14 • Ou é o começo do fim ou é o fim.
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Dezembro.
Não saiu nota no jornal. Teve um minuto de reportagem no noticiário local e o nome dele nem foi citado. Mas o universo sabia. Eu sei que sabia porque naquele dia choveu bastante. E Max, que não falava, falou por uma hora inteira. Patrick não saiu do quarto e ouvir o choro inconsolável da minha mãe foi doloroso. E eu fiquei no meio de tudo, sem saber muito bem o que fazer, já que eu queria ser por todos, mas não estava conseguindo nem ser por mim.
Alguém cutucou meu braço suavemente e eu despertei de meus pensamentos. A aeromoça, cujo cabelos loiros estavam perfeitamente presos em um coque elegante, sorria simpática para mim. Percebi que ainda estava de fones de ouvido quando ela fez um sinal para que eu os retirasse.
— Já pousamos, senhora — informou, gentilmente. Olhei em volta, reparando nas poltronas ficando vazias por todo o corredor. Me desculpei várias vezes com a moça, que fora super gentil comigo.
Tirei minha mala de mão pequena do bagageiro, coloquei minha mochila nas costas e saí do avião. O aeroporto de Hillswood me trouxe lembranças opostas do dia em que cheguei cheia de expectativas e do dia em que fui embora sem nenhuma delas.
O ar gelado, mas ameno — característico de Hillswood — me pegou assim que saí do local. Puxei as mangas da jaqueta para baixo e agradeci mentalmente a Clarissa por ter me lembrado de usar botas. Peguei meu celular para ligar para Dizzy, mas não foi necessário. Logo ouvi o barulho de buzina seguidas vezes. Sorri ao reconhecer o carro de Cam, mas só quem estava dentro era a mulher da minha vida, Dana Tomanzio.
Fui até o outro lado da pista quase correndo, ansiosa para chegar à garota. Dana saiu do carro da mesma forma que eu, disparando em minha direção. Quando cheguei até ela, larguei minha mala no chão e abracei-a fortemente, relaxando ao sentir os braços seguros da minha melhor amiga me acolherem de volta. Ela distribuiu vários beijos na minha bochecha e retribuiu a força do abraço. Suspirei tranquilamente, abraçá-la era como voltar para casa.
— Seu cabelo! — exclamei, surpresa ao olhando para as madeixas dela, agora cortadas em um lindo longbob, com mechas grossas azuladas. — Está azul!
— Você está loira. E lisa! — Ela se afastou apenas para mexer nas pontas dos meus cabelos. Eu não estava totalmente loira, só estava com o tom bem mais claro do que eu costumava usar. Porém, meus cabelos realmente aparentavam serem loiros quando expostos ao sol. E de vez em quando, eu arriscava usar prancha nos fios. Desde a minha formatura, eu havia simpatizado bastante com meus cabelos lisos. A nova cor e o cabelo liso me deixavam mais madura fisicamente.
— Achei que não fosse possível você ficar mais bonita! — resmunguei com a injustiça. Ela riu e deu um beijinho de leve no meu nariz. As pequenas ações de Dana que me faziam morrer de saudades dela.
Entramos no carro, joguei minha mala no banco de trás e coloquei minha mochila no colo. Questionei o porquê de ela estar com o carro alheio. Ela disse que sabia que eu não iria querer ir até o aeroporto de moto e o único carro disponível era o de Cam, já que Jack dirigia uma Suzuki igual a dela.
— Eu estava morrendo de saudades! — expressei, pegando sua mão e beijando-a levemente.
— Eu achei que um ano passava super-rápido. Que nada! Parece que uns nove anos se passaram — reclamou, fazendo um afago carinhoso na minha cabeça.
Eu discordava ao olhar pela janela durante o caminho. Apesar de parecer que anos haviam se passado, também parecia que tinha sido ontem que eu fizera o mesmo caminho para voltar para minha cidade. Tudo parecia nostálgico. Os prédios do centro, as ruas bonitinhas e largas. E aproximando-se da nossa área — residencial —, as casas mais simples começavam a surgir. Totalmente discrepante a imagem que existia no Jeins.
— %Julie%? — Dana tirou minha atenção da paisagem que eu encarava cheia de saudade. — Como você está?
— Bem. Morrendo de fome, para falar a verdade. — Passei a mão de leve pela minha barriga.
Fazia duas semanas desde que tudo tinha acontecido, desde então eu estava me alimentando com líquidos. Café, principalmente.
Ninguém na minha casa estava com cabeça para ir para cozinha preparar algo para comer. Precisou eu ir para outra cidade para perceber que eu estava ávida por uma comida sólida.
— Não sobre isso, meu bem. — Receosa, olhou-me de canto de olho.
— Ah, isso. — Parando para pensar no que falar, percebi que ainda não tinha lidado em nada do que aconteceu nos últimos dias. — Eu não sei, Dana. Eu ainda não parei para pensar nisso, você não faz ideia de tudo o que aconteceu esse ano. Então, toda vez que eu penso nisso, eu ignoro porque vai me destruir, Dizzy. Eu não posso... pensar nisso.
Não agora.
— Quando você quiser falar, eu estou aqui. — Sorriu de leve para mim e eu retribui. Dana sabia exatamente quando respeitar minhas vontades e quando insistir por mais. — Bom, nós podemos falar sobre a Laura, então.
— Quem é essa? — Franzi o cenho, confusa.
— Minha colega de quarto, %Julie%.... Você sempre esquece o nome dela! — Gargalhou, levando a mão a própria testa.
— Ah, a %Julieta% número dois — recordei.
Demorou para convencer Dana que ela deveria arranjar uma colega de quarto. Ela sempre dizia que logo eu voltaria para Hillswood, não tinha sentido colocar outra no lugar. Eu queria ter dado ouvidos a Dana e não ter a convencido a achar alguém, assim eu não seria uma sem-teto em potencial no momento. Eu não sabia muito sobre a tal Laura, só sabia que ela era mercadóloga na empresa que Dana trabalhava. Tinha vinte e três anos, ascendência holandesa e uma beleza ímpar, se você curtir loiras de olhos verdes.
— Está longe de ser. Você acredita que ela tem uma queda pelo Cam? — comentou em tom de deboche. Apenas ri, porque convenhamos, era muito fácil ter uma queda por Cameron. — Cam até deu uns beijinhos nela — explicou, torcendo os lábios. — Ela gosta de umas paradas mais políticas, tipo você na época da escola. Às vezes, eu a acho muito julgadora, mas aí lembro que isso também é julgamento. No mais, ela é bem legal.
— E por que Cam não investe? Ela parece ser legal... — comentei.
— Ele ainda não saiu da fase "estou solteiro e vou quebrar corações em massa" — resmungou, pisando no acelerador com um pouco mais de afinco, fazendo meu corpo balancear no banco. Levantei uma sobrancelha, encarando a ruga que se formou na carranca que Dizzy fazia.
— Espera, eu senti um pouco de raiva nessa frase? "Coraçõesss"? No plural? O coração de uma certa Tomanzio está no meio? — Cruzei os braços, apertando os lábios em uma risada.
Dana e Cameron na minha festa de despedida era algo que me fazia rir até hoje. Estavam como dois adolescentes cheios de hormônios e amor para dar. Nada me foi dito sobre o que aconteceu depois que os dois consumaram o ato. Vendo a reação de Dana agora, recrimino-me por não ter perguntado sobre os dois mais assiduamente.
— Vamos no Takeo? Já deve ter algo aberto, não é? — Disfarçou, olhando para o relógio. Eram 17h e Dana sabia muito bem que o Takeo abria às 18h. Esse era o nível de desespero da garota.
— Dana, você está fugindo — pontuei, rindo.
— Lalala, eu não sei do que você está falando. — Olhou pelo retrovisor, dando a curva em outra pista, que levava ao local.
— Ah, eu vivi para ver o dia que você está fugindo de uma conversa!
O único food truck que estava funcionado naquele horário era o Árabe. Pedi três beirutes, Dana também estava com fome e pediu tabule. Sentamos em uma mesa próxima ao caminhão quase abraçadas. O vento a beira do rio era típico de dezembro avisando que estava chegando. Takeo lembrava-me instantaneamente de %Filipe%, então a primeira coisa que fiz, depois que nos acomodamos, foi perguntar por ele.
— Provavelmente vai chegar hoje de madrugada — informou.
— Ontem ele falou no grupo que vai direto lá para casa — comentei, lembrando das conversas no nosso grupo de mensagens.
Eu e %Filipe% ainda tínhamos algo um pelo outro, entretanto, nem mesmo nosso fogo incessante sobreviveu aos 348 dias longe um do outro. Não tínhamos brigado nem nada, só estávamos afastados, distantes. As últimas vezes que nos falamos (depois que liguei para saber sua opinião sobre minhas escolhas) foram apenas no grupo. Sem mensagens individuais. E eu estava nervosa com nosso reencontro.
— Sim. Comprei algumas bebidas para a gente, os meninos vão lá para casa mais tarde e vamos fazer a social que nós sempre fazemos. — Olhava para o cardápio quando parou e deu um sorriso discreto e meio emocionado. Esticou o braço e entrelaçou a mão na minha. — A diferença é que agora nós estamos completos.
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— Você está tremendo — comentou Dana, segurando minha mão em seguida.
Estávamos no elevador do prédio em que eu morava antes e — me julguem — eu estava emocionada em voltar. A nostalgia estava me consumindo. Era uma cena tão familiar estar naquele elevador novamente, com Dizzy ao meu lado. Lembrei quando dormi no chão do elevador tão bêbada que não sentia minhas pernas. Lembrei das vezes que fiquei aos amassos com %Fil% no mesmo cubículo. Meu caminho de todos os dias.
— É ridículo, eu sei. Eu não passei tanto tempo longe assim. — Reprimi uma lágrima, limpando os cantos de meus olhos.
— Um ano é muita coisa, %Julie%.... — Suspirou, pesarosa. — Vamos!
A porta do elevador abriu-se e em três passos, eu estava na porta do 305 novamente. Meu apartamento, minha casa. Meu lugar. Eu só percebi que passei um ano inteiro no Jeins prendendo a respiração quando entrei no meu antigo apartamento e soltei uma lufada de ar
— Bem-vinda de volta! — Dana deu-me um beijo na bochecha e foi gritando em direção aos quartos. — Laura, chegamos!
Fiquei parada no meio da cozinha, ainda olhando em volta. Paradoxo, mas apesar de tudo estar igual, estava diferente. As coisas da sala estavam no mesmo lugar, mas não era o mesmo sofá. As grandes janelas agora eram cobertas por grossas cortinas. A mesinha de centro também não estava mais lá e não tinham mais fotos e recados na porta da geladeira. Estava minimalista demais, não parecia mais o nosso lugar. Olhei em volta, suspirando. Deixei minha mala no chão próximo ao novo sofá.
Dana voltou a sala com a nova %Julieta% ao seu lado. Laura era uma mulher baixa — menor do que eu, pasmem —, estranhei os cabelos castanhos e curtos, tatuagens cobrindo um braço inteiro e usava tênis plataforma e saia midi. Não parecia nem um pouco com a irlandesa que Dana tinha me mostrado a foto uns meses atrás.
— Oi! Eu sou a %Julie%, prazer. — Ela se aproximou, sorridente. Estendi minha mão em um cumprimento.
— Que bom finalmente te conhecer. Ouvi falar muito de você.
— Muito. — Revirou os olhos de leve, dando uma risadinha, porém não deu para não perceber o tom ressentido na voz. — É bom estar em casa? — perguntou, sorrindo demais.
— É, sim — respondi, mas completei num sussurro: — Eu acho que sim.
— Eu fiz uma sobremesa de morango. Vocês querem provar? — perguntou Laura e foi para a cozinha. Quando abriu a geladeira, ela franziu o cenho. — Dana, por que nossa geladeira parece o bar do Edy?
— Ah, nós vamos fazer uma reuniãozinha aqui em casa mais tarde — minha amiga explicou, pegando o celular.
— Ah, obrigado por avisar! — replicou sarcasticamente e se dirigiu a mim: — Dana também dava festas sem comunicar a você ou é só comigo?
— Não se preocupe, acontecia comigo também. — Ri levemente, brincando com as alças da mochila.
— Apenas uma vez! — Dana defendeu-se, resmungando.
— Quem vem? Muita gente? — perguntou ela, puxando uma vasilha branca de dentro da geladeira. — Quer beber algo, %Julie%? — Recusei e agradeci educadamente, ainda sem conseguir me mover.
— Só os garotos de sempre. E você! — Dana esticou o braço, dando high five com a garota.
Laura não questionou mais nada. Ela e Dana começaram a falar sobre coisas e pessoas que eu não fazia ideia do que se tratava. Fiquei meio em dúvida do que fazer em seguida. Eu queria tirar minhas botas, ir para o meu quarto, me jogar na cama e ligar para todo mundo de Hillswood. Entretanto, aquela não era mais minha casa, sequer parecia a mesma de antes.
— O que foi? — Dana desviou os olhos do celular e de Laura e olhou-me. Provavelmente não entendendo por que eu estava parada no canto da sala igual uma estátua.
— Nada, estou um pouco cansada. Posso tomar um banho? — pedi, sentindo-me extremamente estranha.
— Claro! — Jogou-se no seu novo sofá, ainda mexendo no celular. Olhei em volta para pedir licença e a garota, Laura, estava abrindo as portas do armário. Queria dizer a ela que os pratos não ficavam ali, mas logo a vi tirando uma pilha de pratos do mesmo local, então preferi ficar quieta e ir tomar meu banho.
Peguei minha mala do chão e notei que nem mesmo havia tirado a mochila das costas. Fui até o corredor e encarei as portas uma de frente para a outra, para a que costumava ser a minha especificamente. Dei as costas para o meu quarto e entrei no outro, no quarto de Dana. O quarto dela também estava diferente. Ela não tinha mais uma king size, agora era apenas uma cama de solteiro e o espaço que foi liberado pela cama, tornou-se um pequeno escritório no canto do cômodo. Entendi que era ali que Dana trabalhava.
Fazia sentido, na verdade. Quando eu parti, eu era a única universitária e dentro do meu mundinho, talvez eu não sentisse a diferença. Mas prestando uma atenção melhor agora, todos eram adultos demais e eu me preocupei como seria quando eu visse os rapazes. Será que estaria diferente? Será que agora nós sentaríamos e falaríamos sobre o trabalho? Porque eu não tenho trabalho. Será que falaríamos sobre suas casas? Porque eu também não tenho uma casa.
Preferi acalmar minhas preocupações com uma chuveirada e foi o que fiz. A água quente até diminuiu um pouco minha tensão. Quando fui descartar minha roupa suja, tive que deixar separada em uma bolsa para lavar depois.
Era estranho ser apenas uma visita.
Sentei na cama e peguei meu celular pela primeira vez desde que cheguei. Liguei para meus pais, avisando que já estava com Dizzy e estava tudo bem e fiz uma chamada de vídeo com Clarissa também. Abri minhas mensagens e o grupo estava abarrotado de mensagens. Dizzy tinha mandado uma foto minha, cobrindo metade do meu rosto com o beirute, avisando que eu estava na cidade. Todos começaram a mandar dezenas de exclamações, coisas sem sentido e fotos.
Cameron ♥ (18:22): quando você começa a fazer seu trabalho de qualquer jeito por motivos de: %JULIETA% ESTÁ NA CIDADE!
Baby (18:25): o avião não chega ):
Cam tinha mandado uma foto dele mesmo com os cabelos bagunçados e papéis jogados ao seu redor e %Fil% mandou uma do seu portão de embarque no aeroporto. Sorri e mandei vários emojis de coração em resposta para ambos. Aproveitei para avisar Toni que eu já estava na cidade, ele comemorou e começamos a conversar.
— %Julie%? — Ouvi Laura chamar meu nome. Levantei da cama e fui até a porta. — Dana quer que você veja como está seu quarto.
— Claro, vamos lá! — Coloquei meu celular no bolso. Estava receosa, mas fui mesmo assim. Eu já estava com ideia de não ir ao quarto, não queria ver meu lugar sendo de outra pessoa.
— Só espero que você não me mate! — Ela brincou e abriu a porta do meu quarto.
Quer dizer, do quarto dela.
O cômodo agora tinha as paredes todas pintadas de preto. Dava para dizer que Laura era uma grande fã de artes plásticas, a parede estava barrotada de quadros. A estante que ficavam meus livros, agora era cheia de discos e cds. Tinhas lâmpadas de led tipo pisca-pisca espalhadas pelo quarto todo e a cama king size de Dizzy.
— Uau! — exclamei.
— Demais? — indagou, mordendo os lábios. Nem parecia o mesmo quarto em que tinha apenas um quadro de anotações magnético como decoração.
— N-não, só está bem diferente do que costumava ser. — Até a porta do banheiro estava personalizada! — Você tem certeza de que é mercadóloga, não artista plástica?
— Eu sempre digo a ela que existe uma artista frustrada aí dentro... — comentou Dana, também entrando no quarto.
— O quanto você me odeia por ter mudado todo seu quarto? — Laura ainda parecia receosa e parecia estar sendo sincera. Eu podia ver nos orbes azuis da menina que ela procurava pela minha aprovação.
— Nem um pouco, está incrível! — elogiei e notei o alívio da garota. — E o quarto não é meu, Laura. É seu!
— Você tinha razão. — Ela olhou para Dana, sorrindo. — Ela é mesmo legal demais.
Dei risada, abraçando Dizzy de lado. Ela pediu para que ficássemos na sala conversando até os meninos chegarem. Senti-me estranha de estar no mesmo compartimento com duas pessoas bonitas e estilosa ao extremo e eu com jeans, suéter rosa e meias de bolinhas.
Ficamos conversando sobre várias coisas. Elas me contavam sobre as novidades de Hillswood, Laura me contou mais sobre ela e descobrimos várias coisas em comum, como por exemplo, nós duas gostávamos de assistir ao canal do Senado e tínhamos inclinação a se meter em protestos políticos. Laura era uma garota muito simpática, consciente. Era possível sentir um pouco de ressentimento dela comigo, provavelmente ela não queria de se sentir excluída ou ser deixada de lado, já que eu notei que já eram grandes amigas.
