Military Dignity – Endless War


Escrita porMaari F.
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo 17 • Welcome to the jungle

  %Annie% respirou fundo enquanto observava pela primeira vez a mansão da família Walker ficar cada vez maior em seu campo de visão, sentindo um calafrio percorrer a coluna e o estômago revirar de ansiedade.
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  A enorme propriedade um pouco mais afastada da cidade era famosa nacionalmente, imponente e elegante como nos cenários de filmes, provavelmente três vezes maior do que a mansão dos Alcântara.
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  A família Walker era conhecida há décadas no país, originalmente vinda do Reino Unido, ajudaram Shalom a se reconstruir após a primeira guerra e embora %Annie% nunca tenha se apegado tanto a meros detalhes da alta sociedade ainda não conseguia acreditar que ela estava ali.
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  Indo passar o final de semana naquela mansão.
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  A entrevista para a revista tinha sido adiada para uma semana, Walker havia explicado a %Annie% que a casa precisava de alguma mudança que ela não fez questão de saber, apenas concordou e no fundo agradeceu por isso.
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  Assim conseguiria tentar colocar seus pensamentos e sentimentos no lugar, digerir tudo o que tinha acontecido até então. Era muita coisa para assimilar em tão pouco tempo.
  Foi de Uber até a mansão depois que ele passou o endereço, Walker tinha alguma emergência com o secretário e %Annie% sugeriu que ela fosse sozinha até lá, seria ótimo para se preparar mentalmente para a entrevista e o tempo em que passaria sem sentir os olhos atentos de Walker sobre si.
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  Quando o carro parou na guarita de segurança da casa, %Annie% sentiu o coração bater contra as costelas enquanto o motorista conversava brevemente com o segurança que liberou a entrada em questão de segundos ao ouvir o nome da mulher em silêncio no banco de trás.
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  O carro entrou verdadeiramente na propriedade e fez a curva da enorme fonte do jardim principal, ela nem sabia o que admirar primeiro, nunca tinha estado em um lugar tão grande e tão intimidador antes.
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  Tinha tanta história ali que ela se sentia uma invasora, fora do lugar, e nem sequer tinha entrado ainda.
  %Annie% viu que Walker a esperava no topo da escada da entrada com a mesma postura rígida de sempre, braços livres ao lado do corpo, vestido com roupas sociais e os olhos atentos ao carro que parava. As mãos de %Annie% suaram e ela respirou fundo, sem saber direito se devia se sentir pequena, incerta ou deslocada. Era muito para ela.
  Walker desceu as escadas enquanto %Annie% agradecia o motorista e saía do carro, ajeitando sua bolsa no ombro. Ela sequer se preocupou em levar uma mala pequena pois ele tinha sido categórico que tudo o que ela precisava tinha na mansão.
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  E bem, ela já tinha visto isso antes no loft do Major, então sabia que ele tinha preparado detalhadamente tudo o que ela iria precisar para aqueles dois dias.
  Porém o vestido azul bebê que tinha escolhido parecia simples demais para adentrar aquela mansão, só que não era como se ela tivesse algo mais elegante do que aquilo, então uma parte de si ficou aliviada por Walker ter providenciado isso, a outra ficou estranhamente desconfortável.
  Depender dele até para escolher o que vestir não era bem o que queria.
  Ele parou uns dois degraus de %Annie% e sorriu contido para ela.
  - Seja bem vinda, %Annie%. - ela sorriu um pouco nervosa e ele estendeu a mão para ajudá-la a subir as escadas.
  - Obrigada. - respondeu em um sussurro e aceitou a ajuda, reparando como a mão de Walker estava fria como de costume.
  Ela sentia as pernas vacilarem a cada degrau que subia e quando ele soltou a mão dela, %Annie% juntou as mãos suadas na frente do corpo, os ombros encolhidos para dentro fazendo com que sua imagem se tornasse ainda mais frágil inconscientemente.
  Walker guiou %Annie% para o interior da mansão, uma mão firme em suas costas enquanto cruzavam a imponente porta de entrada.
  O hall de entrada era ainda mais impressionante que a fachada, teto alto com detalhes minuciosos, piso de mármore reluzente e uma escadaria dupla que se curvava elegantemente para o andar superior.
  Ela sentia como se tivesse acabado de entrar em um filme da antiga Hollywood.
  Uma fileira de empregados estava organizada no hall, todos em uniformes impecáveis com as mãos cruzadas para trás.
  %Annie% contou rapidamente sentindo as palmas das mãos suarem novamente ao encarar as sete pessoas.
  - Gostaria de apresentá-la à equipe que cuida da propriedade. - disse Walker, o tom formal e alto ecoava pela mansão. - Este é Henrique, mordomo principal.
  Um homem de idade avançada com cabelos grisalhos e postura ereta, inclinou levemente a cabeça.
  - É um prazer finalmente conhecê-la, senhorita %Madden%.
  %Annie% sorriu constrangida pela formalidade e assentiu sem saber o que dizer. Walker continuou as apresentações metodicamente.
  Jardineiro, cozinheira, motorista, cada um com seu nome e função claramente estabelecidos.
  Ela tentou memorizar os nomes, mas eles se embolaram em sua mente. Quando chegaram à última pessoa da fila, %Annie% sentiu um alívio familiar.
  Magda, a governanta que já conhecia daquela noite no apartamento de Walker, sorriu com genuíno carinho.
  - Magda você já conhece, é claro. - comentou Walker.
  - Que bom vê-la novamente. - %Annie% disse, sorrindo um pouco mais largo e de forma familiar para a mulher.
  - Seja bem-vinda. - respondeu Magda, retribuindo o sorriso de forma contida.
  Walker dispensou os funcionários com um aceno discreto e eles se dispersaram silenciosamente.
  - Vou mostrar a casa. - ele anunciou, guiando-a por salões cada vez mais grandiosos com estética européia que ela já estava esperando.
  Walker explicava os detalhes arquitetônicos da mansão como se fosse um protocolo, não demonstrava emoção latente embora ele tenha suspirado em frente ao retrato grandioso de seus pais em uma das paredes do corredor. Foram apenas pequenos segundos em frente a imagem mas foi o suficiente para %Annie% sentir a melancolia da mansão, não conhecia nem por artigos os pais de Walker então tudo o que tinha era o que estava à sua frente.
  A imagem gloriosa e imponente do senhor Walker, que ela percebeu uma certa familiaridade nos olhos, a figura franzina e elegante da senhora Walker segurando o Major ainda bebê.
  %Annie% se perguntou quantas vezes Major teve que seguir aquele roteiro ao longo de sua vida, quantas vezes seu coração afundou ao ver aquele retrato grudado na parede, mas foi apenas em frente a uma porta dupla de madeira escura que Walker baixou a voz.
  - Aqui era o escritório do meu pai. Hoje só uso para reuniões.
  As maçanetas brilhavam de uso, mas a parte alta da porta estava empoeirada e ela sequer pensou em mencionar.
  %Annie% sentiu-se deslocada mais uma vez, como se aquele espaço não fosse seu. Tinha uma névoa densa sobre sua cabeça desde que entrara na mansão, mas não conseguiu identificar do que se tratava, se era apenas a falta de jeito em estar em um ambiente que não estava acostumada ou se era o luto impregnado nas paredes.
  Para disfarçar, perguntou sobre o sistema de segurança. Diante de sensores, câmeras e persianas automáticas, Walker sorriu de verdade, falando de eficiência e controle, aquela era a sua zona de conforto. E até mesmo mencionou que %Annie% poderia baixar o aplicativo da câmera de segurança caso precisasse, ela não viu necessidade mas não descartou a hipótese.
  Ainda visitaram a sala de música com instrumentos raros, a biblioteca de três andares, a sala de jogos com bar e por fim, a estufa, onde o aroma das flores exóticas misturava-se ao cheiro de terra molhada. Foi ali que %Annie% se sentiu estranhamente familiar e ela engoliu seco ao perceber o porquê.
  A estufa lembrava muito o jardim da família %Mackie%.
  - É muita informação para absorver em um dia só. - %Annie% comentou coçando a nuca, sentindo-se pequena diante da magnitude do lugar.
  Walker sorriu bem diferente do que mostrava em público, menos robótico e mais genuíno.
  - Vamos para a varanda. O pôr-do-sol daqui é algo que vale a pena ver.
  Na varanda oeste, Walker estendeu a mão para a cadeira em um mudo sinal para que %Annie% se sentasse. O céu estava pintado em tons de laranja e rosa, as nuvens como algodão esticando sobre a propriedade. %Annie% sentou-se em uma das cadeiras de vime, observando o perfil de Walker contra a luz do entardecer, ele estava sério e focado.
  - Precisamos conversar sobre a entrevista. - ele disse, quebrando o silêncio. - Sobre a história que vamos contar.
  %Annie% sentiu um aperto no estômago. A mentira que teriam que sustentar parecia cada vez mais real, mais pesada.
  - Que história você acha melhor? - perguntou, tentando manter a voz firme.
  Walker respirou fundo, ainda observando o horizonte antes de responder.
  - A verdade, com algumas edições. - ele se virou para encará-la. - Podemos dizer que nos conhecemos através de amigos em comum, o que não é bem mentira. Que começamos a nos aproximar depois que você passou por um momento difícil. Também é verdade. - Walker continuou, apoiando-se na balaustrada da varanda enquanto %Annie% o encarava em silêncio, tinha uma incerteza em seus olhos que não iria cessar tão cedo. - E que nosso relacionamento se aprofundou naturalmente.
  - E quanto a... - ela fez um gesto vago em direção à própria barriga.
  Walker cruzou os braços e observou a paisagem atrás de %Annie% por um momento, como se buscasse as palavras certas no céu.
  - Diremos que estávamos planejando um futuro juntos quando descobrimos a gravidez. Que foi uma surpresa feliz que apenas adiantou nossos planos.
  %Annie% assentiu, embora seu estômago se contorcesse com a mentira. Não tinha sido assim e ambos sabiam, mas era uma história convincente, limpa, que não levantaria muitas questões.
  Não mudaria o fato de que %Annie% ainda iria registrar %Ryan% como pai de Angelina, informação que a mídia não precisava saber.
  - Vão perguntar sobre como nos apaixonamos. - ela observou, tentando imaginar as perguntas invasivas que certamente viriam.
  - Podemos dizer que foi gradual. Que admirávamos um ao outro, e que um dia… - ele hesitou, parecendo subitamente desconfortável. - percebemos que era mais que admiração.
  %Annie% sentiu o rosto esquentar. Era estranho fabricar uma história de amor com alguém que mal tinha intimidade, mesmo que para proteger a ambos.
  Ainda mais porque ela sabia que apenas um lado ali estava mentindo, Major tinha sido bem claro em relação ao que ele sentia por ela e isso parecia se tornar sufocante a cada vez que a mentira os arrastava para um mar ainda mais profundo.
  - Você já fez isso antes? - as palavras escaparam antes que pudesse contê-las.
  Walker franziu o cenho e voltou a encará-la.
  - Fiz o quê?
  - Inventou histórias para a imprensa. - ela desviou o olhar brevemente. - Sobre... relacionamentos.
  Um silêncio pesado se instalou entre eles. %Annie% viu a expressão dele endurecer por um instante, como se uma porta tivesse sido fechada.
  - Desculpe, não quis ser intrometida. - ela se apressou em dizer, receosa em ter parecido invasiva.
  Walker balançou a cabeça levemente, e para surpresa de %Annie%, sorriu de forma melancólica.
  - Não, você tem o direito de perguntar. - ele sentou-se na cadeira ao lado dela, mas não a olhou. - Eu me envolvi com alguém antes, mas precisei ser discreto.
  %Annie% piscou um tanto quanto surpresa com a revelação inesperada. Walker parecia diferente agora, mais acessível, baixando a guarda que mantinha constantemente erguida.
  Na época em que conversavam, o tópico ‘Vida amorosa do Major’ nunca foi explorado, embora %Annie% soubesse que ele tenha tido suas experiências, jamais tiveram esse tipo de conversa. Ele sabia mais sobre os detalhes da vida de %Annie%, ainda que fossem breves, do que o contrário.
  - Na verdade - ele continuou, juntando as mãos -, acho que você sabe quem é. Liz. Vocês se conheceram na festa da família %Mackie%. - o tom de Walker beirava a vergonha, como se admitir em voz alta fosse tornar o clima ainda mais estranho.
  Só que o nome caiu como uma pedra no estômago de %Annie%. Não estava errada então, sua intuição estava certa.
  Ela se limitou a apenas assentir com a cabeça, contendo a sua expressão que dizia ‘eu sabia’.
  - Eu a escoltei durante uma missão há alguns anos. Eu ainda era capitão, foi antes de eu te conhecer. - Walker explicou, seu olhar perdido no horizonte como se estivesse revivendo memórias distantes. - Ela estava fazendo pesquisa para um papel em uma região extremamente perigosa, na fronteira norte. Uma área controlada por facções.
  %Annie% se ajeitou na cadeira subitamente interessada, nunca tinha imaginado Walker nesse tipo de situação. Pensou que seu tempo no exército tinha sido mais rígido do que qualquer outro por causa de sua patente.
  - O Comando me designou como oficial responsável pela segurança dela. - continuou ele, passando a mão pelo cabelo em um gesto raro de nervosismo. - Achei que seria uma missão simples. Escoltar uma atriz mimada, mostrar alguns pontos seguros, levá-la de volta. Três dias, no máximo.
  Walker sorriu, balançando a cabeça como se não acreditasse na própria ingenuidade.
  - Mas tudo deu errado. No segundo dia, um grupo de rebeldes atacou uma vila próxima. As estradas foram bloqueadas, a zona aérea fechada. Ficamos presos lá por quase três semanas.
  %Annie% imaginou a cena. Walker, sempre tão controlado, preso em uma situação imprevisível com uma mulher que provavelmente questionava cada ordem sua e pior, que com certeza não obedecia.
  - Como vocês sobreviveram? - perguntou, genuinamente curiosa.
  - Tivemos que nos esconder em uma casa abandonada. Eu tinha treinamento para situações assim, mas ela… - ele fez uma pausa, como se escolhesse as palavras com cuidado. - Ela me surpreendeu. Liz não era nada do que eu esperava. Nada da imagem que a mídia criou dela.
  %Annie% notou algo diferente na voz dele, uma suavidade que nunca tinha percebido antes. Uma que ele provavelmente não usava há muito tempo.
  - Ela sabia acender fogo sem fósforos, conhecia plantas medicinais locais e falava o dialeto da região. - Walker inclinou-se para frente, olhos fixos em algum ponto distante além do jardim enquanto a brisa leve fazia o cabelo dele dançar suavemente. - Quando questionei, ela me contou que cresceu em uma aldeia pobre antes de ser descoberta por um agente. Toda aquela imagem de diva nacional era apenas um personagem que ela interpretava para o público.
  %Annie% observou a expressão de Walker suavizar cada vez mais enquanto ele falava. Era a primeira vez que o via tão à vontade, quase vulnerável. Tão humano.
  - No terceiro dia, perdemos contato com o Comando. Nosso rádio quebrou durante uma tempestade que inundou parte do esconderijo. - ele passou a mão pela nuca, mais um gesto raro de desconforto. - Estávamos completamente sozinhos, cercados por um território hostil, com suprimentos limitados e sem previsão de resgate.
  Walker se levantou, caminhando de volta até a balaustrada da varanda, dando uma pausa dramática a história que combinava com o céu que agora exibia as primeiras estrelas da noite.
  - Foi quando tudo mudou entre nós. - continuou ele, de costas para %Annie%. - Não havia mais hierarquia, nem papeis a desempenhar. Éramos apenas duas pessoas tentando sobreviver.
  %Annie% sentiu um nó se formar em sua garganta. Havia algo na voz dele, uma nota de nostalgia que a fazia imaginar o quanto aquela experiência o havia marcado.
  - Liz me ensinou a ver além das aparências. A questionar ordens quando necessário. - Walker voltou-se para ela com um sorriso melancólico. - E eu a ensinei a montar e desmontar uma pistola em trinta segundos.
  %Annie% não conseguiu conter a risada, e Walker a acompanhou. Por um momento, a tensão entre eles se dissipou completamente.
  - Passamos dezesseis dias naquela casa. - ele continuou. - Dezesseis dias compartilhando medos, histórias e silêncios. Quando finalmente conseguimos contato com uma patrulha aliada e fomos resgatados, percebi que algo havia mudado em mim.
  O silêncio que se seguiu pesava como chumbo. %Annie% esperou quieta, sentindo que havia mais naquela história e que Walker estava pronto para compartilhar aquele pedaço de si que parecia enterrado no fundo de sua memória.

