Talvez Não Seja Uma História de Amor


Escrita porJuliana M.
Revisada por Lelen


4 • Porque você é sexy, bonito e todo mundo quer um pedaço.

Tempo estimado de leitura: 32 minutos

Julho.

  Nós precisamos falar sobre ciúmes.
  É tóxico, feio, ruim e faz mal para qualquer um. Segundo a exata definição no dicionário, ciúmes é o "sentimento negativo provocado por receio ou suspeita de que a pessoa amada dedique seu interesse e/ou afeto a outra pessoa", mas também é definido como "receio de perder algo".
  É uma via de mãos duplas. Se você for como eu e tem consciência do quanto ciúme é ruim e ainda assim, não consegue evitar, é muito fácil perder a cabeça e ficar confusa. E como qualquer sentimento, nós não conseguimos evitar, ele só vem. Avassalador e sutil, simultaneamente. Eu sempre fui uma pessoa que me orgulhava de não sentir ciúmes, mas não é segredo para ninguém que desde que %Filipe% %Buchart% entrou na minha vida, muitas coisas mudaram.
  Infelizmente, minha imunidade ao ciúme também acabou sendo inserida nessa lista. %Filipe% e eu entramos no mundo das brigas e discussões sem sentido e estava cada vez mais difícil sair.
  Tudo começou quando eu faltei ao único show que ele faria na cidade naquele mês. Não foi justo perder o horário por conta da minha distração com a Netflix, porém, mais injusto ainda foi %Filipe% não ter aparecido no almoço que marcamos na semana seguinte. O que ele não sabia é que era meu aniversário e o almoço era o único horário disponível para todos.
  Brigamos mais uma vez, porém, eu estava com a razão dessa vez. Aí brigamos de novo porque eu estava com calor e ele, com frio. E tivemos uma pequena discussão por conta do Bob Dylan, novamente.
  Quase uma semana tinha se passado e nós ainda estávamos insuportáveis um com o outro. Nossos amigos até brincavam dizendo que nós estávamos de TPM conjunta devido ao nosso constante mau humor e impaciência, principalmente um com o outro. As coisas estavam tão sufocantes que até um prato sujo nos tirava do sério.
  — Você estava com ela, %Filipe%! — esgoelei-me, quase esfregando o celular contra o rosto dele.
  O motivo? Três semanas atrás, %Filipe% saiu com uma tal de Rachel, uma groupie nova iorquina de peitos gigantes. Ela já era conhecida entre os rapazes por sempre estar rondando meu garoto. No dia, eu não me importei. %Fil% é solteiro e livre para fazer o que quiser fazer, porém, quando fui vê-lo no dia seguinte e estava com marcas vermelhas no pescoço.
  Então, mesmo que eu não admitisse, o monstrinho verde do ciúme me mordeu e eu dei uma surtada, confesso. Gritei bastante com ele, quase expulsei-o da própria casa e ele apenas ria de mim, disse que não ia mais vê-la, me comprou com sexo e então ficou tudo bem. Até que estávamos fazendo nossa inspeção matinal no Instagram — que consistia em falar mal e zoar todo mundo que aparecesse no feed enquanto tomávamos café da manhã — e chegamos a um stories que Jack postou.
  E ali estavam Cameron e Jack de um lado. E do outro, %Buchart%, Rachel e seus peitos gigantes.
  — Ela apareceu do nada! — %Filipe% tentou explicar-se, levantando as mãos. Eu não perguntava onde %Filipe% ia, nem com quem estava. Não me importava se eram garotas, mas aquela... Ah, aquela tinha alguma coisa que não me descia e não eram aquelas tetas enormes.
  É claro que eu entrei no perfil da garota quando ele não estava por perto. E dei de cara com uma linda universitária, que estudava Direito, viajou para os lugares mais exóticos e se formou com honras na escola. E claro, tinha lindos e grandes peitos.
  Eu não tinha inteligência emocional alguma para ver %Filipe% lidando com pessoas mais bonitas e mais interessantes do que eu jamais seria.
  — Do nada?! Qual é o seu problema? — irritei-me mais ainda com a desculpa esfarrapada. Devido a diferença de altura entre nós, eu precisava ficar de pé na cama para conseguir encará-lo do jeito desafiador que eu pretendia. Se eu me aproximasse 1 cm, ia estapear seu corpo. Como se lesse meus pensamentos, %Filipe% saiu da minha frente e foi em direção ao seu banheiro. — Eu estou falando com você!
