12 • 300 anos depois.
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Junho
O Festival do Patrimônio Cultural de Springfield acontecia todo ano, em todos os finais de semana do mês de junho no parque Repine, religiosamente. Lotado de música, cultura e arte, era a melhor opção de diversão que a cidade proporcionava naquele mês. Meus pais eram voluntários do evento e sempre participavam da organização. Choveu forte nos dois primeiros dias e Pat apostou comigo que no terceiro final de semana, o sol iria aparecer e nós deveríamos ir. Eu insisti que a chuva iria estragar tudo, como vinha acontecendo desde então, mas agora estou aqui, andando pela grama e arrependida de ter vindo com um vestido longo simples. Era lindo, totalmente estampado, mas minhas coxas estavam quase derretendo por debaixo do tecido, mesmo que fosse bem leve. Pisquei algumas vezes, forçando minha visão a se acostumar com a claridade, as lentes grossas dos meus óculos não protegeram meus olhos do sol e comecei a lacrimejar. Esfreguei os olhos, tentando fazer as manchas brancas sumirem de minha visão.
Eu estava melhorando muito na convivência social e já estava bem adaptada ao meu antigo novo meio. Entretanto, havia dias que tudo que eu queria era estar em casa, debaixo dos meus lençóis, no meu sofá e olhar pela minha janela. Em Hillswood.
Patrick sumiu nos primeiros cinco minutos depois que chegamos ao parque. Afastou-se para cumprimentar uma "amiga" e quando eu vi, o garoto acenava longe, gritando que não ia demorar. Toda vez que nós saíamos juntos isso acontecia. Pat encontravam uma "conhecida", sumia por algumas horas e voltava como se nada tivesse acontecido. Eu ficava bastante irritada, mas ainda assim, nós nos divertimos bastante. Agora, com Pat mais velho e maduro, ele havia se tornado meu parceiro oficial, já que Clarissa já não tinha mais tanta paciência para nossos programas juvenis e imprevisíveis. E, bom, estava grávida.
Percebi que fui abandonada pelo meu irmão novamente, então não tive escolha a não ser começar a andar pelo lugar, procurando pela tenda em que meus pais costumavam ficar.
Havia várias bandas e artistas independentes espalhados pelos lugares e quem estivesse interessado ficava por ali mesmo, em volta dos artistas. Só tinha um palco principal, onde tocaria as bandas mais conhecidas, mas era onde estava mais lotado e eu não estava nem um pouco a fim de ir até lá. Tinham vários stands de atividades e vendas. Eu estava até pensando em ir na tenda das tatuagens, estava mesmo querendo marcar minha pele mais uma vez.
Eu adorava aquele clima, adorava aquele parque. Sempre aconteciam aqueles tipos de festivais ali e eu sempre ia com meus amigos de escola. Parei ao lado de um trio de rapazes que cantavam Indie rock e contemporâneos em geral, empolgados que estavam sendo assistidos por tantas pessoas que um círculo já se formava em volta deles.
Aproveitei para comprar uma cerveja, já não aguentava mais de sede e aquele calor e a música pediam por uma bebida.
Os ventos estavam bem fortes, mas isso não diminuía o calor. E o céu de junho... Ah! O céu de junho, completamente sem nuvens, de um azul tão singular que dava inveja em qualquer outro azul. O céu de junho nunca decepcionava. Lembrei de %Filipe%, porque a um ano atrás, eu estava com ele sob o mesmo céu.
Perdidos no meu apartamento quente, no nosso próprio espaço-tempo.
Como se quisesse se fazer presente não só em meu pensamento, ouvi os primeiros acordes de uma música dele e várias pessoas estavam cantando junto com eles. Quem diria que %Filipe% %Buchart% já era conhecido em Springfield? Não pude deixar de sentir orgulho, afinal, %Fil% é muito empenhado e merece todo o reconhecimento do mundo. Lutava com unhas e dentes por seu sonho de fazer sua música sem se importar com o que pensavam e eu admirava isso nele. Eu não conseguia ter toda essa teimosia para fazer o que eu bem entendesse.
Abri a câmera do celular e fiz um pequeno vídeo no momento em que as pessoas estavam cantando o refrão e filmei em volta, mostrando todos cantando junto. Enviei o vídeo no grupo de mensagens que eu tinha com Dizzy, Cameron, Jack e %Fil%. Instantaneamente, senti saudades de todos. Eles adorariam aquele lugar. Iriam em todos os stands e ver todos os músicos, e nós provavelmente sairíamos bêbados de lá também. Eu não gostava de ser dependente da amizade deles, mas nosso grupo eram tão completo, tão único e especial, que eu não me via conhecendo mais pessoas que fossem tão incríveis quanto.
Recebi uma mensagem de Pat, avisando que havia encontrado Clarissa do outro lado do parque e frisando em caixa alta que o tal Adam — o patrão/pai/amigo — estava com ela. Como uma boa apreciadora da vida alheia que sou, corri para comprar uma nova bebida e ir até eles, assistir de camarote Clarissa sendo hétero.
O lado esquerdo do parque era onde a grama predominava e era lotado de árvores, geralmente onde as pessoas estendiam suas toalhas e as crianças brincavam. E foi cortando o caminho por entre os carvalhos, aproveitando a sombra e o vento, observando o céu anil, que eu o vi.
Haniel.
Primeiro, eu duvidei que fosse ele. Achei que fosse apenas uma impressão causada pela minha vista embaçada, porém, a postura e o jeito de se vestir pareciam demais. Continuei andando normalmente, torcendo para que minha resistência ao álcool tivesse diminuído e eu já estivesse vendo coisas, mesmo que só tenha tomado um copo de cerveja. Minhas pernas pareciam bambas e meu coração começou a bater mais rápido, então, eu não tinha mais dúvidas. Ele estava encostado em uma árvore, mexendo no celular. Era ele mesmo e não mudara nada desde a última vez que o vi, no dia em que terminamos.
O fato dele estar usando os óculos de sol que eu lhe dei de presente de aniversário só fez o coração da %Julieta% de 18 anos balançar de vez.
Como se sentisse que eu estava olhando, levantou a cabeça, me enxergando logo de primeira. Paralisei no lugar quando nossos olhos se conectaram novamente.
Estagnei. Travei.
Eu estava na direção dele, não tinha como desviar, nem fingir que não nos vimos. Ele sorriu, ladino e ajeitou a postura. Ele iria me cumprimentar, não ia fingir que não me viu — que era o que eu provavelmente faria –, então, eu apertei os lábios em um sorriso fechado e fui até ele. Afinal, era Haniel ali. O cara que foi meu melhor amigo por mais de dez anos. Eu ainda nutria um enorme carinho e admiração por ele — e talvez uma pequena queda também, eu confesso –. A cada passo que eu dava, cada vez que me aproximava mais e tinha uma visão mais definida do seu rosto, uma lembrança antiga surgia em minha cabeça. Minha vontade era de correr e abraçá-lo com força, mas acho que nós não tínhamos mais aquela intimidade.
— Oi, %Julie%. — A voz dele. Puta merda, a voz dele! Eu não escutava aquela voz a tanto tempo.
"Oi". Uma mísera sílaba, foi o que ele disse depois de quase seis anos sem me ver.
— Oi… — Eu não sabia o que fazer. Eu acenava, apertava a mão dele, abraçava? Ele também parecia indeciso sobre o que fazer, mas mantinha o sorriso gentil no rosto. — Quanto tempo, não é?
— O tempo passa rápido — respondeu, dando de ombros. Para mim, parecia que tinham se passado 300 anos. Puxou uma lufada de ar antes de continuar: — Está sozinha aqui?
— Eu vim com Pat, mas ele está do outro lado. E você? — Tirei o cabelo que insistia em voar no meu rosto, querendo ignorar todos aqueles sentimentos que estavam dentro de mim agora. Eu estava bem nervosa, as palmas das minhas mãos estavam suadas e frias ao mesmo tempo. Odiei ele ter aquele efeito em mim, pois, quando nós estávamos juntos, as coisas não era assim.
Hani era a pessoa com quem eu mais me sentia confortável. Lembro que eu costumava trocar de roupa na frente dele mesmo quando éramos apenas amigos e não era um problema. Isso ajudou bastante quando eu tive minha primeira vez com ele.
— Com a Ana. — Pareceu envergonhado de falar, seu tom de voz baixou um pouco e eu fiquei um pouco chateada, não vou negar. — Uau, seu cabelo tá enorme!
Eu nunca tive o costume de usar cabelos longos. O mais longo que eu já tive chegou até um pouco abaixo dos meus ombros. Agora ele chegava em minha cintura e eu estava apaixonada por ele assim. Estava meio desbotado, mas acabou ficando em uma tonalidade normal e estava cada dia mais ondulado. Toquei as pontas do meu cabelo, até encantada por ele ter notado.
Deus, tire esse homem de perto de mim ou vou me apaixonar novamente em 20 minutos.
— Vocês ainda estão juntos? Que legal! — Sorri, meio absorta e completamente falsa, e ele riu.
— Pois é, achei que não ia durar uma semana, mas aqui estamos nós — confessou, risonho.