Depois da nossa segunda cerveja, ela confessou que estava nervosa em me conhecer, já que a pessoa que ela mais convivia falava muito sobre mim e ela tinha medo de eu ser rude com ela por conta de ela estar no "meu lugar". Eu a tranquilizei e disse que jamais faria isso. Só não disse que era provável que eu estivesse mais desconfortável que ela.
Finalmente criei coragem e fui até as janelas, minha parte preferida da casa, enquanto Laura e Dizzy preparavam salgadinhos. Meu sorriso enorme morreu em segundos quando abri as cortinas grossas e dei de cara com grades.
Minhas janelas preferidas, enormes e lindas estavam com grades! Aquelas barras de ferro acabaram com todo o encanto e perspectiva de liberdade que as janelas deveriam representar. Agora não era mais uma visão da aprazível cidade, cheia de possibilidades e do céu estonteante. Agora era apenas... Uma prisão.
— Dana! — chamei-a e apontei para a janela. — Grades?
— O corpo de bombeiros veio aqui e fez uma exigência — respondeu, dando de ombros e voltou a colocar as pizzas no forno.
Abri a boca, um pouco indignada. Dana realmente balançou os ombros daquela forma? Para nossas janelas perfeitas? Nossa maior idealização de liberdade? A garrafa de cerveja quase caiu da minha mão. Quando procurei um lugar para apoiar, a droga da mesinha não estava ali.
— Cadê nossa mesa de centro? — questionei sem me sentir culpada em usar o pronome possessivo. Dessa vez, era realmente nossa, nós compramos juntas.
— No meu quarto. — Ela respondia sem dar muita importância.
Ou talvez eu estivesse dando importância demais a pequenas coisas.
— Por quê? Se eu bem me lembro, nós a compramos na seção "sala de estar" — expressei com um pouco de irritação na voz. Ambas perceberam, já que finalmente tiraram a cabeça do forno e olharam-me. — E por falar em quarto, onde diabos eu vou dormir?
Dana e Laura me olhavam assustadas, aí me assustei comigo mesma. Será que eu estava soando mais agressiva do que eu estava me ouvindo? Meu pequeno surto foi interrompido pelo ruído do interruptor, Laura disse que atenderei e Dizzy veio até mim, com o cenho franzido.
— Você vai dormir no meu quarto, comigo. Achei que era óbvio! — enunciou.
— Como? Sua cama mal cabe você, Dana! — Soltei uma risada de escárnio só de imaginar eu e Dizzy, espaçosas que somos, numa cama de solteiro. — Isso era possível quando a gente tinha uma cama de casal.
— Ei, Cam está subindo! — avisou Laura, voltando para frente do fogão. Dana ignorou completamente a garota e continuou falando. Estranhei, pois assim como %Filipe%, Cameron também tinha uma chave do portão.
— Eu achei que você não se importaria de dormir agarrada em mim, desculpa! — A morena revirou os olhos, agora parecendo mais irritada do que eu.
— Normalmente não me importaria, mas poxa, Dana! Eu acabei de passar 5 horas em um voo cheio de escalas, eu preciso descansar.
— Descansa quando você for para casa, ué! — rebateu. Proferiu as palavras tão simplesmente que nem deve ter percebido o quanto me machucou. Levantei as sobrancelhas levemente e apenas assenti, falando um "ok" baixinho. Virei de costas para ela, fingindo pegar meu celular e ela foi abrir a porta.
Cameron continuava exatamente da mesma forma que eu o deixei no aeroporto. Ele entrou, pendurou a bolsa nos ganchos do lado da porta. Deu um beijo em Dana e Laura e veio até mim com o maior sorriso.
— Então existem voos de Springfield para Hillswood. — Aproximou-se de braços abertos e eu não me contive e corri até ele. Logo senti seus braços me apertando e me tirando do chão.
— E aí, garoto? — Gargalhei e deferi vários beijos contra sua bochecha. Ele me pôs no chão e mexeu nos meus cabelos.
— Me diz você, loira! Está em casa, finalmente — brincou, mexendo nos meus cabelos compridos. Sorri tristemente com a sua escolha de palavras.
— Eu também achei que estivesse... — sussurrei, no entanto, Cam escutou e me olhou com a testa franzida. Olhei de relance para a cozinha, vendo Laura e Dana rindo entre si, tentando equilibrar bandejas nos braços uma da outra.
— Como assim?
— Nada, não. — Afastei-me e acariciei seu rosto, brincando com sua barba por fazer. Ele me olhou, sabendo que eu estava escondendo algo. — Senti sua falta, garoto.
— E eu a sua, loira. — Beijou minha bochecha e me puxou para sentar no sofá.
Dana não estava equivocada, eu realmente não estava mais em casa. Porém, doeu demais ouvir e doeu mais ainda perceber que eu tinha perdido minha conexão com Dana. Como ela mesmo disse, um ano é muito coisa.
Ficamos sentados no sofá, conversando, rindo e bebendo. A saudade era tanta que eu estava arriscando não ser eu mesma e estava abraçada a Cam, ocasionalmente beijando-o nas maçãs do rosto. Eu acho que Laura estava estranhando um pouco nossos carinhos. Tenho certeza de que foi dito a ela que meu caso era com %Fil% e ela devia estar confusa de eu estar a carícias com Cam.
Mais alguns minutos passaram e a campainha tocou novamente.
— Eu abro. — Levantei e fui até a porta. Dei um gritinho quando abri e dei de cara com Jack e Victoria, sua namorada. — Jack Jack! — Abracei-o desesperadamente, dando pulinhos. Apesar de ser um dos mais velhos, Jack era considerado o mascote do grupo. Todos amavam Jack, todos protegiam Jack e sempre o queriam por perto.
— Vic! — Abracei a ruiva ao lado dele. Jack me apresentou sua namorada no meu último dia na cidade e garota era tão legal que eu fiquei irritada com Jack por não ter nos apresentando antes.
— Argh, finalmente vamos ser amigas pessoalmente! — Gargalhou, me abraçando de volta.
A noite passou rápida demais, a madrugada chegou rapidamente e com ela chegou à certeza de que eles ainda estavam lá. Meus amigos, os mesmos que viravam as madrugadas na minha sala, bebendo cerveja e falando sacanagem. Rindo das aventuras sexuais de Jack, que encontrou uma namorada a sua altura, que não tinha reservas em falar sobre seus antigos casos sexuais e até mesmo atuais, com seu namorado. O flerte velado de Cam e Dana que ninguém percebia.
Só faltava ele.
— 2h da manhã! Onde você está, seu IDIOTA? — gritou Dana no telefone. Eu desconfiava que estava falando com %Filipe%, que ainda não tinha aparecido.
Eu ri bastante durante a noite e sentia-me extremamente feliz, mas ainda não estava completa, eu não via hora de ver %Fil%. Eu estava aliviada que todo mundo já estava meio bêbado e ninguém havia me perguntado nada diretamente. Eu não precisei falar muito também, todo mundo estava tão empolgado falando sobre tudo que eu perdi no último ano que provavelmente nem perceberam que eu estava um pouco fora de mim e alheia aquela noite.
— Passa para mim, eu vou comer a cabeça desse filho d... — Cam puxou o telefone de Dana, mas não ficou com o mesmo nem por dois segundos, pois Vic puxou da mão do mesmo.
— %Filipe%, se você não chegar aqui em quinze minutos, eu não vou conseguir controlar a multidão enfurecida que quer a sua cabeça — avisou Vic ao rapaz e eu ri, por ela ter falado em um tom sério.
Acariciei o cabelo de Jack, que estava deitado com a cabeça no meu colo. Como de costume, Jack foi o primeiro a ficar bêbado e já estava dormindo. Nós dois estávamos no chão, já que o sofá novo não cabia quase ninguém e como não tinha mesa, o espaço no chão estava livre. Vic, Laura e Dizzy acharam um canal no YouTube de coreografias e já estavam suadas e descabeladas depois de dançarem tudo que tinha o nome da Britney Spears. Eu e Cam estávamos explodindo nossos pulmões com o tanto de erva que já tínhamos inalado.
— 10 minutos se o Thomas decidir passar de 40km/h! — Ouvi a voz de %Filipe% quase gritar pelo autofalante do celular.
— Quem é Thomas, filho da puta? — perguntou Cam, passando-me o cigarro de maconha. Coloquei a bituca entre meus lábios e senti uma bufada de tranquilidade entrar em mim quando traguei fortemente o final do cigarro. Joguei a cabeça para trás, estonteada com as sensações causadas pela cannabis.
Eu nem sempre fumava, seja cigarros normais ou os convencionais de Cam. Mas a carga emocional daquele dia estava grande demais para mim. Eu já não era conhecida por saber lidar e ser fraca com as adversidades da vida, não queria surtar na frente de todos de novo. Depois do meu primeiro breakdown, era de se esperar que eu estivesse recuperada e coisa e tal. Porém, desde os últimos acontecimentos, eu não fazia muita questão de estar sã e consciente.
Quem estaria sã, afinal?
— É o motorista do táxi! — Todos gargalhamos com o leve desespero de %Fil% para dar explicações sobre sua demora.
— Você tem 10 minutos ou vou te expulsar da minha casa! — Cam determinou e esticou a mão para desligar o celular. Vic largou o celular no sofá e juntou-se a Dizzy e Laura em uma coreografia da antiga Hannah Montana. Eu não entendia muito de música, mas aquela menina, Miley, estava diferente.
— Expulsar da sua casa? — Estranhei, brincando com os cabelos loirinhos de Jack, que agora eram uma floresta intensa. A marijuana e seu poder de deixar tudo mais intenso.
— %Fil% está morando comigo faz um mês. Eu te contei, %Julieta%! Você não presta atenção nas coisas que eu te conto, toda vez é isso...
Cam começou a reclamar um monte e eu desliguei-me dele tentando lembrar de alguma conversar que isso me foi citado. Após rir descontroladamente das garotas dançando, lembrei que Cam realmente me contou. Após um ano de turnê, %Fil% conseguiu juntar dinheiro o suficiente para fazer um estúdio na própria casa. Passou a morar com Cam enquanto a casa estava em construção.
— Cameron! — Os olhos verdes do rapaz estavam quase cobertos pela vermelhidão causada pelo fumo. Talvez ele não estivesse tão sóbrio assim. — Preciso ir ao banheiro, você me ajuda? — Ele assentiu e ajudou-me a tirar Jack das minhas pernas, deixando-o deitado devidamente no sofá e me pôs de pé. Minhas pernas tinham se transformado em gelatina e eu quase caí.
— Você quer que eu vá com você no banheiro? — perguntou quando percebeu minhas pernas moles e eu assenti. Subi em suas costas, entrelaçando minhas pernas em volta dele.
As meninas continuavam a dançar na frente da TV, talvez não atentamente pois senti-me fuzilada com os olhos de Dana e Laura acompanhando meus movimentos com Cam em direção ao banheiro do quarto de Dana.
— Não vai querer que eu te limpe também, não é? — Desci das costas dele, rindo, quando chegamos ao quarto. — Não foi assim que eu planejei ver você nua pela primeira vez.
— Cameron, para de dar em cima de mim! — ralhei, beliscando a barriga dele, mas sem conseguir controlar as risadas. — Tem duas pessoas lá na sala que vão me esmurrar se você continuar com isso.
— Duas? — questionou. Cam era tão perspicaz quanto eu, fingir-se de distraído não combinava com ele. Bastou um cruzar de braços e uma sobrancelha alta, ele logo revelou que sabia muito bem do que eu estava faltando. — Ah, sim. Você percebeu.
— E estou achando ridículo! Quando você e Dana vão admitir essa tensão entre vocês? — Fui para o banheiro, deixando a porta entreaberta para manter a conversa.
— Quando eu parar de me agarrar com Laura por aí — expôs sem a menor vergonha.
— Você é um imenso de um cafajeste.
Lavei minhas mãos e joguei água no meu rosto também, tentando diminuir inchaço e a cara de drogada que eu estava. Um leve rastro escuro da maquiagem ficou abaixo dos meus olhos, mas não liguei. Me deixava até um pouco sensual, fato que foi comprovado quando saí do Cam.
— Cara, o que aconteceu com você no Jeins? Você era bonita antes, mas agora você está a maior gostosa! — Gargalhei. Joguei meus cabelos para o lado, piscando apenas um olho para o rapaz a minha frente. Ele apertou as mãos no peito, como se tivesse sido atingido.
— Se você flertar comigo mais uma vez, eu não respondo pelos meus atos — declarei, apontando um dedo a ele.
— Mas eu vou ter que responder pelos seus atos. Vai ter, pelo menos, umas cinco pessoas que eu vou ter que dar justificativas — exprimiu. Ri, também fazendo a contagem na minha mente e era isso mesmo. Absolutamente todas as pessoas da sala — e de fora dela também — iriam querer explicações detalhadas de um suposto caso meu com Cam.
Sentei na cama de Dizzy, jogando-me de costas, sentindo meus músculos todos se movimentarem, causando ruídos indeterminados. A ideia de dormir naquele apartamento passou a me atormentar durante a noite inteira, eu precisava ter um plano de escape contra aquele breve incômodo que me perseguia. Com isso em mente, olhei para a única pessoa que poderia me ajudar e que parecia menos chapado do que eu.
— Preciso de ajuda da sua mente maligna, Cam — comuniquei, puxando minha mala e minha mochila para perto. Arrumei a minha mochila de modo que fosse o suficiente para passar dormir em outro lugar.
— Com o quê?
— Não vou conseguir dormir aqui hoje — declarei, suspirando. Procurei um pijama na minha mala, deixando tudo uma bagunça.
— Eu sabia. Você tem estado estranha a noite inteira — murmurou, sentando no chão a minha frente. Neguei, já que na minha visão, eu estava sendo perfeitamente normal e estava até socializando bem. Mas Cam articulou sua resposta muito bem. — Primeiro que você quase não bebeu. Segundo que você aceitou fumar logo de primeira, isso não é normal — enumerou as coisas com o dedo e eu revirei os olhos. O número de pessoas que me conheciam bem acabara de aumentar. — E você estava com um olhar estranho também. O que houve?
Antes que eu pudesse responder, a porta do quarto se abriu. E por mais clichê que isso seja, a nebulosidade diminuiu e tudo começou a fazer sentido novamente.
%Filipe% %Buchart% nem ao menos me deu tempo de ficar de pé. Veio correndo até mim, deslizando de joelhos dramaticamente pelo chão e abraçou minha cintura fortemente.
Apertei meus braços em volta dele, escondi meu rosto no seu pescoço, beijando-o várias vezes no local. O seu perfume ainda era o mesmo, seu cabelo estava o mesmo.
Talvez eu fosse a única que não fosse a mesma ali.
— Quanta falta eu senti de você! — declarei, suavemente. Ele se afastou e olhou meu rosto atentamente. Como usualmente, comecei a ficar sem graça com sua análise sempre tão atenciosa e desviei o olhar, lembrando de Cam sentado ali. — Baby, seu amigo Cameron estava dando em cima de mim.
— Eu sabia! — %Fil% esticou-se para dar um tapa no pescoço do amigo, sem tirar o outro braço da minha cintura. — Por isso entrei sem bater na porta, nem nada. Queria vê-lo no ato. E também lembrá-los que você, %Julieta%, já tem um cara só para você.
Meus lábios abriram-se de leve. Imediatamente tive vontade de jogar %Filipe% naquela cama e matar a saudade que eu estava do corpo dele e de um sexo de qualidade, para variar.
— Só para mim? — Desviei o olhar para seus lábios.
— Só para você, baby.
— Ok! Isso aqui ficou sexual rápido demais! — gritou Cam, tirando-nos do rápido transe que entramos. O que já era de praxe quando se tratava de nós. — Eu vou sair porque sinto que vocês vão começar a se agarrar a qualquer momento.
— Não, espera! — reclamei. Puxei %Fil% para sentar ao meu lado e dei atenção a Cam antes que ele se irritasse. — E o nosso plano?
— Agora que %Fil% chegou e só dizer que vocês querem sair para transar. — Cam deu de ombros. Revirei os olhos e joguei um par de meias nele pela ideia idiota.
— Dana vai me matar se eu dispensar ela por causa de uma transa — afirmei.
— Espera, plano de quê? A gente vai transar? Eu não estou entendendo nada! — reclamou %Filipe%, desorientado.
— %Julie% não quer dormir aqui hoje — respondeu Cam, revelando minha apreensão, jogando o par de meias de volta para %Fil%.
— Por quê? O que houve? — questionou e eu suspirei. Pensei duas vezes se deveria contar ou não. Se eu contasse, o meu status de pessoa frágil voltaria à tona. Mas eram %Filipe% e Cameron ali. E era Hillswood. Eu não precisava mais me fazer forte e insuperável na frente deles. Não precisava fingir que sabia lidar com minha imensidão de sentimentos e intensidade.
— É besteira. Eu reclamei com Dizzy que não queria dormir nessa cama com ela porque não ia conseguir descansar direito. E ela falou que estava com saudades e que eu deveria descansar em casa... — contei. Peguei as mãos de %Fil% e comecei a brincar com seus dedos. Eles entreolharam-se, tristonhos. — Eu disse que era besteira.
— O que você disse mais cedo fez sentido agora... — Cam mordeu o dedo mindinho, pensativo. — Eu já sei o que fazer. Sigam minha deixa!
Cam levantou do chão e saiu do quarto, andando em passos firmes. Eu e %Fil% nos entreolhamos e começamos a rir sem motivo. Talvez fosse pela nostalgia do momento, armação de planos era nossa especialidade. Levantei, pronta para ir à sala também, mas fui impedida por %Filipe%, que me puxou de volta pelo braço, sentando-me na sua perna direita.
— Como você está? — perguntou, brincando com a ponta dos meus cabelos.
— Agora eu estou bem, finalmente. — Ele sorriu para mim e, céus, eu senti falta daquele sorriso. Senti falta de tê-lo tão perto de mim. — E você?
