Talvez Não Seja Uma História de Amor


Escrita porJuliana M.
Revisada por Lelen


15 • Algo bonito.

Tempo estimado de leitura: 85 minutos

  4 anos depois.

  Você pode comprar um atlas, um globo, pode entrar em todos os sites geográficos do mundo, mas Hillswood jamais será encontrado. Tal qual Asgard, a pequena e afável Hillswood não era um lugar. Era uma sociedade diferente de todas, mesmo que fosse como qualquer outro lugar no mundo. Eu podia não ter nascido em HW, mas esse fato incômodo não me transformou em uma forasteira. A cidade que me acolheu de braços abertos ainda me abraçava em momentos de solidão.
  Em HW, as lojas do comércio fecham às 17h. Parece cedo para as grandes metrópoles, mas era sempre bom encontrar pessoas confraternizando com as amizades nas portas enquanto você faz o seu caminho de volta para casa. Mesmo sendo considerada pequena e interiorana, a vida noturna poderia ser bastante agitada. Hillswood tinha esse poder. Tinhas ares camponeses durante o dia e as noites pareciam explodir agitação de cidade grande.
  Suspirei, quase pesarosa, ao me despedir da cidade pela janela do ônibus interurbano, como se eu não fosse estar de volta ao lar em dois dias. Abri o notebook, decidida a terminar meu trabalho e obrigações até chegar ao meu destino, a cidade vizinha de HW.
  Após quatro horas de viagem, cheguei na cidade — que poderia ser considerada um vilarejo de tão pequena — e fui direto para o salão de beleza, onde já tinha hora marcada a uns dias. Senão saísse direto do ônibus até o local, eu chegaria mais do que atrasada, então, liguei para a pousada onde ficaria hospedada e pedi que meu check-in fosse adiado por algumas horas. Enquanto meu cabelo era puxado de um lado para o outro e meu rosto recebia as mais variadas combinações de pós e cores para tentar disfarçar a feição cansada e “amassada” pós viagem, eu tentei muito não ficar ansiosa.
  Li e reli várias vezes a apresentação do editorial da semana que vem e fiz todas as alterações que achei necessário, mas isso não me impediu de aceitar a taça de champanhe oferecida pela recepcionista do salão e de passar o dia inteiro balançando o pé incessante e ansiosamente. Quase duas horas depois, com maquiagem e cabelo mais do que prontos, segui direto para a pousada onde seria minha hospedagem durante aqueles dias.
  A transição para a tarde era agradável e animadora, as paredes da suíte média foram coloridas com as cores alaranjadas do sol que se despedia no horizonte. Suguei pelo canudinho o resto do vinho na taça, tomando cuidado para não manchar o batom e não borrar a maquiagem cara. Eu sabia que estava atrasada, mas simplesmente não conseguiria sair enquanto não arrumasse aquela cama completamente bagunçada com roupas e malas e, claro, enquanto não terminasse a bebida.
  Eu sabia que todos já estavam no local e isso me causava uma certa estranheza. A ansiedade de ver todo mundo junto novamente estava me causando uma agitação incomum, especialmente porque eu estava mais do que ciente que encontraria certas pessoas após dois (dois!) anos.
  Desde que passei a viver só, a minha vida havia se tornado uma monotonia sem fim e quase nenhuma novidade surgia do nada. Eu sei que só estava sentindo tanta diferença assim porque, em outra época, eu estaria acostumada a lidar com grandes emoções, afinal, passei por umas poucas e boas. Mas agora tudo, não só parecia, mas estava diferente. Minha vida passou por um período de calmaria depois que consegui o emprego na Editora Hall. Ainda trabalhava na Editora, porém, agora eu era diretora administrativa.
  E para que não houvesse dúvidas da minha competência (colocadas a prova por mim mesma), eu estava fazendo uma segunda graduação em Administração. E fazia aulas de fotografia e alemão. E já não era mais loira, mas os tons claros nunca mais haviam deixados meus cabelos. Muita coisa estava diferente.
  Olhei-me no espelho mais uma vez enquanto calçava os saltos comprados especificamente para aquela situação. Respirei fundo, agarrei a pequena bolsa em uma mão e sai do quarto, indo em direção a portaria, onde um táxi já me aguardava na porta. Bati os saltos no chão e senti o estômago revirar ao dobrar a esquina e notar que, em alguns passos, eu chegaria ao local. A pequena catedral de San Joan abusava do estilo barroco e antigo, causava contraste por sua localização exata ser entre dois luxuosos e modernos prédios. E era absurdamente linda.
  Alisei o vestido azul marinho ombro a ombro ao sair do carro, que estava justo demais em meu busto, mas era o único na loja que tinha o decote nó que eu tanto procurei. Segurei a pequena bolsa com mais força quando cheguei na escadaria do local, nervosa apenas com a visão que tinha dali. E que visão!
  Cameron vestia um smoking preto belíssimo que definitivamente tinha sido feito sob medida para ele. Estalava os dedos das mãos, pensativo, até seus olhos me enxergarem ali. Seus lábios abriram-se em um enorme sorriso, que logo transformou-se em risada.
  — Olha só você! — exclamei, animada. Segurei a barra do vestido, para subir os degraus mais rapidamente. As mãos de Cam — sempre um cavalheiro britânico — vieram ao meu apoio, ajudando-me a terminar o serviço mais depressa e quase me carregando para finalizar o momento de antecipação com um abraço apertado.
  Cameron era um dos poucos que eu via constantemente. Depois de passarmos um bom tempo sendo parceiros de casa, consegui dinheiro o suficiente para sair do aluguel na casa do meu amigo e consegui um apartamento pequeno na mesma rua de Cameron. Além de meu vizinho, ele havia se tornado meu professor. Foi ele quem me matriculou em minha primeira aula de fotografia e meses depois, ele acabou virando o professor daquela turma. Ainda jantávamos juntos nas quintas, sempre que possível.
  Olhou-me de cima a baixo e soltou um assobio. Cameron sempre me elogiava e costumava dizer que a maturidade dos anos havia me feito muito bem.
  — Você está incrível! — elogiou, sorridente.
  — Você também. — Apoiei a bolsa debaixo do braço e centralizei a gravata borboleta em volta do seu pescoço. Alisei seus ombros enquanto olhava para seu conjunto de roupas. Estávamos em um casamento! Ria enquanto batia palmas, animada. — Eu não consigo acreditar!
  — Nem eu! — confessou, gargalhando. — Como foi a viagem?
  — Tranquila. Como ela está? — questionei, analisando a decoração simples na entrada da igreja, achando tudo muito incrível. Era espantoso ver um dos nossos casando.
  — Ainda não a vi — murmurou, sorrindo gentilmente, mas era possível notar que também estava ansioso. Tal percepção foi confirmada quando ele olhou para o relógio, apreensivo. — Na verdade, acho que eu já deveria estar lá dentro. Ela deve estar na segunda sala, entrando na porta a direita. Pode ir até lá e ver se está tudo certo!
  Apreensiva, concordei e entrei no local, indo direto para as salas complementares, não muito interessada em ver o público lá dentro. Pelo contrário, quanto mais tempo longe daquele covil de emoções, melhor. Fui até a sala onde a noiva estava, bati na porta e como não obtive respostas, entreabri, apenas para ter certeza de que era sala certa.
  — Existe alguma noiva por aqui? — brinquei após notar a bagunça na sala. Maquiagens, anáguas, sapatos espalhados pelo chão só mostravam que elas estavam lá. Mordi o lábio, apreensiva. Entrei na sala, joguei a bolsa pequena na mesa e... — Uau!
  Quando ela saiu do banheiro, parecia uma visão de tão perfeita. Mesmo com o cabelo preso em um penteado, o comprimento ainda ia até seus ombros. Um belíssimo véu prateado prendia o volume de seus cabelos. O vestido tomara que caia era de um azul tão claro que exalava delicadeza. A fita branca marcava logo abaixo de seus seios e dali a enorme saia se abria, deixando-a como uma verdadeira princesa. Eu não fui a maior fã da ideia do azul por achar que não combinaria com ela, mas olhando o pacote completo, o azul claro contrastou perfeitamente com seus cabelos ruivos, deixando-a deslumbrante.
  Victoria era a noiva mais linda e perfeita que eu já tinha visto na vida.
  — %Julie%, você chegou! Eu estou enlouquecendo! — Correu até mim, ignorando minha posição embasbacada e me abraçou com força. Senti meus olhos encherem de lágrimas com a bela visão de minha grande amiga. — O que foi? Ah, você também não!
  — Você está perfeita, Vic! — exclamei, emocionada.
  Assim como Victoria apareceu de surpresa na nossa vida, o casamento da garota também chegou de surpresa. Alguns anos atrás, quando Jack e Vic anunciaram seu término, o nosso grupo logo começou a se perguntar e planejar formas de manter a garota por perto. Amávamos a moça, era espirituosa e gentil, adorava uma boa festa assim como nós e tinha a aprovação total das garotas do grupo, isso já era uma grande vitória. Eu mal consegui acreditar quando assisti ao vídeo do pedido.
  — Cadê todo mundo? — perguntei, estranhando o silêncio.
  — Ela expulsou as damas, as tias e até a própria mãe. Estavam deixando a noiva irritada! — resmungou Dana, saindo do banheiro com uma pequena bolsa, mexendo na barra do próprio vestido. Seu olhar vacilou quando encontrou o meu olhar. Senti minha boca secar em segundos e quase senti a necessidade de engolir em seco ao ver minha amiga. Ou ex-amiga, eu não sei mais dizer. — Oi.
  — E Dana continua fazendo o trabalho delas! — Victoria interrompeu antes que eu conseguisse responder, então apenas acenei com a cabeça.
  — Eu não estou falando nada, você está descontando tudo em mim por que está nervosa! — reclamou a morena, revirando os olhos e virando de costas. O vestido longo vermelho de frente única e uma fenda de tirar o fôlego ressaltavam sua beleza ímpar.
  Era a primeira vez após aqueles dois (longos) anos que nós nos reencontrávamos e olhando Dana de perto, eu não pude evitar sentir saudades da minha amiga. Passei muito tempo não me permitindo a isso, pois foi ela quem quis isso, ela escolheu ir, mas havia dias em que eu bebia vinho sozinha escutando rock antigo ou ficava encarando minha janela pequena demais e eu sentia falta de seu sorriso doce e palavras gentis, seus delicados beijinhos no nariz.
  — Se você for chorar também, é melhor ir embora — resmungou Vic, apertando os pés dentro dos sapatos brancos.
  — É o dia do seu casamento, dia mais feliz, blá blá blá. Se acalma! — Gargalhei do mau humor aparente da ruivinha, que só estava tensa demais pelo mesmo motivo. Ia casar!
  — Eu não acredito que estou fazendo isso! Não acredito que estou indo casar! Como vocês deixaram isso acontecer!? — exclamou, expirando fortemente e abanando o próprio rosto com as mãos.
  — Se for fugir, me avise logo para que eu possa ir direto até o noivo. Quero deixar claro que não ajudarei na fuga, porque, bom... — Dana deu de ombros, tomando um gole de champanhe e fazendo uma careta.
  — E se a gente sair só para fumar um? — Vic tentou, fazendo-nos soltar uma risada conjunta. — É sério, quanto tempo não fazemos isso?
  — Passou o tempo que andávamos com cigarro na bolsa, Vic. Sério, você já está atrasada o suficiente! — alertei, servindo-me com uma boa taça de champanhe, só para relaxar com a presença intimidante de Dana atrás de mim.
  Com o passar dos anos, eu havia aprendido que, mesmo que eu me tornasse uma mulher profissionalmente incrível, mais bonita do que nunca estive, eu sempre me sentiria pequena perto da imensidão que Dana Tomazio era e sempre seria.
  — Eu sou a noiva, vocês deveriam fazer minhas vontades! — choramingou, batendo o pé no chão, irritada.
  — Não somos as madrinhas! — retrucou Dana, provocadora.