— E onde ela está? — Olhei em volta, procurando-a. Não queria ter uma surpresa e achar a garota nos observando. Já era estranho o suficiente ter que lidar com Haniel, com os dois juntos eu não sei se conseguiria.
— Na tenda de ioga. Preferi esperar aqui. Eu gosto do barulho, sabe como é… — Deu de ombros e eu apenas assenti, engolindo em seco.
Eu tinha a impressão de que estava tudo errado. Eu fantasiava com esse momento a muito tempo. O nosso primeiro encontro após o término tinha que ser cheio de tensão e constrangimento. Ele tinha que estar nervoso por me ver, visivelmente abatido, solteiro e me querendo de volta, obviamente. E eu devia estar rodeada de amigos, ele veria que eu estava bonita e estava bem sem ele, que eu tinha conseguido, afinal, me tornar uma pessoa melhor.
Mas a realidade do encontro foi totalmente diferente. Eu estava sozinha, com o cabelo todo bagunçado, um copo de cerveja vazio, totalmente perdida na vida. E ele estava ali. Lindo, cheio de saúde, com um relacionamento saudável e duradouro.
— Como estão as coisas? — Ele quebrou o breve silêncio entre nós, coçando a nuca, visivelmente constrangido. — Encontrei sua mãe uns minutos atrás, sabia? Ela está na administração lá na entrada.
— Jura? Ela não te supera. Ainda acha que a gente vai casar. — Forcei uma brincadeira, apenas para que a gente risse e o gelo se quebrasse. E funcionou.
Assim como meu pai agora tinha uma fixação por Cameron, minha mãe tinha uma fixação por Haniel. Sempre fora louca por ele, mesmo antes de sermos um casal. O nosso término abalou mais a ela que a mim. E cá entre nós, eu ainda acho que eu e Hani vamos casar algum dia. Quer dizer, eu não acho..., mas espero, secretamente, que sim.
Era engraçado porque eu costumava fugir de relacionamentos como gato foge de água, mas com ele, eu fantasiava até nosso casamento.
— Sua família é incrível! Sinto falta deles… — confessou, amuado.
— Só deles? Qual é, você me odeia tanto assim? — gracejei, dando um soquinho leve em seu ombro.
— Claro que não! — Ele riu, acariciando meu braço. Meus olhos se arregalaram minimamente com seu toque imprevisto. Eu espero muito que ele não tenha sentido o quão rápido eu me arrepiei.
— Nós sempre fomos grandes amigos, Hani. As coisas só não deram certo entre a gente. — Me afastei, puxando meu braço levemente porque senti que se demorasse mais um pouco sob seu toque, eu choraria.
Tudo nele era extremamente familiar para mim e me doía não o ter nem como amigo.
— Eu estraguei tudo, é o que você quer dizer — expressou, sarcástico.
— Exatamente! — Rimos novamente, mas cada risada acabava com um suspiro estranho entre nós dois.
— Não sabia que você estava na cidade… — comentou antes que o silêncio nos abatesse novamente.
— Pois é… — Contei resumidamente o que tinha acontecido, conversamos por alguns minutos sobre nossa vida profissional. Ele contou que agora trabalhava na Defensoria Pública e eu falei que estava desempregada e me sentindo meio sem norte e ele mencionou que estavam precisando de pessoas para trabalhar no Centro Comunitário do Jeins. Fiz uma nota mental para pensar na possibilidade mais tarde.
Eu estava até meio frustrada em ver que ele estava muito bem. Eu esperava que a vida dele estivesse destruída depois que nos deixamos, queria que ele percebesse que eu era a única no mundo que servia para ele, e sim, eu ainda acreditava nisso. Mas acho que era esperar demais depois de anos. Ele me contava sobre sua família quando fomos interrompidos pelo som do meu celular, que tremia incessante na minha mão. Vi a foto de %Filipe% na tela e gargalhei com o timing perfeito daquele idiota.
Ia ser até estranho se isso não acontecesse.
— Você se importa? — perguntei para Haniel, sinalizando meu celular. Com a turnê de %Filipe%, era difícil ele me ligar assim, do nada, então eu atendia sempre.
— Claro que não, fique à vontade. — Mesmo que eu estivesse fazendo o possível para esconder, Hani inclinou a cabeça, forçando a vista para ver olhar a tela, desinibido. Ele nunca foi de esconder suas vontades mesmo. — É um cara bonito. — Riu, apontando para foto piscando na tela.
— Você não faz ideia do quanto — assumi, gargalhando. Deslizei o dedo na tela e atendi a ligação. — Big boy, a que devo a honra?
— Eles estavam tocando minha música? De verdade? Não foi você que pediu? — questionou %Filipe% com a voz transbordando empolgação.
Ouvir a voz de %Fil%, com Haniel bem ali na minha frente, olhando-me e sorrindo, deu um pequeno no bug no meu cérebro. Haniel sempre foi meu cara preferido e nesses pouco minutos de conversa, eu achei que nada tinha mudado, que ele ainda era o cara. Mas ao lembrar de %Filipe%, percebi que ele ameaçava o lugar de Hani seriamente.
— Não, quando eu me aproximei eles já estavam tocando — expliquei, sorrindo.
— Ah, cara, isso é incrível! Eles tocando minha música, na sua cidade! — comemorou, entusiasmado. Springfield não era o fim do mundo, mas o talento de %Fil% ultrapassar as barreiras de HW era mesmo incrível. — Uau! Eu preciso ir aí.
— Precisa mesmo… — exprimi, pensativa. Queria falar que estava com saudades dele, mas não com Haniel ali na minha frente. Ele podia achar que eu estava tentando fazer ciúmes nele, era melhor não. — Se estiver livre, me liga mais tarde? Eu vou estar em casa.
— Ah, é! Você não tá em casa. Eu só precisava te ligar para… Enfim! — Nós dois rimos e logo nos despedimos.
— Futura conquista? — Haniel sorrindo, não parecendo nem um pouco incomodado. O que me perguntou incomodou, é claro.
— Nah, eu já tenho ele! — brinquei, balançando a mão. — Na verdade, eu espero que ainda tenha.
— Você merece um cara legal, %Julie%. Ele é bom para você? — questionou. Suspirei profundamente, pois falar da minha relação com %Filipe% era complicado. Falar dele enquanto eu sentia sua falta é ainda pior.
— Ele é… Incrível. Ele espera por mim, sabe? Ele é bastante paciente também, porque, você sabe, eu posso ser difícil de lidar.
— Verdade, você é meio louca. — Novamente, riu e eu revirei os olhos. Era um combinado entre todos os meus casos me chamarem de louca?
— Ele nunca me deixou sozinha para ir assistir uma corrida de galos! — provoquei, mas a lembrança idiota nos fez rir.
— Ei, foi só uma vez! — refutou, levantando um dedo e rimos de novo.
— Ele roubou seu lugar de melhor cara do mundo, sabia? — Ele fingiu indignação. — Sinto falta dele — confessei, encarando o celular novamente.
Minha cabeça estava borbulhando com as novas informações que eu estava adquirindo. Como, por exemplo, eu querer estar com %Filipe% mesmo que o cara que eu achava que amava estivesse em minha frente.
— Ah, ele é de Hillswood? — perguntou, surpreso. Balancei a cabeça, assentindo. Ele franziu o cenho, confuso, antes de perguntar: — Você está namorando à distância?!
— Não, nós não temos nada sério. E ele não… Eu falo sério quando digo que ele é bom demais para mim — expliquei, sentindo-me estranha demais.
— Uau, nunca pensei que eu fosse ouvir você falar que alguém era bom demais para você! — É, eu também não, Hani. — Ele parece ótimo, por que você parece triste?
— Você provavelmente não sabe o que é ter a pessoa perfeita e não poder tê-la ao seu lado. — Mordi os lábios, sentindo uma leve fraqueza me abater. O nome da fraqueza? Saudades. — E acabou de me ocorrer que com você, eu não tinha medo ou dúvidas…
— Ele te deixa incerta? — perguntou.
— Não, você me deixou assim. Ele só colheu as consequências — respondi, encarando seus lindos e malditos olhos verdes. Não segurei a risada quando o silêncio perdurou por mais de quatro segundos e Haniel passou a mão em seus cabelos, constrangido.
— Você não muda, %Julieta%. — Bagunçou os cabelos, envergonhado e eu sorri. — Sua intensidade ainda vai matar um.
— Eu preciso ir, Patrick já deve estar preocupado — anunciei e me aproximei, abraçando-o, sem cerimônias.
O abraço que nós dois queríamos, mas não parecia certo antes.
Agora, com o terreno reconhecido, nós podíamos tocar um no outro. Fiquei chateada em constatar que ele mudou de perfume, mas feliz pelo abraço dele ainda me oferecer um certo conforto.
— Se você quiser, a gente pode tomar um café algum dia… — ofereceu. Eu assenti, sorrindo, mesmo sabendo que aquele café nunca iria acontecer. — Sinto muito — murmurou, com a cabeça enfiada no meu pescoço.
— Por…?
— Por nós. Até hoje eu sinto que estraguei tudo. — Suspirou e se afastou.
