulho estridente do celular de Dana os interrompeu. Procurou o celular na bolsa rapidamente e franziu a testa ao ver o nome e a foto de %Julie%. Ela não costumava ligar, muito menos naquele horário. Mostrou a tela do celular para ambos, quase envergonhada. %Filipe% sentiu seu peito apertar e sorriu levemente quando viu a foto de %Julie% na tela. A foto parecia antiga, já que o cabelo dela não estava tão longo e escuro assim.
— Oi, Cam falou de você ainda agora mesmo, acredita?
Atendeu a ligação sorrindo, mas sentiu o mundo parar quando ouviu a voz de uma pessoa estranha perguntar se aquela era Dana Tomanzio, o contato de emergência de %Julieta% Young.
— Sim, sou eu. — A voz de Dana quase não saiu e ela repetiu para ter certeza de que a voz do outro lado da linha tinha entendido.
A feição séria e a fala da morena fizeram %Filipe% e Cameron atentarem-se a conversar imediatamente. As palavras que vieram a seguir fraquejaram as pernas de Dana, que instantânea e irracionalmente, agarrou o braço de Cam, precisando apoiar-se em algo, mesmo que estivesse sentada. Ouvia os dois amigos perguntarem o que tinha acontecido, parecendo tão preocupados quanto, mas agora ela já era outra pessoa. Já não era mais Dana cheia de malícia e vontades proibidas, agora ela era pura preocupação, arrependimento e apreensão.
— Eu vou, e-estou indo agora. Ela está bem, não está? — perguntou Dana.
As lembranças do dia em que vira a amiga apanhando de um policial inundaram sua mente. Nunca esquecera da cena e nem como se sentira ao vê-la sendo agredida. Não suportava ver sua amiga machucada, era pequena demais para lidar com toda a agressividade que o mundo a tratava.
A pergunta de Dana deixou Cam e %Filipe% em alerta, entreolharam-se, sabendo que nada de bom viria daquela ligação. A voz quase robótica, que Dana acreditou ser de algum socorrista, apenas pediu para ela dirigir-se até o Hospital Geral e desligou.
— O que aconteceu? — perguntou Cam, apressado, mas não obteve resposta.
Dana estava concentrada em se manter calma. Não podia enlouquecer, não agora em que tinha que lidar com essa situação que mais parecia ter saído de uma telenovela mexicana. Beijou o namorado da melhor amiga e parece que o universo sabia exatamente como puni-la.
— Dana! O que aconteceu? Foi alguma coisa com a %Julie%? — perguntou %Filipe%, falando mais alto para tirar Dana do seu transe.
— Era de um hospital, eu acho — tentou responder, mas sentia-se atarantada. — Parece que %Julie% sofreu um acidente de carro e eu preciso ir ao Hospital Geral.
— Puta merda! Vamos para lá agora! Ela está bem? Acordada? — Cameron puxava seus cabelos castanhos para trás, não acreditando que aquilo estava acontecendo.
Sua mente trabalhou rapidamente, juntando todas as informações, só conseguia pensar na probabilidade do acidente que ele tinha amaldiçoado naquele dia ter sido com %Julie%. Dana fora bombardeada com perguntas, as mesmas que ela se fazia, enquanto procurava as chaves da moto em sua bolsa.
O chão debaixo de %Filipe% parecia se mover e as paredes pareciam mais próximas, mas ele não se descontrolou. Simplesmente puxou as chaves do carro da mão de Cam e saiu da casa, deixando todos para trás.
— Espera... Eles não me falaram se ela está bem, será que...? Eles falariam, não é? Se algo pior... — Dana não conseguia completar a frase, não conseguia se mover.
Sabia que até alguns minutos atrás estava sendo uma filha da puta egoísta, mas a ideia de %Julie% machucada a deixou sem chão, sentia que ia desmaiar a qualquer momento.
— Dizzy, olha para mim! Não dá para surtar agora. — %Filipe%, que já estava quase no carro de Cam, voltou até a porta e segurou o rosto de Dana entre suas mãos, olhando nos olhos marejados dela. — Ela está bem. Tem que estar!
