10 • Um dia, um adeus.
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Ao contrário do que eu pensei, os dias após a partida de %Filipe% passaram de forma inesperadamente ligeira. Com a faculdade tomando grande parte do meu tempo, eu quase não senti falta do rapaz. Eu disse "quase", pois havia dias em que eu sentia falta até das nossas brigas alucinadas e imprudentes. Sentia falta de servir de motorista para ele e de seus resmungos. E havia noites em que a saudade era grande demais para uma simples ligação me ajudar. Então, a saudade ficava ali, guardadinha e recolhida no meu peito.
Também nos dias seguintes, Dana e eu conversamos muito sobre tudo o que havia acontecido nos últimos meses. Dana deixou claro que ainda tinha uma queda (um abismo) por %Filipe%, mas eu também fiz questão de avisar que desistir dele não era mais uma opção. Ela sempre mudava de assunto, alegando estar envergonhada, disse que nunca mais queria falar sobre aquilo e propôs fingir que nada nunca aconteceu.
Nós tentamos resolver até nossas antigas pendências. Conversamos sobre coisas que nunca tínhamos falado antes, como nossa primeira grande briga na época da escola, quando ela se envolveu com um delinquente juvenil da nossa área. No fim, Dana aceitou minha teoria de que ela só havia se metido nessa confusão por conta da reprovação de seus pais com o rapaz. Ela nem sequer gostava dele mesmo, era pura provocação.
A quarta-feira estava agradável, o tempo ameno e, o melhor, sem nuvens. O meu dia estava sendo completamente normal. Eu estava realizando todas as minhas atividades costumeiras: Acordei cedo, fui para a fisioterapia e para a psicoterapia, preparei minhas aulas durante a manhã quando voltei para casa, arrumei a sala, preparei o almoço com o auxílio de minha linda mãe via chamada de vídeo. Fui para a faculdade e assisti minhas primeiras aulas do dia. Até que Gina Callaway, a mulher de longas tranças nagô por todo o cabelo, solicitou minha presença em sua sala.
E meu mundo inteiro virou de cabeça para baixo pela segunda vez no ano.
— Não acho que eu esteja entendendo muito bem, Dra. Callaway. — Pisquei repetidas vezes, alisando minhas mãos ansiosas em minha saia jeans. A sala amarela da reitoria da Universidade Nacional de Hillswood parecia menor a cada palavra da mulher sentada do lado oposto da mesa.
— Toda a direção mudou, Srta. Young. Com isso, nós perdemos grande parte dos fiadores e… — tentou explicar o que eu já havia compreendido.
— Não, isso eu já entendi. Eu só queria ter a certeza de que estou sendo mandada embora! — Engoli em seco, falando um pouco mais grosseira com Callaway. Minha garganta parecia seca demais, mesmo depois de ter dado um longo gole de água do copo que me foi servido.
— Você foi uma das melhores acadêmicas financiadas que tivemos aqui. Vimos o quão longe você chegou, acompanhamos sua luta contra você mesma, te apoiamos e você foi…
— Ah, meu Deus! Eu realmente estou sendo expulsa. — Obstruí a fala da mulher novamente quando senti o tom de despedida em sua voz. Levantei da cadeira, retirando meus óculos e comecei a ofegar.
De repente, parecia não haver oxigênio algum ali. Comecei a mover meus braços para cima e para baixo, a fim de gastar toda a adrenalina que meu corpo havia reunido após a notícia.
Eu sabia que a diretoria da universidade havia sido modificada, é normal, acontece sempre que o governo também muda. Eu só não sabia que essa mudança poderia afetar a mim, não sabia que existia mais alguma forma do universo me ferrar. A Dra. Callaway contou que, com a mudança de todo o corpo docente do lugar, eles perderam muitos fiadores por conta da mudança política no local e para cortar os gastos, eles decidiram acabar com alguns programas. E como a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, o financiamento estudantil interestadual foi o primeiro a ser cortado.
Em outras palavras, significava que a minha hora de voltar para casa chegaria (bem!) antes do que eu imaginei.
— O que eu faço? O que eu vou fazer agora? — murmurei para mim mesma várias vezes, sentindo minha cabeça rodar, como se eu tivesse tomado taças de vinho o dia inteiro.
— %Julieta%… — chamou, parecendo alarmada com minha agitação preocupante até para mim.
— Eu não sei o que fazer agora… E-eu tenho provas para fazer! — rebati em tom de questionamento. Eu buscava razões absurdas para ficar, mesmo sabendo que nada do que eu falasse faria diferença.
— Bom, você não é mais alun… — parou bruscamente, notando que sua frase provavelmente seria bruta demais para mim. A reitora tomou uma grande quantidade de ar antes de continuar. — Você agora é estudante da UN de Springfield, então, todo o processo vai continuar lá…
— Mas a minha irmã, Clarissa, está morando com meus pais de novo. E ela está dormindo no meu antigo quarto. E %Filipe% foi embora um dia desses, não é justo eu ter que ir também! — desatei a falar em um claro ato de desespero e pânico. A mulher na minha frente suspirou profunda e pesarosamente. Eu sabia que a reitora não fazia ideia de quem eram as pessoas que eu estava citando, mas não liguei. Só precisava pôr em palavras meu desatino. — Eu tenho meus alunos, a monitoria…
— Srta. Young! — interrompeu-me com uma voz grave, que me assustou. Imaginei que eu devia estar torturando a mulher com meu surto. — Você precisa ir para casa.
— Eu nem sei mais onde fica minha casa. — Minha voz falhou quando proferi tal frase.
— Eu faria o possível por você, %Julieta%, mas para ser bem sincera, eu não sei nem se eu vou sobreviver a tudo isso. — Ela parecia aflita ao ver meu breve estado de desespero. Eu andei pela sala de um lado para o outro, meus cabelos já quase não sobreviviam ao ataque constante de minhas mãos.
Eu não acreditava no que estava acontecendo. Faltava menos de um ano para eu me formar, eu não podia simplesmente desistir agora, mesmo que eu não quisesse mais uma carreira no jornalismo. Minha mente trabalhou rapidamente, buscando por soluções para meu infortúnio.
Eu daria tudo para ficar em Hillswood, mas minha graduação é minha prioridade. Em poucos segundos de raciocínio, eu comecei a aceitar a minha ida. Eu poderia voltar depois de formada, as coisas definitivamente seriam diferentes sem o auxílio do governo, apenas com uma boa ajuda dos meus pais. Eu nem sei se daria certo, porém, eu precisava ter um conforto, uma esperança de que eu voltaria um dia.
— Eu sei, Dra. Eu só estou… — Respirei fundo antes de voltar a sentar, colocando meus óculos novamente. Toquei em uma mão de Callaway, que repousava sobre a mesa. — Graças a você, eu tenho um ótimo psicólogo, pude voltar às aulas logo após o acidente que sofri… Obrigada por tudo, de verdade. É só que…
— É difícil de aceitar, eu entendo. Já tive essa conversa com alguns alunos antes de você… — confidenciou, bebericando um pouco de algo em sua xícara de porcelana.
Conversamos por mais uns minutos, onde ela me passou as informações e instruções do que aconteceria comigo nos próximos dias. Tentou meu convencer a ficar, mas sem a bolsa, eu não tinha condição alguma. Eu dependia inteiramente da bolsa de auxílio para viver em HW. Em Springfield, querendo ou não, seria bem mais fácil continuar a graduação. Eu só precisava de alguns papeis para finalizar minha transferência para minha cidade natal, já que eu havia finalizado a maioria das matérias daquele semestre. Após o recesso de Natal, no mês de janeiro, eu já estaria oficialmente integrada a uma unidade da Universidade Nacional no meu estado.
Logo Gina pediu licença, já que precisava ter a difícil conversa com outros bolsistas. A mulher pediu-me desculpas mais uma vez antes que eu saísse da sala. Eu não queria deixá-la pior do que ela parecia, então eu fingi que eu não estava em pânico quando despedi-me dela. Pelo menos até a hora em que encontrei Bela, sentada no chão, esperando por mim no corredor.
— E aí? O que ela queria? — Bela levantou e veio em minha direção, limpando a calça com as mãos. Não falei nada, apenas me joguei em seus braços, abraçando-a com força. — Ah, não. Tem algo errado.
— Você não vai acreditar… — proferi magoada.
Expliquei para a garota tudo o que tinha acontecido, repetindo as mesmas palavras que a reitora. Até mesmo para tentar aceitar melhor, mas a cada vez que eu falava que estava indo embora de HW, parecia uma ideia ainda mais absurda.
— Não tem mesmo como…? — Balancei com a cabeça, negando. Bela suspirou fundo, jogando os braços sob meus ombros. — Caramba, amiga. E agora?
"E agora?"
Essa pergunta vinha me assombrando demais esse ano. Foi a mesma pergunta que Dana fez quando eu descobri sobre seus sentimentos. Foi a mesma pergunta que %Filipe% fez quando me contou que estava indo embora. Foi a mesma pergunta que Jack fez quando nós deixamos o celular de Cam cair no vaso sanitário tentando tirar umas selfies divertidas. A verdade é que eu não sabia o que fazer agora.
Eu estava totalmente desnorteada. Voltar para o Jeins — distrito onde eu morava — não estava em meus planos pelos próximos quatro ou cinco anos. Eu tinha planos de ficar em HW mesmo depois da formatura. Agora, eu sentia que a cidade estava me expulsando, deixando-me na porta com minhas malas já prontas. Fazia um mês desde que %Filipe% se fora, agora faltavam duas semanas para eu ir também. Eu voltaria a Springfield no recesso, iria celebrar o Natal no Jeins, como de costume. Entretanto, dessa vez eu não voltaria alguns dias depois e essa veracidade estava me matando.
Tive que repetir a mesma explicação mais três vezes para o resto dos meus colegas de classe, já que muita gente não estava entendo por que eu, dois alunos da mesma sala e vários de outras salas, estavam desolados após sair do escritório da reitoria.
— Você não vai se formar com a gente? — Sid, um cara ruivo e bom demais para seu próprio bem, um grande amigo meu, choramingou e abraçou-me pelos ombros. Encostei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos porque senti que ia começar a chorar ali mesmo.
Passar a formatura ao lado de outra turma, em outra cidade, com pessoas que eu sequer conhecia, deixava-me destruída. O que seria pior que isso?
— %Julie%? — Abri os olhos ao ouvir o chamado de Toni, que me olhava consternado. — Você já falou com a Dana?
Isso seria absolutamente pior.
Dirigi calmamente pelas ruas da cidade, tentando retardar minha chegada em casa. Eu só conseguia notar que caiam alguns fracos pingos de chuva por conta das marcas que apareciam no para-brisa do meu carro. Deixei as janelas abertas, aproveitando o tempo gélido que fazia para me afundar em um casaco que %Filipe% havia deixado para trás.
Não tinha mais seu cheiro, mas a lembrança dele ali quase parecia um conforto. A voz melancólica de Beck Hansen era a minha companhia, eu murmurava baixinho a letra, esperando que o cover da música de Daniel Johnston desse um pouco de vazão à minha dor.
Enquanto esperava o semáforo mudar de cor, comecei a pensar nas tantas mudanças que haviam acontecido comigo nesse ano, que eu começaria a classificar como o mais intenso da minha vida dali em diante. Eu sentia que minha vida era uma grande quebra-cabeças, onde eu encaixava duas peças e quatro saiam do lugar. Eu costumava quebrar as regras que me eram ditadas, mas agora, todas as regras que eu ditava acabavam sendo quebradas pelas outras pessoas.
Eu não costumava ser uma pessoa de choro fácil, porém, desde que eu comecei a frequentar as consultas com o psicólogo assiduamente, eu havia aprendido que chorar não era sinal de fraqueza e sim, sinal de que você sente. E está tudo bem em sentir.
Então, eu chorei durante o meu caminho inteiro até em casa. Logo meus devaneios sobre mudanças tornaram-se esmagadores quando dobrei a esquina e vi meu prédio, desbotado e caindo aos pedaços. Minha casa.
Tentei recompor-me quando cheguei em frente ao 305, tentei engolir aquele bolo de angústia que estava preso em minha garganta, mas minha tentativa falhou quando abri a porta e vi a habitual cena que sempre aquecia meu coração.