  — Achei que você não se importasse que eu saísse com outras garotas, ué. — Voltou-se para mim com os braços cruzados e a expressão carrancuda.
  — Saia com garotas feias, oras! — Olhei novamente para a foto da peituda na tela do meu celular. Que de feia, nada tinha. E vendo-os lado a lado, até faziam um belo casal. %Filipe% olhou-me meio incrédulo por uns segundos com minha sugestão antes de bufar.
  — Você é louca! Ela apareceu no bar onde nós estávamos, bebemos alguns drinques e foi só. — Deu de ombros, ainda apoiado na porta do banheiro. Como se estivesse sentindo que não era seguro manter-se perto de mim.
  — Puta que pariu! — Enfiei minhas mãos entre meus cabelos e os puxei para cima, tentando dar vazão a minha irritação. Conhecer uma garota em um bar, Cam e Jack, drinques. Parece familiar? Porque para mim, parecia muito a história de quando eu o conheci quatro meses atrás. — %Filipe%, você transou com ela?
  — O quê? Não surta, %Julieta%. — Franziu o cenho, encarando-me com desprezo, parecendo até ofendido com meu raciocínio.
  — %Fil%... Puta merda, a gente transou sem camisinha na semana passada! — Coloquei as mãos no rosto, já desesperada.
  — E o quê que tem? — exclamou, já falando em tom mais alto.
  — Não é o certo a se fazer se você tem outras parceiras. O que significa que não é seguro para mim se você vai sair por aí pegando qualquer uma!
  Eu vi a expressão de %Filipe% mudar de desprezo para total irritação. Suas bochechas ficaram vermelhas e seus lábios se entreabriram, chocado com minhas palavras. Parecia totalmente desacreditado com minha fala.
  — %Julieta%, vai se fo... — Assustei-me quando ele quase gritou, perdendo o controle e a paciência, coisa que raramente acontecia.
  Mas para o nosso azar, eu perdia o controle mais facilmente.
  Imprudentemente, com a raiva cegando meus olhos, joguei em sua direção o que estava em minhas mãos antes que sua frase fosse completada. Ou seja, o barulho do meu celular espatifando-se no chão me despertou da ira recém provocada. Olhei para o meu celular destruído no chão, amaldiçoando minha péssima coordenação motora, já que o aparelho passou pelo seu ombro, bateu na porta e caiu no chão.
  Encolhi-me quando subi meu olhar e avistei %Filipe% vir correndo até mim, vermelho de raiva por eu ter atirado um objeto nele. Tentei ir para o outro lado da cama, mas as mãos de %Filipe% foram mais rápidas e seguraram minhas pernas. Mexia meu corpo de forma que ele não conseguia me manter parada. %Filipe% sempre fazia isso quando nós brigávamos, segurava-me pelos ombros e me obrigava a olhar nos seus olhos.
  Eu sempre perdia quando ele o fazia e o garoto já tinha consciência disso.
  — Não é como se eu fosse seu namorado para você me fazer cobranças assim!
  Puxei um travesseiro acima de mim e comecei a acertá-lo com o mesmo. Xinguei, indignada com sua fala. Lutou contra mim e meu ataque de travesseiro, empurrando-me e tentando prender meus braços. O físico sempre acabava em nossas discussões quando o psicológico estava muito abalado. Mas se você estiver se perguntando se não era muita agressividade ou se %Filipe% já tinha sido um pouco mais "bruto" comigo, a resposta é não.
  Nossas brigas eram agitadas e energéticas, mas sabíamos respeitar nossos limites. %Filipe% nunca tinha levantado a mão para mim e eu nunca tinha tido um ímpeto de fúria contra ele. Até agora.
  — Você faz questão de deixar claro que não sou seu namorado quando você sai com aqueles babacas da sua faculdade! — Ele forçou meu corpo a deitar-se no colchão e se sentou em cima de mim, tentando tirar o travesseiro de minhas mãos, mas eu o segurei como se estivesse segurando a última garrafa de cerveja da geladeira.
  — %Filipe%, se você transou com ela por vingança, apenas para me atingir, eu juro que...
  — Eu não transei com ela! — quase gritou novamente, ainda tentando tirar o travesseiro de meus braços.
  — Quem me garante? — Eu usava o travesseiro para me proteger de suas investidas de segurar meu rosto entre suas mãos. — Jack e Cam, seus fieis escudeiros? Rá! Bela garantia! — Soltei uma gargalhada sarcástica e vi a veia do pescoço de %Filipe% saltar.