— Tem que estar! — Cameron aproximou-se, puxando Dizzy pela mão e guiando a garota até o carro. Dana assentiu, sentindo seu rosto ainda queimar com o toque de %Filipe%, mas seu interior explodir de preocupação.
Nunca sentiu tanta vergonha e raiva de si mesma. E a certeza que não devia ter saído da cama naquele dia. Dana não era egoísta, não era má. Estava apenas confusa. Nunca faria mal á %Julie% conscientemente. Amava a garota.
Dana costumava dizer que tinha problemas com seus progenitores, não com sua família. Porque %Julieta% era sua família. Ela era tudo o que importava para ela. Tudo o que aprendeu e a maioria de suas qualidades foram exaltadas e descobertas pela amiga. Ela nunca confiou em si mesma, achava-se a pessoa mais desnecessária do mundo, até conhecer %Julie%.
Só de pensar que podia magoá-la por conta de um ato impulsivo, causava-lhe uma dor quase física.
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Sabe quando você tem um sonho tão real, que fica em dúvida do que realmente aconteceu quando acorda? Achava que nada que eu tinha visto acontecer tinha realmente acontecido, até eu ter ciência de que estava em um hospital. Aí comecei a questionar severamente minha sanidade e tudo que realmente tinha acontecido.
Pisquei várias vezes até sentir minha visão clarear. Era terrível acordar desorientada e em um lugar desconhecido. Sentia muita sede e agonia na minha mão direita. Procurei pela fonte da pulsação e ardência no meu membro e franzi o cenho ao encontrar minha mão completamente enfaixada e imobilizada.
Olhei em volta de mim mesma. O branco intenso das paredes, os aparelhos de monitorização, os leitos vazios ao meu lado e todo aquele clima hospitalar deixou-me apreensiva e logo minha visão começou a falhar novamente. Dessa vez, porém, eu sentia que eram apenas lágrimas. O cheiro de éter me dava vontade de espirrar, mas fazer isso parecia tão dolorido.
Eu só rezava para que não fosse um hospital psiquiátrico, porque sair de um era, no mínimo, difícil. Fiquei encarando o teto, sem estar realmente pensando em algo. Minha mente era um emaranhado de confusão e se eu tentasse entender algo, provavelmente enlouqueceria.
— %Julieta%? — Uma mulher de voz aveludada chamou-me suavemente. Atravessou o quarto até chegar ao lado da minha maca. Ela vestia um jaleco e estava com uma prancheta em mãos. Um homem de cabelos enrolados seguia atrás da mulher, entretanto, suas vestimentas eram diferentes. Supus que ele era enfermeiro e ela devia ser médica. Eu não havia notado a presença deles até aquele momento. — Oi! Como você está se sentindo?
— Não c-onsig... — Tentei falar, mas a minha garganta seca não me possibilitou.
— Vou pegar um pouco de água para você. — O homem se prontificou.
— %Julieta%, você está no Hospital Geral. Sofreu um acidente de carro, lembra disso? — Assenti. Não lembrava, mas quando ela explicou, pareceu fazer sentido. — Você está na UTI, mas ia ser transferida para um quarto na enfermaria nesse exato momento.
Tentei organizar minhas ideias enquanto o enfermeiro me dava água. Fora extremamente cuidadoso comigo, usou um canudinho e limpou minha boca quando eu perdi o controle e acabei me molhando.
— Obrigado, você é gentil — agradeci, forçando minha garganta.
— Ele é mesmo — comentou s mulher, de cabeça baixa — mas ainda era possível ver um leve sorriso — anotando algo na prancheta. Quando notou o silêncio, ela levantou a cabeça, nos olhando. Eu e o enfermeiro ostentávamos sorrisos tortos por conta da sua sinceridade impulsiva. As bochechas dela adquiriram um tom rosado e ela pigarrou com força. — Pode ir levando-a para o quarto, eu termino as coisas por aqui.
