Talvez Não Seja Uma História de Amor


Escrita porJuliana M.
Revisada por Lelen


11 • Ato III: Resgate de Identidade.

Tempo estimado de leitura: 49 minutos

Março.

  Eram em momentos como aquele que eu parecia sair do meu corpo e me questionar. Como eu voltei para cá? Eu estava lá, caminhando novamente pelas ruas apertadas do Jeins, pisando firme para não correr o risco de cair por conta do chão desnivelado.             
  A visão panorâmica do local ainda era a mesma: as casas pequenas, apertadas e compridas, coladas umas às outras, vivendo entre o caos e a paz. A população fingindo viver à margem da sociedade para praticar suas barbaridades sem ser julgado por isso. As luzes amareladas das casas transbordavam nostalgia em mim, lembrava minha infância, em que eu andava pela rua, brincando, sem medo de nada. Agora eu não era mais a mesma, andava pelo bairro me agarrando a fé de que nada de ruim aconteceria comigo.
  Dois meses atrás, eu achei que deixar Dizzy no aeroporto, vê-la voltar sozinha para a nossa casa, seria a coisa mais difícil do meu ano. Achei que a parte difícil seria sair de HW. Infelizmente, eu estava errada. A parte difícil era se manter no Jeins.            
  Um mês após o meu regresso, eu já havia voltado a viver minha realidade de antes. Eu era novamente a garota certinha no meio errado. Sentia-me deslocada, mal-acostumada com a boa vida que eu tive em Hillswood. Essa deveria ser minha dificuldade diária. Minha readaptação a cidade etc., mas é claro que eu tinha que estar metida onde não devia.
  Praguejei para mim mesma enquanto eu descia a rua a caminho da delegacia municipal. Max havia sido pego fazendo pichações no Centro Histórico de Springfield. Max era um cara alto, que jogava futebol todos os dias às 16h, morava sozinho desde os doze anos, era irritado, quase não falava e muito marrento.
  Nos conhecíamos desde a infância, assim como todos com quem eu convivia atualmente. Vivia dizendo que não precisava da ajuda de ninguém e que sabia se cuidar sozinho, porém era o meu número que o mesmo concedia como contato de emergência em todos os DPs da cidade.
  Agarrei a bolsa contra o meu corpo quando meus sentidos entraram em alerta e eu notei que já não andava sozinha na rua estreita. O ruído de um motor se aproximava mais de mim a cada segundo. Era início de noite, o céu já estava tomado de nuvens, deixando tudo ainda mais escuro e perigoso.
  No geral, o Jeins não era um bairro de extrema periculosidade, mas a predominância de gangues rivais no distrito sempre deixava a população mais atenta, visto que todo mundo que residia lá tinha uma história de convivência com a violência urbana.
  — Se andar mais rápido, vou começar a achar que está com medo.
  Eu estava pronta para correr, mas reconheci a voz grave que veio por trás de mim. Virei para trás, dando de cara com Santiago. Ele também era um amigo de infância, fazia anos que não nos falávamos e eu sempre achei que ele não ia muito com a minha cara, mas desde que retornei, eu estava tendo mais contato com ele do que eu deveria.
  — Ah! É você — desdenhei, relaxando a tensão do meu corpo, soltando a bolsa e deixando meus braços caírem ao lado do corpo.
  — Cuidado com esse desprezo, garota! — ameaçou-me, tirando o capacete vermelho e desligando a moto. Bufei com sua ameaça malfeita, cruzando os braços. — Eu conheço esse visual. E esse olhar.
  — Que visual? — perguntei, abusando do tom esnobe. Eu não tinha muita paciência para fingir que tinha medo do Santiago. Era um pouco incoerente quando eu lembrava que o cara costumava ter medo de gatos quando criança. E amava desenhar borboletas.
  Nada contra quem tem medo de gatos e gosta de borboletas, é claro.
  — Essa bolsa, esse olhar preocupado e raivoso. Você está indo na polícia pegar algum dos seus protegidos, não é? — zombou, cutucando minha bolsa com o dedo.
  — Dá licença, Gabriel. Estou atrasada. — Continuei andando e ele continuou parado no mesmo lugar.
  — Vai ser caminho perdido. — Parei ao ouvir sua sentença e olhei para trás. Expirei profundamente, pois já sabia onde isso iria acabar me levando. Ele sorriu, desdenhoso e sarcástico, como se já soubesse meus próximos passos. — Você precisa parar de me chamar assim.
  — É seu nome. — Mudei de direção, seguindo o caminho contrário e indo em direção a ele. Esticou o capacete em minha direção, com a expressão entediada. — Não era o nome do seu pai?
  — Você fala demais, %Julieta%! — Apontou o dedo indicador em direção ao meu rosto, empurrando meu queixo para o outro lado com um pouco mais de força. Estremeci, mas eu preferi apenas soltar uma gargalhada sarcástica, colocar o capacete e subir na motocicleta.
  Toda vez que Santiago me tratava de forma um pouco mais brutal, toda vez que a outra personalidade dele aparecia para mim, eu ficava receosa. Me fazia refletir e considerar se valia a pena manter essa amizade. Eu sabia que muita coisa não estava certa, porém, eu não estava dando a mínima.
  Seguimos o caminho de volta em silêncio, fiquei apreensiva quando dobramos na minha rua. Analisei bastante quem estava passando pelo local, imaginando se alguma daquelas pessoas iria me reconhecer e contar para os meus pais que eu estava passando direto da minha casa e indo em direção ao Forte — que era como Santiago e seus colegas chamavam o local —, uma casa comprida que ficava distante do resto das casas coladas umas às outras.
  — Você está de sacanagem?! — bradei, irritada ao ver Max sentado no sofá, jogando videogame tranquilamente. Nem um pouco preocupado com a minha preocupação. Não hesitei em soltar umas tapas em sua cabeça quando me aproximei. — Você tem sorte que eu não cheguei à delegacia!
  — De nada. — Santiago sorriu sarcástico, lançando-me uma piscadela. Max não falou nada, apenas deu de ombros e voltou a jogar, me fazendo bufar de raiva.
  — E você? Por que também não me avisou que ele já estava liberado? — questionei Sun, que estava sentado do lado do outro imbecil, enfurecida com suas expressões calmas.
  — Eu não tenho como, não tenho celular! — defendeu-se, assustado com meu tom de voz enraivecido.
  — Uma televisão que cobre a parede inteira, um videogame de última geração e você não tem coragem de dar um mísero celular para esse garoto? — Virei-me para Santiago, protestando aos berros.