  — Você ainda não superou isso? — Vic rolou os olhos. Havia sido uma pauta constante no nosso grupo de mensagens o fato de Vic não ter nos convidado para sermos madrinhas. No fundo, eu a entendo. Era difícil imaginar que eu e Dana conseguiríamos dividir o mesmo espaço.
  — Victoria, é o seguinte: estou indo avisar que você já vai entrar. Eu sei que você está nervosa, mas já se passaram quase uma hora de espera. Um passo de cada vez! Você vai atravessar a igreja, subir no altar, olhar para o seu lindo noivo e... — A minha tentativa de tranquilizar a garota quase não deu certo. — Bom, se casa.
  — Oh, meu Deus! — A noiva colocou a mão sobra a barriga, sentindo seu estômago se contrair. Havia chegado a hora, ia se casar! — O que eu estava pensando em aceitar aquele pedido?
  — Sabe que eu me pergunto o mesmo? — Dana brincou, indo até a mulher quase à beira de lágrimas. — Vem aqui, vamos arrumar esse vestido e vamos casar! — comemorou, batendo palmas e arrumando a beira do vestido.
  — Você é oficialmente a noiva mais linda que eu já vi e merece toda a felicidade do mundo! — Abracei a mulher e me apressei em soltá-la quando notei seus olhos cheios de lágrimas. — Vou até lá avisar — informei e virei todo o líquido da taça na boca antes de sair do local. Andei pelo corredor tenebroso até chegar na antessala, informei as mulheres que estavam ali que Vic estava pronta e causei um alvoroço entre elas.
  Querendo fugir dos hormônios femininos em peso ali, resolvi ir direto para o salão principal, onde seria a cerimônia. Fiquei extremamente nervosa de ter que andar até meu lugar, que era nas primeiras fileiras, quase perto do altar. Chegando próximo, senti meus olhos encherem de lágrimas e quase não consegui me segurar quando finalmente me dei conta que um dos meus melhores amigos, o xodó do grupo, ia casar!
  Jack sorriu abertamente ao me notar indo até ele e Cameron no altar. Quando percebeu meus olhos cheios de lágrimas teimosas e fujonas, o músico também não conseguiu conter sua emoção. Eu sabia que era mais do que importante para ele que seus amigos estivessem reunidos novamente, sabíamos o quanto ele se sentia culpado por ter sido um dos primeiros a ir embora de HW, mas quando ele e Victoria reataram, prometeram um ao outro que fariam o possível para se manterem juntos e a prova de fogo entre eles aconteceu quando Vic conseguiu o emprego que queria em outra cidade.
  — Hoje é o dia! — expressei animada, abraçando-o, emocionada.
  — Hoje é o dia! — confirmou Jack, rindo. — Como você está, %Julie%?
  — Muito feliz por você — contei, sincera. — Desculpa não ter vindo antes para o ensaio e tudo mais.
  — Tudo bem, não perdeu nada muito importante. — Jack abanou as mãos. — Na verdade, eu trouxe algo para você — comentou, estendendo as mãos para um dos seus padrinhos de casamento. — Cam, onde está aquela sacola que eu pedi para você guardar? — pediu, recebendo o embrulho logo em seguida.
  — O que é isso? — Franzi o cenho, confusa.
  — A peruca — enunciou simplesmente, entregando-me a sacola.
  — Que peruca, Jack? — O rapaz ergueu as sobrancelhas, insinuante. E então, eu lembrei.
  “— É capaz de Jack casar antes de todos nós.
  — Ah, boa piada! — %Julie% gargalhou, batendo palmas.
  — Não entendi por que o desdém! — reclamou Jack. — Vou casar antes de todas vocês, querem apostar?
  — Eu entro na igreja com uma peruca rosa se algum de vocês se casarem um dia. — debochou %Julie%. Conhecia os amigos e não conseguia vê-los sendo adeptos de uma imposição tão patriarcal e conservadora da sociedade, segundo o que ela acreditava.
  — Agora me atingiu! — reclamou Cam, batendo o copo na mesa.
  — Querida, eu já até escolhi o meu vestido e nem noivo eu tenho! — Dana juntou-se às reclamações.
  — Amor, você vai acabar usando uma peruca rosa no próprio casamento — %Filipe% brincou provocante, bebericando da própria cerveja”.
  — Você não pode estar falando sério — quase gritei, exasperada, abrindo a sacola e encontrando uma peruca de cabelos longos rosa. — Eu não vou sair nas fotos do seu casamento com isso, Jack! — reclamei, tentando não chamar atenção, o que foi impossível já que estávamos no altar.
  — Devia ter pensado nisso ao fazer a aposta. — Riu, dando de ombros.
  — Eu ainda acho que você só casou para vencer essa aposta! — Cameron gargalhou, erguendo os punhos para que Jack tocasse.
  — Isso é... Uma peruca de cosplay? — Analisei o objeto. — Eu paguei caro no meu penteado para você me fazer usar uma peruca usada!?
  — Peguei emprestado com uma priminha, você acha mesmo que eu ia gastar dinheiro com isso? — zombou Jack, fazendo Cameron gargalhar e erguer os punhos para Jack novamente.
  — Você me paga — resmunguei, enfurecida.
  Vi Dana prender seus lábios para não soltar uma gargalhada quando entrou na igreja e se deparou com a cena que ridícula que eu protagonizava. Não existia nada mais “nós” do que a cena que ela — e mais de 80 convidados — viam acontecer no altar naquele momento. Cameron colocava brutamente uma peruca rosa na minha cabeça enquanto Jack gargalhava tanto que suas maçãs do rosto estavam avermelhadas.
  Perguntei-me se Dana sentia nossa falta. Eu e Cam morávamos na mesma rua, Jack estava a poucas horas de HW e podia encontrar os amigos sempre que quisesse. Ela, entretanto, estava do outro lado do mundo. Se o amável e caloroso Jeins era solitário sem meus amigos, imagina só, como seria a gélida Inglaterra?
  — Eu já disse que você é um idiota? — resmunguei, arrumando a peruca na cabeça.
  — Vocês são ridículos! Que porra é essa? — Dana tentou se fazer de desentendida, mas seu sorriso escapou dos lábios antes que terminasse a frase.
  — Estamos em uma igreja, mulher. Contenha-se! — Cam brincou, beliscando levemente o ombro nu da mulher.
  Tentei manter o cabelo falso no lugar, sentindo o dinheiro que gastei no salão escorrer pelos seus dedos. Ouvi algumas risadas na área superior da igreja, onde ficava um pequeno palco, com os instrumentos, a banda e o coral da igreja. Coral esse que seria muito bem regido pelo cantor de mais sucesso da pequena Hillswood em tempos. %Filipe% %Buchart%.
  Ele me olhava, sorrindo de lado e riu de verdade quando viu Jack apontar para ele, sibilando um “eu não disse?”. Rapidamente desci o olhar para fugir de %Filipe% e seu magnetismo intenso. Era tão estranho que mesmo após tantos anos, eu ainda sentia meu coração bater de forma infantil e descompensada só de ouvir o nome dele. Vê-lo ali, mais bonito do que nunca, encantando a todos com sua voz e suas baladas românticas. Cantar no casamento do melhor amigo... Isso era algo extremamente %Filipe% de se fazer. Com sorte, eu conseguiria manter o olhar apenas no altar.
  Uma breve agitação surgiu, indicando que o momento mais aguardado estava prestes a acontecer. Dana e eu corremos para nossos lugares nas cadeiras das primeiras filas, titubeei ao notar que teríamos que ficar lado a lado. Nos entreolhamos, estranhando a proximidade tão inusitada e agora, desconhecida. Mas antes que pudéssemos deixar tudo ainda mais estranho indo em busca de outro lugar, os acordes iniciais da música começaram. Sem tempo de sentar, apenas viramos e olhamos para a entrada.
  Ao som de Marry Me na belíssima voz de %Filipe% %Buchart%, Victoria entrou na igreja, caminhando sozinha como solteira pela última vez. A igreja inteira assistiu, quase embasbacados, aquele casal se olhando intensa e fixamente, de olhos marejados, irem de encontro um ao outro. Sem sorrisos, apenas certezas. Até quem era contra o casamento, até quem não chorava, se emocionou tamanha a intensidade do momento.
  Cameron devia estar se amaldiçoando pois sabia que seria zombado por sair chorando quase desesperadamente nas filmagens. %Filipe% engasgou no refrão, quase não conseguindo continuar. E logo ali na frente, na primeira fileira, duas mãos, quase desconhecidas, acabaram entrelaçando-se sem nem perceber.
  Todos nós prendemos um suspiro na garganta antes de Jack dizer a palavra mais aguardada da noite: o sim. Não havia dúvidas de que Jack e Victoria aceitariam um ao outro em matrimônio, mas era extremamente significativo ver um dos nossos entrando em uma nova etapa da sua vida. Em um momento como aquele, em que todos estavam em uma fase da vida adulta em que tudo estava meio “solto”, cheio de interrogações e monotonia, ver o cara que era a alma da festa, que era o restinho de juventude que reinava entre a gente, casando era incrível! Parecia o início de uma nova vida para todos nós.

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  Olhei-me no espelho, limpando os vestígios da maquiagem que teimavam em sair. Tudo bem que a cerimônia inteira arrancou todos os tipos de emoções de mim e eu havia chorado igual uma condenada à forca, mas ainda assim, a maquiagem foi cara demais para se desfazer com algumas lagrimazinhas. Tentei deixar a peruca do melhor modo possível e até que havia ficado bonitinho em mim, porém, não combinava em nada com o meu vestido perfeito! Infelizmente, a aposta era até meia noite e eu era uma mulher de palavra.
  Saí do banheiro, meio dispersa. Eu já estava de volta a pousada onde estava hospedada, pois ali seria a recepção do casamento, mas meus amigos ainda não estavam por ali e eu não conhecia muita gente da família de Jack, apenas alguns amigos em comum que tínhamos. Decidi ir até o bar e ficar escondida por lá até ficar bêbada o suficiente para não sentir vergonha de estar usando uma porra de uma peruca.
  — Então, qual é a história? — o barman bonitinho perguntou enquanto me servia um drink colorido.
  — Do quê? — Estranhei a pergunta, ele sorriu apontando para minha cabeça. — Ah, sim! Perdi uma aposta com o noivo. — Dei de ombros, fazendo-o rir.
  — Se o intuito foi deixar você feia, não funcionou — respondeu, galanteador. Sorri sem graça e agradeci.
  Eu ainda não era muito acostumada com esse tipo de reação dos homens comigo. Percorri o salão com o olhar, bebericando da minha bebida. O local já estava cheio, todos já estavam ali, menos os recém-casados, o padrinho e Dana, que havia ficado para ajudar Victoria com o vestido. Infelizmente, as únicas pessoas que ainda não estavam ali, eram as únicas que eu era próxima o suficiente. Bom, nem todos...
  Olhei para a mesa decorada, abarrotada de doces e guloseimas, encontrando %Filipe%, atacando algum alimento de forma feroz. Eu sabia que o homem estava em uma rotina infernal e que ele tivera que se multiplicar em três para conseguir estar ali durante o final de semana. Isso também explicava o porquê de ele estar comendo aquele doce de forma quase desesperada, o jantar não havia sido liberado e eu sabia que ele tinha ido direto do aeroporto para o casamento.
  Sorri, balançando a cabeça. Eu estava sentindo uma saudade tão gostosa dele que nem chegava a ser ruim, era apenas... saudade.
  — Minha irmã é fã. — Ouvi o barman comentar, me tirando de meus próprios pensamentos. Explicou-se, apontando para %Fil%, quando notou minha confusão. — %Buchart%. Minha irmã o adora.
  — É? Qual o nome dela? Posse tentar conseguir algo para você — sugeri.
  — O nome dela é Elisa... Você o conhece? — perguntou, curioso.
  — Mais ou menos — disse, mordendo o canudinho rosa preso no copo. — A gente se beijou umas vezes, mas acho que ele não se lembra de mim. — Prendi os lábios, segurando-me para não rir da minha própria brincadeira.