  %Annie% se perguntou onde aquela Liz das lembranças de Walker estava, não conseguia imaginar aquela mulher arrogante e prepotente que conheceu ser tão espontânea.
  - Mantivemos contato depois disso. - Walker admitiu finalmente. - Discretamente, é claro. Um oficial de alta patente envolvido com uma celebridade seria um prato cheio para a imprensa. E havia questões de segurança também.
  - Quanto tempo durou? - %Annie% perguntou, a curiosidade corroendo-a por dentro.
  Walker ficou um longo instante em silêncio, o olhar perdido entre as sombras do jardim, como se buscasse uma resposta que não pesasse tanto. Quando respondeu, sua voz veio baixa, quase como uma confissão.
  - Pouco mais de um ano. Mas, para ser sincero, acho que nunca terminou de verdade. Nós dois sabíamos que era impossível, mas insistimos mesmo assim. Cada ligação, cada encontro era como… como respirar pela última vez antes de se afogar.
  A imagem ficou suspensa entre eles, dura e poética. %Annie% não sabia exatamente que tipo de resposta esperava, mas aquilo a desconcertou. Walker não era apenas o soldado rígido de sempre, havia ali um homem despedaçado por um amor não vivido plenamente.
  - Eu não sabia que Liz era casada quando me envolvi com ela. - Walker continuou, agora com um leve tremor nas mãos. - Descobri depois de meses, numa dessas visitas clandestinas, quando ela apareceu com uma aliança na mão e disse que ia pedir o divórcio. Achei que nossa vida juntos começaria ali, naquele instante. Mas ela hesitou. Sempre hesitou.
  %Annie% não sabia o que dizer. O silêncio era denso e o olhar de Walker não estava só distante, estava carregado de uma tristeza que fez %Annie% se compadecer de sua dor. Tentou imaginar Liz, a mulher pública, tentando conciliar tantas vidas ao mesmo tempo, tantas versões de si mesma que sequer podia mostrar para o mundo.
  Não tinha o direito de julgá-la e nem o faria, mesmo que não concordasse, não sabia o que de fato tinha acontecido para apontar o dedo para ela.
  Mas conseguia entender a rigidez de Walker e porque ele era tão fechado, não era o tipo de coisa que um soldado com honra gostaria de admitir em voz alta. Sabia que estava sendo difícil para ele ter que reviver tudo aquilo apenas para responder uma simples pergunta dela.
  - Eu não quis dizer isso… - %Annie% começou, mas Walker interrompeu com um gesto gentil, como se a poupasse do constrangimento de completar o pensamento.
  - Tudo bem. Uma hora você ia saber. - ele sorriu, um sorriso torto, mais ruga do que expressão.
  Walker voltou a se sentar, agora mais próximo de %Annie% e baixou a voz não por medo dos ouvidos da casa, mas porque certos segredos só existem quando sussurrados.
  - Ela estava prestes a se separar quando me contou que estava grávida - disse e %Annie% automaticamente prendeu a respiração -, jurava que o filho era meu. Pouco tempo depois, perdeu.
  %Annie% sentiu o próprio corpo tencionar, um reflexo involuntário de empatia. Levou as mãos até a barriga sentindo o coração afundar tentando imaginar o que era perder algo tão grande e, sobretudo, dar à perda um nome, um rosto, um destino abortado.
  Ela notou como o Major travou o maxilar e segurou o braço da cadeira com força até as pontas dos dedos ficarem brancas.
  - Walker - arriscou ela -, poderia ser…
  - Não, %Annie%. - ele interrompeu, desta vez definitivo. A voz era um bisturi, cortando a ilusão pela raiz.
  - Mas… - %Annie% tentou ainda assim.
  - A probabilidade de o filho ser meu era nula. - os olhos de Walker se fixaram nos dela, buscando talvez uma espécie de absolvição.
  Ela nunca imaginou que fosse ver uma tempestade de emoção na íris dele, não sabia o que identificar primeiro.
  - Como você tem tanta certeza?
  Walker ficou pálido. Pela primeira vez, parecia pequeno, frágil. Era como se estivesse despido na frente dela.
  - Porque eu sou estéril. - a frase saiu tão seca que %Annie% quase duvidou de tê-la ouvido. - Foi por isso que terminei com ela. Eu podia protegê-la, podia amá-la, mas não podia dar o que ela sempre quis. Uma família. Ela dizia que não importava, mas eu sabia que era mentira.
  O silêncio se espalhou como uma neblina. %Annie% manteve os olhos abaixados, respeitando o espaço íntimo do luto alheio. Pensou em Lynn, na mãe, em todos os silêncios cultivados por mulheres que amam homens irremediáveis. Pensou em Walker, carregando sozinho uma espécie de culpa que já não cabia mais em palavras.
  - E então eu apareci - disse %Annie%, tentando aliviar o peso das revelações -, grávida de outro e você assumindo. Deve ter sido difícil para ela.
  - Com certeza foi. - Walker admitiu, limpando a garganta. - Mas, se serve de consolo, Liz é resiliente. - o olhar dele suavizou, quase paternal. - E você? Vai sobreviver à entrevista amanhã?
  %Annie% soltou um riso nervoso, surpresa pela mudança brusca de assunto.
  - Acho que sim. Você tem algum conselho?
  Walker se levantou e num gesto inesperado tocou de leve o ombro dela.
  - Não se preocupe tanto em ser perfeita. A imprensa gosta de quem tropeça e se levanta sorrindo.
  O toque permaneceu queimando em sua pele mesmo quando ele se afastou.
  O resto da noite foi um borrão. %Annie% mal se lembrava de ter jantado, de ter trocado palavras formais com os empregados ou de ter subido a escadaria ampla em direção ao quarto de hóspedes. Só se recordava do silêncio na cama, de como aquele quarto era grande demais e ao mesmo tempo sufocante, frio e escuro. Dormiu pouco e mal. Não teve só um pesadelo, teve vários dos quais nem se lembrava, mas ainda estava agitada quando acordou cansada com os olhos secos. Desceu para o café já vestida adequadamente com um conjunto branco que realmente era o tipo de roupa que se espera de alguém da alta sociedade e maquiada, pronta para enfrentar a primeira entrevista ao lado de Walker, ainda que de forma intimista.
  A mansão estava mais silenciosa do que nunca, apenas Magda transitava entre os cômodos com seus passos cadenciados. %Annie% tomou café sozinha, sem apetite, até ser avisada que um carro estava chegando.
  O cenário da entrevista era uma sala de estar cuidadosamente montada para parecer espontânea. Sofá claro, mesa de centro com flores frescas, estantes com livros de capas novas e duras. Luzes portáteis e cabos grossos serpenteavam pelo chão. %Annie% sentiu o estômago revirar quando reconheceu a apresentadora famosa, uma mulher de voz grave e sorriso treinado para desmontar qualquer resistência.
  Walker chegou poucos minutos depois, de terno impecável e expressão profissional, mas %Annie% notou que o nó da gravata estava ligeiramente torto, um detalhe mínimo mas suficiente para lhe parecer humano.
  Foram posicionados no sofá, instruídos a sorrir e a não cruzar as pernas na direção oposta. %Annie% percebeu que as câmeras nunca apagavam de verdade mesmo nos intervalos, eram olhares onipresentes, registrando cada gesto seu deixando o ambiente cada vez mais tenso.
  A apresentadora começou com uma cordialidade quase artificial, primeiro dizendo seu nome como se eles não soubessem. Quando as luzes acenderam para valer, a mudança de atmosfera foi imediata.
  A mulher sorriu e olhou direto para Walker.
  - Major Walker - disse ela -, muita gente acredita que guerras e romances não combinam. Mas pelo jeito, foi o oposto que aconteceu com vocês.
  Walker abriu a boca para responder, mas o celular da jornalista vibrou sobre a mesa de centro com tanta intensidade que fez a taça de água tremular. %Annie% observou a mulher franzir a testa, olhando rapidamente para a tela.
  A mudança na expressão da entrevistadora foi instantânea, seus olhos se arregalaram, as sobrancelhas se arquearam, e ela olhou de Walker para %Annie% com uma curiosidade voraz.
  - Desculpem a interrupção - disse a jornalista, segurando o celular como se fosse uma carta de trunfo -, mas acabo de receber uma notificação bastante interessante.
  %Annie% sentiu um frio percorrer sua espinha, algo no tom da mulher a alarmou imediatamente.
  - Parece que a blogueira Melissa Torres acabou de publicar uma matéria com documentos médicos sugerindo que o pai biológico da sua filha é, na verdade, o falecido Capitão %Ryan% %Mackie%.
  O mundo pareceu desacelerar ao redor de %Annie%. Ela sentiu o sangue gelar nas veias enquanto observava a jornalista deslizar o dedo pela tela do celular, absorvendo mais informações com os olhos brilhando de excitação.
  Walker nem ao menos piscava ao seu lado.
  - Ela até mesmo postou uma foto exclusiva de vocês dois juntos, aparentemente tirada semanas antes do acidente dele. Uma fonte do hospital também confirmou que as datas são compatíveis.
  %Annie% não conseguia respirar, sentiu a mão de Walker apertar a sua com força excessiva, os dedos dele cravando em sua pele.
  Quando olhou para ele, viu seu rosto pálido, os maxilares travados em uma expressão que ela reconhecia bem, era a face de um homem prestes a entrar em uma batalha para ganhar.
  - Isso é um absurdo. - Walker começou, a voz controlada, mas com uma nota de tensão que %Annie% nunca tinha ouvido antes. - Essa blogueira está claramente tentando criar sensacionalismo barato com…
  - É verdade. - %Annie% o interrompeu, sua própria voz soando estranha aos seus ouvidos.
  Walker virou-se para ela, os olhos arregalados em choque e advertência. %Annie% sentiu o aperto em sua mão se intensificar a ponto de começar a doer, mas já havia tomado sua decisão.
  Estava cansada de mentiras, cansada de se esconder atrás de histórias fabricadas, cansada de fingir o que não sentia.
  - %Annie%, não precisamos discutir isso agora. - Walker murmurou entre dentes, forçando um sorriso para as câmeras.
  - Sim, precisamos. - ela insistiu, afastando a mão dele da sua. Ela nunca sentiu a garganta tão fechada e o peso em seu peito prestes a explodir. - %Ryan% %Mackie% era meu noivo. - ela admitiu, olhando diretamente para a câmera. - Quando ele morreu na missão, eu já estava grávida, mas não tinha descoberto ainda.
  A jornalista se inclinou para frente, visivelmente interessada em arrancar tudo o que podia daquela história.
  - Então o Major Walker não é o pai biológico da criança? - perguntou, com a voz doce e venenosa de quem acabara de encontrar uma mina de ouro.
  As luzes dos refletores pareciam quentes demais, invasivas demais. %Annie% viu o microfone direcional se aproximar ainda mais e ela respirou fundo, tentando inutilmente fazer o mundo ao seu redor parar de rodar com tanta pressa.
  Ao seu lado, Walker estava imóvel, o rosto uma máscara de pedra, mas ela podia sentir a tensão emanando dele.
  - Não, ele não é. - %Annie% confirmou, a voz mais firme agora. - O Major Walker me apoiou quando eu mais precisava, após perder %Ryan%. Ele… - ela hesitou, buscando as palavras certas. - Ele se sentiu responsável por mim. Era o superior de %Ryan%, e sempre respeitou nosso relacionamento.
  Walker finalmente se moveu, seus ombros relaxando quase imperceptivelmente. Ele se inclinou ligeiramente em direção a %Annie%, como se entendesse que ela estava lhe oferecendo uma saída, ainda que fosse uma que ocultasse grande parte da verdade.
  - Eu sempre admirei o Capitão %Mackie%. - Walker disse, a voz recuperando sua firmeza habitual. - Quando soube de sua morte, senti que era meu dever cuidar de %Annie%. O que começou como um senso de responsabilidade… - ele olhou para ela, e %Annie% viu algo vulnerável em seus olhos. - se transformou em algo mais.
  A jornalista os observava com avidez, absorvendo cada palavra, cada gesto. %Annie% podia praticamente ver as manchetes se formando na mente dela, os comentários, o falatório entre vizinhos, mas não podia mais voltar atrás.
  - Então vocês dois se apaixonaram depois da tragédia? - perguntou, a voz carregada de falsa compaixão.
  O suor frio escorria pelas costas de %Annie%. A mentira que acabara de criar parecia mais próxima da verdade que poderia contar. Não era a história completa, mas era uma que talvez pudesse proteger a todos.
  - Sim. - ela respondeu, forçando um pequeno sorriso. - Não foi algo que planejamos, mas aconteceu.
  Walker cobriu a mão dela com a sua e desta vez seu toque foi gentil. Ele tentava transmitir segurança para %Annie%, que não fazia ideia como não tinha colapsado ainda.
  - Eu me aproximei dela para honrar a memória de %Ryan%, para cumprir uma promessa silenciosa que fiz a um dos meus melhores oficiais. Mas %Annie%… - ele fez uma pausa, seus olhos encontrando os dela. - %Annie% é o tipo de mulher que muda algo em você, mesmo quando você acha que não há mais nada para mudar.
  Naquele momento, %Annie% percebeu que Walker não estava mentindo e muito menos atuando. A intensidade dos olhos dele tirou as palavras da boca dela.
