13 • Entre o sonho e a sobrevivência.
Tempo estimado de leitura: 44 minutos
Agosto
Toni Hall (16:20): Eu estou puto.
Toni Hall (16:20): Completamente puto!!!!
Toni Hall (16:21): E chorando.
Annabela (16:21): Amiga, Toni tá chorando e me fazendo chorar 😭
"Não!!!!!!"
Toni Hall (16:21): droga %Julie%, era pra esse dia ser nosso!
Annabela (16:22): maaaaas, sabemos que a culpa não é sua e estamos muito felizes por você
Annabela (16:23): NÃO É, ANTHONY?
Toni Hall (16:24): É......
Toni Hall (16:24): Eu só tinha esse sonho de que na nossa formatura nós entraríamos de mãos dadas, e vibraríamos ao ouvir o nome um do outro ser chamado no palco. E quando tudo acabasse, a gente ia acabar extremamente chapado na festa e sair correndo por algum motivo, pq você sabe, trago emoção pra sua vida
Annabela (16:27): PORRA, TONI!!!! 🤬
Sabe quando uma criança faz birra em algum lugar público quando os pais negam algo? Sabe aquele choro irritante, sentido e sonoro que chega aos nossos ouvidos após a criança se jogar no chão? Pois é, era assim que eu estava chorando. Faltavam poucas horas para minha formatura e eu não parava de chorar. Não de emoção pela chegada do momento, mas sim porque tudo o que eu mais queria nesse mundo era me formar com meus amigos.
— %Julie%, estou ficando preocupada! — exprimiu Clarissa, aflita. Massageava minhas costas, tentando obter algum sucesso em acalmar meu choro sofrido.
— E-eu vou p-parar. C-calma! — Tentei me recompor, apertando minhas mãos contra o meu rosto, como se isso fosse capaz de impedir as lágrimas de caírem.
Senti meu celular tremer em minhas mãos, notificando uma chamada de vídeo de Bela, fiz um biquinho, temendo atender. Mas ela não pararia até me ver, então deslizei o dedo pelo ícone verde e aceitei a chamada.
— Eu sabia que você tinha parado de responder por estar chorando! — Exclamou, revelando sua intuição certeira. Bela virou-se, irritada, lançando várias tapas em um ombro masculino, que eu sabia que pertencia a meu grande amigo, Toni. — A culpa é toda sua!
— Desculpa! Eu estou muito feliz que você vai se formar, %Julie%! — assegurou, limpando o rosto com as mãos, como se também estivesse chorando. — Só é triste porque, bom… Não estamos juntos!
Eu me formaria meses antes da minha turma de HW, pois eu consegui adiantar muitas coisas, creditei algumas matérias, então acabei conseguindo finalizar tudo antes do previsto. Seria terrível porque eu não conhecia absolutamente ninguém da turma em que eu me formaria, mas eu não ligava, não via a hora de me livrar de uma vez por todas da faculdade. Bom, eu achei que não ligava, até lembrar que, até o ano passado, o combinado era me formar com meus amigos.
— Está tudo certo, meu bem. Eu também estou bastante triste… — confessei, fazendo um biquinho e logo senti as lágrimas inundando meus olhos novamente. — E morrendo de saudades!
— Ok! Acho que está na hora de se despedir e dar um jeito nessa maquiagem. — Clarissa veio ao meu resgate novamente, fazendo sinal para meus amigos desligarem ou eu não iria parar de me debulhar em lágrimas.
— Tudo bem, nós já vamos. Só quero dizer que… — Bela assentiu, assustada com o olhar ameaçador de Clari. — Mesmo que as coisas não estejam saindo como o planejado, nós estamos muito felizes por você, %Julie%. Mesmo longe, é como se estivéssemos formando juntos. Quando estiver lá em cima do palco, pegando seu merecido diploma, nos imagine do seu lado!
Senti a emoção me contagiar completamente e, outra vez, chorei. Agradeci várias vezes, disse que os amava imensamente e continuei chorando após notar os olhos de Bela cheios de lágrimas. Bloqueei o celular, me recusando a abrir a mensagem de Cam, pois eu já estava farta de chorar. Eu estava me formando, finalmente!
— Ok, vamos lá! — Limpei novamente os cantos dos meus olhos e peguei o delineador, decidida a dar continuidade a maquiagem.
— Eu posso fazer para você — ofereceu Clarissa ajuda ao notar que eu não tinha o menor jeito ao lidar com o objeto.
— Você nem devia estar aqui, Clari! — reclamei, levando a mulher pelo braço até a poltrona que Adam havia comprado e colocado no nosso quarto.
Clarissa estava beirando os oito meses de gestação e estava naquela fase impaciente e nervosa da maternidade. A mulher não aguentava mais a gravidez, os quilos a mais, o cuidado excessivo de todo mundo, mas também não estava pronta para o nascimento do bebê — que ainda não sabíamos o sexo, pois eles queriam surpresa —, pois isso implicava no recente pesadelo de Clarissa: ser mãe.
— Eu estou bem. Preciso andar, me mexer! — resmungou, passando a mão pela barriga imensa e bufando irritada. — Sinto que se eu sentar, nunca mais levantarei.
— Eu costumava pensar o mesmo de %Filipe%… — comentei, alheia, olhando-me no espelho e arrumando meus cabelos. Refleti e recordei de nossa última aventura telefônica. — Ainda penso.
— Que nojo, você é ridícula! — xingou ao notar que eu havia distorcido suas palavras para uma conotação mais sexual. Gargalhei, voltando a mexer nas maquiagens espalhadas em minha cama.
— O que eu faço agora? Base ou corretivo? — questionei, mexendo nos tubos de diferentes tamanhos e coloração.
— %Julieta%, essa pergunta só demonstra que você não devia estar fazendo sua própria maquiagem! — reclamou, rindo. — São nesses momentos que Dizzy faz falta por aqui. Ela iria te convencer a aceitar a maquiadora profissional que eu contratei para você. — Fiz um biquinho tristonho a menção de minha melhor amiga, que não poderia comparecer a minha formatura por motivos profissionais e financeiros, visto que agora ela era proletária e deserdada. — Desculpa, eu não vou mais mencionar nenhum amigo seu.