Distanciou-se, parecendo envergonhada. Olhei para o homem ao meu lado, que ainda a olhava, não sorria, mas eu podia jurar que seus olhos estavam brilhando. Elas realmente estão em todos os lugares, as histórias de amor.
— Ela gosta de você — murmurei, rouca.
— Você acha? — Olhou para mim, esperançoso. Ergui uma sobrancelha, achando uma graça sua insegurança. Me lembrava %Filipe%. Pareceu ficar envergonhado e começou a mexer na maca e nos fios presos em mim. — Q-quer dizer, isso não é...
— Vocês ainda vão ficar juntos, relaxa — comentei. Começou a mover a maca pela porta a fora e eu fui ficando subitamente atordoada e agoniada com os pontos doloridos no meu corpo.
— Como sabe? Você é um tipo de guru? — brincou, dobrando em um corredor.
No corredor havia uma parede de vidro, onde era possível que eu visse o outro lado da recepção. Vi Cameron, de pé, falava no celular, parecendo frustrado. Seus olhos perceberam os meus e ele me olhou, sorrindo abertamente. Tentei sorrir de volta, mas meu rosto doeu demais e eu me perguntei como minha face estava.
Olhei para o pequeno sofá ao lado da porta de um quarto onde Dana e %Filipe% estavam sentados. Ele estava com um braço em volta dela e ela estava com a cabeça baixa, apoiada na mão. Conversavam baixinho e pareciam amuados e próximos demais.
— Não.... — Sentindo todo aquele desgosto de volta ao ver %Filipe% e Dana juntos, expirei fortemente. — Tenho experiência no assunto.
Cam exclamou algo que fez Dana e %Fil% finalmente saírem de seu mundinho e perceberem que eu estava passando por ali.
Acompanharam o meu caminho pelo outro lado do vidro, até chegarmos todos juntos em um pequeno quarto.
— Quase nos matou de preocupação! — Cameron foi o primeiro a se pronunciar. O enfermeiro terminou de me arrumar no leito, conectando acessos em mim e passando algumas informações.
— %Julie%! — Dana correu para o meu lado, segurando minha mão não enfaixada, parecendo muito aflita. %Filipe% também veio para o meu lado e beijou minha bochecha demoradamente.
Fechei os olhos, lembrando da noite passada, isso fez com que eu me sentisse sozinha, que me lembrou o quanto eu me senti sozinha no jornal, que me lembrou que eu havia perdido a reunião com o Conselho, que me lembrou todas as coisas erradas que eu tinha feito.
Logo, eles começaram a perguntar várias coisas que eu não soube responder. Eu não lembrava de muita coisa depois de ter saído de casa, porém, as lembranças de meus pais e do policial ainda eram reais e vivas demais em minha memória. Se eu não tivesse tanta certeza de que estava sozinha naquele carro, provavelmente estaria com medo de estar perdendo minha sanidade.
Antes que eu abrisse a boca para responder algo, a médica entrou no quarto e se dirigiu até mim. Enquanto ela tentava chegar até mim, acabou esbarrando no enfermeiro — cujo nome eu ainda não sabia — e eles se entreolharam, sorrindo, tímidos. Sorri de lado ao notar a situação em minha frente.
— Boa noite! — Ela cumprimentou as outras pessoas no quarto. Noite!? Há quanto tempo eu estava nesse hospital?
— Se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, você pede para me chamarem, ok, senhorita Young? Meu nome é Ed — enunciou o enfermeiro, sorrindo para mim. Ele realmente era um amor. Agradeci, trocamos uma piscadela quando ele passou pela médica e ela sorriu abertamente para ele.
— Desculpem por não ter vindo antes — ela se desculpou, verificando meu soro e anotando algo em sua prancheta.
— Pode nos explicar o que aconteceu? Ninguém nos disse nada desde a tarde — reclamou Dana por alto, aflita, sem se direcionar apenas a uma pessoa. — A última informação que tive foi o horário da cirurgia.