  A jornalista sorriu, o tipo de sorriso que não alcançava os olhos. Seu celular vibrou novamente e ela o consultou rapidamente antes de voltar sua atenção ao casal.
  %Annie% engoliu seco, abaixando a cabeça e quebrando o contato visual enquanto Major não tirava os olhos dela.
  - A blogueira também menciona que vocês mantiveram isso em segredo por meses. Por que a decisão de esconder a verdadeira paternidade da criança?
  %Annie% sentiu o coração acelerar, cada pergunta era como pisar em um campo minado, e levantou a cabeça um pouco receosa para encontrar a jornalista com uma sobrancelha levantada.
  - Não estávamos escondendo. - manteve a voz em um tom suave. - Estávamos processando nossa dor, nossa nova realidade. %Ryan% era amado por muitas pessoas e eu queria preservar sua memória, garantir que sua filha conhecesse o legado do pai.
  Walker assentiu, assumindo uma expressão solene.
  - E como oficial superior, eu tinha preocupações com segurança. Precisávamos garantir que %Annie% e a criança estariam protegidas de qualquer atenção indesejada.
  A jornalista inclinou a cabeça, seus olhos brilhando com uma curiosidade que parecia quase predatória.
  - E quanto à família %Mackie%? Eles sabem que terão uma neta?
  A pergunta atingiu %Annie% como um golpe físico. Ela não tinha pensado na senhora %Mackie%, na forma como essa revelação pública a afetaria. Sentiu o sangue fugir de seu rosto.
  - Sim, eles sabem. - Walker respondeu por ela, sua voz firme. - Temos mantido contato discreto com a família.
  %Annie% lançou-lhe um olhar de surpresa, que ele ignorou habilmente.
  Contato discreto com a família?
  - Na verdade - Walker continuou -, a propriedade onde ocorrerá nosso casamento pertence à família %Mackie%. Foi um gesto deles, uma forma de honrar a memória de %Ryan% e incluí-lo simbolicamente neste momento importante.
  A jornalista pareceu momentaneamente sem palavras, seus olhos movendo-se rapidamente entre %Annie% e Walker, como se tentasse detectar qualquer sinal de mentira.
  %Annie% teve que controlar todas as suas forças para não olhar o Major novamente para perguntar silenciosamente por que ele tinha dito aquilo, levantaria suspeita.
  - Isso é... extraordinariamente generoso da parte deles.
  Walker percebeu o desconforto de %Annie% imediatamente. O modo como ela enrijeceu os ombros, o leve tremor nos cantos da boca, os olhos que não conseguiam fixar-se em um ponto.
  Antes que a jornalista pudesse elaborar outra pergunta incisiva, ele se inclinou para frente, cortando o fluxo da conversa.
  - Talvez a senhorita gostaria de conhecer o quarto que preparamos para Angelina. - disse ele, seu tom subitamente mais leve. - Fizemos algumas adaptações especiais na mansão para receber a pequena. Posso garantir que é um dos ambientes mais encantadores da casa.
  %Annie% virou-se para ele, os olhos arregalados em surpresa genuína.
  Quarto de Angelina? Que quarto?
  Ele não havia mencionado absolutamente nada sobre isso.
  Sentiu sangue do rosto esquentar quando a jornalista desviou o olhar da expressão confusa dela para o sorriso controlado de Walker.
  - Adoraria ver. - a mulher respondeu, já se levantando, o interesse renovado em sua voz. - Imagino que tenham escolhido o melhor para a filha do falecido herói nacional.
  %Annie% permaneceu sentada por mais um segundo, as mãos apertando o tecido da saia, tentando processar o que acabava de ouvir. Walker estendeu a mão para ajudá-la a levantar, seus dedos frios encontrando os dela, transmitindo uma pressão quase imperceptível, um aviso silencioso para que ela seguisse o roteiro improvisado.
  - Fizemos algumas modificações na ala leste. - Walker explicou enquanto guiava as duas mulheres pelo corredor. - O cômodo tem a melhor luz natural da casa, perfeita para um bebê.
  %Annie% seguia um passo atrás sentindo como se as pernas fossem cimento, observando a nuca rígida de Walker, as orelhas ligeiramente avermelhadas, o único sinal visível de que ele também estava sob pressão. Ela tentava imaginar o que encontraria nesse suposto quarto.
  Seria mais uma mentira elaborada? Ou ele realmente havia preparado um espaço para uma criança que nem mesmo considerava sua?
  Quando Walker parou diante de uma porta branca com detalhes dourados, %Annie% prendeu a respiração. Ele girou a maçaneta com uma lentidão teatral e deu um passo para o lado, permitindo que ela entrasse primeiro.
  O que viu a deixou sem palavras.
  O quarto era amplo e arejado, pintado em tons suaves de lilás e creme. Uma janela do piso ao teto deixava entrar a luz natural que Walker havia mencionado, iluminando um berço de madeira clara, impecavelmente montado no centro do ambiente. Móbiles delicados pendiam do teto e nas prateleiras embutidas havia pelúcias, livros infantis e pequenos objetos decorativos que pareciam ter sido escolhidos com extremo cuidado. Até a poltrona no canto combinava com o ambiente infantil.
  %Annie% sentiu o ar escapar de seus pulmões, olhou para Walker com uma mistura de confusão e surpresa, incapaz de esconder sua reação.
  Ele não havia mencionado absolutamente nada sobre um quarto para Angelina.
  Quando? Como? Por quê?
  - Espero que goste. - Walker disse, sua voz mais suave do que o habitual. - Magda me ajudou com os detalhes. Disse que toda criança merece um espaço especial, mesmo que não passe todo o tempo aqui.
  A jornalista já circulava pelo quarto, tocando os lençóis, examinando os pequenos detalhes, sua câmera registrando cada centímetro do ambiente. %Annie% permaneceu paralisada na entrada, incapaz de dar mais um passo.
  - Isso é... inesperado. - conseguiu dizer finalmente, as palavras saindo entrecortadas.
  Walker se aproximou, colocando-se ao seu lado, tão próximo que ela podia sentir o calor emanando dele.
  E então ele a tocou receoso no meio de sua coluna, %Annie% não sabia se queria espaço ou se ele continuasse ali antes que suas pernas vacilassem de vez.
  - Queria fazer uma surpresa. - ele murmurou, apenas para que ela ouvisse. - Pensei que talvez pudesse agradar.
  %Annie% não sabia como reagir.
  O gesto era ao mesmo tempo doce e profundamente perturbador. Walker havia criado um espaço perfeito para uma criança que não era sua, em uma casa que ela mal conhecia e que nem cogitava morar tão cedo, sem sequer consultá-la. Ela nem sequer planejava ficar naquela casa por muito tempo.
  Era uma demonstração de controle disfarçada de carinho?
  - É lindo. - a jornalista comentou, aproximando-se deles novamente. - E esses detalhes em dourado no berço... parecem as mesmas insígnias do uniforme de gala do exército, não é mesmo?
  Walker assentiu, o orgulho evidente em seu porte.
  - Um pequeno tributo. Para que ela nunca esqueça de onde vem.
  %Annie% sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Havia algo de possessivo na forma como Walker falava de Angelina, como se já a considerasse parte de seu legado, de sua história.
  - Veja isso, %Annie%. - a jornalista apontou para uma pequena placa dourada na lateral do berço. - Tem o nome dela gravado.
  %Annie% se aproximou, o coração acelerado.
  Angelina %Mackie% Walker.
  A combinação dos sobrenomes fez seu estômago revirar enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Ele não tinha o direito de tomar decisões assim sem consultá-la, não tinha o direito de criar esse espaço perfeito que a fazia sentir-se simultaneamente grata e violada.
  Walker percebeu a mudança na expressão dela. Viu as mãos de %Annie% tremerem levemente enquanto tocava a placa dourada, notou a palidez que tomou seu rosto. Imediatamente, colocou-se entre ela e a jornalista.
  - Na verdade - ele disse, com um sorriso ensaiado -, acho que já mostramos o suficiente por hoje. A senhorita %Madden% precisa descansar. O médico recomendou que ela não se exceda neste período.
  A jornalista franziu o cenho, claramente desapontada com a interrupção. %Annie% rapidamente engoliu seco e piscou mais do que o normal para afastar as lágrimas, precisava se recompor.
  - Mas ainda temos tantas perguntas sobre…
  - Talvez possamos continuar em outra ocasião. - Walker a interrompeu com firmeza, sua mão encontrando discretamente as costas de %Annie% novamente, oferecendo um apoio que ela não pedira. - %Annie% tem uma consulta médica mais tarde. Estamos muito atentos à saúde dela e da bebê.
  %Annie% sentiu um frio na espinha com o toque dele. Queria gritar, queria exigir explicações, queria saber por que ele havia preparado um quarto para sua filha sem sequer mencionar. Mas as câmeras ainda estavam ligadas, a jornalista ainda observava cada reação, cada troca de olhares.
  Tinha uma mentira para manter.
  - É verdade. - ela conseguiu dizer, forçando um sorriso. - Preciso me cuidar.
  A jornalista, percebendo que o ambiente havia se tornado repentinamente denso, hesitou antes de guardar o gravador. O olhar dela, que antes vasculhava o quarto em busca de detalhes noticiáveis, agora se demorava nos rostos de %Annie% e Walker, farejando o subtexto invisível flutuando entre eles.
  - Acho que já temos material suficiente. - disse, dobrando o bloco de anotações e lançando um último olhar para a placa dourada no berço. - Os leitores vão adorar saber sobre este quarto encantador, sem dúvida. Mas… - ela sorriu e por um segundo %Annie% acreditou que a entrevista havia terminado ali. - Major, posso fazer só mais uma pergunta?
  Walker ainda com a mão nas costas de %Annie%, assentiu, o maxilar travando por um instante.
  - Na sua experiência - começou a jornalista, com uma teatralidade calculada -, vale tudo no amor e na guerra?
  A pergunta, ao contrário do que %Annie% esperava, não foi lançada ao acaso. Walker inspirou profundamente, o peito se expandindo sob a farda impecável e invisível. Em vez de responder imediatamente, virou-se para %Annie%, fitando-a por um tempo que pareceu interminável.
  Naquele olhar, %Annie% viu uma súplica muda, uma pergunta que ele jamais poderia formular diante das câmeras. Havia ali orgulho e medo, ternura e raiva, um pedido de desculpas e ao mesmo tempo uma exigência férrea de lealdade. Pela primeira vez, %Annie% percebeu que Walker não era apenas um homem tentando controlar a narrativa, ele também estava à deriva nela, lutando contra as marés de expectativas, promessas e segredos que ameaçavam engoli-lo.
  Mas ela também viu um fogo que a deixou amedrontada porque era o tipo que consome você por inteiro, deixando rastros visíveis por onde passa.
  A jornalista percebeu o embate silencioso e se remexeu, desconfortável diante da intensidade do momento.
  %Annie% quase sentiu pena dela. Quase.
  - Sim. - disse Walker, a voz tensa de emoção contida. - Principalmente no amor.
  A resposta ficou suspensa no ar, %Annie% percebeu que suas mãos ainda tremiam e por isso colocou-as atrás do corpo.
  Angelina %Mackie% Walker.
  O nome parecia grudar na língua, impossível de cuspir ou engolir. O olhar de Walker ainda estava sobre ela, esperando, suplicando, exigindo.
  A jornalista pigarreou, mais uma vez tentando assumir o controle da situação.
  - Bem, agradeço muito pela sinceridade. Creio que o público vai se identificar com a história de vocês.
  Walker apenas assentiu, mas não moveu um músculo para conduzi-la de volta ao escritório. %Annie% sentiu o peso da mão dele pressionar suas costas, como se quisesse impedir que ela se desfizesse em pedaços ali mesmo ou para garantir que ela não iria sair correndo.
  - Se precisar de mais alguma coisa, sabe onde me encontrar. - disse finalmente, indo para a porta e abrindo para a jornalista.
  A mulher se despediu com um aceno breve, mas seus olhos pairaram sobre %Annie% por um instante, cheios de perguntas não feitas. E então ela se foi, os passos ecoando pelo corredor.
  Walker fechou a porta devagar. Por um segundo, o silêncio foi absoluto exceto pelo próprio som da respiração de %Annie%. Ela percebeu, com um pequeno choque, que estava chorando. Não lágrimas ruidosas ou dramáticas, mas as pequenas gotas silenciosas que escorrem sem permissão, traindo tudo o que as palavras tentam esconder.
  Walker se aproximou devagar, ajeitando o colarinho como se precisasse de tempo para encontrar as palavras certas.
  - Não esperava isso. - ele disse, a voz rouca. - Mas achei que você gostaria de saber que, aconteça o que acontecer, não vai estar sozinha.
  %Annie% encarou o berço, tentando imaginar como seria a vida de uma menina com um nome forjado de tantas mentiras e tantas expectativas. Não sabia se conseguia perdoar Walker por tudo aquilo, pela manipulação, pela surpresa, pelo desejo de que ela simplesmente aceitasse a nova versão dos fatos.