  — Por que não tenta a sorte? — sugeriu o homem. Olhei novamente em direção ao meu cantor, que agora estava ficando rodeado de pessoas. Ele apenas sorria e acenava enquanto falavam com ele, isso me fez rir porque eu sabia que ele estava com a boca lotada de comida. — O máximo que pode acontecer é ele não lembrar de você. Aí você volta aqui e eu preparo um drink especial para você.
  — Quer saber? Eu vou tentar — assegurei, ansiosa. Tirei o canudinho preso do copo e virei o conteúdo inteiro na minha boca em um gole apenas. Estiquei uma mão, batendo na mão do barman, cumprimentando-o e fazendo rir.
  A cada passo que eu dava em direção a ele, sentia meu coração quase chegar na minha garganta. Imaginei que eu tropeçaria em meu próprio vestido, meu salto quebraria, eu escorregaria, a peruca cairia, mas acabei chegando a ele de forma rápida e graciosa. Ele estava de costas e a poucos centímetros de mim, mas eu já sentia o seu perfume brincar ao meu redor. O terno totalmente preto contrastou perfeitamente com sua pele bronzeada do sol de Miami e era sempre maravilhoso assisti-lo em seu habitat natural, sendo o “popstar” que ele fora designado a ser.
  Caramba, %Filipe%.
  — Nossa, eu sei que é difícil falar com gente famosa, mas você está quase impossível. — Apoiei meu corpo na mesa, encarando-o de lado com uma sobrancelha erguida, tentando ficar o mais bonita possível aos olhos dele. Seu corpo virou rapidamente, ignorando quem estava a sua frente. Olhou-me com as sobrancelhas erguidas, mas depois que me reconheceu, sua expressão suavizou e foi uma delícia assistir isso.
  Caramba, %Filipe%.
  — %Julieta% Young. — Olhou-me dos pés à cabeça, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar com a indiscrição de seus olhos nebulosos.
  — Você está... — Procurei um adjetivo para classificá-lo, sentindo certa dificuldade. Assenti, mordendo os lábios. — Muito bonito. E com glacê na boca. — Estiquei o dedo, limpando seu lábio inferior lentamente.
  — Cuidado aí, Young. Não parece, mas minha namorada é doida. Ela está aqui, é a de peruca rosa. — Estalei uma tapa em seu braço e ele gargalhou, jogando a cabeça para trás e puxou-me pela cintura. — É fácil de achá-la. Só procurar pelo sorriso mais bonito e... — Ergueu uma sobrancelha, descendo o olhar pelo meu busto. — Pelo maior decote.
  — Você está inspirado! — zombei, apertando sua bochecha.
  — É saudades de você — expressou, puxando-me para um beijo leve e demorado.
  Eu e %Filipe% estávamos a quase quatro anos juntos. Eu sei, às vezes eu também sinto uma certa dificuldade em acreditar nisso. %Fil% era meu relacionamento mais maduro e estável, até nossas brigas e términos sem sentido ficaram para trás. Passávamos tanto tempo longe que não queríamos perder tempo com nada quando estávamos juntos. Isso tudo porque era muito difícil conciliar minha vida com os horários de %Fil%.
  O cara havia emendado show atrás de show, até parece que ele estava em uma turnê eterna, sempre viajando, sempre em estúdio, porém, eu precisava ser justa e reconhecer que ele sempre tentava ser o mais presente possível. Eu tinha muito receio de que, algum dia, isso se tornaria um problema entre a gente.
  — Cara, você deixou o quarto uma bagunça de novo! Tinha roupa pendurada até na TV... — Me distanciei de seus lábios para reclamar, mas logo fui interrompida de novo por um de seus beijos. Empurrei seu ombro. — Deixa eu falar! Você deixou a toalha no... — Novamente interrompida. — %Filipe%!
  — Vai parar de reclamar? — questionou desafiador, arqueando uma sobrancelha.
  Mesmo que evidentemente mais maduro, o rosto juvenil e doce de %Filipe% nunca mudou, assim como sua personalidade serena e pouco agitada. Rolei os olhos, pois já estava totalmente rendida. Todas essas idas e vindas nos deixavam mais... atentos um ao outro.
  Ou seja, completamente tarados um pelo outro.
  — Só se você parar de me beijar — alertei, passando os braços em volta do seu pescoço, encostando nossos lábios. Quando senti as mãos do rapaz descendo de forma audaciosa pelo meu quadril, me afastei sorrindo. — Como foi a viagem? — Ele rolou os olhos ao notar que eu só estava afastando-o.
  — Horrível, não consegui dormir nem por dez minutos. — %Fil% continuou contando sobre o voo, mas desviei a atenção ao sentir que éramos o foco do olhar de alguém. O barman.
  Prendi os lábios em um sorriso ao ver a expressão confusa do rapaz ao me ver abraçada com %Filipe% de forma intima. Ele pareceu entender minha brincadeira quando me viu sorrindo travessa. Riu, assentindo para si mesmo e levantou o copo que estava em suas mãos, brindando a mim.
  — O que foi? — %Fil% questionou, olhando para trás. O barman acenou com a mão ainda rindo e %Fil% apenas acenou com a cabeça, desconfiado. — Quem é esse?
  — Estávamos conversando e eu disse que era uma fã e que havia te beijado algum tempo atrás, mas não sabia se você lembrava de mim — expliquei, rindo. — Foi uma conversa engraçada...
  — Conversando? — Ergueu uma sobrancelha, apertando minha cintura com as duas mãos. Revirei os olhos, rindo.
  — Amor, o ciúme mata — brinquei, selando nossos lábios. — Ele pode estar interessado em você, ué.
  — O que é pior! Pois eu não sou ciumento, mas a minha namorada... Completamente maluca! — Abri a boca, fingindo choque com sua declaração e belisquei seus ombros.
  Apesar de sermos aquele casal que divide o plano de saúde, as despesas do supermercado e que brigam quando um algum de nós esquece de pagar a conta de luz, nós nunca paramos com as provocações bobas e brincadeiras inadequadas. E também não moramos juntos. Eu sei, é complicado entender.
  — Casal! — Foi Cameron que interrompeu nossa brincadeira, aproximando-se com quatro copos e uma garrafa transparente em mãos, oferecendo-nos. — Feliz casamento a vocês! — Abriu a garrafa enquanto dividíamos os copos entre a gente.
  — O que é isso? — questionou %Filipe%, cheirando o líquido no copo e logo depois fez uma careta. — Argh, é tequila!
  — Nem pensar! — Quase taquei o copo longe com tamanha náusea que senti. — O último porre que tive com tequila eu não lembro até hoje como cheguei em casa.
  — É o casamento do cara! Vocês acham mesmo que Jack, conhecido por suas bebidas extravagantes, não ia aloprar justamente hoje? — Cam estava certo sobre isso. Jack vinha planejando o cardápio de bebidas a um tempo, prometeu ser especial e do gosto de todo mundo. Mas era perigoso confiar em Jack quando se tratava de bebidas alcoólicas.
  — Cadê todo mundo? — questionou %Filipe%. Foi o primeiro a criticar a bebida, mas ele já estava bebericando.
  — Os noivos estão ali no salão de trás, quase fazendo um segundo ensaio fotográfico. E a Dana está... — O homem procurou com os olhos, parando atrás de nós. — Aqui.
  Quase senti um gosto amargo na boca quando me virei e Dana caminhava em nossa direção, com suas longas pernas e seu cabelo sedoso. O mar de gente se abria para que ela passasse. E toda essa adoração — evidente até nos olhares dos dois caras ao meu lado — deveria me fazer odiá-la. Porém... Droga, eu a amava tanto. E sentia muito a sua falta e não tinha a menor vergonha de admitir isso para mim mesma.
  — Não bebam isso, é cilada do Jack. Tem uns vinhos maravilhosos que serão servidos daqui a pouco — orientou Dana, apontando para a garrafa na mão de Cam. Ela virou o rosto, olhando para %Filipe% e abrindo um sorriso radiante. — Oi, estrela!
  — Dizzy girl! — Ele abriu os braços, abraçando-a tão forte que a tirou do chão. — Que saudades!
  — Muita! — concordou, arrumando o vestido quando voltou ao lugar. Mordi os lábios, sentindo-me tão nervosa que parecia que eu estava indo para alguma reunião importante. Ela virou o rosto, encarando-me, porém, não de forma maldosa ou superior. Apenas me olhava.
  — Oi. — Me ouvi dizendo sem nem perceber.
  — Eu já havia dito “oi” — enunciou, categoricamente.
  — Eu ouvi, mas não havia respondido. — Ela assentiu, aceitando a explicação e voltou a desviar o olhar.
  — Caramba, quase não voltei a respirar agora — explanou Cam, exalando ar e ajeitando a gravata. Rolei os olhos quando %Fil% caiu na risada com a indiscrição de Cam. — Venham, vamos procurar Jack e Vic.

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  — Eu te odeio.
  — Não odeia, não.
  — Odeio! Não acredito que estou saindo nas fotos do seu casamento de peruca! — reclamei entre dentes, congelando meu sorriso enquanto vários flashes estouravam em nós.
  Depois que encontramos os recém-casados, entramos sem querer em uma nova sessão de fotos com os mesmos. Todas as fotos haviam ficados lindas e divertidas, mas ainda assim, Jack quis tirar uma foto apenas comigo, usando o discurso que eu havia honrado minha palavra e minha amizade naquele dia. O que era uma grande canalhice porque eu sabia que ele apenas estava se divertindo às custas do meu embaraço. Eu podia ver que o resto do grupo também se divertia, rindo enquanto Jack fazia poses mirabolantes ao me lado.
  — Podia ser pior, você poderia estar usando a peruca no seu próprio casamento. — Deu de ombros, jogando um braço por cima dos meus ombros.
  — Claro que não, isso é impossível! — resmunguei, cruzando os braços.
  — Claro que foi impossível, você disse “não”. — Arregalei os olhos, olhando-o enraivecida por seu comentário impulsivo e insensato. O idiota continuou falando sem notar que eu o fuzilava com os olhos enquanto agradecia mentalmente que estivéssemos um pouco afastados, onde não seria possível nos escutar. Eu sabia que os meninos tinham conhecimento sobre o que havia acontecido, mas foi a primeira vez que alguém falou publicamente sobre. — Foi por isso que você negou? A gente relevaria por ser seu casamen... Desculpe.
  — Você está maluco? — Rosnei, apertando o braço do engravatado ao meu lado.
  — Foi muito rude da minha parte e eu deveria aprender a ficar quieto, peço mil desculpas — Jack emitiu as palavras rapidamente, quase atropelando-as, repetindo a desculpa que sempre usava quando passava do ponto. E ele havia passado demais dessa vez.
  Ainda era doloroso lembrar do dia que %Filipe% %Buchart% me pediu em casamento e eu disse não.
  Foi em algum mês de junho em que %Filipe% havia tirado alguns dias de férias, decidimos lembrar dos velhos tempos e fomos jantar no Takeo, como era costume entre nós. A noite que deveria ser apenas lazer e diversão acabou tornando-se uma quase reunião de negócios domésticos entre nós dois.
  Passamos a noite falando sobre o preço da gasolina, sobre a conta de luz exorbitante que %Filipe% vinha pagando por conta de seu estúdio caseiro. Discutimos por que eu havia pedido para que ele comprasse materiais de limpeza para meu apartamento e ele havia esquecido. Debatemos se deveríamos ou não instalar uma nova câmera no pátio da casa dele. Combinamos de ir ao banco resolver a questão do crédito do meu cartão e ele aproveitaria para debitar seus cheques atrasados.
  E no meio de um argumento e outro, %Filipe% riu docemente e bebericando seu copo de suco, questionou divertidamente:
  “— Quando nos tornamos um casal de 40 anos de casados?
  — Talvez dois anos atrás, quando eu decidi pedir você em namoro. — Dei de ombros, sorrindo com a lembrança.
  — Dois? Fala sério, temos, pelo menos, quatro anos. — Quando abri a boca para contestar, ele me interrompeu com um ar zombeteiro. — A quem estávamos enganando naquele primeiro ano? Viramos um casal no momento em que pus meus olhos em você.