  — Você acha que é fácil para mim acreditar que você não tem nada com aqueles caras? Que não aconteceu nada naquele dia que você saiu com a Dizzy e ela voltou para casa e você não? — Meus braços enfraqueceram ao ouvir sua voz sentida. Ele aproveitou para tirar o travesseiro que estava entre nós. Segurou-me pelo queixo, encarando-me raivoso e eu soube que já tinha perdido a luta quando encarei seus olhos. — Não é. Mas se você diz que não fez, eu preciso acreditar. Porque a única coisa que eu tenho é você e sua palavra. Se você quer garantia maior, que tal começar a pensar na ideia de um relacionamento sé...
  "Relacionamento sério". Era o que ele ia dizer, mas antes que ele cometesse tal loucura, empurrei-o de cima de mim e me levantei da cama, indo em direção aos pedaços do meu celular. Estava todo despedaçado e com a tela quebrada.
  — Isso! Foge, é o que você sempre faz! — reclamou mais uma vez, deitando-se na cama e esticando os braços. Ignorei sua provocação, agachei-me para pegar os restos do meu aparelho.
  Eu gostava de %Filipe%, de verdade. Entretanto, eu tinha sérios problemas de confiança. Não me sentia pronta para apostar em um novo relacionamento depois de uma onda de relacionamentos falhos. Tinha medo de namorar, principalmente com ele. %Filipe% era o tipo de cara que todo mundo queria. Ele era demais e eu era... De menos. Encontrar uma Rachel por aí, mais legal e interessante que eu, não seria difícil para ele.
  — Dana quer você lá — avisei, saindo do quarto e indo para a sala, pegando minha bolsa no sofá. O nosso breve embate havia me deixado suada e cansada.
  — Pode, pelo menos, me dar uma carona? — gritou %Filipe% do quarto, a ironia transbordando em sua voz. Revirei os olhos e, como resposta, bati sua porta da frente com força.
  Por culpa dele e de nossa discussão (a mais séria até então), acabei me tornando a pior pessoa no trânsito. Buzinei sem necessidade, fiz barbeiragem, cortei vários carros. Fiquei com raiva de mim mesma no segundo que deixei sua casa.
  Fui impulsiva, ciumenta e irracional além da conta, %Filipe% liberava as sensações mais estranhas em mim. Sentimentos tipo ciúmes, que eu não sentia antes e não sabia lidar. Não sabia como dizer que eu queria ficar com ele, mas não queria namorar, mas também não queria que ele ficasse com mais ninguém.
  Está vendo? Confuso.
  Cheguei no meu apartamento ainda liberando adrenalina da discussão anterior. Batendo a porta com força, jogando as chaves no sofá e tirando meus sapatos ferozmente. Eu era dessas pessoas que se estivesse com raiva, o mundo inteiro teria que perceber que eu estava puta. Dei de cara com Cameron cortando alguns temperos na bancada, usando apenas uma cueca preta.
  — Por que você está nu na minha cozinha? — questionei, pendurando minha bolsa nos ganchos que ficavam atrás da porta.
  — Não estou nu. — Apontou para a cueca e eu revirei os olhos, sem humor para o mau humor constante de Cam.
  Dana entrou na sala, acenou com a cabeça para mim e jogou-se no sofá. Olhei para Cam de cueca, depois para Dana, toda bagunçada e com os cabelos molhados.
  — Vocês transaram? — Arqueei uma sobrancelha e ambos gargalharam com a minha dúvida.
  — Caiu molho de tomate na minha roupa, %Julie%. E além do mais, Dana está na semana vermelha. — Cam fez gracinha, mas me mantive séria. — Ok. Alguém está de mau humor.
  — Deixe-me adivinhar... — Dana colocou a mão no queixo, fingindo estar pensativa. — %Filipe%?
  — Quem mais seria? — Abri a geladeira, servindo-me um copo de Pepsi, meu pior vício. Cam reclamou que não aguentava mais aquilo, começando a mexer no fogão.
  — Eu estou adorando! — Dana veio sentar-se na bancada ao meu lado. — Mais uma briga e ele já pode ser meu?
  Revirei os olhos e disse que o entregava a ela, até pintado de ouro. Ela gargalhou e questionou qual foi a discussão do dia. Comentei superficialmente, porque um dos parceiros de crime de %Filipe% estava ali e nós também não costumávamos dar detalhes de nosso relacionamento para os outros.