[...]

[Quem quiser ler enquanto escuta Telescope do Starset, eu sugiro :)]

  %Annie% olhava para o céu escuro com melancolia. Estava sentindo falta de tantas coisas, seu quarto, da sua casa, da sua antiga versão.
  Ela se sentia sozinha ali, mesmo depois que Walker tivesse garantido que ela não estaria.
  Depois da entrevista, ele precisou voltar para a base e ela não sabia que horas ele retornaria. O que a fez visitar novamente cada canto da casa em busca de uma distração qualquer, uma que a fizesse esquecer completamente aquela maldita entrevista. Deu certo até um determinado momento, após comer o jantar sozinha e voltar para o quarto, enquanto os empregados finalizavam suas devidas funções, ela não pôde parar de pensar no que havia acontecido.
  Esperava que tivesse sido convincente o suficiente para a jornalista e lutou contra todas as suas forças para não pesquisar sobre o artigo escrito pela blogueira que detalhava seu relacionamento com %Ryan%, na verdade Mia já tinha feito o trabalho ao mandar mensagem para a amiga perguntando se ela estava bem após ter sua história vazada.
  Embora tenha se sentido na beira de um abismo, a história chegou em boa hora. Não conseguia mais mentir sobre sua história com Major com tanta maestria sem citar %Ryan% para todo mundo.
  Não fazia ideia de como conseguiram aquela foto dos dois, mas tão pouco se importava, não iria tomar medidas judiciais como Walker havia sugerido nas entrelinhas logo após anunciar que voltaria a trabalhar.
  Acariciou a barriga devagar e suspirou enquanto fechava a enorme cortina.
  Sorriu conversando com a sua filha, era algo que estava se tornando rotina antes de dormir.
  De repente, antes que pudesse se deitar na cama todas as luzes se apagaram e demorou para se acostumar com o breu.
  %Annie% andou até a porta e observou que o corredor estava escuro também, fazendo-a bufar.
  Aquela seria provavelmente mais uma noite em que não dormiria direito.
  Estava com preguiça de ir até o andar de baixo para procurar Magda, na verdade pelo horário imaginava que todos os empregados estivessem dormindo no anexo, e com certeza não conseguiria chamá-los pelo telefone.
  %Annie% fez menção de se deitar na cama quando escutou um barulho de uma forma anormal, franzindo a testa ela foi em direção a janela do seu quarto para olhar uma fresta da cortina.
  Ela imaginou que veria apenas um vento forte já que a temporada de chuva continuava, porém seu coração parou na garganta quando viu uma movimentação esquisita, coçou os olhos para ter certeza de que tinha visto uma pessoa vestida de preto dos pés a cabeça andar em passos largos pela entrada.
  %Annie% se manteve descalça e pegou o celular em cima da cama, em um ímpeto saiu do quarto sentindo o coração pulsar forte contra suas costelas, assim que ela chegou ao hall já perfeitamente acostumada com a escuridão e pôde ter visão completa do andar debaixo conseguiu ver pelo menos 3 pessoas armadas invadindo a casa.
  Arregalando os olhos, ela deu passos para trás enquanto as mãos que agora estavam geladas se ocupavam de discar o número da emergência.
  Em passos largos e silenciosos, ela correu para a primeira porta aberta que achou, sendo do escritório do Major e colocou o telefone no ouvido.
  - Polícia Militar, emergência.
  %Annie% engoliu seco antes de responder.
  - Estão invadindo a minha casa.
  - A senhora consegue me passar o endereço?
  - Sim. - a voz de %Annie% estava trêmula, mas ela conseguiu passar as informações necessárias à policial e foi quando ela ouviu passos mais próximos.
  - A senhora consegue ver os invasores?
  - Eu vi 3, estão no andar de baixo. Não sei se tem mais. - ela correu para se esconder debaixo da grande mesa de Walker.
  As pernas de %Annie% estavam tremendo e assim como as mãos geladas, ela estava tão apavorada que levaria poucos segundos para começar a chorar.
  - A viatura está a caminho. Não saia do telefone.
  %Annie% concordou com a cabeça mesmo que a policial do outro lado da linha não pudesse ver.
  - Estão armados?
  - Sim. - ela sussurrou ao ouvir passos subindo as escadas. - Por favor, me ajude, eu estou grávida. Eles vão me encontrar.
  - Fique comigo na linha, ok? A polícia está a 7 minutos.
  Os olhos de %Annie% encheram de lágrimas enquanto a mão trêmula ia até a testa, o dedo mindinho dela parecia estar formigando e um frio correu a espinha.
  7 minutos seria o suficiente para que eles varressem a casa.
  Foi então que se arrependeu de ter ido até o escritório. Era óbvio que o primeiro lugar que eles iriam vasculhar era ali, provavelmente em busca de algum cofre e Major com certeza era como a maioria dos ricos que guardava seus pertences mais valiosos no cofre atrás de um quadro ou dentro da maior gaveta da mesa.
  O máximo que ela podia fazer era se encolher debaixo da mesa e torcer para que ninguém a visse ali.
  - Consegue ver onde eles estão agora?
  %Annie% tentou não fazer nenhum barulho e levantou o suficiente para que os olhos vissem por cima da mesa, conseguiu ver 4 silhuetas com armas e agarrou o celular quando os olhos de um deles encontrou os dela.
  Sem força na voz e o corpo arrepiando por completo, já prevendo o que viria, ela ficou parada enquanto via o último homem avançar para ir de encontro a ela.
  %Annie% nunca havia sentido o medo tomar conta de seus ossos como naquele momento, que pareceu acontecer a sua frente em uma velocidade muito lenta.
  Assim que o homem levantou a arma, outra silhueta apareceu por trás e levantou a arma, que fora disparada para cima.
  Foi então que tudo passou rápido demais diante dos olhos dela.
  As duas figuras começaram a lutar enquanto, mesmo ouvindo a voz da policial chamar de longe por %Annie%, ela não pôde responder já que não tinha forças para nem ao menos piscar, quem dirá falar.
  Um deles caiu no chão enquanto os outros três foram atingidos por tiros da arma da quinta pessoa.
  %Annie% estava aterrorizada, não sabia o que aquela pessoa que até então tinha salvado-a iria fazer, mal deu tempo de criar uma teoria já que mais homens subiram as escadas em passos barulhentos e lutaram com o homem que ainda estava de pé.
  %Annie% não sabia se era efeito da adrenalina em seu corpo ou das lágrimas que estavam formadas e prontas para cair, mas ela não só conhecia aquele estilo de luta como havia sido treinada por ele.
  Com o coração na boca, ela se colocou de pé. Seu salvador lutava com maestria, desarmava qualquer um que apontava a arma para ele e depois os colocava para dormir, com golpes no rosto e rasteiras que os tiraram do chão apenas para as cabeças acertarem o chão primeiro em um baque alto junto com os resmungos. Os corpos se juntavam em uma pilha, ela tinha perdido a conta de quantos tinham caído sem vida ali na sua frente.
  Quando o último homem caiu, o até então salvador parou respirando fundo, ele estava de costas para %Annie% que o observava atentamente com uma expressão de surpresa e esperança.
  Embora estivesse no puro breu, ela reconheceria aquela silhueta até mesmo do outro lado do continente.
  Ele virou o rosto para encará-la, o rosto estava coberto com uma máscara preta que deixava apenas os olhos à vista, foi por isso que %Annie% ficou na dúvida, mas quando os olhos se encontraram, ela soube que era verdade.
  - %Ryan%. - ela sussurrou mas tinha certeza de que no silêncio da mansão ele podia ouvir.
  Ninguém no mundo faria sua nuca arrepiar só com um olhar além dele.
  O celular caiu de sua mão sem que ela ao menos se desse conta, seus olhos presos nos dele.
  %Annie% escutava as sirenes distantes, a policial chamá-la pelo telefone caído na mesa, mas seu corpo e sua atenção estavam voltados apenas para o homem à sua frente. Este parecia menos surpreso do que ela, mas com um brilho de culpa.
  Ela queria correr até ele, se jogar nos braços dele, mas suas pernas estavam duras, paralisadas com a batalha interna que travava.
  Sua razão dizia que aquilo era uma ilusão, uma projeção de seu luto.
  Sua emoção dizia que ela estava certa. Era %Ryan% na sua frente.
  Ele estava ali para salvá-la, para tirá-la daquele poço sem fundo em que estava.
  Quando as sirenes se fixaram na entrada da casa, %Annie% se desesperou e deu passos para trás, indo em direção a janela para ver as três viaturas estacionando.
  Ela voltou a olhar para o corredor, mas tudo o que via agora eram os corpos caídos, essa era a única prova de que seu salvador esteve ali e que tudo o que assistiu não foi uma ilusão, porque nem ao menos a sombra dele estava mais lá.
  %Annie% correu para fora do escritório à procura do homem, olhou para todos os lados confusa enquanto a polícia entrava na mansão.
  Ele tinha que estar ali, algum sinal, qualquer coisa.
  Como alguém podia desaparecer em um simples piscar de olhos?

[...]