— Você está feliz? — perguntei, ajeitando um fiozinho cacheado de seu cabelo. Ele sorriu de lado e assentiu. — Então, nada foi estragado. Está tudo bem, Hani. Não era para ser, certo? Até logo!
— Espero que sim. — Sorriu, simpático enquanto eu me afastava. À medida que fui me afastando, fui sentindo algo se manifestar dentro de mim, que eu não sabia bem o que era, até olhar para trás e ver que Haniel ainda me olhava e acenou para mim.
Era saudades. Eu sentia falta de Haniel, sentia falta do que nós éramos. E sem %Filipe%, eu tinha dúvidas se teria algo tão especial assim de novo.
Apertei minhas mãos uma na outra, tentando dissipar o suor e minha tensão pós encontro com ex. Enquanto me dirigia ao outro lado do parque, notei um jovem casal sentado debaixo de uma árvore. A mais baixa parecia irritada, gesticulava, falando sem parar. A outra, apenas a olhava, com um sorriso tranquilo no rosto, como se ouvi-la reclamar era o que mais gostava de ouvir na vida. Recordei-me do meu relacionamento com Haniel. Enquanto eu estivesse falando pelos cotovelos, ele estaria com aquela expressão de satisfação por simplesmente estar ao meu lado. Inconscientemente, comparei com meu relacionamento com %Filipe%, pois eu sabia que se estivesse resmungando, ele estaria reclamando 20x mais do que eu. E nós entraríamos em alguma discussão sem sentido, parando segundos depois apenas para rir da nossa própria loucura. Jack até costumava zoar %Filipe%, dizendo que ele era um guru na arte da serenidade e tranquilidade, até me conhecer, e perder totalmente sua estabilidade.
Sorri levemente com a cena e com meus pensamentos, tentando me convencer que as lágrimas se acumulando nos cantos de meus olhos eram por culpa do sol, mas na verdade, eram (novamente) por causa dele: o amor.
Eu havia acabado de reencontrar meu primeiro amor. Mais que amor, era meu melhor amigo. Ele jamais seria esquecido e eu estava bem com isso, o problema era essa dor incomoda que vinha junto com a lembrança dele. As lágrimas tinham um gosto mesclado, confuso. O pranto indeciso entre a tristeza — por saber que eu havia perdido uma grande amizade para a lista de grandes amores — e alegria pois eu havia descoberto ali, naquele encontro despretensioso no parque, que havia vida após Haniel, e que era possível amar novamente.
Não é fácil perceber que você está amando. Não é fácil se desprender de sua liberdade e reconhecer que você não lembra muito bem como era a vida antes daquela pessoa. Há um certo tipo de amor que a gente não percebe até estar do outro lado do país, olhando para o cara mais importante da sua vida amorosa e perceber que ele já não é mais tão importante assim.
— O parque não é tão grande assim — comentou Pat quando me aproximei dele. Franzi o cenho, sem entender muito bem a sua sentença. — Você demorou.
— Você não vai acreditar… Encontrei o Haniel — contei, abalada, prendendo meus cabelos em um rabo de cavalo alto.
— Por isso que seu nariz está vermelho. — Apertou a ponta do meu nariz, fazendo um barulho com a boca. Rolei os olhos e em seguida ergui um biquinho tristonho. — Ô, irmã! Foi tão ruim assim?
— Foi bom, mas… Foi horrível, Pat! — choraminguei, aceitando seu abraço apertado.
— Um pouco de comédia romântica vai melhorar suas condições? — questionou, brincalhão. Afastei-me, encarando-o, confusa. Meu irmão apontou com a cabeça para atrás de nós.
— Está rolando?! — perguntei, já esquecendo meus questionamentos e me concentrando na fofoca a minha frente.
— Cara, veja com seus próprios olhos… — comentou Patrick, puxando-me pelo braço e me levando até os dois.
Clarissa e seu… indivíduo (eu ainda não sei como me referir a ele, chamá-lo de "amigo" parecia pouco, de "chefe" menos ainda, de romance era muito, então…) estavam sentados em um banco ao lado de uma árvore e dividiam um sorvete. Sim, dividiam um sorvete, tal qual um casal dos anos 60. Aparentemente, seria o primeiro encontro de Adam com os meus pais após todo o Caso Gravidez. Eles já conheciam o homem por conta da empresa e da amizade dele com Clari, mas ia ser divertido vê-los conhecendo-o como papai do ano.
— Olha quem chegou — anunciou Pat, fazendo os dois desviarem o olhar um do outro e me encarar.
— Onde você estava? Estamos aqui já tem um tempo! — reclamou Clarissa, levantando do banco.
— Passando sufoco. — Clarissa olhou-me confusa e eu apenas dei de ombro. — Depois te conto. Não sabia que estavam me esperando! — comentei, virando meu corpo em direção ao homem alto ao lado de Clarissa. Ergui uma sobrancelha quando o vi engolir em seco, parecendo até nervoso em me conhecer. — Oi.
— O-oi, eu sou Adam! — Esticou a mão para me cumprimentar, sorrindo ansioso. Minha sobrancelha permanecia erguida quando aceitei seu cumprimento. — Você é a irmã.
— E você é o pai — constatei.
— %Julieta%! — O grito esganiçado de Clarissa me fez gargalhar.
Adam era alto, simpático, mais charmoso do que bonito e seu porte físico era atlético, mostrando que ele praticava — ou já havia praticado — algum tipo de esporte. A linguagem corporal dele era incrível (aperto de mão firme, ombros alinhados, cabeça erguida. Essas baboseiras, sabe?), o cara devia fazer sucesso em entrevistas de emprego. Não que ele precisasse, ele já era o chefe. Ademais, eu ainda não sabia se podia confiar nele com a minha irmãzinha. E por falar nela, Clarissa sempre teve uma beleza delicada e marcante por conta dos olhos puxadinhos e a boca carnuda, mas agora, com a barriguinha marcando na blusa e o famigerado "brilho da gravidez", ela parecia uma nova mulher.
— E esse é o meu nome! — Apontei, rindo. — Nossos pais estão lá no posto de organização, vamos até lá? — sugeri, sem paciência para esperas.
Dei alguns passos, mas percebi que ninguém me acompanhava. Olhei para trás, vendo Pat encarar o casal enquanto prendia o riso. Adam ainda estava paralisado no lugar, parecendo assustado, enquanto Clari tentava puxá-lo pelo braço.
— O que foi? Adam, foi você que sugeriu que fosse em público! — ela o recordou, batendo o pé no chão. Gesto muito parecido com o que eu fazia quando me sentia contrariada.
— Eu sei, Clarissa! — Parou para respirar fundo por uns segundos, antes de seguir em frente. Ela o observou e rolou os olhos, entrelaçando o braço no dele.
Ela mordia a casquinha do sorvete distraidamente, nem um pouco preocupada com o encontro que estava por vir, quando meu olhar atento captou os olhos dele. Admiração e carinho, puramente. Ele olhava para Clarissa como se ela pudesse resolver os conflitos do Oriente Médio, como se ela fosse capaz de deixar o planeta em ordem em dois dias.
— Você viu isso? — murmurei no ouvido de Pat, entrelaçando nossos braços como o casal que agora andava em nossa frente.
— O quê? — perguntou.
— Ele gosta dela — afirmei, sorrindo emocionada.
— Eu disse que estávamos assistindo a uma comédia romântica.
❍❍❍❖❍❍❍
— Você está quieta — constatou %Filipe% ao perceber que eu estava distraída e quase não prestando atenção em sua história de como ele conseguiu fugir de entrevistas para ir comer o Space Cake de Amsterdam. Troquei o celular para o ouvido esquerdo, suspirando audivelmente, rolando na cama.
Desde que voltei do parque, eu estava absorta em meus pensamentos. Após assistir Clarissa se complicando ao tentar explicar seu relacionamento para nosso pai, decidi arrastá-los para tomar umas cervejas antes que Adam cavasse um buraco no chão e decidisse ficar por lá. Ficamos o dia inteiro andando pelo parque e bebendo, e no final da tarde, nossos pais se juntaram a nós e ficamos juntos até a hora de ir embora. Quando cheguei em casa, já meio alterada, decidi ligar para Dizzy e relatar os acontecimentos do dia. Aí, a ficha caiu.
Ela surtou, disse que queria estar do meu lado e confirmou minhas teorias de que éramos almas gêmeas quando ela revelou como queria que o reencontro fosse. Sabe? %Julie% rodeada de amigos, sorrindo, parecendo a pessoa mais feliz do mundo...
Até hoje, eu ainda não tinha aceitado muito bem meu fim com Haniel. Eu achava que tinha volta, achava que assim que nós nos encontrássemos de novo, a velha chama ia se acender e a gente ia perceber que ainda se gostava. O que eu não entendia é porque que depois que me afastei de Haniel, eu não conseguia parar de pensar em %Filipe%.
Minha cabeça estava uma confusão e nem eu mesma estava entendendo muito bem o que estava acontecendo. Como de praxe.
— Encontrei meu ex-namorado hoje. Eu estava com ele quando você ligou — contei, torcendo para que ele não surtasse e entendesse que eu precisava começar a falar ou então ia enlouquecer.
A linha ficou em silêncio e eu olhei para a tela do celular, vendo se a chamada não tinha caído.