  Cameron logo começou a defender o amigo, contando que o mesmo não tinha feito nada e que ele não tinha visto %Fil% dar confiança a ela. Sabia que Cameron tinha ido embora cedo, deixando apenas Jack e %Fil%. Encurralei-o, questionando se ele estava presente no resto da noite. Ele ficou em silêncio, sorrindo amarelo, causando gargalhadas em Dizzy em sua falha tentativa de ajudar o amigo.
  Assim que a campainha tocou, bufei porque eu já sabia quem era. Amaldiçoei a mim mesma por ter dado uma chave ao rapaz e agora ele não precisava mais interfonar para subir. Aliás, todos nossos amigos agora tinham uma chave.
  Eu expliquei que nós não vivíamos em um episódio de Friends e que eles não poderiam entrar em nossa casa quando bem entendessem, que era apenas por precaução. Mas é claro que eu já havia encontrado Cam usando nossa cozinha ou Jack usufruindo de nossos canais pagos mais de uma vez.
  Quando %Filipe% entrou, parou na porta e fez a mesma pergunta que eu:
  — Por que está nu? — Olhou com estranhamento para o torso nu de Cam.
  — Não estou! — Cam jogou um pedaço de cenoura em direção a %Filipe%, que a pegou no ar e colocou na boca.
  — Obrigada pela carona! — %Filipe% sorriu irônico quando passou por mim e foi para o sofá.
  — Você tem dinheiro, compra um carro — ordenei, brava.
  — Você não me diz o que fazer, %Julieta%! — %Filipe% jogou-se no sofá e apontou o dedo para mim.
  Vê-lo bravo provocava em mim, no mínimo, seis reações diferentes. Ele ficava bem bonito, era engraçado, era fofo, mas também um pouco assustador quando ele falava um pouco mais firme comigo, apesar de ter certeza de que ele nunca me faria mal algum.
  — Então, não fala comigo! — repliquei, batendo em minha própria testa com a mão, angustiada de ter que trazer essa discussão para frente dos nossos amigos.
  — Eu faço o que eu quiser fazer! — retrucou.
  — Sabe qual o seu problema? Você é bonito, então ninguém nunca mandou você calar a porra da sua boca! — exclamei, afetada com sua insistência em me irritar.
  — Sabe o que é engraçado, baby? As pessoas me pagam para abrir a boca! — rebateu, sem contestação alguma. Eu era ótima em discussões, respostas e deboche, entretanto, %Filipe% parecia ser o parceiro perfeito para me tirar do pódio.
  — Eu adoro isso! — Dana soltou uma gargalhada alta, empolgada com nossa guerrinha. Acabou fazendo-nos rir também e amenizar o clima ruim que eu e %Filipe% tínhamos plantado na sala.
  O celular de Dana vibrou na mesa e ela logo atendeu. Eu e %Filipe% continuamos nos encarando, mesmo que não estivéssemos mais soltando palavras raivosas um contra o outro. Se nossos olhos lançassem raios laser, aquele lugar já teria explodido. Estreitei meus olhos quando vi que %Filipe% não ia desviar o olhar. Ele cruzou os braços e eu quase me rendi à nossa pequena luta.
  Fala sério, quem não perderia para %Filipe% %Buchart% de braços cruzados?
  — Alô? E aí, lindão? Tudo bem? Ela está aqui, sim. Espera... — Dana interrompeu minha guerra de olhares com %Filipe%, entregando-me o celular. — %Julie%, é o Pat.
  — Oi, meu bem! — atendi entusiasmada e mudando de feição imediatamente, o que fez Cam e Dana rirem e %Fil% reprimir um sorrisinho.
  — E aí? O que aconteceu com seu celular? — Ouvir a voz de Pat acalmou meu coração.
  Quando eu saí de casa, Pat tinha a voz de um adolescente de 15, agora sua voz grossa e madura me deixava até um pouco triste. Eu também evitava ver fotos dele nas redes sociais, pode parecer besteira, mas me doía de verdade. Eu sabia que ia ser um choque quando eu fosse vê-lo novamente, mas eu não me importava. Eu era covarde demais para acompanhar a vida do garoto de longe.
  Eu tinha esse problema com a distância. Não sabia lidar com ela.
  — Joguei em um idiota e ele quebrou. — Levantei meus olhos para encarar %Filipe%, que me olhou de volta com raiva ao perceber que eu falava dele. — Tudo bem?
  — Estou com um problema. — Meu coração de irmã mais velha já estava pronto para entrar em colapso. — Um cara me chamou para sair.