  Era apenas um final de semana.
  Era só uma entrevista.
  Era só uma mentira.
  E tudo isso parecia se estender junto com aquela longa madrugada, tornando a casa ainda mais sufocante.
  %Annie% estava tonta, não conseguiu se manter de pé graças as pernas bambas, além é claro de estar completamente cansada e confusa.
  Magda apareceu ao seu lado em algum momento como uma sombra protetora. Abraçou %Annie% com delicadeza permanecendo em silêncio e ficou sentada ao lado dela no sofá mais distante da entrada, onde um policial uniformizado fazia perguntas técnicas ao Major Walker.
  O Major mal a olhou quando entrou, ela sabia que ele tinha sido chamado assim que a polícia conseguiu encontrá-la segura e parada no segundo andar, mas %Annie% percebeu no apertar dos lábios dele a contrariedade de vê-la naquele estado. Afinal, ela era uma responsabilidade dele, oficial e pessoal. Aquele escândalo seria o prato cheio para as manchetes e por isso talvez o semblante dele oscilasse entre preocupação genuína e fúria contida.
  Assim que %Annie% voltou a realidade quando os primeiros policiais chegaram, começou a falar coisas desconexas, tentou explicar para a polícia que alguém tinha salvado sua vida e por isso os invasores estavam caídos no chão, mas acabou ficando ainda mais turbulento quando perguntaram quem.
  Em algum momento o nome de %Ryan% escapou entre seus lábios e os olhares se tornaram de dúvida ou talvez pena, como se ela estivesse em surto pós-traumático, e não houvesse a mínima chance de %Ryan% %Mackie% estar vivo, muito menos de tê-la salvado.
  A cada nova pergunta, %Annie% sentia a convicção se dissipar. As evidências físicas eram irrefutáveis, homens armados e mortos no chão, marcas de luta por toda a casa, sangue escorrendo pelas paredes do corredor e respingos nas maçanetas, mas nada provava que fora %Ryan% e sim que algum anjo desconhecido evitara o pior.
  O dia clareou de vez e com ele os empregados começaram a surgir, agrupados na cozinha e à beira das escadas, fingindo arrumar pratos e varrer cacos de vidro para disfarçar a curiosidade.
  Os peritos tiravam fotos de tudo. Dois homens passaram com sacos plásticos cheios de projéteis e luvas ensanguentadas, e até então %Annie% não conseguia entender se havia presenciado um milagre ou um pesadelo. Sabia apenas que estava viva e que sentia um buraco maior no peito do que antes.
  %Ryan% esteve ali. Ou ela estava louca.
  As duas opções eram igualmente angustiantes. Tinha decorado o tom dos olhos dele, e nunca, nem mesmo diante da morte se confundiria.
  Por volta das oito, Walker acompanhado do policial responsável, entrou na sala e pediu a %Annie% que revisse o depoimento com eles. Magda ficou o tempo todo ao lado dela, apertando sua mão com delicadeza tentando reconforta-la silenciosamente.
  A cada resposta, %Annie% percebia o tom descrente das perguntas.
  - Tem certeza do que viu? Reconheceu a pessoa com clareza?
  - Sim. - respondeu com a voz firme, mas sentia que ninguém ali realmente acreditava. - Conseguiram algum rastro dele? - perguntou, a curiosidade corroendo sua garganta.
  - Nada. - o policial apenas respondeu em um tom neutro. - Nenhuma pegada, nenhuma impressão digital, nenhuma evidência de que alguém saiu da casa além dos invasores. Nem mesmo sinais de que alguém tenha se ferido ou fugido às pressas.
  O silêncio que se instalou era opressivo, e %Annie% sentiu o rosto arder. Talvez realmente estivesse louca.
  O policial então sugeriu que %Annie% descansasse, ela quis rir ao ouvir, como se fosse conseguir pregar os olhos em algum momento.
  Antes do meio-dia, a casa já estava parcialmente limpa do sangue, mas ainda havia manchas difíceis de ignorar.
  Walker dava telefonemas, talvez para garantir que aquela história não vazasse para ninguém da imprensa, foi o que %Annie% escutou vagamente já que se manteve alheia a tudo, olhando para fora, tentando encontrar sentido no jardim. Ela criava teorias em sua cabeça, mas nenhuma era boa o suficiente, faltava uma peça, algum motivo que ela não conseguia nem fantasiar sobre.
  Avisou Michelle antes de comer, praticamente implorou para que não contasse aos pais o que realmente tinha acontecido. A preocupação da cunhada aqueceu seu coração, mas ela não pôde dizer tudo o que de fato tinha presenciado e apenas respondeu que assim que chegasse em casa, iriam conversar.
  Pouco depois do almoço silencioso, Walker foi até ela. Parecia ainda mais cansado que de costume, o rosto pálido, as olheiras profundas.
  Se sentou de frente para %Annie% e demorou um instante antes de falar, o silêncio entre eles foi preenchido pelo zunido dos helicópteros que circulavam à distância.
  - Você disse aos policiais que conhecia o cara.
  %Annie% respirou fundo, é claro que teria aquela conversa agora.
  - Eu achei que era… - nem mesmo a voz fraca de %Annie% fez com que ele a deixasse terminar a frase.
  - Mas é impossível, não é? - Walker sustentou o olhar e %Annie% colocou o cabelo atrás da orelha, incerta se queria mesmo ter aquela conversa. - Nós dois sabemos por quê.
  - Você quer mesmo falar sobre isso agora, Walker? - ela perguntou, visivelmente cansada.
  O Major juntou as mãos, apoiando os cotovelos nos joelhos.
  - Teremos que ter essa conversa em algum momento, não? - retrucou e ela respirou fundo mais uma vez. - Sabe o que me deixa mais triste? Ver nos seus olhos a esperança de que ele vai passar por aquela porta a qualquer momento.
  Ela o encarou e viu os olhos dele marejados.
  Ele não só parecia de coração partido. Ele estava de coração partido.
  - Eu já devia esperar que os seus olhos não me procuram e sim ele. Não é a primeira vez, de qualquer forma. - ele riu, sem humor.
  %Annie% franziu a testa, levantando da poltrona que estava.
  - Do que você está falando? - perguntou, confusa.
  O Major a acompanhou, levantou-se e ficou na frente dela, mas não a tocou.
  - Sabe, eu ainda me lembro do exato momento em que eu te encontrei no aeroporto. - o olhar de Walker estava perdido nas lembranças. - Você estava tão linda e tão vulnerável, eu só queria ter você. Eu nem ao menos tive tempo para falar com você.
  - Mas você estava com Joe. - ela lembrou, sem entender.
  - Não é desse dia que eu te conheço. - ele admitiu, deixando-a ainda mais confusa. - Você usava uma blusa branca, calça jeans clara e um sapato branco, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo bem alto e deixava seu rosto bem visível, mesmo com o rosto vermelho e cheio de lágrimas você ainda estava tão linda. Estava com os seus pais. Você olhou na minha direção. - Major sorriu triste ainda encarando o nada. - Mas não foi para mim que você olhou, foi para ele.
  %Annie% sentiu o queixo cair.
  O último dia que %Annie% viu %Ryan% depois que eles se separaram.
  Aquela trágica noite onde ela teve seu coração partido para depois ter a pior quase despedida na manhã seguinte.
  - Eu lembro exatamente da forma como você o olhava, com tanto amor e tristeza, eu queria tirar esse último dos seus olhos. - Walker pareceu voltar para a realidade e se aproximou de %Annie%, levando uma mão até o queixo dela, fazendo-a encará-lo sem palavras. - Você foi feita para amar, %Annie%. E eu daria tudo o que eu tinha para que esse amor fosse para mim.
  Ela engoliu seco.
  - Walker…
  - Ele nunca mereceu o seu amor. - falou com raiva. - Ele sempre te fez chorar e você ainda continua esperando que ele vai aparecer, mas ele não vai. Sua vida está muito melhor sem ele.
  - Como você pode falar isso? - perguntou, ofendida tentando se desvencilhar da mão dele.
  - Ele é uma cobra infiltrada. Um traidor! - falou alto e %Annie% se afastou, negando com a cabeça. - Por que você acha que ele morreu?
  Ela ficou sem palavras, a garganta seca sem entender do que ele falava.
  - Porque ele estava no lugar errado na hora errada!
  - Não! - Walker respondeu tão alto que ecoou pela casa, fazendo %Annie% pular de susto. - Porque %Ryan% é um traidor, esse tempo todo ele estava alimentando nossos inimigos com informações confidenciais. Lutando dos dois lados para benefício próprio.
  - Isso é mentira! - %Annie% riu, desacreditada.
  - Mentira? - Walker riu amargo, passando a mão pelos cabelos já desalinhados. - %Annie%, nós encontramos provas. Documentos, transferências bancárias, comunicações codificadas. Tudo apontando para ele.
  %Annie% sentiu o chão desaparecer sob seus pés. As paredes da sala pareciam se fechar ao seu redor, sufocando-a com cada palavra que saía da boca de Walker.
  - %Ryan% deu a vida pelo país, pela equipe, por...
  - Por dinheiro! - Walker interrompeu, aproximando-se dela com olhos suplicantes. - %Annie%, eu sei que é difícil aceitar. Também fui enganado por ele. Trabalhamos juntos por anos e nunca suspeitei.
  Ela negou com a cabeça.
  - Pare! - ela gritou, sentindo lágrimas quentes escorrerem pelo rosto. - Você sempre o invejou. Sempre quis o que era dele.
  Walker ficou imóvel por um momento, como se as palavras dela tivessem sido um tapa em seu rosto, enquanto %Annie% abraçava o próprio corpo em busca de conforto.
  Quando ele falou novamente, sua voz estava mais suave, quase quebrada.
  - Incluindo você? Sim. Não vou negar. - ele deu um passo hesitante em sua direção. - Mas isso não muda os fatos. Estou tentando te proteger. Esses rebeldes vieram atrás de você porque acreditam que você sabe de algo, que %Ryan% pode ter lhe contado algo.
  - Ele nunca falava sobre o trabalho comigo - %Annie% rebateu, mas uma pequena semente de dúvida começava a brotar em seu peito.
  - %Annie%, eu te amo. - as palavras saíram abruptamente desesperadas e %Annie% prendeu a respiração. - Te amo há anos em silêncio, respeitando o que você tinha com %Ryan%. Mas agora preciso que enxergue a verdade. Por você e pelo bebê.
  Ela recuou como se tivesse levado um choque. As palavras de amor misturavam-se às acusações contra %Ryan%, criando uma confusão dolorosa em sua mente.
  - Você não tem o direito... - ela começou, mas as palavras falharam.
  - Tenho provas. Posso mostrar tudo a você amanhã na base. - Walker tentou segurar sua mão, mas ela se esquivou. - %Annie%, por favor.
  - Me deixe em paz! - %Annie% gritou, afastando-se rapidamente.
  Sentiu como se todo o ar tivesse sido sugado da sala. Walker ficou parado com o braço estendido no vazio, mas ela não esperou que ele dissesse mais nada.
  Saiu disparada pelo corredor, tropeçando nos próprios pés. A cada passo, o gosto amargo da traição e da dúvida enrolava em sua língua.
  Mal ouviu Magda chamando seu nome ou o som dos próprios soluços ecoando pela mansão.
  %Annie% queria apenas distância, o máximo possível. De Walker, das acusações contra %Ryan%, da terrível euforia que sentia por um segundo ao desconfiar que talvez, só talvez, %Ryan% estivesse mesmo vivo. Para então ser esmagada de novo pela suspeita, pelo medo, pelo luto que não tinha fim.
  Subiu as escadas puxando-se pelo corrimão, os dedos brancos de tanta força que usava e o corpo inteiro tremendo. Abriu a porta do quarto com brutalidade, trancou-a atrás de si e desabou no chão.
  Ficou ali deitada de lado no tapete em posição fetal enquanto tudo o que a tentava sufocar nos últimos meses avançava como um rio sem barragem. A noite do atentado, a última conversa com %Ryan%, o olhar terno e devastado dele como se ele já soubesse que aquela fosse a despedida definitiva.
  Lembrava da sensação do toque dele em sua pele, das palavras sussurradas na escuridão, das promessas de que seria para sempre mesmo sabendo que desde o começo eles estavam fadados ao fim. Que estavam amaldiçoados a nunca terem o seu final feliz.
  As lágrimas vinham quentes e grossas, como se ardessem de raiva e de amor ao mesmo tempo.
  Demorou algum tempo até que se permitisse levantar, ela se sentou na beira da cama, puxou os joelhos ao peito e ficou ali olhando para o nada.
  Tentava reconstruir o que sabia.
  %Ryan% morto, %Ryan% traidor, %Ryan% salvador, %Ryan% distante e agora, talvez, %Ryan% inimigo.
  Como tudo podia caber na mesma pessoa? Como ela poderia odiá-lo e amá-lo tanto ao mesmo tempo?
  O telefone vibrou de novo na cabeceira, mas %Annie% não atendeu. Deixou o aparelho vibrando até o som cessar, depois o silêncio voltou a crescer, até ser cortado apenas pelos seus próprios soluços esporádicos.
  Foi assim, sozinha e sem forças, que %Annie% finalmente adormeceu, os olhos inchados de chorar, a boca seca pelo sal das lágrimas e o coração latejando com as perguntas que ninguém jamais responderia.

[...]