— Eu também ainda não sei o que aconteceu — admiti. Minha voz ainda rouca mostrou o quanto eu precisava de água.
Cirurgia?! Que grande merda eu havia me metido!
— Você bateu em um poste na décima avenida. O airbag do carro protegeu você de lesões maiores, porém, causou os hematomas e a dor que você provavelmente está sentindo no seu tronco. — Ela virou-se para mim, explicando tudo. — Foi preciso fazer uma pequena cirurgia na sua mão direita, como você já deve ter percebido. Você torceu a mão e houve fraturas expostas nos seus dedos mindinho, anelar e o do meio. Você provavelmente vai ter que passar por algumas sessões de fisioterapia para recuperar 100% a mobilidade. Os ferimentos do seu rosto vão sumir logo e pode ser que você sinta dor no pescoço, mas apenas por conta do impacto.
Assenti de leve. Tentei lidar com as várias informações que o médico me passava, mas eu só conseguia pensar se o meu seguro cobria a cirurgia que foi feita. Minhas preocupações financeiras ficaram para trás quando a médica chamou minha atenção de novo.
— Agora... %Julieta%, preciso que você seja sincera comigo, tudo bem? Eu estou aqui para lhe ajudar. — Rolei os olhos, já sabendo o que a mulher loira iria falar. A minha vontade era expulsar todos do quarto. Não queria que ninguém soubesse de nada, mas sabia que ia ser inútil. — Nosso procedimento padrão é fazer alguns testes toxicológicos e você não tinha álcool no seu sangue, em compensação, sua taxa de Metilfenidato está altíssima. Você toma algum remédio ou usa algum tipo de droga?
— Voltei a usar remédios nos últimos dias. Não entendo muito bem o que eles têm a ver com isso. Eu tomava antes normalmente. — Senti todos me encarando. Alguns curiosos, outros me encaravam ferozmente. Algo me diz que esse alguém era Dana.
Se antes eu não queria que a médica falasse na frente de todos, agora eu preferia que ela nunca saísse do quarto. Poucas coisas deixavam Dizzy tão enraivecida e indignada quanto esconder coisas dela.
— Às vezes acontece de o remédio simplesmente não servir mais para você. Isso pode ter sido a causa da sua perda da direção, você talvez tenha desmaiado. Você lembra de alguma coisa? — Explicou pacientemente, olhando-me com aqueles olhos piedosos, como se eu fosse uma viciada. Neguei com a cabeça. — Algo como... Alucinações? — questionou novamente e eu apenas confirmei com a cabeça, não querendo dar muitos detalhes.
Pela visão periférica, pude ver as feições de meus amigos. Cam e %Fil% pareciam surpresos e preocupados. E Dana estava furiosa! Estava de braços cruzados, coma feição dura e respirava profundamente.
— Você vai ter que passar a noite aqui, se desintoxicando mais um pouquinho, tudo bem? — avisou e eu assenti. Mais uma vez, me questionei sobre meu seguro e como aquilo tudo estava sendo pago. — Não quero que você se preocupe, mas a polícia está aí querendo esclarecer algumas coisas com você e um agente de trânsito para saber do carro.
— Eu posso cuidar do carro para você — Cam se ofereceu e eu agradeci. Nem sabia o que teria que fazer, só estava bem pensando em como meu carro estava e como eu iria pagar por tudo aquilo.
— E um psicólogo vem falar com você também, espero que você entenda que isso é importante — exprimiu a médica, lançando-me aquele olhar.
O olhar que as pessoas te dão quando acham que você é doente, o olhar de pena que eles te dão quando acham que você perdeu o controle de si mesmo. O olhar que eu esperava não encontrar em %Filipe% e Cameron.
O olhar que eu tinha certeza de que não era o de Dizzy.
A médica logo se retirou após passar algumas informações para Dana, minha acompanhante oficial. Cam foi logo atrás, escutando as instruções da médica jovem demais, que aparentava não passar dos 40 anos.