  — Não tem problema um cara ter te chamado para sair, ué! — Olhei para Dana e nós sorrimos uma para outra. Ela fez "awn" e voltou a falar com %Filipe%.
  — Eu não sei se curto caras. E também estou saindo com uma garota.
  — Fala para ele que você está comprometido, então. — Cam veio com um molho na colher para eu provar e eu neguei com a cabeça. Foi até %Fil% e Dizzy, que já faziam careta antes de provar.
  — Comprometido é uma palavra forte, %Julie%. Estou pegando e só. — Pat falou, causando a abertura da minha boca ao ouvir tamanha ousadia.
  — Pat! Se você engravidar alguém, arranco suas bolas — alertei-o, batendo minhas unhas no granito. — É preciso tomar cuidado! A gente nunca sabe com quem as pessoas transam por aí. — Encarei %Filipe% descaradamente, que forçou uma risada e depois me mostrou o dedo do meio.
  — Você anda fazendo sexo por aí, provavelmente. Quem é? — Pat quis saber, mas eu não queria falar de %Filipe% e, inevitavelmente, enchê-lo de elogios estando na sua frente.
  — Não é da sua conta, bro!
  — Ah, então você está transando!
  — Pat, esquece minhas transas e me diz qual o problema.
  — Estou sentindo sua falta, %Julie%. — Aquilo, definitivamente, me pegou de surpresa. Senti meus olhos encherem-se de lágrimas, então desci do balcão antes que eu começasse a chorar na frente de todos. Fui direto para meu quarto, já sentindo as lágrimas fugirem dos meus olhos. — Eu sei que você não gosta que eu fale, nem te dê notícias do que está acontecendo aqui, mas... Eu preciso.
  — Eles estão bem? — perguntei, me referindo aos nossos pais, já ficando nervosa.
  Eu quase não falava por telefone com minha mãe, apenas por mensagens. Com minha irmã, também. Com Pat, eu aceitava uma ligação ou duas. Mas meu pai... Ah, o meu pai! Eu não falava com ele por nem um meio. Quando eu o visse no próximo natal, (já que no Natal passado, eu e Dizzy não pudemos ir para casa), eu me desmancharia de tanto chorar.
  — Sim, eles estão ótimos, não se preocupe. — Suspirou fortemente antes de continuar: — É o Sun, %Julie%. Eu juro que tentei de tudo.
  Sun era um garoto que morava ao lado da minha casa no Jeins. Tínhamos quase a mesma idade, a diferença entre nós é que os pais do garoto sumiram no mundo assim que ele fez cinco anos. O serviço social nunca esteve muito presente no meu antigo bairro, nunca atuou com regularidade por lá, então Sun atingiu a maioridade e o sistema nunca soube que ele morou a vida inteira sozinho e na rua. O menino só não morreu, pois o bairro inteiro gostava dele e todos o ajudavam, principalmente, minha família.
  Ele vivia em uma casa minúscula ao lado da minha. Quando criança, sua alimentação era mantida por todos das redondezas, mas os outros preceitos básicos para se viver eram dados por meus pais. Eles o matricularam na escola pública, ajudavam de todas as formas que podiam. Quando chovia forte, ele dormia no sofá da minha casa. Nunca perguntei o porquê. Eu, Clarissa e Patrick sempre vimos o pequeno asiático como um irmão, já que fomos criados praticamente juntos.
  O sistema de adoção, o serviço social, nunca se importaram com a situação de Sun. O menino viveu a vida inteira à própria sorte.
  — Eu tinha tanta esperança nele. — Joguei-me na minha cama, descrente e triste. Pat nem precisou explicar nada, eu já sabia que Sun havia cedido às pressões da rua. À medida que foi crescendo, Sun foi se distanciando de nós, cada vez mais inserido na realidade das ruas. Desistiu da escola após falhar em várias séries, deixou de dormir no sofá de casa quando chovia forte, entretanto, nunca nos desrespeitou, nunca deixou de ser um menino gentil. — Santiago tem algo a ver com isso? — questionei, sentando na cama e abraçando minhas pernas.
  Santiago também foi um garoto com quem eu brinquei a minha infância toda, mas ele sumiu da minha vida antes de nós completarmos 15 anos. Foi quando comecei a me interessar mais pelos meus estudos e Santiago começou a se desinteressar de tudo. Na última vez em que eu o vi, eu estava a caminho do aeroporto para ir para Hillswood de vez. Nos entreolhamos quando eu entrei no carro de Dana e ele já não parecia o mesmo.