Jack estava sentado no chão, olhando atentamente para a TV, com um prato em mãos. Dana estava deitada no sofá e mexia no celular e Cameron mexia nas panelas em minha cozinha, como sempre. Fiquei parada na porta, encarando a todos ali presentes. Aquilo ali era meu lar, minha casa e ninguém me faria pensar o contrário. Fechei a porta, respirando lentamente. O apartamento de Jack era bem localizado, %Fil% nunca estava em casa e a casa de Cam era a maior de todas, mas ainda assim, meu apartamento ainda era o ponto de encontro preferido do grupo. Eu entendia, eu também era apaixonada por aquele lugarzinho.
— Você chegou bem na hora. Hoje é Itália! — Cam comemorou e veio até mim, beijando minha testa, já entregando um prato em minhas mãos. A cada semana, para aperfeiçoar seus dotes culinários, o rapaz nos fazia escolher um país e ele faria algo relacionado ao lugar. — Eu fiz lasanha de frango com molho de provolone! Modéstia à parte, é o melhor que eu já fiz.
— Maratona The Fresh Prince na NBC, corre! — informou Jack, com a boca cheia e sem desviar o olhar. Isso explicava a atenção fixa na TV, era a série preferida dele.
Senti minha cabeça oscilar, senti minhas emoções e sentimentos todos virem à tona e eu não sabia com qual deles lidar primeiro. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Eu tentei me controlar de todas as formas possíveis, tentei usar as técnicas de respiração que minha psicóloga havia ensinado caso eu sentisse que estava prestes a ter um ataque de ansiedade, porém, minha agitação chamou a atenção de Dana, que me encarava, confusa.
— Você está bem? — questionou, franzindo o cenho.
— Eu vou embora. — Arrependi-me no exato segundo em que as palavras saíram da minha boca sem que eu sequer notasse.
— Você acabou de chegar. — Dana estranhou, levantando do sofá e indo até mim. Comecei a expirar o ar fortemente, parecia ser um ataque de pânico, mas eu só estava tentando parar de chorar, pois já estava ficando irritante até para mim.
— %Julie%, você está bem? — questionou Jack e diminuiu o volume da TV. Senti a mão de Cam acariciando minhas costas e guiando-me até o sofá. — Você está pálida!
— Eu perdi, e-eu não tenho como ficar aqui. — Fui dando-me conta das coisas à medida que fui falando e me arrependo, porém, eu não conseguia parar. Era informação demais para lidar, eu precisava expelir tudo. Dana levantou e veio em minha direção, com uma expressão confusa. Cam parecia ter entendido tudo e deixou-me no caminho, indo sentar no sofá com uma expressão pensativa.
— Você não está fazendo sentido algum — perguntou Jack novamente, parecendo preocupado ao extremo. Quando tentei explicar, apenas um soluço alto escapou de meus lábios e como uma criança assustada, virei meu corpo, escondendo meu rosto no torso de Jack, começando a chorar copiosamente. — %Julieta%, alguém fez alguma coisa com você?
— Você está nos assustando, %Julie%. O que houve? — exclamou Dana, aflita.
— Tem alguma coisa a ver com a UNH? — perguntou Cameron preocupado. Balancei a cabeça, afirmando.
— E-eu… — Respirei fundo, limpando meu rosto. Jack me levou até o sofá, massageando meus ombros, tentando me oferecer conforto. — Eu perdi a bolsa de estudos, vou ter que terminar a faculdade em Springfield. Se eu voltar para lá, não terei que pagar minhas últimas mensalidades. Vai ser como se o dinheiro da interestadual fosse pagar minhas mensalidades. E eu vou ter que ir porque eu não tenho dinheiro, eu até liguei para os meus pais, mas… Eu não tenho nada!
— Isso tem a ver com a mudança de governo? — questionou Cam, não parecendo muito surpreso. Assenti e questionei-o com o olhar sobre como ele sabia disso. — Me formei na UNH, ainda recebo e-mails com as notícias de lá. Não imaginei que algo assim fosse acontecer…
O silêncio absoluto na sala fez-me ficar arrependida de ter falado na frente de todos de uma vez, eu devia ter preparado cada um deles e principalmente, ter conversado com minha amiga e companheira de quarto antes de tudo. Devia ter pensado direito no que eu faria antes de surtar, mas meus sentimentos estavam todos à flor da pele. Subi o olhar, procurando por Dizzy. Ela estava em minha frente, de braços cruzados e com a testa franzida.
— Espera, deixa eu ver se entendi. — Jack esfregou o rosto, apoiando os cotovelos nos joelhos, apreensivo com sua própria conclusão. — Você não tem mesmo como continuar aqui?
— Não, Jack Jack. — Suspirei profundamente, sentindo as lágrimas inundando meus olhos novamente. — Eu vou para casa.
Após minutos em silêncio, Dana se pronunciou. Foi como uma avalanche, forte e destruidor, quando ela proferiu categoricamente:
— Você está em casa.
Senti meu coração quebrar-se em vários pedaços quando ela nos deu as costas e foi em direção ao seu quarto. Fechei meus olhos, sentindo extrema tristeza quando ouvi-a bater à porta de seu quarto com violência, deixando seus sentimentos bem claros. Jack passou um braço pelos meus ombros, abraçando-me e me permitindo voltar a chorar.
— %Julie%? — chamou Cam pesaroso. — E agora?
A pergunta de um milhão de dólares estava ali novamente. E agora?
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Dezembro.
As batidas de Let It Bleed do Rolling Stones começaram cutucando meu ombro e eu os mexi no mesmo ritmo. Meu quadril acompanhou as batidas ritmadas e quando me dei conta, eu já dançava na ponta dos pés ao redor da mesa de centro. Joguei meus cabelos de um lado para o outro, não notando a confusão que aquilo acarretaria a mim mesma.
As luzes psicodélicas piscavam rápido demais e mesmo com os olhos fechados, elas continuavam lá. As luzes começaram a causar uma sensação horrível de confusão, então esfreguei os olhos com força, usando as palmas das mãos. Tudo parece ter gosto de terra e pensando bem essa minha afirmação não tem sentido algum.
— Você achou que íamos acabar assim? — A voz arrastada de Dana tirou-me do meu delírio de luzes estroboscópicas e quando virei para vê-la, tudo parecia normal. Sem luzes e sem gosto de terra.
— A maconha é uma surpresa — murmurei, encarando meus pés, que ainda se mexiam incessantes. Gargalhei ao notar que eu ainda dançava e nem havia percebido.
Eu não sei exatamente que horas eram, mas eu sabia que já devia ser madrugada, pois Dana e eu estávamos na sala de nossa casa pelo que pareciam ser algumas horas. Desde que cheguei em casa, já pela noite, após passar um dia inteiro em cartórios, bancos e afins, encontrei uma Dizzy personificando a palavra "tristonha". Estava deitada no sofá, ouvindo rock antigo e bebendo vinho de segunda. Extremamente convidativo, óbvio que me juntei a ela.
Logo, o vinho transformou-se em vodca e a partir daí eu já tinha perdido o controle de mim mesma, então não entendi muito bem como os baseados surgiram.
— Não deveria ser uma surpresa. Nós devíamos fazer isso mais vezes — sugeriu, sentando e procurando pelo isqueiro em cima da mesinha de centro.
— Ficar bêbadas em plena quinta-feira? Nós fazemos isso desde que viemos para cá. — Gargalhei, nostálgica. Lembrar de nossas primeiras noites sozinhas na cidade me causava uma enorme melancolia.
Éramos duas adolescentes vivendo longe de casa, morando sozinhas pela primeira vez. A empolgação com a recém liberdade nos fez extrapolar algumas vezes e acabamos perdendo o limite. Sempre prometíamos que íamos mudar, que logo o sentimento de novidade ia passar e nós viveríamos como adultas e responsáveis. Esse dia nunca chegou.
Quase seis anos depois, Dana e eu ainda abusávamos de nossas liberdades, principalmente quando o assunto era diversão.
Senti que as luzes fortes iam voltar aos meus olhos, então sentei no chão também, o que fora uma péssima escolha pois senti um enjoo terrível. A mistura de álcool com a cannabis não foi exatamente uma boa ideia.
— Você odeia fumar — comentei, observando Dizzy acendendo um cigarro.
— Minha melhor amiga vai embora, eu posso fazer o que eu quiser. — Embolou-se toda para falar e após dar uma baforada para cima, tossiu vigorosamente. — Que saco, eu odeio fumar!
— Então, para de fumar! — Puxei o cigarro da mão dela, tragando um pouco. Isso só piorou minha situação. Antes a sala apenas oscilava, agora a sala fechava-se em minha volta. — De onde surgiu isso, afinal?
— Minha melhor amiga vai embora, eu acho que tenho todo direito de fumar umas coisas que Cam guarda na bolsa — replicou, puxando o cigarro de volta.
— Para de falar isso! — reclamei, colocando minha cabeça entre as pernas. Eu não gostava de ficar lembrando a cada minuto que eram meus últimos dias na cidade. A música ainda ecoava pelo apartamento, o disco do Rolling Stones quase no fim e eu sentia que estava chapada demais para conseguir, ao menos, brigar com minha garota.
— Me lembra de novo do seu itinerário? — pediu curiosa e arrastadamente.
— Amanhã, ou hoje, eu acho… — Olhei no meu relógio de pulso, mas até os ponteiros resolveram sair para brincar. — É meu último dia de aula e a bendita festa, sábado é o dia da ressaca e domingo…
— O dia da ida — completou, empurrando meu ombro de leve e sorrindo tristemente. — Você tem noção disso, %Julieta%? Você vai embora em três dias!
— Nós vamos passar o Natal juntas, como sempre. — Tentei acalmar a morena ao meu lado, que já demonstrava irritação, passando o braço pelo seu ombro e acariciando seu braço.
— Não me interessa o Natal, %Julie% — vociferou. Seus olhos cheios de lágrimas fizeram-me perder a fala. — Meu problema vai ser voltar para casa e você não!
Achei que ao longo dos dias, enquanto eu arrumava minha vida, resolvia toda a burocracia e planejava minha nova vida, eu aceitaria e ficaria inteiramente pronta para voltar. Porém, passou-se exatamente um mês desde que eu havia recebido a notícia que estava sendo despachada de Hillswood e ainda era difícil digerir. Ainda mais difícil quando eu olhava para Dizzy. Às vezes, estávamos no meio de uma conversa, gargalhando ou fazendo brincadeiras idiotas e a garota ficava subitamente triste. Eu sabia que ela tentava disfarçar, mas Dana nunca foi boa em esconder seus sentimentos.
— Tem um cachorro na sua cabeça! — Apontou para mim, mudando de humor bruscamente. Gargalhei ao notar que os efeitos da erva começariam a aparecer na mulher ao meu lado.
— Eu odeio cachorros. — Coloquei a mão na boca, ainda rindo, porém receosa quando senti a náusea tomar conta de mim.
— Eu sei! Por isso é engraçado. — Gargalhou alto.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, um bolo surgiu em minha garganta, implorando para sair. Levantei correndo, esbarrei em várias coisas até chegar ao banheiro. Joguei-me no chão sem necessariamente senti-lo e despejei todo o líquido nojento que saiu da minha boca no vaso sanitário. Senti Dizzy atrás de mim, segurando meus cabelos.
— Eu não acho que nós ainda sejamos jovens o suficiente para misturar essa quantidade de drogas — reclamei, sentindo o gosto amargo na minha boca, deixando-me grogue. Estiquei-me até conseguir chegar à pia para lavar a boca com o máximo de enxaguante bucal possível.
— Eu não acredito que vamos estar de ressaca na sua festa de despedida. — Encostou-se na parede oposta, ainda sentada no chão.
Posicionei-me entre as pernas dela depois que enxaguei minha boca. Eu ficava imprestável depois que vomitava, tinha certeza de que estava pálida como a parede. Meus olhos pesavam e eu podia dormir ali mesmo que nem me daria conta.
— Eu não acredito que vou ter uma festa de despedida — comentei, aconchegando-me nos braços de Dana.
— É a melhor produção de Cam, segundo ele mesmo. — Rimos da famosa prepotência de Cameron. O rapaz tomou a frente da ideia de Jack de fazer uma festa de despedida para mim e planejou a pândega em sua própria casa no sábado, um dia antes da minha viagem. — Jack está responsável pelas bebidas, então você já sabe que vem variedade por aí.
— Eu ainda lembro do aniversário do %Fil% que ele cuidou das bebidas, você lembra? Aquela…
— Bebida azul! — falamos juntas e caímos na gargalhada em seguida.
Jack era a pessoa que realmente não se importava em gastar todo seu salário com bebidas diferentes que as pessoas nunca costumavam beber. Uma simples cervejinha não tinha vez com ele.
Uma vez, quando %Fil% lotou um show em uma grande casa de shows pela primeira vez, Jack surgiu com um absinto polonês para comemorar. Eu não lembro absolutamente nada desse dia.