Clarissa começou a tentar dar um jeito na minha pele manchada de base e lágrimas e após alguns minutos de indecisão sobre qual batom combinaria melhor com o vestido rosê curto e rendado, eu finalmente estava pronta. Visualizei-me no espelho pela última vez antes de sair do quarto e me unir as pessoas que faziam um barulho infernal na sala da residência da família Young.
Meu cabelo estava solto e, diferente do normal, caía extremamente liso pelas minhas costas. O comprimento — que quase chegava ao meu traseiro — e a nova coloração acobreada me deixaram extremamente satisfeita com o resultado. Minhas mãos trêmulas seguravam a beca e o capelo que eu usaria daqui a uma hora. Após muitos anos de enrolação, crises de ansiedade, um acidente de carro, muitos atrasos e duas universidades diferentes, eu iria me formar!
— Por que vocês estão todos gritando? — perguntei assim que pisei na sala, indignada com tanto barulho. Todos começaram a falar ao mesmo tempo quando me viram e eu gargalhei, animada. Minha mãe veio até mim, com os olhos marejados. — Sem chorar, vovó. Foi difícil chegar nesse resultado.
— Eu já disse o quanto estou orgulhosa? — perguntou, sem controlar as lágrimas.
— Sim, mamãe. Você falou dez vezes ontem e hoje! — Dei risada apenas para tentar controlar a emoção. — Eu agradeço demais.
— Você está deslumbrante, filhote! — Meu pai se aproximou, me dando um rápido beijo na testa. Patrick estava sentado no sofá, jogando videogame com Max e Sun. Clari estava conversando com meus avós e Santiago, bom…
— Sra. Young, eu não sei mais onde colocar tanta caixa de cerveja! — reclamou o rapaz com minha mãe. Santiago estava muito elegante. Eu achei que ele fosse me provocar e vir vestido de qualquer forma, mas eu até quis beijá-lo quando o vi de trajes sociais.
Eu não teria festa de formatura, mas meus pais insistiram em fazer pelo menos uma reunião em casa para alguns amigos e familiares após a cerimônia de solenidade. O problema é que eles disseram que seria uma "reuniãozinha", mas Santiago já havia carregado a 13° caixa de cerveja para a cozinha.
— Tudo bem, querido. Você checou os bolinhos? — perguntou minha mãe sem olhá-lo, atenta demais em alisar a parte de baixo do meu vestido, procurando por algum defeito.
— Por que você está fazendo o garoto de empregado, mulher? — questionou meu pai. Ele gostava de Santiago desde quando brincávamos na rua quando crianças, ele era o preferido dele. Achava-o uma pessoa engraçada.
Eu não entendo a definição de "engraçado" do meu pai.
— Porque ele é o único aqui que tem músculos e entende de bolos! — respondeu, agachada no chão, verificando as tiras da minha sandália de salto alto.
— Você entende de bolo? — Estranhei, segurei o riso ao ver o rapaz abrir e fechar a boca sem saber o que responder.
— Ela é péssima com segredos, Gabriel. — Meu pai deu dois tapinhas no ombro dele e se afastou. Eu gargalhei com a revelação do tal segredo. Santiago gostava de fazer bolo, quem diria? Puxei minha mãe do chão e a obriguei a ir até a cozinha ajudar Santiago, que parecia perdido.
— %Julie%! Encomenda para você! — Clarissa, que mexia no celular, chamou minha atenção, apontando para o centro de mesa de jantar. Assenti e fui em direção a mesa.
— Pessoal, vamos sair em 10 minutos! — Apressei a todos, eu não queria chegar atrasada a uma formatura que todo mundo poderia me julgar.
Fui até a mesa, havia um belo arranjo de flores no centro da mesa e uma caixa ao lado. Peguei o cartão preso entre as flores e sorri abertamente ao ler. %Filipe% conseguia balançar meu coração e me deixar inquieta a quilômetros de distância.
"Feliz formatura, baby! Espero que você tenha um dia inesquecível e incrível, você merece o mundo ❤ %Filipe% %Buchart%."
Ao lado, havia apenas uma caixa vazia com uma foto colada ao fundo, onde mostrava Dizzy, Cam e %Fil% com feições engraçadas segurando uma placa que dizia "Pedimos perdão pelo presente, não conseguimos evitar." Franzi o cenho e remexi a caixa procurando algo a mais, sem entender a frase na foto.
— Acho que você deve estar procurando por isso. — Arregalei os olhos ao ouvir a voz conhecida vir por trás de mim. Quando me virei, meu coração quase saiu pela boca quando encontrei Jack, de terno e gravata e com uma garrafa de uísque nas mãos. — Desculpe a demora, eu ainda não sei muito bem onde vendem bebidas baratas aqui em Springfield. — Minha cara de choque devia estar impagável, pois eu não conseguia acreditar que o DJ estava ali. Não consegui controlar minha garganta que emitiu um sonoro grito de animação ao rever meu grande amigo.
— Seu… — Corri até ele, jogando-me em seus braços, recebendo um abraço apertado. Ouvi algumas palmas, várias risadas e flashes em nossa direção. — Idiota! É isso que você é! Você disse que ia trabalhar! — reclamei, deferindo tapas em seu braço.
— E desde quando eu trabalho, %Julieta%?! — questionou, defendendo-se da minha agressão.
— Jack! — exclamei, animada, como se eu estivesse vendo-o pela primeira vez e voltei para seus braços, depositando vários beijos em seu rosto.
— Você acha mesmo que não mandariam, pelo menos, um representante de HW para a sua formatura? — brincou, abraçando-me e me tirando do chão. Afastei-me, pousando minhas mãos em seu rosto e respirando fundo, emocionada ao ver um rosto familiar após tantos meses longe do meu lugar de felicidade.
— Por favor, não chora, a maquiagem ainda nem fixou direito! — O clamor de Clarissa me fez rir e quebrou a atmosfera emocionada que estava nos atingindo.