Quase agarrei no jaleco da loira e nos braços de Cam para impedi-los de sair. As chances de Dizzy me matar eram menores com eles estando no mesmo recinto.
— Por que não me disse que tinha voltado a tomar remédio, %Julieta%? — perguntou Dana, com a expressão dura e braços cruzados.
— Não era nada demais, eu só precisava dormir um pouco. Quando eu tomava antes, ajudava a me manter calma. Foi idiotice não checar a dosagem, eu não sabia que me faria mal... — Tentei explicar.
— Meu quarto é ao lado do seu, literalmente! Custava ter ido me falar que estava com problemas? — Ela interrompeu-me.
— Não estou com problemas — menti, não queria piorar as coisas contando que eu já tinha passado por crises. — Foram só uns dias...
— Aquela porra é quase anfetamina, %Julieta%! Você quase enlouqueceu da última vez que teve que tomar isso. Não é possível que você não lembre o quão estragada você ficava com essa merda. Como você pôde ser tão ingênua? Você poderia ter se matado! Você... Não é possível que você não tenha pensado nisso! — Dana falava alto, gesticulando exageradamente, coisa que ela fazia quando ficava muito irritada.
— Não pensei! — Fui sincera. Eu realmente não achei que tudo aquilo aconteceria.
— Você foi egoísta! — O grito de Dana assustou a mim e %Filipe%. Eu sabia que ela estava assustada, mas a reação dela fora mais alterada do que eu pensei que seria e do que era necessário. — Você sempre faz coisas assim, eu...
— Dana! Você precisa se acalmar. — %Filipe% interrompeu Dizzy. Deve ter percebido meus olhos se encherem de lágrimas e que Dana estava começando a ficar fora de si. — Por que você não vai pegar um pouco de água? — sugeriu, tentando manter a calma. Ela foi em direção a porta do quarto, quase bufando, mas eu sabia que ela só iria chorar.
— Eu só precisava estudar, que droga! — reclamei, sentindo minha boca e garganta secas. Dana olhou-me com a expressão dura e saiu do quarto, batendo a porta do quarto com força. Olhei para %Fil%, que me olhava com a expressão suave.
— Vai brigar também? Porque se for, acho melhor deixar para depois. — Negou com a cabeça e eu desviei o olhar, virando para o outro lado assim que senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
— Tem muita coisa que você vai ter que me contar, mas não agora. — Limpou as lágrimas do meu rosto e se sentou ao meu lado. — Eu sabia que você não estava bem ontem.
— Que horas você precisa ir? — perguntei sobre a viagem dele para Austin, ignorando sua última frase.
— Para onde?
— Austin. Achei que era hoje... — Recordei-me da conversa do dia anterior.
— Era, três horas atrás! — contou, como se não fosse algo importante.
— Você precisa ir, então? — Franzi o cenho, confusa.
— Não, vou ficar aqui com você — falou em um tom óbvio. Por favor, que ele não tenha feito o que eu acho que fez! — Cancelei o show, não ia sair daqui enquanto você não acordasse.
— Você é maluco! — exclamei, desacreditada que ele tenha feito algo assim por minha causa. — Eu já acordei, você já pode ir agora!
Cancelar uma viagem, um trabalho, um show só por minha causa? Se o tal do Tom não gostava muito de mim antes, agora ele me odiaria! Parecia insano para mim ele ter feito aquilo. %Filipe% estava no início de sua carreira, ele não podia simplesmente cancelar shows assim.
— Agora não tem mais por que, %Julieta%. Eu só ia fazer um show lá e voltar! — retrucou, sorrindo ao ver meu rosto confuso e indignado.
— E por que você não foi fazer o show e voltou? Eu ainda estaria aqui. — Ainda estava com um pouco de dificuldade para falar, sentia meu rosto tão inchado que mal conseguia abrir a boca.
— %Julieta%, nada pode ser feito agora. Esquece isso, vai... — Deu de ombros. Circulou o inchaço em volta do meu olho esquerdo com o dedo indicador. — Parece que você tem um olho roxo!