— E por falar nele, você já contou? — questionou, prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo com uma liga.
— Não. — Suspirei, esforçando-me para não cair no sono ali mesmo. — Ele já deve saber pelos garotos, mas eu não falei nada.
— Ele vai ficar puto com você. — Deu uma risadinha e eu concordei, dando de ombros. Já não era novidade para ninguém que eu me tornava uma completa covarde com/por %Filipe%. — Argh, que saudades dele!
— É, eu também tenho saudades…
Não falei nada a mais pois a última coisa que eu queria era perceber o quanto eu sentia falta dele enquanto estava alta. Até acompanhar suas publicações nas redes sociais era um inferno para mim.
Aparentemente, Tom só era um cara estressado em HW, pois em turnê, ele estava todo gracioso e folgado. Assumiu com louvor o posto de amigo irritante, sempre me mandando fotos, vídeos e notícias do cantor, como por exemplo: "Oi, %Julie%. %Filipe% está extremamente bêbado e não para de falar. O que eu faço?". Ou então: "Oi, %Julie%. Hoje %Filipe% fez o show sem fazer os aquecimentos vocais. Briga com ele."
— %Julie%? — chamou e eu atendi, virando a cabeça levemente para olhá-la. — Você me perdoou?
— Pelo quê? — questionei, confusa.
— Toda a confusão com %Filipe% — explicou, mordendo os lábios. — Às vezes, eu penso que seria melhor se eu nunca falasse nada, sabe? Mas eu não saberia viver mentindo para você.
— Eu acho que tudo aconteceu da forma que deveria acontecer. — Balancei as mãos e voltei a deitar a cabeça em seu ombro, fechando os olhos.
— Eu não acho. Acho que tudo entre vocês já estaria certo se não fosse por mim — supôs, pensativa.
— Mesmo que não houvesse a história com você, nós ainda estaríamos cheios de problemas com essa nossa súbita partida — refleti.
Eu nunca iria querer um relacionamento a distância, e a julgar pela forma que %Filipe% não se opôs a minha ideia de ficar na mesma, ele também não queria. Nosso afastamento era inevitável.
— Eu gostei dele de verdade, %Julie% — comentou, murmurando em tom de confidência. Puxei seus braços de forma que me abraçassem, segurando suas mãos.
— Eu sei, amiga. Você não se sujeitaria a nada que aconteceu por apenas uma queda. Ou como os jovens dizem: "Um crush!" — declarei, afirmando, causando risadas na garota.
— Depois que tudo aconteceu, eu fiquei me perguntando: E se meus pais estão certos? E se eu realmente for mimada e egoísta? — questionou, visivelmente abalada. — Você acha que eu devia ter voltado para Springfield quando eles me pediram? Eu devia agradecer de alguma forma tudo o que eles fizeram por mim.
— Eu acho errado o que eles fizeram você pensar de si mesma, Dana. Adoção não é empréstimo onde você tem que pagar por tudo o que eles fizeram por você. E você pensar assim só mostra o quanto eles manipularam você e te chantagearam emocionalmente. Eles não, ele. Porque eu sei que sua mãe não concorda com isso — discursei, extrapolando na sinceridade e na indignação.
Era errado e triste, ver Dana se tornar uma mulher submissa, pequena, amuada e retraída quando estava perto dos pais. A adoção não é algo para se usar como agressão quando as coisas ficam difíceis.
— Vamos dormir? — sugeriu fraca, mas ainda estava com o cigarro na mão e baforava tranquilamente.
— Você não parece querer dormir. — Olhei-a, levantando a cabeça, confusa. O rápido corte na conversa mostrou que Dana estava incomodada, lidar com aquele assunto nunca fora fácil, mas ela sabia o que era certo e o errado.
— Não quero, mas não consigo parar de pensar que daqui a uns meses, quando eu quiser ficar bêbada e chapada sem motivo algum no meio da semana, você não vai estar aqui para me acompanhar. E eu fico triste de pensar isso. E eu não quero ficar triste. — Apertou os braços em volta de mim e eu encostei a cabeça em seu ombro, suspirando. — Eu não vou saber viver sozinha, %Julie%. Eu nunca vivi.
— Eu queria dar algum conselho, confortar você de alguma forma, mas… — murmurei, mordendo os lábios. Engoli o choro, mais uma vez.
— Você também não vai saber viver sem mim, não é? — Suspirei e não respondi. Limpei meu rosto antes que as lágrimas caíssem e eu não conseguisse mais segurar por muito tempo. — Vem, %Julie%, vamos tomar um banho e dormir. Vão ser dias agitados, precisamos descansar.
Eu concordava com Dana, eu não queria mais ficar triste. O mês havia sido exaustivo. Eu sentia que passava a maior parte do tempo engolindo o choro e isso era agoniante. Tiramos nossas roupas em meio a tropeços, ambas quase não aguentando ficar de pé. A fumaça de vapor quente juntou-se à fumaça dos cigarros.
Nós deveríamos tomar um banho gelado, mas estava quase 14° lá fora, não tinha como não morrer de hipotermia. Assim que saímos do banho, fomos direto para o quarto de Dana. Dormimos juntas a semana inteira, apenas alternando nos quartos. O clima de despedida já completamente instalado na casa.
— Eu já venho, preciso tomar um pouco de água — avisei assim que terminei de colocar meu pijama de flanela.
— Espera! — Me afastei dois passos quando Dana me chamou de volta. A garota já estava confortavelmente deitada, coberta por um grosso cobertor e estendia um celular em minha direção. — Liga para ele — choraminguei, meus ombros caídos demonstravam a minha falta de vontade. Agradeci mentalmente que meus sentidos e reflexos já estavam voltando ao normal após o banho, já que Dizzy soltou o aparelho livremente e antes que chegasse ao chão, o peguei. — Agora!
Fui até a sala em passos lentos, como se aquilo fosse me impedir de falar com ele. Notei que o aparelho de som ainda estava ligado, mas agora tocava alguma música desconhecida por mim, parecendo ser um daqueles rocks clássicos que Dana amava. Não me importei em desligar o aparelho, apenas diminuí o volume.
Me preparei para uma conversa do mesmo jeito que meu garoto costumava fazer. Coloquei uma jarra de água na mesinha e um copo quase cheio ao lado. Desliguei as luzes, deixando apenas a luz mínima que vinha do corredor e sentei no sofá, posicionando um travesseiro em meu colo.
Olhei fixamente para o nome do rapaz na tela do celular, o brilho máximo iluminava o breu da sala. Toquei rápida e impulsivamente no ícone verde na tela, sem nem ensaiar o que falar. Eu só sabia que precisava contar ao rapaz.
— Alô? — A voz rouca de %Filipe% fez-me abrir os olhos. Após cinco toques, eu não achei que ele atenderia. — Alô?
— Oi, baby. — A ligação teve delay e eu ri quando ouvi a reverberação da minha própria voz. Extremamente bêbada e arrastada.
— São 2h da manhã aqui, %Julieta%. Aconteceu alguma coisa? — Parecia impaciente e irritado. Eu, provavelmente, estava atrapalhando seu descanso.
— Eu preciso falar com você. — Mordi o lábio, estiquei a mão para pegar o copo e dei uma longa golada.
— Aconteceu alguma coisa? Sua voz está estranha…
— Talvez eu esteja bêbada. E um pouco alta — confidenciei, rindo.
— Você nunca foi de me ligar bêbada, %Julieta% — declarou, desconfiado e sonolento. Eu o imaginei acomodando-se no travesseiro, pronto para escutar qualquer idiotice que eu viria a falar.
— Mas você sim! — acusei-o.
— Apenas uma vez e você prometeu que a gente nunca mais ia falar disso. — Gargalhei com a lembrança e acho que %Filipe% acabou rindo também. — Vai, me conta, o que aconteceu?
Permaneci em silêncio, ainda perdida nas lembranças. Foi extremamente engraçado e inesquecível quando %Filipe% ficou bêbado e insistia em falar comigo, perturbando os garotos insistentemente para que me ligassem. Cam o torturou durante uma semana inteira por conta da situação.
— %Julieta%... — chamou.
— Ok... — Respirei fundo, tomando mais um gole de água, impedindo que minha garganta ficasse seca. — Alguns dias atrás, eu soube que...
— Eu estou há quase um mês, desde que Cameron me contou da sua festa de despedida, esperando o dia que você ia me contar que está indo embora.
Cortou minha fala abruptamente, mas não parecia irritado. Sua voz era puro ressentimento e sono. Eu não pude dizer nada mais do que "desculpa".
— Eu não sabia como falar — murmurei, confessando, mordendo minha própria unha. Me sentia extremamente envergonhada de minhas ações, mas de alguma forma estranha, isso não me impedia de continuar errando com %Fil%.
— Ainda dá tempo de me contar como se eu já não soubesse a história toda. — A voz soava calma, mas eu tinha certeza de que se estivéssemos frente a frente, ele estaria de braços cruzados e de maxilar travado.
Então, eu contei, desde o início, desde a minha conversa com a Dra. Callay até a noite anterior, quando Jack e Cam me ajudaram a empacotar as últimas coisas.
— %Filipe%, você dormiu? — Estranhei, pois, a linha ficou em silêncio por uns segundos após o fim do meu monólogo.
— Não, desculpa. Eu só não sei muito bem o que falar — revelou.
— Diz que vai sentir minha falta, ué — disse, manhosa, jogando-me de costas no sofá.
— Quem disse que eu vou sentir sua falta? — ironizou e eu revirei os olhos. Eu ainda estava morrendo de sono, mas ultimamente %Fil% quase não tinha tempo de falar comigo ao telefone, então eu não via problemas em sacrificar umas horinhas de sono por ele. "Idiota", resmunguei baixinho. — Baby? — A voz do rapaz chamou-me, apreensiva. Murmurei em resposta. — E a gente? O que vai ser de nós? Quer dizer, eu vou voltar para casa um dia…
Eu entendia o ponto dele, era exatamente como eu pensava. Ele iria voltar para casa e eu não estaria lá. Esse talvez tenha sido o principal motivo de eu não ter falado logo para %Filipe% que eu estava de mudança.
Eu não gostava da ideia de ter que mudar todo meu relacionamento com ele. O combinado era: ele voltaria e nós iríamos nos resolver.
— Eu não sei, %Fil%. Acho que continuamos na mesma. — Dei de ombros, tristonha.
— Eu nem sei qual é a nossa mesma. — Riu sem humor. A voz ainda preguiçosa me deixava morrendo de vontade de estar com ele, abraçada ao seu corpo.
— Acho que agora, mais do que nunca, é algo que a gente não pode decidir — constatei.
Ficamos em silêncio. Eu sabia que %Filipe% não concordava totalmente comigo. Ele deveria estar querendo totalmente o contrário que eu, mas eu sabia que ele não me pressionaria a nada, principalmente agora, que eu estava lidando com uma grande carga emocional.
— Então, a minha festa! — mudei de assunto. Não por desconforto, mas por que se eu passasse mais um minuto em silêncio, eu dormiria. — Cameron está empenhado nessa. Você… Tem como você aparecer?
— Ele está empolgado, já me mandou uns 5 convites diferentes. — Rimos juntos. Nosso amigo estava realmente ansioso para a tal festa. — Eu posso tentar.
— Promete? — pedi, exagerando na meiguice. — Eu meio que tenho que ver você antes de ir.
— Tem, é? — Riu, debochado.
— Eu estou na minha sala e aqui tem muitas coisas para fazer. — Olhei em volta, observando a breve bagunça. O sono já estava me deixando desconexa, então, achei melhor levantar do sofá, pois se eu continuasse ali, dormiria. — De tudo que tem aqui, a única coisa que eu não posso fazer agora é ver você. Então… Eu meio que preciso que você venha.
— Eu prometo, linda. Vou fazer o possível e o impossível para ir. — Sorri abertamente, mas logo senti meu sorriso se desfazer. Perguntei-me internamente se a gentileza e o afeto de %Filipe% comigo ainda estaria ali futuramente. — Vá dormir, amanhã a gente se fala melhor, tudo bem? Boa noite, %Julieta%.
— %Fil%? Desculpa não ter contado antes. Contar parecia real demais, então, eu fui adiando, adiando... — Suspirei profundamente, sentindo meus olhos fechando-se sozinhos. — Enfim, foi difícil falar sobre.
— Tudo bem, baby. Foi difícil de ouvir também.