Logo, comecei a fazer vários questionamentos, que Jack prontamente me respondeu. Ele contou que não tinha dinheiro para a viagem, mas ao descobrirem que nenhum dos nossos amigos conseguiriam ir a minha formatura, eles juntaram dinheiro e compraram a passagem de ida para a única pessoa que não tinha compromissos ou um emprego. A passagem de volta ficou por conta de — adivinhem só? — Adam! Esse cara estava tentando ganhar pontos comigo e estava conseguindo. Adam acabou "contratando" Jack como DJ e a hospedagem ficou por conta dos meus pais, que receberiam Jack de braços abertos.
Enviei a foto minha e de Jack abraçados no grupo de mensagens que tínhamos juntos, dizendo "Entrega feita com sucesso! Queria vocês aqui ):". Logo várias mensagens começaram a chegar em seguida, a maioria eram Gifs animados e coisas desconexas, elogiando meu cabelo liso e dizendo o quanto eu estava bonita. Gargalhei com %Filipe%, que mandou uma foto de si mesmo jogado no chão, fingindo estar passando mal.
— Você está atrasada! — informou Jack, olhando no relógio. — E aí? Pronta para se tornar, definitivamente, uma jornalista? — perguntou, batendo as mãos. Respirei fundo, assentindo nervosamente.
Logo, minha mãe começou a apressar e enxotar todas as pessoas de dentro da casa. Meus pais, meus avós e Clarissa foram de táxi até o local da cerimônia e eu fui com Jack, Sun, Pat e Santiago em um carro de procedência duvidosa. Fui o caminho inteiro me dividindo entre rir das brincadeiras pesadas dos rapazes — que firmaram uma estranha amizade — dentro do carro, passar mal de nervoso e acalmar Dana no telefone, que chorava de verdade, se culpando por não estar no dia da minha formatura.
Cheguei no grande salão me sentindo completamente nervosa e excluída pois não conhecia ninguém da turma em que eu me formaria, porém, me senti mais tranquila quando descobri que havia uns dois ou três alunos que também estavam se formando avulsamente. Em alguns momentos do discurso da oradora da turma, eu não vou negar que me emocionei, pois Toni seria o orador da minha turma em HW e eu daria tudo para ver o discurso dele.
Eu batia os pés no chão ansiosamente, querendo rasgar cada pedaço daquela beca, não ligando nada para a fala forçada do reitor, eu apenas ansiava pelo grande momento. Quando meu nome foi chamado pelo reitor e eu tive que subir ao palco, nada passou pela minha mente a não ser o fato de que eu precisava me equilibrar naqueles saltos e sorrir. Quando peguei o canudo em mãos, tudo passou em minha mente como em um rápido filme. O processo da minha graduação, minhas longas jornadas de estudos, minha responsabilidade e sacrifícios que tive que fazer ao ir morar em outro estado sozinha aos 20 anos em busca de educação e qualidade de vida.
Meus olhos encheram-se de lágrimas quando procurei pela minha família na plateia e eram os mais barulhentos do local. Gritavam e se abraçavam como se estivesse comemorando um gol da vitória na copa do mundo. Santiago fingia dar tiros com os dedos indicadores apontados para cima, me fazendo gargalhar com a mordacidade do meu amigo.
Ao final da cerimônia, fui recebida com abraços e gritos calorosos de todos. Pat segurava o celular de modo que mostrasse tudo às três pessoas que dividiam a tela de vídeo chamadas. Só então, vendo todas as pessoas que eu amava ali, lado a lado, caiu a ficha e eu comecei a chorar. Dever cumprido e satisfação, era o que eu sentia. Saber que eu havia conseguido cumprir as promessas que fiz aos meus pais me deixava extremamente aliviada e satisfeita.
Agora eu só precisava conseguir um emprego.
Ó, céus.
❍❍❍❖❍❍❍
— Eu quero isso também, %Julie%. — A confissão murmurada de Sun desviou minha atenção do bolo de chocolate que eu saboreava.
Já haviam se passado algumas horas desde o fim da minha formatura, porém, minha casa permanecia cheia de convidados, alguns vizinhos e antigos colegas apareceram. O meu dia inteiro havia sido extremamente agitado e eu já estava bem cansada, então resolvi me presentear indo (finalmente) sentar e comer algo enquanto todos enchiam a cara de cerveja.
— O quê? — perguntei, confusa. O rosto franzino do pequeno asiático se retorceu em pensamentos antes de me responder de forma quase tímida.
— Uma formatura.
O pedaço do doce pareceu descer amargo pela minha garganta, tornando-se até dificultoso de deglutir. Desviei o olhar para que ele não notasse a emoção e os pequenos pontos de lágrimas em meus olhos. Sun desistiu da escola durante seu último ano no local. Lembro do dia em que ele me contou, estava temeroso com minha reação e com razão, pois brigamos naquele dia. Nossa única briga em anos. Lembro do menino chorando após eu dizer que eu nunca estivera tão decepcionada com ele. Hoje em dia, vejo que foi uma infeliz escolha de palavras e que talvez eu tenha o magoado profundamente. Porém, naquela época, eu não tinha muita noção do que as atividades ilegais que ele se envolvia tinham grande papel na sua evasão escolar.
— Nunca é tarde para tentar de novo. — Suspirei, largando o garfo no prato e tocando em sua mão.
— A escola não fazia sentido naquele tempo, %Julie% — confessou, amuado.
— Eu sei, eram realidades diferentes. O tempo passou, as coisas mudam… Eu posso ajudar você a voltar, se você realmente quiser — ofereci e ele assentiu, sorrindo agradecido. — Desculpe se fui rude com você quando…
— Tudo bem, %Julie%. Eu mereci — afirmou, dando de ombros. — Além do mais, sua mãe pegou bem mais pesado!
Nos olhamos, cada um lembrando das famosas broncas que minha mãe nos dava:
— Mulher assustadora! — Balançamos os ombros, como se estivéssemos afastando os arrepios e repetindo nossa piada interna quando se tratava de mamãe.
— Estou orgulhosa de você, irmãozinho. — Sorri, passando um braço pelo seu ombro.
— Por quê? O que eu fiz? — questionou, confuso.
— Você ainda é uma boa pessoa — afirmei, dando de ombros.
— Estou orgulhoso de você também — afirmou, sorrindo levemente.