  — Para variar, eu discordo — atestei, cruzando os braços. — Você bem sabe que em nosso início você tinha muitas dúvidas sobre mim e meus sentimentos.
  — E com razão, não é, %Julieta%? Você me deixou louco com tanta inconstância — resmungou, mas sem perder o sorriso.
  — Pare de reclamar, eu me redimi pedindo você em namoro! — enunciei, orgulhosa. Eu me sentia a maioral quando lembrava disso.
  — É verdade, precisamos combinar que o próximo pedido será meu — sugeriu, mordendo uma batata frita.
  — Próximo? Está pensando em me pedir em namoro de novo? — brinquei, tomando um grande gole de refrigerante.
  — Não seja boba. — Riu levemente, balançando as mãos. Franzi as sobrancelhas, tentando demonstrar minha não compreensão. — O pedido de casamento, ué.
  A bebida sequer conseguir manter-se dentro da minha boca tamanho foi meu susto com sua revelação. Comecei a tossir exageradamente, fazendo-o rir enquanto estendia alguns lenços descartáveis para que limpasse a sujeira que eu estava fazendo ali.
  — Não fala isso — pedi, ainda me sentindo afogada. Tanto pelo refrigerante, quanto pela declaração improvável e inesperada de meu namorado.
  — O que foi? Você acha que não vai acontecer? — perguntou, mantendo seu ar de zombaria e superioridade.
  — Felipe! — o repreendi.
  — Baby, eu vou ser legal com você e já deixar avisado que um dia, %Julieta% Young, eu vou pedir você em casamento — disse isso encarando meus olhos de forma firme e sincera, me fazendo crer fielmente em suas palavras.
  E é claro que isso me desesperou.
  — Para! — exclamei. — Isso não faz sentido!
  — Por que você está surtando? O que você tem contra casamento? — Cruzou os braços, rindo de leve.
  — E-eu não sei, suponho que bastante coisa... — gaguejei, quase não conseguindo completar a frase, pois %Filipe% olhava-me de forma quase inquisitória.
  — Você sabe que somos quase um casal casado, não é?
  — Claro que não! — respondi, quase sentindo revolta.
  — Amor, dividimos o plano de saúde... — exemplificou pacientemente.
  — Porque a promoção estava boa demais para que ignorássemos! — retruquei, gesticulando exageradamente, sentindo a ansiedade se apoderar de mim. — E eu precisava de fisioterapia novamente! — Alguns meses atrás, minha mão direita resolveu me incomodar novamente. Eu sentia muitas dores e, às vezes, não conseguia fazer com que ela trabalhasse da forma que deveria.
  — Tudo bem, só estou dizendo que talvez casamento não esteja tão longe da nossa realidade quanto achamos. E não estou falando de véu, grinalda e igreja. Falo de relação estável, reconhecida no Estado, testamentos... %Julieta%, seu olhar assustado está me assustando! — quase gritou, interrompendo seu próprio discurso.
  — Ótimo porque você está me assustando! — Terminei a bebida que ainda restava em um gole, tentando engolir tudo o que %Filipe% falava.
  — De onde veio essa aversão a compromisso? — quis saber, apoiando a mão no queixo e esperando por uma resposta minha.
  — Sempre esteve aqui, esqueceu? — Revirei os olhos, impaciente. — %Filipe%, sequer moramos juntos!
  — Na verdade, esqueci mesmo. Já tem um tempo que você nos se nega mais quando se trata de mim. Eu poderia aproveitar isso e pedir sua mão aqui e agora. — Apontou, cruzando os braços e franzindo a testa de forma estranha.
  — %Filipe%, não seja ridículo! — bradei, negando com a cabeça. Olhei em volta, encarando as águas calmas do rio, que parecia nos assistir também. A noite estava estrelada e a lua parecia iluminar todo lugar onda a eletricidade não chegava. Perdi alguns segundos em pensamento, quando notei que %Filipe% ainda me encarava, porém, agora seus olhos transbordavam intensidade. Suspirei, preocupada com o que viria a seguir. — Para, amor...
  — %Julieta% Young — recitou meu nome, sentando-se de forma ereta e procurando minhas mãos. E eu, completamente incrédula, me desesperei.
  — %Filipe%, você está maluco! Eu vou embora! — Tentei levantar, mas fui impedida por seu braço tentando me manter no lugar.
  — Qual o problema? — questionou, sorrindo de forma marota e infantil, como se estivesse amando me deixar completamente louca. E devia estar mesmo.
  — Você vai me pedir em casamento — sussurrei como se estivesse contando-o um segredo. Achei que %Filipe% fosse rir de minha reação, achei que fosse descontrair, brincar, fingir que estava alucinando. Entretanto, puxou minha cadeira para próximo de si e olhou em meus olhos, deixando-me paralisada. — Ah, meu Deus. Você vai...
  — Sim. — Assentiu, tão calmo que nem parecia estar colocando todo nosso futuro em cheque ali mesmo. — Eu sei que não tem flores, nem velas e eu, definitivamente, não estava planejando isso, mas fala sério, nunca fomos muito românticos mesmo...
  — %Fil%... — pedi em um fiapo de voz, quase choramingando. Ele não podia estar falando sério. Aquilo não poderia estar acontecendo.
  — Eu amo você, bastante. E você me ama, muito.
  — Não.
  — Não? Você não me ama? — brincou, mas pude notar que ele vacilara pela primeira vez.
  — É claro que eu amo, é só que... — Acabei vacilando também, senti meu peito subir e descer de forma desenfreada.
  — Você quer casar comigo?
  Meus lábios se abriram completamente em choque. Eu estava totalmente incrédula com o fato de que aquilo estava de fato acontecendo. Eu sequer entendia como havíamos chegado a esse ponto da conversa. É claro que eu o amava, mais que tudo. %Filipe% mudou tudo desde que chegou, eu não podia negar que me tornara melhor com ele. Tudo era melhor com ele, porém...
  — Você não pode estar falando sério. — Meus lábios tremeram, sequer conseguia respirar. Por um instante, %Filipe% pareceu pensativo e, em seguida, pareceu ligeiramente chateado. Mas ainda assim, ele tocou minha face com ambas as mãos e beijou-me de forma delicada.
  — Acho que nós deveríamos pedir para embalar o resto da comida e levarmos para casa — murmurou com os lábios nos meus.
  — Que casa? — perguntei, ainda paralisada, sem conseguir tirar meus lábios dos seus.
  — Você para sua e eu para a minha. — Afastou-se, beijando minha bochecha e levantou-se da cadeira.
  — Como assim?
  — Como você disse, não moramos juntos. — Deu de ombros, fazendo sinal para a garçonete mais próxima. — E você acabou de me negar em casamento, acho que irmos para nossas casas é bastante razoável, não acha?
  — Não, não acho! O que... O que diabos está acontecendo? — exclamei, afetada e levantei junto a ele. — Eu estou louca ou você estava falando sério?
  — Ambos. — Foi a única resposta que tive pelo resto da noite”.
  Anos atrás, nós iríamos ignorar o episódio do casamento, porém, %Fil% e eu agora éramos maduros o suficiente para conversamos sobre algo sem que sentíssemos vontade de matar um ao outro... na maioria das vezes, é claro. Então, depois de irmos cada um para sua casa e passarmos alguns dias sendo estranhos um com o outro, decidimos conversar sobre o que havia acontecido. Eu também não soube explicar meu breve surto, nunca havia pensado que um dia me casaria e também costumava pensar que era jovem demais para isso. Mas como %Filipe% fez questão de me lembrar de forma nada delicada, não éramos mais tão jovens assim. Todos estávamos com trinta e poucos anos e havia muito daquela pressão ridícula para que as coisas começassem a mudar.
  Estávamos decididos a deixar as coisas acontecerem de forma natural, %Filipe% afirmou que sua intenção jamais havia sido para me pressionar ou algo do tipo, mas também deixou claro o quão decepcionado ficou comigo. Tudo ia bem, até nosso aniversario de namoro e o maldito presente surpresa de %Filipe%.
  Ele me presenteou com um anel. Tudo bem que não era uma aliança, nem nada parecida. Foi um impecável anel de ouro rose, o problema é que foi uma porra de um anel! Com uma porra de um diamante solitário! Um diamante! Eu, é claro, surtei. Ele, é claro, rebateu. Aí tivemos uma briga feia justamente em nosso aniversario. No fundo, não estávamos brigando pelo anel e, sim, pelo pedido de casamento frustrado.
  Ficamos distantes por uns dias, até Jack — que já estava noivo de Victoria — anunciar a data de seu casamento, %Filipe% precisou viajar a trabalho e eu também, logo, isso acabou tomando nossa atenção. Estarmos juntos nesse casamento ainda era estranho, talvez estivéssemos sentindo tanta saudade um do outro que sequer paramos para pensar na ironia que estava sendo esse dia.
  Desviei o olhar enquanto Cam falava sobre a DJ contratada e como era bonita. Estávamos todos sentados em um canto do grande salão de festas, conversando e comentando sobre tudo enquanto esperávamos pela abertura da pista de dança. A bebida e o ambiente enérgico nos deixavam meio nostálgicos e prontos para dançar e brincar como se não houvesse amanhã.
  Fiquei encarando a mão de %Filipe% — que repousava suavemente em minha perna — e me peguei imaginando a porra da aliança ali, como seria a mão de %Filipe% na minha enquanto usava uma aliança. O que mudaria e se algo mudaria entre nós. Perdida em pensamentos e sem nem perceber, passei a acariciar o local em seu dedo onde ficaria a aliança. O aperto leve em minha coxa tirou-me de meus devaneios e olhei para cima, encontrando %Filipe% e seu olhar desconfiado.
  — Tudo bem? — murmurou para que apenas eu escutasse sua pergunta. Assenti, sentindo-me estranhamente melancólica.
  — Eu senti muito a sua falta. — Ele sorriu, carinhoso. Puxou-me pelo queixo, encostando seus lábios nos meus delicadamente.
  — Ei! Ei! — Ouvi a voz irritando de Jack e me afastei. — Vocês estão se beijando? — perguntou, fingindo inocência, mas na verdade, ele só queria perturbar nossa vida. Revirei os olhos, ainda irritada com sua fala anterior que acabou trazendo aquele assunto complicado a minha mente de novo.
  — Não estamos, não. É que caiu um negócio por aqui, assim... — brincou, apontando para minha boca e me fazendo gargalhar com a desculpa esfarrapada.
  — E você para de atrapalhar o romance alheio, garoto! — Vic apareceu por trás de Jack, puxando sua orelha e nos fazendo rir. A mulher ainda não havia tido tempo de sentar ao nosso lado para conversar sobre o dia que estava tendo. — Eu mal casei e já estão me perguntando dos filhos — a recém-casada reclamou, virando todo o líquido alcoólico azul em sua boca e sentando no colo de seu novo marido.
  — Nova aposta? — Cam sugeriu, rindo.
  — Eu me candidato! — Ergui um braço, animada.
  — Você fica quieta aí! — reclamou %Filipe%, abaixando o meu braço.
  Eu sabia que %Fil% e eu éramos diferentes em (quase) tudo, mas o tempo nos mostrava que sempre era possível piorar. Depois de me tornar tia e ser completamente obcecada pelo meu sobrinho Ben, meu instinto maternal havia aflorado espontaneamente e agora eu havia colocado na cabeça que gostava muito de crianças e que algum dia, eu seria mãe. O que era o oposto do que meu namorado achava. %Filipe% não tinha muita afinidade com crianças e também nunca tinha pensando muito em ser pai.
  Depois que descobrimos isso em uma conversa aleatória qualquer, não perdíamos a oportunidade de instigar um ao outro com o assunto. Não parecia muito apropriado que a maternidade/paternidade fosse objeto de nossas brincadeiras, especialmente em um momento que assuntos mais sérios como casamento faziam-se presentes, mas e daí? Nunca fomos muito adequados mesmo.