— %Fil%? — chamei, prendendo meus lábios para não começar a rir. Eu simplesmente joguei essa bomba em cima dele, coitado!
— E aí? — perguntou, tentando não parecer receoso, e eu resolvi fazê-lo sofrer um pouco.
— Ele está bonito…
— Está me confundindo com a Dizzy? — Gargalhei ao ouvir seu brado estressado. — Você acha mesmo que eu estou a fim de ficar escutando você falando bem de ex?
— Posso continuar falando ou vai ficar de mimimi? — provoquei-o.
— Vai, fala. — Ele ainda parecia contrariado, o que só me deixava com mais vontade de rir.
— É que… Eu sempre achei que ele era o melhor cara para mim e…
— Eu vou desligar — interrompeu-me novamente e eu gargalhei com seu tom de voz exalando revolta.
— Espera eu terminar de falar, por favor? — pedi, pacientemente.
— Ah, %Julieta%! Sou mesmo obrigado? — resmungou e eu quase conseguia enxergá-lo, mexendo nos cabelos, tentando conter a irritação.
— Eu sempre fui apaixonada por ele, mas sei lá… Depois que eu o vi, só aumentou minha vontade de… — Eu apenas continuei a falar até perder a coerência totalmente. Eu detestava falar com gente prolixa, mas com %Filipe%, eu sempre acabava me tornando uma confusão de frases inacabadas e pensamentos sem nexo.
— De…?
— De você. — Surpreendi-me ao perceber que meu primeiro pensamento foi ele.
— … Ok, estou escutando.
— Você ainda vai morrer sufocado com o tanto de drama que faz. — Rolei os olhos e rimos juntos. — Eu preciso de uma explicação.
— Vamos ver se eu posso te ajudar — gracejou, solícito.
— Você pode me explicar por que eu sempre tive tanta certeza que ele era… O certo e agora eu só consigo pensar em você?
— Eu vou chorar. — Fingiu uma voz alterada e eu o repreendi, gritando pela sua atitude idiota. — É sério, eu não acredito que estou longe justamente agora que você está percebendo as coisas.
— Que coisas? — questionei, desorientada.
— O quanto a gente se gosta, %Julieta%. Eu sei que para você sempre foi apenas um caso e eu sempre tive a impressão de que eu queria mais a você do que você queria a mim, mas você nunca percebeu que nós somos um casal de verdade.
Não era verdade, eu sempre quis %Filipe%, desde a primeira foto dele que apareceu no feed do Explorar do meu Instagram.
— Eu sempre quis você, mas… É complicado, eu não sei como explicar e nem sei se você vai entender — afirmei, triste por %Filipe% ainda ter aquela visão de mim, mesmo que eu já tenho afirmado meus sentimentos por ele mais de uma vez.
Era mais fácil falar de meus sentimentos por %Filipe% pelo telefone, a dimensão do olhar dele me distraia facilmente.
— Tenta? — pediu, carinhosamente. Pensei por alguns minutos antes de começar a falar.
— Como eu disse, eu acho que tinha medo, por causa dele. Eu sempre fui apaixonada por ele, %Fil%, de verdade. Por ele, eu era o tipo de garota que você nem imagina e eu não ligava, de verdade. E quando eu te conheci… Ele ainda estava muito na minha mente.
— Estava ou está? — perguntou, receoso. — Ou voltou a estar?
— A única coisa que volta na minha mente o tempo inteiro é você, %Buchart% — confessei, mordendo os lábios.
— Eu realmente vou sair chorando dessa conversa hoje — brincou, rindo. — Eu penso em você o tempo todo também, %Julieta%. Hoje mesmo, vi uma barraca com vestidos estampados em uma feirinha de rua e pensei logo no quanto você ia querer comprar, pelo menos, uns cinco.
Gargalhei, olhando para baixo e vendo meu corpo coberto por um vestido estampado, que passei o dia reclamando do quão calorento era. Levantei da cama e fui até o espelho comprido, posicionando a câmera do celular e tirando uma foto, evidenciando a roupa, e enviando-a a %Filipe%.
— Você me conhece tão bem, baby — assegurei, rindo. Ouvi a notificação chegando no celular dele e esperei por sua reação.
— Ah, que coisa mais linda! — Seu elogio sincero fez minhas entranhas todas se revirarem. Ou romanticamente falando, borboletas no estômago.
— %Fil%, sinceramente? Eu ainda não acredito muito que um cara como você esteja interessado em mim — confessei, envergonhada com minhas próprias inseguranças.
— Um cara como eu? — perguntou.
— Ah, você é lindo, famoso, pode ter qualquer garota… Podia ter a Dana, que é a garota mais bonita que eu já vi! Me desculpe se é difícil acreditar que você me queira — exprimi.
— Me deixa puto o quanto você se deprecia. Eu já disse que você não faz ideia do quanto é linda! — reafirmou.
— Você já me comeu, %Buchart%, não precisa mais ficar fazendo média. — Rolei os olhos e encarei meu reflexo no espelho.
O tempo ia passando e a insegurança com o meu corpo ia junto. É claro que eu sabia que minhas incertezas eram baseadas nos padrões que a sociedade impunha sobre as mulheres da atualidade, entretanto, havia dias que tudo parecia redondo e eu clamava por uma lipoaspiração. Aí eu lembrava que não estava no mundo para ser mais um produto do capitalismo e logo mudava de ideia.
— Você realmente devia falar para o seu psicólogo sobre essa mania irritante de achar que é pior do que todo mundo! — reclamou, bufante.
— Alguns meses atrás você me acusou de me achar melhor que todo mundo, decida-se! — retruquei.
— Você consegue fazer os dois! Está vendo? Isso me deixa louco! Você consegue ser dois extremos ao mesmo tempo, eu não faço ideia como você faz isso. Você me tratava quase com desprezo, mas transava comigo como se eu fosse o único cara do planeta.
— Eu nunca te tratei com desprezo, %Filipe% — repliquei, quase indignada com sua fala.
— Fala sério, %Julieta%! Tinham dias que eu realmente ficava em dúvida se você me queria ali ou não. E estive pensando esses dias e percebi que posso ter dado abertura, inconscientemente, para Dizzy quando aquilo aconteceu justamente por isso — confidenciou.
— Ok, assunto perigoso, vou desligar. — Fiquei absurdamente nervosa com a menção ao nome de Dana.
— Não, falar sobre seu ex também é desconfortável para mim, mas eu ouvi mesmo assim. Você não acha que já está na hora de nós falarmos sobre isso? — questionou.
— Não por telefone, %Filipe%. — Suspirei, cansada daquele assunto. Tudo bem, ainda não havíamos conversado sobre aquilo mais vezes, porém, nada nesse debate me agradava.
— Claro, vamos fazer o que você quer fazer… Mais uma vez. — Senti uma pontada de chateação e ironia na sua voz. Afastei o celular da orelha, encarando a tela tão incisivamente quanto estarei encarando %Filipe%, se ele estivesse em minha frente.
— %Filipe%, você está procurando briga?! — questionei, já me preparando para um possível confronto.
— Não, %Julie%, eu nunca estou. — Ouvi-o suspirar. — A gente pode conversar civilizadamente, sabia?
— O que você quer, então? — perguntei.
— Como a gente fica?
— Do mesmo jeito, ué. Estamos longe, %Fil%. Eu nunca fui fã de relacionamentos à distância. Não tem como a gente começar alguma coisa agora — expliquei.
— E se a gente estivesse perto? — Fiquei em silêncio, pois eu não sabia se estivéssemos perto um do outro, nós estaríamos tendo aquela conversa. — Seu silêncio é minha resposta?
— Não! Eu não sei, %Fil% — choraminguei, cansada demais para aquela conversa séria e necessitada demais de um abraço dele naquele momento. — A única coisa que eu tenho certeza no momento é que eu estou sentindo muito sua falta.
— Sua resposta não me agradou, que fique claro. — Ri com a expressão de sua insatisfação. — Também sinto saudades. Enquanto estou na estrada, eu sinto sua falta como sinto de todos, mas vai ser difícil quando eu chegar em casa e você não estiver lá.
— Você… Já esteve com alguém? — Mordi minha unha, apreensiva. Eu odiava parecer ciumenta, dependente e paranoica. Tudo em que eu me transformava quando estava com %Filipe%.
— Eu beijei algumas pessoas, se é isso que você saber. Mas você foi a última garota com quem eu dormi. E você? — confessou.
— Hm... Quase. — Pensei em Santiago e todo o sexo oral que tínhamos feito, mas nunca chegando onde ele realmente queria.
— Como assim?
— Eu tentei, mas… Acho que você fez seu trabalho direitinho demais comigo. — Ouvi a gargalhada gostosa de %Filipe% estourar em meus ouvidos e rir junto foi inevitável.
— Ah, que pecado você falar isso quando eu não estou do seu lado para te…
— Me…? — questionei, mordendo os lábios.
— Beijar…? — tentou, rindo.
— Vou fingir que acredito. — Rimos juntos mais uma vez. — Eu preciso ir, se eu não dormir agora vou ficar com uma ressaca terrível.
— Você está bêbada? — perguntou, parecendo surpreso. — Eu sabia que tinha algo errado com essas declarações.
— Eu só bebi algumas, já estou quase sem efeito — expliquei.
— Como eu não percebi isso antes? — Gargalhou, divertido. — Então, me conta. Quem é melhor na cama: Eu ou seu ex?
— Boa noite, %Filipe%!
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É possível morrer de tesão acumulado? É realmente algo que irei pesquisar no Google quando chegar em casa. Se você não sabe o que é isso, é uma sensação terrível. Uma comichão na sua pelve que não parece sumir até você transar com quem sabia o que estava fazendo. É quando você parece entrar na menopausa mais cedo e começa a sentir um calorzinho que não pertence ao seu habitual corpo. Eu estava tão cheia de vontades que até o toque entre minhas pernas quando eu andava estava me causando desconforto.
Eu estava doida para transar, mas a única pessoa que eu estava tendo intimidades nos últimos meses era Santiago. Eu já havia até tentado algo a mais no Tinder, mas não deu certo. Ao que parece, eu não era tão moderna assim. O tesão acumulado faz a gente perder o senso das coisas, não é?
Após passar o dia inteiro desassossegada, não hesitei em passar direto pela minha casa e ir até o Forte, em busca do cara que deveria saciar minha vontade. Passei horas trancada no quarto com Gabriel e acabou acontecendo, o ato havia sido consumado. Nós tentamos, ele tentou, eu tentei, de verdade! Porém, agora eu descia a rua até minha casa em passos firmes, completamente enfurecida.
E sem um orgasmo sequer naquela lastimosa noite de segunda-feira.
— Onde você estava? — Mamãe cruzou os braços, me encarando raivosa. Já passava de uma da manhã e eu não ligava, estava estressada demais para me importar se a mulher gritasse comigo.
— Com um amigo — respondi, irritada. Esses momentos me lembravam de quando eu morava só e não tinha que dar tantas justificativas. Voltar a morar com os pais após tanto tempo sozinha era, no mínimo, diferente.
— Que amigo? — questionou.
— Mãe! Hoje não, amanhã você pode cagar na minha cabeça. Só me deixa ir para o meu quarto logo — implorei, passando direto pela sala.
— Seu pai pediu a documentação do carro, deixa na mesa quando sair amanhã — falou duramente, indo para o seu quarto. Fiz um lanche rápido na cozinha e fui direto para o banheiro.
Quando sai do banho, queria logo dormir, só para não ter que lidar com meu próprio mal humor, mas achei melhor procurar o documento que meu pai pediu. Na manhã seguinte, eles estariam prontos para me escorraçar, eu tinha que aparecer com meu respaldo em mãos.
Estranhei meu quarto vazio, pois Clarissa costumava estar em casa naquele horário, jogada na cama, coberta por papéis e pastas. Peguei meu celular, enviando uma mensagem em busca da minha irmã.
Clari ♥ (01:21): Saí do trabalho muito tarde, perigoso pra voltar só, vou ficar na casa do Adam (:
"Ok, cuidado aí, ele já te engravidou uma vez…"
Recebi apenas um emoji raivoso como resposta, então decidi ir em busca de meus documentos. Abri meu guarda-roupa e comecei a procurar nas caixas de organização que eu tinha, mas que não estavam nada organizadas. Ainda tinham algumas coisas empacotadas desde Hillswood, coisas ali que eu sequer lembrava, uma dessas era uma camisa social azul marinho. Peguei a camisa em minhas mãos sem entender. Forcei minha mente mais um pouco até eu ter a imagem de %Filipe% com aquela camisa.
Talvez ele seja o motivo do meu bloqueio. Querendo ou não, eu passei meses transando apenas com %Filipe%, talvez eu estivesse acostumada, sei lá. Não é possível que %Filipe% seja um deus do sexo a ponto de me deixar incapaz de ter relações com outras pessoas. Talvez a culpa nem fosse dele, talvez a culpa fosse completamente minha por sempre o projetar em minha mente quando estava com qualquer outro cara.
Bom, não custava nada tentar.
Tirei meu roupão felpudo e coloquei a camisa. Fui até o meu espelho grande e soltei meus cabelos, bagunçando-os um pouco. Peguei meu celular, tirei uma foto e procurei pelo número de %Filipe%.
"Queria entender como isso veio parar aqui."
Olhei para sua última visualização e tinha sido a três minutos, assim não demorou para a resposta chegar.
Baby (01:31): eu sabia que estava com você!! procurei por essa camisa como um louco
"Não tem mais seu cheiro 😥"
Baby (01:31): Justo. Se eu não tenho nada seu pra agarrar durante a noite, você tb não deveria ter ué! Você tem sorte de ter pelo menos a camisa...
Sentei na beirada da cama, sorrindo. %Filipe% era adorável demais.
Baby (01:32): Já viu a hora?
"Desculpa. Estava dormindo?"
Baby (01:32): Significa que está na hora da minha camisa acidentalmente sumir do seu corpo.
Mordi os lábios, já sentindo todos meus poros dilatarem só com a possibilidade. Fazia tempo que eu e %Filipe% não flertávamos assim, eu sabia que eu tinha ido atrás e provocado, mas agora estava um pouco receosa. Não pelo ato em si, pois eu confiava muito em %Filipe%, mas por não me sentir tão confortável com meu próprio corpo.
"A camisa some se algo aí sumir também" Arrisquei.
Em menos de 2 minutos, uma foto dele deitado com a calça de moletom caindo mais nos seus quadris do que deveria e revelando estar sem roupa de baixo alguma. Revirei os olhos e me joguei de costas na cama. Eu preciso de sexo. Mas não sexo com qualquer um, eu precisava de sexo com %Filipe%. Já com todos os meus sentidos acesos e sentindo muitas coisas lá embaixo, com a mente já prejudicada pelo tesão acumulado desde cedo, sentei em um puff em frente ao espelho comprido. Diminuí um pouco a luz, deixando apenas um abajur aceso.
Posicionei à beira da camisa estrategicamente para cobrir o centro das pernas, a camisa que ficava grande demais no meu corpo caia pelos meus ombros, deixando meus seios um pouco amostra. Dava para ver que eu estava completamente nua por debaixo da camisa. Posicionei meu celular em frente ao meu rosto e tirei a foto, logo enviando-a, sem pensar muito.
Baby (01:34): Eu acho que não quero mais brincar disso, é maldade demais
"Maldade é tá longe de você agora. Lembra que a gente costuma transar quase todas as segundas?" Relembrei, sorrindo nostálgica. Geralmente, %Filipe% não tinha muito o que fazer nas segundas, então era o nosso dia.
Baby (01:34): Você não faz ideia que eu daria qualquer coisa pra tá com você agora
Meus lábios já estavam machucados do tanto que eu mordia. Posicionei o celular para tirar outra foto, mas dessa vez não me importei com a parte de cima, deixando meus seios completamente a mostra.
Baby (01:37): Ah não, dormir hoje sem te chupar vai ser um pesadelo!!
E anexado uma foto da protuberância entre as pernas do rapaz.
Quase arfei, jogando minha cabeça para trás, completamente desorientada. Levantei e tranquei a porta do quarto. Em seguida, fui até a janela e dei uma olhada no prédio destruído, me perguntei se Santiago era uma daquelas sombras rondando por ali. Fechei as cortinas, desliguei o abajur, deixando meu quarto num breu total. Retirei a camisa enquanto eu ligava para %Filipe%.
A diferença era quase assustadora.
Quatro horas com Gabriel Santiago enfiando a língua em mim não foram nada perto de 20 minutos de %Filipe% falando sacanagem comigo pelo telefone. Ele recitava as mais deliciosas obscenidades nos meus ouvidos e eu quase não conseguia falar nada de volta, apenas me enrolava em meus lençóis, pressionando minhas pernas contra minhas pernas, meus dedos contra outros lugares.
Gargalhei de satisfação quando consegui chegar lá, conquistando o que eu queria desde cedo. Graças a %Fil%. Eu posso ter feito tudo sozinha, mas eu sei que não seria tão arrebatador e envolvente se ele não estivesse me conduzindo. Mesmo longe, %Filipe% me causava uma sensação indescritível. E isso me assustava demais, pois mostrava que o meu nível de dependência dele já estava maior do que o previsto.
Apesar de me sentir mais leve e não mais amargurada e indisposta com a minha falta de sexo, não dormi muito bem. Acordei várias vezes durante a noite, sentindo-me irritada e nervosa e eu não sabia o porquê. É estranho demais quando a gente simplesmente sente que algo vai acontecer.
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Julho
O centro comunitário do Jeins era uma das únicas instituições de Springfield que eram ativas e funcionavam bem, talvez fosse o único centro comunitário da cidade que funcionava. O meu primeiro contato com o local fora no meu último ano escolar. Comecei a fazer parte da comissão social, que tratava diretamente dos assuntos "da rua". Na época, eu não dava muita importância. Eu achava que só estava lá por obrigação e o título ficava bonito no meu histórico estudantil. Os responsáveis pelas ações só me mandavam ficar brincando com as crianças e conversar com os adolescentes nos dias de acolhimento.