— Nós estamos! — Santiago apareceu na cozinha, sentando na cadeira ao meu lado.
— Jura? Você também? — questionei, surpresa, erguendo uma sobrancelha.
— Claro! — Deu de ombros, expressando animado. Eu desconfiava que o copo contendo um liquido azul estava ajudando em sua eloquência. Bebida azul… Jack. É claro. — Você é uma das nossas, mais respeitada na gangue do que eu. Graduada na faculdade…
— Em pleno Jeins! — complementou Sun em tom de surpresa e comemoração.
— Tinha que ser você. — Gabriel balançou a cabeça negativamente, bebericando em seu copo.
— A propósito — Virei-me para Santiago, apontando para o bolo com o garfo —, isso aqui está uma delícia!
— Obrigado. — Assentiu e segundos após arregalou os olhos, se dando conta que tinha perdido sua postura de mau em nossa frente ao assumir a autoria dos bolos da festa, ocasionando altas gargalhadas entre Sun e eu.
O momento divertido e leve entre meus amigos de infância me deixou alegre, satisfeita e levemente nostálgica. Era sempre bom quando nos reuníamos e apenas jogávamos conversa fora. Sem se preocupar com gangues, problemas, armas e violência. Ficamos conversando e brincando um com o outro enquanto bebíamos e comíamos até eu decidir que precisava me livrar dos saltos. Fui em direção as escadas, mas desisti de subir e sentei ali mesmo, massageando meus pés.
Sun e Patrick agora estavam sentados no chão, jogando videogame. Clarissa estava no sofá, com as pernas esticadas sob o colo de Adam, que massageava suavemente os pés da minha irmã, protagonizando uma cena adorável. Santiago estava encostado na porta conversando com alguns vizinhos, provavelmente planejando fugir dali o mais rápido possível. Outro casal sendo adorável eram meus pais, que dançavam no canto da sala ao som de Sade, sorrindo e se balançando.
— Então… Essa é a sua casa — declarou Jack, sentando-se ao meu lado nos degraus da escada e me oferecendo uma garrafa de cerveja. Eu e Jack sorrimos ao vê-los daquela forma, como se fossem um casal apaixonado de um filme dos anos 50.
— Uma delas. — Considerei, tilintando minha garrafa na dele e piscando um olho.
— Você realmente tem algo especial aqui, %Julie% — comentou, analisando o local minuciosamente. Concordei silenciosamente, pois não tinha como negar. — É difícil acreditar que você vai voltar um dia, tendo tudo isso aqui.
Notei que essa era a preocupação de Jack desde o início do dia e ele havia conseguido expressar, finalmente. Eu o entendia, também era difícil para mim pensar em como seria a minha vida dali para frente.
— Minha outra família também é muito especial. O problema é que eles moram em outro estado — refleti, tentando tranquiliza-lo.
— Eu também teria problemas em voltar — revelou, sorrindo para meus pais, que se divertiam com meus vizinhos. — Aqui parece ótimo, %Julie%.
— Não se iluda, hoje só está sendo um bom dia. — Dei de ombros, bebendo.
━━━━━━◇◆◇━━━━━━
Novembro.
Observei as nuvens pesadas se moverem calmamente no céu nublado, trazendo uma diversidade de cores anormal. O sol estava se pondo, quase escondido entre as nuvens de chuva, mas o tom alaranjando ainda conseguia se sobressair e contrastava com o céu cinzento, deixando a visão mais aconchegante e melancólica. O lago a nossa frente estava calmo, com algumas leves ondulações de vem em quando, assim como o vento. Senti duas mãozinhas enrolarem meus dedos e aquela sensação fazia absolutamente tudo valer a pena.
— Você é tonta ou o quê? — Clarissa revirou os olhos, irritada com a minha apatia, mas eu não liguei. Apenas acolhi aquela bolotinha de olhos verdes em meus braços, sentindo meu coração quase transbordar com o tanto de amor que eu sentia por aquele menino.
Dois meses atrás, em uma chuvosa noite de terça-feira, Clarissa me ligou completamente desesperada pois estava sentindo suas primeiras contrações. E após os momentos de desordem e agitação extremamente desenfreada que Clarissa dando à luz nos concedeu, eu vi o amor, literalmente, nascer. O nome dele era Benjamin e tinha nascido com 4,55kg para o desespero de sua mãe. Tinha os cachinhos loiros de Clarissa e os olhos verdes de Adam. E desde que ele passou a existir nesse mundo, foi uma nova esperança que nasceu em mim. Logo eu, que já tinha perdido boa parte dela.
— %Julie%, presta atenção! — Beliscou meu braço, me fazendo reclamar. — Você está tendo a chance de voltar de onde você nem deveria ter saído. Não acredito que você quer jogar tudo fora por que você tem medo!
— Eu não tenho medo! — retruquei, depositando beijos na mãozinha gordinha de Ben, meu sobrinho amado.
— Ela não tem medo — concordou Pat, mesmo que estivesse muito concentrado em comer o bolo de chocolate que nossa mãe colocou em nossas bolsas antes de sairmos.
Era o "mesversário" de Benjamin e nós queríamos fazer algo todos juntos, porém, Adam estava fora da cidade, meus pais tinham seus compromissos e os pais de Adam moravam em outra cidade. Então, eu e Pat nos organizamos para tirar Clarissa de casa e levarmos ela e seu filho ao nosso lago preferido da cidade.
— Então o que é? — questionou Clari, confusa e irritada, limpando os braços. Ela não curtia muito areia e sempre ficava com a pele irritada quando encostava. Para o seu azar, não trouxemos cadeiras, apenas esteiras de piqueniques.
— Eu não sei — respondi, estalando os lábios.
— Eu sei, é culpa — emitiu Patrick tranquilamente, como se não tivesse acabado de revelar um sentimento profundo meu.
Após a minha formatura e uma "reuniãozinha" que durou dois dias, eu recebi a notícia que meu artigo havia sido aceito e eu fui convidada para representar a minha universidade em Madri. Sim, eu consegui! Acabei ganhando a viagem como presente de formatura e passei cinco dias na Espanha. Patrick me acompanhou, foi a sua primeira viagem internacional. Madri é uma cidade agitada e nós curtimos intensamente a capital, ficando bêbados 4 dos 5 dias que passamos lá. O meu artigo fora premiado como o melhor do Congresso Internacional de Comunicação.