— Tenho? — Tentei tocar, mas minhas mãos estavam impossibilitadas pelo gesso e pelo acesso venoso em minha outra mão.
— Sim. Está doendo? — perguntou enquanto passeava com o dedo indicador pelas minhas maçãs do rosto.
— Você não faz ideia do quanto. — Fechei os olhos, aproveitando a paz que as mãos de %Filipe% se infiltrando entre meus cabelos causavam. Eu ainda estava com muito sono e minha mão incomodava muito, mas a presença dele ali parecia o suficiente para me fazer esquecer um pouco de tudo. Focar em seus olhos era mais cômodo e imediato do que apenas sentir a dor. — Obrigado por estar aqui.
— Eu nunca fiquei tão preocupado em toda a minha vida. Quer dizer, uma vez minha irmã caiu e quebrou o braço, mas nem se compara a hoje — confidenciou, falando baixo e aproximando-se mais de mim. — Senti que podia começar a chorar a qualquer momento.
— Ei, eu estou bem. — Sorri de leve. Tirei a mão dele dos meus cabelos e coloquei minha palma sobre a dele.
— Agora eu sei que está, mas teve um momento em que nós não tivemos notícias suas por quase uma hora. Foi assustador, eles só falavam "Ela está bem, já voltamos com mais notícias". — %Filipe% não olhava em meu rosto, apenas brincava com minhas unhas. Parecia quase tímido ao falar. Sua voz vulnerável me deixou com vontade de chorar. — Você precisa me prometer que nunca mais vai me assustar assim.
Não respondi, pois eu não podia prometer nada.
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Dormi por três horas, que pareceram apenas 15 minutos. Meu quarto foi tomado por policiais, querendo falar sobre o acidente quando eu nem tinha aberto os olhos. Também tive que passar uma hora tentando convencer o psicólogo que eu não era maluca, nem tinha tendências suicidas, só era uma garota meio idiota, que ficava ansiosa e triste frequentemente e achou que tinha o corpo blindado contra drogas lícitas.
Os policiais logo me deixaram em paz, entenderam toda a situação e me desejaram melhoras, mas o psicólogo não ficou muito convencido que eu estava em pleno uso de minhas faculdades mentais e exigiu que eu retornasse a minhas consultas, alegando que eu não conseguiria voltar a viver normalmente sem acompanhamento.
Eu concordei plenamente com essa parte, então a ameaça do profissional dizendo que contataria a assistência social se eu não seguisse suas ordens foram desnecessárias.
Cameron foi quem cuidou do meu carro e toda a papelada do seguro. Ele contou que já tinha batido o carro várias vezes e sabia como lidar com essas coisas. Meu carro estava com a frente destruída e eu já estava lidando e aceitando a ideia de começar a andar de ônibus.
Jack, que estava fora da cidade, não descansou enquanto não me viu (viva) por meio de uma chamada de vídeo. Dana não falou comigo pelo resto da noite, mas também não saiu do meu lado.
Os três acabaram dormindo no mesmo quarto que eu. Não sei como isso foi possível, já que eu tinha quase certeza que a política do hospital não permitia. Eu insisti para que todos fossem para casa, mas fui completamente ignorada. Dana dormiu no sofá, Cam e %Fil% dormiram no chão. %Filipe% jogou todo seu charme para cima da enfermeira para conseguir mais de um lençol. Para falar a verdade, ele passou mais tempo sentado ao meu lado do que dormindo.
Eu não estava nem ligando para a agulha enfiada no meu braço, do medicamento que passava nela que doía feito o inferno, não ligava se ia ser expulsa do hospital por causa dos três idiotas jogados no chão, se minha mão ia voltar a funcionar ou não. Agora só uma frase, dita por Cam, rodeava em minha cabeça:
"O cara do seguro disse que o carro está no nome do seu pai, ele já foi contatado".
Eu não dava nem dois dias para o meus pais chegarem na cidade, desesperados, achando que eu já estava falecida.
