Capítulo Três
Terminou de arrumar a foto na exposição e se pôs a observá-la. Aquela foto tinha algo que prendia %Sunoo% de um jeito que ele não sabia como explicar. Talvez fosse a postura do dançarino misterioso, talvez fosse a aura que exalava do corpo e do jeito dele, talvez fosse a maneira como aquela fotografia parecia querer dizer algo…
%Sunoo% não sabia quem ele era, mas sabia que aquela foto era uma das mais incríveis que ele havia tirado em anos de fotografia amadora. Os olhos de %Sunoo% passeavam pela foto sem pudor e %Nari% pigarrou quando o primeiro grupo de estudantes chegou no stand deles.
— Você precisa parar de encarar essa foto como se esse
boyzinho fosse se materializar aqui na sua frente! — %Nari% sussurrou entre dentes, disfarçando e sorrindo para o grupo de alunos.
%Sunoo% também deu um sorriso forçado na direção do grupo que andava livremente pelo stand, admirando as fotografias. Os trinta e cinco alunos do curso estavam atraindo olhares e cada vez mais grupos de estudantes começavam a entrar no stand.
O mesmo era um mosaico de olhares e histórias. As paredes brancas estavam tomadas por fotografias de todos os estilos: retratos em preto e branco de rostos marcados pelo tempo, paisagens urbanas capturadas ao amanhecer, cenas cotidianas congeladas em instantes quase imperceptíveis — uma mão soltando um balão, um casal rindo sob a chuva, o reflexo distorcido de prédios em uma poça d’água.
Algumas imagens eram técnicas, impecáveis na luz e na composição; outras eram mais cruas, quase experimentais, brincando com sombras, movimento e desfoque. Havia fotos que arrancavam comentários baixos, sorrisos discretos, expressões pensativas. Os alunos se aproximavam, inclinavam a cabeça, apontavam detalhes uns aos outros, trocavam impressões em murmúrios animados.
Mas, entre todas elas, certas fotografias pareciam exigir mais tempo do olhar. Faziam as pessoas parar por alguns segundos a mais, como se algo ali estivesse tentando ser decifrado.
E, sem que %Sunoo% precisasse admitir em voz alta, ele sabia exatamente qual delas fazia isso.
A foto do dançarino não gritava. Ela chamava.
⭐⭐⭐
— Vamos buscar café, %Sunghoon%? Pra mim, para você, para a %Nari% e pro %Jay%?
%Sunghoon% terminou de olhar a fotografia do bailarino e mirou %Sunoo%, que agora estava a seu lado.
— Essa foto hipnotiza as pessoas. Até você, príncipe de gelo? — %Sunoo% lhe deu um breve empurrão com o cotovelo antes de gargalhar.
— Esse bailarino tem alguma coisa nele que prende as pessoas, você tem razão. Fez bem em ter capturado essa foto, mesmo que ele não saiba da existência dela. É uma obra de arte. — Foi a vez de %Sunghoon% olhar para o melhor amigo. — Vamos pegar os cafés.
Os dois saíram, deixando %Nari% sozinha com %Jay%. Os dois se olharam, um sorrisinho de canto brotou nos lábios de %Nari%.
— Que dia o Hoon vai ter coragem hein? Às vezes eu me sinto traindo o %Sunoo% por saber da informação e guardá-la. Fico remoendo isso a noite de vez em quando, você não?
%Jay% observou a tal fotografia do dançarino misterioso e depois olhou para %Nari%. Os olhos pequeninos dela brilhavam, e o brilho parecia com algo bem familiar: lágrimas.
— Eu também me sinto mal escondendo do %Sunoo%, não é só você. E aposto que o %Heeseung% também se sente mal, mas é complicado. Uma faca de dois gumes, se não traímos um, traímos o outro.
— Falando nisso, precisamos ir no stand dele, né? Ele deve estar uma pilha de nervos.
%Jay% assentiu que sim com a cabeça e logo mais uma leva de alunos adentrou o stand.
⭐⭐⭐
As fotografias com certeza chamavam atenção, especialmente as de pessoas. Pelo menos aos olhos de %Niki%, que observava as fotografias como se pudesse ler através delas. Como se conseguisse saber exatamente o que cada uma delas estava pensando na hora em que a fotografia era batida, e para %Niki% aquela era a verdadeira beleza daquele tipo de arte.
Os seres humanos e até os inanimados eram capturados sempre em sua forma mais bruta, pelo menos nas fotografias que ele havia analisado até agora.
— Uau, o pessoal da fotografia caprichou mesmo. — %Jungwon% passou um dos braços em volta do pescoço de %Niki%.
— Tudo muito interessante mesmo. — Resumiu %Niki% enquanto passeava os olhos pela fotografia de uma das grandes árvores da faculdade com alguns estudantes embaixo dela.
—
YAH! %NIKI%-AH, É VOCÊ AQUI! CORRE PARA VER. UAAAH, A FOTOGRAFIA FICOU INCRÍVEL! %Jake% gritou, atraindo a atenção, não somente do grupo deles, mas do restante dos alunos presentes.
%Niki% sentiu o corpo inteiro enrijecer no instante em que seu nome ecoou alto pelo espaço.
Ele virou o rosto no mesmo instante. %Jake% estava alguns metros à frente, perto de uma das paredes laterais do stand, parado demais para alguém que normalmente não conseguia ficar quieto. %Jungwon% acompanhou o olhar do amigo.
— O que foi agora? — perguntou, já caminhando na direção dele.
%Niki% foi atrás, dando apenas alguns passos, desviando de dois estudantes que observavam as fotos. Conforme se aproximava, percebeu que %Jake% encarava fixamente uma fotografia específica, os braços cruzados, a testa franzida.
— %Jake%? — chamou %Jungwon%.
%Jake% ergueu o braço e apontou, sem dizer nada.
%Niki% seguiu o gesto… e o chão pareceu sumir sob seus pés.
A sala de práticas. A luz baixa. O boné escondendo parte do rosto. O corpo capturado no exato instante em que se entregava ao movimento, sem plateia, sem defesa, sem saber que estava sendo observado.
O coração de %Niki% disparou.
— …essa foto… — murmurou, sem perceber que havia falado em voz alta.
%Jungwon% aproximou-se mais um pouco, reconhecendo o amigo no mesmo segundo.
— %Niki%… — a voz saiu baixa, cuidadosa. — É você.
%Jake% virou-se finalmente para eles.
— Eu disse — falou, ainda encarando a imagem. — Quando eu vi, soube na hora.
%Niki% deu um passo à frente, depois outro, até estar a poucos centímetros da fotografia. Os olhos percorriam cada detalhe como se tentassem entender quando, como,
quem.
— Eu não sabia que alguém tinha tirado isso.
%Jungwon% desviou o olhar para a pequena placa no canto inferior da moldura.
— O autor… — %Niki% leu. —
%Kim% %Seonwoo%. %Niki% repetiu o nome em silêncio, sentindo um aperto estranho no peito.
Onde quer que ele estivesse naquele momento, tinha capturado algo que %Niki% jamais entregaria conscientemente.
E agora… estava exposto ali.