Eu só não pensei que isso fosse mudar o trajeto da minha vida.
O meu texto viralizou no meio da galera de comunicação social pela internet e acabou chegando em Hillswood, em uma específica editora: a Editora Hall, cujos donos eram os pais do meu grande amigo e comparsa, Toni. Assim que leu, o rapaz me ligou, oferecendo um emprego na editora, que estava passando por uma repaginada após um grande déficit. Ele ofereceu até um financiamento domiciliar para mim, já que ele sabia que Dana tinha outra roommate. Segundo ele, precisava de mim na empresa agora, pois ele já sabia onde precisaria de mim futuramente.
Foi, literalmente, minha passagem de volta para Hillswood.
— Culpa pelo quê? — Clarissa estranhou.
— Ela se sente culpada por deixar a família novamente em um curto espaço de tempo — explicou Pat, dando de ombros. Olhei-o, totalmente surpresa.
Eu ainda não tinha parado para pensar e fazer tal análise, mas era esse o exato motivo da minha relutância. Não faziam nem 10 meses que eu tinha voltado a Springfield e olhando para nosso pequeno Ben enrolando os dedinhos na ponta dos meus cabelos, parecia que agora eu tinha muito mais motivos para ficar no Jeins do que antes.
— %Julieta%, olha pra mim — Clarissa chamou minha atenção. — Você não está em dívida com ninguém aqui. Você é jovem, esse é o momento de pensar apenas em você! Isso pode ser crucial para sua carreira, para o seu futuro.
— Sis, tudo o que conquistei com o artigo foi por causa do Jeins. Não seria justo eu deixá-lo para trás justamente agora. Parece que estava destinado, sabe? Eu voltar pra cá, me envolver ainda mais com a comunidade, me envolver com…
Interrompi a frase antes do nome de Santiago escapar dos meus lábios. Pat já tinha deixado claro o que achava do meu relacionamento com o rapaz, imagina o escândalo que Clarissa faria se soubesse que eu andava tendo um contato mais do que físico com Gabriel.
— %Julie%, eu sei que você ainda não se acostumou a viver aqui. Eu sei que se fosse por escolha sua, você nunca sairia de Hillswood — Pat começou afirmando, mas eu logo o interrompi.
— Mas eu saí, Pat! E um outro mundo se abriu para mim desde então. Não um mundo melhor, apenas… — Suspirei, coloquei minhas mãos embaixo dos braços de Ben, levantando-o e reprimindo um sorriso com o barulho infantil que ele estava começando a aprender a fazer. — Um mundo diferente do que eu estava acostumada.
Sentia vontade de arrancar cada fio de cabelo meu por tamanha indecisão que me consumia. Levantei com o bebê gordinho em meu colo e fui em direção ao lago. Precisava sentir a água encharcando minha cabeça, que eu sentia pulsar de tanta ansiedade. Eu entendia o pensamento dos meus irmãos, mas algo me prendia no mesmo lugar. E se eu apostasse minhas fichas novamente em algo e não desse certo? E se eu aceitasse o emprego, para ser demitida e passar por todo aquele processo de novo? Eu não queria mais isso. Deixar Hillswood fora difícil o suficiente para apenas uma vez. Se eu passasse por uma segunda vez, não suportaria.
E principalmente, eu nem sabia se queria voltar a Hillswood. Sinceramente, o único fator que me motivava a voltar a cidade eram meus amigos, pois eu já quase não sentia falta da casa e dos lugares. Apenas morria de saudades de meus grandes amigos.
Não havia lista de alguma de prós e contras que me ajudariam naquele momento.
Sentei na beira da lagoa, sentindo os olhares de meus irmãos em minhas costas. Molhei os pezinhos de Ben, vendo o menininho descobrir todas aquelas novas sensações e sorri. Eu queria vê-lo descobrindo tudo. Queria acompanhar suas descobertas, sua tão recente vida. Queria ajudar Sun a voltar a estudar e ajudar Pat a entrar na faculdade. Queria aprender mais sobre números com meu pai. Mas também queria voltar a andar com Dana para todos os cantos e escutar as piadas sujas de Cameron. E queria muito, desesperada, escutar a voz e sentir o abraço de %Filipe% novamente.
Fiquei um tempo dentro da água com o menino, sentindo as ondas nos balançarem de um lado para o outro levemente. Eu até desejei que eu fosse assim na vida real, apenas fosse no ritmo das ondas, mas Deus sabe que eu amava nadar contra a maré.
Não falamos mais sobre o assunto pelo resto do dia, apenas conversamos banalidades e babamos em cima do nosso novo mascote. Ben era a criança mais simpática, mesmo com pouco tempo de vida. O sol sumiu completamente e a chuva ameaçava cair, então decidimos voltar para a cidade logo.
Meus irmãos no carro comigo enquanto Patrick cantarolava suavemente para Ben, que dormia em seus braços. Ali, eu tinha os mais variados motivos para não ir embora expostos ali mesmo.
— Foi um dia incrível, mas não vejo a hora de chegar em casa — comentou Clarissa aos suspiros enquanto dirigia cuidadosamente.
— É, eu também… — concordei, vagamente. Franzi o cenho assim que proferi tal frase e quando dei por mim, meu rosto estava molhado por lágrimas. Clarissa notou, mas não falou nada. Pat apenas acariciou meu ombro, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo comigo.
O aperto doloroso em meu peito era quase agoniante. A frustração e angústia tomaram conta de mim quando eu não consegui parar de pensar em como contar para minha mãe que ao ouvir a palavra "casa", eu imediatamente pensei em meu apartamento com Dana e que eu precisava voltar para casa. Em Hillswood.
❍❍❍❖❍❍❍
— E é assim que faremos — minha mãe reafirmou o plano que havíamos feito nas últimas horas.