  — Quer cuidar da contabilidade para mim? — debochou, jogando-se esparramado em um poltrona larga. Revirei os olhos, indo em direção ao mini frigobar e pegando duas latinhas de cerveja. Fiz questão de passar na frente da TV, provocando reclamações. Joguei uma das latas em direção de Santiago quando passei por ele, indo sentar em outra poltrona. — Você é muito abusada, cara! Relaxa aí…
  Tomei o conteúdo da latinha quase todo em uma só golada, tamanha era minha sede e irritação. Acomodei-me no sofá, tirando meus tênis e procurando uma posição confortável. Não era a primeira vez que eu ficava no Forte, lugar considerado intocável e o mais perigoso por ser a residência de um dos líderes de uma das gangues de Springfield.
  Eu disse que estava metida onde não devia.

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  "O que sua mamãe faria se te visse agora?". As palavras de Gabriel Santiago não saiam da minha mente.
  Entre um convite para ir ao bar e encontros aleatórios pela rua, acabei tornando-me íntima demais das pessoas erradas. Íntima demais ao ponto de continuar no Forte depois de Sun e Max irem embora. Íntima ao ponto de ver Santiago com a cabeça entre as minhas pernas.
  Foi em um desses momentos que o mesmo questionou o que minha mãe faria se soubesse que eu estava no quarto com o maior arruaceiro da cidade. Nós não conversávamos muito, o ato era puramente carnal, físico. Nos beijamos pela primeira vez em uma festa na vizinhança e as coisas foram ficando mais quentes, porém, nunca tínhamos ido até os "finalmentes".
  Eu nunca conseguia, nunca queria, pois um certo cara de Hillswood continuava impregnado em minha carne.
  Fazia pouco tempo que eu estava em casa, mas minha vida já estava ficando de cabeça para baixo. Outra vez.
  Pela janela do meu quarto, — que ficava na parte de trás da casa — eu tinha a visão "privilegiada" de um pequeno lago sujo e um antigo prédio destruído na beira, onde havia muito lixo e fora ocupado por moradores de rua. Ia seguir meu caminho até a estante de livros no lado contrário, mas voltei para a janela quando a visão de Santiago sentado em uma das construções quebradas chamou minha atenção.
  Como se soubesse que eu estava lá, também olhou em direção em minha direção. O cara que estava ao lado dele também, apontou para mim e pareceu fazer algum comentário. Santiago o empurrou e agora parecia brigar com o mesmo. Eu sabia que ele estava me defendendo de algum comentário maldoso feito pelo rapaz estranho ao lado dele. De alguma forma, eu me sentia segura com Santiago, sabia que ele nunca me faria mal (fisicamente), nem deixaria que ninguém me fizesse mal.
  — %Julie%? Ouviu alguma coisa que eu disse? — berrou Dana, fazendo-me voltar a olhar para a tela do notebook.
  — Desculpa, me distraí. — Balancei a cabeça, obrigando-me a parar de pensar em Santiago e suas provocações, dispersando meus devaneios.
  — %Fil% já vai aparecer, corre para a TV! — exclamou, animada. Fechei as persianas do meu quarto, obrigando-me a não olhar em direção ao lago novamente, levei o aparelho comigo e fui para a sala da minha casa, único lugar onde tinha uma televisão.
  Patrick estava sentado no sofá, mas não olhava para a TV, estava concentrado demais mexendo no celular. Quando voltei, Pat foi o primeiro a vir correndo em minha direção quando cheguei no aeroporto de Springfield, demorei uns segundos para me dar conta que aquele garoto alto e atlético era meu irmãozinho de 18 anos.
  — Vou usar a TV. — Puxei o controle remoto para meu lado e ele puxou de volta.
  — Estou assistindo! — reclamou, subitamente interessado na tela que não era do seu celular.
  — Não está, não! — Antes que ele começasse uma discussão, joguei meu notebook em seu colo. — Fala com a Dana.
  — Oi, Dizzy. Tchau, Dizzy — cumprimentou, entediado, e logo me devolveu o aparelho. Revirei os olhos com o seu mau jeito.
  — Patrick na adolescência está me dando nos nervos — queixei-me, fazendo Dana rir. Posicionei o aparelho na pequena mesa de centro e sentei no sofá, encolhendo as pernas.
  — Você perdeu a pior época — admitiu Pat e deu de ombros, esquecendo sua implicância e voltando a mexer no aparelho celular.
  Procurei pelo canal onde o meu novo cantor preferido iria aparecer. %Filipe% %Buchart%, maior promessa musical do ano, seria convidado de um famoso talkshow nacional, ocasionando explosões de orgulho em seus amigos bobinhos. Fazia uns dias que não nos falávamos, mas fiz questão de mandar uma mensagem de boa sorte para o meu rapaz.
  — Os meninos chegaram! — avisou Dizzy e eu logo ouvi o barulho familiar de Cam e Jack andando pela casa.
  O coração apertou de saudades quando eles sentaram no sofá, em seus lugares costumeiros. Eu sempre achava engraçado e maravilhoso quando eles cumprimentavam e começavam a conversar comigo como se eu estivesse sentada no sofá com eles.
  Os primeiros dias longe de HW foram os mais fáceis. Eu sentia que estava apenas cumprindo o recesso, mas os dias iam passando e logo a ficha que eu não iria voltar estava caindo. Estava começando a ficar difícil de lidar com a saudade.
  — O que vai passar aí? — questionou Pat, apontando para a TV com a cabeça.
  — %Filipe% vai participar, acredita nisso? Não é legal? — exclamei, totalmente empolgada e Pat rolou os olhos, entediado.
  Ele sabia sobre %Filipe% e toda a minha história com o mesmo. Quando percebi que Pat já não era mais um garotinho irritado que brincava no chão do meu quarto enquanto eu estudava, passei a dividir com ele minhas histórias e a tratá-lo como igual, como adulto.
  Passou a ser meu melhor amigo, conversávamos sobre tudo e ele sempre me atualizava sobre suas descobertas acerca da própria sexualidade. Patrick acabou mostrando-se um cara mente aberta e muito confortável com suas próprias escolhas. Um orgulho de irmão, eu diria.
  — Pai, o namorado da %Julieta% vai aparecer na TV!
  Porém, ele ainda sabia exercer muito bem o seu papel de irmão mais novo.
  — Haniel? Por que? — Dana gargalhou alto com a pergunta talvez não tão inocente do meu pai.
  O homem de meia idade apareceu na sala, trazendo um caderninho em mãos. Meu pai era contador e sempre estava anotando alguns números em um de seus cadernos. Ele era um homem tranquilo, que sabia fazer comentários ácidos como ninguém.
  Eu achava adorável a forma como ele e minha mãe estavam aderindo, juntos, seus cabelos brancos.
  — Não é meu namorado, é meu amigo, %Filipe%! Eu comentei sobre ele — expliquei, aconchegando-me melhor no sofá apertado, jogando minhas pernas por cima de Pat e dando espaço para nosso pai sentar ao nosso lado no sofá pequeno.
  — Ah, claro! O músico. — Assentiu, guardando o pequeno caderno no bolso e sentando-se. — Dizzy, meninos. — Acenou para a tela, cumprimentando-os.