  %Annie% acordou com um sobressalto, coração disparado e a garganta seca. Por um instante, ficou desorientada no quarto escuro, até que as lembranças voltaram como um soco no estômago.
  Os invasores. Os tiros. O homem mascarado que lutava como %Ryan%. As acusações do Major.
  Seu celular indicava 5:38 da manhã e se surpreendeu por ter dormido tanto.
  Ela esfregou o rosto, sentindo a pele inchada pelo choro enquanto os olhos estavam secos e pesados.
  Respirou fundo, sentando-se devagar na cama já que o corpo inteiro doía, se sentia tão incomodada naquela mansão que decidiu voltar para a sua casa. Não queria ficar ali mais nem um segundo.
  Porém sua cabeça começou a raciocinar.
  Um nome surgiu em sua mente como um bote salva-vidas. André. Se alguém poderia ajudá-la a entender o que aconteceu, era ele.
  Sem pensar duas vezes, %Annie% levantou-se e trocou de roupa rapidamente. Colocou as suas verdadeiras roupas, que Magda já tinha lavado com rapidez.
  Ao lembrar da governanta, pegou seu celular e acessou o aplicativo de segurança da mansão, suas mãos tremiam enquanto ela baixava as imagens da câmera do corredor para seu telefone.
  Magda havia mostrado como acessar o sistema após a entrevista, com certeza imaginou que %Annie% havia se mudado oficialmente para a mansão e que teria todos os privilégios de madame da casa, ela sequer se importou em falar a verdade porque tinha se sentido falsamente segura com o fato de ter domínio das câmeras. E agora isso seria muito útil para o que precisava fazer.
  Desceu as escadas silenciosamente. A mansão ainda dormia, com exceção de um policial que cochilava na entrada. %Annie% saiu pelos fundos enquanto pedia um Uber pelo celular, ajeitando a sua bolsa no ombro, tinha pegado tudo o que havia trazido para a mansão, ou seja, nada.
  O endereço de André estava salvo em seu celular desde o funeral de %Ryan%. Ela nunca imaginou que precisaria visitá-lo, muito menos nessas circunstâncias.
  Quarenta minutos depois, o carro estacionou em frente a uma casa modesta nos subúrbios da cidade, %Annie% agradeceu o motorista e saiu do carro, observando o prédio com receio.
  Ela hesitou um instante antes de tocar a campainha. E se André também não acreditasse nela? E se ele tivesse sido parte da conspiração que Walker mencionou?
  Respirou fundo e apertou o botão, alguns segundos depois ouviu passos se aproximando.
  A porta se abriu e André apareceu, olhos semicerrados de sono, vestindo apenas uma calça de moletom. Ao reconhecê-la, seu semblante mudou instantaneamente para surpresa e preocupação.
  - %Annie%? O que aconteceu?
  Ela engoliu seco.
  - Preciso da sua ajuda. - ela disse, a voz mais firme do que esperava. - Posso entrar?
  André abriu mais a porta, gesticulando para que ela entrasse.
  - Claro, claro. Ravena está na cozinha. - por puro instinto, ele olhou a redondeza do lado de fora e ao perceber que tudo estava normal, fechou a porta.
  André a guiou até a cozinha, onde o aroma de café recém-passado enchia o ar. Ravena estava de pé junto ao fogão, vestindo um roupão florido, os cabelos presos num rabo de cavalo alto.
  Quando viu %Annie%, seus olhos se arregalaram.
  - %Annie%! Meu Deus, o que aconteceu? - Ravena abandonou a chaleira no fogo e correu para abraçá-la.
  %Annie% sentiu o calor do abraço de Ravena e quase desabou. Segurou as lágrimas, piscando rapidamente enquanto se afastava.
  - Houve uma invasão na mansão do Walker ontem à noite. - explicou, a voz trêmula. - Homens armados. Eles... eles teriam me matado se não fosse por alguém que apareceu do nada. - falou, revezando o olhar entre ambos.
  As expressões preocupadas e confusas espelhavam uma à outra, o casal conversava apenas pela troca de olhar.
  André franziu a testa, subitamente alerta.
  - Sente-se. Vou pegar uma camisa.
  Enquanto ele saía, Ravena conduziu %Annie% até uma cadeira na pequena mesa de madeira e colocou uma xícara à sua frente, gesticulando em silêncio para que ela se servisse do que quisesse. A mesa estava cheia e convidativa mas %Annie% só tinha fome de uma única coisa naquele momento.
  Respostas.
  - Você está ferida? - perguntou Ravena, examinando-a com olhos preocupados.
  %Annie% balançou a cabeça.
  - Não fisicamente.
  Ravena uniu os lábios, uma reação que %Annie% estava acostumada a receber desde então, era o tipo de coisa que as pessoas faziam quando não sabiam o que dizer a ela.
  André voltou usando uma camiseta cinza desbotada, sentou-se de frente para %Annie% com os cotovelos apoiados na mesa, o semblante sério.
  - Agora me conte exatamente o que aconteceu.
  %Annie% respirou fundo e narrou os eventos. Porque estava na mansão Walker, a queda de energia, os homens mascarados invadindo a mansão, o telefonema para a polícia.
  Sua voz falhou quando chegou à parte sobre o misterioso salvador.
  - Ele lutava como… - %Annie% hesitou, os olhos fixos na xícara à sua frente. - Como o %Ryan%.
  Um silêncio pesado caiu sobre a cozinha. André e Ravena trocaram um olhar que %Annie% não conseguiu decifrar.
  - %Annie% - começou André, escolhendo as palavras com cuidado -, entendo por que você veio até mim. Mas precisa entender que é praticamente impossível que tenha sido ele.
  Ela negou com a cabeça.
  - Eu sei o que vi. - insistiu %Annie%, erguendo os olhos para encará-lo. - A forma como ele se movia, como lutava... eu reconheceria em qualquer lugar. - ela puxou o celular do bolso ao ver que André abria a boca para responder. - Consegui salvar parte da gravação das câmeras de segurança. Preciso que você veja.
  André estendeu a mão e pegou o celular de %Annie%, seu rosto se transformando numa máscara de concentração. Ele deslizou o dedo pela tela e apertou o play.
  %Annie% observou André enquanto ele assistia, notando como sua respiração mudava, como seus olhos se estreitaram, analisando cada movimento com a precisão de quem conhecia aquela linguagem corporal intimamente.
  - Espera. - murmurou ele, congelando a imagem no exato momento em que o rosto mascarado do homem se virava para a câmera.
  %Annie% esticou o pescoço para ver melhor enquanto Ravena se aproximava, colocando uma mão reconfortante em seu ombro.
  - Não tem como identificar com certeza. - disse André finalmente, sua voz cautelosa, enquanto usava os dedos como uma pinça para ampliar a imagem. - A qualidade é baixa demais e ele está usando máscara.
  Ela respirou fundo e olhou para Ravena antes de continuar.
  - Eu olhei nos olhos dele. - Ravena prendeu a atenção em %Annie%, lendo sua expressão de angústia e certeza. - Era ele. - %Annie% suspirou, não queria se desfazer daquela pontinha de esperança que instalou em seu peito. - A forma como ele luta. - insistiu, sentindo o coração disparar e voltou a olhar para André. - Você reconhece, não é? Aquela sequência de movimentos quando ele desarma o segundo homem, era do %Ryan%.
  André devolveu o celular, evitando seu olhar.
  - Muitos de nós aprendemos as mesmas técnicas, %Annie%.
  - Não estou louca. - afirmou ela, a voz trêmula de frustração.
  Ravena se moveu para lavar a louça que estava suja, o silêncio na cozinha quebrado apenas pelo canto dos pássaros do lado de fora da casa.
  - Por que você salvou esse vídeo? - perguntou ela suavemente, de costas para eles. - Por que não deixou com a polícia?
  %Annie% respirou fundo e se permitiu ficar em silêncio por um segundo. As palavras de Walker ecoavam em sua mente, as acusações contra %Ryan%, as supostas provas de traição.
  - Não confio na investigação. - confessou finalmente. - Algo está errado. Walker disse coisas sobre %Ryan%... acusações de traição, de trabalhar para os rebeldes. E agora esse ataque, esse homem que luta exatamente como ele...
  André se inclinou para frente, os olhos subitamente em alerta.
  - Espera… Que tipo de acusações?
  - Documentos, transferências bancárias, comunicações codificadas sobre %Ryan% ter se aliado ao inimigo. - %Annie% repetiu as palavras de Walker, sentindo-as amargas.
  André coçou o queixo, o olhar distante como se analisasse uma equação complexa.
  - Existem algumas possibilidades aqui. - disse ele, levantando-se para caminhar pela pequena cozinha. - A mais provável é que estejamos lidando com um rebelde renegado.
  - Renegado? - perguntou %Annie%, acompanhando-o com o olhar.
  - Alguém que saiu do grupo dos rebeldes. Talvez alguém que esteja tentando corrigir seus erros. - André parou junto à janela, observando o sol nascente por entre as cortinas. - Não seria a primeira vez que vemos dissidências dentro do grupo. Especialmente depois da morte de Vincent, eles começaram a ampliar os ataques a civis.
  O coração de %Annie% acelerou.
  - Mas por que ele estaria me protegendo?
  - Talvez você represente algo para ele. Um símbolo de inocência em uma guerra suja. - André fez uma pausa, o olhar pesado. - Ou talvez ele tenha alguma conexão com %Ryan% que desconhecemos.
  %Annie% sentiu um calafrio percorrer por toda a sua espinha, a ideia de ser um peão em um jogo maior a deixava nauseada.
  Sua cabeça agora trabalhava a todo vapor, se lembrando de momentos importantes.
  E foi então que %Annie% se lembrou do desenho, aquele mesmo que continha o rosto do assaltante com os traços iguais aos de %Ryan%.
  Era só coincidência? Ou aquele rebelde renegado estava observando-a há algum tempo? Será que tinha sido ele?
  - Qualquer um poderia imitar a técnica de luta do %Ryan%? - a pergunta escapou antes que pudesse contê-la. - Poderia ser alguém apenas... fingindo ser ele?
  André balançou a cabeça lentamente, os olhos fixos nos dela.
  - Não, %Annie%. Mesmo quando treinamos as mesmas técnicas, cada um tem sua execução única. - ele fez uma pausa, como se escolhesse as palavras com cuidado. - É como uma impressão digital. Podemos aprender os mesmos golpes, mas a forma como o corpo se move, os reflexos, os instintos... isso não se copia.
  Ravena se aproximou, observando a amiga com bastante atenção, quase como se conseguisse ler os pensamentos dela até se virar para o marido e colocar a mão no braço dele.
  - O que você está pensando, André?
  Ele suspirou profundamente.
  - Estou pensando que precisamos de mais informações antes de tirar conclusões. - ele apoiou a mão em cima da de Ravena e trocaram um olhar enigmático.
  %Annie% sentiu uma onda de desespero.
  - Então você acha que eu estou vendo coisas? Que estou projetando %Ryan% em um estranho qualquer?
  - Não foi isso que eu disse. - André negou com a cabeça antes de se aproximar de %Annie% e agachar ao seu lado. - Estou dizendo que algo muito estranho está acontecendo, e que precisamos entender sem entrar em desespero.
  %Annie% quase riu se não estivesse tão tensa, desesperada era uma palavra que a descrevia bem.
  O silêncio pairou entre eles por alguns instantes, pesado das possibilidades não ditas.
  %Annie% concordou com a cabeça, sua expressão visivelmente cansada não apenas fisicamente, mas principalmente emocionalmente.
  Por que aquele pesadelo nunca acabava?
  - E as acusações contra %Ryan%? - perguntou %Annie%.
  André levou o dedão até a boca, mordendo a pele ao lado da unha.
  - Não posso afirmar com certeza que são falsas, mas também não acredito nelas sem provas concretas. - respondeu ele após um momento de reflexão. - %Ryan% tinha seus segredos, isso é fato. Todos nós temos na equipe Alfa. Mas traição? Isso vai contra tudo o que conheci dele.
  %Annie% assentiu. Tinha algo nessa afirmação de Walker que não batia com a realidade, %Ryan% não poderia ter enganado a todos.
  Não por tanto tempo.
  - Eu não sei mais o que acreditar. - confessou, passando a mão no cabelo. - Em quem acreditar.
  - Acredite no amor que %Ryan% sentia por você. - %Annie% retribuiu o olhar de André com incerteza. Não sabia mais se só isso era suficiente. - Um homem que foi contra ordens diretas por sua causa não poderia ser um traidor.
  Espera… O quê?
  - Do que você está falando?
  André coçou a nuca, parecia que tinha falado mais do que deveria.
  - %Ryan% nunca te contou o que aconteceu quando você se tornou refém do Vincent? - questionou cautelosamente.
  - Não exatamente, eu sei que ele não obedeceu alguém, mas ele nunca falou mais a fundo. - ela deu de ombros, franzindo o cenho.
  - Quer saber, que se dane, eu não tô mais na equipe mesmo. %Ryan% foi contra a ordem do Major que impedia de te resgatar.
  O queixo de %Annie% caiu e a cozinha caiu em mais um silêncio, dessa vez agonizante.
  - Me explica. - suplicou.
  - Major não tinha autorizado o seu resgate, ele sempre dependeu muito de decisões políticas naquela época, na verdade ainda é assim, só que para o %Ryan% isso não fazia a menor diferença. - %Annie% sentia o coração aquecer a cada palavra que saía da boca de André. - Ele discutiu com o Major no nosso canal, era aberto, qualquer um podia escutar a briga. Ele acusou o Walker e depois agiu para te salvar por conta própria.
  Ela levou a mão até a garganta que se fechava enquanto lágrimas se formavam.
  Tinha plena noção que %Ryan% tinha ido contra as ordens de alguém, ele falou no hospital que foi contra o general, mas como ele nunca mais tocou no assunto ela achou que tinha sido delírio da medicação.
  Mas agora ela sabia a verdade.
  - Depois disso, deram a missão mais impossível para a equipe e o comando tinha que ser do %Ryan%, foi a forma que acharam de puni-lo considerando que o Presidente não queria rebaixá-lo.
  - Qual era a missão? - %Annie% perguntou, sem se importar se deveria ou não saber.
  - Achar o líder terrorista e capturá-lo. Vincent era só o bode expiatório.
  - Eu sei. - %Annie% recebeu olhares surpresos. - Eu acessei o sistema do secretário e li o relatório.
  - Como? - Ravena perguntou e %Annie% viu no rosto de André como ele também estava chocado.
  - No dia da explosão, quando eu desmaiei me levaram para a sala do Secretário, eu tinha acesso e entrei para descobrir onde a missão tinha sido para ir atrás do %Ryan%. - explicou. - Eu sei que foi errado, mas eu não consegui ficar parada.
  André sorriu de lado.
  - %Ryan% sempre disse que você tinha essa força em você. Por isso que ele te amava tanto.
  %Annie% o olhou com gratidão. Era esse o tipo de coisa que precisava ouvir das pessoas mais próximas a %Ryan%, porque ela sabia que era real.
  Era a única coisa na qual podia se agarrar.
  - Vamos te ajudar, %Annie%. Não está sozinha nessa. - Ravena afirmou com a voz suave, mas determinada. Então se virou para o marido. - André, precisamos de um telefone seguro. O celular dela provavelmente está comprometido.
  André assentiu, levantando-se com um movimento fluido.
  - Você tem razão. Se Walker está envolvido nisso, ele tem acesso a praticamente tudo. - ele passou a mão pelo cabelo curto. - Tenho um celular antigo no quarto, com um chip pré-pago. Difícil de rastrear. Vou buscá-lo.
  Enquanto os passos dele se afastavam pelo corredor, %Annie% sentiu o peso da culpa se instalando em seu peito.
  Essas pessoas tinham suas próprias vidas, seus próprios problemas.
  E agora ela estava arrastando-os para o meio de algo potencialmente perigoso. Algo que ela nem sequer fazia ideia do que era.
  - Ravena, eu sinto muito por envolver vocês nisso. - murmurou, observando a xícara. - Se algo acontecer com vocês por minha causa...
  %Annie% foi interrompida pela mão de Ravena que pousou delicadamente sobre a sua, transmitindo força através do calor.
  - Não faça isso. - disse em um tom gentil, mas firme. - Se o Major está escondendo algo, eu quero saber. Nunca perdoei aquele homem pelo que fez com André.
  %Annie% franziu a testa, confusa.
  - Como assim? Achei que André fosse o único que ainda estava na equipe Alfa.
  Ravena soltou uma risada curta, sem humor.
  - Foi o que ele te disse? - ela balançou a cabeça, os olhos escurecendo com a memória. - André ficou apenas duas semanas depois que %Ryan%... depois do incidente. Então, de repente, ele foi transferido para o almoxarifado. Da elite do Comando para contar caixas de munição e arquivar relatórios.
  %Annie% sentiu como se tivesse levado um tapa. Mais uma peça do quebra-cabeça que não se encaixava na história que Walker havia contado.
  - Eu não sabia. - admitiu, a voz baixa.
  - Por isso André aceitou te ajudar tão rápido. - Ravena continuou baixando a voz como se temesse que alguém pudesse ouvir. - Ele suspeita que há muito mais por trás da morte de %Ryan% do que querem que acreditemos.
  O queixo de %Annie% caiu sem que ela pudesse parar, cada nova informação parecia abrir mais perguntas.
  - O que exatamente aconteceu com André? Por que ele foi transferido?
  Ravena hesitou, os dedos tamborilando nervosamente na mesa.
  - Ele começou a fazer perguntas. Sobre a missão final de %Ryan%, sobre os relatórios que não batiam. Questionou algumas inconsistências na versão oficial. - ela fez uma pausa, olhando para a porta por onde André havia saído. - Uma semana depois, recebeu ordens de transferência. Coincidência?
  %Annie% sentiu o estômago se contrair. Quantas pessoas haviam sido silenciadas? Quantas peças do quebra-cabeça estavam espalhadas, escondidas em cantos escuros onde ninguém ousava procurar?
  Seu sangue borbulhava de raiva misturado com uma sede de vingança. Quanto mais mexia naquela história, mais descobria que na verdade não sabia de nada.
  Só que ela não podia viver no escuro o resto da vida. Precisava de respostas.
  Os passos de André ecoaram pelo corredor, interrompendo seus pensamentos. Ele reapareceu na cozinha carregando um celular antigo e um carregador, o colocou na mesa diante de %Annie%.
  Ela se levantou, ajeitando a bolsa no ombro. O movimento fez Angelina se mexer, um pequeno chute que a lembrou do que estava em jogo. Não era apenas sua vida que estava em perigo.
  - Pegue. Sem GPS, sem aplicativos rastreáveis. Só faz e recebe chamadas. - explicou. - O número já está gravado na minha agenda. Se precisar de algo, é só ligar.
  %Annie% pegou o aparelho e encarou com esperança, como algo tão simples e tão pesado parecia ser seu bote salva-vidas?
  - %Annie%, escute com atenção. - André cruzou os braços, baixando a voz mesmo estando na segurança de sua própria casa, e %Annie% o encarou seriamente. - A partir de agora, você precisa agir como se nada tivesse acontecido. Volte para a sua casa, faça o que o Major mandar e principalmente - ele fez uma pausa significativa, seus olhos intensos fixos nos dela -, não mencione que me procurou ou que mostrou essa gravação para alguém.
  - Mas e se o Walker perguntar onde eu estive? - a ansiedade fez a voz de %Annie% tremer.
  - Diga que precisava de ar, que saiu para pensar. - Ravena interveio. - Que estava confusa e assustada. Não é mentira.
  André assentiu.
  - Se Walker ou qualquer outra pessoa perguntar sobre o homem que te salvou, continue com o que já disse. Que não conseguiu ver o rosto dele direito, que tudo aconteceu muito rápido.
  %Annie% sentiu um nó se formar em sua garganta.
  - Você acha que Walker está escondendo algo?
  Ela sabia a resposta, era nítido que algo estava acontecendo, mas precisava ouvir isso de alguém.
  - Não sei. - André respondeu com sinceridade. - Mas sei que informação é poder e neste momento, é melhor que eles pensem que você sabe menos do que realmente sabe.
  %Annie% apenas concordou com a cabeça em silêncio.
  - Me prometa uma coisa.
  - O quê?
  - Que vai se proteger. Que não vai confrontar Walker nem fazer nada impulsivo. - a seriedade no rosto de André fez %Annie% engolir seco. - Se o homem que te salvou for quem pensamos que é, ou mesmo se for alguém tentando se passar por ele, há muito mais em jogo do que imaginamos.
  %Annie% assentiu, sentindo o peso da promessa triplicar em seus ombros.
  - Eu vou me cuidar.
  André a acompanhou até a porta enquanto Ravena vinha logo atrás. O sol já tinha nascido completamente, indicando que aquele longo dia estava apenas começando.
  - Mantenha esse telefone sempre com você. - André recomendou, sua voz baixa. - Esconda-o bem. Se descobrirem, diga que comprou por precaução depois do ataque.
  %Annie% guardou o aparelho na bolsa e observou os dois.
  - Obrigada. Por tudo.
  Ravena abraçou-a com força e %Annie% retribuiu, um pouco trêmula.
  - Cuide-se. E cuide dessa pequena.
  %Annie% saiu dali caminhando até uma avenida mais movimentada e chamou o Uber, enquanto olhava ao redor desconfiada.
  Agora tinha a sensação de estar sendo observada e ficou aliviada quando o carro chegou rápido. Tudo o que queria era ir para casa.
  %Annie% manteve os olhos fixos na rua, a mente processando tudo o que havia descoberto, as palavras de André.
  Se não era %Ryan% quem a salvara, se ela tivesse realmente visto errado, então era alguém que lutava exatamente como ele. E isso abria um universo de possibilidades que ela mal conseguia compreender.
  Ela nem sabia se queria compreender.
  Ao chegar em casa, %Annie% encontrou Michelle sentada no sofá, entretida com a série que passava na tv.
  %Annie% passou os olhos rapidamente e quando viu que a temática era militar, desviou os olhos para a cunhada.
  - Bom dia! - Michelle sorriu de leve. - Achei que ia chegar mais tarde.
  %Annie% engoliu seco. Tudo parecia normal, mas então por que ela sentia que não?
  - Walker é um homem muito ocupado, não quis ficar naquela mansão sozinha. - %Annie% desconversou e olhou em volta, desconfiada.
  Ela nem ao menos sabia o que procurava.
  Michelle levantou a sobrancelha.
  - Tá tudo bem por aqui? - perguntou apreensiva e viu a cunhada concordar com a cabeça.
  - Seus pais ainda estão dormindo. - explicou e %Annie% concordou com a cabeça. - Como foi a entrevista?
  Foi impossível não sentir os ombros enrijecerem com a pergunta inocente de Michelle, %Annie% até tentou disfarçar, mas sabia que a cunhada era esperta demais para perceber a tensão que tomou conta dela.
  - Como eu imaginava. - foi tudo o que disse em um tom que mais parecia um pedido de socorro.
  Michelle abriu a boca, parecendo hesitar enquanto analisava %Annie%.
  O peso do telefone que André havia lhe dado parecia queimar dentro da bolsa.
  - Ah sim, chegou algo para você ontem. Da Lynn.
  %Annie% franziu a testa ao ouvir o nome da amiga, é claro que Lynn iria cumprir com a promessa de enviar o presente.
  E ela sempre tinha o timing perfeito.
  Michelle saiu brevemente para pegar o presente e voltou com uma caixa de tamanho médio, embrulhada em papel pardo, repousando-a sobre a mesa de centro. A etiqueta com o nome de %Annie% estava escrita com a caligrafia inconfundível de Lynn.
  - Ela ligou para confirmar se você recebeu. - comentou Michelle, mantendo uma distância respeitosa enquanto %Annie% se aproximava do pacote. - Parecia preocupada. Eu deixei o presente da Angelina no seu quarto.
  %Annie% tocou o pacote com dedos hesitantes, sentou-se no sofá e o puxou para seu colo, desfazendo o embrulho com cuidado. Dentro da caixa, encontrou um álbum de capa dura, encadernado em tecido verde-musgo.
  Seu coração acelerou quando viu as iniciais gravadas na capa "R & A".
  Sentindo os olhos se encherem de lágrimas, passou os dedos sobre as letras.
  - Vou deixar você à vontade. - Michelle murmurou, retirando-se silenciosamente após %Annie% a olhar agradecida.
  Ela abriu o álbum com as mãos trêmulas. Na primeira página, uma mensagem escrita à mão:
  Para que Angelina conheça seu pai através dos nossos olhos. Com amor, Lynn e Connor.
  As lágrimas agora tinham a missão de embaçar sua visão, ela piscou rapidamente, tentando afastá-las para poder ver as fotos.
  Todas em que ambos apareciam no casamento de Lynn e Connor, desde os bastidores até a festa.
  Um sorriso triste e apaixonado surgiu nos lábios de %Annie% ao encarar a foto de %Ryan% se arrumando no quarto dos padrinhos. Cada foto era como uma pequena janela para um passado que parecia pertencer a outra vida. Havia imagens dela e %Ryan% dançando no casamento, os olhos dele fixos nela com uma intensidade que mesmo congelada no papel, ainda fazia seu coração disparar.
  Ela ainda sentia a textura dos lábios dele nos seus.
  Nas fotos da cerimônia, %Ryan% aparecia em todas com um olhar apaixonado direcionado a ela que sorria largamente. Ainda se lembrava da forma como os olhos dele a fizeram se sentir tão segura e amada naquele dia.
  Em outra, ela, %Ryan%, Lynn e Connor erguiam taças em um brinde, sorrisos amplos e despreocupados.
  %Annie% parou em uma foto específica.
  Era durante o jantar. %Ryan% estava inclinado em sua direção, sussurrando algo em seu ouvido enquanto ela sorria, olhos fechados em uma expressão de pura felicidade.
  Ela lembrava exatamente do que ele tinha dito.
  "Poderia ficar assim para sempre."
  %Annie% foi então tomada por uma memória tão distante, mas tão viva que a fez sentir todos os arrepios daquela noite novamente.