Na época, eu tinha apenas 17 anos e não era dificuldade alguma brincar de bola com as crianças ou conversar com meus antigos amigos. Hoje em dia, eu entendo o quão importante é esse elo de ligação. Muitas pessoas só iam ao Centro por conta de mim e de outros jovens agentes que estavam por lá. De convite em convite, quase todas as crianças e adolescentes do bairro ficavam no Centro as quintas e sextas.
Surpreendentemente, segui o conselho de Haniel e fui até o Centro Comunitário e eles realmente estavam precisando de pessoas por lá. Assim, voltei a trabalhar na associação no final de junho, quando foram abertas algumas vagas para ajudar na colônia de férias, e desde então, eram incontáveis as vezes em que eu chegara chorando em casa.
Eu sempre soube que era extremamente privilegiada, que em comparação com as pessoas que passavam no Centro e\ou que moravam no mesmo bairro que eu, eu tinha ótimas condições de vida. Mas essas constatações tornavam o trabalho extremamente prejudicial para minha saúde mental, pois ao final do dia, eu era uma pessoa cheia de frustrações.
Eu estava pronta para explodir aquele dia. Estava com a cabeça a mil, tudo que queria era voltar para minha cama após a situação delicada em que me encontrei.
Tudo começou quando uma garota de 15 anos procurou por mim no Centro. Era franzina, parecia indefesa e tinha rosto tão delicado quanto o de uma boneca. Estava grávida de três meses, porém, queria não estar. De início, achei que fosse mais um caso de irresponsabilidade, falta de instruções. Entretanto, infelizmente, não era. Eu nunca estaria pronta para ouvir o que a garota me confidenciou. O feto em seu ventre era fruto de estupro. Ela chorou, gritou, quase me obrigou fazer alguma coisa tamanha a determinação em mudar sua própria situação. Nunca tinha lidado com algo assim, não tive o treinamento certo para saber o que fazer em tal situação. Quando perguntei quem fizera tal barbaridade, ela contou que o monstro foi o seu próprio tio. Fragmentou meu coração ter que deixá-la ir para casa e tive que assistir a menina pequena voltar ao seu inferno particular.
Quando perguntei a ela porque tinha ido pedir ajuda no Centro, ela respondeu:
— Eu estou tentando de tudo, moça.
Então, eu não poderia fazer nada menos do que… tudo. Falei com meus superiores, falei com a polícia e absolutamente ninguém se prontificou a me ajudar. O tal homem era um deputado qualquer, figurão no ramo imobiliário, que enriquecia às custas da população, financiador de todos os projetos locais. O desgraçado era intocável. Voltar para casa foi tão dolorido, que quase não pude conter as lágrimas no caminho.
Eu olhava para os lados e não conseguia ver esperança alguma de onde eu estava. As casas despedaçadas, as pessoas pareciam andar com os ombros caídos. Eu queria ter o poder de mudar tudo, mas o que me fodia a cabeça era o fato de eu não poder fazer absolutamente nada para isso, nem que eu tentasse. Seria eu lutando contra o resto do mundo.
%Julieta%, a menina que tinha esperanças em tudo, morreu um pouco naquele dia. Agora eu era uma mulher, que tinha visto o rosto feio da injustiça. Se era injusto comigo — aos vinte e quatro — ter visto o lugar feio que vivíamos, era ainda pior para Alana — aos quinze — ter que lidar com toda a maldade do mundo.
Uma chuva torrencial caia enquanto eu corria pela calçada, querendo apenas chegar logo em casa. Ainda era de tarde, mas com a chuva forte, logo já parecia estar de noite. Quando finalmente entrei em casa, eu estava encharcada dos pés a cabeça, meu cabelo pingava e meus tênis pareciam dois blocos de cimento de tão pesados.
— Alguém em casa? — perguntei alto, mas não obtive respostas. Decidi ir direto para o meu quarto e tranquei a porta, sem me preocupar com Clarissa, já que a mulher havia adicionado mais um lugar para morar em sua lista: a casa de Adam.
Joguei minha bolsa no chão e tirei meus sapatos, arremessando-os para o outro lado do quarto. Meu quarto estava perfeitamente arrumado, a janela estava fechada, deixando o interior do espaço ainda mais escuro. O barulho da chuva costumava me trazer calmaria, agora parecia aumentar minha tormenta. Estanquei no meio do quarto, sem saber o que fazer em seguida. A angústia veio como um jato, rápido e forte. E chorei. Chorei alto, feio, até gritei, irritada com meu próprio descontrole. Sentei-me no chão, procurando meu celular na bolsa.
Eu não podia ficar só naquele momento, não devia. Iria surtar, eu tinha certeza. O problema era que as segundas-feiras eram o dia que eu menos via a minha família, era o dia mais ocupado para todos, exceto para mim, que não tinha aula, apenas monitoria pela noite. Pensei em ligar para minha mãe, mas ela sairia do trabalho imediatamente ao ouvir a primeira falha em minha voz. Decidi ligar para Dana, mas sem sucesso, apenas tocou várias vezes. Tentei ligar mais duas vezes, mas ela não atendeu novamente. Deitei no chão, sentindo uma poça formar-se embaixo de mim. Eu havia levado toda a chuva para dentro do quarto. O próximo número que procurei foi o de %Filipe% na minha lista e não hesitei em ligar. Infelizmente, foi direto para a caixa postal.
— Oi, é a %Julie%. Eu… — Achei que eu não queria falar nada, até eu começar a falar e perceber que eu tinha muito a dizer. — Uma garota me pediu ajuda hoje e eu não pude fazer nada. Quem deveria lutar comigo não está comigo de verdade. Eu sempre soube o que queria fazer da minha vida, agora nem um dos meus planos parece o suficiente pra suprir minha vontade de salvar o mundo. E talvez eu não esteja fazendo sentido, mas eu desabei no choro quando tive que desistir e dizer não para aquela menina e ela… Ah! Poderia ser eu, %Fil%. Eu sei que eu só estou lotando sua caixa de mensagens e sua paciência, mas eu precisava falar, precisava expulsar tudo isso que está dentro de mim. E tinha que ser você… Desculpa te incomodar.
Permaneci deitada no chão após desligar o celular, reavaliando toda a minha vida. O choro causou-me uma forte dor de cabeça. Retirei minhas roupas molhadas e ficando apenas de calcinha, me entreguei ao sono, desfalecendo por conta do extremo cansaço, que eu suspeitava não ser físico. Precisava deixar todos os meus arrependimentos para o amanhã, pois por agora, eu só precisava fugir do mundo.
Quando despertei, estava completamente desorientada. O meu quarto ainda estava completamente escuro, eu não sabia que horas eram e eu tinha a impressão que havia dormido tanto que já haviam se passado dias. Estiquei o braço para abrir as persianas e ver que o sol estava nascendo. O nascer do sol estava tão incrível que nem parecia que um temporal tinha caído horas atrás. Um breve sorriso surgiu em meu rosto, sem motivo algum.
Eu estava com o corpo todo dolorido. Sentia o meu rosto inchado e meu cabelo estava armado e cheio de cachos já que eu realmente não me importei em secá-lo antes de deitar. Busquei pelo meu celular e surpreendi-me com o número de ligações. Cinco ligações de meus pais, cinco ligações de Dana e sete de %Filipe%. Abri minhas mensagens e o dia — que já estava extraordinário — ficou ainda mais quando eu li a única mensagem de %Filipe%.
Baby (04:19): Eu sei que você sempre se frustra quando as coisas não funcionam do jeito que deveria ser, mas está tudo bem perder a cabeça às vezes, está tudo bem desistir! Você não precisa carregar o mundo inteiro nas costas, meu amor. Existem lutas que são feitas para serem perdidas. Mas acredite, se existisse alguém que pudesse salvar esse mundo fodido, esse alguém seria você, %Julieta% Young.
❍❍❍❖❍❍❍
A capacidade de criação e a criatividade de um estudante na hora de responder as questões de uma prova discursiva deveria ser estudado pelos cientistas. Às vezes, as coisas descritas eram tão absurdas, que eu preferiria que a pessoa nem tivesse tentado. Entretanto, há vezes em que a pessoa protela tanto a resposta, que incrivelmente acaba dando certo e a pergunta é respondida corretamente.
Eu procurei por modos de preencher os meus dias, me ocupar com novas atividades de tempos em tempo, então tornei-me monitora da faculdade. A diferença da universidade de Hillswood é que em Springfield eu era obrigada a passar provas para os alunos quinzenalmente. Eu amei, pois fazia tempo que eu não me empolgava e realmente me sentia à vontade em um serviço. Eu tinha alunos maravilhosos! Os calouros já tinham até pedido para que eu assumisse a monitoria de outras matérias e eu só não aceitava por não querer tirar o lugar de ninguém.
Desviei a atenção da dúzia de provas em minha frente quando uma notificação surgiu na tela do meu celular. Estranhei, pois eu não costumava receber mensagens durante a madrugada. Pelo menos, não em Springfield, onde minha vida social era quase inexistente.
Santiago (01:35): Desce aqui no forte.
Respondi com um simples emoji, sem dar muita atenção a mensagem. Não era a primeira vez que Gabriel me convidava a sua casa nas altas horas. Franzi o cenho quando duas mensagens chegaram em seguida.