  — Oi, sr. Young! — pronunciaram os três juntos, como ensaiavam e sempre cumprimentavam meus pais.
  Sorri quando o programa iniciou, apresentando %Filipe% como o convidado do dia. Ele estava sentado no sofá do apresentador tranquilamente, parecia até que fazia aquilo todo dia. %Fil% era natural demais e nasceu para trabalhar com entretenimento.
  — Olha como ele está bonito! — comentei, sorrindo encantada, apoiando meu queixo na mão. Pat fez um barulho de vômito e Dana gargalhou, mas concordou comigo.
  Aumentei o volume da TV, ignorando a tudo e a todos. Suprimi um sorriso durante toda a entrevista. %Fil% estava bonito demais, só de vê-lo em alta definição parecia que eu conseguia sentir seu perfume. A jaqueta de couro preta era minha peça de roupa preferida dos seus shows, ele ficava um pedaço de mal caminho quando colocava aquela peça.
  %Fil% falava sobre os próximos projetos, a gravação de um disco (que eu não sabia da existência!) e brincava de um jeito leve, deixando até mesmo o apresentador encantado com seu jeito suave e leve de conduzir a entrevista.
  — Músicos… Não são confiáveis. — Meu pai cruzou os braços, intercalando seu olhar desconfiado entre mim e a televisão.
  — %Filipe% é confiável. — Sorri quando %Fil% se posicionou no palco para tocar. Senti-o analisando minha expressão apaixonada por alguns segundos.
  — Você já beijou esse garoto, %Julieta%? — questionou o homem seriamente, olhando-me severo. Todos irromperam em risadas, me deixando em maus lençóis.
  — Pai! — reclamei. Escondi meu rosto entre as mãos, envergonhada. Meu pai nunca foi rígido, mas ainda era estranho falar sobre minha vida íntima de forma aberta com ele.
  — Muitas vezes, sr. Young! — respondeu Jack, gritando do outro lado da tela e todos riram novamente.
  — Ótimo! — resmungou, sarcástico, puxando o celular do bolso. — Por que você não se envolveu com o menino Cameron? Ele é mais aprazível para você, filha.
  Pois é, lembram quando eu sofri o acidente e minha mãe usou este momento para dar em cima de Cameron por via celular? Acontece que meu pai também havia adquirido uma grande simpatia pelo nosso britânico, e agora vivia lançando indiretas para mim, usando-o. E quando perguntado sobre, Cam apenas dá de ombros e diz: "Pais me amam!".
  — Obrigado, Sr. Young, sempre pontual e certeiro em seus comentários! — agradeceu Cameron, fazendo uma reverência.
  — Estou no Google procurando a ficha criminal desse rapaz agora mesmo. — Eu via pelas lentes dos óculos dele que realmente estava.
  — Pai… — reclamei, rolando os olhos.
  — %Filipe% com ficha criminal, é até engraçado — debochou Dana, rindo. — A sua filha deve ser mais fichada que ele — provocou, causando risos em todos. O pior é que era a mais pura verdade.
  — Você está rindo do quê? — zombei, sarcástica, olhando para meu pai rindo. — Eu tenho uma ocorrência, sim, do protesto estudantil em que eu apanhei e ainda fui culpada por isso, mas e você, "Sr. Vamos Tomar Os Meios de Produção"?! Quantas? — provoquei, vendo o sorriso do meu pai se desfazer.
  — É por isso que a Celia não queria ter filhos! — provocou, mencionando a antiga vontade de mamãe.
  — E teve logo três, se ferrou! — zombou Pat, rindo.
  A história dos meus pais era uma das histórias de amor que eu mais gostava. Conheceram-se em uma assembleia estudantil na universidade, que acabou em protesto contra a reitoria da época. Conheceram-se por meio de amigos em comum, confeccionando cartazes de reivindicações. Fala sério, tem coisa mais incrível que isso?
  Minha mãe conta que ela — estudante das ciências sociais e militante do movimento estudantil — se perguntava o que um cara de economia estava fazendo no meio de uma revolta universitária. Ficaram amigos e sempre gostavam de ficar juntos. Porém, um não assumia seus sentimentos para o outro, sempre havia impedimentos. Um desses obstáculos foi um primo do meu pai, que minha mãe passou a namorar.
  Foi na mesma época em que ele teve seu primeiro filho. Perderam o contato até alguns anos se passarem e eles começaram a trabalhar na mesma empresa de telemarketing. Então, finalmente, deu certo.
  Isso tudo só me deixava mais ciente do fato de que quando é para ser e acontecer, até os ventos são a favor.
  — Sem arrependimentos. Se for para ter algo na ficha, que seja pela luta de seus direitos! — Meu pai passou o braço pelo meu ombro e deu um beijo estalado em minha testa. Não consegui conter o sorriso e o abracei de volta.
  Era importante e incrível o quanto meus pais me apoiavam, eu me sentia extremamente sortuda em ter pais que sabiam da importância de se lutar pelo que acredita.
  — Eles realmente são uma família de comercial de margarina… — comentou Jack, descrente ao ver a cena. Rimos, orgulhosos de nossa boa fama.
  Assistimos o resto do programa sem interrupções, apenas comentando e rindo dos comentários engraçadinhos de Jack e Cameron. Quando chegou ao fim, %Filipe% enviou vários palavrões no nosso grupo de mensagens e após isso, mandou: "Gente, estou tremendo até agora, me digam se deu pra ver na TV que eu estava mijando nas calças!". Mandamos várias fotos, textos e gifs em comemoração, comentando o quanto ele estava incrível.
  E só para não perder o costume de me deixar com o coração aquecido, logo uma mensagem dele aparecer no meu individual, dizendo: "Usei a jaqueta que você gosta! (:"

❍❍❍❖❍❍❍

  — Estou falando sério, Dana! Eu não sei quanto tempo vou ficar fora e você não tem mais como arcar com as despesas desse apartamento sozinha. — Já fazia quase uma hora, desde que o talkshow chegou ao fim, que eu estava tentando convencer minha melhor amiga a conseguir uma nova colega de casa, mas ela parecia não estar convencida. — Você lembra que não tem tanto dinheiro assim, não é?
  Balcio, pai de Dana, diminuiu consideravelmente a mesada da garota durante o Natal, na intenção de fazê-la voltar para casa, mas isso só a irritou profundamente. Ainda bem que ela tinha economias guardadas e um bom salário atualmente, senão ela teria que mudar de apartamento, apesar do nosso não gerir um gasto muito alto.
  — Eu sei, %Julie%, mas eu não quero outra roommate! — A birra da garota me fez rir.
  — Não é querer, você precisa! — assegurei, firme. Terminei de arrumar minha cama e passei a arrumar a cama de Clarissa ao lado da minha.
  Até hoje não entendi muito bem o motivo de Clarissa voltar a morar com nossos pais. Ela quase provocou a terceira guerra mundial ao sair de casa com apenas 16 anos, não imaginei que um dia ela voltaria.