  — Não fala assim! Vai que já tem um baby aqui? — brinquei, acariciando a própria barriga. Claro que não haviam possibilidades, nós éramos mais do que prevenidos, porém, eu não perderia a chance de zoar com o medo iminente do meu namorado.
  — Você está maluca! Continua com essa ideia de ter filho para você ver se eu não tranco você fora do quarto hoje — expressou, esganiçado, tirando o braço de meus ombros e me empurrando levemente.
  — Por enquanto, eu me contento em ser tia do pequeno de vocês. — Victoria riu, levantando-se do colo de Jack e puxando-o pela mão. — Vem, está na hora de abrir essa pista, dançar a noite toda e ficar tão bêbada que vou esquecer que me casei.
  — Eu escolhi a pessoa certa, senhoras e senhores! — brincou Jack, apoiando a mão no próprio peito.
  — Bom, eu preciso verificar algumas coisas lá atrás — %Fil% informou, acariciando meu joelho e levantando também. — E você não ia pegar mais bebida? — perguntou a Cam, que pareceu ligeiramente confuso.
  — Ér... — Esticou-se, olhando para o copo que repousava em sua frente. — É, preciso.
  E partiram, deixando-me na mesa com duas grandes amigas: Dana e um puta clima pesado. Ela os olhou, meio confusa, talvez estivesse procurando uma desculpa para se afastar também, mas não achou nenhuma. Eu sei porque eu estava fazendo o mesmo. Brinquei com minhas mãos, apertando-as de leve, confusa com o que eu deveria fazer a seguir. Era a primeira vez, desde aquele dia, em que eu e Dana ficávamos sozinhas.
  — Então... — Pigarreei, surpresa que eu tenha sido a primeira a falar. — Como vai Londres? — Ela também pareceu surpresa, mas disfarçou cobrindo o rosto com a taça.
  — Fria, como sempre. — Assenti, mordendo os lábios. “vamos lá, Dana, isso não precisa ser tão ruim. É só você seguir as regras básicas de comunicação”, torci. Parecia contrariada, mas ainda assim, perguntou. — Como vai HW?
  — Solitária. — Pensei antes de responder e decidi ser sincera. — Ninguém mais fica por perto, sabe como é...
  — Sei — assegurou, assentindo brevemente.
  Suspirei, sentindo a vergonha começando a aparecer. Após anos refletindo, eu tinha plena certeza de que errei com Dana. Tudo o que havia acontecido entre nós havia sido minha culpa. A raiva e a irritação por conta de nosso grave desentendimento ainda estavam presentes nela, então tinha toda razão em ainda me odiar e não sentir tanta falta de mim assim.
  — Fomos emboscadas.
  — Quê? — Retirou-me de minhas reflexões com sua acusação. Ela apontou com a cabeça, mostrando %Fil% e Cameron tentando disfarçar o fato de estarem nos observando. Estiquei a mão, peguei o copo de Cam e bufei ao comprovar a teoria de Dana. O copo do imbecil estava cheio. — Idiotas.
  Cruzei os braços, pensativa. As lembranças daquele dia me agrediam quase sempre, principalmente durante dias em que chovia. Nossa briga havia acontecido em um quarta-feira chuvosa, quando Dana decidiu me contar sobre sua mais nova aventura. Iria embora da cidade com seu novo namorado. Iria deixar toda a sua carreira, sua casa própria, sem emprego, seus amigos para ir morar com seu namorado, um cara que estava em nossas vidas a menos de cinco meses.
  Eu não tinha nada contra ele. Pelo contrário, conhecíamos Ed já havia alguns anos, é claro que foi uma surpresa quando ele e Dana se entenderam e, de repente, já haviam se tornado um casal inseparável. Ele era um cara legal e gentil e eu não tinha objeções contra ele, até o dia em que o cara conseguiu um emprego do outro lado do mundo e foi embora. E levou minha melhor amiga com ele.
  “— Dana, o que você vai fazer é... Imaturo e irresponsável! Você já tem trinta anos e...
  — E por isso devo parar de viver? Trinta não é o fim de tudo, %Julieta%.
  — Eu sei que não, é só... — Bufei, esfregando o rosto, impaciente. Eu já nem sabia mais o que dizer. — Estou preocupada, é isso.
  — Eu sei me cuidar. — Rolou os olhos.
  — Sabe mesmo? — debochei, balançando a cabeça.
  — O que você quer dizer com isso? — Cruzou os braços, me encarando, nervosa. Pensei bem antes de responder, pois sabia que faltava pouco para que eu cruzasse a linha da crítica construtiva.
  — Você acabou de ser promovida! — desconversei. — Não é possível que está realmente pensando em largar tudo para viver de favor com um cara, do outro lado do mundo!
  — Me entristece você achar que eu não seria capaz de achar um novo emprego. — Dana jogou suas roupas dentro do guarda-roupas, revirando os olhos. Informalmente, no meio de nosso encontro semanal para lavagem de roupas, minha grande amiga decidiu jogar a bomba e contar que estava indo embora com o Ed.
  — Não foi isso que eu disse, não seja ridícula. — Bufei, amarrando meus cabelos no alto.
  — Ridícula é você, achando que isso é o fim do mundo — retrucou, cruzando os braços. Eu via em seus olhos que minhas contestações já estavam tirando sua paciência.
  — Quando eu fui obrigada a ir embora, eu quase morri de tanta tristeza. E você está agindo assim, como se... Nem consigo definir o nome para o que você está fazendo! — emiti, brava.
  — Porque você estava sendo obrigada, %Julie%! Eu estou indo por vontade própria. Eu sei muito bem o que quero.
  — Onde você vai morar? — questionei, apertando as minhas têmporas.
  — Não sei. — Deu de ombros.
  — E seus móveis? Sua casa? Seu emprego, pelo amor de Deus?! E eu? O que diabos você vai fazer com suas coisas? — indaguei repetidas vezes, quase sentindo minhas cabeça explodir.
  — Eu não sei! — Ela riu levemente. Quase abri a boca com indignação. — Isso não é ótimo? Pela primeira vez, eu só estou fazendo algo que tenho vontade.
  — Não é verdade. Você sempre faz o que tem vontade!
  — Sim, mas... é diferente agora. Eu estou apaixonada! Estou fazendo algo puramente com o coração! — afirmou, sonhadora, com um tom de voz quase emocionado. O que não diminuiu minha indignação, é claro.
  — Dana, vamos falar o óbvio: você e Ed estão namorando a cinco meses — expressei com sarcasmo.
  — Quatro, na verdade — corrigiu, dando de ombros.
  — Dana! — Indignei-me.
  — E daí? %Julieta%, o que aconteceu com você que não quer se deixar amar um pouco? — questionou, quase indignada com a minha pouca fé. — Eu tenho pena de %Filipe%.
  — Você não sabe do que está falando. — Apontei um dedo, ofendendo-me com sua afirmação errônea.
  — E daí se eu gosto tanto dele que faz meu peito explodir? Ele me deixa sem ar! Terrivelmente apaixonada e isso é incrível, você não passou por isso? Não importa se ficaremos juntos para sempre, eu não vou me arrepender de ter vivido uma história de amor linda e intensa com ele, diferente de você — discursou.
  — Só porque eu não larguei meu emprego, fiz loucuras de amor, não joguei balões de um avião, não quer dizer que eu não tive uma boa história de amor, porque eu tenho! — afirmei, sentindo-me ofendida com suas opiniões sobre mim e meu relacionamento.
  — Então de onde vem essa amargura toda em viver uma boa história de amor? O que %Filipe% fez que...
  — Para de falar do meu namorado e do meu relacionamento, ele não tem nada a ver com isso! — interrompi-a, perdendo a paciência.
  — E você não tem nada a ver comigo e com o que eu faço ou deixo de fazer! — Bateu os pés, irritada. — Eu vou embora com ele, %Julie%. E vai dar tudo certo e eu vou ser feliz como nunca fui antes, eu sei disso — afirmou, segura.
  — Você não é mais adolescente, Dana! Sequer vive em um filme para achar que está em um! — esbravejei, sem acreditar que precisava está tendo aquela conversa. — Quer saber? Isso não deveria ser surpresa para mim — emiti, mordaz.
  — Está insinuando algo? — esbravejou.
  — Você está sendo ingênua — declarei. — E mimada, agindo como a menina que você era quando saiu da casa do seus pais.
  — Garota, quando você se tornou meu pai? — gritou, brava. — Se querer viver a vida de outra forma, viver uma aventura é ingenuidade, por mim tudo bem. O que eu não quero é viver uma vida chata, onde eu acordo, trabalho durante doze horas por dia, estudo, de vez em quando saio para jantar com meu namorado, este que já conheceu o mundo inteiro, por sinal, enquanto eu fico em casa — atacou-me de forma ridícula.
  — Eu sempre trabalhei muito para chegar aonde eu estou hoje em dia, Dana. Não irei reclamar de ter uma vida estável, não chata. O emprego do meu namorado é do meu namorado, não meu — retruquei.
  — Trabalhou, né? Conseguir um emprego porque o dono da empresa é seu amigo é realmente uma conquista e tanto! — zombou. Senti meus olhos arderem quando Dana colocou minha vida profissional em questão, como se eu não tivesse merecimento algum no que eu fazia.
  — Agora você só está sendo injusta — balbuciei, engolindo em seco.
  — Assim como você! Não estou te pedindo porra nenhuma, estou tendo consideração e deixando você ciente sobre algo na minha vida. Se você não consegue lidar com isso, dane-se! Eu não vou mais me limitar para caber em suas projeções sobre mim.
  — Minhas projeções? — questionei, confusa. — Eu nunca te cobrei nada, Dana. Sempre deixei você livre para que você tomasse suas próprias decisões, quase nunca dava minha opinião sobre nada que envolvia as decisões da sua vida.
  — Então, por favor, não se meta nela! — exprimiu, raivosa. Seu grito acabou confundindo-se com o trovão que bradou lá fora.
  — Eu não consigo ficar quieta vendo você destruir a sua vida de forma tão idiota — revelei, esgotada.
  — Você não entende pois vive uma vidinha frívola, vazia, infeliz e chata! Seu relacionamento só funciona porque %Filipe% não passa mais de uma semana com você.
  Apertei os lábios, engolindo a vontade de chorar. Dana havia exposto um dos meus medos mais profundos, coisa que eu havia comentado com ela durante uma conversa e agora ela usava isso para me agredir. Foi um golpe baixíssimo.
  — Lutamos muito para construir uma boa estrutura em nossas vidas e você vai estragar tudo por causa de um namoro de alguns dias! — Engoli em seco, ignorando seu ataque e falando o que eu queria.
  — Pois eu não ligo, eu estou pouco me fodendo para o que você acha ou o que deixa de achar! Seus julgamentos já estão me deixando irritada, você prefere continuar com a cabeça no rabo a aceitar que alguém possa pensar diferente de você! — gritou, aborrecida.
  — Quer saber? Foda-se. — Procurei minha bolsa jogada no chão e calcei meus sapatos, sentindo meus olhos cheios de lágrimas. — Eu não sou obrigada. Eu estou literalmente pensando em você e no seu bem, se você não consegue enxergar isso, então não é problema meu.
  — Não é problema seu mesmo! — gritou novamente enquanto eu me afastava e corria porta afora de nosso antigo apartamento. — Arrogante.
  — Pirralha!
  Foi a última vez que nos falamos. Na época, foi difícil para o grupo, nenhum quis tomar lados, mas eu sabia que 50% do grupo concordava comigo. Não conseguíamos fazer nada juntos antes de Dana ir embora de vez pois a única vez que tentamos ficar no mesmo ambiente foi extremamente vergonhoso para todo mundo. Não houve festa de despedida, também não fui ao aeroporto com todos eles no dia de seu embarque. Ao invés disso, tranquei-me em meu escritório e chorei a noite inteira até %Filipe% chegar.