— Um pouco cansado. Passei 18 horas dentro de um avião só para ver você. — Enquanto relatava, sua mão passeava pela minha coxa exposta. Minha pele parecia despertar com o toque do homem após um ano inteiro de dormência.
— Eu passei o ano inteiro sentindo saudades de você, nada mais justo — repliquei.
Os lábios apertados em um sorriso malandro deixavam-me fora de mim. Ele olhava para meus lábios e meus olhos como se estivesse pedindo permissão para se aproximar. E quando ele finalmente aproximou-se, a sensação de volta ao lar se apoderou de mim. Desci minhas mãos pelo seu rosto, seu pescoço, chegando aos seus braços. Estranhei quando os senti mais firmes e afastei-me para olhar mais atentamente.
— Seus braços estão maiores — enunciei, tocando nos bíceps dele.
— Voltei para a academia. — Deu de ombros, puxando-me para perto novamente.
— Ah, não! Vai ser um saco você ficar ainda mais irresistível. — Bufei, brincando com a gola do seu casaco.
— Irresistível, tipo você? Desculpa o modo de falar, baby, mas você loira... Está uma delícia.
Dito isso, segurou um punhado de cabelos meus e acabou com o espaço entre nós, tomando meus lábios com pressa e vontade abrupta. Ambos suspiramos quando nossos lábios se tocaram, todo meu corpo entrou em alerta. %Filipe% %Buchart% ainda seria minha causa de morte. Era terrível e assustador sentir-se assim, tão dependente de um beijo. É claro que eu tive meus casos e meus amores, eu não parei minha vida no Jeins por conta dele. Porém, com %Filipe% era diferente. Com ele era anormalidade, intenso demais. A gente não precisava de rótulos, não precisávamos de lugares, músicas, nem empurrões. Era inevitável.
Éramos inevitáveis.
❍❍❍❖❍❍❍
— Vai ser melhor, amiga. Você vai estar sóbria, eu não vou estar tão chapada e vamos aproveitar melhor nossas companhias. Vou ficar com você até volt... — Engoli em seco, sentindo-me mal de usar as palavras de Dizzy contra ela. — Até eu voltar para casa.
Dana estava se recusando a entender a ideia de Cam. O fotógrafo deu a ideia de que eu dormisse uns dias na casa de todo mundo até meu voo de volta para Springfield, já que todo mundo queria me encher de novidades e fofocas e nem metade foi falado naquela noite. Falou que ele mesmo estava doido para sentar e conversar comigo sobre várias coisas e tinha certeza de que %Fil% e Jack também estavam.
"Eu sei que todo mundo quer contar as novidades para %Julie%, mas não precisa ser de uma vez", Cam tentou explicar para uma Dizzy, quase irredutível, de braços cruzados. Nós estávamos na porta, esperando por Laura, que procurava a chave do carro do rapaz. Dana fez um show quando me viu saindo do quarto de mochila, com %Fil% ao meu lado.
— Se organizar direitinho, todo mundo transa — brincou Laura, colocando as garrafas e restos de lixo em um grande saco preto e procurando as chaves no meio daquela grande bagunça.
— É, mas todo mundo sabe que só quem vai transar mesmo é o %Fil%. — Abri a boca, indignada com as palavras de Jack, que surgiu na conversa. Peguei um copo descartável que estava na bancada e joguei no rapaz que estava deitado no sofá. Todos gargalharam, apenas eu e %Fil% continuamos a xingá-lo.
— Você não estava dormindo? Idiota! — Hostilizei o rapaz.
— É só o %Filipe% chegar e você esquece que eu existo — resmungou, revirando os olhos. Jack havia despertado após Vic tomar coragem e chamou um Uber para eles. A gente não sabia exatamente a quanto Victoria e Jack estavam juntos, mas eles tinham uma cumplicidade e afinidade de dar inveja a qualquer casal. Estavam quase morando juntos, mas ninguém tinha tido a coragem de deixar sua própria casa.
— Na minha época, você ficava bêbado e só acordava daqui a uma semana! — reclamei, indo até ele e beijando sua testa. — Os tempos são outros mesmo...
Cam anunciou que tinha achado as chaves e começamos a nos despedir de todos. Quis dar um soco em Cam quando o vi dando um selinho de leve em Laura. Me aproximei de Dana e ela me olhava com uma carranca, mas me abraçou quando estendi meus braços a ela.
— A gente conversa melhor amanhã, tudo bem? — Acariciei seu rosto de leve, fazendo um biquinho junto com ela. Dei um beijo no nariz dela e segui em direção ao elevador com os outros dois.
Quando as portas do elevador se fecharam, eu virei e distribuir alguns tapas no braço de Cam. Parei sob reclamações do mesmo e risadas de %Fil%, que já desconfiava o motivo da minha ira.
— O que eu fiz agora? — O homem massageou o braço atingido por mim, olhando-me surpreso.
— Você fica beijando essa garota! — exclamei, gesticulando irritada.
— E o quê que tem? — perguntou, dando de ombros. — Somos afetuosos um com o outro.
— Afetuoso é como a Dana olha para você quando você se aproxima da Laura — comentou %Fil%, risonho. Olhei de relance rápido, mas acabei olhando de novo tamanha a perfeição deste homem.
%Fil% estava encostado na parede do elevador, com a mochila em apenas um lado do ombro. Os braços cruzados abaixo do peito, o olhar maroto, o rosto barbeado e o sorriso ladino eram a combinação fatal contra mim.
— Caramba, eu tinha esquecido o quanto você é bonito! — soltei o elogio sem querer, olhando um pouco indignada para %Fil%. O cantor gargalhou, passando a mão pelo rosto corado e ouvi Cam bufar ao meu lado. Não era muito justo com o resto do mundo ele ser tão bonito assim. Continuei a falar, parando de olhar para %Filipe% porque ele desviava minha atenção. — Enfim, se até o %Fil% percebeu, não é muito difícil de você entender, Cameron.
— Devo me ofender? — questionou %Fil% enquanto saíamos do elevador e entramos na garagem, procurando pelo carro.
— Claro que não, baby!
— Sim, deve! — Eu e Cam falamos ao mesmo tempo, rindo em seguida. Cam jogou as chaves para %Fil%, que pegou no ar.
— Você pode me explicar de novo seu lance com ela? — pedi, entrando no banco de trás do carro.
— Já ouviu aquele ditado: "em época de guerra, qualquer buraco é trincheira?" — prendendo o riso, Cameron citou.
— Quanta classe! — %Fil% revirou os olhos. Tentei nem olhar para o rapaz dirigindo.
%Filipe% %Buchart% dirigindo mexia com meus hormônios severamente.
— Genial! — Gargalhei.
— Não tem nada demais. Eu a beijo às vezes. A gente nem transou, só rolou uns dedos — explicou e eu fiquei uma careta pela explicação chula.
— Você é nojento — repreendeu %Filipe% novamente. As piadas sujas e palavreado chulo de Cam eram demais para o pobre coração (nada) inocente de %Fil%.
— Isso não é sexo para você? — perguntei para Cam, sentando no banco e me posicionando entre os bancos da frente para olhar melhor para eles.
— Não, ué. Sexo é sexo! — Deu de ombros. — Meu pênis não foi usado em momento algum — esclareceu, ocasionando uma breve indignação em mim e %Filipe%.
— Isso não quer dizer nada, cara — murmurou %Fil%, negando com a cabeça.
— Você acabou de desqualificar o sexo lésbico em massa aqui, Cameron — declarei, revirando os olhos com o pré-conceito dele. — E sem falar na sua pouca imaginação para sexo.
Lembrei imediatamente de uma temporada inteira que passei com Santiago, sobrevivendo apenas de sexo oral e uns amassos mais elaborados. Por algum motivo, algumas vezes aquilo não era o suficiente para mim e eu sentia que quando fosse transar futuramente, eu ia gozar majestosamente. Mas sexo é algo extremamente pessoal e intransferível. O que era bom e ruim para mim, não era para outro pessoa. O que não dava certo para mim com alguém, podia dar certo comigo e outro cara.
— Parece que você não sabe das coisas que são possíveis de serem consideradas sexo. Com a sua concepção, todos os sex shops do mundo iriam falir. — Após sua declaração, %Fil% virou o rosto para me olhar e eu quase me afundei de vergonha no banco de trás. — Certo?
— C-certo... — gaguejei. Intimidada com o olhar sacana de %Filipe%, virei seu rosto para frente com minhas próprias mãos. Nada me deixava mais inflamável do que lembrar das nossas aventuras sexuais. E às vezes nem eram aventuras, eram simplesmente vontades nossas que surgiam numa tarde de segunda, nos fazendo sair da cama e procurar pelo sex shop mais próximo.
— Tudo é sexo! Exceto sexo, que é poder — dissertei sobre o quote de Oscar Wilde. Entretanto, eu sabia que %Filipe% entenderia porque também era parte de uma música de Janelle Monáe.
Música e literatura era onde nossos corações se encontravam.
— Me mata quando você fala assim, %Julieta%... — %Fil% suspirou com uma mão no peito e um sorriso relaxado no rosto.
— Vocês dois precisam transar urgentemente! — Cameron observou nossas feições, sentindo a nossa tensão sexual quase nos engolindo e o levando junto.
— Defina sexo. Já que sexo para mim são preliminares para você — expressei, ainda impressionada com a incoerência de Cam. Olhei pela janela e percebi que estávamos chegando à rua de Cam. O caminho é rápido quando estamos conversando e não tem trânsito algum pelos paralelepípedos de Hillswood.
— Você não me disse que tinha ficado com alguém. — A voz de %Fil% irrompeu no meio da risada de Cam, que a engoliu rapidamente.
— Uh, ainda bem que já estamos chegando! Assim eu posso me trancar no banheiro enquanto vocês se matam aqui embaixo. — Cam gargalhou e nós acabamos rindo com ele.
— Eu disse que tinha tentado e realmente tentei — expliquei, falando de forma leve para que não soasse como se eu estivesse me defendendo ou justificando. Eu não era culpada de nada, afinal.
— Eu achei que o seu "tentar" fosse um jantar que não deu certo ou algo do tipo. Não que envolvesse você chupando um cara qualquer por aí — exprimiu em um tom de voz duro.
— Cuidado com suas palavras — adverti, não gostando nem um pouco do seu tom de voz e escolhas de palavras. Ele suspirou, já transparecendo impaciência. Entrou na garagem de Cam com um solavanco, fazendo-se notar que estava com raiva. — Eu contei para você que não estava conseguindo... Sabe? Com outro cara.
— Por que não? — Cam perguntou e dei de ombros, também não sabendo explicar o porquê. — Você também teve esse problema? Com a garota de Londres... — soltou Cam, inocentemente.
Mas eu soube que nada ali era inocente quando %Fil% arregalou os olhos, travando uma tapa no braço de Cam, que se assustou. Ele não entendeu, até olhar para trás e ver meus olhos semicerrados em direção ao cantor.
— Você me disse que só tinha beijado algumas garotas — recordei, puxando minha mochila para meus braços e descendo do carro.
— Mas aconteceu depois daquela nossa conversa. — Ouvi %Fil% justificar do outro lado do carro e revirei os olhos.
— E você ainda estava me enchendo de cobranças — resmunguei.
Entramos na sala da casa de Cameron e nada tinha mudado. De todos nós, Cam era o que tinha a maior casa. Tinham dois andares. No andar debaixo, ficava a sala grande, com móveis brancos e as paredes cobertas de fotos, uma coletânea dos seus trabalhos preferidos. A cozinha ficava ao lado e não era muito grande, mas as janelas eram todas de vidro, dando um ar mais amplo e arejado ao local. No segundo andar, tinha o quarto de Cam, um banheiro e um escritório. Cam explicou que dormiria na sala e eu poderia dormir no quarto dele. Não fui educada e não reclamei, pois a sala de Cam era bastante confortável, seu sofá era um retrátil e reclinável, logo ele dormiria sem grandes problemas e eu estava necessitada de uma cama de verdade.
— Vou tomar um banho. Tentem não quebrar... a casa inteira — clamou Cam ao subir as escadas.
Sentei no sofá, planejando esperar por ali enquanto Cam usufruía do próprio quarto. Olhei para %Fil%, esperando que ele também fosse para o escritório — que era onde ele estava dormindo —, mas ele sentou ao meu lado no sofá, jogando sua mala no chão. Olhou-me como se estivesse esperando eu começar a falar. Eu tentei muito ficar calada e quieta, não queria dar o gostinho a ele de perceber que eu estava incomodada e louca de ciúmes de seu possível caso com uma britânica que, na minha mente, era a Emma Watson, encantando-o com seu jeitinho doce, meigo e... britânico.
— Você... Foi até o final com ela? — Bati na minha própria testa quando ouvi minha voz me traindo e perguntando. — Com a garota que você ficou?
— Qual delas? — Ergueu uma sobrancelha, provocador.
— Ah! Foi mais de uma? Ótimo! — desdenhei, sentindo aquela irritação já conhecida chegar em mim.
— Se você pode ficar se relacionando por aí com caras que eu nem soube da existência... — retrucou, cruzando os braços.
— Você tem noção que está falando isso sem propriedade nenhuma, não é?
— Eu contei que tinha beijado umas pessoas — explicou, dando de ombros, como se estivesse se isentando de toda a culpa.
Maldito.
— Beijar, %Filipe%! E sem falar que você ficou com elas por aí sem saber que eu estava com alguém, então você foi um babaca primeiro — exprimi toda minha revolta na minha expressão corporal. Cruzei os braços e as pernas ao mesmo tempo. Ele olhou-me com uma sobrancelha erguida e eu posso dizer que vi uma fagulha passar por seus olhos. Parecia que eu tinha encostado um ferro quente em seu pescoço, tamanha a indignação do mesmo.
— Agora nós estamos falando a mesma língua! — exclamou um pouco mais alto, virando seu corpo inteiro para mim. — Então você estava com alguém e não me contou.
— Toda essa discussão é ridícula, %Filipe%. Nós não tínhamos nada!
Me arrependi do que disse quase no mesmo segundo.
%Fil% bateu com as palmas das mãos nas próprias pernas, causando um forte estalo e levantou do sofá, andando para o outro lado da sala.
— Eu juro que se ouvir você falar mais uma vez que nós não temos nada, eu vou enlouquecer! — Ele negou com a cabeça e, nervoso, passou as mãos pelos cabelos, puxando-os de leve.
— Eu mal cheguei na cidade e você já está surtando! — Continuei com minha pose insolente, olhando-o debochada, do jeito que eu sabia que ele odiava.
— Talvez porque eu passei o ano passado inteiro ouvindo você repetir a mesma merda! — esbravejou.
— Porque nós éramos amigos! — A fisionomia de %Fil% se transformou de chateado para irritado, contendo sua própria fúria.
— Amigos? %Julieta%, eu fodi você em cada canto daquele apartamento, eu te fiz uma música. Eu cancelei uma porra de um show por você. Como você tem coragem de falar na minha cara que nós éramos apenas amigos? — indignou-se.
%Filipe% começou a falar forte demais, eu tinha certeza de que Cam já estava apreensivo no andar de cima. Até eu já estava ficando apreensiva. Eu tinha esquecido da nossa intensidade. Tal qual sexo, nossas brigas também eram abrangentes e fortes, intensas.
— Eu não sei como diabos a gente chegou nessa discussão. — Esfreguei meus olhos, sentindo todo o cansaço do dia me abater. Ou então eu só não queria lidar com %Filipe% e suas duras verdades jogadas em minhas mãos.
— Você quer amizades? Ok, vou ser seu amigão a partir de hoje. — Deferiu dois tapinhas no meu ombro e distanciou-se de mim.
Abri os lábios indignada com tamanha raiva e audácia do mesmo. Parece que após tanto tempo reprimindo seus sentimentos por minha culpa, %Filipe% tinha estourado. Em um gesto brusco, marchou em direção à escada.
— Uou! Espera aí! — Exasperada, fui até ele e me coloquei em sua frente, notando sua testa franzida pela raiva. — Você está terminando comigo, é isso?
— Achei que a gente não tinha nada. Somos amigos, não? — Cruzou os braços, olhando-me raivoso. Senti algo dentro de mim espumar.
Queria gritar, queria chorar, tudo de uma vez.
— Você é um babaca — constatei. Empurrei seu ombro com a mão, mas ele nem se moveu. Continuou imóvel, encarando a mim. Peguei minha mochila e fui em direção a escada.
— Um babaca cansado, apenas. — Ouvir aquilo pareceu ser um gatilho para mim. De repente, eu me tornei super ciente de mim mesma e de meus sentimentos.
— Você está cansado?! — Fui até ele, sentindo nossos corpos se trombarem e eu tive que ficar na ponta dos pés para olhar em seus olhos. Estávamos próximos, de modo que eu sentia sua respiração forte bater contra meu rosto. — Eu estou cansada, %Filipe%! Passei um ano inteiro fingindo que estava bem, vendo absurdos acontecerem ao meu lado, eu só queria um pouco de paz. Me desculpa por tentar procurar um pouco de sossego.
— Eu sou o seu sossego, porra! — gritou, segurando meu rosto em suas mãos fortemente. — Não é possível que você seja estúpida e não entenda o que está acontecendo aqui!
Uma mistura de tristeza e raiva cresceu dentro de mim, senti um nó em minha garganta. Me odiei por ser empática e entender completamente por que %Filipe% estava perdendo as estribeiras comigo. Tentei manter-me inexpressiva, mas as lágrimas inundavam meus olhos. A sala parecia sufocante e a culpa era toda minha.
— Ei, se acalmem! — Ouvi a voz de Cam atrás de nós, mas não me importei. %Filipe% continuou segurando meu rosto e eu continuei olhando-o, prendendo meus lábios como se isso fosse um impedimento para as lágrimas não caírem. — Está de madrugada, os vizinhos...
— Você me chamou de burra? — Tentei falar e me manter sustentável, mas minha voz estava falha por conta de todo choro que eu havia reprimido.
— Não! Desculpa, só quis dizer que quando se trata de nós, você se torna uma pessoa totalmente incoerente! — bradou alterado e eu, já não aguentando mais, tentei me desfazer do seu aperto.