  Mas eu também nunca pensei que, com 25 anos, eu estaria novamente dividindo quarto com a minha irmã de 31 anos.
  — E eu vou ver minha conta bancária, dependendo do saldo, eu anuncio que estou procurando uma companheira para dividir o aluguel. Argh, parece traição com você! — Dana continuava a falar e ao que parecia, havia cedido. Antes que eu confessasse que não estava prestando atenção no que ela dizia, alguém bateu na porta do meu quarto.
  — Não é traição, é sobrevivência. — Desviei o olhar da tela e fui até a porta. Era Clarissa, carregava uma bolsa preta gigante e parecia ter saído do trabalho naquele instante.
  — Posso conversar com você? — pediu timidamente, sorrindo de boca fechada. Franzi a testa, meu senso de irmã gritava em minha cabeça. Problemas à vista. Confirmei e me despedi de Dana, avisando que ligava no outro dia.
  Agora que eu estudava de manhã, minhas tardes e noites eram quase que inteiramente livres. E por falar em estudo, a minha nova turma da faculdade não era de todo ruim, mas era o último semestre e todos tinham uma intimidade que eu jamais conseguiria ter. Eram todos bem inclusivos, eu até já participava de algumas festas e reuniões.
  Entretanto, ainda me sentia uma estranha no ninho.
  — O que houve? — questionei, sentando na cama, observando o jeito como ela apertava as mãos uma na outra. — Desde quando você bate na porta do seu próprio quarto?
  — Estou com problemas! — proferiu com a voz trêmula. Eu não disse?
  — Que tipo de problemas? — perguntei novamente, preocupada. Ela bufou nervosamente, tirou os sapatos e sentou ao meu lado na cama. Abriu a bolsa, jogando uma sacola de plástico em meu colo.
  — Esse tipo de problema. — Quando abri a sacola, quase pude sentir meu queixo encostar no chão.
  Três testes de gravidez.
  — Puta merda, Clari! — exclamei totalmente surpresa enquanto abria as caixas de teste um por um, tendo a confirmação de que ela já havia feito todos. Para a minha surpresa e para o desespero dela, todos positivos.
  — Eu tenho trinta e um, já estava na época, certo? — tentou falar, mas sua frase acabou saindo como um choramingo. Abri a boca para falar várias vezes, mas nada saia tamanho choque. Ela ergueu as sobrancelhas, me forçando a ter alguma opinião sobre. — %Julie%!
  — Eu não sei o que dizer! — confessei, já sendo contagiada pelo seu aparente nervosismo. Mexi os palitinhos nas minhas mãos e comecei a balançar minha perna ansiosamente.
  — Patrick! Vem aqui, rápido! Rápido! — começou a gritar com urgência, batendo as pernas no colchão e me assustando com sua agitação. Ouvimos passos fortes vindo do corredor até Pat aparecer na porta do meu quarto, ofegante.
  — O que houve? Você está bem? — questionou, entrando no cômodo. Clarissa apenas deitou-se e esticou os braços em direção ao garoto.
  — Eu preciso de um abraço! — lamuriou-se, fazendo um bico.
  — Eu vou te matar — ameaçou-a, apoiando as mãos na cintura e respirando profundamente. — Você quase me matou de susto, Clarissa! — esbravejou.
  — Você ainda não viu nada. — Mostrei os testes em minha mão. Patrick encarou os testes, depois subiu o olhar, intercalando entre mim e nossa irmã.
  — De quem é? — perguntou, embasbacado.
  — De quem você acha? — Rolei os olhos, apontando para Clarissa ao meu lado.
  A mulher revirava-se na cama, tal qual uma adolescente passando por uma crise, findando de bruços, com a cabeça enfiada no travesseiro e puxando os próprios cabelos loiros. Eu detestava vê-la daquela forma, especialmente por aquela situação ser uma total novidade.
  Clarissa nunca se desesperava com nada. Era conhecida por ser calma e confiante, era ela que sempre oferecia segurança em tempos difíceis.
  — Puta merda, Clari! — Pat exclamou o mesmo que eu segundos atrás e estendeu a mão para pegar o palitinho.
  Clarissa era o sonho de toda mulher independente e todo escritor de autoajuda. Aos 30, tinha uma carreira sólida em uma multinacional, era pós-graduada e, apesar de estar morando com nossos pais novamente, ela tinha seu próprio apartamento. Minha irmã nunca reclamava de seus problemas, ela nem sequer via seus problemas como problemas de fato. Eram apenas umas tarefas mais difíceis de resolver.
  Exceto pela gravidez, isso sim parecia ser um problema para ela. Começando pelo fato de que eu nem sequer sabia que ela curtia homens.
  — Clari, não precisa se desesperar — tentei reconfortá-la, passando a mão pela sua testa franzida.
  — Puta merda, Clari! — exclamou Pat, ainda olhava perplexo para o objeto em mãos. O repreendi rapidamente com o olhar. A mulher já parecia desesperada o suficiente, ela não precisa de mais reações chocadas. — Eu estou confuso pra caralho! Você não é gay?!
  — Patrick! — recriminei novamente, mas sinceramente, eu estava me perguntando a mesma coisa.
  Aos vinte e poucos anos, eu assisti Clarissa se apaixonar e desapaixonar várias vezes pela mesma mulher. Elas viviam como gato e rato, personificando aquelas histórias de amor e ódio que vemos por todo canto. Logo após, Clarissa foi promovida, seu estilo de vida mudou e eu logo soube bem pouco da sua vida amorosa.
  — Foi a minha… Primeira… Vez… — recitou tímida e pausadamente, a voz diminuindo aos poucos.
  — Você engravidou de primeira!? — Descompensei, acidentalmente.
  — %Julieta%! — Agora foi a vez de Patrick me censurar.
  — Você acha que a culpa foi minha? Acha que eu queria isso? Eu fiz algo por curiosidade e vou acabar com a porra de um bebê! — gritou a mulher, desesperada. Patrick fez um "shiu" nervoso, apreensivo com a possibilidade de nossos pais estarem nos escutando.
  — Como isso foi acontecer? — questionei, assustada.
  — Eu sei lá, a camisinha estourou ou não funcionou. Eu não sei, %Julieta%. Acredite ou não, eu não entendo muito bem de sexo hétero! — vociferou, inquieta e exasperada.
  — Como um teste de farmácia sabe até de quantas semanas você está? — questionou Pat, encarando um deles.
  — Vocês estão cheios de perguntas complicadas hoje — resmungou Clarissa, rolando os olhos.
  — Sério que diz isso aí? — Estiquei a mão, pedindo pelo objeto, curiosa com o resultado. Indicava apenas um "3+", o que eu acredito que signifique mais de três semanas.
  — Eu não preciso disso, eu sei exatamente quando aconteceu. — Suspirou, revelando. Ela deu de ombros ao notar que eu a encarava com uma sobrancelha erguida, esperando que ela nos contasse pelo menos algum detalhe pequeno. — Festas de fim de ano deixam as pessoas solitárias, não me julguem.