Santiago (01:35): Summy foi te buscar.
Minhas mãos tremeram de leve. Havia algo de muito errado. Santiago nunca falava sério comigo, nem mandava mensagem e nunca tinha pedido para Sun ir me buscar. Tirei o short do pijama e coloquei um jeans, peguei um casaco verde grande de Pat que estava jogado sobre minha cômoda apenas para vestir por cima da blusa do pijama. Levei os tênis na mão enquanto ia de fininho até a porta da frente. As luzes já estavam todas apagadas e a única pessoa que estaria acordada seria Pat, mas ele estava na casa de um amigo pelo final de semana inteiro.
Também não era minha primeira vez fugindo para o Forte durante madrugada.
— O que houve? — questionei, curiosa e assustada assim que enxerguei Sun encostado no portão da minha casa.
— Eu também não sei, ele só me mandou vir até aqui — respondeu vagamente, entrelaçando o braço no meu.
Diversas histórias do que iria acontecer quando eu chegasse ao local surgiram em minha mente. 15 formas diferenciadas da minha própria morte.
Não havia absolutamente ninguém na rua, coisa incomum para um sábado. Isso acabou me deixando mais paranoica. Chegamos à casa comprida de Santiago, local que havia mais compartimentos do que eu tinha conhecimento. Um dia, descobri que o local comportava várias salas subterrâneas e o mesmo dizia que só dormia realmente tranquilo em um quarto que ficava escondido por lá. Ninguém sabia onde Santiago dormia. Acho que eu nunca tinha visto-o dormir, na verdade. Deve ser o certo a se fazer se você tem pendências e inimigos por todos os lados.
Santiago levantou do sofá assim que coloquei os pés na pequena sala. Fez um sinal para Sun deixar o local e eu quase não soltei o braço do oriental ao meu lado. É agora que ele vai me matar e esconder meu corpo em um dos quartos subterrâneos?
— %Julieta%, não surta.
Soube então, que nada seria feito comigo.
— O que você fez? — indaguei, mordiscando meus lábios. — Você me chamou aqui para tentar transar comigo? Se foi, saiba que não vai rolar — interrompi seu discurso e ele zombeteou.
— Você precisa ir lá embaixo comigo — emitiu, firme.
Dei sorte de estar com a bexiga vazia, pois se não estivesse, eu tenho certeza que tinha mijado de nervoso ali mesmo. Eu vim o caminho inteiro pensando nos quartos subterrâneos e não é que era isso mesmo? Eu odiava ter começado a me envolver de forma errada com eles, eu sabia que ainda dar problemas para mim, mas a atmosfera perigosa e intensa me deixava curiosa. Eu ficava magnetizada quando acabava comprometida com coisas erradas.
Desci as escadas de madeira sendo seguida por Santiago o tempo todo. Cheguei a um corredor escuro com algumas portas espalhadas e perguntei para onde devia ir. Percebi que eu estava realmente caminhando para o desconhecido sem resistência alguma e se eu morresse, ninguém saberia. Gabriel apontou para a direita e eu respirei fundo ao parar na frente da porta de madeira. O homem riu do meu aparente nervosismo.
Abri a porta e dei de cara com o corpo de um homem jogado no chão de um quarto bem pequeno. Meus olhos arregalaram-se e eu comecei a suar frio imediatamente. Não, eu não podia estar testemunhando um assassinato. Eu não via seu rosto, ele estava de costas para mim e havia alguns móveis quebrados. Eu sabia que seria presa algum dia, mas eu sempre esperei que fosse por ativismo político, não testemunha de um crime. Ou cúmplice.
Foi o lugar mais feio e sinistro que eu já entrei e seria extremamente difícil esquecer o frio, o odor, todo o sangue em volta do corpo abatido no piso sujo.
A minha mão, que sequer abandonou a maçaneta, puxou a porta novamente, batendo-a com força. Corri de volta em direção a escada, mas Santiago segurou-me pelos braços, me levando até o quarto que costumávamos ficar no andar superior. Eu achei que ele iria puxar uma arma, me bater até eu ficar no mesmo lugar que aquele homem, mas ele apenas sorriu para mim. Gabriel Santiago sorriu para mim como nunca tinha sorrido. E nem era um sorriso sinistro ou maldoso, era apenas… Um sorriso normal.
— Quem é aquele? O pobre homem está coberto em sangue, Santiago! O que você fez? — esgoelei-me, sentindo minha garganta arranhar.
Não era a primeira pessoa ensanguentada que eu via na vida. Os índices de violência no Jeins eram grandes o suficiente para que eu já tivesse presenciado algumas coisas. Mas saber que, provavelmente, eu era a única que sabia daquilo, me deixou temerosa.
— "Pobre homem" — bufou, soltando meus braços e encostando-se na parede oposta. — Ele teve sorte, não está nem morto!
— Por que você faria algo assim? — Esfreguei meu rosto com força. Isso não pode ser real, eu realmente tinha visto a cena de um crime?!
Eu deveria ter escutado Cameron e Jack quando me avisaram para ficar longe de confusão.
— Ouvi dizer que ele estuprou a própria sobrinha...
Antes que eu pudesse ter qualquer reação com a revelação do rapaz, o som de um tiro reverberou pelo local e eu solucei de susto, olhando para trás. Eu e Santiago nos entreolhamos. O meu olhar desesperado não parecia nada com o dele, que estava exalando firmeza.
Esse não é meu mundo. Aquele cara sangrando em minha frente não fazia parte do meu mundo. Eu não devia estar aqui. Hillswood podia até não ser o meu lar, mas o Jeins também não era. Eu não queria estar vivendo isso. Eu não estou em casa. Eu não achava que ainda tinha lágrimas, mas comecei a chorar desesperadamente pela segunda vez em menos de uma semana.
— Gabriel, o que você fez, porra?! — quase gritei, correndo em direção contrária ao rapaz corpulento. — Eu te contei só porque… Eu estava triste, precisava desabafar. Eu não queri…
— Eu não fiz isso por você, %Julieta% — interrompeu, observando-me andar livremente pelo quarto. — Eu nem sequer fiz isso. Comentei com alguns caras e eles fizeram o resto. Não sei se você notou, mas eu ainda não tenho como estar em dois lugares ao mesmo tempo. Eu não puxei aquele gatilho — debochou.
— Isso não pode estar acontecendo! — Lastimei, desesperada. Sentei no divã marrom e enfiei minha cabeça entre as mãos, ainda chorando. Meu corpo inteiro tremia, a adrenalina em minhas veias fazia tudo dentro de mim pulsar. — Não comigo…
— Para de chorar! É a porra de um psicopata ali embaixo! — Seu grito fez-me saltar no lugar por conta do susto e da agressividade. — É um monstro, %Julieta%! A garota, a pequena, está no hospital, sabia? Ele já bateu na mulher, vai saber quantas ele estuprou e você aqui chorando como se ele fosse seu parente ou o cara mais bonzinho do mundo.
— É uma pessoa. — Meu tom de voz diminuiu quando me peguei confusa. Meus princípios de vida dançavam em minha mente e eu não sabia como lidar com minhas concepções, que até aquele momento, eram bem estabelecidas. Sim, era uma pessoa, mas também era um criminoso. E mais uma vez, fui levada aos grandes questionamentos da sociedade.
— O cara era um monstro, %Julie%. Nada que você faça ou fale vai fazer eu me arrepender do que fiz.
— Você tem noção do que acabou de fazer comigo? Você não tinha o menor direito! — expressei minha indignação. — Você me trouxe para a cena de um crime, Gabriel! Você violou completamente o meu livre arbítrio. Eu não pedi por isso! — Ele aconchegou-se contra a cabeceira do divã. Continuei no mesmo lugar, apoiada com meus cotovelos sobre o joelho. — Por que você me fez ver isso?
— Semana passada você disse que não entendia. Você me perguntou o porquê, lembra? Eu acho que… — Suspirou antes de continuar. Pensativo, como se estivesse organizando as palavras em sua mente. — Talvez eu só quisesse te provar que toda história tem diversos lados, que cada caso é um caso. Nem sempre são caras maus, e às vezes, um inocente pode acabar morrendo. Mas você precisa entender que esse é o meu mundo, %Julieta%. E diferente do que todo mundo pensa, não é tão distante assim do seu. — Deu de ombros, estendendo a mão em minha direção. Eu escutava e absorvia cada palavra dele como se eu estivesse em uma palestra.
— Os caras maldosos sempre vão existir, mas nem sempre é o vilão quem puxa o gatilho. — Respirou fundo antes de continuar. — Eu nunca machuquei ninguém. Fatalmente, eu quero dizer. Mas já estive envolvido em situações piores do que a de hoje. Estou até o pescoço de histórias feias, assuntos mal resolvidos e perdas inigualáveis. Para você, hoje foi o pior dia. Para mim, uma vitória.
Imediatamente, Santiago tornou-se um mistério para mim, outra vez. O rapaz, que eu descobri ser três anos mais novo que eu, acabou de assumir que nunca tinha matado ninguém. E pensando bem, eu nunca tinha visto-o em situações arriscadas demais. Era como se existisse um parlamento e Gabriel fosse a rainha, estava ali apenas para fins midiáticos, era a imagem à frente de todos. Porém, diferente da rainha, eu sabia que a decisão final — de qualquer coisa — era dele.