Eu não fazia ideia do que dizer para eles, nem se ia contar sobre os remédios. Minha mãe sempre foi muito preocupada com minha saúde mental, ela ia me fazer voltar a frequentar o psiquiatra, ia me levar a igreja e era capaz até de se mudar para morar comigo.
O segundo dia foi pior do que o primeiro. Eu estava ainda mais inchada, meu olho esquerdo estava quase fechado de tão inchado, parecia que todos os meus dedos tinham sido arrancados da minha mão e eu estava irritada demais por estar dependendo de Dana, %Filipe% e Cameron para tudo. Eles até criaram um sistema. Dana me ajudava no banho, %Fil% me vestia e Cam me ajudava a comer, já que eu não tinha habilidade alguma com a mão esquerda.
Pela tarde, quando o celular de Dizzy tocou e ela fez uma careta, estendendo-me o aparelho, eu sabia que eram meus pais. Eu tinha mandado uma mensagem para meu pai, falando sobre o carro batido, mas Dana contou que eu estava no hospital. Claramente uma pequena vingança por ter escondido coisas dela. Fui bem sucinta na ligação e deixei claro que estava tudo bem, mas é claro que não adiantou de nada.
Quando contei como tinha acontecido, minha mãe gritou e eu ouvi uma breve discussão entre meus pais e meus irmãos. Não entendi muita coisa, mas acredito que eles estavam apenas tentando impedir minha mãe de sair de comprar uma passagem de ônibus, já que ela não andava de avião.
Passei quase uma hora no telefone com cada um deles. Patrick só queria saber se o carro estava bem, Clarissa pediu uma foto de cada parte do meu corpo (e chorou quando viu os hematomas grandes e roxos no meu peito). Meu pai me pediu um bom motivo para ele impedir a mãe de vir até mim, já que ele queria fazer o mesmo. Mas era impossível, era início de semana, o dinheiro estava escasso, o semestre estava longe de acabar e tudo que eles menos precisavam era faltar no trabalho por causa de uns dedos quebrados.
Mamãe foi a parte mais difícil. Ela chorou, brigou, pediu para conversar com Dana e passou meia hora no telefone com ela. Falou com %Filipe% e Cam e para ter certeza, pediu foto deles também. Deu em cima de Cam descaradamente, falou com eles por mais 10 minutos, chorou mais uma vez, queria que eu prometesse que eu não ia morrer. Até que meu pai a fez desligar pois a conta do telefone viria exorbitante.
Tive que insistir e implorar muito para os médicos do plantão, mas fui liberada do hospital um dia depois. No caminho de volta para casa, Dana me fez contar tudo o que tinha acontecido, desde o primeiro dia em que eu voltei a tomar remédios, cada detalhe dos meus dias e sobre como eu me sentia em relação a tudo. E eu contei, já que ela não ia descansar enquanto não soubesse de absolutamente tudo. Apenas omiti a parte sobre ela e %Filipe% estarem de romance pelas minhas costas e isso me incomodar.
Ela ficou bastante chateada com a minha omissão das coisas, perguntou se eu não confiava mais nela e coisas do tipo. Fiquei extremamente chateada por tê-la deixado chateada. Pedimos desculpas uma para a outra, apesar de ela parecer muito mais arrependida e culpada do que eu.
Desde que cheguei do hospital, passei o dia inteiro deitada no sofá. Dana preparou alguns lanches e eu insisti para que depois disso, ela fosse descansar um pouco. Algumas horas depois, %Filipe% chegou. Ele me ajudou a comer e depois começamos a assistir séries. Deus abençoe a Netflix.
Bocejei, %Fil% acariciava as minhas têmporas, causando-me mais sono. Despertei do meu quase início de sono quando Dana saiu do quarto. Ela pareceu confusa em seguir adiante ou voltar para o quarto assim que me viu deitada nas pernas de %Filipe%. Ela me lançou um sorrisinho e foi em direção à geladeira, provavelmente indo preparar seu jantar.
Sou muito intuitiva em relação a absolutamente tudo na minha vida e não foi difícil sentir um clima diferente se instalar na sala.