Tirei suas mãos de mim agressivamente, esmurrando seu peitoral algumas vezes. Ele acabou se defendendo dos meus empurrões, tentando manter meus braços longe dele. Escutei Cam falar um "ei" enquanto tentava me afastar do homem a minha frente. Eu não sabia por que estava com tanta raiva já que %Filipe% não tinha falado nada mais do que verdades, mas estava.
Livrei-me do toque dos dois. Se eu fosse prezar pela minha dramaticidade, eu sairia pela porta e ficaria na rua ou dormiria em outro lugar. Mas eu estava cansada, não só fisicamente. Desde que entrei na casa de Cam, eu só queria deitar na cama gigante e confortável dele. Então, ao invés de correr para a porta, corri para as escadas, pisando firme nos degraus.
Entrei na porta a direita, dando de cara com o escritório. Estava completamente bagunçado, o sofá-cama coberto por colchas e edredons. Havia algumas malas no chão e em cima da mesa que ficava no canto estavam alguns objetos. E a pior parte: O cheiro do perfume de %Filipe% impregnava o quarto inteiro. Bati a porta antes de prestar mais atenção nas coisas e entrei na porta ao lado. O quarto de Cam também estava bagunçado, mas nada pavoroso. Soltei os cabelos do rabo de cavalo, senti meu sangue voltar a circular e senti-me até um pouco tonta. Tirei todas as minhas roupas, deixando no chão mesmo e fui para o banheiro no corredor, sem me importar com o frio que fazia ou se algum dos dois me veria nua.
Eu já estava no meu ápice, não queria me importar. Estava cansada de ter que me importar com tudo. Parecia que a cada mês eu tinha que carregar um mundo diferente nos ombros e a culpa era totalmente minha.
A minha vida inteira tinha mudado completamente nos últimos tempos. Eu estava acostumada a viver na rotina, as histórias interessantes nunca aconteciam comigo, eu nunca era a protagonista. Então, de repente, eu estava presa em um triângulo amoroso com minha melhor amiga e tinha sofrido um acidente de carro. E fui expulsa da faculdade e havia voltado para minha cidade. E havia testemunhado a porra de assassinato!
E meu melhor amigo de infância estava morto.
Tudo o que poderia acontecer na vida inteira de uma pessoa, aconteceu comigo em um ano. E não estava sendo fácil.
Quando saí do banho, as luzes da casa já estavam todas desligadas, exceto a do escritório. Me perguntei como %Fil% estava. Provavelmente estava esperando que eu liberasse o banheiro, enquanto já devia ter arrancado todos seus cabelos.
Coloquei o pijama de moletom que havia colocado na mochila e me joguei debaixo das cobertas, sentindo minhas costas quase gritarem de alívio. Peguei meu celular e abri as mensagens. Eu não sei muito bem o que eu esperava encontrar, mas meus dedos escorregaram pela tela para o nome do Santiago. Eu queria falar algo, mas não tinha assunto algum, nem coragem de mandar um mísero "E aí? Ainda não sentiu minha falta?".
Era muito presunçoso da minha parte querer que ele sentisse minha falta?
Ouvi a porta do quarto ser aberta e virei minha cabeça para ver, sem mexer um centímetro do meu corpo. Vi a silhueta seguir até a cama, sendo iluminada apenas pela luz da rua que vinha da janela. Nossos olhos se encontraram no meio do caminho. Ele vestiu um moletom cinza sem desviar o olhar do meu rosto. Sua expressão, como sempre, neutra. Eu ainda estava deitada de costas para ele, desviei meu olhar, encarando a parede cheia de post its e anotações.
Não sei o que era mais doloroso. Olhar para a parede de Cam cheia de anotações e saber que, diferente de mim, todos eles tinham tarefas e responsabilidades. Ou olhar para o rosto descontente de %Filipe% após quase um ano sem vê-lo pessoalmente. Senti o colchão afundar e seu corpo invadir meu espaço, colocando-se debaixo do meu cobertor. Suspirei profundamente, sem forças para levantar ou brigar.
— O que você está fazendo? — Não desconfiei que estaria com a voz fraca e falha até perguntar.
— Vou dormir com você hoje — informou, normalmente.
— Não me recordo de ter convidado — retruquei, tentando parecer rude, mas eu já estava tão esgotada que nem minha voz estava cooperando para minha atuação.
Senti %Filipe% suspirar, impaciente. Ele também estava esgotado, supus. Prendi a respiração quando ele se aproximou mais de mim, tocando minhas pernas com as dele. O cheiro de sabonete e limpeza estava me deixando doida para virar e enterrar meu rosto em seu pescoço.
— Foi um dia estressante, %Julieta%.
— O problema não é meu, %Filipe%.
Ficamos em silêncio. Se qualquer pessoa entrasse no quarto, conseguiria sentir a tensão em suas mãos. O clima pesado começou a se dissipar quando %Filipe% sutilmente passou o braço por cima de mim, quase como quem pede autorização para me tocar.
Eu dormi com menos de cinco caras na vida inteira. Três deles eu estava bêbada e foram situações pós sexo. Um deles foi o único que eu amei e mesmo assim, eu não era muito a favor de dormir de conchinha. Imagine meu espanto ao me sentir estranhamente confortável nos braços de %Filipe% %Buchart% quando dormimos juntos pela primeira vez.
Senti meu coração acelerado e sabia o porquê. Meu corpo sentia falta dele, tudo em mim chamava por ele e quando ele me abraçou, senti tudo voltar. Eu ainda era apaixonada por %Filipe%, eu ainda estava perdida na vida, eu ainda estava sem emprego, ainda estava confusa e senti mais vontade de chorar quando pensei que mesmo estando mal naquela situação, eu ainda estava mil vezes melhor do que estaria em Springfield.
E pensar no Jeins, me fez pensar em tudo que eu deixei para trás e em tudo que fui obrigada a deixar. Ou a quem.
Era a segunda vez no dia em que as lágrimas fugiam do meu controle. Minhas duas lágrimas grossas não passaram despercebidas por %Fil%. Ele, que estava pouco inclinado em cima de mim, aproximou-se mais, grudando seu peito em minhas costas. Limpou o caminho das minhas lágrimas com o dedo indicador suavemente.
— Foi um dia difícil — comentei, fungando e coçando o nariz, tentando justificar minhas lágrimas. — E agora você está aqui e...
Não consegui completar. Queria dizer que ele ali parecia certo, mas como poderia ser, se ele estava totalmente justo em tudo o que me disse? Como pode tudo parecer certo e, ao mesmo tempo, errado? Eu tinha tanto para falar, queria pedir desculpas. E senti que ele também queria dizer algumas coisas, mas ambos ignoramos tudo.
— A minha vontade era ficar no meu quarto, só olhar para o seu rosto quando eu fosse obrigado — expressou rispidamente.
— Por que você está aqui, então? — questionei, franzindo o rosto, sem conseguir entender seus motivos.
— Porque eu não tive um dia bom, mas ficar com você sempre pareceu melhorar as coisas. Então... — Suspirei profunda e audivelmente. Ele me quebrava completamente quando dizia coisas assim. — Não por você, eu só queria me sentir melhor.
— Egoísta. — Sorri de canto, provocando-o.
— Eu sei, mas seu cheiro e seu corpo fazem eu me sentir bem. E como você é má comigo, não sinto culpa alguma em abusar dos seus poderes sobre mim.
Caras que escrevem, eles são um perigo.
Ali, entre os braços de %Filipe%, imersa no meu conforto, eu senti que havia — finalmente! —, encontrado meu sossego.
Me surpreendi quando ele jogou todo meu cabelo para cima, posicionando o rosto em minha nuca. Me arrepiei dos pés à cabeça quando ele respirou forte ali. Me atrevi a apoiar a mão em seu braço que repousava em cima de mim. Relaxei minhas pernas nas dele quando senti seus lábios depositando beijos suaves pelo meu pescoço. Seus beijos eram leves, mas me causavam tanta inconstância. Era esse meu problema com %Filipe%. Ele me deixava quase sem defesas, me fazia sentir demais, me fazia querer estar sempre perto dele. Eu tinha tanto para falar e senti que ele também queria dizer algumas coisas, mas ambos ignoramos tudo. A nossa única necessidade no momento era se desconectar do mundo por algumas horas. E era muito fácil esquecer que existia um mundo lá fora quando estávamos juntos.
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Existe uma linha tênue entre a arrogância e a confiança. Saber do seu potencial e ser prepotente também dividiam essa mesma linha.
Eu cheguei à editora Hall às 7h da manhã e quase todas as pessoas que conheci pelo caminho, não sabiam distinguir essa linha. Andavam com o nariz quase no teto, o peito estufado pelo orgulho exacerbado. Diferente de mim, que desde que entrei no prédio, estava me sentindo pior comigo mesmo a cada sala que entrava.
Eu realmente achei que a vaga já era minha e eu estava ali apenas para conhecer o local, por Toni ter me convidado pessoalmente para conhecer a empresa e tudo mais. Senti-me desanimada e confusa quando fui direcionada pela secretária a entrar na fila de entrevistas. Não por estar nervosa com uma rejeição, e sim por saber que não existia essa possibilidade. Toni garantiu que era apenas uma formalidade.
Eu odiei saber que todas aquelas pessoas que estavam ali, esperançosas que sairiam com um novo emprego, não chegariam nem perto da vaga. Quase comecei a chorar quando um deles sentou ao meu lado e começou a contar algumas dificuldades de vida. Algo normal, dificuldades rotineiras que todos temos, porém, minha mente acusava-me de coisas maldosas a cada palavra dele. Agradeci aos céus quando fui chamada a entrar na sala de entrevistas. Eu ainda estava na porta e o responsável já veio dizendo que estava muito feliz em me conhecer, que Toni já havia conversado com ele e que aquilo seria apenas uma formalidade.
Formalidade. Mais uma vez essa palavra. Nunca pensei que a formalidade poderia tornar-se sinônimo de corrupção. Ele nem sequer citou meus trabalhos ou o artigo que fez Toni chegar até mim.
Conversei com o homem rechonchudo por alguns instantes e logo fui encaminhada para o andar superior, onde um apreensivo Anthony Hall me aguardava na porta de seu escritório. Sorri ao vê-lo pela primeira vez após minha festa de despedida no Natal do ano passado.
Cumprimentamo-nos formalmente, ele até mesmo me chamou de Srta. Young, porém, quando entramos em sua sala e ele fechou as portas e persianas, pudemos agir como os velhos amigos idiotas que sempre fomos sem se importar com os possíveis julgamentos lá de fora.
— Ah, como eu senti sua falta! — Abraçou-me fortemente pela cintura, tirando-me do chão por uns segundos.
— E eu a sua! — exclamei, tocando sua bochecha com meus lábios. — Minhas festas em Springfield nunca acabavam na correria, era um saco!
— Trago emoção para sua vida! — Gargalhamos quando ele repetiu a frase que já se tornará um bordão interno nosso. Quase todas as lembranças de festas que fui com Toni passaram pela minha cabeça. Não todas, pois eu e Toni éramos muito "party people".
Qualquer cervejinha em um bar após a aula, tornava-se algo estrondoso.
— Olha só você, todo adulto! — gracejei, passando a mão por sua barba por fazer e pela gravata elegante.
— Alguém nessa família tem que ser — resmungou, rolando os olhos. — Está sendo difícil manter esse local de pé sozinho!
— E por falar nisso, você pode fazer o favor de me explicar o que eu estou fazendo aqui? — Fui em direção ao pequeno sofá verde que tinha no canto da sala, sentei e estiquei minhas pernas sobre a mesinha do mesmo. — Eu preciso que você guie minha vida, garoto! Estou aqui desde quinta-feira e ainda não sei muito bem o que vim fazer.
Toni riu e veio sentar ao meu lado, posicionando as pernas sobre a mesinha assim como eu. Logo começou a explicar que após a entrada dele como novo diretor da Editora Hall, a empresa passou por uma grande reformulação. Com isso, muitas pessoas foram demitidas e apenas as mais antigas — e as melhores — foram mantidas. Eram uma editora independente, mas a má administração da família de Toni fez com que a marca acabasse ficando instável no mercado.
— E é aí que você entra! — Franzi o cenho, ainda sem entender como eu me encaixaria ali. — Eu quero te contratar como minha conselheira administrativa.
O quê?
— Quê? — Confusa, tentei fazer com que ele me explicasse melhor a sua ideia, apesar de eu achar que já estava bem explicado. — Toni, eu acho incrível a sua ideia da reformulação. A gente já falava sobre isso a algum tempo, você sempre foi bom nessa área, mas fizemos faculdade juntos, cara. Eu sou jornalista, não sou administradora!
— %Julie%, eu sei que você não quer ficar presa às competências do jornalismo em si. Sei que você não quer trabalhar em um jornal novamente. — E não queria mesmo, até tremi no lugar com a ideia. Mas se essa fosse minha única saída, eu teria que aceitar. — Sei que você quer outra graduação, sei que quer outras experiências. Você lembra do trabalho da professora Jane, que nós tivemos que reformular uma revista inteira? Tivemos a maior média do curso nesse semestre. Fizemos um incrível projeto gráfico e editorial, %Julie%! Não é muito diferente do que eu quero fazer aqui na empresa.
"Nós temos a mesmas ideias. Você alcança onde eu não vejo, tem ideias que complementam as minhas, que melhoram! Quando eu li seu artigo sobre o Jeins, eu soube que você era a pessoa que eu precisava ao meu lado. Somos bons juntos! Somos uma boa dupla e eu confio em você. Eu não podia começar tudo isso sem alguém confiável comigo. Heide está cagando para a empresa, você sabe".
Abri e fechei a boca várias vezes, tendo dúvidas do que eu iria falar. Toni me pegou em cheio com aquele discurso, me deixando quase sem saídas. Se eu aceitasse, seria um grande tiro no escuro e eu não sabia se queria passar por essa adrenalina novamente.
— Eu agradeço muito por pensar e apostar tanto em mim, Toni, mas... — tentei refutar, mas o homem me interrompeu.
— Mas o que, %Julieta%? — Cruzou os braços, sorrindo intrépido. — Você sabe que gosta de um bom desafio, eu sei que você ama se meter em coisas que você acha que não sabe fazer. Você gosta de aprender!
— Toni, não estamos falando de um trabalho de faculdade, onde o máximo que poderia acontecer era repetir a matéria! — exclamei, surpresa com sua coragem para começar do zero algo que já tinha dado certo. — Estamos falando de um patrimônio, do seu patrimônio familiar!
Encarou-me meio tedioso e levantou do sofá, indo até um frigobar pequeno que havia próximo a sua mesa e tirou de lá uma garrafa de vinho branco. Pegou duas taças na estante de madeira branca chique e veio até mim.
— O que é isso? Bebendo no ambiente de trabalho, Sr. Hall? — Revirei os olhos, mas peguei uma taça de sua mão, esperando-o me servir.
Há três coisas nesse mundo que não se pode negar a ninguém: Água, bebidas caras e bo... uma outra coisa aí.
— Estamos comemorando seu novo emprego, querida! — Encheu nossos copos e tilintou sua taça na minha.
— Ainda não aceitei nada, Toni! — resmunguei, olhando para a vista bonita da sala de Toni.
— É porque eu ainda não comecei a falar de números. — Bebericando sua bebida, olhou-me de canto de olhou. Parecia perspicaz, astucioso. E eu que já estava quase convencida... — Eu mencionei que você vai ter sua própria sala?
❍❍❍❖❍❍❍
O prédio onde ficava o escritório da Editora Hall ficava na área comercial da cidade. Era um prédio de 15 andares, sendo uma empresa por andar. Era longe da minha antiga casa, eu precisava pegar o metrô para chegar lá. Por isso, não hesitei em aceitar a carona de Cam, que me avisou por mensagem que estava passando por perto e que precisava falar comigo. Havia alguns bancos no outro lado da rua e foi nele que eu sentei após a entrevista, esperando por Cam.
Eu ainda estava meio dividida com tudo o que estava acontecendo, mas visualizei o que seria minha vida e como está sendo agora e até sorri. Eu ainda estava incomodada com a forma que tudo se deu, mas não queria reclamar. As coisas darem certo para mim era quase que uma novidade. Eu lembro que minha psicóloga costumava dizer que eu devia parar de me sentir culpada por estar bem. A minha vida não tinha que estar uma merda sempre, meus sentimentos e atitudes não eram validados apenas se eu estivesse em sofrimento. E já fazia um tempo que as coisas não se encaixavam como estavam encaixando-se agora. Eu perguntava-me se deixar algumas coisas inacabadas pelo caminho fazia parte da jornada. Se perder pessoas e ter que lidar com escolhas difíceis, como família ou emprego, faziam parte dessa via.
— E aí? Como foi lá? — questionou Cam assim que coloquei parte do meu corpo dentro do carro.
— Adivinha? — Dei um beijo rápido em seu rosto e me voltei para puxar o cinto de segurança.
— A vaga era uma merda, a entrevista foi horrível, você volta para Springfield amanhã definitivamente, sem data para voltar...? — supôs, ansiando por minha resposta.
— Eu realmente pensei que também fosse falar isso quando entrasse no carro. — Ri com o nosso profundo negativismo. Se fosse Dana, ela me forçaria a ser positiva, entretanto, Cameron era tão negativo e mal-humorado quanto eu. — Mas, na verdade, foi tudo o contrário.
— Então, quer dizer que a vaga e a entrevista foram boas e você... — Olhei para o rosto de Cam, vendo sua feição transformar-se de confusa para extremamente animada. — Você vai ficar?! — exclamou Cam animado. Assenti, sem controlar o sorriso gigante. O rapaz celebrou buzinando várias vezes em meio ao trânsito caótico e eu gargalhei com sua animação. — E como vai ser?
— Eu vou ser conselheira administrativa da empresa — contei, mordendo os lábios. Temia uma reação negativa quando contasse qual seria minha função.