Eu tinha tomado uma decisão. Eu passaria uns dias em Hillswood, iria até Toni, ouviria os planos dele para mim, iria a entrevista de emprego e após isso tomaria uma decisão definitiva. Dois dias após a ida ao lago, tentei reorganizar minha vida pós formatura. Quando tive certeza do que eu poderia e queria fazer, liguei para minha alma gêmea, Dana Tomanzio. Depois que ela passou um minuto inteiro quase gritando de excitação com minha possível volta a cidade, colocamos no papel todas os pós, contras e as mais diversas possibilidades. Reuni tudo em uma pasta e durante a noite, enquanto meus pais dividiam uma sobremesa de chocolate na cozinha, pedi um tempo para conversar.
Acho que eles já sabiam o que eu iria falar.
— Ok. E temos dinheiro para isso? As passagens de ida e volta não são necessariamente baratas… — questionei, preocupada com nossas finanças.
— Seu pai é contador, se formos a falência, a culpa é toda dele — brincou e eu soltei um suspiro meio esganiçado e nervoso, apertando minhas mãos. — Querida, nós temos nossas reservas. Vai dar tudo certo, confia na mamãe. — Depositou a mão na minha perna, que não parava de balançar-se quase sozinha tamanha a ansiedade que já tomava conta de mim.
— E se… eu ficar? — supus, nervosa.
— %Julieta%, eu não a criei para ficar presa nesse bairro horroroso, trabalhando no centro comunitário, quando você tem potencial para coisas muito maiores. Tem tanto que você pode fazer ainda, filha. Tanto para conhecer, tanto para estudar… — Acariciou meus cabelos, olhando-me afetuosamente.
— Pai? — pedi por sua opinião, receosa. Eu sabia que o homem era mais sensível que minha mãe. Ninguém ficou mais feliz com a minha volta do que ele.
— Eu estou com o coração quebrado, mas vou fingir maturidade como a sua mãe — proferiu, melancólico. Fiz um biquinho, sentindo meus olhos serem inundados por lágrimas. — Não, não! Meu bem, não chora.
— Desculpa, pai — balbuciei, já não conseguindo controlar minhas lágrimas.
— %Julieta%, não seja ridícula — bufou, exasperado. — O que dissemos mais cedo não é papo de pais babões, nós realmente temos orgulho de tudo que você é. Admiro a sua coragem, filha. — Emocionada, encostei a cabeça em seu ombro, aproveitando o carinho do homem que eu mais amava.
Após repassarmos as contas, os planos e mais umas confirmações de que estava tudo bem com minha ida, voltei ao meu quarto, narrando a Dizzy via áudio toda a minha conversa com meus pais. Minha cabeça, como de costume, estava quase explodindo com tantas dúvidas. Eu odiava incertezas, principalmente quando elas envolvem o meu futuro. Minha ansiedade fica a mil, minha propensão a frustração ainda maior e não era novidade que eu não lidar com minhas mudanças bruscas de humor. Sentei na beirada da janela do meu quarto, com as pernas para o lado de fora, observando a movimentação em volta do pequeno e feio lago. Algumas crianças brincavam no prédio destruído ao lado dos viciados numa serenidade invejável. Suspirei, voltando a atenção para meu celular, discando o número já conhecido por mim.
— Então, o que você acha? — perguntei, apertando minhas mãos, ansiosa, depois de ter relatado meu plano ao homem que abalava minhas estruturas.
— Bom… O que seus pais acham? — perguntou. Típico %Fil%, procurando saber a opinião dos meus pais antes de dar a sua.
— Eles me apoiaram, foram extremamente compreensivos, não fora uma conversa difícil. Eles choraram um pouco e quando tentei argumentar sobre a possibilidade de não ir, eles fizeram um longo discurso sobre criar os filhos para o mundo e que o maior objetivo da vida deles era esse, a prosperidade profissional e emocional — resumi a conversa do jeito que eu pude. — O que você acha?
— Eu acho que sou um pouco suspeito para falar, mas ter você de volta à cidade? Fala sério, eu não vejo a hora de poder te ver de novo. — Eu podia sentir o sorriso de %Filipe% mesmo do outro lado do telefone.
— Profissionalmente falando, %Fil% — insisti, rindo.
— Eu acho que falta uma segunda opção. Você não pode se garantir apenas com Toni, você pode estar arriscando muito em algo sem futuro — explicou.
— É exatamente esse o meu medo! O problema é que eu não tenho garantias nem segunda opção em lugar algum. Nem lá, nem aqui. E eu nem sei muito bem o que eu quero ou o que gosto de fazer… — resmunguei, chorosa. E não sabia mesmo.
Eu me formei, apesar de estar desiludida com o jornalismo. E o diploma na parede do meu quarto não me ajudou em nada a decidir qual caminho eu deveria seguir.
— Eu sei o que você gosta de fazer — garantiu, presunçoso.
— Sabe? Então, me diz. Ultimamente todo mundo sabe mais de mim do que eu mesma — reclamei, rolando os olhos.
— Você gosta de ensinar, %Julieta%. De todos os empregos que você já teve, o único que não envolvia lecionar foi no jornal, lugar que você mais odiou. Não só gosta, você é boa nisso.
Paralisei com a linha de pensamento do meu rapaz, minha boca abriu-se sozinha em entendimento. Como caralhos eu nunca tinha pensado nisso? Eu gostava de dar aula, amava ensinar. Poxa, que saudades dos meus alunos! Que saco, %Filipe%.
— Que saco, %Filipe%! Te odeio, você é um idiota — bufei em meio a resmungos, causando uma gargalhada forte no rapaz.
— Só porque eu estou certo e você ainda não havia percebido isso? — zombou, debochado. — Quando você vem? — perguntou.
— Agora eu já não sei mais. — Irritei-me com minha displicência. Agora que eu sabia o que eu queria, talvez não conseguisse aceitar menos do que isso.
— Não! Nada disso! Segundas opções, lembra?
— Semana que vem. Vou passar uma semana aí. Dependendo da resposta que eu obtiver, eu… volto.
— Vou precisar antecipar seu presente de Natal, então — brincou e eu sorri, agraciada com sua atenção e carinho.
— Não ganhei no ano passado. Posso escolher o meu desse ano? — pedi.