  — O que você acha? Por isso você precisa falar com ele! — insistiu Pat.
  — Pat, não dá. Ele deve ter passado por uma lavagem cerebral com aqueles caras, nada do que eu fale vai mudar alguma coisa — expliquei, sentindo meu peito doer quando ouvi o suspiro alto de Pat. — Eu queria ajudar, irmãozinho, mas não acho que seja algo que está ao meu alcance.
  — Até nossa mãe já desistiu dele, %Julie% — contou Pat e eu fiquei até assustada. Minha mãe criou Sun como se fosse seu próprio filho, então era óbvio que ela tinha fé nele, fé que ele poderia tornar-se uma pessoa melhor. Nesse momento, %Filipe% entrou no meu quarto com algumas roupas nas mãos. Ele me olhou e balançou a cabeça como se estivesse perguntando se eu estava bem e eu assenti. — Ele anda fazendo muitas coisas erradas, ela é compreensiva até certo ponto.
  — Eu não vou poder fazer nada até o dia em que eu possa vê-lo pessoalmente. — %Fil% começou a se trocar em minha frente e eu sorri ao ver suas costas marcadas por mim. — Até lá, você vai precisar segurar as pontas.
  — Tudo bem, %Julie%. Só queria tentar mais alguma coisa antes de ter que desistir. — Sorri de lado. Patrick era um ótimo garoto, orgulhava-me muito tê-lo como irmão. — Ei, eu encontrei com Haniel na rua semana passada! — contou Pat, empolgado e eu revirei os olhos, bufando. Hani foi o único namorado meu que minha família conheceu. Para o meu azar, eles gostavam mais dele que de mim.
  Resmunguei um pouco sobre o assunto Haniel, comentamos sobre algumas coisas, fofocamos um pouco e logo nos despedimos. Limpei algumas lágrimas que se acumularam no canto do meu olho antes de virar para encarar %Filipe%.
  — Dana imaginou que você ia ficar sensível e ela não veio atrás de você porque você ia chorar se fosse ela. Então ela me mandou porque... Bom, você me odeia no momento. — Revirei os olhos com sua dramaticidade.
  — Estou bem — disse simplesmente e deitei-me na cama, olhando para o teto cheio de infiltrações do meu quarto, ficamos em silêncio por um tempo.
  Toda vez que alguém do Jeins era citado, eu sentia como se fosse coisa de outra vida. Meu mundo agora era diferente do que eu costumava viver e era estranho pensar que a vida lá continuava, mesmo que eu não estivesse por perto. Ainda que parecesse que nada tinha se alterado.
  — Sabe, eu estava pensando... %Julieta%, eu mal te conheço — murmurou, como se estivesse com medo de expor suas ideias.
  — Você sabe quase tudo sobre mim — retruquei, ainda sem olhá-lo, distraída. Seu resmungo bravo forçou-me a descer meu olhar até ele.
  %Fil% ia participar de um programa de TV em outra cidade e a única coisa que %Filipe% tinha a seu favor era o empresário e eu não tenho tanta certeza assim de que Tim sabia como combinar roupas. Sobrou para Dana e Cam cuidarem do vestuário dele. %Filipe% já tinha passado da fase de cantor de bar e todo mundo concordava que agora ele precisava de uma equipe.
  — Quase tudo? Por favor! — retrucou, sarcástico, experimentando a segunda camisa que Dizzy o entregou.
  — Eu também não sei muito sobre seu passado e aí é que está. É seu passado, %Fil%. Não me diz respeito — tentei explicar, tentei manter minha cabeça longe do que estava acontecendo no Jeins e focar em %Filipe% a minha frente, mas não funcionou muito bem.
  — Eu não quero saber sobre seus ex-namorados ou sobre as coisas ruins que você já fez, %Julie%. Eu só acho que eu deveria saber mais da sua origem, sua família.
  — Por quê? — questionei, mesmo que eu não estivesse prestando muita atenção na provável discussão que estava acontecendo ali.
  — Porque eu não sei nada sobre você. Eu não sabia nem quando era seu aniversário, %Julieta%! — vociferou, jogando a camisa em cima da cama. E voltamos para o assunto da primeira discussão da semana.
  — Eu também não sei muito sobre você — enunciei.
  Uma simples menção ao Jeins e ao meu passado deixava-me como se um caminhão tivesse passado por cima de mim, causando em mim um cansaço quase físico, exausta demais para brigar com %Filipe%.