— Ei, estamos vendo How I Met Your Mother! Aquele episódio que você gosta — comentei, apenas para quebrar o sentimento estranho que se instalou dentro de mim. Ela apenas sorriu e assentiu. E eu fiquei em alerta pois Dana nunca fica calada quando o assunto é How I Met Your Mother, ela sempre tem algum comentário a fazer. Na verdade, Dana não fica calada nunca.
Voltei minha atenção a TV, quer dizer, apenas fingi que voltei. Meus olhos foram chamados para o reflexo de um porta-retratos que tinha ao lado da TV e assisti o momento em que %Filipe% mordeu os lábios, apreensivo e virou o rosto para olhar Dizzy.
1 segundo e ele continua olhando. Na TV, Ted Mosby fala algo sobre sempre seguir sua intuição.
4 segundos, ainda vejo apenas o perfil do seu rosto pelo porta-retratos. Será que ela está olhando de volta? Eu sinto que está. Eles estão se encarando ou o que? Estão "conversando com o olhar"? O que aconteceu depois que eu apaguei? Ou foi antes? Será que aconteceu algo naquela noite?
5 segundos e ele volta a olhar para a TV.
Os trovões lá fora me assustam e eu aperto meus pés um contra o outro, sentindo o vento frio me atingir. Talvez não só o vento me atingiu.
Eu não sinto raiva deles individualmente. Sinto raiva da situação em si. Sinto raiva de sentir que algo aconteceu e eu não saber o que é. Sinto raiva por isso me atingir mais do que deveria. Sinto ciúmes, sim, mas quem não sentiria?
— Está com frio? — perguntou %Filipe%, tirando—me dos meus devaneios.
— Só um pouco.
— Posso pegar um cobertor, se você quiser... — ofereceu, solícito.
— Está tudo bem, %Filipe% — respondi, meio impaciente. Não queria ser grosseira com ele, mas eu não entendia.
Se %Fil% queria Dana, por que ele sempre fora tão carinhoso comigo? Por que ele simplesmente não parou de me ligar? Por que ele não a chamava para sair, ao invés de mim? Será que eu preciso deixar claro para ele que tudo bem ele se interessar por outra pessoa?
Entrei mais uma vez no dilema do "mocinho principal". Eles sempre confundem tudo e demoram para perceber o que realmente querem. Será que esse era o caso de %Filipe%? Porque, cá entre nós, eu ainda não conseguia entender como ele ainda estava comigo. Eu era um verdadeiro desastre. Não conseguia manter um relacionamento. Eu nem sabia se nós tínhamos um relacionamento. Eu só espero que não ele esteja comigo por pena. Ou talvez ele só queira uma foda fixa. Ou na melhor e pior das hipóteses, ele realmente gostava de mim.
A questão é que depois de passar três dias no hospital, dormindo em uma cama insuportavelmente dura, eu só queria minha cama. Com %Filipe% nela, de preferência. Então, eu resolvi que iria usar o cartão "sofri um acidente e estou frágil" naquela noite. Não hesitei em perguntar:
— Dorme aqui hoje? — E ele não hesitou ao responder.
— Você nem precisava pedir, eu ficaria de qualquer jeito.
Antes dele, eu nunca tinha chamado alguém para dormir comigo, em minha própria casa. Quase nunca tinha casos de uma noite para levar para o quarto e também não tive namorados nessa cidade. A minha parte maldosa esperava que Dana tivesse escutado, queria que ela tivesse consciência que eu ainda estava ali, que era para mim que ele havia dito "sim", que era comigo que ele dormiria. Outra parte de mim gritava que eles iriam se agarrar pelo apartamento enquanto eu dormia. Outra parte de mim, uma bem pequena, queria que isso acontecesse mesmo, assim acabava logo com essa angústia em mim.
Tinham tantas versões de mim mesma, gritando dentro de mim e eu só desejava voltar a minha antiga medicação. De preferência, com a dosagem errada mesmo.