  Há 3 anos e 4 meses. Centro da cidade.
20:30 PM

  Lynn jamais deixaria passar a oportunidade de ter o encontro duplo que haviam apostado na festa de aniversário de Matheus, mesmo que nenhum deles de fato tivesse ganhado no futebol de sabão.
  %Annie% havia resistido a princípio, não sabia como reagir em público. Ela e %Ryan% estavam naquele território confuso mais que amigos, menos que um casal oficial. Encontros casuais, conversas até tarde, beijos roubados em momentos de coragem. Mas nada definido, nada com nome, nada na frente dos outros.
  Porém, Lynn foi bem convincente e ela quase não pôde recusar.
  O restaurante era aconchegante, com luzes baixas e mesas de madeira escura. Connor e Lynn já estavam lá quando %Annie% chegou sozinha e nervosa, as mãos suavam tanto que nem se limpasse nas mangas da jaqueta iria fazer diferença.
  %Ryan% estava atrasado como sempre e ela tinha certeza que ele não apareceria.
  - Ele vem. - Lynn garantiu, apertando sua mão sobre a mesa. - Ele me mandou mensagem há dez minutos.
  E então, como se as palavras de Lynn tivessem o poder de invocá-lo, %Ryan% entrou no restaurante.
  %Annie% o viu primeiro através do reflexo no espelho da parede oposta, cabelo úmido da chuva fina que caía lá fora, procurando por eles com os olhos. Quando a encontrou, seu rosto se iluminou com um sorriso que ela sentia até a ponta dos dedos.
  Ele andou até a mesa tentando ajeitar os fios que insistiam em cair sobre seus olhos e %Annie% teve que prender um suspiro.
  - Desculpem o atraso. - ele disse, sentando-se ao lado dela. - Trânsito infernal. - %Ryan% explicou olhando brevemente ao casal a sua frente. - E esqueci o celular no carregador. Típico.
  O calor de seu corpo tão próximo fez com que %Annie% esquecesse momentaneamente qualquer outra coisa.
  - Achei que não viria mais. - %Annie% comentou, tentando soar casual enquanto seu coração acelerava com a proximidade dele.
  %Ryan% prendeu os olhos nos dela.
  - E perder a chance de jantar com você? Nunca. - o sorriso dele se ampliou e %Annie% não conseguiu fazer nada além de retribuir em resposta.
  A mesa era pequena demais para quatro pessoas, obrigando %Annie% e %Ryan% a ficarem com os braços praticamente colados.
  Cada vez que ele se movia, ela sentia o calor de sua pele contra a dela, enviando arrepios por todo seu corpo.
  Lynn não parava de falar sobre as milhares de possibilidades sobre o intercâmbio que tinha em mente, mas %Annie% mal conseguia prestar atenção. Estava hipnotizada pelo modo como %Ryan% girava o copo de vinho entre os dedos, pelo perfume dele que parecia preencher todo seu espaço, pela forma como ele olhava atentamente aos amigos, concentrado em cada palavra.
  %Annie% sentiu-se relaxar gradualmente. Sob a mesa, o joelho de %Ryan% tocava o dela não por acidente, ela sabia.
  Toda vez que ele se inclinava para pegar seu copo, seus dedos roçavam os dela por um segundo a mais do que o necessário.
  Lynn e Connor estavam discutindo animadamente sobre o filme que tinham visto na noite anterior e %Annie% aproveitou para observar %Ryan% discretamente.
  Ele estava rindo de algo que Connor disse, a cabeça jogada para trás, os olhos fechados. A luz amarelada do restaurante refletia em seu rosto, destacando o contorno forte da mandíbula, a curva dos lábios.
  %Annie% nem ao menos percebeu o sorriso bobo que crescia em seus lábios, era tão gostoso ouvir o som da risada dele.
  Quando ele se virou para ela, pegando-a em flagrante no ato de admirá-lo, não houve constrangimento apenas um reconhecimento silencioso.
  - Vocês estão me ouvindo? - Lynn perguntou, acenando a mão na frente dos dois.
  - Desculpe. - %Annie% murmurou, sentindo o rosto esquentar enquanto pegava o copo para tentar esconder seu sorriso. - Me distrai.
  - Tenho certeza que sim. - Lynn comentou com um sorriso travesso, trocando um olhar cúmplice com Connor.
  - Então, %Annie% - Connor disse, mudando de assunto -, %Ryan% me disse que você está pensando em fazer especialização em gastronomia francesa.
  %Annie% quase engasgou com o suco. Era algo que havia mencionado apenas para %Ryan%, numa noite em que conversavam sobre sonhos adormecidos. Nem ao menos Lynn sabia.
  - Eu... sim, estou considerando. - respondeu, lançando um olhar surpreso para %Ryan%. - Não sabia que você tinha contado para alguém.
  %Ryan% deu de ombros, um leve rubor subindo pelo pescoço.
  - Achei impressionante a maneira como você falou sobre técnicas de preparo, sobre a história por trás de cada prato… - ele fez uma pausa, olhando-a diretamente nos olhos. - Seus olhos brilhavam.
  O coração de %Annie% deu um salto.
  Ele tinha prestado atenção. Não apenas ouvido, mas realmente escutado.
  Como era possível que as pernas estivessem tão bambas por causa dele mesmo ela estando sentada?
  A conversa fluiu naturalmente, %Ryan% fazia questão de não só trazer %Annie% até o assunto mas conversar com ela paralelamente enquanto Connor e Lynn estavam entretidos em seu próprio mundo por alguns minutos.
  Depois do jantar, enquanto esperavam o táxi na calçada, Connor sugeriu que fossem todos a um bar próximo para "esticar a noite". Lynn concordou entusiasticamente, mas %Ryan% olhou para %Annie%, uma pergunta silenciosa nos olhos.
  - Na verdade - %Annie% disse -, acho que vou para casa. Estou um pouco cansada.
  - Eu te levo. - %Ryan% ofereceu imediatamente.
  Lynn sorriu como quem sabia exatamente o que estava acontecendo.
  - Nos vemos então. Não façam nada que eu não faria!
  No caminho para a casa de %Annie%, a chuva tinha aumentado. Eles andavam lado a lado, dividindo o guarda-chuva que %Ryan% carregava.
  O silêncio entre eles era confortável e ela jamais iria reclamar porque suas meias agora estavam molhadas, afinal ele tinha o braço envolto no ombro dela para que se molhasse o menos possível.
  A aproximação fazia com que ela sequer sentisse as gotas frias.
  - Obrigada por ter vindo hoje. - %Annie% disse finalmente, quando já estavam quase chegando.
  %Ryan% parou de andar, virando-se para ela, seu toque se perdendo e trazendo o ar gelado para os ombros dela.
  - Posso fazer uma pergunta? - ele levou a mão livre até o bolso da calça, balançando levemente nos calcanhares, um gesto que ela já reconhecia como sinal de nervosismo.
  - Claro. - %Annie% respondeu com as chaves firmes na mão, enquanto tentava controlar o ritmo acelerado de seu coração.
  - Isso foi um encontro para você? - a pergunta saiu baixa, quase um sussurro, como se ele temesse a resposta.
  %Annie% hesitou, estudando o rosto dele sob a luz fraca. Havia algo de vulnerável em seus olhos, algo que ela raramente via no %Ryan% que todos conheciam.
  - Foi. - ela admitiu finalmente. - E para você?
  Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância curta entre eles.
  - Desde o dia que te conheci, todos os momentos com você são encontros para mim.
  Ela sorriu, a alma leve como nunca havia sentido antes.
  - Essa é a coisa mais cafona que você já disse.
  - Estou tentando impressionar. - ele respondeu, o riso baixo vibrando no ar entre eles.
  %Ryan% então levou uma mão para afastar o cabelo do rosto de %Annie%, que não conseguia olhar para ele de outra forma além de pura admiração.
  - Você não precisa tentar, você já faz isso sem o menor esforço. - ela admitiu em um tom tão baixo que beirava a sussurro.
  Quando ele se inclinou para beijá-la, %Annie% soube, com uma certeza que atravessava cada célula de seu corpo, que algo havia mudado entre eles.
  Não era mais um talvez, não era mais uma possibilidade.
  Era real.