  O meu olhar e de Pat desceu de seu rosto até a barriga dela, procurando pelo menor sinal de protuberância causada por um bebê, mas com seu aparente ganho de peso — o que agora fazia todo sentido — não era possível ver tanta diferença assim.
  — Parem com isso! — exclamou, afetada, cobrindo com um travesseiro aquela parte específica do seu corpo. Fechou os olhos, envergonhada, voltando a pressionar o próprio rosto contra o outro travesseiro.
  — E ele já sabe? — questionou Pat, mudando de assunto. — O cara que… Bem, você sabe…
  — Não, eu acabei de descobrir. Eu não sei o que fazer, nem sei se vou ficar! — exclamou.
  Eu sabia que Clari estava desesperada, mas eu não conseguia nem a imaginar fazendo um aborto ou algo relacionado a não ficar com o bebê. Pat mexeu nos cabelos, jogando-se ao lado da loira. Ela choramingou e abraçou o torso magro de Pat. Aproximei-me e abracei por trás.
  — Você quer… Resolver isso? — Pat estranhou. Nós conhecíamos muito bem a personalidade afetiva de Clari. Ela nunca julgaria alguém por fazer isso, mas sabíamos que ela mesma não faria.
  — Eu não sei! — confessou, passando a mão pelos fios dourados.
  — Quer saber? Não importa o que você vai fazer, saiba que você não vai ficar sozinha. — Afastei seus longos cabelos loiros e beijei sua bochecha. — Estamos aqui para te ajudar com qualquer coisa.
  — Isso mesmo, qualquer que seja sua decisão, você não vai passar por isso sozinha — concordou Patrick, apertando seus braços em volta da mulher.
  Clarissa apenas assentiu, de olhos fechados. Foi doloroso assistir suas lágrimas grossas caírem pelo seu rosto perfeito. Gravidez não era uma maldição ou a pior coisa do mundo, mas para Clarissa, que tinha sua vida inteira planejada desde os 14 anos, era um completo desastre.

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  Às quintas-feiras eram sempre os melhores dias da semana para mim. No Jeins, nós almoçávamos todos juntos nas quintas, já que nos outros dias, isso quase não era possível de acontecer. Uma grande mudança para mim, que estava acostumada a tomar umas cervejas com meus amigos no Carté no mesmo dia da semana. Não foi uma mudança ruim, apenas diferente.
  — Patrick, você está com a média baixa em biologia? É sério? — Minha mãe olhava o boletim do menino com uma feição de desgosto no rosto. O mesmo apenas deu um sorriso amarelo.
  Minha mãe, Celia Young, era uma mulher extraordinária. Minha mãe era filósofa, formou-se na mesma universidade que eu, mas a vida a levou para outros caminhos e agora ela trabalha como gerente de uma companhia de telemarketing, mas mamãe nunca deixou de estudar, também nunca sentiu que isso foi uma falha em sua vida.
  Ela costumava promover saraus e encontros literários pelo bairro. Inclusive, meus conceitos de vida eram inteiramente influenciados por ela, que desde cedo nos introduziu a um pensamento independente e crítico.
  — Acho que está na hora de ele receber o discurso que eu recebi quando tirei minha primeira e única nota baixa no colégio — comentei, fazendo questão de frisar a palavra "única". Não que eu fosse a maior nerd de todos os tempos, mas como já citei antes, eu sempre gostei de estudar, nunca foi um sacrifício.
  Estávamos todos na pequena cozinha da minha casa, que também era a sala de estar e a sala de jantar. A minha casa era dividida em quatro cômodos, sem contar o banheiro. O andar de cima, onde havia o quarto dos meus pais, o de Patrick e o meu e de Clarissa. (Essa mulher não decide onde morar, sério).
  E o andar de baixo era apenas um grande cômodo, sem paredes, cujos móveis foram organizados de forma que parecesse que havia divisórias. Era apertado, mas a gente se virava. Eu estava arrumando a mesa para o almoço e Pat havia entregado o boletim para os nossos pais, que cozinhavam juntos.
  — É uma boa ideia! Isso pode ser intenso, você está preparado? — minha mãe concordou e perguntou. Pat assentiu, segurando o riso. — Patrick, meu filho amado, meu caçula. Não nos importamos com as roupas que você veste. Se você beija homens ou mulheres, dane-se. Se você quiser beber, beba. Se quiser fumar, fique à vontade. Não é como se você não soubesse os malefícios do álcool e da nicotina.
  — Mas %Julieta% nos mostrou um estudo bastante convincente sobre a marijuana uma vez — comentou meu pai, salpicando algo na panela.
  — De nada — murmurei, piscando para Pat, que já estava vermelho de tanto rir com o discurso engraçadinho de nossa mãe.
  — Se for cocaína… — Meu pai quis continuar, mas logo foi interrompido.
  — O que nós estamos querendo dizer — minha mãe falou antes que o homem grisalho partisse para um lado mais sombrio —, é que a única coisa que nos importa (no momento) é onde você está, que horas vai chegar e suas notas. Nós precisamos dessas notas altas. Pois quando os vizinhos vierem fofocar sobre você estar bebendo e fumando por aí, nós vamos poder dizer: "Ele é o primeiro da turma, dona Josepha! Ele pode fazer o que quiser!"
  Começamos a bater palmas ao término do discurso, estourando em gargalhadas. A velha Josepha definitivamente era a detentora do posto de maior fofoqueira da rua.
  — Eu prometo que vou recuperar, mãe! — assegurou Pat, enquanto os ajudava a levar as travessas de comida para a mesa. — Eu perdi o foco por um tempo, só isso.
  — Você também não pode engravidar ninguém. — Minha mãe apontou um dedo para Pat, que apenas revirou os olhos e seguiu de volta para o lado de nosso pai.
  Como uma cena digna de uma sitcom, ouvimos o tilintar de chaves na porta e logo Clarissa entrou no local, cumprimentando a todos. Eu e Pat nos entreolhamos, apreensivos. Ela estava exalando a "Clarissa-vai-ao-resgate", era a expressão que nós criamos para descrever o semblante que ela usava quando entrava em um local pronta para fechar negócio. Consistia em seu rosto sério e formal, mas nada agressivo.
  Era a expressão que costumava usar para mediações de brigas e discussões em nossa residência. Eu desconfio que foi assim que ela chegou na diretoria da empresa.
  — Oi, estou atrasada? Já começamos? — questionou, jogando a bolsa no sofá e indo lavar as mãos.
  — Que nada, estamos esperando esses dois pararem de brincar com a comida! — resmungou minha mãe. Patrick e meu pai haviam se empolgado na decoração do fricassê e não queria parar de desenhar coisas com os tomates cortados.
  — Ótimo, nós podemos conversar, então — enunciou Clarissa, com uma formalidade impressionante para quem ia anunciar uma gravidez. Por isso ela tinha um currículo invejável para qualquer administrador.