— Pode, sim. O que você vai querer?
— Te conto quando eu chegar.
— É sacanagem, não é? — Ele riu abertamente. Meu peito se apertou de saudades de nós.
Fiquei conversando com %Fil% por mais alguns minutos. Ele me conta como estão as coisas em Hillswood, conta também como estava sendo difícil se acostumar com a nova parceira de quarto de Dana. Após desligar, fiquei encostada na minha janela, olhando para a vista privilegiada que eu tinha ali. O resto da cidade se estendia por trás das construções destroçadas e do lago contaminado e era bastante visível o quanto o Jeins podia ser bonito quando visto dos olhos certos.
Como eu deixaria aquele lugar?
Esperei por Santiago aparecer ali, já que era costume ele ficar sentado na parte mais alta do prédio, olhando para o seu próprio reino. Às vezes, eu me perguntava no que Santiago pensava quando ia para lá. Era quase lei. Todo dia, às 17h30, Santiago ia até o prédio abandonado.
— O que você acha? — perguntei pela segunda vez no dia, só que para alguém diferente.
Era a primeira vez que eu estava sentada com Gabriel lá em cima e agora eu entendia o porquê de ele ficar ali. Tinha que fazer umas aventuras para conseguir até em cima, já que tudo estava deteriorado, logo alguns andares não tinham escadas e tínhamos que escalar as paredes quebradas. Eu já ia reclamar em como ia descer, até chegar em cima e olhar em volta. Dava para ver a cidade inteira.
Eu me sentia privilegiada em estar sentada ali com ele. Não precisava me preocupar se alguém estava nos vendo, não precisava me preocupar com viciados ou possíveis ameaças de alguém das gangues, já que o "chefe" deles estava ao meu lado.
— Eu acho que até demorou. — Ele deu uma risadinha. Eu estava com as minhas pernas em cima das coxas dele e ele brincava com os dedos do meu pé enquanto falava, sem me olhar.
— O quê? — Franzi o cenho.
— Você ir embora daqui. — Deu de ombros, sorrindo de lado. — Esse lugar não serve pra você, %Julieta%.
— Eu nasci aqui, Gabriel — refutei, insatisfeita com a suposição de que ali não era meu lugar.
— Sim. E tudo conspira para você ir embora. Não é difícil entender o sinal que o universo está te mandando — explicou.
— Eu vivi pra ver você falando sobre sinais do universo. — Gargalhei, passando a mão de leve pelo rosto dele. O papo de ir embora estava nos deixando sensíveis, aparentemente.
— Passo muito tempo com você, acabo absorvendo essas baboseiras hipster que você fala. — Passou um braço pela minha cintura me puxando para mais perto. Encostei a cabeça em seu ombro e suspirei, aproveitando do carinho inesperado.
— É indubitável que nós realmente passamos muito tempo juntos esse ano — constatei. Ele deu uma risada e eu perguntei o porquê.
— Só você usa palavras como "indubitável" numa frase e não fica estranho. — Mexeu nos meus cabelos, ainda lisos, e desviou o olhar.
Eu sabia exatamente o momento em que Gabriel Santiago havia entrado em minha vida novamente, mas ainda parecia estranho estar ali com ele. Nunca passaria pela minha cabeça que eu e Gabriel teríamos algo, nem que seriamos amigos, apesar dessa classificação não se encaixar muito bem na nossa relação. Percebi que tínhamos nos perdido em pensamentos por muito tempo quando levantei a cabeça e notei seu rosto sereno demais.
— Você está calmo hoje, quieto — observei. — Aconteceu alguma coisa?
— Muita coisa acontecendo, só isso. Ossos do ofício — brincou e eu estranhei. Ossos do ofício?
Olhei pelas proximidades e percebi que nenhum dos caras que costumavam andar em volta dele estavam ali. Não havia carros estacionados e estava até silencioso para uma tarde de domingo. Algo devia estar acontecendo, algo provavelmente ilegal.
— Alguém vai se machucar hoje? — Seja qual fosse a ação que Santiago e sua gangue estivessem metidos, eu sabia que era algo grande. Caso contrário, ele não ficaria tão quieto e pensativo assim. Olhou–me com um sorrisinho discreto e agradável no rosto. Inclinou–se e encostou os lábios nos meus, beijando–me delicadamente.
— Olha em volta, %Julie%. — Fiz o que ele mandou. Uma cidade inteira coberta pelos raios solares do pôr do sol surgiu aos meus olhos. As casas cheias de janelas, apertadas umas às outras, eram o cartão postal da cidade. Olhando de cima, o tom alaranjado acolhedor cobrindo o céu, Springfield podia ser bem bonita quando queria. — Esse lugar é pequeno demais para você.
❍❍❍❖❍❍❍
Eu me sentia aérea, como se tivesse empurrado meia cartela de Prozac goela abaixo. Eu não sei dizer se as palavras dolorosas saiam da boca dele de forma descoordenada ou era eu que não estava conseguindo distinguir nada.
— A gente nem sabia que ele estava por perto. Eu não sabia que ele estava estudando de novo… A gente não sabia que era naquela rua, %Julie%. Foi rápido e a gente não conseguiu…— Eu conhecia Max a minha vida toda e nunca tinha vista-o falar tanto. Max chorava na minha frente.
Eram 21h44m quando ele entrou na minha casa sem pedir autorização, quase levando a porta da frente ao chão. A camisa branca coberta pelo líquido vermelho familiar me fez largar as louças em cima da mesa sem me importar com o porcelanato. Minha mãe correu até ele, procurando ferimentos, que não foram achados. O garoto falava rapidamente, atropelando as palavras. Meu pai teve que segurar o rosto dele com as duas mãos para tentar entender o que ele dizia. Eu não me movi, já sabia a resposta. Sabia o que tinha acontecido. As palavras de Max passaram por mim de forma desconexa, mas apenas uma me chamou a atenção.
Sun. O menino já havia sido pego em emboscadas antes, já havia sido surrado intensamente, entretanto, Max nunca havia se desesperado. Dentre a quantidade de palavras arrastadas e chorosas que Max falava, eu distingui apenas a palavra "tiro". Foi quando eu soube o que havia acontecido.