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— Dizzy! Eu não sei se você lembra, mas eu já sofri um acidente automobilístico esse ano e, ai meu Deus! — gritei, desesperada. — Eu não estou a fim de sofrer outro, Tomanzio!
Dana nunca andava em alta velocidade, sempre gostou de segurança, mas desde que se envolveu em um acidente de carro, a preferência por motos reinava. Dizia que com moto era mais provável machucar a si mesma do que aos outros, esse pensamento partiu do fato de que o homem que ela atropelou havia quebrado um braço e ela não havia sofrido nenhuma escoriação. Após meu acidente, eu discordava veemente dessa teoria. A baixa velocidade de Dana ainda era demais para mim, que tinha fama de "marcha lenta". Segurei-me com força em sua cintura, já que minhas pernas não pareciam oferecer a segurança que eu precisava.
— Já estamos chegando! — gritou de volta.
— Não estamos, nã… Puta merda! — A morena fez uma curva tão fechada que eu quase senti meu joelho tocar no chão. A maldita apenas gargalhou do meu desespero.
Estávamos a caminho da casa de Cameron, onde seria a minha festa de despedida. O fato de ter uma festa me deixava extasiada, pois eu finalmente tinha amigos que se importavam o suficiente comigo para me fazer uma festa. Uma festa em minha homenagem! Eu nunca me senti tão especial e amada, mesmo que fosse em uma ocasião especial.
Vacilei quando desci do veículo e senti minhas pernas molengas e fracas. Passei a mão pelo cabelo, tentando conter as ondas indesejadas no lugar dos cachos.
Eu estava toda desarrumada e até um pouco suada por conta dos momentos de tensão que passei em cima daquela moto. Quando chegamos em frente ao local, eu sorri maravilhada. Eu havia esquecido o quão grande e linda era a casa de Cam.
— Ok, agora eu entendi por que você me fez colocar um vestido — declarei, um pouco surpresa e assustada. A casa de Cameron parecia abarrotada de gente. Eu sabia que a festa mesmo era no pequeno quintal do fotógrafo, mas tinha tanta gente que as pessoas estavam acomodando-se na porta de entrada mesmo. Era minha festa de despedida, mas eu tinha certeza de que não conhecia metade das pessoas ali. — Quem são essas pessoas todas?
— Um pouquinho de cada. Uma galera que eu conheço, uma galera de Cam, Jack, %Fil%… — comentou Dana, retirando o capacete.
A menção ao nome de %Fil% me fez suspirar e estremecer. Eu sabia que o garoto estava fazendo de tudo para que conseguisse aparecer essa noite. Só me restava torcer — eu estava morrendo de saudades do meu garoto — e ficar extremamente ansiosa.
— A minha realeza chegou! — Cameron surgiu entre as pessoas, correndo até mim. Abraçou-me até me tirar do chão, o cheiro forte de seu perfume misturou-se com o cheiro de álcool que emanava dele.
— Uau, a festa mal começou e você já está bêbado! — Gargalhei e segurei meu casaco grosso contra o meu corpo quando ele se afastou. As noites de dezembro sempre eram frias demais, mesmo com o calor humano que aquela casa transmitia, eu ainda sentia frio. O céu estava bem estrelado, considerando que havia chovido a semana toda e até umas horas antes do evento.
— Cameron, bêbado no início da festa? Está querendo roubar o lugar de Jack? — brincou Dizzy, guardando a chave da moto na bolsa.
Cameron virou-se para ela, encarando-a de cima a baixo e voltou a olhar em seu rosto, meio sério.
— O quê?
— Você está… — Olhou novamente para o corpo todo de Dana, que parecia excepcional com o vestido azul de mangas longas, colado ao seu corpo, indo até um pouco antes de seu joelho, deixando-lhe elegante e sexy e o All Star completava o seu look do jeito certo.
— Eu estou o que, Cameron? — Dana cruzou os braços enquanto um sorrisinho ladino aparecia em seus lábios. Ergui uma sobrancelha quando captei a presença do flerte inocente dos dois à minha frente.
— Bonita, ué. Você está bem bonita. — O fotógrafo pareceu meio embasbacado, mas logo se recuperou, dando duas tapinhas amigáveis no ombro de Dizzy e nos puxando pelo braço. — Vamos entrar!
Olhei para Dizzy, com uma sobrancelha erguida, procurando explicações para a cena, mas ela olhava para baixo, com os lábios entre os dentes, como se estivesse prendendo o riso.
Não era de hoje que eu vinha sentindo um clima diferente entre Dana e Cameron. Dana não fazia questão de esconder que o achava super gostoso (nem tinha como, o cara realmente era). E Cam, apesar de estar sempre nos elogiando e brincando, nunca tinha nos faltado com respeito e nem tinha realmente dado em cima de nenhuma de nós ou tentado algo. Grande parte disso era culpa da ex, eu sabia.
Cameron amou e ficou com a mesma mulher por muito tempo, ele estava se acostumando com a vida de solteiro de novo. Mas eu não via a hora do rapaz superar completamente a ex para começar a prestar atenção nas garotas à sua volta.
Eu não sabia muito bem a quantas andava os sentimentos de Dana em relação ao %Filipe%. Ela dizia que o rapaz fora apenas um refúgio de seus monstros internos, mas eu não sei. Muito do discurso dela parece ter sido criado apenas para esconder os seus sentimentos por minha causa. Eu queria muito ser altruísta e perguntar sobre, dizer que esconder seus sentimentos e vontades não faziam bem, porém eu não me importava o suficiente. Estava sendo ótimo para mim o jeito que estávamos lidando com as coisas.
Mesmo que fosse completamente errado jogar a sujeira para debaixo do tapete.
As poucas pessoas que eu conhecia foram me cumprimentando pelo caminho enquanto eu entrava na residência. As agradáveis batidas de Tame Impala me confundiam enquanto Cam ia apontando para as coisas e pessoas, falando empolgado sobre seu trabalho.
A casa inteira estava sendo iluminada apenas pelos mais variados e coloridos pisca-piscas. Demorei um tempo para perceber que essa era a decoração e o tema da festa: Luzes de Natal. Agradeci-o mais uma vez por ter feito uma festa para mim em sua própria casa, visto que seria mais fácil e menos trabalhoso todos irmos para uma boate ou algo do tipo.
Distribui uns tapas nele quando cheguei à cozinha e vi que algumas fotos minhas — aquelas que eu nunca autorizava, mas ele sempre tirava quando eu estava distraída — espalhadas pelo local serviam de decoração. "Você tem sorte que o dinheiro não deu, senão eu ia espalhar pela casa toda", afirmou quando eu reclamei das fotos.
— Jack Jack! — gritei quando encontrei Jack na cozinha, encostado na geladeira, com uma garrafa de cerveja em uma mão e uma ruiva na outra.
— Hey! Finalmente! — Abracei-o e Dana fez o mesmo. — Não está com frio? — Estreitou os olhos, apontando para minhas pernas.
Meu vestido era consideravelmente mais curto que o de Dana, mas ele era bem soltinho e com mangas longas. Eu não estava sentindo tanto frio assim, as botas de cano alto que eu usava ajudaram bastante.
— E ela, quem é? — Dana, ciumenta invicta, perguntou antes de qualquer tentativa de apresentação de Jack. Apontou para a ruiva, entrelaçada no braço de Jack, com um sorriso até agradável no rosto.
— Essa é Victoria, minha… — Ele deu um sorrisinho envergonhado, apresentando a garota, mas aparentemente, sem saber seu status de relacionamento.
— Sua o quê? — questionou Dana, cruzando os braços. Estiquei o braço, oferecendo um aperto de mão a ela, que não parecia assustada com a atitude de Dana. Pelo contrário, parecia estar achando engraçado a reação da garota.
— Quase um mês e ele nem mencionou meu nome. — Victoria revirou os olhos e deu uma tapinha na cabeça do rapaz. — Você deve ser a %Julie%, a festa é sua, não é? É uma pena nós estarmos nos conhecendo só agora, já ouvi falar muito de você!
— Não tive oportunidade! — o loiro se justificou, levantando as mãos.
— Estivemos juntos ontem! — reclamou Dana, entretanto, todos rimos. Antes que eu pudesse me apresentar formalmente, a garota entrou em minha frente, esticando o braço para cumprimentá-la. — Eu sou Dana e pelo jeito, vocês se conhecem o suficiente para você saber da gente, mas nós não sabemos nada de você.
Eu sabia que Dizzy iria dificultar a vida deles quando ela a cumprimentou com um aperto de mão e apresentou-se como Dana. Que ela era ciumenta, todos sabiam, o problema era Jack, que se tornou o "xodó" da morena. A pobre Victoria sofreria nas mãos dela. Ou talvez não.
— Victoria. — Apertou a mão de Dizzy, olhando-a de forma gentil, mas ainda assim, encarando-a. — E não se preocupe. Eu sei quem é a %Julie%, você quase não apareceu nas conversas.
— Uh, Jack Jack! — Gargalhei vendo a expressão de Dana transitar entre a indignação e irritação. E o desespero de Jack. — Você está com problemas! — Apontei para as duas, que agora estavam lado a lado, olhando para o loiro. Ri da expressão nervosa dele enquanto me afastava. — Eu vou procurar alguns amigos. Victoria, bom te conhecer. Dizzy, comporte-se!
— Eu sempre me comporto. — Ouvi Dizzy murmurar de longe e quase senti pena de Jack e sua nova "amiga". Quase. Eu também não gostava nada da ideia do nosso mascote andar de romance por aí e não contar nada a ninguém.
Avistei e acenei para alguns conhecidos enquanto atravessava a casa em direção ao quintal, onde — teoricamente — seria a festa. Abri um sorriso enorme quando vi minha turma da faculdade em um canto. Estavam todos juntos, conversando alegremente e até dançando entre eles.
Corri e atirei-me nos ombros de Toni, mesmo ele estando de costas para mim. Fui recebida com gritos e festejos pelos mesmos, senti-me imensamente querida.
— Eu já disse que não quero contato nenhum com você hoje, %Julieta%. Sai! — Toni desfez-se do meu abraço desengonçado, virou com uma expressão irritada, que logo transformou-se em um biquinho tristonho.
— Não, bebê! — resmunguei, apertando as bochechas dele com uma mão. — Já disse que não quero choro hoje… Mackenzie, o que você está fazendo aqui? Eu não convidei você, garoto!
Mac, que estava com o braço em volta do ombro da namorada, revirou os olhos com minha provocação. Eu gostava de Mac, era um cara engraçado, gentil e dedicado a minha grande amiga. Nossa maior diversão era fingirmos que sentíamos ódio um do outro, mas todos sabiam que nós nos dávamos bem de verdade.
— Vai ter que me engolir... Vaca! — Lançou um beijo debochado em minha direção.
— A única que engole você aqui é a Bela, querido! — proferi sarcástica.
— Literalmente — murmurou Toni, mas não baixo o suficiente. Logo todos começaram a gritar provocações entre gargalhadas e palmas.
— Já começou a difamação! — reclamou a garota, causando-nos risos. Puxei-a dos braços do jogador e a abracei fortemente.
— Não é difamação quando se é apenas a verdade! — Hugo, outro amigo nosso, gritou, causando ainda mais risos e bochechas coradas no simpático casal.
Faltavam poucos dias para o Natal. A faculdade tinha entrado em recesso, e mesmo assim, a maioria dos meus colegas de classe foram para a minha festa de despedida. Alguns que moravam em outros distritos, como Bela, até atrasaram a sua volta para casa por conta da festa.
Toda vez que eu olhava para meus amigos reunidos, eu engolia o choro. Não conseguia acreditar que não subiria no palco para pegar o meu diploma no mesmo dia que eles.
Comecei bebendo apenas cerveja, mas no meio da noite, depois que Jack me fez beber uns goles de rum Bacardi, eu já estava aceitando um pouco de tudo.
Nós dançávamos no meio do quintal ao som de algumas músicas dos anos 90, gritando, cantando e com as mãos para cima. Eu já nem sentia frio, apenas jogava meu quadril e minha cabeça de um lado para outro. Quando o ápice da festa chegou, quando todos já estavam com um alto teor de álcool em seu corpo, todos resolveram imitar a mim e meus amigos e foram para o quintal dançar. Tinha tantas pessoas no apertado quintal de Cameron que até parecia uma rave.
Eu e Sid tentávamos um passo de dança — arriscado demais para pessoas que continham álcool no sangue — quando olhei para o outro lado e dei de cara o maior plot twist da noite. Dizzy (aparentemente bêbada) dançava agarrada ao pescoço de Victoria (também aparentemente bêbada). De boca aberta, soltei o ruivo no meio do local e fui até a outra ruiva. Assim que me viu, Dizzy indagou rapidamente:
— Amiga, fala para a Vic que, na vida, é necessário se experimentar de tudo — ordenou, com um sorriso malicioso. — Ela nunca beijou uma garota antes.
— "Vic"? — repeti, embasbacada.
Não fazia muitas horas que eu deixei aquelas duas na cozinha a ponto de se estrangularem, como passamos de hostilidades para um aparente flerte? Já estavam até se tratando por apelidos. Ambos se entreolharam, Dana com uma sobrancelha erguida e Victoria parecendo ponderar.
— Você acha que Jack vai se importar? — Victoria me olhou, mordendo os lábios. Victoria era uma mulher charmosa, seus cabelos ruivos eram grossos, ela era corpulenta, mas apesar disso, seu rosto era lotado de traços finos, parecia ter saído de um filme sobre anjos.
— Por que se importaria? Vocês… — Pensei por uns segundos antes de concluir a frase. É claro que Victoria e Jack tinham algo, ele não levaria alguém para um compromisso com a gente, se a pessoa não fosse especial. A conclusão do pensamento me levou a dar uma tapa no braço de Dizzy. — Para de se meter entre os casais, inferno de mulher! — A minha indignada revolta causou uma explosão de gargalhadas em nós três.
— Quantas risadas! O que está rolando? — Bela surgiu por trás de mim e entrelaçou nossos braços.
— Bela! — A expressão de Dizzy iluminou-se quando viu a cabeleira roxa de Bela na rodinha. — Você já ficou com uma mulher! — afirmou, apontando para ela.
— Eu namorei uma! — Bela riu, mas revirou os olhos. Eu não sabia muito sobre o antigo relacionamento de Bela, mas sabia que havia sido abusivo e traumatizante, por isso a demora da garota em ver Mackenzie como um potencial namorado. Dana olhou para Victoria, insinuante. — Por quê? Vocês estão pensando em fazer algo divertido depois daqui? — brincou Bela, analisando nossos rostos.
— Deixem a %Julieta% fora dessa suruba — a voz de Cameron surgiu ao fundo, mas logo se aproximou, enfiando-se entre Bela e eu. O rapaz já estava com os cabelos bagunçados e olhos baixos, parecendo mais ébrio —, a noite dela vai ser ocupada!
Antes que eu questionasse, o fotógrafo apontou com a cabeça para o portão de saída do quintal. Se eu não estivesse de salto, eu não conseguiria enxergá-lo por conta do aglomerado de pessoas. E seria trágico se eu não conseguisse vê-lo.
%Filipe% %Buchart% entrando pelos fundos, estava com uma mochila nas costas e usava um boné preto. Parecia cansado, mas estava ali, como prometido. Ergueu a cabeça, provavelmente procurando algum de nós, mas não demorou muito para o seu olhar encontrar o meu.
Coração descompensado. Mãos suadas. Sorriso inevitável. Saudades, muitas saudades.
— Até hoje eu não acredito que você tem um caso com %Buchart%! — Ouvi o comentário descrente de Bela, mas até o som parecia abafado depois da chegada do cantor.
— Você tem?! — questionou Victoria, completamente surpresa e exaltada.
Gargalhei alto e corri em direção a ele, esbarrando em todas que estavam no meu caminho, fazendo com que a maioria das pessoas procurassem saber para quem eu estava correndo com tanto afinco. O cantor riu quando percebeu meu entusiasmo.
Quando cheguei até ele, pulei em seus braços e prendi minhas pernas em sua cintura. Fui recebida como se tivesse sido criada para aquele abraço.
Cheiro de %Filipe% %Buchart%. O tempo sem ele parecia ter sido uma vida, por mais clichê que isso soasse.
— %Julieta%, sua calcinha está aparecendo! — Ouvi Dana gritar, mas não me importei, apenas apertei meus braços em volta do rapaz mais ainda.
Senti a mão de %Filipe% puxando o tecido do meu vestido, provavelmente cobrindo minha bunda. Afastei-me um pouco para olhar em seu rosto, mas sem desprender minhas pernas dele.
— Posso beijar você? — pedi, manhosa, tocando em seu lábio inferior com o dedo indicador. — Vai ser incrível as pessoas descobrirem que eu beijo essa boca justo agora que eu estou indo embora!
%Filipe% gargalhou e antes que eu falasse algo mais, ele puxou-me pela nuca e me beijou. Foi apenas um selinho demorado, mas o suficiente para me acender por inteiro. E o suficiente para todos prestarem atenção em nós e começarem a gritar em comemoração. Antes que eu me afastasse dele e descesse do seu colo, senti mais braços nos sufocarem em um abraço grupal.
— Gente, é sério, nosso último dia juntos, eu vou chorar! — choramingou Dana. Nos afastamos e eu desci dos braços de %Filipe%. Dana correu até o garoto, abraçando-o da mesma forma que eu.
— Agora sim, estamos completos. Preparem-se para destruir esse lugar hoje! — gritou Cam e balançou a saia do meu vestido. Gargalhei, empurrando-o e logo puxando-o de volta para um abraço.
— Esse lugar é sua casa! — %Filipe%, como sempre sensato, alertou a Cam, que não se importou. Sem qualquer aviso prévio, rasgou a lata de cerveja com uma chave e posicionou a lata na boca de %Filipe% quando a bebida estourou por todo lugar.
A partir de então, eu lembro de rir bastante. Eu ria de tudo e de todos. Eu ri quando Toni teve uma crise de choro e começou a gritar comigo por eu estar indo embora. Ri mais ainda quando Jack, como sempre, começou a vomitar nos arbustos de Cam, o que iniciou uma briga entre os dois, apesar de eu achar que Jack não estava falando dos arbustos quando gritou: "Se quer tanto o arbusto por aqui, porque não casa com ele?". Sem seriedade nenhuma, mas não deixou de ser engraçado. A imagem de %Fil% e Cam levando Jack nos braços até o sofá sempre iria me fazer rir, pois era uma imagem recorrente.
Eu também ri muito enquanto gravava Toni dançando Grease com sua irmã, cena está que ficou no meu celular para quando ele quisesse fingir que não curtia musicais.
— É sério isso? — questionei, apontando para o sofá, entediada. — Eles estão realmente jogando vídeo game no meio da minha festa?!
Eu estava sentada no sofá oposto, com a cabeça de Jack em minhas pernas. O loiro ainda se recuperava do breve mal-estar, mas estava quieto demais. Geralmente, ele ficaria cutucando e brincando com os garotos, até eles se irritarem e o trancarem em um quarto qualquer.
— Nós estávamos morrendo de saudades, %Julieta%! — Cam respondeu minha provocação dando um beijo na testa e passando um braço em volta do pescoço de um cara que eu nunca havia visto na vida.
Rolei os olhos, virando todo o conteúdo do meu copo na boca. Perdi todos de vista por uns minutos enquanto ajudava Bela, que se sentiu mal no mesmo minuto que Jack.
Quando voltei ao recinto, Dana e Vic estavam em outro patamar, nem se falava, apenas gargalhavam. Cameron, %Fil% e o cara que eu não sabia quem era estavam sentados no sofá, com os olhos fissurados na TV, quase quebrando o joystick tamanha a empolgação. E Jack estava do lado, observando tudo com uma expressão entediada e (um pouco) raivosa.
— Quem é esse cara? — perguntei, torcendo os lábios.
— Sabe quando você tem um namorado muito legal e seus amigos são loucos por ele? A ponto de vocês virarem ex-namorados e seus amigos idiotas ainda convidarem ele para as festas? — murmurou Jack ao pé do meu ouvido. Parecia ficar furioso a cada palavra, estava com os braços cruzados e lábios cerrados.
— Esse é o tal do Victor? — perguntei, surpresa. — Você não contou que eles vivem grudados? Se ele está aqui, então… — Supus e ele assentiu, apontando com a cabeça para o lado oposto da casa, onde uma mulher estava, encostada na parede, olhando em nossa direção.
Nosso pequeno Jack teve um único relacionamento. Ele e Victor namoraram por um tempo, o suficiente para que ele conhecesse a família dele e, consequentemente, sua irmã. Ela parecia legal, entretanto, apesar de ser uma defensora dos animais e se dizer feminista, mostrou ser uma pessoa extremamente preconceituosa e intolerante.
Ela não acreditava em bissexualidade e Jack nunca teve problemas em assumir suas preferências afetivas.
Ao contrário do que deveria ter acontecido, Victor nunca defendeu seu namorado das declarações odiosas e debochadas da própria irmã. A mulher era um monstro e Victor — que não era assumido para a família — acabava acatando as ofensas da mulher por puro medo da exposição, o que causou o fim de seu relacionamento.
Sobre Victor, eu preferia me abster de opiniões. A história dele era composta por vários aspectos — como pressão da sociedade, homofobia e famílias disfuncionais — que me deixavam totalmente de fora do meu lugar de fala.
E afinal, quem somos nós para julgar as ações de alguém injustiçado perante a sociedade?
— E por que ela está aqui? — indaguei, confusa e irritada. Eu não queria aquela mulher no mesmo lugar que meus amigos nunca mais. — O convite não foi apenas para ele?
— Ela não perde a oportunidade de encher a porra do meu saco! — Rolou os olhos, raivoso, ainda falávamos baixinho.
— Espera um momento… Você está aqui com Victor e Victoria? — questionei, encantada com a coincidência dos nomes de pares de Jack. Mal segurei a risada quando vi o rosto de Jack se contorcer em uma careta, atentando-se ao fato pela primeira vez. — Meu Deus, Jack. Você é um mito!
— Não! — Ele virou meu rosto com a própria mão, fazendo um "shhhi", certificando-se que ninguém havia escutado minha risada estrondosa. — Que inferno! A letra V me persegue! E o pior é que Victor costumava encrencar com a Vic quando nós namorávamos. Se ele a vir aqui… — contou, balançando a cabeça e desviando o olhar para o sofá, observando o seu ex. — Acho que ele estava certo, afinal.
— Está vendo? Nós sempre sentimos quando alguém tem segundas intenções com nossos cônjuges! — Dei de ombros, falando em um tom mais alto, apenas para fins de implicância com %Filipe%. — E esse garoto ainda tenta dizer que não tinha nada com a nova iorquina! — provoquei, chamando a atenção dos rapazes no sofá e recebendo beliscões de Jack para que eu ficasse quieta.
— Quase um ano, %Julieta%. Supera — proferiu %Filipe%, rolando os olhos, voltando sua atenção para a TV.
— Depois nós que somos malucos… — Cruzei os braços, injustiçada, mas me arrependi do comentário quando notei que Victor analisou meu comentário por mais tempo que o normal. Nos entreolhamos por uns segundos antes de ele sorrir de leve e lançar uma piscadela a mim.
Ótimo, ajudei o cara contra o meu próprio amigo.
Seu sorriso se desfez quando Cameron e %Fil%, pularam no sofá, abraçando-se em comemoração à partida finalizada e provável vitória por conta da distração que eu causei no rapaz.
Antes que eu me inclinasse para comentar com Jack sobre minha bola fora, vi Dizzy e Victoria chegando juntas na sala. Nem notei que carregavam a mesma expressão diabólica.
— Estão vindo para cá, pensa rápido!
— Ei! — Levantou rapidamente, indo até elas, abraçando-as de uma só vez, mas acho que seu plano de as afastar da sala deu terrivelmente errado quando Vic simplesmente puxou o rosto de Dana, beijando-a bem visivelmente. Arregalei os olhos com sua atitude.
O número de pessoas chocadas no recinto aumentou de 0% para 80%. Jack nem piscava, parecia não acreditar no que estava vendo e todos nós estávamos da mesma forma. Logo, todos estavam rindo e comemorando o beijo cinematográfico dos dois.
Victor também ria e gritava palavras de incentivo, até notar que conhecia uma das duas moças que estavam se beijando e logo suas expressões mudaram.
— Eu não sabia que vocês conheciam a Victoria — comentou Victor, parecendo incomodado.
— Nós… Anh… — Cameron tentou formular algo.
Como explicar para ele que suas suspeitas a respeito de Jack e Victoria estavam certas?
— Uau! — exclamou Vic ao soltar o rosto de Dana e finalizar o beijo. — Obrigada por isso! Acredita que tem gente que não consegue entender que qualquer forma de amor é amor? — declamou em alto e bom som, extrapolando no nível de sarcasmo na voz. A expressão dela era de escárnio e nojo, e eu jurei que se ela continuasse ali por mais tempo, eu iria até lá e a tiraria do lugar com minhas próprias mãos. Puta merda, drama de primeira bem em nossa frente. — Sem preconceitos, sabe? — E falou isso virando o corpo e olhando diretamente no rosto da garota, sem nem piscar.
Foi assim que eu descobri o porquê de Dana e Victoria se darem tão bem e tão rápido. Elas carregavam o mesmo nível de veneno e escárnio dentro de si.
Não consegui me controlar e, novamente, eu ri. Soltei uma gargalhada tão alta ao ver a cara de tacho da ex-cunhada escrota de Jack, que %Filipe% precisou levantar e foi cobrir minha boca com a mão, pois parecia muito que eu estava desdenhando. E eu estava mesmo, os homofóbicos que se fodam!
— Obrigado por emprestar sua garota, Jack! — enunciou Dana, soprando um beijo para o músico e voltou para o quintal.
Simplesmente fez a cena e saiu do recinto. Maravilhosa, sem mais!
Victor pareceu reparar bem na frase de Dana, refletindo por uns poucos segundos antes de sorrir de modo sarcástico.
— É claro… — Levantou do sofá e saiu, indo em direção a porta de entrada.
— Victor! Você está aqui!? — questionou Victoria, completamente surpresa ao ver o rapaz, seus olhos já mostravam arrependimento.
— E você também, não é? Como sempre! — Bufou, rolando os olhos.
Não consegui ver o desfecho da história, pois eu ria tanto que, imediatamente, senti vontade de ir ao banheiro. Fui correndo em direção ao cômodo, agradecendo novamente por Dizzy ter me feito colocar um vestido, assim eu não tive muitos obstáculos para fazer xixi.
Eu tenho vergonha de admitir, mas eu soube que estava mesmo bêbada quando ao finalizar minhas necessidades fisiológicas, ao invés de sair do banheiro, abaixei a tampa do vaso e acabei cochilando sentada ali mesmo.
Acordei sobressaltada com as batidas fortes na porta. Rapidamente levantei-me de supetão e fui me desequilibrando, toda estabanada.
— Moça, você já está aí tem um tempo. Eu preciso mijar! — alguma voz masculina gritou do lado de fora e eu rolei os olhos, indo abrir a porta. O rosto do homem se iluminou quando ele pareceu reconhecer meu rosto. — Ei, você é a mulher das fotos na cozinha!
— A festa é para mim, cara! — resmunguei. Ele estava de mãos dadas com uma garota. "Preciso mijar". Ah, tá. Eu bem sei o que ele ia fazer dentro daquele banheiro. — Divirtam-se. — Dei dois tapinhas em seu ombro e parti.
Quando voltei, a festa parecia ter entrado em um patamar que eu me recusava a permanecer. Apenas algumas pessoas estranhas andavam pelo quintal e outras dormiam dentro da casa.
Jack e todas as outras pessoas pareciam ter desaparecido em um passe de mágica. Até cheguei a procurá-los, mas o único que achei foi Toni, dormindo no escritório de Cam.
O único em minha vista era %Filipe%, que infernizava a vida de um pobre coitado na cozinha, falando 1000 palavras por minuto, muito empenhado em contar uma história nem um pouco interessante ao cara ao seu lado, que, sinceramente, parecia já estar dormindo a uns bons minutos.
Resolvi salvar a vida do homem desconhecido e fui até %Filipe%, puxando-o pela mão e saindo da casa de Cam. Ri por um bom tempo quando o cantor tentou me convencer que o homem que ele falava estava acordado e que foi rude ter saído no meio da conversa.
%Filipe% era gentil e pensava no próximo até em leve estado de embriaguez.
— Por que estamos só nós dois nesse carro? Cadê todo mundo? Cadê a Dizzy? O Jack ficou no Cam? Para onde estamos indo? — %Filipe% desatou a falar e me tirou dos meus pensamentos. Parecia que todo o álcool que estava em mim tinha ido embora após o meu soninho e eu já estava sentindo a ressaca chegando.
— Estamos indo para a sua casa, eu pedi um Uber. Tudo bem? — Situei %Filipe%, que descansava a cabeça na minha coxa.
— Isso é bom, eu amo que só posso ficar bêbado assim com vocês. Eu só consigo com vocês, na verdade. Por que estamos em um Uber? Eu sou a favor dos táxis, você sabe…
Revirei os olhos. Antes que %Filipe% falasse mais alguma merda que faria o motorista expulsar-nos do carro, inclinei-me e encostei meus lábios nos dele pela segunda vez na noite. Beijei-o do jeito que eu queria desde a hora que eu o vi. Ele segurou minha cabeça, não me deixando afastar para respirar.
Eu estava agradecida por ele estar deitado no banco e nós não estarmos tendo muito contato abaixo do pescoço, mesmo que a mão dele escorregando pela minha perna algumas vezes tenha me feito tremer. Nos beijávamos com voracidade, matando toda a saudade que se fazia presente. Eu já sentia meus lábios inchados e eu sabia que os dele não estavam muito diferentes, talvez até mais que o meu.
O motorista avisou que já estávamos em nosso destino. Paguei e pedi desculpas pelo inconveniente enquanto %Filipe% enrolava-se todo para sair do carro. E ainda tinha esquecido a própria mochila. Saí do carro com a bolsa em meus ombros e fui até ele, que estava encostado no poste, encarando-me e esperando por mim.
— O que foi? Por que você está me olhando assim? — Aproximei-me, puxei o boné preto de sua cabeça e coloquei em mim.
Eu amava quando ele me olhava daquela forma. A cabeça meio baixa, um pouco debochado, mas sempre muito saudoso. Como se estivesse me ironizando, mas ainda estenderia a camisa sob uma poça d'água para que eu passasse.
— Devia ser proibido. — Ele virou a aba do boné para trás e me puxou pelo quadril, encaixando nossas pernas. — Você. Pessoas como você deveriam ser proibidas.
Tratei de puxá-lo pelas mãos em direção a sua casa antes que ele me beijasse. Eu já sabia onde nós acabaríamos quando %Filipe% começava a falar assim. A viela de pedras que levava até a casa dele sempre me deixava nostálgica.
— Pessoas como eu? — indaguei.
— É, você é difícil demais de entender. — Procurou as chaves na própria jaqueta, embromando na procura.
— Nem tanto assim. É só prestar atenção… — Encostei-me no vão enquanto %Filipe% destrancava a casa.
— Eu acho que presto bastante atenção, %Julieta% — proferiu bem sério, abrindo a porta e me dando passagem. — Mas você sabe ser bem problemática.
Eu sempre soube que não era a pessoa mais fácil de se lidar, mas eu sentia muita diferença quando Dana e %Filipe% falavam isso. Quando ela falava sobre a dificuldade de lidar comigo, parecia uma crítica, parecia que ela ainda tinha esperanças de que eu mudasse de alguma forma. Não é que ela não me aceitasse, mas amizades sinceras estão aí para te tirar do pedestal de vez em quando.
Quando %Filipe% pontuava o mesmo, parecia que ele estava apenas me exaltando. Parecia que o que menos queria era me ver de outra forma. Era como se nada que eu fizesse o faria gostar menos de mim. A meu ver, as duas coisas são boas, pois %Filipe% e Dana eram meu equilíbrio.
Joguei a mochila no chão e corri até o sofá para tirar as botas, louca para sentir o interior quentinho da casa. A chuva voltara a atormentar e a temperatura havia diminuído drasticamente. Entretanto, agora que eu estava com %Filipe%, eu não me importava nem um pouco com os 10° que estavam lá fora. O mundo poderia explodir e eu não ligava. Deitei no sofá macio de %Filipe% e estiquei minhas pernas em direção a ele, fazendo sinal para que ele tirasse meus sapatos.
Quando retirou o último par, prendi meus pés no seu quadril e puxei-o para mim. Apoiou os braços ao meu lado para não deitar em cima de mim completamente.
— Você quer saber qual é meu problema? V-você — emiti em um sussurro.
%Filipe% veio em minha direção como se fosse me beijar, mas desviou o caminho, virando minha cabeça para o lado e beijando meu pescoço lentamente. Arfei quando senti ele juntar nossos quadris, pressionando-se contra o meio de minhas pernas.
O tecido áspero do jeans em atrito com o tecido fino da minha calcinha fez com que eu abrisse minhas pernas instantânea e urgentemente. Ele puxou um lado do meu vestido completamente para baixo e eu até ouvi a costura estalar devido a força. Quase tive problemas para completar meu raciocínio quando abocanhou meu seio direito com maestria.
— É vergonhoso o que eu me torno quando se trata de você, %Buchart%.
━━━━━━◇◆◇━━━━━━
— Você está quietinha demais — comentou %Filipe%, notando minha expressão pensativa.
— Eu vou embora daqui a algumas horas — respondi e puxei o zíper da minha bota, fechando-a completamente.
— Eu também. — Quase me perdi na visão de %Filipe% vestindo apenas uma calça jeans e prendendo o relógio em seu pulso. Eu me perguntava se algum dia eu não me perderia na beleza do meu garoto.
— Mas você vai voltar! — refutei, indo até ele e pedindo silenciosamente para ele fechar os botões do meu vestido.
— E você não — concluiu, jogando todo meu cabelo para frente, fazendo carinho em meu ombro exposto pelas mangas caídas e depositou um breve beijo no local, antes de começar a realmente abotoar. Após meu vestido estar completamente fechado, senti sua mão segurando meu cabelo pela nuca, fazendo-me fechar os olhos enquanto ele virava minha cabeça em sua direção. — Eu queria mandar toda e qualquer responsabilidade para longe e ficar aqui, com você.
— Eu não pensaria duas vezes — assegurei, subindo minhas mãos em seus braços, acariciando-os. Antes que nos aproximássemos mais, seu celular tocou.
%Filipe% se afastou, indo atender a ligação desesperada de Tom, seu empresário, que havia constatado que o cantor não estava em seu quarto de hotel, como o esperado. Sim, %Filipe% fugira de sua turnê, do seu empresário, sendo acobertado pelos colegas de banda, apenas para ir a minha festa, para cumprir um desejo meu.
Mordi os lábios, tentando controlar o sorriso quando notei alguns pontos arroxeados no seu quadril e suas costas. Quando comecei a pensar que, talvez, eu não conhecesse minha própria força, lembrei que ontem nós não nos importamos muito com os modos e rolamos no chão algumas vezes quando o sofá se tornou pequeno para nossas ações indecentes.
Desci o olhar, procurando alguma alteração em meu próprio corpo, mas nada estava diferente.
— Eu não acredito que fizemos isso com você. — Quando desligou a ligação, fui até ele, abraçando-o pelas costas e descendo minhas mãos levemente pela sua cintura.
Olhou-me confuso, logo, apontei as marcas mais visíveis em seu quadril, fazendo-o erguer as sobrancelhas e rir logo em seguida.
— Uau. Estava mesmo com saudades de mim, não é, linda? — brincou, virando de frente para mim e encaixando suas mãos em minha cintura, analisando meu corpo. — Você também sofreu alguma escoriação?
— Que nada, só você que estava bêbado além da conta e caiu do sofá, eu não tive nada com isso. — Dei de ombros, sorrindo.
— Estou cansado de cair por você — informou, assumindo uma postura e um tom de voz mais sério.
— O que mais eu preciso fazer para você acreditar que eu também caio por você, %Filipe% %Buchart%?
Passei meus braços em volta do seu pescoço, e mesmo de salto alto, tive que ficar na ponta dos pés para aproximar nossos rostos. Senti sua respiração ficar irregular e sorri travessa. Tínhamos transado a noite inteira, %Filipe% usou meu corpo da forma que bem entendeu, mas me agradava que apenas um simples beijo o deixava tão desnorteado quanto o ato em si. Eu gostava de pensar que eu tinha culpa disso.
— Lembra da última vez que estivemos aqui? — Tocou meus lábios em um rápido selinho, descendo seus beijos castos pelo meu pescoço. Assenti, é claro que eu lembrava da nossa noite de conversas sinceras e declarações honestas. — Fala de novo? Diz que é louca por mim?
— Eu sou louca por você! — pronunciei articuladamente, deixando o sentimento explodir em minhas palavras.
%Filipe% afastou-se e segurando meu rosto entre suas mãos, beijou-me urgentemente. Seria difícil deixá-lo ir novamente.
Após alguns minutos de pegação moderada, %Filipe% lembrou que tinha um voo para pegar e, por conta do horário, me convidou para almoçar com ele no aeroporto. Acabei aceitando, pois, cada minuto com ele ainda não seria o suficiente para mim.
Depois que trancamos sua casa inteira, ficamos esperando por dez minutos algum táxi aparecer, já que — como sempre — %Fil% se recusava a usar a modernidade ao seu favor.
— Eu tenho um aplicativo especialmente para isso — resmunguei após um táxi nos ignorar novamente, apertando o casaco grosso dele contra meu corpo. Mais um para a minha coleção. — Qual seu problema com aplicativo de transportes, afinal? Você não via problema nenhum em me fazer de motorista particular quando precisava ficar indo de estúdio em estúdio.
— Não é minha preferência. — Deu de ombros. Encarei-o tediosa, não aceitando sua resposta automática. — Minha mãe trabalhou como taxista por muitos anos, eu sou a favor da causa, só isso.
— Táxis não são uma causa, amor. — Dei risada. — Mas tudo bem, eu entendo, sua mãe é maravilhosa!
— Você conhece minha mãe?! — indagou, confuso.
Eu havia esquecido que %Filipe% não sabia da minha breve comunicação com a sua progenitora. Foi um dia de domingo qualquer, em que eu tentava cozinhar algo agradável e rápido enquanto %Filipe% ainda dormia. Eu acabei atendendo seu celular por engano, deslizando para o "aceitar" ao invés de "silenciar". Eu não podia desligar na cara da mãe dele, então, decidi atender mesmo.
Quase uma hora de ligação depois, desliguei tendo uma receita de lasanha em mão, uma benção e um convite para o jantar.
— Conversamos numa ligação uma vez — respondi sem muito entusiasmo.
— E falaram sobre o quê? Por que eu nunca soube disso? — questionou. Olhei de um lado para o outro, à procura de algum táxi à vista.
— Nada demais, falamos sobre sua teimosia, ela me chamou para jantar e me passou a receita de lasanha…
— De abobrinha! — concluímos, juntos, rindo brevemente.
— Ela passou a receita e ainda chamou você para jantar?! Por que nunca fomos a esse jantar? — questionou e eu apenas dei de ombros. Na época, não parecia grande coisa, eu e ele ainda não éramos algo e eu sequer me apresentei como namorada ou algo assim. — Eu não acredito que você é a primeira garota que mamãe tem conhecimento!
— "Mamãe" — debochei até perceber o tom descrente em sua voz. — Ei! Por que? Qual o problema comigo?
— Eu mereço coisa melhor. — Sarcástico, olhou-me de forma zombeteira. Abri a boca em indignação, ele gargalhou, puxando-me para mais perto e tentando fugir dos meus beliscões vingativos ao segurar meus braços.
Não continuei com a briga infantil pois notei um táxi aproximando-se e logo me pus no meio da rua e abri os braços, deixando claro para o motorista que ele me levaria ao meu destino ou ele me atropelaria. Sorri vitoriosa quando o carro parou ao nosso lado.
Abri a porta, estendendo a mão para %Filipe%, que apenas sorriu debochado e entrou, dando as coordenadas ao motorista. Quando me inclinei para sentar ao seu lado, fiz uma careta ao sentir minhas costas doloridas, entretanto, não pude controlar o gemido sôfrego quando sentei e senti uma pontada dolorida em minhas pernas e nádegas.
— O que houve? — perguntou, preocupado. Não respondi, apenas fingi que não ouvi. Senti seus olhos analisando-me por inteiro e soube que ele havia notado meu incômodo quando abriu um sorriso ladino e inclinou-se para falar baixinho no meu ouvido. — Eu não sou o único com escoriações, não é?
— Você anda muito engraçadinho! Geralmente, quem tira uma com a sua cara sou eu! — murmurei, resmungando e puxando o boné preto da sua cabeça e colocando em mim.
Após um almoço cheio de carinho e implicância, chegou a hora de %Filipe% ir e enquanto íamos até o portão de embarque, pensei que logo mais, eu estaria fazendo o mesmo caminho. Suspirei audivelmente, ir embora não estava em meus planos e agora eu estava assustada, refletir sobre os meus próximos passos não estava sendo tão empolgante.
Eu amava fazer planos e gostava de mudanças, mas quando eu as queria. Fazer por obrigação nunca foi o meu forte.
— E esse suspiro? O que foi? — indagou, acariciando minha mão.
Encarei nossas mãos encaixadas uma na outra. Andar de mãos dadas parecia ser um ato tão íntimo e sincero quanto um beijo na testa. Andar de mãos dadas com %Filipe% era ainda mais recompensador.
— Nós estamos mesmo indo embora de HW? — questionei, desacreditada.
A cidade sempre foi tudo o que eu queria e o que eu esperava. Viver lá foi como um sonho realizado. Não era cidade grande, não era metrópole, mas havia se tornado o meu lugar. Um universo perfeito e feito para mim.
— Não é um adeus — afirmou, parando no meio do caminho, apoiando as mãos em minha cintura, puxando-me levemente. — Logo, logo vamos estar por aqui de novo, estremecendo a cidade com nossas brigas sem sentido algum — brincou, beijando-me suavemente.
— %Fil%? — Afastei-nos e olhei em seus olhos, procurando e esperando a resposta certa para a minha pergunta. — E a gente? O que vai ser de nós?
— Vamos achar nosso caminho de volta. Como eu disse, isso não é um adeus, não é o nosso fim, %Julieta% Young — assegurou, colocando algumas mechas de cabelo atrás da minha orelha.
Achei a resposta em seus lindos e sinceros olhos caramelados, que não deixavam dúvidas de que %Filipe% %Buchart% era o cara certo para mim. O encarei por alguns segundos, abrindo um sorriso radiante, aproximei nossos rostos e o beijei, segurando em seu rosto para manter o contato mais pessoal e íntimo possível. Fui diminuindo com beijos leves em seus lábios, afastando-me quando ele tentava recomeçar.
— Uau, e você não gosta de demonstração pública de afeto — brincou, ironizando minha falta de jeito para gestos românticos.
— Idiota! Preciso te pedir uma coisa — anunciei. Encarou-me, atento, esperando minha fala. — Toma os seus remédios direitinho? — pedi e gargalhei quando o rapaz revirou os olhos, mas também sorria. — Sua voz é seu instrumento de trabalho, não custa nada! O Tom me manda mensagem o dia inteiro e ele vai continuar a me avisar, caso você não esteja se cuidando...
— Ah, é? E você vai fazer o quê? Pegar um avião para enfiar algumas pílulas na minha boca? — debochou. Pegou a carteira de dentro do bolso, tirando algumas notas de dinheiro e me entregou. Fiquei em dúvida por alguns segundos, mas lembrei que eu havia ido para a festa sem nada, apenas com meu celular.
— Não, vou tirar de você algo que você gosta. — Ergui uma sobrancelha, desafiadora.
— Vamos estar separados. — Semicerrou os olhos, como se não acreditasse em mim.
— Você mesmo disse que ainda vamos nos encontrar. Não duvide de mim, %Buchart%. Quando esse dia chegar, vamos estar loucos de saudades um do outro e se houver uma reclamação do Tom, você não vai ver nem a cor da minha calcinha — ameacei-o. O cantor riu, tentando puxar o seu boné da minha cabeça, mas eu o segurei.
— Eu cuido bem daqui… — Apontou para a própria garganta. — Se você cuidar bem daqui. — Apontou para a minha cabeça, tocando minha testa com o dedo indicador. Abri a boca para falar, mas fui interrompida. — Você vai estar sozinha lá, %Julieta%. E nós dois sabemos muito bem que você gosta de fingir que nada está errado.
— Eu sei me cuidar muito bem! — resmunguei, assegurando e afastando seu dedo de mim.
— Argh, essa atitude… — rosnou, usando o tom de voz irritado que eu já conhecia. Geralmente, só era direcionado a mim. — Me avisa quando chegar? Em Springfield.
— Você também — pedi, arrumando as alças da sua mochila, verificando se estava tudo certo, tal qual uma mãe zelosa.
— E você, rainha dos problemas, não se meta em confusão, ok? Vou sentir sua falta. — Inclinou e murmurou no meu ouvido, me fazendo estremecer. — Desesperadamente.
E assim como chegou, se foi. Celeremente. Andando apressado, pois o seu portão já estava quase fechando. Mordi os lábios, vendo-o cada vez mais longe, pedindo internamente que ele não olhasse para trás ou eu desabaria.
Sentia meu peito apertado, não sabia que eu seria uma dessas pessoas que é capaz de sentir saudades de outra, mesmo que a pessoa ainda estivesse em seu campo de visão. Como sempre, indo contra todas as minhas vontades, sempre fazendo o contrário do que eu queria, %Filipe% olhou para trás. Sorriu e acenou.
E como sempre, ele acabou fazendo o que eu queria sem que eu nem soubesse disso.
Andei para a saída do aeroporto, abraçando meu corpo e apertando o casaco contra mim mesma. Puxei meu celular do bolso, pronta para abrir o aplicativo de transporte, porém, sorri quando um táxi parou em minha frente sem que eu nem pedisse. Parecia até que %Filipe% tinha planejado.
Quando cheguei em casa, todas as cortinas da sala estavam abertas e a claridade do local (mesmo nublado lá fora, nossas janelas sempre deixavam mais claro do que realmente estava) fez minha cabeça quase explodir. Retirei o boné preto da minha cabeça e corri para fechar as cortinas, tropeçando em meus próprios saltos. Meu corpo inteiro estava dolorido, eu sentia a ressaca emergindo como se fosse um iceberg.
Estar com %Buchart% me deixava em um estado de torpor tão grande que até a ressaca custava a aparecer.
Olhei em volta, prestando atenção em cada detalhe. Havia algumas caixas e algumas malas pelo local e isso acabou provocando um sentimento misto em mim. Seria muito triste se Dana também estivesse indo embora, pois a sala estaria completamente vazia.
Nossos quadros não estariam lá, nossas cortinas, nossas fotos. Tudo estaria dentro de caixas, tudo impessoal. Mas era ainda mais dolorido, ver apenas minhas caixas, minhas fotos, minhas coisas fora do lugar. Era como se fosse um lembrete de que eu estava indo, mas a vida por ali continuaria.
O sentimento ruim de despedida voltava intensamente. Suspirei, apoiando as mãos na cintura e fazendo uma careta logo em seguida. Meu corpo estava dolorido a ponto de meu próprio toque incomodar. A noite que passei com %Filipe% foi extremamente prazerosa, mas acho que a saudade acabou nos forçando a ultrapassar o limite de força.
Dizzy já havia avisado por mensagem de texto que estava em casa, então fui ver se a garota estava bem e o que havia acontecido para que todos sumissem da casa de Cam na noite passada. Bati na porta do quarto dela, mas não houve resposta. Afastei-me, pronta para ir para meu quarto e hibernar até domingo de noite, quando Dana gritou um "entra".
— Oi, está tudo bem? — Andei até a cama onde a garota estava deitada e digitava freneticamente no celular. — Você sumiu ontem. Na verdade, todos sumiram.
— Foi você quem sumiu — refutou sem nem me olhar. — %Filipe% achou que você estava dando para alguém no banheiro e queria invadir, mas eu expliquei que você estava apenas dormindo.
— Quem disse que eu estava dormindo? — Cruzei os braços, sarcástica. Dana levantou a cabeça, erguendo uma sobrancelha e duvidando da minha cara de pau de ainda negar o fato. — Foi só um cochilo.
— Quase uma hora. — Voltou a olhar para o celular, mexendo os dedos incessantemente. — Perdeu toda a briga.
— Briga? Teve briga? — indaguei, confusa e curiosa.
— Victor e Jack começaram a discutir. Aí Victoria foi se sentindo culpada e começou a chorar. E aquela filha da puta veio tirar satisfação! — exclamou, rolando os olhos. — E eu já estava alcoolizada, você sabe como eu fico, mas os meninos me seguraram.
— Você ia bater nela?! — questionei, gargalhando. Poxa, uma briga em que eu não estava envolvida? Deve ter sido uma cena e tanto. — E a sororidade?
— A sororidade só existiu até ela ser uma completa imbecil e homofóbica com o meu melhor amigo! — exprimiu, severa, entretanto, ainda sem desviar o olhar do celular.
Cerrei os olhos, eu estava sem saber muito bem o que estava acontecendo. Já era estranho eu chegar e a garota estar acordada. Pelo nível em que ela estava, eu esperava que ela dormisse, no mínimo, 24 horas. Ou pelo menos 10 horas, que era o tempo que tínhamos para ir para o aeroporto no domingo.