  Algumas noites atrás, após muitos surtos e pesquisas, Clarissa havia decidido manter o bebê. Eu e Patrick havíamos passado horas fazendo uma lista de prós e contras — coisa que eu amava fazer! — para tentar ajudar nossa irmã a decidir seu futuro. Enquanto ela, como a boa planejadora que era, sentou na frente do computador e pesquisou tudo sobre bebês, maternidade, gravidez, pais, parto, aborto, adoção e bissexualidade.
  Pois é, ela havia curtido o sexo hétero mais do que achou que iria curtir.
  Havia uma lista enorme de contras, porém, uma lista de prós ainda maior. Logo, ao final da noite, tínhamos uma bissexual, dois tios e três pessoas extremamente empolgadas com um bebê em suas vidas. Eu e Patrick já tínhamos até planos com a criança. E umas apostas envolvendo o sexo e o pai também. E por falar no pai, descobrimos a maior confusão. O cara era melhor amigo de Clarissa — bonitão, diga-se de passagem —, mas também era o chefe dela!
  E eu achando que minha vida era agitada.
  — Na mesa, vamos comer agora! — Minha mãe foi empurrando todos em direção à mesa, já possivelmente irritada com a constante brincadeira entre nosso pai e Pat.
  — Estou grávida — anunciou Clarissa, impetuosamente, ocasionado uma breve paralisia em todos no local. Droga, a mulher nem nos deu tempo de sentar à mesa.
  Aí começou o pandemônio. Meus pais começaram a gritar feito loucos. Não necessariamente com ela, mas sim, um com o outro.
  Depois partiram para as perguntas, só que perguntavam de uma vez, um falando por cima do outro e ninguém entendeu nada. Berraram umas cem palavras por segundo quando tudo, finalmente, ficou em silêncio de novo. Meu pai apoiava o corpo na mesa, ofegante, como se tivesse acabado de sair de uma luta corporal.
  Minha mãe encarava Clarissa com os braços cruzados e uma expressão dura. Notei que Pat e Clarissa, que estavam mais próximos, estavam com as mãos entrelaçadas e tão apertadas que eu podia ver os dedos de Pat ficando esbranquiçados.
  — %Julieta%, nunca faça sexo! — alertou meu pai, do nada. Eu definitivamente não estava esperando que ele falasse isso.
  — Você chegou atrasado, querido — debochou minha mãe, ainda sem deixar de olhar para Clari. Arregalei os olhos com a frase da mulher, vendo meus irmãos também se chocarem com a fala. Mama Celia era uma mulher muito intimidadora quando queria.
  — Ah, não… — O homem lastimou e sentou na cadeira que ficava na cabeceira da mesa, encostando a testa na madeira, desacreditado de tudo que estava acontecendo.
  — Pai, eu… — tentei falar alguma coisa, mas não queria ficar desatenta a minha mãe, que parecia querer voar no pescoço da minha irmã a qualquer minuto. Ela sabia que eu a defenderia e provavelmente usou a minha virgindade para tirar minha atenção. A loira segurava as lágrimas e não soltava a mão de Pat de forma alguma.
  — Foi o garoto da TV, não foi? Músicos… — resmungou, ainda de cabeça baixa, como se não conseguisse nem me olhar.
  — Não, pai. Já faz tempo… — Ele abriu a boca, indignado e eu imediatamente me arrependi de ter falado alguma coisa.
  — Você está grávida? — perguntou-me mamãe, debochada.
  — Não! Faz tempo que eu… Não faço isso. — Fiquei extremamente envergonhada de falar sobre isso na frente do meu pai.
  — Então não me interessa! — Voltou-se para Clarissa, que engoliu em seco ao constatar que a mulher estava realmente irritada.
  — Você precisa levar essa garota ao médico! — Meu pai apontou o dedo para mim, ainda descrente.
  — Tem uma filha grávida aqui! — mamãe frisou enquanto ia até a geladeira e voltou com duas garrafas de cerveja, entregando uma para meu pai, que bebeu metade em menos de dois segundos.
  — Eu preciso de algo mais forte que isso — reclamou e foi em busca de seu famoso uísque de 20 anos, o qual ele só tomava em ocasiões especiais. E aquela estava sendo uma ocasião bem inesquecível. — E você, moleque? Onde estava enquanto estavam inseminando suas irmãs?
  — Eu sou a única inseminada, deviam estar falando sobre mim! — Clarissa tentou e ninguém ligou muito.
  — Cuidando da minha vida? — respondeu Pat, exalando obviedade.
  — Eu estou grávida, um bebê! Uma boca para alimentar. Pai indefinido! Podemos falar sobre isso? — Clarissa perdeu a paciência e esgoelou-se, assustando a todos.
  A situação foi tão cômica, tão típica da minha família, que eu não aguentei e gargalhei, quebrando o silêncio. Eram tão parecidos comigo e tão minha família que era reconfortante. Agora eu já sabia de onde vinha toda a minha dramaticidade. Meu pai me olhou, negando com a cabeça, recriminando minha risada. Cobri a boca e pedi desculpas, segurando o riso.
  — Vão para o quarto, vamos conversar com Clarissa — nosso pai ordenou e eu neguei com a cabeça.
  — Estamos com fome! — reclamei. Eu nem estava, só não queria deixá-la sozinha na sala, pronta para ser devorada pelos leões, tal qual Daniel na cova.
  — Podem comer no quarto hoje. — Mama Celia rapidamente jogou a comida de qualquer jeito em dois pratos e entregou-os para nós.
  — Mas… — Pat tentou, eu sabia que ele também não queria deixar a irmã só. Nós olhamos para Clarissa apreensivos e solícitos.
  — Tudo bem, vocês podem ir. — Passou a mão de leve pelos fios de cabelo castanhos de Patrick. Assentimos com sua "permissão" e pegamos nossos pratos e subimos as escadas, ainda apreensivos.
  Pat foi em direção ao seu quarto e eu segui-o, sentei na sua cama e saquei meu celular do bolso, já abrindo a conversa de Dana, pronta para contar as últimas confusões para ela, quando Patrick começou a falar, chamando minha atenção.
  — Então… — Pat iniciou. Olhei-o e ele estava de costas para mim, sentado na sua escrivaninha, mexendo no prato de forma desinteressada. — Eu vi você hoje.
  — Moramos juntos, você me vê todo dia — brinquei, sem desviar o olhar do celular.
  — %Julieta%… — chamou minha atenção e eu levantei a cabeça, franzindo o cenho ao encontrar seu olhar sério em minha direção. — Você estava no Forte.
  — O que você estava fazendo lá? — retruquei imediatamente, deixando meu celular de lado e questionando o óbvio.
  — Estava com Sun. Fomos jogar um pouco. Ele me disse que você vive por lá agora. — Dei de ombros, querendo fingir que estava tudo bem, mas no fundo eu estava preocupada. O Forte era um local perigoso até para mim, imagina para o meu irmãozinho. — %Julie%, eu não quero ser chato, mas… É perigoso.