[...]

  Atualmente. Hospital geral.
14:30 PM.

  %Annie% foi arrancada de seus pensamentos pelo toque estridente do celular. Ela piscou e enfiou a mão na bolsa, vendo o nome do Major piscar na tela.
  Três dias desde o atentado. Três dias que ela fingia para a família que tudo estava bem, que a entrevista tinha sido ótima exatamente como tinha sido estampada no dia seguinte.
  E o fato de as fotos terem sido perfeitamente tiradas, contribuindo para a fantasia de romance avassalador, tinha ajudado a sua versão. A sua mentira.
  E agora ele ligava, depois de ter dado tanto tempo e espaço para ela entender o que raios tinha acontecido. Ela até tinha ficado surpresa por ele não ter ligado assim que percebeu que ela não voltou para a mansão.
  %Annie% respirou fundo antes de atender.
  - Alô?
  - %Annie%. - a voz de Walker soava tensa. - Como você está?
  Ela trocou o peso do corpo para o outro lado na sala de espera do consultório, sentindo o olhar curioso da recepcionista sobre si. Tinha acabado de fazer seu exame pré-natal e as imagens do ultrassom ainda estavam vívidas em sua mente.
  - Estou bem. Acabei de sair da consulta.
  Um silêncio breve, como se ele estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
  - Angelina está bem?
  %Annie% sentiu uma pontada no peito ao ouvir o nome da filha nos lábios dele.
  - Sim, tudo normal.
  - Ótimo. - Walker pigarreou do outro lado da linha. - %Annie%, eu estive pensando... depois do que aconteceu, não é seguro você continuar morando com os seus pais.
  Ela já esperava por isso, mas mesmo assim sentiu o estômago apertar.
  Claro que ela ainda estava assustada, não sabia quem tinha sua localização exata e isso tinha tirado o sono dela nos últimos dias. A preocupação por ela e por sua família vinha aumentando a cada dia mais.
  E ela sabia que ele tinha razão, não era seguro para ninguém mas ouvir aquilo em voz alta tornava a ameaça ainda mais perigosa.
  - Quero que você venha morar comigo no loft. É mais seguro, tem sistema de vigilância 24 horas e fica a cinco minutos do Comando.
  %Annie% fechou os olhos, lembrando-se dos corpos no chão da mansão, do sangue, das armas.
  A ideia de ter um alvo em suas costas e nas costas de sua família a aterrorizava, mas depender de Walker significava entrar ainda mais fundo naquele labirinto.
  - Eu... não sei, Walker. Preciso pensar.
  - %Annie%, por favor. - a voz dele suavizou, quase implorando. - É pela sua segurança. Pela segurança de Angelina e de todos à sua volta.
  Ela sentiu a garganta apertar. Usar principalmente a filha e quem ela amava era um golpe baixo, mas eficaz.
  - Vou pensar, ok? - suspirou, cansada. - Te ligo mais tarde.
  Walker hesitou, claramente insatisfeito com a resposta.
  - Tudo bem. Eu espero o tempo que for.
  %Annie% desligou e permaneceu com o celular na mão, sentindo o peso da decisão sobre seus ombros. Não era justo, mas era ela quem tinha que decidir.
  Ajeitou a bolsa e saiu para a rua ensolarada, piscando contra a claridade repentina. O aplicativo de transporte indicava que o motorista chegaria em dois minutos.
  O carro do Uber estacionou junto à calçada, um sedã preto com placa correspondente ao aplicativo. %Annie% conferiu os dados no celular e entrou no veículo.
  - Boa tarde, senhora Walker. - cumprimentou o motorista, um homem de meia-idade com cabelos grisalhos nas têmporas. - Para o endereço do aplicativo, certo?
  %Annie% piscou, surpresa ao ser chamada pelo sobrenome de Walker.
  Aquilo era novidade.
  - Na verdade, sou %Annie% %Madden%. Ainda não... nos casamos. - corrigiu, o rosto esquentando com o constrangimento.
  - Ah, perdão, senhorita. - o motorista sorriu pelo retrovisor. - Confundi com as notícias que vi sobre o noivado do Major Walker. É você, não é? Vi uma foto na revista.
  %Annie% assentiu levemente, desconfortável com o reconhecimento.
  Era estranho ser identificada por estranhos, até se lembrar que sua vida privada agora pertencia ao domínio público.
  - Você trabalha na área militar também? - perguntou o motorista, claramente empolgado por estar transportando alguém com conexões importantes.
  - Não. - respondeu %Annie% secamente, esperando que o tom encerrasse a conversa.
  Felizmente, o homem pareceu entender a deixa e focou na direção. %Annie% olhou pela janela, observando a cidade passar em borrões de concreto e vidro.
  A proposta de Walker ainda ecoava em sua mente. Morar com ele parecia um passo enorme e também esperado por todo mundo, afinal eles eram noivos, isso acabava tornando tudo mais real e definitivo.
  Mas depois daquela invasão...
  O motorista ajustou o espelho retrovisor várias vezes, o movimento chamando a atenção de %Annie%.
  Ele franziu o cenho, olhando repetidamente para trás.
  - Senhorita - disse ele depois de alguns minutos, a voz tensa. -, acho que estamos sendo seguidos.
  O coração de %Annie% disparou ao mesmo tempo em que o sangue gelou.
  - Como assim?
  - Aquele SUV preto, está a três curvas atrás de nós. Mudei de faixa duas vezes e ele fez o mesmo.
  %Annie% virou-se discretamente para olhar pela janela traseira. O veículo estava a uma distância calculada, mas quando ela o observou com mais atenção, notou os vidros escurecidos, impossibilitando ver quem estava dentro.
  - Tem certeza? - perguntou, a boca subitamente seca.
  - Trabalho com isso há vinte anos, senhorita. Sei reconhecer quando alguém está seguindo um carro.
  As mãos de %Annie% começaram a tremer e suar frio.

  Imagens da invasão na mansão voltaram com força total enquanto o pânico parecia adentrar sua corrente sanguínea de forma imediata.
  Seu primeiro instinto foi ligar para Walker. Com os dedos desajeitados pelo nervosismo, ela pegou o celular e discou.
  Ele atendeu no segundo toque.
  - %Annie%? Esqueceu algo?
  - Walker - sua voz saiu estrangulada. -, tem um carro nos seguindo. Um SUV preto. O motorista disse que está atrás de nós há algumas quadras.
  Houve uma pausa do outro lado da linha, seguida por uma série de ordens rápidas que %Annie% não conseguiu distinguir, Walker provavelmente falava com alguém próximo a ele.
  - Onde você está agora? - a voz dele voltou, tensa e controlada.
  - Na Avenida Central, passando pelo shopping. - %Annie% olhou para fora, tentando se localizar melhor enquanto seu coração martelava contra o peito. - Indo para a minha casa.
  - Não vá para casa. - Walker ordenou. - Mude o destino. Peça ao motorista para te levar até meu prédio. Estarei esperando na entrada.
  %Annie% engoliu em seco, o medo transformando sua hesitação anterior em uma necessidade urgente de segurança.
  - Tudo bem. - ela concordou, a voz tremendo ligeiramente.
  - Fique na linha. - instruiu Walker. - Não desligue até chegar.
  %Annie% se virou para o motorista, cobrindo o microfone do celular com a mão.
  - Pode mudar o destino? - ela perguntou às pressas, ditando o novo endereço.
  O homem assentiu, ajustando o espelho retrovisor novamente.
  - Sem problema. O SUV ainda está atrás de nós.
  - O motorista confirmou que ainda estão nos seguindo. - ela informou a Walker, a adrenalina fazendo sua voz soar mais aguda que o normal.
  - Estou mobilizando uma equipe. - Walker respondeu, sua voz agora mais distante como se estivesse falando ao telefone enquanto se movia. - Fique calma. Não demonstre que percebeu o veículo.
  %Annie% concordou com a cabeça mesmo que Walker não pudesse ver e tentou controlar a respiração, fixando o olhar na frente para não ceder ao impulso de olhar para trás novamente.
  O motorista fez uma curva brusca à direita, entrando em uma rua lateral.
  - Ele ainda está lá? - perguntou %Annie%, incapaz de conter a ansiedade.
  - Sim. - confirmou o motorista, o rosto tenso refletido no espelho. - Mas não se preocupe, conheço alguns atalhos.
  - Walker, ele vai tentar despistá-los. - %Annie% informou ao telefone.
  - Não! - a resposta veio imediatamente. - Diga a ele para seguir direto para meu endereço. Não tentem despistar ou provocar. Isso pode piorar a situação.
  %Annie% transmitiu a orientação para o motorista, que assentiu relutante e voltou para a avenida principal.
  A sensação de estar sendo caçada fez seu estômago revirar, ela apertou o telefone contra o ouvido como se fosse um talismã enquanto a outra levava até a barriga, tentando de alguma forma proteger sua filha.
  - Estou a cinco minutos do prédio. - Walker informou. - Já temos equipes posicionadas. Quando chegarem, quero que você saia rapidamente do carro e venha direto para mim, entendeu?
  - Sim. - %Annie% respondeu, a voz quase um sussurro.
  O trajeto pareceu durar uma eternidade. Cada semáforo vermelho era uma tortura, cada curva uma ameaça. O SUV mantinha a distância, nunca se aproximando demais, mas sempre presente como uma sombra persistente. %Annie% sentiu Angelina se mexer dentro dela, como se a bebê também sentisse seu medo, e ela acariciou mais uma vez pensando em como tudo aquilo iria acabar bem, que não precisaria ter medo.
  Ela só não sabia se estava tentando acalmar a filha ou a si mesma.
  - Chegando. - o motorista anunciou, virando à esquerda na avenida arborizada. - O prédio é aquele de vidro espelhado, certo?
  %Annie% confirmou com a cabeça, os olhos fixos na entrada do edifício.
  Conseguiu distinguir a silhueta de Walker na calçada e seu corpo inteiro arrepiou quando conseguiu enxergar a arma que ele segurava na mão dominante, acompanhado de dois homens que ela nunca tinha visto na vida vestidos com o uniforme do exército.
  - Walker, estamos chegando. - ela disse ao telefone, a voz trêmula de alívio. - Consigo te ver.
  - