Capítulo Cinco
— Tá aqui a foto! E bom, como você viu, apaguei ela dos meu arquivos no computador.
%Niki% pegou delicadamente a foto das mãos de %Sunoo%, que pareceu um pouco relutante em entregar a foto. %Niki% observou a foto outra vez.
Ele esperava encontrar erros: um braço fora do eixo, um passo incompleto, uma postura torta. Mas o que via ali não era falha. Era entrega.
A foto conseguiu captar exatamente a essência de %Niki% enquanto dançava.
A busca pelos movimentos perfeitos, a entrega dele durante as execuções, o rosto concentrado demais no que fazia e no que ouvia. O peso daquela fotografia era gigantesco no coração dele.
Ninguém nunca havia o visto daquele jeito, e agora ali estava ele, de frente para um estranho que havia o visto daquela forma: vulnerável e entregue.
A imagem parecia respirar. Como se o corpo dele na foto ainda estivesse dançando, mesmo parado.
Ao olhar para %Sunoo% ele sentiu um misto de emoções: vergonha, exposição, mas também beleza e reconhecimento.
— Obrigada por ter retirado a foto. E por ter me dado ela também.
%Sunoo% assentiu para ele com a cabeça, como quem diz
“não foi nada”.
— Ela pertence a você. O verdadeiro dono dessa fotografia é você, não eu.
— Essa sala não é só minha, eu sei disso. Vários outros alunos usam lá para praticar, mas sei lá…— Ele pausou por breves segundos — Eu sinto como se lá fosse o meu refúgio, o lugar que eu vou quando quero aperfeiçoar a única coisa que faz sentido na minha vida, que é a dança.
%Niki% fechou os olhos e apertou a foto contra o peito.
— Lá eu não preciso performar para ninguém, não preciso ser o melhor da turma, não tenho plateia, gente me julgando… lá eu posso simplesmente dançar. E ser livre.
Mais alguns segundos de silêncio. %Niki% abriu os olhos:
— Lá eu não preciso ser bom pra ninguém. Eu só danço porque quero dançar.
%Sunoo% engoliu seco e abaixou a cabeça tentando evitar os olhos intensos de %Niki% lhe encarando. Segurou a câmera contra o peito com força excessiva, como se aquilo pudesse eximir toda a culpa que ele estava sentindo.
Como se aquele gesto o impedisse de cair ao chão, ali mesmo.
— Eu não pensei que aquela sala fosse… isso pra você. Mas agora eu entendo. — %Niki% respirou fundo e %Sunoo% também. — Eu sinto muito por ter entrado nesse espaço sem pedir.
%Niki% bagunçou os cabelos, com a foto entre as mãos.
— Eu nem sei porque falei isso tudo para você. Isso é uma coisa só minha, nem meus melhores amigos sabem que me sinto assim com aquele sala e com a dança.
%Sunoo% se aproximou dele de forma involuntária, diminuindo a distância entre os dois.
— Eu não vi só um dançarino. Eu vi alguém que estava sendo verdadeiro. Assim como você foi agora, aqui na minha frente.
Silêncio. %Sunoo% olhava para os olhos de %Niki%, como se dissesse
“eu te vejo de verdade”. %Niki% sentiu a garganta fechar com a profundidade do olhar do fotógrafo. As mãos dele agora tremiam, ainda segurando a foto contra o peito.
— As pessoas sempre me olham como se eu fosse só… movimento. Você foi o primeiro que me olhou como gente. — %Niki% suspirou pesadamente — Eu não gosto quando me veem dançar. E eu não gosto disso que to sentindo.
— Disso o que? — %Sunoo% diminuiu ainda mais a distância entre os dois. A ponta dos narizes se encostando.
O coração de %Sunoo% batia rápido dentro do peito, como se fosse uma escola de samba ensaiando um dia antes do desfile. Os olhos dele intercalavam entre os lábios e os olhos de %Niki%. Os lábios carnudos dele eram uma tentação quase irresistível aos olhos de %Sunoo%.
O coração de %Niki% não estava muito diferente. Batia forte e descompassado, como se quisesse rasgar a camiseta que ele usava. E aquilo nunca havia acontecido com ele antes. Especialmente por se tratar de um homem despertando aquilo tudo.
— De sentir que, se você chegar mais perto, eu não vou conseguir me esconder.
%Sunoo% moveu os lábios alguns centímetros para frente, as bocas roçando uma na outra…
— %Niki%-ah! Onde está você?
A voz anasalada de %Jungwon% chamando por %Niki% ecoou perto demais, fazendo o mais alto dar três passos para trás. Rápido. Cortante. Distante demais.
E não demorou nada, o amigo apareceu no stand vazio. Os olhos dele foram de %Niki% para %Sunoo%, que tinha as bochechas coradas e a mão coçando a nuca.
— Ah! Achei você! Pegou a foto? Nós tínhamos marcado para ensaiar assim que você pegasse. Fiquei te esperando no estúdio e nada…
— E aí resolveu vir atrás dele… claro, que idéia ótima! — Balbuciou %Sunoo%.
— O que você disse? — Ele colocou as mãos no bolso da calça de moletom cinza. Encarou %Sunoo%.
%Sunoo% não desviou, sustentou o olhar intimidador de %Jungwon%.
— Disse que ele já estava indo encontrar com você. Você me parece bem apressadinho.
%Jungwon% estreitou os olhos, achando o fotógrafo bem abusadinho.
— E você me parece abusado, afrontoso. Tira fotos das pessoas sem permissão, coloca elas numa feira universitária também sem permissão…
%Sunoo% abriu a boca num ‘o’ e se preparou para responder à altura.
— Acho que eu o seu amigo, já nos resolvemos por aqui. E ele já é bem grandinho e não precisa de um guarda-costas.
O corpo de %Jungwon% tenciona, ele fecha os punhos de forma automática. A mandíbula travando, ele se aproxima de %Niki% de forma instintiva.
%Jungwon% cruzou os braços, fazendo os músculos do mesmo flexionar, os treinos frequentes na academia ficando visíveis nos músculos tensionados. Os olhos dele inspecionam %Sunoo% de cima abaixo.
— Eu não sou guarda-costas. Eu sou amigo. E você deixou ele nervoso.
— Tá muito raivosinho para quem é só um amigo.
Os olhos de %Sunoo% pularam para %Niki%.
O mais alto umedeceu os lábios com a ponta da língua.
— Somos amigos sim. E isso não te interessa, chega! Vamos ensaiar %Jungwon%, eu já estava pronto para ir.
%Sunoo% sentiu como se tivesse levado um empurrão físico. Foi como se as mãos de %Niki% tivessem o empurrado para longe, bem longe dali.
Piscou devagar para engolir as lágrimas que ameaçavam se formar. Os dedos apertaram a câmera com mais força do que o necessário.
Curto. Cortante. Dolorido.
Os olhos de %Sunoo% encontraram os de %Niki% por um segundo longo demais. Não havia raiva ali. Só algo que parecia um pedido mudo para que ele não fosse.
%Jungwon% entrelaça os dedos nos de %Niki%, puxando-o rumo à saída do stand.
— Então vamos! Olha eu pensei num passo muito irado para a gente adicionar a coreografia, tenho certeza que você vai pirar!
E então %Niki% desvia os olhos de %Sunoo% e foca no amigo.
Um tapa teria doído menos. %Sunoo% abaixa a cabeça quando eles finalmente saem do stand.
— Nada que você não esteja acostumado %Sunoo%.
Ele balança a cabeça em negativa, tentando afastar todos os gatilhos de rejeição despertados por aquele simples momento.
%Sunoo% apoiou as duas mãos na mesa da exposição, sentindo os olhos arderem.
Não havia mais imagem alguma ali.
Mas havia um vazio que doía mais que a ausência do papel.
— Eu só quis te enxergar… — murmurou para ninguém.
Apertou a câmera contra o peito.
Pela primeira vez, desejou não ter tirado aquela foto.
Nota: E aí chuchus? Gostaram desse capítulo? Deixem suas opiniões para eu saber...