  — Porque você não quer saber!
  — Que mania absurda de achar que eu não quero saber de você, %Filipe%! — Rolei os olhos, sem muita paciência para o drama de %Filipe%. Ao ver meu despeito e minha preguiça em relação àquela discussão, ele deu risada sem humor.
  — Hoje está sendo um daqueles dias que eu fico em dúvida se vale a pena tentar — murmurou, vestindo a camisa inicial de volta, recolheu o resto das roupas e dirigiu-se à porta.
  — Tentar o quê? — Mesmo temerosa com sua resposta, questionei.
  — Nós — respondeu, sem hesitação. — Há dias em que eu me pergunto se algo realmente importa para você ou esse "nós" é invenção da minha cabeça.
  Dito isso, saiu do meu quarto, deixando-me com o coração na mão. Tentei chamá-lo, mas ele simplesmente me ignorou. Bufei, esfreguei meu rosto com força. Eu era mesmo uma idiota.
  Tinha tanto medo de demonstrar meus sentimentos a %Filipe% que agora ele achava que eu não tinha nenhum. Queria me levantar e ir atrás dele, mas sabia que nada seria resolvido agora. Se eu fosse até ele, só iria adicionar mais uma briga para nossa lista. E suas palavras deixaram-me tão zonza e preocupada, que outra briga era o que eu menos precisava agora.
  Acabei passando a tarde inteira no meu quarto, tentando conseguir algo com Sun, conversei com minha mãe, mas aparentemente, ninguém queria mais tanto contato com o menino. E isso me fez questionar o que ele teria feito para conseguir tal proeza.
  — Oi? — Dana adentrou meu quarto com uma bandeja em mãos. — Cam fez carpaccio — anunciou, apontando para o prato em sua mão.
  — Ele desistiu do pesto? — Tirei meu notebook do colo e Dana me entregou a bandeja.
  — Estava horrível! Reaproveitamos algumas coisas, mas jogamos fora a maioria. — Rimos com as tentativas constantes de Cam ser um bom cozinheiro. — Porém, o carpaccio está uma delícia!
  — Está mesmo! — respondi, já com a boca cheia.
  — Então, você se trancou no quarto e %Filipe% saiu daqui pisando tão forte no chão que quase afundou nosso carpete. O quão sério foi? — questionou e eu hesitei em responder.
  — Ele reclamou que não sabe nada sobre mim. — Enchi minha boca para não ter que dar mais explicações.
  — Oh... — Dana pegou uma fatia e mordeu, pensando antes de falar. — Ele está certo. — Rolei os olhos e resmunguei, não querendo ouvir nenhuma opinião a favor de %Filipe%. Como se já não bastasse minha própria mente gritando comigo por ser uma completa imbecil. — Qual é, %Julie%! Todos nós percebemos que você não o deixa chegar em você.
  — Como assim? Eu o deixei chegar desde o primeiro dia. — Estranhei, buscando em minha mente alguma rejeição da minha parte.
  — Não estou falando do físico, %Julie%. Nós duas sabemos que as coisas com você, por algum motivo, são difíceis e complexas. Mostra para ele o caminho, você deixa o pobre coitado à deriva.
  — Então, devo assumir que ele estava certo? — questionei, ainda me recusando a aceitar o que Dana tentava me falar. Ela assentiu, bagunçando meus cabelos. — E quando você vai assumir que está transando com Cameron? — perguntei, despretensiosamente, jogando um cubinho de tomate na boca.
  Os lábios de Dana abriram-se em choque e a mulher começou a deferir tapas no meu braço e ambas gargalhamos. Se Dizzy realmente estivesse transando com Cameron, seria engraçado.
  E também diminuiria uma breve preocupação que existia na minha cabeça, mas que eu decidia ignorar toda vez que ela se fazia presente.

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  Confirmando as suspeitas de que Hillswood era minha cidade, o clima mudou drasticamente da manhã para o fim da tarde. Como se refletisse meu estado atual de humor, o céu tornou-se nublado e cheio de nuvens carregadas de chuva. Abri a porta da casa de %Filipe% sem apertar a campainha, aproveitando-me do seu desleixo de só trancar a porta quando estava fora de casa. Pensei estar sendo muito invasiva em entrar sem permissão na sua residência após uma briga, mas sabia que a última coisa que %Filipe% faria era me expulsar.
  Tirei minhas botas, alisei meu vestido várias vezes. Minhas mãos tremiam e não só por causa do súbito e inesperado frio que estava lá fora. Joguei meu casaco no sofá e comecei a procurar por %Fil% pelos cômodos da sua casa.