  Desde então, todas as notícias que tive de Dana fora por meio de algum dos garotos, que se viam de mãos atadas quando se tratava da nossa situação. A única coisa que eu sabia é que — obviamente — ela e Ed não estavam mais juntos e que fazia mestrado em história da arte em Londres
  — Devemos... — Estalei os lábios, procurando algo para sugerir. — Conversar?
  — Não — eespondeu, imediatamente. Assenti, sem saber muito bem o que fazer em seguida.
  — Eu vou... — Olhei em volta, procurando qualquer desculpa possível para sair daquela mesa e do clima inóspito dali. — Fingir que preciso ir ao banheiro. — Ela assentiu, encarando a parede do outro lado, sem dirigir o olhar até mim. Mas seus lábios estavam trêmulos. E ela não parava de chacoalhar os pés. — Preciso ir banheiro.
  Levantei da mesa sem esperar por respostas. Eu já estava me sentindo estúpida o suficiente por ter tentado uma comunicação saudável com a mulher, sem sucesso algum. Quase corri em direção ao banheiro, segurando a barra de meu vestido com uma mão e segurando a peruca com a outra.
  Tive vontade de jogar água da torneira em meu rosto, para afugentar o abatimento e os fantasmas do passado, mas a maquiagem havia sido cara demais para escorrer pelo ralo. Ao invés disso, abri a bolsa e reapliquei o batom.
  Quando me virei para sair do local, uma Dana corada e ofegante irrompeu pela porta, fechando-a com força e encarando-me furtivamente. Engoli em seco, eu conhecia muito bem essa Dana determinada. Eu ouviria umas poucas e boas agora.
  — Você tem algo para me falar? — perguntou. Eu tinha, queria pedir perdão. Abri a boca para falar, porém, ela estendeu a palma da mão, interrompendo-me antes mesmo que eu começasse. — Pois eu tenho. Tudo o que aconteceu. Londres e a porra toda, era problema todo meu e você não fez a única coisa que deveria ter feito como minha melhor amiga: me apoiado.
  — Só porque sou sua melhor amiga não quer dizer que devo passar a mão em sua cabeça e aceitar tudo o que você faz, mesmo que eu não concorde. — Eu sei que se estava procurando pelo seu perdão, eu não deveria contestá-la, mas não conseguia evitar. Era da minha natureza problemática.
  — Eu entendo isso... agora — assumiu, pigarreando. — E eu espero que você entenda que era para você ser minha amiga e me apoiar. Você me julgou por pensar diferente de você, me fez sentir como uma mulher submissa e eu não era. Só queria uma oportunidade de fazer diferente! É claro que eu e ele terminamos, mas se eu não tivesse ido, não encontraria uma nova agência, não voltaria a estudar. Eu conheci o mundo, %Julie% e foi lindo! Eu não me arrependo de ter perdido tudo aqui porque eu ganhei muito lá. E se um dia eu tiver que voltar, voltarei de cabeça erguida.
  Expirou fortemente após discursar, como se estivesse com a respiração presa a muito tempo.
  — Já? — Ela franziu o cenho, confusa e ofegante. — Falou tudo o que planejou me falar?
  — Sim — respondeu.
  — Ok. — Assenti.
  — Ok?
  — Nossa visão de contos de fadas é diferente, erramos em não respeitar isso — expliquei, dando de ombros.
  — Erramos? — Ergueu uma sobrancelha e cruzando os braços, mantendo uma pose insolente e desafiadora.
  — Eu errei, mas você também não foi muito justa — expliquei.
  — Certo. — Vi seus olhos percorrerem o local, como se estivesse lembrando das coisas que também havia me falado. — Erramos.
  — Ok.
  — Ok.
  Muito tempo havia se passado, já éramos pessoas totalmente diferentes agora e meu maior temor do momento era o fato de que eu e Dana jamais voltaríamos a ser o que éramos. Eu sentia muito a sua falta, toda vez que eu ia a algum lugar, que conhecia alguém, que fazia algo novo, eu queria comentar com minha melhor amiga. E sei que ela se sentia da mesma forma.
  Mas de repente, existia um mundo inteiro entre nós. Um mundo de decepções, mágoas, novidades, felicidades e um mundo físico... Londres e Hillswood nunca pareceram tão distantes.
  — Vamos... — Ela apontou para a porta.
  — Dana? — chamei, ansiosa. Então, contei o que eu ansiei contar todos esses dias recentes. — %Filipe% me pediu em casamento.
  Seus lábios abriram-se de forma dramática antes de soltar uma gargalhada fervorosa. A mulher abanava o próprio rosto, dando risada de forma escandalosa enquanto eu apoiei meu corpo na pia, esperando que seu controle voltasse.
  — E o que você disse? — Questionou, ainda rindo. Ergui uma sobrancelha, deixando óbvio minha resposta. — Não? Puta merda? — Gargalhou ainda mais, dessa vez, batia palmas de forma adorável. — %Julieta%, eu sou uma bagunça, mas você ultrapassa todos os limites do aceitável. — Balançou a cabeça, gargalhando ainda mais.
  Eu poderia ter me ofendido, mas sinceramente, a frase foi dita de forma tão carinhosa que eu me recusava a achar que aquilo era uma ofensa. Era admiração e ternura.

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  The Only Exception era uma música com melodia triste, mas %Filipe% era bom no que fazia e havia construído um arranjo para a música da primeira dança dos recém-casados que não fosse nada mais que doce e romântico. Victoria e Jack eram lindos e estavam perfeitos dançando sob a luz baixa do local, sendo iluminados pela luz dos celulares dos convidados. Entretanto, de alguma forma, eu não conseguia olhar para outro lugar que não fosse os olhos de meu namorado.
  Seus olhos não me deixavam. Enquanto cantava, eu sentia que %Filipe% declarava-se para mim com todo o seu coração. Havia momentos, como no dia do pedido, em que eu me sentia culpada e incapaz de retribuir todo o amor e atenção que ele me dava. %Filipe% deixaria tudo por mim e eu não sei se faria o mesmo. Não me entenda mal, eu o amava, mais que tudo. Eu era completamente louca por %Filipe%, mas essa ideia de amor louco e romântico só era bonita em filmes e nas tragédias teatrais. Eu era realista, entretanto, acho que meu excesso de realidade atrapalhavam as coisas entre nós.
  Mas então, tudo mudava quando ele cantava olhando em meus olhos. Ou quando largava seus compromissos para me acompanhar em algum jantar de negócios. %Filipe% me amava da forma mais bonita e simples que alguém poderia amar. E quando eu me via trocando as cortinas preferidas dele ou simplesmente arrumando suas malas quando chegava de viagem, eu também sabia que o amava da mesma forma.
  — É bonito — murmurou Cam em meu ouvido enquanto batíamos palmas ao fim da dança de Jack e Vic. Desviei o olhar, tentando entender sua colocação. — O jeito que vocês se olham. Eu não vejo a hora. — Olhei-o, franzindo a testa. — Eu não vejo a hora de me sentir assim também. — Sorri, puxando-o pela mão e abraçando-o.
  — Você merece mais do que vem recebendo, Cam. Você não merece nada menos que perfeição. — Dei um beijo em seu rosto.
  — Algum dia você vai desistir de pegar minha namorada? — Ouvimos a voz de %Filipe% se fazer presente e rimos.
  — %Filipe%, não seja ridículo. É claro que não desistirei. — Deu de ombros, indo cumprimentar o amigo, que apenas riu.
  — E aí? — questionou quando chegou perto de mim. Joguei meus braços em volta do seu pescoço, sentindo seus braços em volta de mim.
  — Você é simplesmente... Espantoso. — Dei de ombros, quase não encontrando as palavras certas para elogiá-lo. — Incrível.
  Ele me deu aquele sorriso de menino que tanto mexia comigo e juntou os lábios nos meus, beijando-me de forma mais intensa do que eu imaginava. Entretanto, nosso momento logo foi interrompido quando senti braços puxando-me por trás e afastando-me de %Fil%.
  — É meu casamento, %Julieta%! — reclamou Jack, fazendo biquinho.
  — E daí? Vai atrás da sua esposa e me deixa beijar em paz! — resmunguei, empurrando o ombro dele. — É o segundo beijo que você atrapalha. Além de colocar uma peruca em mim! Jack, um dia eu te mato!
  — E eu amo você, %Julie% girl! — gritou, puxando-me pelo braço e me levando para a pista de dança. Gargalhei, pulando nas costas de meu amigo e curtindo o momento com ele.
  Dançamos, cantamos, gritamos, fizemos gestos obscenos na frente da família católica de Victória, Cameron subiu em uma mesa, enlouquecemos quando tocaram Michael Jackson e já estávamos bêbados o suficiente para todos tentarmos o maldito moonwalk. Nos divertimos como a muito tempo não fazíamos.
  Assistir enquanto meus amigos dançavam, Dana girando com %Filipe% e Cam e Jack fazendo coreografias sincronizadas sempre me faria feliz. Parecia até o paraíso. Eu voltava a saber o que era felicidade quando estávamos juntos e eu era tão, tão grata por ter amigos de verdade. Pois muito tempo havia se passado desde a última vez que estávamos todos juntos, mas nada havia mudado. Por isso eu era grata, tanto pelas menores coisas quanto pelas maiores.
  Após uma sessão de break dance, começaram a tocar algumas músicas lentas, daquelas que os DJs tocam para começar a expulsar os bêbados da pista. Então eu e Cam decidimos sentar para recarregar as energias e beber mais um pouco do vinho especial de Jack, que nos contou que tinha uma surpresa para a esposa, mas só funcionaria se saíssem cedo da festa e nos pediu desculpas por isso. Claro que não nos importamos, logo a festa chegaria ao fim e até lá, nós aproveitaríamos o máximo possível.
  Eu gargalhava enquanto Cameron me contava alguma fofoca sobre nossos vizinhos, quando meu olhar encontrou Dana do outro lado do salão, apoiada na mesa de doces. Desviei o olhar novamente, encarando Dana, que olhou em meus olhos por alguns segundos, mexendo a pálpebra de forma mínima, mas me fazendo ter a certeza do que eu deveria fazer em seguida. Eu conhecia aquele olhar. Dividíamos ele quando estávamos em alguma balada, festa ou qualquer fosse o lugar em que nós estivéssemos ligeiramente interessadas em alguém.
  Então, lembrei da frase que ouvira da boca de uma atual-ex-grande amiga enquanto estávamos no banheiro alguns minutos atrás: “de um a dez, o quanto posso transar com Cameron hoje?”
  — Cam — chamei-o, sem me importar em interromper sua fala. — Cadê sua namorada?
  Cameron e a ex — aquela insuportável — haviam reatado o namoro. Eu, particularmente, acredito que seja apenas desespero do fotógrafo e ele não a quisesse de volta realmente. Mas ele apenas havia nos dito que ela era especial, foi a única por muitos anos, então não via problemas em tentar de novo.
  — Ah, %Julie%, sério? Uma hora dessas? — questionou, resmungando embolado e cruzando os braços.
  — É só porque acho injusto ser o casamento do seu melhor amigo e ela ter preferido ir ao show do John Mayer, que é um merda. Acredite, eu já o conheci.
  — Já? — Arregalou os olhos, surpreso.
  — Ser namorada de um famoso tem suas vantagens. — Dei de ombros, bebendo o resto do vinho que estava na taça.
  — Eu não sei, de verdade. Nunca estive tão confuso em relação a minha vida amorosa, %Julie%. Sinto que estou chegando no ponto de ebulição, onde tudo está prestes a explodir.
  — Para mim, nunca esteve tão claro. — Dei de ombros, pegando duas taças de champanhe da mesa ao lado e entreguei uma a ele, que rapidamente tomou um gole. Jesus, estaríamos absurdamente estragados no outro dia.
  — Como assim?
  — Você está vendo a mulher de vestido vermelho sentada naquela mesa ali? Fingindo estar distraída com o bolo? — Apontei com a cabeça e Cam sequer olhou, apenas fechou os olhos, balançando a cabeça. — É, você já viu. Ela é a melhor que você conhece e eu tenho a leve impressão que você sabe disso.
  — Não faz isso comigo — quase choramingou, espalhando as mãos pelo cabelo, livrando-se todo o gel só naquele movimento.
  — Isso o quê? Eu só estou dizendo que, olha só! Está tocando Sinatra. Você não devia perder a oportunidade de dançar Sinatra com a garota mais bonita da festa, Cameron. — Dei um gole na bebida, pronta para dar o golpe de misericórdia.
  — Victoria é a noiva — citou, negando com a cabeça.
  — E eu acho que ela era a mulher mais linda daqui. E você? Victoria é a mulher mais linda do ambiente para você?
  O golpe de misericórdia.
  — Você é como um pequeno demônio, %Julie% — esbravejou, tomando todo o líquido de seu copo em um só gole. — Por que você não vai salvar seu namorado das meninas de treze anos e o tira para dançar também? — Gargalhei, levantando da mesa e fiz o que o meu amigo mandou.
  Cameron e Dana era um assunto bizarro. Os dois quase não conseguiam lidar com tamanha atração entre eles, mas também quase não conseguiam se falar, como dois adolescentes apaixonados. Até hoje, eu sentia vontade de ser uma mosca na parede para descobrir como os dois acabaram juntos no dia da minha festa de despedida alguns anos atrás.
  Caminhei até %Filipe%, vendo-o se contorcer ao tentar dar atenção a todos que falavam com ele pelo caminho. Foi quando aconteceu. %Filipe% virou bruscamente e a taça de champanhe que segurava virou no vestido da moça que passava logo atrás.
  Tudo parecia ocorrer em câmera lenta em frente aos meus olhos marejados. Até a música parecia estar distorcida e nem a porra do Sinatra fez sentido naquele momento. Foi quando eu senti, assim como senti em todas as outras vezes em que aquilo havia acontecido em minha frente. Senti como senti com Peter, Tom e Haniel, mas nunca, nunca havia doído tanto. Não podia ser o fim. Não podia.
  Eu sentia meu peito dilacerado e sequer consegui conter as lágrimas mais uma vez. Não era exagero, não era apenas ciúmes, ninguém jamais conseguiria entender o que eu estava vendo e sentindo ali. Nem eu conseguia entender, mas algo dentro de mim sabia que os olhos castanhos do meu namorado encontrando os grandes orbes azuis da mulher que usava um belíssimo vestido roxo era o início do nosso fim.
  Como uma criança assustada, virei de costas imediatamente, recusando-me a continuar assistindo o que viria a ser meu maior tormento e devastação. Coloquei a mão no peito, sentindo que se eu conseguisse colocar meu coração em minhas mãos, doeria menos. O sentimento quase desesperador passava por mim e eu não sabia o que fazer.
  Segurei na barra do vestido, desistindo de ir ao banheiro quando notei a fila na porta. Procurei por qualquer outra saída, que não fosse a principal e notei uma pequena porta no canto direito do local, fui até lá. Quando entrei, notei que a porta levava a um corredor gigante, que tinham várias portas e parecia não ter fim.
  Aquilo aumentou minha taquicardia, arranquei a peruca, sentindo alguns fios de cabelos meus irem ao chão junto com ela e deixei as lágrimas finalmente saírem. Encostei na parede e cobri meu rosto com as mãos.
  Parecia um pesadelo. %Filipe% %Buchart% era o amor da minha vida, eu sabia disso. Sabia que o cantor sereno e confiante seria o maior marco em minha vida. Com ele, eu era tudo e nada ao mesmo tempo. Com ele, eu era apenas uma e era várias ao mesmo tempo. Eu nunca acreditei na expressão “morrer de amor”, mas sentindo aquela dor quase física, a falta de ar e a angústia de perder o que era meu, me faziam acreditar que era sim possível morrer de amor. Eu sequer imaginava não o ter por perto, nem queria pensar.
  Respirei fundo, tentando acalmar meus nervos. Lembrei que eu estava em um local público e que se alguém perguntasse o que estava acontecendo, eu jamais conseguiria responder e explicar. Levantei a cabeça e decidi rapidamente voltar para o salão, porém, minhas pernas estavam fracas e bambas demais para a rapidez de meus movimentos, então, quando dava os primeiros passos para fora daquele corredor fantasmagórico, pisei com força na barra do vestido e acabei caindo de joelhos de forma vergonhosa. Solucei, sentindo-me humilhada e envergonhada.
  Agora, até meus joelhos doíam e pior ainda, na hora da queda, apoiei-me no chão justamente com a mão direita, a que eu descobri ainda não estar recuperada do acidente. Sendo abatida pelo cansaço, sentei no chão e abri a bolsa pequena, procurando por um lenço, porém, minhas mãos trêmulas deixaram o objeto escapar entre meus dedos e a bolsa foi ao chão, espalhando tudo que havia nela.
  Resmunguei, abaixando-me para recolher meu celular, as maquiagens e cartões. E no meio daquela bagunça, um pontinho se fez reluzente, chamando minha atenção. O anel que %Fil% havia me presenteado. Eu coloquei na bolsa antes de sair, receando usá-lo após a pequena joia ser o motivo de uma de nossas maiores discussões. Bufei, agora parecia tão inútil.
  Coloquei o anel em meu dedo anelar. Enquanto encarava o brilho do diamante, várias reflexões passaram por mim de maneira rápida e simples. E agora? O que eu faria? Eu sabia que %Filipe% se apaixonaria por outra pessoa. Deveria fingir que tudo estava normal? Eu deveria curtir os últimos momentos? Devo voltar a ser a vilã de minha própria história e fazer o possível para manter essa mulher longe do meu namorado? Ou devo simplesmente aceitar que histórias de amor chegam ao fim?
  Uma das portas no corredor se abriu, fazendo-me pular no lugar com o susto. O barman que eu havia pregado a peça no início da noite olhou-me confuso e preocupado. Imaginei que eu devia estar absurdamente bagunçada.
  — Aqui é a área de serviço — explicou, apertando o avental em seu corpo.
  — Eu confundi com o banheiro e e-eu caí. — Menti sobre o banheiro, mas precisava de uma boa justificativa de estar no chão, tentando fugir de julgamentos.
  — Você está bem? Machucou? — Andou rapidamente até mim, me ajudando a levantar. Ele se abaixou para recolher o resto de minhas coisas que estava no chão enquanto eu tentava não me enterrar de vergonha.
  — Sim, apenas escorreguei. — Pigarreei, mentindo novamente. Tropeçar no próprio vestido como se fosse uma menina desengonçada, que vergonha. — Na verdade, estou precisando urgentemente de uma bebida — informei. Ele riu levemente, parecia ter notado pelo meu rosto inchado e maquiagem levemente borrada que eu estava chorando, porém, foi discreto e não comentou nada sobre.
  — Eu estou mesmo devendo uma bebida a você. Você beijou o cara, lembra? — Ele me ofereceu um braço e eu aceitei, sentindo-me fragilizada até para negar contato com uma pessoa que eu sequer conhecia.
  — Bom, para ser sincera...
  — É, eu sei. Cinco minutos no Instagram foi suficiente para descobrir que você é quase casada com o cara. — Ele me interrompeu, rindo e me fez rir também. Meu olhar vacilou novamente para o anel. — Mas foi uma boa pegadinha, você merece todas as bebidas mesmo.
  — Você não faz ideia... — Suspirei enquanto íamos em direção ao bar.
  — Está tudo bem mesmo? Tem certeza de que não se machucou? — perguntou novamente, preocupado ao ver que eu andava meio torta. Meus joelhos doíam, sim. E minha mão latejava por conta da pressão inesperada que eu havia colocado nela, mas eu já havia passado por dores maiores.
  — Sim, está tudo bem. — Sentei no banco em frente ao bar enquanto ele corria para trás do balcão. Distraí-me, pensando no que aconteceu, que sequer notei quando ele voltou e colocou um copo em minha frente. — O que é isso? — questionei ao ver o líquido transparente.
  — Água — disse, simplesmente. Ergui uma sobrancelha, confusa. — O pessoal da sua mesa misturou quase todos os tipos de bebidas que oferecemos aqui, imagino que você esteja inclusa. — Gargalhei, aceitando a água.
  — Pois é, não temos limites — brinquei.
  Fiquei bebericando a água, sentindo meu coração tentando voltar ao normal, mas eu ainda sentia vontade extrema de ficar soluçando e suspirando.
  — Ei! — Quase me engasguei com água ao ouvir %Filipe% chamar. — Estava procurando você.
  — E-eu estava procurando o banheiro. — Virei-me para olhá-lo e estranhamente me senti nervosa. Eu queria muito não ficar analisando cada ação dele após isso, mas céus, seria um inferno, eu já podia imaginar. — Ei, esse é o...
  — Leonardo. — O barman estendeu a mão para meu namorado, que apertou normalmente, mas qualquer um podia sentir a desconfiança do mesmo. — Minha irmã é uma grande fã. — Abri minha bolsa, procurando a caneta que sempre estava por ali e estendi para %Fil%.
  — O nome dela é Elisa — informei, sorrindo para meu amigo barman, que apenas assentiu, agradecido.
  — Claro. — %Filipe% rápida e atenciosamente assinou em um guardanapo. Enquanto escrevia, seu olhar subiu até mim. Mordi os lábios, nervosa. Não é possível que o cara me conheça tanto que já sentiu que havia algo errado. — Aqui está.
  — Ela vai pirar, cara! Obrigado! — Leonardo agradeceu, guardando o guardanapo no bolso. %Filipe% virou o corpo para mim, olhando-me desconfiado de cima a baixo.
  — O quê? — perguntei.
  — Você sumiu. Está tudo bem? — questionou, cismático.
  — Sim, é cla...
  — Na verdade... — Leonardo me interrompeu, fazendo com quem nós o encarássemos. Suspirei, sabendo que o barman iria me dedurar. — Ela escorregou e caiu ali atrás, deve ter se machucado, mas eu não saberia dizer. — O fuzilei com o olhar, mas o rapaz apenas deu de ombros, sorrindo de leve e se afastou.
  — Você caiu?! — %Filipe% virou-se para mim, preocupado, passando o olhar por meu corpo, provavelmente procurando algum machucado. — Você está machucada?
  — Não, eu só... — Tentei explicar.
  — Amor!
  — Calma! Eu só escorreguei, mas por reflexo, acabei apoiando meu corpo com a mão. Você sabe como estava ruim esses dias... — Enquanto eu explicava, %Filipe% pegou minhas mãos, analisando-as e acariciando levemente. — E eu também acho que machuquei os joelhos...
  Fui parando de falar ao notar que meu namorado estava tão interessado em minhas mãos — em uma, especificamente — que não estava prestando muita atenção em mim. O anel em meu dedo. O maldito anel que eu havia esquecido de tirar. Suspirei, tentando puxar a minha mão de volta, mas fui impedida. O cantor levantou a cabeça, olhando-me com os lábios prensados, tentando conter um sorriso.
  — O que é, %Filipe%? — perguntei, irritada. Ele ergueu uma sobrancelha, liberando de vez o sorriso orgulhoso e debochado. Puxei minhas mãos das suas, resmungando. — Combina com meu vestido, ué. — Dei de ombros.
  — É claro que combina, foi feito especialmente e literalmente para você — declarou, sorridente. Revirei os olhos, mas também não consegui conter o sorriso.
  — Enfim... — Deixei claro que não queria falar sobre nada que envolvesse anéis e casamento e mudei de assunto. — Vamos embora? Estou cansada.
  — Acho que chegou nossa hora mesmo. — Apontou com a cabeça para a pista.
  Dana e Cameron dançavam juntos de forma graciosa. As mãos dele estavam posicionadas na cintura de Dana, que apoiava os braços nos ombros do fotógrafo e sorria envolvida com o que quer que fosse que o amigo estivesse falando. Sorri, alegre que minha tentativa de ser cupido talvez estivesse dando certo.
  %Filipe% pegou minha bolsa e começamos a nos preparar para voltar para a pousada. Gritei pelo nome de Leo — que estava concentrado atendendo a cinco pessoas ao mesmo tempo — e acenei, despedindo-me do barman que me entreteve durante a noite. %Fil% novamente me olhou desconfiado.