Perguntei-me o que o rapaz tinha feito para merecer um cargo tão exclusivo, árduo e surpreendente.
Eu ainda estava indecisa no que pensar sobre o que tinha acontecido a pouco. Sentia-me zonza por conta da grande quantidade de informações que meu cérebro registrou. Eu ainda achava errado a aplicação da "lei da rua e do mais forte", mas ao mesmo tempo, eu não conseguia parar de pensar que Alana, a menina que tinha clamado por ajuda, finalmente ia viver em paz, na medida do possível.
Eu, que sempre fui tão ciente dos meus próprios fundamentos e opiniões, estava ali, beirando a escolha de não me importar nem um pouco com o falecido homem a dois andares abaixo de nós. Eu não podia me tornar essa pessoa. A morte não podia tornar-se banal para mim, apesar de que agora, eu já me sentia uma pessoa completamente diferente do que eu era.
❍❍❍❖❍❍❍
Voltar à normalidade após tudo o que tinha acontecido não fora nem um pouco fácil.
Foram dias em que eu passei quieta demais, calada, sempre perdida em meus próprios pensamentos. As imagens daquela noite passavam em minha mente por horas a fio. Tive pesadelos intensos por três noites seguidas, passei a implorar para Clarissa dormir comigo e Pat também em algumas noites. Eu tinha histórico com ansiedade, então nenhum quis saber de mais detalhes sobre minhas inseguranças e simplesmente cediam as minhas vontades.
Ignorei todas as ligações e mensagens dos meus amigos, simplesmente porque não me sentia digna de falar com alguém.
Quando ignorei a décima sexta ligação de Dizzy, ela me mandou uma mensagem de texto enorme, que basicamente dizia que se eu ignorasse mais uma ligação dela, ela compraria uma passagem para Springfield no dia seguinte. Tive que explicar a ela o que estava acontecendo comigo, mas sem contar detalhes de tudo o que eu vi. Eu não a queria sabendo de toda a sujeira do Jeins. Nem podia compartilhar, afinal, um crime fora cometido. Até que eu percebi que estava tão lotada de sentimentos, que precisei desabafar.
Então, abri meu bloco de notas e escrevi. Passei dias e dias escrevendo e quando terminei, eu tinha em mãos um ótimo material. E foi assim que eu saí da minha bolha de reclusão, fazendo o que eu sabia fazer melhor: Estudar.
Decidi transformar tudo o que eu tinha escrito em um artigo científico documental. Lá, falei sobre o Jeins. Apresentei pontos de análises e expliquei a dinâmica territorial, as controvérsias urbanas. Também falei sobre readaptação a comunidade e principalmente, sobre a sociedade deturpada que me fora apresentada nos dias que voltei. Nos agradecimentos, o primeiro nome que citei fora o de Santiago. Ele não sabia que me ensinava tanto, não encontraria em nenhum livro explicações e exemplos vivos tão bons quanto os que ele me oferecia constantemente.
— Vai passar a manhã inteira encarando essa tela? — esbravejou Santiago. O rapaz sentado ao meu lado já perdia a paciência com a minha demora.
— Você não devia nem estar aqui! — Rolei os olhos, estendendo a xícara em sua direção. Já fazia alguns minutos que nós estávamos sentados naquela lanchonete e desde que cheguei, não conseguia desviar o olhar da tela do celular. — Vai pegar mais café para mim, vai!
O rapaz, que estava jogado na poltrona ao meu lado, olhou-me entediado. Santiago me viu saindo de casa pela manhã e me seguiu durante o caminho inteiro, falando sem parar atrás de mim. Eu vinha percebendo que ele estava sempre me acompanhando ultimamente. Sempre tentando me fazer rir e me oferecendo as mais variadas distrações. Talvez ele se sentisse culpado por ter me exposto ao seu mundo sem meu consentimento. Ele deve ter se penalizado com meu estado de negação após todos os acontecimentos.
— Eu não sou seu empregado, garota! — bufou, bebericando um pouco da cerveja. 9h da manhã e o cara já estava no segundo copo. — Me explica o que é isso, afinal?
— Eu queria enviar esse artigo para um congresso que vai acontecer em Madri. Eles estão oferecendo todos os custos pagos para ir apresentar, mas só se o artigo for o mais bem pontuado — expliquei. Olhava apreensiva para a tela do celular. Tudo já havia sido revisado várias, tudo o que eu precisava fazer era tocar no botão de enviar.
— Queria? Não quer mais? — questionou, parecendo genuinamente interessado. Respirei fundo e sem pensar muito, toquei na tela do celular rapidamente. Levantei a cabeça, olhando-o. Ele sorriu de lado e desviou o olhar. — Enfim… Quando você se forma? — perguntou, bebericando um pouco do conteúdo no copo.
— Mês que vem. Acho que essa semana os convites chegam. — Ele acabou ficando calado por alguns segundos e eu apenas observei sua expressão pensativa, já imaginando qual era sua aflição. — O que houve? Não precisa usar terno, mas usar uma camisa social por uma noite não vai te matar.
— Do que você está falando? — questionou, franzindo o cenho.
— Eu já confirmei seu nome na lista, Gabriel. Você vai nem que eu amarre você no teto do carro! — resmunguei, esticando os braços, sentindo meus músculos reclamarem após tanto tempo na mesma posição. Olhei em volta, vendo o clima nublado cobrir o local. O aquecimento global estava realmente enlouquecendo o clima. Voltei a olhá-lo e o rapaz olhava-me com uma expressão indecifrável. — O que foi agora, Santiago?
— Nada, eu não achei que fosse ser convidado… — enunciou, pensativo. Sorri ao perceber sua insegurança com nossa amizade.
Eu não pensei duas vezes em colocar o nome de Santiago, Sun e Max na minha lista de convidados. Eram meus amigos de infância, não tinha porquê não os colocar. Claro que meus pais reclamaram um pouco, mas nada que um discurso meu sobre inclusão social não resolvesse. Minha mãe, inclusive, ficou desconfiadíssima e me fez várias perguntas sobre minha antiga nova amizade com Santiago.
— Somos amigos, ué. Não somos? — questionei, mas ele apenas de ombros e levantou para pagar a conta. Puxei minha mochila para pôr no ombro, enquanto eu o seguia. — Mesmo que você seja um completo idiota e me exponha a coisas desnecessárias, somos amigos.
— Poderia ser pior — ponderou quando voltou do caixa e parou ao meu lado. — Eu nunca obriguei você a nada.
— Não, apenas me obrigou a ser testemunha de um crime! — exclamei, irritada.
— Poderia ser pior. — Deu de ombros, novamente.
— Como?!
— Eu poderia ter obrigado você a cometer o crime — retrucou, tranquilamente, abrindo a porta da lanchonete, deixando-me passar na frente. Meu corpo inteiro arrepiou-se quando ele completou: — Não seria a primeira vez que faria isso.
Caminhamos até o ponto de ônibus lado a lado, sem falar nada. Não éramos confidentes, não tínhamos uma amizade invejável. Mas tudo o que eu aprendi com Santiago sobre resiliência e sobrevivência, eu só poderia ter aprendido com ele. Confiava nele, de verdade. Eu sabia que o cara faria mal a si mesmo antes de fazer a mim.
— Gabriel? — chamei e ele olhou-me de lado. Não consegui esconder o sorriso ao notar que ele já aceitava que eu o chamasse pelo nome de batismo. — E se alguém me viu na rua enquanto eu ia para lá? — indaguei. Não precisei explicar muito, ambos sabíamos que eu estava falando daquele dia.
— Você vai quase sempre, %Julieta%. Se fosse para alguém comentar algo, já teria acontecido. — Tudo bem que até hoje os vizinhos fofoqueiros tinham feito um péssimo trabalho e meus pais ainda não haviam descoberto minhas escapadas para o outro lado do bairro, mas ainda assim, esse era um assunto que ainda me tirava o sono. — Aconteça o que acontecer, ninguém nunca vai desconfiar de você. E além do mais, você foi obrigada, certo?
Fiquei em silêncio, pensativa. Se algo desse errado, eu seria a menos prejudicada. Uma gangue inteira teria que cair antes da merda chegar a mim. Eu sabia que toda a preocupação era apenas fruto de minhas neuroses porque no fundo, sabia que eu não era a primeira, nem seria a última pessoa do Jeins a ser testemunha ocular de um crime.
Santiago percebeu que eu estava começando a pirar de novo, então, surpreendentemente passou um braço em volta dos meus ombros, apertando-me de leve.
— %Julie%? — chamou-me pelo apelido que raramente usava. — Acredite ou não, se um de nós for preso, acredito que serei eu.
Consegui gargalhar com sua piada boba. Entrelacei meus braços em sua cintura, abraçando-o. Sorri ao sentir os braços dele ainda em volta de mim. Se a algum tempo atrás me falassem que eu estaria abraçada em um ponto de ônibus com Santiago, líder da gangue do Jeins, eu definitivamente acreditaria, pois esse era exatamente o tipo de virada que minha vida costumava dar.