— Uau, eu nem sabia que você podia ser isso! — Sibilei um "nem eu!" e acabamos rindo juntos. — Você é tipo a Barbie, consegue ser qualquer coisa. Acaba parando em umas profissões meio estranhas! — Ri novamente com sua visão sobre mim. — Mas vamos falar do que realmente importa: Salário.
— Já contando com auxílio moradia, transporte, plano de saúde... — Cam ergueu as sobrancelhas, falando "uh!". — Sim, plano de saúde! Levando em conta também que é o salário inicial, sem experiências e etc, é um bom salário. Bem mais do que eu ganhava no Daily.
— Uau! Você vai ter auxílio moradia?
Fora meu único pedido a Toni quando começamos a acertar alguns termos. Um salário que fosse o suficiente para que eu conseguisse um lugar bom e seguro para morar. Tendo em vista que agora eu era uma sem-teto, qualquer lugar era bom e seguro.
— Eu estava pensando nisso no caminho para cá — informou.
— Na minha breve vida como sem teto? — questionei, divertida.
— Sim! Se for muito loucura, você pode me parar, mas que eu me lembre, eu tenho um quarto em casa que posso alugar para você — sugeriu, olhando-me de soslaio.
— Você não tem outro quarto. — Franzi o cenho. Refiz o caminho da casa de Cam inteira mentalmente, tentando descobrir onde ficava o outro quarto. Sua casa era grande, mas não era uma mansão, não tinha possibilidades de ter quartos escondidos ou então... Túneis subterrâneos. Arrepiei-me só de pensar na improvável possibilidade.
Eu tinha uma péssima relação com salas subterrâneas.
— Tenho o escritório. Não o uso muito mesmo — lembrou-me. — Podemos transformar em um quarto para você.
%Filipe% já está quase fazendo isso.
— Exato! %Filipe% está lá.
A menção ao cantor me fez ficar atenta e nervosa. Desde a nossa última briga no dia em que cheguei, %Filipe% e eu estávamos estranhos demais um com o outro. Eu mais do que ele, admito. Quando acordei pela manhã depois daquele dia, %Fil% não estava mais ao meu lado. Antes que eu começasse a pensar em nossa briga, em meu momento de extrema fragilidade e em como estaria nossa relação, recebi a mensagem de Toni avisando que nossa reunião seria em dois dias. Foi o suficiente para que eu ficasse tão ansiosa com minha entrevista na editora, que não consegui pensar em outra coisa que não fosse isso. Felizmente, não o vi muito nos últimos dois dias, eu estava ocupada demais lidando com Dizzy e todo o seu cuidado após meu breve desequilíbrio mental.
— Não irá ficar lá para sempre. Ele tem a própria casa, %Julie%...... — Sorriu malicioso antes de continuar. — Que você conhece muito bem, por sinal.
— Você está realmente sugerindo que nós moremos juntos? — Busquei pela confirmação, antes que eu me animasse com ideia. — Porque eu realmente queria procurar um lugar para mim.
— Você ainda precisa juntar dinheiro até você achar um lugar para você. E procurar por um! São coisas que levam tempo, %Julie%.... — Cam desenvolveu sua ideia, já entrando no caminho do Burguer King mais próximo, onde todos tinham combinado de encontrar-se. — Dizzy não está mais disponível para você, Jack está pensando em convidar Vic para morar com ele e você morar com %Filipe% seria, no mínimo, complicado.
— Cameron — chamei seu nome, seriamente, fazendo-o olhar para mim. — Você está falando sério? Porque eu estou muito inclinada a aceitar!
Ele suspirou, sorrindo tranquilamente, parecendo muito seguro de si. E enunciou:
— Eu e você morando juntos... Vai ser uma temporada e tanto!
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Precisei voltar a Editora dois dias depois de minha entrevista. Toni queria me apresentar informalmente para sua equipe, mesmo que meu início oficial acontecesse apenas no mês seguinte. Passei o dia inteiro lidando com contratos, burocracias, documentos e tudo isso era terrivelmente cansativo. Nos meus dias cansados enquanto trabalhava no jornal e dava aulas na tutoria, eu costumava levar meus saltos dentro da mochila e calçava-os somente quando tinha que sair da minha mesa. Imagine meu desespero quando procurei por meus tênis em minhas malas e não achei. Fui obrigada a ir ao metrô, de saltos e saia lápis. Ficava muito bem em mim, ressaltava meus quadris e meu traseiro, mas passar o dia inteiro indo em órgãos públicos com essa saia (e saltos!) era insuportável.
Marcavam nove e meia da noite em meu relógio quando finalmente terminei todas as minhas obrigações. Era meu último dia em Hillswood, iria para casa na manhã seguinte e só retornaria à cidade no final de janeiro, quando meu contrato iniciava e meu primeiro dia de trabalho começaria. Cam resolveu fazer um jantar, em comemoração à minha contratação e a minha nova moradia. Contrariando a lógica, o jantar foi no apartamento de Dana, não na casa dele.
Eu ainda tinha que andar algumas quadras para chegar no apartamento após sair do metrô. Eu estava tão cansada, minhas pernas estavam tão doloridas, que estava quase me arrastando. Usei minha antiga chave para entrar no prédio. Se o cansaço não estava me deixando louca, eu podia jurar que aquele de costas, esperando pelo elevador, era %Filipe%.
— Uau. — Ele virou para trás quando meus sapatos fizeram barulho pelo lobby. Seu olhar foi dos meus pés até a cabeça, com uma sobrancelha erguida, provocou: — Você está linda. — Ergui uma sobrancelha, desconfiada de seu elogio, pois eu não fazia ideia a quantas andava nossa relação. — Para uma amiga, sabe?
Respirei fundo, fechando os olhos.
%Filipe% era incansável. Parei ao lado dele, nossos ombros quase nivelados devido aos saltos que eu estava usando. Retirei minha bolsa do ombro, sentindo um alívio imediato.
— Não somos amigos — retruquei, encarando a porta metálica e cinzenta. Desviei o olhar, procurando por seus olhos. — Nunca fomos.
Vi %Filipe% estremecer com a minha afirmação, mas não dei a mínima. Eu estava cansada de jogos com %Fil% e de tenta ir contra nossa própria correnteza. Senti sua mão descer pelo meu braço e chegar até minha mão, puxando a bolsa de mim, colocando-a em seu próprio ombro. Quase agradeci quando a porta do elevador se abriu, mas soube que o pior estava por vir quando entramos e assistimos a porta se fechar numa terrível lentidão.
Fui atropelada por lembranças nossas naquele cubo. Encostei na parede, olhando em volta. Era um espaço pequeno demais para ter tanta bagagem. Eu parecia conseguir visualizar todas as cenas do passado bem em minha frente.
Eu e %Filipe% nos beijando no elevador, quase desesperados após passar uma tarde inteira como nossos amigos, sem poder nos tocar para não causar constrangimento. As variadas noites em que chegamos em passos bêbados, nos agarrando pelo cubículo, usando nossos próprios corpos como apoio. Nossos primeiros beijos após nossa primeira noite no Carté.
Não foi surpresa olhar para %Fil% e perceber que o olhar dele estava tão perdido quanto o meu.
— Parece que foi em outra vida, não é? — indaguei.
— Parece que foi ontem — respondeu, baixinho. Suspirou e virou-se para mim. — Você está bem com isso? — Franzi a testa, confusa e ele explicou. — Nossa recente amizade.
Na arte do deboche e do orgulho, %Filipe% era o mestre. Num ímpeto de coragem, causado pelo cansaço, falei:
— Se eu beijar você agora, ainda vamos insistir na ideia da amizade?
Dei um passo para frente, provocando-o. Achei que estava no controle da situação, mas eu havia esquecido que aquele em minha frente, não era Gabriel Santiago, nem Haniel. Era %Filipe% %Buchart%. E quando se tratava dele, eu nunca estava no controle. Engoli em seco quando ele aproximou-se totalmente, encostando nossos corpos, sem cortar o contato visual.
— Você vai? — questionou, desviando olhar para os meus lábios. — Me beijar?
— Não — retruquei. — Você vai?
— Só se você me beijar primeiro — explicou sua condição. A sensação da sua pele na minha sempre era indescritível. Arfei quando ele grudou nossos corpos, fazendo minhas costas baterem na parede. Eu ainda não era tão resistente a %Filipe%. Temia nunca ser. — Eu não vou me afastar.
— Nem eu. — Os botões da camisa social abertos permitiam que meu colo ficasse a mostra, sendo aquele o único pedaço de pele visível entre nós. Entretanto, ele era o suficiente para nos deixar em um frenesi inexplicável.
— Vamos ficar aqui assim? — questionou, apoiando uma mão no meu traseiro. Ouvimos a porta do elevador se abrindo, mas nenhum teve coragem de se mexer.
— É difícil para você? — Senti-me confiante quando a resposta não chegou. Aproveitei para inclinar um pouco minha cabeça, deixando meus lábios ficarem à mercê e no caminho certo para os lábios dele. Sorri de canto quando a respiração de %Fil% falhou.
— Para falar a verdade, é agoniante. — Encheu as mãos com os fios de cabelo na minha nuca, puxando de leve. Passou o polegar pelo meu lábio inferior, parecendo realmente estar lutando contra suas vontades. — O que houve com a gente, baby?
— Nada mudou, %Fil% — assegurei, acariciando seus braços. Mas eu precisava sair dali ou as consequências seriam outras. Afastei-o para trás, precisando sair do espaço entre ele e a parede.
— Não? — duvidou, deixando-me sair.
— Eu não sei. A única verdade que eu tenho conhecimento é que se a gente passar mais dois minutos nesse elevador, eu vou acabar dando para você aqui mesmo.
Não notei que o elevador estava com o ar tão quente até sair dele. O ar frio no corredor só provou que eu e %Filipe% éramos inflamáveis e perigosos demais para o nosso próprio bem. Andei até o 305 com as pernas bambas e coração acelerado. Eu já tinha me agarrado com %Filipe% várias vezes, dormimos juntos não tem nem uma semana, mas sempre que nossos corpos se tocavam, parecia a primeira vez.
— Caramba, %Julieta%! Me dá um beijo, só para eu testar uma coisa! — exclamou Cam assim que eu abri a porta do apartamento. Explicou quando percebeu minha confusão. — Você está gata!
— Argh, obrigada pelo elogio, mas estou sofrendo! — choraminguei e apontei para os meus pés, esticando as pernas em direção a ele. — Você pode tirar para mim?
Ele assentiu e abaixou-se para retirar meus sapatos. Fiz uma careta quando meus pés tocaram o carpete. Ah, a dor e o alívio de tirar os saltos. %Filipe% entrou logo em seguida, desejando boa noite a todos e parando na cozinha, para bisbilhotar as panelas de Cam. Logo fui cumprimentar as pessoas restantes da sala. Jack estava jogando videogame com Laura, Dana estava sentada no chão, mexendo no celular e observando tudo em silêncio. Tentei não olhar novamente para %Fil%, com medo de ficarmos presos no olhar um do outro.
— Cadê a Vic? — questionei, bagunçando os cabelos de Jack.
— "Oi, Jack Jack, que saudades! Como você está?" — Jack forçou uma voz fina, fazendo uma careta. — Você costumava me cumprimentar assim!
— Jack está tendo dificuldades para entender que Vic é nossa prioridade agora — explicou Dizzy delicadamente, causando resmungos em Jack. — Ela está participando da palestra de uma amiga.
— Vocês ainda não jantaram? — Atravessei a sala, indo sentar ao lado de Dana.
— Ainda não — lamentou Dizzy, inclinando-se sobre mim para me cumprimentar com um selinho. — Cam está nessa cozinha desde as quatro. Eu não respondo por mim se essa comida for uma merda!
— Ei! Se eu não tivesse que refazer os ovos que Jack estragou, já teríamos comido — reclamou Cam enquanto olhava para dentro de uma panela gigante que eu sabia que não era de Dana. — E além do mais, não se apressa o preparo de um belo steak tartare!
— Que porra é essa? — questionou %Fil%, confuso.
— É apenas bife. Cam é que está insuportável hoje! — respondeu Jack, rolando os olhos e logo desviou o olhar da TV para %Fil%.
— Em que país estamos? — perguntei. Cameron estava tentando, como ele mesmo diz, trazer cultura ao grupo e sempre preparava um prato referente a cada país.
— Deveria ser Alemanha, mas eu tenho certeza de que essa receita é da França — contestou Laura.
— A França só a fez famosa! — replicou Cam.
Aconcheguei meu corpo no colo de Dana, que acariciava meus cabelos. Desde a noite passada, a morena estava mais calada e quieta. Eu dormi com ela na noite passada e estávamos passando os dias juntas. Quase não conversamos, apenas ficávamos deitadas, ocasionalmente lembrávamos de algo e comentamos, mas nada além disso. Porém, eu não estava incomodada e eu sabia que ela também não. Quando você é amiga de uma pessoa a muito tempo, já não existe espaço para cobranças.
Você apenas quer conversar sobre amenidades. Falar sobre o clima, zoar Jack por ser um absoluto fracasso em todos os tipos de futebol. Reclamar com Cameron sobre a demora para comer. Ouvir sobre o dia do outro. E foi isso que fizemos, apenas conversamos.
Após o jantar, que estava realmente muito bom, nos reunimos na cozinha enquanto limpávamos a bagunça de Cameron. Ele já podia ser considerado um bom cozinheiro, mas ainda não havia aprendido a ser organizado.
— Aí ele disse que a decisão está em minhas mãos. Andy é incrível, de verdade. Mas Emmanuel é... — Dana, que estava sentada nas pernas de %Fil%, encostou a cabeça no ombro de Cam, que estava ao lado, choramingando. — A questão é que eu não faço ideia de como vou resolver isso.
Dana falava sobre seu dia no trabalho, contou que seu chefe havia deixado uma grande decisão em suas mãos. Ela teria que escolher entre dois redatores, seu dilema era que os dois eram ótimos profissionais, muito bem recomendados e muito necessitados. Ambos vieram de Springfield, para tentar uma vida profissional melhor e isso acabou tocando no ponto fraco de Dana, que se encontrava perdida.
— Faça uma lista, prós e contras — sugeri enquanto secava os pratos, que Laura estava lavando, e entregando a Jack, que definitivamente não estava fazendo sua parte, que era guardar a louça limpa. Ele apenas estava empilhando tudo em cima da mesa. Usava a desculpa que não sabia onde ficavam as louças, mas eu sabia que todo mundo conhecia a cozinha de Dizzy melhor que a sua própria. — Eu sempre faço isso quando estou em dúvida sobre algo.
— Vai começar... — resmungou %Filipe%, murmurando e deu um gole em sua cerveja.
Cameron, %Fil% e Dana estava quase grudados um ao outro. Graças as reformulações no apartamento, agora as meninas tinham uma mesa de jantar, mas o lugar pequeno só permitia a presença de duas cadeiras.
— Cala boca, eu lavei sua louça! — repliquei, lançando o guardanapo nele. Pegou-o no ar antes que atingisse Dana e jogou de volta para mim. — É um método muito eficaz.
— Pode até ser eficaz para qualquer um, menos para você — respondeu %Filipe% sarcástico.
— Mas ajuda! — Bati o pé no chão, contrariada. Ele me lançou aquele olhar debochado, de cima a baixo e parou, encarando meus pés. Ele sempre dizia que eu parecia uma criança quando batia o pé para ele. Joguei o pano nele de novo e ele (novamente) pegou no ar, jogando de volta. Antes que eu revidasse, Jack pegou-o de minha mão, sabendo que não iríamos parar.
— Não estou entendendo nada — confessou Cam, enquanto raspava a colher pela travessa onde estava o doce de morango que Laura havia preparado.
— Uma vez, a gente se perdeu a caminho do litoral simplesmente porque ela não quis pedir informação! Acabamos indo para uma cidadezinha que eu nunca ouvi falar e nem perguntem como nós fomos parar lá, a culpa é dela também — explicou %Filipe%. Reclamei com a culpa sendo jogada em mim de novo, mas ele ignorou meus resmungos e continuou falando. — A gente tinha que decidir entre seguir pela via direta, que estava congestionada. Ou pela indireta, que quebraria o carro dela. Então, %Julie% resolveu ter a brilhante ideia de fazer uma lista.
— Eu já saquei o que aconteceu! — Dana balançou a cabeça, sorrindo. — %Julie% é boa em fazer listas.
— Tão boa que acabou presa entre as opções. E a gente ficou dentro daquele carro por quase uma hora inteira — %Filipe% confirmou a afirmação de Dizzy.
— Empatou! As duas opções eram viáveis, %Filipe%! — Exclamei, insistentemente. — Ir pelo congestionamento era mais óbvio, %Julieta%! — rosnou, rolando os olhos.
— O carro estava com problema na bateria, ficaríamos no prego no meio de um congestionamento fodido. Do outro lado, pelo menos, tinha um mecânico — retruquei, irritada. Em nossa volta, todos observavam nossa pequena discussão, risonhos.
Lá estávamos nos, oferecendo mais uma dose de loucura grátis para o entretenimento alheio.
— Você lembra daquele caminho? O carro ia acabar com mais problemas do que já tinha! A gente ia acabar todo o dinheiro que tínhamos. Enfim! — Tentou pôr fim a discussão e eu tentei argumentar novamente, mas Jack veio por trás, cobrindo minha boca com a mão, causando risada em todos. — Você pode fazer uma lista, Dana. Se isso não deixar você ainda mais confusa.
— Eu, com certeza, sou mais decidida que a %Julie%! — brincou, piscando para mim e eu bufei. Odiava quando eu acabava parecendo uma louca! — Pode funcionar... — Deu de ombros, pensando melhor sobre a ideia.
— Mas e aí, o que vocês resolveram? — Quem perguntou? Jack, o curioso. É claro! Eu e %Filipe% nos entreolhamos, rapidamente.
— Eu não lembro muito bem... — Desconcertada, coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e voltei-me para a pia.
— É, eu também não... — concordou %Filipe%, com suas bochechas corada tal qual um menino de 10 anos. Todos se entreolharam, sabendo que tinha mais a se contar nessa história, mas ninguém se importou em perguntar. Todos se concentraram em ajudar Dizzy a fazer sua lista e conversar sobre o filme que passava na TV.