— O que está acontecendo? Você está bem? — Notei sua expressão estranha ao ouvir meu questionamento. — Dana, o que houve? O que você fez? — Tudo bem que Dizzy tinha uns momentos estranhos durante a ressaca, mas não havia nem sinal de ressaca no rosto da morena. Ela só estava agindo como se estivesse preocupada com alguma coisa.
Minha mente imediatamente me levou a Jack e sua nova namorada.
— Me insulta você pensar que eu fiz algo. — Indignou-se, virando de costas para mim. Insisti mais uma vez, chamando-a pelo nome. — Ok, talvez eu tenha... — Sentou na cama, mordendo o lábio inferior, parecendo nervosa e ansiosa para me contar algo. — Quero dizer, não talvez, porque realmente aconteceu, mas...
— Dana!
— Eu transei com Cameron! — proferiu, num ímpeto.
— Você o quê?! — quase gritei indignada e logo explodi em risadas.
É claro que isso ia acabar acontecendo. Dana e Cameron eram os tipos de pessoas que iriam transar duas vezes na vida, no mínimo. Eu até gostei que Cam perdeu um pouco a cabeça e parou de tentar resistir a Dana.
O rapaz sempre fora bem observador sobre a minha vida, mas parecia esquecer que eu também o observava. E não era difícil perceber a admiração mais que amigável dele por nossa querida e amável Dizzy.
Ela também acabou rindo da minha crise de risos que parecia incessante. Tirei minhas botas e com um pouco de dificuldade, sentei ao seu lado na cama.
— Parece que não fui a única que transou ontem, não é? — brincou, sarcástica, notando meu desconforto ao sentar.
— O álcool nos anestesiou e a gente não sentiu tanta coisa, a dor veio toda hoje. Dizzy, você não vai me distrair, me conta tudo o que aconteceu agora! — exigi, batendo minhas mãos na cama.
— Ah, %Julieta%… Estou com vergonha. — Cobriu o rosto com as mãos, puxando o lençol para cobrir-se inteira.
— De mim? Fala sério! — desdenhei.
— Não de você, de tudo! — Estiquei-me para desligar o abajur, deixando o quarto escuro. Lá fora, chovia tanto que parecia noite mesmo. — Eu não sei o que aconteceu. Ele estava muito bonito e eu estava… E ele começou a jogar aquele maldito charme para cima de mim — falava cheia de pausas e incertezas, esfregando o rosto e balançando as pernas. Tudo isso me fazia rir, é claro. — Sabe quando ele dizia que nunca havia, realmente, tentado algo com alguma de nós e apenas por isso nós achávamos que éramos imbatíveis? Bom…
— É o Cameron — concluí junto com Dana, entendendo-a completamente. Cameron era o cara mais legal, gentil e bonito de Hillswood. Era apenas uma obra do acaso o meu coração já estar totalmente nas mãos de outra pessoa, senão fosse por isso, eu teria uma queda por Cam, com certeza. — E como foi?
— Ah, %Julie%… — Enrolou para falar, cobrindo o rosto com as mãos.
— Dana, você está com vergonha? De mim? Nós já fizemos um ménage, por favor! — Gargalhei, puxando suas mãos para longe do rosto. — Eu vivi para ver você envergonhada! Então, quer dizer que esse é o efeito de Cameron Koernig?
— O problema não é ele — confessou tímida. — É que um dia desses eu estava apaixonada pelo seu namorado, e agora eu dormi com o melhor amigo dele, e roubei uns beijos de Victoria, e… Minha própria inconstância está me matando, %Julieta%!
— E daí? Você é uma mulher adulta, solteira, com várias facetas e vontades distintas. Não critique a si mesma usando um estigma social machista e idiota. Não querendo apontar o óbvio aqui, mas e se você fosse um homem? Eu aposto que estas questões nem estariam passando pela sua cabeça — discursei, afirmando que o que incomodava Dana eram os valores conservadores que a família Tomanzio implantara na garota. — Já que resolvemos isso, vamos falar sobre o fenômeno Cameron. O tamanho do…
— Vamos só dormir, ok? — interrompeu minhas curiosidades em relação a sua noite entre risadas e tapando a minha boca com a própria mão, não querendo oferecer mais nenhum detalhe. — Ainda temos umas horinhas antes de ir.
Todo o clima leve e engraçado pareceu ter virado pó. Senti Dana posicionar o edredom sobre mim de forma mais adequada e murchei completamente. Por um minuto, eu havia esquecido que iria embora. Por um minuto, parecia apenas uma noite qualquer de inverno.
Uma noite qualquer de aventuras nossas, o momento que nós deitávamos juntas e falávamos sobre os fatos da noite anterior. Por um minuto, parecia apenas minha melhor amiga e eu conversando sobre garotos no nosso quarto. A realidade logo surgiu, lembrando-me que em algumas horas, Hillswood não seria mais minha casa.
— Vou até deixar você dormir sem tomar banho. — Rimos levemente com a implicância da mulher.
— Eu já tomei banho! — informei, chutando a perna dela.
Dana abraçou-me por trás e encaixei meu corpo encolhido em seu tronco. Eu sentia sua bochecha contra o meu ombro e agarrei seus braços. Agradeci ao universo por ter Dana Tomanzio.
Nós éramos complicadas, mal resolvidas, diferentes e acabávamos nos enfrentando de alguma forma, mas ao mesmo tempo, nos completávamos. A morena de longos cabelos ondulados sempre sabia exatamente do que eu precisava e quando precisava. Parecia que nós estávamos compartilhando pensamentos, perdidas em nossas bolhas. Apesar de estar com uma ressaca acumulada de três dias, eu não sentia sono algum.
Eu sentia muito medo. Estava completamente ansiosa para voltar a minha vida anterior. Recomeçar no lugar onde eu nasci estava sendo assustador e ainda mais preocupada eu ficava quando pensava em como estaria minha relação com Dizzy daqui a um ano. Um ano inteiro separadas pela primeira vez desde que nos conhecemos seria um divisor de águas em nossa relação, eu sabia disso.
Senti uma dor quase física quando senti um líquido quente escorrer do meu ombro pelo meu braço. Me neguei a falar alguma coisa ou, ao menos, tentar ajudá-la. Tudo o que ela sentia, eu também estava sentindo. Não tinha muito o que fazer, então ficamos ali, chorando baixinho, procurando conforto no abraço apertado, no quentinho das cobertas, até o sono nos abater definitivamente.
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— Ok, suas malas, mochila, bolsa… Pegou seus documentos? — Cameron contabilizava, analisando a mala do seu carro e contando cada item nos seus dedos. Apenas assenti, afirmando. Eu estava sentada no chão da garagem, vendo Cam arrumar minhas malas e de Dizzy no porta-malas do seu carro. Ele iria nos dar carona até o aeroporto. Eu só iria resolver como levar meu carro para Springfield quando eu chegasse lá. — Identidade, passaporte… O que foi?
Fiquei em silêncio por um tempo antes de responder. Desde que acordei no domingo à noite, olhei para minhas malas e para as caixas espalhadas na sala, e senti um bolo agoniante na garganta. A ansiedade estava me deixando louca e o que eu mais fazia era me concentrar para não chorar. Ver Cameron fazendo seu papel de amigo só piorava minha situação.
— Vou sentir sua falta — respondi simplesmente, mesmo com a voz falha.
— Não — falou Cam antes mesmo que eu terminasse a frase, apontando um dedo para mim. — Você não vai fazer isso comigo.
— O quê? — Rimos do seu rompante e ele virou-se de costas para mim, voltando a mexer nas malas.
— Você não vai me fazer chorar a essa altura do campeonato. — Meus olhos imediatamente encheram-se de lágrimas só de imaginar Cameron chorando.
Abaixei a cabeça, respirei fundo e levantei do chão. Fui até o rapaz e o abracei por trás, enfiando meu rosto em suas costas, onde depositei um beijo leve, escondendo minhas lágrimas e afastei-me, não olhando para trás.
Se eu olhasse, nós dois iríamos chorar e era o que eu menos precisava agora. Fui para o elevador, mas assim que cheguei no meu andar, Jack e Dana já estavam esperando.
— Só estava pegando minha bolsa, trancando a casa. Deixou a chave com a vizinha? — perguntou Dana a mim quando eles entraram no elevador. Confirmei, assentindo. A garota observou meu rosto e perguntou: — Você estava chorando?
— Não acho que eu tenha parado de chorar desde que acordei — confessei, rindo e passei a mão pelo rosto. Jack, que carregava uma caixa que deixaríamos nos Correios, passou os braços pelo meu ombro e depositou um beijo em minha testa.
A ida ao aeroporto foi quase silenciosa, apenas fomos escutando umas músicas e eu agarrada no peito de Jack, quase me afundando no meio dos nossos casacos. Estava muito frio e a chuva não tinha dado trégua. Observei Cam e Dana sentados na frente e perguntei-me como ficaria a relação deles agora que tinham pulado umas regras de convivência. Espero que nada fique estranho, Dizzy precisaria de Cam quando voltasse para Hillswood sozinha.
Passamos vinte minutos apenas esperando, sem realmente conversar, cada um perdido em seus próprios pensamentos, até que o nosso portão de embarque foi aberto, ocasionando uma pequena fila, mostrando que estava na nossa hora. Nosso voo foi anunciado no alto-falante e eu não consegui conter a emoção. Agarrei a camisa de Jack, que estava sentado ao meu lado e recebi um abraço cheio de comoção e sentimento.
— Não vai colocar Jeins de cabeça para baixo, hein? — brincou, mas sua voz tremia e eu sabia que ele estava segurando o choro de todas as formas possíveis.
— Só se você prometer ser legal com Victoria. Não seja um babaca, fica com ela! — Rimos juntos e ele passou a mão pelo meu rosto, limpando minhas lágrimas grossas. — Vou sentir muito a sua falta, muito!
Abracei-o de novo, soluçando. Eu odiava despedidas, eu já estava exausta mentalmente e ainda nem tinha chego em Cam. Afastei-me de Jack, que foi abraçar Dana.
— Amo você, Cameron. — Abracei-o pelo pescoço.
— Amo você, pequena Jay. — Ele se afastou, colocando meus cabelos para trás da orelha. — Não se meta em confusões, ok?
— Por que vocês me falam isso? Eu não sou tão ruim assim. — Bati o pé no chão, contrariada e eles riram.
— Apenas tente não estourar o carro em um poste — brincou Jack, rindo da minha feição emburrada.
— E também não seja expulsa da faculdade — completou Cam, fazendo-nos gargalhar.
— Nem foi expulsão — murmurei, resmungando e colocando minha bolsa no ombro, causando mais risadas.
— Também tente não ser presa, ok? — zombou Jack e cutuquei seu braço, fingindo estar ofendida.
Dana passou por mim, indo abraçar Cam. Observei os dois pela minha visão periférica e pude notar quando o rapaz falou algo no ouvido dela, fazendo-a rir e dar uma tapa de brincadeira nele. Eu e Jack nos entreolhamos, sorrindo enviesados. A tensão sexual entre aqueles dois era quase palpável.
— Fiquei sabendo que o movimento estudantil da cidade está precisando de novas lideranças, talvez eles estejam precisando de alguém com ideias anarquistas — brinquei, dando de ombros.
— %Julieta%, pelo amor de Deus, não me faça ir vender minha passagem de volta e ficar lá com você — repreendeu-me Dana, preocupada com meu bem-estar. Ela sabia que eu estava brincando, mas que tinha um fundo de verdade. — Já está na nossa hora, vamos? Vejo vocês após o Natal. — Dana segurou minha mão e com a outra, empurrava o carrinho com minhas malas.
Demos alguns passos em direção ao portão, mas impulsivamente, soltei a mão de Dana e corri de volta até os rapazes. Meus olhos embaçados de lágrimas me impediram de ver o rosto de ambos, mas abracei os dois ao mesmo tempo.
— Não a deixem ficar sozinha por muito tempo nos primeiros dias, ok? — implorei, minha voz estava trêmula e preenchida por soluços. Olhei para baixo ao ver que Jack chorava comigo. — Vejo vocês algum dia.
Voltei a Dana, que nos olhava de longe e também parecia segurar as lágrimas. Inconsciente, olhei para trás, vendo os dois rapazes um ao lado do outro. Não era besteira dizer que Cameron e Jack haviam mudado a minha vida. Eu os amava tanto, tanto!
Eu me sentia a mulher mais sortuda do mundo por ter a oportunidade de ser amiga dos dois caras mais incríveis que eu já conheci. Acenei enfraquecida.
Achei que nunca mais pararia de chorar quando avistei Cam limpando o próprio rosto e Jack confortando-o com uma mão no ombro, olhando-o pesaroso.