  — O que foi agora? — Cruzei os braços, risonha.
  — Não sei se entendi muito bem essa sua nova amizade aí — confessou, inquieto. Desci da cadeira alta, mas assim que meus pés tocaram no chão, meus joelhos doeram e minhas pernas fraquejaram. Apontei-me em seu corpo, tentando fingir que eu não tinha quase caído. Mas é claro, que isso não passou despercebido pelo meu namorado. — %Julieta%, você se machucou, não foi?
  Ainda não, amor. Porém, algo me diz que logo eu estaria.
  — Só estou um pouco dolorida. Minha mão está doendo, mas isso já estava desde ontem — reclamei, puxando-o pelo braço, nos encaminhando pela saída. — Infelizmente, hoje você não vai poder usufruir da minha mão direita do jeitinho que você gosta — brinquei, beijando seu rosto.
  — Tudo bem, sua boca serve. — Deu de ombros de forma desleixada, fazendo-me abrir a boca com a forma chula como ele falou.
  — Serve?! Como assim “serve”? — reclamei, indignada. O cantor gargalhou, jogando a cabeça para trás e logo rolei os olhos quando notei que era apenas uma provocação. — Você anda muito engraçadinho. Depois que eu fico de papo com os barmans, você reclama.
  — Você ainda tem que me explicar essa história direito — brincou, apertando meu rosto e puxando-me para um beijo. Enquanto caminhávamos para fora do salão, %Filipe% me rodeou, indo para meu lado esquerdo apenas para que pudesse entrelaçar nossas mãos, já que minha mão direita estava dolorida demais. — Aqui é bem bonito.
  — Sim! Está vendo aquela sala de vidro? Ali dentro tem uma piscina. E embaixo tem umas luzes, é lindo! — Apontei para o lugar que eu já havia observado durante o dia. A pousada era bastante refinada, porém bem simples e minimalista. Tinha um jardim enorme e florido na frente, coberto por cercas brancas e a única piscina do local ficava dentro de um cômodo.
  — Sério? — confirmei, assentindo. — Vamos lá ver? — pediu como uma criança e nem esperou por resposta, já me puxando em direção ao local.
  O local era esplêndido, todas as paredes eram vidro e luzes azuis iluminavam a piscina. Com o local todo escurecido, ficava ainda mais interessante o jeito que a penumbra da noite contrastava com as luzes azul escuro lá dentro.
  — Vamos entrar? — sugeriu, animado.
  — Na piscina? Você está bêbado? — emiti, desconfiada, olhando bem o rosto corado de meu namorado, que já retirava o paletó.
  — Não muito — confessou, rindo. — Vamos. Está calor essa noite, o clima aqui parece ser abafado — comentou, retirando os sapatos e jogando minha bolsa no chão.
  — %Fil%! Não acho que seja permitido — informei, olhando em volta, tentando ver se por ali estaria algum guarda ou segurança escondido, mas o local era amplo e apesar das paredes serem de vidro, só se enxergava de dentro para fora.
  — E daí? Ninguém vai reclamar. — Deu de ombros.
  — Você abusa dos seus privilégios, sr. Famoso. — Neguei com a cabeça. Assustei-me quando vi que ele estava retirando a camisa branca e a gravata. — Espera, você está falando sério? — indaguei.
  — Tanto quanto eu estava quando pedi você em casamento. — E pulou na água, deixando-me paralisada por alguns segundos antes de irromper em uma alta gargalhada.
  — Você não pode simplesmente falar essas coisas! — reclamei, rindo.
  — Você não vai entrar? — insistiu. — A água está aquecida!
  — Não quero molhar meu vestido — expliquei, sendo esse apenas um dos vários motivos pela qual eu estava me recusando a pular em uma piscina durante a madrugada.
  — Bom, é só tirar — sugeriu.
  — Não dá, não quero ficar aqui quase que completamente sem roupa — confessei, sentindo-me até envergonhada. — Só estou usando calcinha por baixo.
  — Mais um motivo para você tirar! — Sorriu, malicioso, espirrando água em mim.
  — Vai ser ótimo se aqui houver câmeras, já imagino a manchete: “namorada esquisita de %Filipe% %Buchart% é flagrada com os peitos de fora em piscina pública”.
  — Amor, eu pago todo o dinheiro do mundo para que nenhum cara além de mim veja seus peitos — brincou, sagaz. — Vem.
  — Você anda muito mal-acostumado...
  Olhei em volta, procurando alguma outra desculpa, mas não havia câmeras ou pessoas aparentes. Além disso, a água parecia ótima, meu namorado era um filho da mãe gostoso e a noite estava realmente quente e abafada. Suspirei, derrotada. %Fil% comemorou quando me viu retirando meus sapatos. Procurei o zíper do vestido em minhas costas, sentindo dificuldade, mas conseguindo tirar a vestimenta. Cobri meus seios e fui sentar na beira da piscina, já que minhas pernas estavam doloridas para que eu pulasse. E eu ainda estava apegada a minha maquiagem cara, claro.
  — É fundo? — perguntei, sentando a borda e colocando minhas pernas na água, arrepiando-me com a sensação térmica.
  — Eu pego você. — Aproximou-se de mim com os braços erguidos. Apoiei-me em seus ombros enquanto descia da borda lentamente, porém a água estava gelada e o frio me fez pular e abraçar o corpo quente de meu namorado.
  — Você disse que estava aquecida! — resmunguei, sentindo meu corpo tremer e abraçando-o pelos ombros.
  — Você não ia entrar se eu dissesse que estava um frio desgraçado! — Riu, prendendo meu corpo em seus braços. Além do frio, eu sentia meu corpo inteiro arrepiado e em alerta pois meus seios estavam apertados contra ele. E nossos corpos aquecendo um ao outro após algumas semanas sem contato físico era como o despertar da primavera. Ele correu os lábios pela minha bochecha, beijando o contorno de meu rosto, fazendo-me fechar os olhos apenas para desfrutar de seu carinho. — Caso eu não tenha dito... Você está absolutamente linda hoje.
  — E caso eu não tenha dito, eu estava morrendo de saudades de você — declarei, murmurando em seu ouvido e selando nossos lábios em um beijo rápido. — É muito chato ficar sozinha em casa — comentei, fazendo bico.
  — Talvez não devêssemos mais ficar sozinhos em casa. — Sua sugestão me fez tremer, vacilar. Me afastei um pouco apenas para que eu pudesse olhar seu rosto e ver o quão sério ele estava falando. — Vem morar comigo.
  — Amor... — Mordi os lábios, apreensiva.
  — Não é como se já não morássemos juntos — refutou, arrumando uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha.
  De fato, nós estávamos sempre juntos, na casa um do outro e etc. Eu fazia as compras do mês da casa dele, pelo amor de Deus. Negar isso era demais até mesmo para mim. Apesar de ser um grande passo, não parecia. Eu sentia que morarmos juntos era em síntese o que sempre foi meu relacionamento com %Filipe%: era natural, iria acontecer de uma forma ou de outra.
  Entretanto, as coisas estavam diferentes agora. Eu sabia o que iria acontecer. Não era uma suposição, uma previsão. Iria acontecer, eu só não sabia quando, nem como. %Filipe% iria se apaixonar por outra pessoa. E eu precisava decidir o que faria com essa informação. Eu queria mais, queria tê-lo completamente comigo e para mim, queria acordar e dormir ao seu lado todos os dias, porém, o que seria de mim quando isso chegasse ao fim? Eu não queria ser impulsiva e aceitar a ideia sem analisar melhor a situação e seus prós e contras.
  Entretanto, eu tinha pressa. Não queria perder mais um minuto ao lado do homem que eu amava.
  — Não acredito que você vai me convencer a fazer isso! — expressei, assustada, batendo com a mão em meu próprio rosto.
  — É assim que me sinto quando me pego pensando em filhos, sinto que você entrou na minha cabeça após todo esse tempo — brincou, quebrando um pouco do clima tenso que havia se instalado quando me fez gargalhar. Entrelacei minhas pernas em volta de sua cintura, aconchegando-me enquanto ele andava comigo pela piscina como se estivesse com uma criança em seu colo. — Então, é oficial? Posso ligar para minha mãe e contar que você finalmente deixou de ser teimosa?
  — Ai meu Deus. — Ansiosa e nervosa, encostei a cabeça em seu ombro, recebendo um afago carinhoso em meu pescoço.
  Tentei ignorar todos os meus pensamentos desesperados, as perguntas e detalhes que eu queria acertar de uma vez. Vários questionamentos surgiam a todo momento, mas eu sentia que aquele não era o momento de botar em cheque certas questões, como por exemplo, onde diabos nós moraríamos? Na casa dele? Na minha? Procuraríamos um lugar novo? E minha mãe, o que pensaria disso?
  — Vai ser uma temporada e tanto... — expressou, pensativo, mas mantinha um sorriso tranquilo.
  — É... — concordei, dispersa.
  — Por que você parece tão triste? Morar comigo é tão aterrorizante assim? — Analisou meu rosto, acariciando minhas pernas. Neguei com a cabeça, tentando conter a terrível vontade de chorar que havia me acometido.
  Eu só conseguia pensar no que eu faria quando estivesse completamente acostumada com %Filipe% e tudo chegasse ao fim. O que seria de mim?
  — Posso pedir que você me prometa algo? Tudo bem se você achar que não pode me prometer tal coisa, mas... — pedi com a voz falha. %Filipe% percebeu e parou seus movimentos em volta da piscina, paralisando no meio da mesma enquanto me olhava apreensivo.
  — Farei o possível — assegurou, sério. Respirei fundo antes de falar, já sentindo meus olhos encherem de água.
  — Promete que mesmo que um dia a gente termine, mesmo que você me odeie e a gente sequer troque palavras, promete que você não vai esquecer — pedi de olhos fechados, não querendo deixar lágrimas fugirem e também ter que lidar com a intensidade de seu olhar.
  — Por que você está falando isso?
  — É que eu amo muito você, %Filipe% — desabafei, abrindo os olhos novamente. — Amar você é algo tão natural para mim quanto respirar. E eu sei que sempre vou te amar, nem que seja um pouquinho, mas me assusta pensar que talvez você esqueça de me amar de volta. Eu não te peço para lembrar sempre, só não esquecer de vez.
  — %Julie%, eu ainda sou completamente louco e apaixonado por você, isso não faz sentido...
  — Eu sei! É só... — O interrompi, mas fui incapaz de completar meu pensamento. Ele não entenderia e eu não saberia explicar.
  — Eu não consigo ver qualquer possibilidade de isso acontecer, mas se você precisa que eu prometa, então... — Posicionou as duas mãos em meu rosto, limpando-o com seus polegares enquanto olhava em olhos de forma intensa e muito transparente, da forma que apenas ele conseguia me olhar. — %Julieta% Young, eu prometo que vou amar você para sempre. Nem que seja só um pouquinho. — Fechei os olhos, soltando a respiração de forma aliviada.
  — Obrigada — agradeci, tímida, fungando levemente.
  — De nada. — Riu pelo nariz, olhando-me de forma carinhosa e enterrando o rosto em meu pescoço, me beijando e abraçando intensamente.
  Foi assim que eu decidi que ficaria ao seu lado até o momento que me fosse permitido, pois senti no fundo do meu coração que %Filipe% não havia mentido. Aquele homem a minha frente me amaria para sempre.
  Nem que fosse só um pouquinho.

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AI, FINALMENTE VEIO AÍ O FINAL FELIZ! Tudo bem que ainda não é o final FINAL, mas pqp. Eu tava agoniada no começo do capítulo 14 só vendo as discussões começando e eu só “MAS TÁ PRA ACABAR A HISTÓRIA, COMO QUE TÁ SURGINDO MAIS PROBLEMAAA??”, mas deu tudo certo.
Quero um Filipe na minha vida, aceito.
E amei o fato de o Jack ter sido o primeiro a casar, de onde vai chegar o primeiro neném, hein? HAHAHAHAHAH

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