Eu lembrava perfeitamente o desfecho dessa discussão. E eu sabia que %Filipe% também lembrava.
Depois de uma discussão acalorada, acabamos transando no acostamento e depois voltamos para a cidade. Nós dissemos para o pessoal que conseguimos chegar no litoral, mas a verdade é que usamos o dinheiro da viagem para pagar três diárias em um motel de luxo na terceira avenida.
❍❍❍❖❍❍❍
— Ei, vou descer na rua, quero comprar algumas coisas — murmurou Dana no meu ouvido. — Desce comigo?
Estávamos todos sentados em frente à TV, assistindo a uma maratona de filmes natalinos. Cameron e Laura estavam deitados no chão apoiados um no outro. Jack havia ido encontrar com Victoria, deixando o lugar mais cedo. Dana e eu estávamos sentadas no sofá e %Filipe% estava no chão, sentado entre minhas pernas. Estranhei o pedido de Dana, mas aceitei mesmo assim. Ela levantou, indo em busca das suas chaves e de dinheiro. Olhei pela janela e notei que uma garoa fina caía lá fora.
— Posso usar seu casaco? — Inclinei para frente, murmurando no ouvido de %Fil%. Ele apenas assentiu, concentrado em O Grinch. Agradeci e me inclinei mais um pouco, beijando–o. Arregalei os olhos quando voltei a sentar normalmente, tomando ciência dos meus atos impulsivos. Torci para ele não notar, mas ele jogou a cabeça para trás, apoiando-se no estofados.
Olhava-me confuso, mas mantinha um sorriso ladino. — Desculpa, força do hábito.
Ele deu uma risadinha baixa, mas não falou nada, apenas voltou a assistir ao filme. Dana voltou a sala, me chamando com a cabeça. Procurei por suas galochas de chuva e sorri ao notar que ao menos isso estava no mesmo lugar. Provavelmente roupas sociais e botas de plástico não eram a melhor combinação, mas nem liguei, o casaco de %Filipe% me cobriria inteira.
— Então, qual o final da história? — questionou Dizzy assim que entramos no elevador. Confusa, perguntei de qual história ela falava. — Você e %Filipe% no litoral. Qual o verdadeiro final?
— Ah, sim. Nós... Bom, nós... — gaguejei, quase sentindo-me envergonhada. Dana olhou-me com uma sobrancelha erguida. — Nós transamos no acostamento e ficamos naquele hotel chique na terceira avenida — respondi, rapidamente. Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás.
— Vocês dois não tomam jeito... — comentou enquanto saíamos do elevador.
Caminhamos em silêncio até a pequena loja com uma placa luminosa vermelha escrito "24h", sentei em um banquinho de madeira enquanto esperava por Dana, que sentou ao meu lado quando saiu do local. Abriu a sacola, procurando algo dentre suas compras. Tirou um maço de cigarros e entregou-me uma latinha de cerveja.
— Você odeia fumar.— enunciei. Abri minha cerveja e ela acendeu o cigarro, dando um trago forte, tossindo fortemente em seguida.
— Minha amiga está indo embora pela segunda vez, eu tenho direito de fumar! — resmungou, mas logo começou a tossir novamente, ocasionando leves risos em mim. O breve diálogo me remeteu a nossa última despedida, em que ela disse o mesmo. — Eu odeio fumar!
— Eu vou voltar dessa vez — refutei, pegando o cigarro de sua mão e levando aos meus lábios.
— Não para mim — comentou, baixinho, olhando para frente, fazendo-me suspirar. Eu também estava tendo dificuldades em aceitar a ideia de viver em HW e não morar com Dana. Tendo em vista que passamos tanto tempo vivendo juntas, eu não sabia como seria me habituar a morar com outra pessoa. — Mas, para falar a verdade, eu acho que foi até bom, sabe? Esse tempo longe.
— Por quê? — questionei.
— Eu pude me conhecer melhor, conhecer quem era a Dana sem a %Julie%...
— Como assim? — questionei, confusa. Em minha mente, Dizzy era mulher mais completa e bem resolvida.
— Eu sempre fui Dizzy, a amiga da %Julie%... — refletiu.
— Engraçado, eu costumava ser a amiga da Dizzy, aquela que não tem nome — refutei e nós duas rimos pois não tinha como negar. Eu vivia a sombra de Dana desde sempre.
— Eu sei disso. Às vezes, eu me perguntava se você não se sentia mal, mas depois eu pensava: "e se as pessoas descobrissem que ela é incrível?". Então, eu nunca fiz nada para mudar isso. — Olhei-a, de soslaio, meio desconfiada de sua confissão. — O que é? Surpresa por eu ser uma vadia egoísta?
— Não, porque eu sei que essa não é a verdade. — Ri, negando com a cabeça e bebericando minha cerveja quase quente. Ficamos em silêncio por um tempo, Dizzy parecia pensar no que dizer, formulando frases em sua cabeça bonita.
— Eu nunca quis dividir você com ninguém — declarou, chamando minha atenção. Virei meu corpo para ela, observando atentamente sua feição compenetrada ao falar. — Os meninos apareceram e eu comecei a ficar meio desequilibrada. E aí... — Suspirou, jogando o cigarro no chão após a última tragada. — Vi você e %Filipe% no dia do aniversário dele, foi a primeira vez que eu vi vocês se beijando de verdade. Caramba, fiquei com tantos ciúmes! Hoje é engraçado pensar, mas acho que eu estava com ciúmes de você.
— Dizzy, você se apaixonou por mim, que amor — zombei, beliscando seu braço, fazendo-a gargalhar, jogando a cabeça para trás.
— Você não tem tanta sorte, garota! Não se anime — ironizou, apertando seu cabelo em um curto rabo de cavalo. — Sei lá, o tempo passou e eu parei de me importar. Acho que, no fundo, eu sabia que não estava realmente gostando dele.
— Acho que você gostou da ideia de gostar de alguém — supus, reflexiva.
— Pode ser. — Deu de ombros, apertando os braços por conta da umidade que aumentava em nossa volta. — Depois da nossa briga, eu quis morrer! Você sempre foi a melhor do mundo e eu achei que tinha estragado tudo entre a gente, mas você provou ser tão maravilhosa, que não transformou isso em um pesadelo para nós. E eu te amei tanto por aquilo. — Apertou os olhos, exprimindo seu relato de forma tão intensa que não consegui a interromper, apenas observei atentamente enquanto ela discursava carinhosa e pesarosa ao mesmo tempo.
"Até hoje tento entender aqueles dias, mas tudo se tornou tão desnecessário e pequeno depois que você foi embora. E você foi embora... Eu tive que aprender a viver sozinha. Os primeiros meses foram horríveis, %Julie%... Eu não sabia fazer nada em casa. Passei uma semana comendo apenas legumes porque quem sabe comprar proteína é você, a minha parte no supermercado eram apenas os legumes. E quando eu estava com os meninos parecia estranho, fiquei com medo de você ser a "cola" entre nós e que, sem ter você por perto, eles não quisessem minha amizade. Foram dias estranhos, acho que para nós duas, não é? Até que Laura chegou e eu comecei a me sentir normal de novo. E você está aqui de novo, é estranho pensar em tudo isso. Eu não me importo de você ir morar com Cam, fico até satisfeita de ser alguém que eu conheço. Mas eu não gosto de mudanças, nunca gostei".
Pisquei os olhos, atarantada com a quantidade de informações e sentimentos que Dana transmitiu a mim em seu relato. Abri a boca várias vezes, sem saber o que falar. Eu sempre achei que era totalmente dependente de Dana, que não seria nada sem a garota, não imaginei que ela sentisse o mesmo. Ela sorriu de lado, tocou a ponta do meu nariz com o indicador e se inclinou, beijando-o de leve. Agora também acho que o tempo longe nos fez bem. Foi ótimo para que a gente desconstruísse a imagem de deusa intocável que tínhamos uma da outra e nem sabíamos, para descobrir que existia vida lá fora sem Dana.
Apesar da vida com ela ser bem melhor.
— Eu nunca pensei que fosse possível amar tanto um amigo, mas eu te conheci. E eu e você, Dizzy, não é algo que vai mudar. Eu vou te amar, Dana Tomanzio — assegurei, sentindo minhas pálpebras úmidas. — Mesmo que você seja uma completa babaca comigo. Eu sempre vou ser sua amiga, sua amante ou qualquer coisa que você precise que eu seja — assegurei.
Dana virou-se para mim e me abraçou, aconchegando o rosto no meu pescoço. Acariciei seus cabelos enquanto pensava na minha sorte de, em um mundo com sete bilhões de pessoas, ter encontrado Dana, a mulher de cabelos não mais tão longos, porém, com o mesmo sorriso marcante e abraço acolhedor.
A chuva só aumentava, por isso decidimos voltar logo para casa. No caminho de volta, passamos por um casal, parado no meio da rua. Falavam próximos demais, olhando intensamente nos olhos um do outro. Dava para ver claramente que algo de importante na história deles estava acontecendo ali. A chuva forte deixava a cena mais dramática e bonita. Eu e Dana nos entreolhamos e, inconscientemente, diminuímos o passo, apenas para ver o desenrolar da cena. Entretanto, o final eu já sabia. Como eu já comentei antes, eu era familiarizada com cenas de demonstração de afeto em público pois estive presente em algumas delas. Mas pensando bem, a última vez que falei isso, eu ainda não havia sido protagonista em nenhuma dessas situações.
Eles beijaram-se apaixonadamente.
— Às vezes — comentou, murmurando em meu ouvido enquanto ainda tínhamos os olhos grudados nos dois —, eu sinto que todos têm uma história de amor para contar, enquanto eu sou uma droga de uma coadjuvante.
Virei a cabeça tão rápido quanto a garota do exorcista ao ouvir a declaração de Dana. Pensativa e com a expressão chateada, não viu minha expressão de surpresa com sua afirmativa. Reprimi um sorriso, totalmente assustada com a sincronia de nossos pensamentos e mais uma revelação de que Dizzy e eu éramos mais parecidas do que eu pensava.
Queria dizer a ela que, agora que ela havia notado isso, demoraria um pouco para alguém parecer na vida dela e tornar-se a sua história de amor. Mas apareceria, eu tinha certeza disso. Se eu, cheia de manias, complicada e egoísta havia encontrado alguém, para Dizzy esse dia não demoraria a chegar. Ouso dizer que já havia chegado.
— Você definitivamente é uma protagonista, Dana. Você tem cabelo de protagonista! — Toquei em suas madeixas azuladas.
— Eu não quero ser uma mocinha retratada de forma machista em que só a beleza importa! — reclamou, limpando o rosto tomado pelas gotas da chuva.
— Isso não serve para você. Fala sério, quem se forma com honras na faculdade e ainda tem tempo para ser bonita? Só você! E sabe escrever artigos!
— Eu sou ótima em escrever artigos — concordou, rindo.
Minha mente divagava enquanto caminhávamos pela rua longa. Eu amava o Jeins e sempre seria agradecida por ter nascido naquele lugar. Mas enquanto eu andava pela rua simpática, de mãos dadas com Dana, sentia-me tão em casa quanto em Springfield. A fina chuva não nos incomodava em nada, pelo contrário, era refrescante, mesmo que estivesse frio. Eu queria ter uma câmera para registrar o momento. A chuva e a umidade deixavam Hillswood tão aconchegante. Na época do Natal, ficava ainda melhor.
O Natal seria diferente esse ano. Ele não estaria na ceia.
— Dizzy? — Meu corpo me traiu novamente e eu nem percebi que havia a chamado. Paralisei, senti seu corpo parar ao meu lado, curiosa com minha reação súbita. — Atiraram nele.
Meu corpo começou a tremer, como se estivesse expulsando tudo o que eu havia prendido ali. Como se eu tivesse, finalmente, despertado.
— Pelas costas. Na escola. Sozinho. Totalmente desarmado, Dana!
Eu queria acordar e descobrir que tudo que havia acontecido desde que voltei para Springfield havia sido um sonho ruim. Mas eu despertei e tudo estava realmente acontecendo. Eu senti raiva nos primeiros dias, tanta raiva que eu havia me machucado várias vezes naquela semana. Até que chegou o dia em que a dor ficou maior que a cólera.
— É tão, tão injusto! — Minha lástima saiu, sobejamente, em forma de um soluço e eu deixei todo o choro preso sair, mesmo desconfiando que aquela frustração e inconformidade nunca iriam embora de mim.
Eu sentia que estava sufocando, meu peito parecia que estava se comprimindo e mal conseguia respirar. Desesperada, tentei me livrar dos braços de Dana que prontamente me abraçaram, porém, não foi possível, pois a mulher grudou seu corpo no meu ainda mais, abraçando-me ternamente. E foi no aperto resistente de seu abraço que encontrei forças para me libertar e liberar a quantidade de sentimentos arrebatadores que andavam por mim.
— Eu trocaria todos os meus dias felizes se isso significasse que você não ia sofrer por mais nem um dia, %Julie%.... — proferiu sem hesitação alguma na voz. E eu acreditei fielmente em suas palavras.
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Janeiro
— Eu sei disso. Eu sei! Mas você precisa entender que é assim que o capitalismo funciona. Você se forma e, de repente, a necessidade de encontrar um emprego se faz. Eu queria ser rica o suficiente para viajar por um ano para me descobrir como pessoa, mas você vai perceber que não é bem assim que as coisas funcionam para gente como a gente. Preciso que você me prometa uma coisa. Não me olhe assim, você é capaz de fazer promessas e sabe disso. Eu preci... Eu sei, você está irritado, mas eu preciso que você me prometa que não vai esquecer meu rosto. Eu sei que é difícil, você conhece muitas pessoas, mas... Eu sou sua única tia! Ninguém vai te ajudar na hora de fugir de casa ou...
— Eu tenho certeza de que os funcionários do aeroporto vão aceitar sua desculpa de perder o voo por estar explicando o que é capitalismo para o meu filho de três meses — zombou Clarissa, tentando puxar o pequeno e gorducho Benjamin de meus braços.
Todos estavam me zombando por estar a quase meia hora conversando seriamente com meu sobrinho, mas poxa!, eu amava tanto aquele carinha, só a possibilidade de esquecimento dele me deixava triste, apesar de saber que era inevitável. Havia chegado o dia de voltar a HW e eu sabia que estava me boicotando, pois estava usando todos os artifícios para adiar minha ida.
— Maconha! — gritei, assustando até mesmo o pequeno em meu colo. — Eu sou a tia legal que vai esconder a sua maconha dos seus pais chatos.
— Três meses, %Julieta%. Três meses — reafirmou Adam categoricamente.
— Já chega, filha. Está na hora, vamos! — Minha mãe balançou meu ombro direito, fazendo-me choramingar.
Agarrei a bolinha em meus braços, abraçando-o fortemente, tentando memorizar o cheirinho dele, a textura de sua pele, seus cabelinhos loiros, seu pezinho. Céus! Eu o amo tanto. Me matava ter que ser a tia distante, eu queria ser a tia legal e presente, que era babá quando os pais precisavam de uma folga.
— %Julieta%, cinco minutos! — Meu pai bradou, balançando as chaves do meu antigo carro.
— Titia ama você, Big Ben — murmurei no ouvido dele, beijando sua cabeça levemente. — O mundo ficou melhor depois que você chegou — afirmei, sentindo meus olhos arderem. Deixei Adam pegá-lo de meus braços e me voltei para abraçar minha irmã.
— Me ligue todos os dias — pediu, ou melhor, decretou com a voz de Clarissa, aquela a quem nada se pode negar.
— Como sempre — assegurei, limpando minhas lágrimas.
— Se você me ligar todos os dias, eu vou bloquear seu número — informou Pat, brincalhão, ou nem tanto.
— Idiota, você vai sentir minha falta quando sair dessa adolescência maldita — brinquei, bagunçando seus cabelos e o abraçando fortemente. — Amo você — murmurei, ouvindo-o dizer de volta.
Minhas malas estavam no carro, não era muita coisa e eu definitivamente estava voltando a HW como da primeira vez, com algumas malas e cheia de medos e esperanças. Me despedi mais uma vez e corri para o carro com meus pais, já que ambos já me ameaçavam. Apesar de ser como da primeira vez, estava diferente agora. Eu estava tomada por aquele sentimento de certeza, apesar de não ter tanta. Mas Hillswood parecia ser a coisa certa e não dá para se sentir muito perdido quando se está fazendo a coisa certa. Além do mais, eu tinha duas pessoas me apoiando, que eram literalmente as melhores em ser as melhores do mundo.
Mas eu ainda era uma pessoa ansiosa. Logo, quando estávamos no carro a caminho do aeroporto, o desespero me abateu.
— E se nada der certo, eu odiar o emprego, não souber o que fazer, Cameron me expulsar e eu perder todos os meus bens? — questionei, arregalando os olhos, aterrorizada.
— Tem pontes em Hillswood, não? — questionou minha mãe, brincando.
— Mãe! — choraminguei. — E se tudo der errado?
— Então você nos liga e nós vamos pegar você no aeroporto. — Meu pai, senhoras e senhores. Meu papai. O desespero se foi da mesma forma que chegou: rapidamente.
Encostei a cabeça no vidro, sorrindo emocionada. Quando dobramos a esquina, meus olhos acabaram encontrando os olhos de Gabriel Santiago pela última vez.
— Pai, você pode parar por um segundo? — pedi.
— %Julie%... — reclamou.
— Vai ser rápido, prometo! — assegurei. Logo, meu pai encostou o carro e eu desci apressada. Santiago levantou do banco onde estava sentado quando me viu indo até ele.
Depois de tudo que aconteceu, as coisas ficaram estranhas por uns dias. Eu tive que me manter longe, não por vontade própria e sim por segurança. Depois da morte de Sun, a gangue que ele fazia parte não mediu esforços para descobrir culpados e preparar vinganças. E esse tipo de situação não fazia mais parte do meu cotidiano, então, me mantive afastada.
— Oi — murmurei, ofegante.
— Oi. — Ficamos em silêncio por alguns segundos antes de ele perguntar: — Você está indo? — Assenti, mordendo os lábios, sem saber muito bem o que falar. — D-desculpa se... Alguma coisa...
Olhando para o responsável pelas minhas perdas, eu agradeci por ter o reencontrado. Eu não conseguiria ser a nova eu sem ele. Eu não conseguiria muita coisa sem ele.
— Eu vou sentir sua falta — confessei, interrompendo-o. Sua expressão vacilou, porém, ele apenas assentiu. Eu sabia que ele estava dizendo que também estava sentiria, de alguma forma. — Promete que vai responder minhas mensagens e ligações?
— Você vai mandar mensagens e ligar? — questionou, cruzando os braços. Rolei os olhos, socando seu braço. — Eu vou responder sempre que possível. Sabe como é, não vou estar aqui para sempre... — Franzi o cenho, confusa com seu pensamento. — Fala sério, você acha mesmo que eu nunca vou ser preso?
Gargalhei alto, jogando meus braços em volta dele sem culpa, apertando-o em um abraço carinhoso. E sem hesitar, encostei meus lábios no dele. Gabriel Santiago definitivamente merecia ser mais do que apenas alguns capítulos. Antes de tudo, era educado, respeitoso, leal e confiável. Era meu amigo.
— Até algum dia, Gabriel!
— Até algum dia, garota.
Corri de volta para o carro, sentindo o olhar pesado e julgador de meus pais em cima de mim, mas nada me foi questionado. Aos poucos, à medida que avançávamos, a imagem de Santiago e do bairro atrás dele foi ficando cada vez mais distante. A ficha caiu.
Havia, sim, algo diferente desta vez. O preço a se pagar por estar indo embora de novo era alto, valia a primeira palavra ou os primeiros passos do meu sobrinho. Mas eu também havia aprendido que eu sempre poderia voltar para casa e agora eu tinha duas. Eu não sei se um dia aprenderia a sempre viver longe de um dos meus lares, mas eu só descobriria se tentasse. E essa nova eu, confiante, empolgada com algo novo, era produto de uma eu que perdeu muito naquela cidade.
Será que algum dia eu descobriria o meu "lugar certo"? Eu tinha um lugar certo? Existia o tal lugar certo?
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Cameron ♥️ (16:56): Não vou poder estar em casa pra receber você, só volto amanhã. %Fil% está lá, tentem não destruir minha residência, eu agradeço! Te vejo amanhã, roommate 😘
"Valeu, Cam!" Pensei, torcendo a boca em um bico. Guardei o celular de volta na bolsa e mandei uma mensagem para Dizzy, avisando que eu já estava em Hillswood, porém ela não respondeu, arruinando meus planos de ficar com ela até Cam voltar para casa.
Quando entrei na casa de Cam, minhas malas e algumas caixas minhas estavam todas espalhadas pela sala. Eu ainda não tinha móveis e nem estava com todas as minhas roupas e objetos, mas já era oficial. Eu realmente tinha voltado a HW e ia morar com uma pessoa que não era Dizzy.
Joguei minha bolsa no sofá, olhando em volta do que seria minha nova casa. Aproximei-me de uma estante cheia de fotos. Sorri ao notar que estava lotada de fotos nossa. Cameron era um amor mesmo. Havia fotos de todos juntos, uma foto de Dizzy me abraçando, diversas dele com Jack me fizeram revirar os olhos. Em um dos quadros tinha uma foto minha e %Filipe% no dia da minha festa de despedida. Suspirei ao passar um dedo pela foto. Eu estava tão cansada desse vai e vem, das nossas brigas sem fundamento. Eu estava com %Fil% a dois anos e eu ainda tinha medo de assumir para ele o quanto o queria. Eu era loucamente apaixonada por ele e estava cansada de não aproveitar isso. Olhei para as escadas, apreensiva e decidi subir e procurar por ele.
Já no segundo andar, encontrei o quarto de Cam completamente aberto e vazio e a porta do escritório entreaberta. Coloquei meu rosto entre a fresta, sem imaginar que %Filipe% realmente estivesse ali. Ele estava deitado de bruços, usava uma cueca samba-canção, como de costume e ressonava baixinho. Saí de fininho e voltei para o andar de baixo, procurando pela sacola do supermercado.
%Filipe% havia comentado no nosso grupo de mensagens que estava com a garganta dolorida e possivelmente inflamada. A agenda de shows dele aumentara significativamente, causando esforço demais a suas cordas vocais. Agora, seu corpo estava pedindo por descanso, algo que ele se recusava a fazer. Ele só estava dormindo pois havia feito um show na noite anterior. Sabendo disso, lembrei que eu costumava fazer suco de gengibre com maça — que são ótimos para a voz — e oferecia a ele após seus shows. Quando cheguei no aeroporto, me vi indo até um mercado do outro lado da rua e comprado gengibre, maça e qualquer coisa que sabia que faria bem a ele.
Assim que terminei de fazer o suco e coloquei em um copo, voltei ao escritório. %Filipe% ainda estava na mesma posição. Deixei o copo em cima da mesa e fui até ele. Sentei no sofá, ao seu lado e com o dedo indicador, acariciei seu rosto amassado. Aos poucos, %Filipe% começou a se mexer e abrir os olhos. Quando focou seu olhar em mim, sua feição tornou-se confusa.
— Devo dizer "bom dia"? — brinquei, mexendo em cabelo bagunçado.
— Oi, linda — murmurou com o cenho franzido e a voz extremamente rouca. — O que você está fazendo aqui? Que dia é hoje? Eu estou sonhando? — Dei risada, pois seus vários questionamentos combinaram com seu cabelo arrepiado apenas para um lado e sua expressão perdida.
— Hoje é dia dez, meu retorno a essa cidade maravilhosa! — exclamei, animada, mas logo assumi uma posição preocupada. — Como está a garganta?
— Ruim. — A voz tão rouca que tive dificuldades para entender a única palavra.
— Eu fiz suco para você. — Estiquei-me para pegar o copo na mesa e dar a ele. Ele sentou, com as pernas esticadas e agradeceu, sorrindo fraco. Abalou-me deixando um beijo leve em meus lábios ao pegar o copo de minha mão.
Não era à toa que eu tinha dúvidas sobre meu status de relacionamento com ele. Até quando não estávamos juntos, éramos um casal. Sempre éramos um casal, sempre seríamos.
— Isso me lembra nossas manhãs de domingo — recordou, após tomar um gole da bebida.
— E você sendo insuportável em todas as vezes que eu adicionava mel ao suco. — Rolei os olhos e ele riu.
%Filipe% costumava fazer shows em todos os sábados. Nós sempre estávamos juntos naquela época, então quando acordávamos no domingo, a voz dele estava estourada.
— Como foi seu voo? — questionou, bebendo um gole considerável. A voz já parecia voltar ao normal.
— Tranquilo, a poltrona ao meu lado veio vazia, eu pude dormir e descansar bastante — contei. Retirei minhas sandálias e aconcheguei-me no sofá-cama. — Só não foi divertido ter que andar cheia de malas pelo aeroporto.
— Por que não me ligou? Se eu soubesse, teria acordado cedo para ir te pegar. — Pigarreou ao final da frase. Pela expressão, eu sabia que ele estava incomodado com a voz rouca e com possível dor.
— Não faz isso! Pigarro faz mal para garganta — ralhei. — Você está tomando seus remédios?
— Tom enfia na minha goela todos os dias! — reclamou, rolando os olhos e finalizando sua bebida.
Estiquei meu corpo no estofado, deitando de bruços ao lado dele. Por estar de vestido, minha calcinha acabou ficando a mostra, mas não me importei. %Filipe% já tinha visto locais do meu corpo que nem eu mesma enxergava. Puxei o travesseiro para debaixo da minha cabeça. O quarto estava tão friozinho e aconchegante. Eu nem estava com sono ou cansada, mas não queria levantar dali tão cedo. Talvez o corpo quente de %Filipe% tivesse algo a ver com isso.
— Você vai fazer alguma coisa agora? — perguntei, ele negou com a cabeça. Seu olhar percorreu meu corpo, parando no meu traseiro. Sorrindo de lado, levantou meu vestido mais um pouco e beliscou minha nádega esquerda. — Deita aqui comigo?
Ele apenas deitou ao me lado, sem fazer nenhum outro movimento. Eu sabia o que ele estava fazendo. Ele estava esperando por mim. Estava esperando pelo meu próximo passo. Mais uma vez, %Filipe% deixou a decisão em minhas mãos. Só que dessa vez, eu não iria decepcionar. Levantei um pouco, apenas para me aconchegar em seu peito, forçando-o a passar um braço pelo meu ombro.
— %Fil%? — chamei após passarmos uns segundos em silêncio. — Você sabe que nós não somos apenas amigos, não é?
— Eu sempre soube. Você sabe? — Suspirou, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Eu tenho vontade de sentar na sua cara toda vez que eu te vejo. Isso não é amigável — afirmei e %Fil% gargalhou, tirando o braço do meu pescoço e sentando.
— Não, não é — concordou, saindo do meu lado e abrindo a porta de um pequeno armário que havia no cômodo. — Eu não dei o seu presente de Natal.
— Eu não te comprei nada. — Senti-me culpada quando ele veio até mim com uma caixa de presentes azul em mãos. — Baby, não precisava.
Sentei, pegando o caixa das mãos dele. Sentou ao meu lado, observando atentamente minha reação. Desfiz o laço e rasguei o embrulho rosa em volta, ansiosa. Senti minha boca se abrindo aos poucos quando percebi o que era. Uma caixa branca média que guardava uma câmera profissional, uma Canon Rebel. Eu nunca tive uma câmera, não por falta de vontade, eu simplesmente nunca tive dinheiro suficiente para comprar uma.
— Você é maluco... — murmurei, passando a mão pela caixa nova. — %Fil%...
— Lembra quando nós fomos naquela galeria onde Cam estava expondo algumas fotos? Você disse que queria ter talento como ele. Eu acho que você tem, só nunca explorou esse lado. Está na hora de entrar em uma nova fase — explicou, sorrindo suave. Minha expressão ainda era de choque.
Fazia muito tempo desde aquela exposição de Cameron, foi algumas semanas após nos conhecermos. Não acredito que %Filipe% ainda lembrava daquilo. Subi minha visão, desviando o olhar da caixa e encontrando seus olhos gentis. Foi um ato muito bonito dele, coisa que um amigo faria.
Entretanto, eu não conseguia pensar em outra coisa. Eu precisava que ele fosse completa e inteiramente meu. Por que eu já era completamente dele.
— Namora comigo? — proferi, rapidamente.
Assim que as palavras saíram de mim, fiquei chocada com meu ato de coragem e impulso. Amaldiçoei-me de todas as formas. Assisti várias emoções passarem pelo rosto de %Filipe% em menos de um segundo.
— O-o quê? — gaguejou, embasbacado. Prendi meus lábios, desviando o olhar dele, envergonhada. Ouvi uma risada baixa, fechei os olhos, envergonhada. — %Julieta%, v-você acabou de me pedir em namoro?
— Não. Sei. — Expressei pausadamente, não tendo muita ciência de meus próprios atos.
Antes que eu dissesse algo mais, ouvi a gargalhada alta de %Filipe% reverberar pelo cômodo.
Jogou-se de costas na cama, ainda gargalhando. Tirei a caixa das minhas pernas, desorientada. Eu pedi Felipe em namoro?!
— %Julieta% Young, você me pediu em namoro! — acusou, rindo alto e batendo palmas. — Essa é a melhor coisa que já aconteceu!
— Cala a boca, deixa eu pensar! — gritei, chutando as pernas dele e ficando de joelhos na cama. Enfiei as mãos no meu cabelo e baguncei, como se isso pudesse organizar meus pensamentos. Isso só fez o idiota ao meu lado rir ainda mais. Ria tanto que seu corpo já estava se contorcendo. Irritada, subi em seu corpo, sentando em sua barriga e tentando cobrir sua boca e interromper as altas risadas que dava em minhas custas. — %Filipe%, para!
— Tá bom... — Tentou parar, limpando as lágrimas dos cantos de seus olhos. Mas é claro, foi inútil. Rolei os olhos, emburrada. Sentou-se, comigo ainda sentada por cima. Passou um braço pela minha cintura enquanto esticava-se, puxando a caixa da câmera para mais perto de nós. Com um braço, ele abriu a caixa, enquanto o outro braço, infiltrava-se por debaixo do meu vestido. — Abre seu presente, %Julie%....
Olhei para a caixa entreaberta e depois para seu rosto, agora mais calmo. Estranhei seu comportamento de primeira, mas depois pensei: E se houvesse algo dentro da caixa?
Ah, não.
Com uma mão, ergui a tampa da caixa e logo após, tirei a câmera de dentro. Ao retirar o objeto, notei um pequeno post-it grudado no fundo da caixa. Estava dobrado, assim eu não conseguia ler o que tinha dentro. Respirei fundo, pois temia já saber o que estava escrito ali. Olhei para ele, encontrando sua expressão nebulosa de sempre.
— Comprei já faz meses, mas nós estivemos estranhos nos últimos tempos, então... — justificou. Seus olhos corriam pelo meu rosto, tentando encontrar algo.
— Quanto? — questionei. Precisava saber a quantas vinha aquela vontade %Fil%. Ele balançou a cabeça, negando.
— Alguns meses.
— %Filipe% — insisti. Eu precisava de informações mais precisas.
— Logo depois que eu saí na minha primeira turnê de seis meses — esclareceu, meio cabisbaixo. — Você foi embora logo depois, então, eu guardei. Se a câmera não funcionar mais, a culpa é sua.
Um ano. Suspirei, sentindo meus olhos arderem. Desviei o olhar para o pedaço de papel preso a caixa. Um papel de um ano atrás. Estiquei o braço, tocando no papel. Respirei fundo antes de desdobrar o papel. "Seja minha namorada". Um ano inteiro desde que %Filipe% tentou me pedir em namoro, mas a vida nos levou em direções opostas. Dobrei o papel novamente e olhei-o.
— Sim — respondi, simplesmente.
— Que bom, porque eu já tinha aceitado seu pedido minutos atrás. Você roubou meu momento, %Julieta%! — Puxou meu corpo, encaixando minhas pernas em volta de sua cintura. Ri envergonhada, cobrindo meu rosto com as mãos.
— Você demorou um ano! — acusei, passando meus braços em volta do seu pescoço.
— Pensando melhor, foi melhor assim. Ficamos um tempo longe, só para ter a certeza — explicou, acariciando meu rosto. — Para você ter a certeza de que queria isso tanto quanto eu — frisou bastante minha insegurança. Desceu uma mão por debaixo do meu vestido, encaixando-a entre minhas nádegas. A outra mão desceu as alças do meu vestido, expondo meus seios. Expirei fortemente. — Agora dá para nós fazermos o que sabemos fazer de melhor?
— %Fil%, você está doente... — Tive dificuldades de completar a frase. Seus beijos pelo meu pescoço e colo foram mais do que suficiente para me deixar em uma molhada e vergonhosa situação lá embaixo.
— Eu não estou sentindo mais nada — contestou.
— Eu definitivamente estou sentindo alguma coisa. — Movi meus quadris na evidente animação dele, causando suspiros pesados em ambos.
Parecia que nossos corpos estavam numa dança, cheia de mãos, suspiros e beijos tranquilos, mas fortes. A posição em que estávamos deixava tudo mais quente e urgente. Sem muita paciência, nós estávamos apressados e sedentos um pelo outro. Ele apenas afastou minha calcinha e a partir daí, me transformou em um corpo que apenas gemia e desfrutava de seus prazerosos movimentos precisos.
— Uau. Você realmente vai ser minha namorada? — indagou.
Após nossa consumação loucamente apaixonada, intensa e impaciente, o cantor olhava para o teto, pensativo.
%Filipe% e eu éramos duas pessoas exaustas. Encarei-o de volta, fazia tempo que eu não era namorada de alguém. Mas agora que eu era, eu estava feliz que era namorada do %Filipe% %Buchart%.
— Arrependido? — Ele me abraçava por trás, seus lábios tocavam meu ombro e seus braços me apertavam.
— Um pouco. — Virei-me completamente para ele, com uma sobrancelha erguida. Nem 24 horas namorando e o cara já estava arrependido? — Você é louca, já tentou me matar com um celular. Imagina se um dia eu decido terminar? Vai tentar me matar com a câmera?
— Você é ridículo! — Ri alto, jogando minha cabeça para trás. Subi em seu corpo, deitado sobre ele, na costumeira posição. — Saiba que vou ficar com você até quando você me quiser.
— Você está ferrada, então! — Gargalhou alto, revirando nossos corpos na cama. — Eu sempre quero você. — É estranho falar de "para sempres" no início de relacionamento. Mas, assim como tudo que nos envolvia, não era estranho, nem rápido demais. Sequer era o início da nossa relação!
— Essa palavra aí é perigosa — comentei, negando com a cabeça.
— "Você"? — zombou, já sabendo do que se tratava.
— "Sempre" — respondi, revirando os olhos. — O "sempre" é perigoso, %Fil%.
— Eu sinceramente acho que depois de você, não vem mais ninguém — refletiu, mexendo no cabelo, sem notar que eu estava quase sumindo no colchão de tão encolhida por estar sem graça com sua ágil resposta.
That boy's a slag the best you ever had…
— Você não saiu dos 20, babe! — retruquei, carinhosamente.
— Tem coisas que são fáceis de reconhecer, %Julieta%. — Decidi aceitar sua resposta. Do momento que aceitei meu novo emprego, decidi aceitar tudo que vinha até mim de bom grado. Estava na hora de acatar as decisões do universo e colher as novidades que os bons ventos estavam trazendo. — Se você tem dificuldades por conta do seu bloqueio emocional, a culpa não é minha. — Atacou-me repentinamente, fazendo-me prender o riso.
— Eu perdi alguma coisa? Quando saímos do "amor eterno" para a agressão gratuita? — reclamei, beliscando suas bochechas.
— Nós sempre estamos entre o amor e a agressão — gracejou, fazendo-me rir. — Você é a incógnita da minha vida.