  — Eu sei me cuidar, Pat. — Peguei meu celular novamente, não querendo olhar para a possível expressão julgadora do menino.
  Ficamos em silêncio após isso, acho que minha resposta atravessada acabou causando estranhamento em nós. Eu sabia que ele estava genuinamente preocupado, mas não queria ter que explicar meu envolvimento com Santiago, pois não parecia muita coisa. Eu trocava umas carícias com o cara, não era como se estivéssemos vivendo algo maior.
  Eu já estava quase cochilando na cama de Pat, enquanto ele jogava no computador, quando Clarissa entrou no quarto, procurando por nós. Seu rosto estava vermelho e inchado, a conversa provavelmente tinha sido regada a choro. Levantei rapidamente e abracei-a. Tive vontade de chorar por ela ter chorado um pouco no meu ombro.
  — E aí? — perguntou Pat, pausando o jogo e indo até nós.
  — Foi um susto para eles — confessou, suspirando e passando a mão pelo rosto —, mas eu acho que vai ficar tudo bem. — Deu de ombros, sentando na cama.
  — E o que eles falaram? — questionei, curiosa.
  — Bom, em síntese, só perguntaram as coisas básicas. Quanto tempo eu estou, quem é o pai, o que eu pretendo fazer… — explicou. — Pediram um tempo para pensar e se adaptar a ideia. Acho que preciso desse tempo também, sabe? Pensar no que eu realmente quero fazer. Se quero incluir o Adam nisso e… Enfim, pensar em tudo.
  Passamos o resto da tarde conversando sobre tudo, menos sobre o futuro, não queríamos sobrecarregar ainda mais a situação. Clarissa logo ficou cansada demais, talvez devido todo o esforço e desgaste emocional, e decidiu não voltar para o trabalho naquele dia, principalmente pois teria que ver Adam, o pai, e segundo ela, ainda não estava pronta para contar ao homem que sua noite de curiosidade e álcool tinha resultado em um baby.
  Acabou aconchegando-se em minhas pernas e dormindo, enquanto Patrick dedilhava alguma melodia no violão, pensativo.
  Eu acariciava os cabelos loiros de Clarissa, pensando no quanto ela parecia fragilizada naqueles dias. A mulher era seis anos mais velha que eu e não era pouco dizer que eu cresci venerando-a.
  Clarissa era tão forte e independente quanto nossa mãe e isso era extremamente significativo para mim. Vir de uma família que as mulheres priorizam seus estudos e empregos majoritariamente sempre foi motivo de orgulho para mim, mas agora que Clarissa estava saindo um pouco da reta (assim como minha mãe), eu me questionava quando seria a minha vez.
  Desviei a atenção de Clarissa quando uma melodia familiar me despertou dos pensamentos. Pat tocava uma música de %Filipe%, aquela antiga melodia inacabada que tocava no player do meu carro. Sorri com a visão dos meus dois mundos colidindo. Eu desconfiava que o sorriso ladino não era apenas pela gozação com a minha paixonite, também servia como um pedido de desculpas pelo nosso pequeno estranhamento.
  Eram por momentos como esse que eu não me arrependia, nem me sentia triste por ter saído de Hillswood. Nenhum lugar no mundo me proporcionaria o abraço caloroso que eu só achava nos braços de meus irmãos.

❍❍❍❖❍❍❍

  Apertei os olhos, franzindo-os antes de conseguir abri-los totalmente. Pisquei algumas vezes, sentindo-me desnorteada e incomodada com o quarto tomado pela escuridão. Quando minha visão se acostumou ao escuro, notei que ainda estava no quarto de Pat e tinha caído no sono. Rolei os olhos pelo local, notando que Clarissa ainda dormia, agora enrolada em um cobertor. Peguei meu celular, procurando pelo horário e lendo minhas notificações. Senti minha barriga reclamar de fome, já devia ter passado horas desde a minha última refeição, tendo em vista que já estava de noite.
  Resolvi procurar algum alimento, desci as escadas na ponta dos pés, sentindo minha casa exalar tensão. Mesmo que toda a agitação e adrenalina já estivessem distantes agora, a casa ainda parecia ressoar inquietude.
  Quando cheguei à sala, encontrei minha mãe sentada no sofá, com as pernas esticadas e lendo algum livro grosso. Levantou a cabeça, fitando-me quando notou minha presença.
  — Onde está todo mundo? — questionei, aproximando-me da mulher com olhos de águia.
  — Seu pai foi trabalhar e Patrick foi para o judô. — Analisou-me por uns instantes antes de perguntar: — E Clarissa?
  — Dormindo, estava muito cansada — informei, receosa em me aproximar.
  O lance com a minha mãe é que ela vai rodear você, como uma águia, e quando você menos esperar, ela vai atacar. Ou não. Celia Young era uma mulher implacável. Sempre fazia o queria, sempre conseguia o que queria.
  — Como você está, vovó? Grandes notícias hoje, hein? — brinquei, fazendo a mulher retorcer o rosto em uma careta.
  — Vocês sabem a quanto tempo? — questionou, estreitando os olhos.
  — Isso me parece uma armadilha. — Estremeci, reproduzindo seu estreitar de olhos também.
  — E é mesmo, não responda — admitiu, balançando as mãos. Fechou o livro e encolheu as pernas, chamando-me para sentar ao seu lado.
  — Foi difícil? — perguntei, curiosa. — Receber a notícia… — expliquei ao notar sua confusão.
  — Eu não usaria essa palavra… Foi apenas inusitado — raciocinou, esticando as mãos para tocar meus cabelos, afagando em um carinho gostoso.
  Minha mãe nunca quis ter filhos. Ela dizia que gostava de sua independência e no momento em que gerasse alguma criança, ela seria totalmente dependente e fiel. Mas então ela conheceu meu pai, que sempre quisera ter filhos, e logo se viu cuidando de três crianças. Eu nunca entendi essa transição, mas senti que esse seria o momento certo para questionar o porquê.
  — Mãe, posso perguntar uma coisa? — pedi, apreensiva. Ela assentiu em concordância. — Por que é tão difícil para você aceitar filhos? Como você chegou aqui com — não um, nem dois —, mas três filhos?!
  — Sinto uma mágoa nessa voz? — Riu, sarcástica, ainda mexendo em meus cabelos.
  — Não, até porque esse é exatamente o meu ponto. Você sempre teve uma grande ressalva com criança, porém, nunca nos negligenciou, apesar de sempre ter deixado claro que não queria ter filhos — explanei minha dúvida de modo claro e sincero.
  — Porque vocês são perfeitos! — proferiu em um tom infantil e maternal, apertando minhas bochechas. Rolei os olhos, fazendo-a rir com minha reclamação. — O seu pai queria ter filhos.