Em um minuto, eu estava tranquilamente jantando com a minha família e no outro, eu estava perdendo parte dela. Meus pais olharem-se assustados e eu vi as pernas de minha mãe fraquejarem. Fechei os olhos, não queria ver o que aconteceria a seguir. O grito sôfrego que saiu da garganta da minha mãe fora uma bela amostra do inferno. Dei as costas e saí da sala, eu parecia andar sobre um tapete de nuvens, que sugavam meus pés. Parei em frente ao quarto de Pat e bati duas vezes na porta. Ouvi meu irmão reclamar, mas abriu a porta. A expressão estressada mudou para preocupada quando ele viu meu rosto.
— O que houve? Por que você está chorando? — Passei as mãos pelo rosto, assustada por não ter percebido que estava chorando. Não respondi, apenas apontei para a sala e segui em direção ao meu quarto. Ouvi os passos pesados de Pat e seus gritos ao perguntar o que estava acontecendo. Outra visão que eu não precisava na minha cabeça. Eles eram tão próximos.
Sentei na beira da minha cama sem saber o que fazer a seguir. Apoiei minhas mãos nos joelhos e senti minha respiração começar a falhar, meu peito parecia estar se comprimindo a cada minuto.
Ele estava lá desde o início, Sun era parte da minha família desde sempre e eu não conseguia lembrar de um momento que ele não estava. Meu celular começou a apitar incessante no bolso da minha calça, números desconhecidos, alguns nem tanto. Joguei meu celular para debaixo do travesseiro. Eu precisava descobrir como lidar com aquilo para poder começar a lidar com os outros.
Fiquei naquela posição por algum tempo, tentando não surtar. Até que ouvi uma gritaria do lado de fora ainda maior do que estava e não demorou para essa zoada chegar a minha porta.
— %Julieta%! — bradou Santiago, esmurrando a porta em seguida. Permaneci no lugar, apática. O rapaz parece ter perdido a paciência e entrou sem pedir permissão.
Ficamos nos encarando até alguém ter coragem de dizer algo. Eu odiava isso. Me lembrei do dia em que Santiago decidiu me mostrar um pouco do seu mundo, o desespero que senti pelo desconhecido não era nada perto da dor que eu estava sentindo. A diferença é que agora os olhos assustados não eram os meus. Corri o olhar pelo seu corpo, procurando ferimentos ou algo assim.
— %Julie%, eu não sabia… — Ele expirava fortemente, como se tivesse corrido até ali. Apenas assenti e voltei a pressionar a palma da mão contra meu peito, tentando segurar meu coração nas mãos. Acho que só assim tudo ficaria bem.
Era estranho. Eu queria gritar, espernear, mas nem vontade de chorar eu sentia, apesar de, aparentemente, já estar chorando. Estava estarrecida com tudo. Santiago parecia na mesma situação que eu, incapaz de entender a avalanche de sentimentos que se fez presente.
— Eu sei o que houve — murmurou e veio sentar ao me lado na cama.
— Eu sei que sabe. — O rosto dele se contraiu em uma careta, como se estivesse sentindo dor. — Mas tenho quase certeza que a culpa não foi sua.
— Eu juro que ninguém sabia que ele estava por perto. %Julie%, eu nunca o deixo por perto quando existe o perigo de ele se machuc… — A voz de Gabriel falhou e ele cobriu a boca com a mão, quase assustado com sua própria vulnerabilidade.
Fechei os olhos, atordoada. Era difícil lidar com minhas próprias dores, porém, era ainda mais difícil lidar com a dor das pessoas que eu amava. Entrelacei minhas mãos nas dele, meus dedos esbranquiçados tamanho foi seu aperto de volta.
— Eu sei quem foi, %Julie% — sussurrou, olhando-me de esguelha.
— Não.
É claro que isso aconteceria. Ali, era Santiago me avisando que ia passar por cima de todos e qualquer coisa para vingar o óbito do amigo e companheiro. E mesmo sabendo que isso desencadearia uma guerra civil entre bairros e gangues, mesmo indo contra meus princípios, internamente eu torcia para que ele o fizesse. Mesmo que isso resultasse em prisão ou na sua própria ruína.
— Faz o que você tem que fazer — concluí, firme. — E nunca mais fale sobre isso comigo.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até minha mãe aparecer no quarto. Achei que ela fosse querer minha cabeça por estar com Gabriel sozinha no quarto, mas ela apenas o abraçou e ambos começaram a chorar, ele mais contido que ela. Ainda aérea, fui até a sala, procurando por Max.
Havia mais pessoas na sala e na porta agora, todos procuravam por informações e todos sabiam que nós, os Young, éramos o mais próximo de uma família para o Sun. Deixei que meu pai tomasse as devidas providências, eu não estava pronta para lidar com qualquer coisa. Sun era um menino muito querido pela vizinhança, apesar de nos últimos tempos dar mais dor de cabeça que o normal. Eu sempre soube que ele era um menino afável, não foi surpresa quando ele me pediu ajuda para voltar a estudar.
Eu queria que mais pessoas soubessem que ele era bom em química, gostava de ler Allan Poe e que seu nome verdadeiro era Samuel.
Achei Max próximo ao banheiro da área de limpeza. Estava apático, eu suspeitava que ele havia presenciado bem de perto tudo o que aconteceu. Segurei o choro mais uma vez, engolindo a bola de sofrimento em minha garganta e fui até ele. Não falei nada, apenas o levei para o banheiro.
Como se estivesse banhando uma criança, coloquei-o debaixo do chuveiro e passando a mão de leve, tirei o grosso sangue que cobria sua pele. Acariciei seu rosto, afastando as placas vermelhas. Max começou a chorar sobejamente, levando-me junto com ele. Senti o chão sumir abaixo de meus pés quando ele perguntou:
— E agora? O que nós vamos fazer?
Não éramos mais uma ex-universitária e um gatuno, membro da maior gangue do bairro. Éramos %Julieta% e Marcus, dois amigos de infância, que corriam pela vizinhança atrás de bolas de futebol. No entanto, o terceiro amigo, o menininho asiático, não estava mais entre eles.