  A casa de %Filipe% não era grande, mas era ampla. Minimalista, mas muito lindinha. Olhei pela janela da cozinha e vi %Filipe% sentado no seu pequeno quintal, coberto de roupas e um edredom, com o violão em mãos, fazendo anotações em seu pequeno caderno que eu já tinha visto antes.
  Apenas %Julieta% Young conseguiria magoar o cara mais gentil e amável do mundo.
  Abri a porta de vidro e fui em sua direção, meus pés incomodaram-se imediatamente com as pedrinhas geladas por entre meus dedos. %Filipe% franziu o cenho quando me viu em sua frente.
  — Como você...? — Tirei o violão de suas mãos, coloquei apoiado ao lado dele e antes dele começar a resmungar, encostei meus lábios trêmulos nos seus lábios gelados. Ele tentou resistir, mas deve ter percebido que eu não desgrudaria meus lábios dos dele, então levou sua mão a minha nuca, deixando-me um tanto aliviada.
  Não sei o que faria se, um dia, %Filipe% negasse-me um beijo.
  Ele se afastou, analisou meu rosto por um minuto inteiro. Deve ter visto em meu olhar o quanto eu precisava que ele me escutasse, então, puxou-me para se sentar em uma de suas pernas e respirei fundo antes de começar a falar.
  — Eu tenho dois irmãos. Três, na verdade. Um é do primeiro casamento do meu pai. Eu quase não tenho contato com ele, mas ele foi em um aniversário meu alguns anos atrás e ele é muito educado, tem uma namorada incrível. Minha irmã mais velha é a Clarissa, tem 30 anos e ela é o completo oposto de mim. Ela é loira, alta e extremamente inteligente. Ela saiu de casa aos 16 anos, o que foi um baque para minha mãe, mas não mudou muita coisa, ela ainda janta com eles quase todos os dias. Quer dizer, eu acho. E tem, Patrick, meu irmão mais novo, ele tem 18 anos. Ele é novinho, mas é todo maduro. Sempre foi a frente a idade dele, mas ainda tem muitas inseguranças. Toda minha família é muito apegada e afetuosa, por isso eu não falo sobre eles. É muito doloroso para mim falar sobre eles serem a família perfeita quando eu estou longe. Me dá muitas saudades! Você nunca os viu porque eu não deixo fotos deles à vista... Lembrar que eu não estou com eles agora me doi mui...
  O choro fez minha voz falhar e eu não consegui completar a frase. Eu nem havia notado que estava chorando, era oficialmente a primeira vez que eu chorava na frente de %Fil%. O rapaz cobriu a nós dois com o edredom e beijou meu rosto ternamente.
  — Eu não queria te deixar triste, baby — falou suavemente, ainda com os lábios encostados na minha pele.
  — Me magoou muito você insinuar que eu não gosto tanto assim de você — confidenciei em um murmúrio abalado, limpando as lágrimas finas que desciam pelo meu rosto.
  — %Julieta%... — Sua voz saiu baixa e ele pareceu muito aborrecido consigo mesmo. Interrompi-o novamente, sem conseguir controlar o rio de palavras que saiam de mim.
  — Você diz que não sabe nada sobre mim, mas você sabe. Você sempre pede Pepsi quando saímos para comer, mesmo que você prefira suco. Você sempre deixa meias na cama quando eu durmo aqui porque você sabe que eu sinto frio nos pés. Você cobre meu rosto quando o sol invade seu quarto só para eu dormir mais um pouco. Você sabe o meu vinho preferido, sabe o que eu quero comer e quando eu quero comer. Você põe um travesseiro na minha bunda quando transamos porque você sabe o que me incomoda. Você sabe o que importa, %Fil%! E agora eu estou chateada, e com frio, e eu só quero deitar na sua cama, me agarrar em você e não levantar tão cedo.
  Ainda sem levantar a cabeça, como uma criança procurando por colo, passei meus braços em volta do seu pescoço. Senti seus braços apertarem minha cintura por baixo do vestido. Ele inclinou sua cabeça, passando seu nariz levemente pela curva do meu pescoço, causando-me arrepios incontroláveis. Aproveitei nossa sensibilidade e minha breve coragem para dizer:
  — Porque é isso que você é para mim, %Filipe% %Buchart%. Meu aconchego, minha calma e meu caos, tudo ao mesmo tempo. E isso me deixa maluca...

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