— A culpa é totalmente sua, foi você que foi atrás de mim no bar. Aliás, você realmente foi atrás de mim? — questionei, curiosa.
Lembro que no início da minha relação com os garotos, eu sempre acreditava que eles estavam procurando ou querendo falar apenas com Dana, e com %Filipe% não era diferente.
— Sim... — admitiu com as bochechas avermelhadas, como se não estivéssemos nus, dividindo a mesma cama.
— Ah, que bonitinho, você me paquerou! — Gargalhei. Ele rolou os olhos, puxando o lençol de mim.
— Não mudou muita coisa. — Envergonhado, enfiou o rosto no meu pescoço, dando uma risadinha e depositando um leve beijo antes de levantar da cama. — Eu sempre a quis mais do que você me queria.
— Eu acabei de te pedir em namoro, %Buchart%! — proferi, quase exasperada.
— Você quer mesmo que eu liste os motivos do porquê demorou tanto para isso acontecer? — indagou, sarcástico. — Falando nisso, eu preciso contar para a minha mãe.
— Eu posso contar? Ela vai amar — pedi, empolgada.
— Não, já chega de roubar o meu momento! — resmungou, jogando meu vestido de volta até mim. — E fica longe da minha mamãe, essa amizade de vocês duas não está fazendo bem para minha coroa. Eu tenho certeza de que ela está no Tinder por influência sua. — Apontou com o dedo indicador, dando ênfase a sua acusação.
— Eu só comentei que existia um aplicativo...
— Eu nem quero ouvir o resto dessa história. — Parou minha explicação, fazendo me rir.
— Eu preciso contar para Dana! Me dá meu celular, por favor. — Assim que o encontrei, procurei pelo ícone com a foto de Dana, que já havia respondido minha mensagem de horas atrás.
DizzyD 😍 (17:20): Oi! Só vi suas ligações agora, já chegou???
DizzyD 😍 (18:00): Onde você tá??
DizzyD 😍 (18:02): Me respondeeee
DizzyD 😍 (18:05): Rastreei seu celular! já está no Cameron, certo?
DizzyD 😍 (18:06): Me liga!!
Eu (18:50): Já em HW. Inclusive, cheguei na cidade comprometida.....
DizzyD 😍 (18:50): O QUE?
Gargalhei quando Dana começou a mandar vários gifs aleatórios e mostrei para %Fil%. Abri o nosso grupo de mensagens, aproveitei para contar logo, já que todos deveriam estar saindo de seus respectivos empregos. Puxei %Fil% pelo ombro e posicionei a câmera para tirar uma selfie e enviar no grupo.
Eu (18:56): AMIGOS, ACONTECEU!
DizzyD 😍 (18:58): aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Cameron K (18:59): você tá grávida?
Baby ♥ (19:00): Não sou mais um homem solteiro.
Cameron K (19:00): porra, finalmente!
Dizzy (19:00): aaaaaaaaaaaaaa
Eu (19:01): É galera, é oficial, tô namorando!
Jack Jack (19:05): Com quem?
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Fevereiro
— Merda!
%Julie% digitava no celular com tanto afinco e concentração que só percebeu que caminhava sob uma poça de água quando sentiu a umidade passar do tênis All Star até seu pé. Após um mês de experiência no novo emprego na Editora Hall, %Julieta% já estava mais do que acostumada a ser a "conselheira administrativa", apesar de nem sempre se ater ao que era designada a fazer.
Também fazia um mês que ela era mais do que amiga/peguete de %Filipe% %Buchart%. E o casal ia muito bem, obrigada. Já haviam terminado três vezes desde o início do namoro, mas ambos sabiam que nenhum término deles era para valer.
Marcavam nove e meia da noite no relógio, quando %Julieta% finalmente dobrou a esquina de sua antiga rua, já avistando sua antiga morada.
%Julie% sentia muitas saudades de morar com Dana, senti falta de morar com uma mulher.
Entretanto, Cameron era um ótimo parceiro de casa. Era divertido, sempre tinham um jantar diferente, assistiam muitos filmes e ela se sentia honrada com as pequenas aulas de fotografia que ganhava do amigo de vez em quando. Ela ainda não tinha dinheiro o suficiente para um apartamento, mas logo tinha planos de procurar um local só dela.
O jantar da sexta-feira ficou por conta de Dana, que agora havia voltado a morar sozinha desde que Laura havia decidido voltar a sua cidade natal. Porém, a publicitária nem se deu ao trabalho de tentar cozinhar e pediu delivery do seu restaurante mexicano preferido. Quando %Julie% chegou ao seu antigo apartamento, todos já estavam lá. Seu coração se aquecia toda vez que ela chegava e via a mesma cena em sua frente.
— Amiga, a pergunta da noite é: Jack Jack, inocente ou pilantra? — questionou Dana enquanto entregava uma lata de cerveja para %Julie%....
— Os dois? — ela ressaltou, estranhando e perguntando-se como a conversa havia chegado até aquelas conclusões. Ela se aproximou do sofá, onde estavam %Fil% e Jack, que não parava de emitir reclamações acerca das opiniões sobre ele. — Você não trabalha mais, garoto? — brincou, acariciando o cabelo de seu namorado de leve e indo a poltrona onde estava Cameron.
— Vou voltar depois do festival em Cali. Para de me pressionar! — reclamou, estendendo a caixinha de salgadinhos para a garota.
— Estamos assistindo Friends? — Estranhou, retirando os sapatos e ajeitando a saia preta ao sentar no chão, tomando cuidado para não deixar nada a mostra. Ergueu uma sobrancelha para Jack, que parecia aborrecido, já que era de conhecimento geral que o músico odiava a série.
— Eu perdi uma aposta, não pude escolher a série de hoje — resmungou, cruzando os braços. — E não pensem que eu não percebi que hoje eu estou sendo atacado por todos os lados!
— Você é um alvo fácil, meu amor! — justificou Cam, rindo da carranca do amigo.
— Cadê a Vic? — perguntou %Filipe%, prendendo os lábios para não dar risada.
— Faz um mês que terminamos, superem! — exclamou Jack, rolando os olhos, irritado.
— Estou morrendo de fome, cadê a comida? — questionou %Julie%.
— Eu avisei que esse restaurante era terrível, você não me escuta! — %Fil% acusou Dana, puxando a garrafa de cerveja da mão da mulher, que faz careta.
Os cinco jovens ali — já nem tão jovens assim — estavam acostumados com aquela rotina tão familiar e amorosa. Apesar de todas estarem tão ocupados o tempo todo, apesar de tantos empregos e desempregos, eles estavam ali. Fingindo que não existia nada mais importante no mundo do que o episódio da série que estavam assistindo ou o cardápio do jantar. E apesar de todos terem suas famílias, aquela ali era mais uma, a que eles mesmos escolheram.
— Por que diabos eu sou o Chandler? — Cameron não gostou nada da comparação feita por seus amigos. Logo ele, que achava aquele personagem terrivelmente insuportável.
— O engraçadinho irônico só reclama? Por que seria você? — %Filipe% gargalhou, acusando-o.
— Se eu sou Chandler, você e %Julie% são Ross e Rachel, o casal mais insuportável do mundo das séries! — reclamou Cam, empurrando o prato de chili para longe. — E Jack só pode ser a Phoebe, o "músico" esquisitão e brisado. E sem falar nos milhares de parceiros ao longo da temporada.
— Não quero ser comparado a nada dessa série, ok? — resmungou Jack, cruzando os braços. — Entretanto, a Phoebe é ok, ela casa com o Paul Rudd, então, funciona para mim!
— Se ser a Rachel significa ser uma mulher bem-sucedida, eu aceito. — %Julie% deu de ombros, roubando um bolinho de carne do prato de %Fil%.
— Posso não ser o Ross? Eu acho que ele não é um cara muito legal — pediu %Fil%, torcendo os lábios, fazendo %Julie% suspirar com o jeito meigo de seu namorado.
— Você pode ser o Ross gente boa, mas ainda é o cara certinho e chato — brincou Cameron.
— E quem é a Mônica? — perguntou Dana inocentemente, passando o dedo pelo final do crema da guacamole e se intimidou quando levantou a cabeça e notou que todos os olhares estavam voltados para ela. — O quê? Eu?
— Rachel morou com ela — %Julie% evidenciou uma similaridade, dando de ombros.
— É, eu sempre gostei da amizade deles! — concordou Cam, evidenciando a relação entre Chandler e Monica na série de TV mundialmente conhecida.
— Sim, a melhor parte dessa amizade foi o casamento deles — zombou Jack, erguendo uma sobrancelha sugestivamente.
— E foram os primeiros a casar... — pontuou %Fil%. Dana e Cameron se entreolharam e como se estivessem envergonhados, desviaram o olhar.
%Filipe% e %Julieta% também se entreolharam, notando o desconforto dos amigos com a situação e bom, aqueles suspiros, o desvio de olhar... Eles conheciam bem aquela fase, reconheciam aquele sentimento de troca ainda desconhecida por duas pessoas. E poderíamos falar mais sobre isso, porém, essa é (possivelmente) uma outra história de amor.
— Até parece — disse Dana, balançando a cabeça. — É capaz de Jack casar antes de todos nós.
— Ah, boa piada! — %Julie% gargalhou, batendo palmas.
— Não entendi por que o desdém! — reclamou Jack. — Vou casar antes de todas vocês, querem apostar?
— Eu entro na igreja com uma peruca rosa se algum de vocês se casarem um dia — debochou %Julie%. Conhecia os amigos e não conseguia vê-los sendo adeptos de uma imposição tão patriarcal e conservadora da sociedade, segundo o que ela acreditava.
— Agora me atingiu! — reclamou Cam, batendo o copo na mesa.
— Querida, eu já até escolhi o meu vestido e nem noivo eu tenho! — Dana juntou-se às reclamações.
— Amor, você vai acabar usando uma peruca rosa no próprio casamento — %Filipe% brincou provocante, bebericando da própria cerveja.
%Julie% rolou os olhos e continuou ouvindo as reclamações de todos contra ela, indignados ainda com a fala da garota, enquanto ela ria, sentindo-se satisfeita. Não desejava estar em nenhum outro lugar do mundo senão ali, naquela sala minúscula onde passou grandes anos da sua vida, sendo apedrejada por xingamentos de seus melhores amigos. Aqueles que ela amava profundamente e amava tudo sobre eles. Amava que até o assunto mais polêmico e pesado se tornava leve. E o mais leve se tornava uma discussão séria tal qual uma reunião da ONU. Sabiam cada aspecto da personalidade um do outro. Amava o que eles passaram, o que criaram, o que eram e o que deixaram para trás. %Julieta% amava a certeza de que eles tinham que seria assim para sempre.
Sem nenhuma ressalva em usar tal palavra.
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%Filipe% %Buchart% leu a receita no tablet novamente, fazendo a contagem de ingredientes usados apenas para ter a certeza de que eu tinha feito tudo certinho daquela vez. O cantor ainda não tinha desistido da sua vontade de aprender a cozinhar, resultando quase sempre em desastre.
— Oi, amorzinho! — Despertou da própria fúria, olhando para cima rapidamente quando escutou a animada voz da namorada surgir no recinto. %Fil% ainda tinha o costume de não trancar a porta da frente. Sua expressão não devia estar muito boa, pois quando ergueu a cabeça, %Julie% ergueu as sobrancelhas, assustada. — Ok, não estamos de bom humor?
— Não é possível! Eu fiz tudo do jeito que a receita pede, amor! Até cronometrei o tempo no liquidificador! Eu só quero fazer um jantar para minha namorada, é pedir demais um pouco de talento?! — enfezou-se, apontando para os elementos que citou. — Quer saber? Eu vou apelar. Liga para o Cameron, eu preciso entender o que eu fiz de errado! Eu contei até o número de mexidas!
Bufou, olhando para a bagunça em sua frente. A cozinha da casa do cantor estava habituada a receber as catastróficas investidas do mesmo, mas naquele dia estava fora do comum. Tudo começou quando %Filipe% insistiu em querer fazer um jantar para sua namorada, após passarem alguns dias afastados por conta do trabalho.
Estranhou nenhuma piada ou qualquer indício da voz de %Julieta%. Quando a olhou, a mulher estava de braços cruzados, apoiada na geladeira, os lábios estavam apertados em um sorrisinho suave como de costume, mas seus olhos estavam diferentes. Ele sabia muito de %Julieta% Young, conhecia várias de suas facetas, conhecia todos seus sorrisos e olhares, principalmente os que eram direcionados a ele.
Entretanto aquele era totalmente novo. Ele quase conseguia ver um brilho e a transmissão de um sentimento diferente em seu olhar. Algo que até então, ele ainda não havia sentido.
Reciprocidade.
— O que foi? — questionou, confuso. Ela pensou alguns minutos antes de responder, mas sem desfazer-se da expressão serena.
— Você estava certo. — Ela deu de ombros, simplesmente. E antes de virar-se para deixar a cozinha, ela falou algo que mudou tudo: — Eu realmente amo você. — Antes de sair da cozinha, virou-se novamente para mim, colocando a bolsa no ombro novamente.
A todo momento, havia alguma canção "tocando" na mente de %Filipe% %Buchart% e naquele momento, os Beatles pareciam gritar na mente do rapaz: "she loves you, yeah yeah yeah..."
— Ei, estamos bem? — questionou, receosa, mas mantendo o sorriso ladino, de quem sabia que tinha acabado de mexer inteiramente com ele. Pigarreou, mas nem isso forçou as palavras a saírem, então apenas assentiu, tendo a certeza de que devia estar com a expressão mais idiota do mundo. — Está bem, então! Vou tomar um banho e a gente pede uma pizza, ok? — informou, lançando uma piscadela sacana e deixou o cômodo.
%Filipe% demorou uns segundos para conseguir voltar a se mexer. Tentou voltar a mexer no creme de batatas e nas salsichas, mas nada prendia sua atenção. Até que se pegou rindo. Sim, estava rindo, ele não conseguia parar de rir à toa.
Aquilo mudava tudo. Por que, mesmo que resolvidos, %Filipe% nunca deixou de sentir que um dia %Julie% acordaria e simplesmente quisesse ficar sozinha e o mandasse sair de sua vida para sempre. Lá no fundo, no seu subconsciente, ainda tinha um pé atrás em relação a namorada. Porém, %Julieta% poderia ser completamente louca e brincava com as coisas na hora errada, falava muitas besteiras, mas se havia algo que sua garota levava a sério, isso era o amor. Ouvi-la falar as famosas três palavrinhas pela primeira vez de forma tão simples fez seu coração bater no ritmo normal novamente. Parece que havia soltado uma respiração que há muito estava presa.
Mas agora estava tudo bem, porque a garota que %Filipe% amava, o amava também.
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Deslizou seu dedo pelo tablet, já entediado. O cantor já havia respondido os e-mails, resolvido as burocracias do estúdio, interagido no Instagram, e agora nem o Candy Crush conseguia manter sua atenção. Não importava o que fizesse, seus olhos sempre voltavam para a mulher sentada próximo a ele.
%Julieta% está sentada em uma poltrona de escritório bege, ele não prestava atenção no que ela falava agressivamente no celular, sua atenção estava inteiramente voltada para seus trajes e sua postura firme. Usava apenas uma camisa de pijama cinza, deixando sua pequena calcinha de bolinhas a mostra. As pernas grossas estavam cruzadas, seus cabelos presos no topo e seus cotovelos estavam apoiado na escrivaninha comprada só para que ela não precisasse sair do quarto para trabalhar (mas %Filipe% não admitiria isso). Suas mãos redigiam rapidamente contra uma folha de papel em suas diversas agendas. Desde que ela havia dito que o amava, %Fil% passou o jantar inteiro observando-a mais atentamente do que o normal. Sentia-se patético, mas a amava. Amava a risada dela, seu corpo e seus atributos voluptuosos. Amava quando ela debocha dele, amava seus contatos visuais constantes, mesmo que ela estivesse de joelhos diante dele ou na plateia de seus shows.
— Durante a tarde não, Alfredo! Não foi isso que eu sugeri… Ok, então, vamos fazer do seu jeito, mas pode falar para todo mundo que a ideia é sua, pois quando der errado, eu não quero estar associada a esse desastre! — Quando %Julie% ficava irritada, seus óculos escorregavam insistentemente pelo nariz e era assim que ela estava, empurrando o objeto para o lugar a todo instante e quase quebrando o aparelho celular contra sua própria orelha. Riu pelo nariz com sua resposta atrevida, balançando a cabeça negativamente. A amava. — Ok, vamos discutir isso amanhã… porque eu quero dormir, Alfredo! Estou cansada, quatro horas em uma reunião hoje! Tá ok… Boa noite. — Jogou o celular na mesa, irritada e bufando. — É sério, amanhã eu mato esse cara.
— Eu amo você — murmurou.
— Eu sei. — Rolou os olhos, levantando da cadeira. — Alfredo acha que eu não consigo fazer nada sozinha, é impressionante! Eu tenho quase certeza de que isso é machismo. — Digitava no celular enfezada. Até tentou falar algo, mas sua gargalhada acabou irrompendo garganta a fora. Amava aquela garota.
— Eu acabei de falar que te amo e você rola os olhos e começa a falar de outro cara? — Gargalhou, indignado. Pegou um travesseiro, jogando nela. — Você é inacreditável! Vai dormir no sofá hoje.
— O que você quer de mim, oras? — Ela também riu com sua própria reação inusitada. Deixou o tablet de lado e arrumou-se na cama, quando notou que ela andava até ele. Deitou sobre seu corpo, com as pernas esticadas entre as dele, apoiando seus troncos e fixando seus olhares. — O que você quer que eu diga? "Valeu, baby!" ou "obrigada por me esperar e não desistir de mim?". Ou então... — Seu corpo inteiro se arrepiou quando o olhar marcante de %Julieta% subiu de sua boca até seus olhos. — Obrigada por me amar.
— Não tinha como não amar você, linda — assegurou, examinando-a atentamente, sendo possível ver umas gotinhas de lágrimas se amontoando no cantinho de seus olhos.
Mesmo que tortuosa, incoerente e totalmente imperfeita, aquela talvez fosse uma história de amor.