  — Ok, e porque você ceder às vontades dele? Você não faz isso nem atualmente! Ele obrigou você ou algo assim? — Indignei-me, confusa. Não era do feitio dele obrigá-la a fazer algo.
  Ela suspirou, tirando o livro do colo e deixando-o no criado mudo ao lado do sofá. Carregava no rosto um sorriso de gente sábia, um sorriso leve de boca fechada, mas nada arrogante. Soube neste momento que eu sairia daquela conversa com uma visão de mundo diferente.
  — Seu pai nunca me forçou a nada, %Julie%. A primeira vez que rompemos foi justamente por este motivo. Já tínhamos uns anos nas costas e ele já era pai, porém, ele queria ser pai dos meus filhos — contou.
  Meu pai havia tido um filho antes de ele e minha mãe casarem. Adrien era um cara legal e essa parte da história não envolvia muitos dramas. Meu pai tentou ser o mais presente possível, mesmo que nunca tenha tido um relacionamento concreto com a mãe do rapaz.
  — Então, você cedeu — concluí, fazendo-a rir novamente.
  — Não! Acabamos voltando porque você sabe que seu pai não vive sem mim — brincou. — Então, acidentalmente, aconteceu. E pensando melhor agora, é uma puta brincadeira do destino comigo que minha filha tenha engravidado da mesma forma que eu. — Bufou, balançando a cabeça negativamente. — Após anos de casamentos e relacionamentos em geral, é necessário fazer concessões e Clarissa foi a minha melhor concessão. O meu problema nunca foram crianças, filhos e a instituição familiar, mas sim o que isso representava.
  "Antes eu tinha essa opinião fechada de que a mulher doméstica, a mãe, era como se fosse uma falha. É um absurdo, não é? Agora eu vejo isso, mas antes foi difícil conseguir conciliar a mulher independente com a dependente. Até hoje há discussões e mais discussões sobre o papel da mulher na sociedade e na entidade familiar ao mesmo tempo. E na época isso ferrou minha cabeça! Mas eu pensei que amava o Jim, acima de tudo, e se aquele bebê era o amor dele vivendo fisicamente dentro de mim, não podia ser errado".
  — Ah, mãe! Que bonito isso. — Suspirei, sorrindo encantada com suas palavras.
  — Eu só contei quando estava com cinco meses porque a barriga começou a aparecer, eu não queria que ele ganhasse a discussão — confessou, presunçosa e eu gargalhei com sua petulância. Era exatamente o tipo de coisa que eu faria. — E eu tive muita sorte. A Clarissa foi o bebê mais incrível que eu poderia ter naquele momento. Ela era tão calminha, quase não chorava, parecia que tinha sido feita na medida certa, para mim naquele momento! Com ela, eu nunca me assustei, sabe? Ela nunca me causou nenhum sentimento de arrependimento.
  — Diferente dos seus outros filhos? — arrisquei, bufando.
  — Argh, você era um pesadelo! — confirmou, balançando os ombros.
  — Mãe! — reclamei, indignada.
  Ouvimos a gargalhada suave de Clarissa surgir por trás de nós, fazendo-nos pular no lugar com o susto. Ela descia as escadas devagar, o rosto estava inchado e ela abraçava o próprio corpo. Veio em direção ao sofá, sentando ao nosso lado.
  — Eu só era um bebê legal porque eu tive a melhor mãe — assegurou, piscando para nossa mãe, que lançou uma piscadela de volta. Sorri com o ato carinhoso entre as duas. Eu temia muito que a relação entre elas acabasse abalada, mas acabei estando errada. É provável que aquela gravidez as aproximasse ainda mais, devido às similaridades dos casos. — Mas é verdade, você era um pesadelo.
  — Por quê?! — questionei, aborrecida com o fato.
  — Porque você amava muito a mamãe, filha! — zombou a mulher, passando um braço em volta dos meus ombros, puxando-me para um abraço ladino, causando risadas conjuntas. — Você chorava toda vez que saia do meu colo, sempre queria dormir mamando, não aceitava o colo do seu pai, trocava o dia pela madrugada. Era exaustivo! Patrick só me deu problemas durante a gravidez, era o mais agitado, mas depois que nasceu, dormia no berço, então eu conseguia descansar.
  — Eu só queria um pouco de atenção, ok? — rebati, cruzando os braços.
  — Brincadeiras à parte, eu tirei a sorte grande. Eu sei que toda mãe fala isso, mas fala sério, olha só para vocês! São perfeitos! — Sorriu calma, transbordando amor no olhar. — Vocês são os melhores filhos que eu poderia pedir. É claro que lidar com três crianças extremamente diferentes, com idades diferentes, não foi fácil. Mas eu sou uma filósofa que acredita em Deus e frequenta a igreja, estou acostumada a enfrentar grandes e atribulados debates.
  Gargalhamos juntas. Minha mãe era completamente distinta e improvável. Deveriam escrever livros em sua homenagem tamanha a grandeza dessa mulher.
  — Me desculpe pelo susto, mãe — proferiu minha irmã, tristonha. — Eu não queria te desapontar.
  — Jamais diga isso, você não me desapontou, querida! Você é uma mulher adulta, ciente de suas próprias escolhas e eu tenho muito orgulho de você ser quem você é. Eu que tenho que me desculpar pelos gritos e acusações infundadas. — Virou-se para mim, sorrindo quase envergonhada. — E me desculpe também, por ter exposto você para o seu pai.
  — Você é louca, mãe! Eu não acredito que você fez isso — lastimei, incomodada com a ideia do meu pai saber sobre minha vida sexual existente.
  — Inclusive, ele me mostrou a página de Instagram do menino, %Filipe% o nome dele, não é? Filha! — exclamou, animada e admirada. — Ele é lindo!
  — Eu arrasei, eu sei! — Estalei os dedos, desinibida e convencida.
  — E por falar em homens bonitos, me explica essa história de você com o Adam. Você não é lésbica? Tivemos toda uma conversa sobre isso, Clarissa! — Nossa mãe indignou-se, torcendo os lábios e provocando gargalhadas altas em nós.
  Quando olhei nossas mãos entrelaçadas, a sensação de liberdade se apoderou de mim. Apesar de estarmos na sala da nossa minúscula casa, em um sofá apertado, eu nunca me senti tão livre e à vontade. Eu quase podia ver o mundo inteiro abrir caminho para que eu pudesse ser eu mesma. Era como se nada, absolutamente nada, pudesse me atingir ali, com aquelas duas fortalezas ao meu lado.
  Mesmo com as adversidades da vida nos levando para outros caminhos, eu sabia que nada destruiria nossos sonhos. E parte da minha força vinha das duas mulheres inabaláveis ao meu lado, que sempre me serviram de exemplo de resiliência e resistência.
  Aprendi a me reinventar todos os dias, compreendi o que era padecer no paraíso e no inferno, simultaneamente. Enfim, aprendi as dores e as delícias de ser mulher.

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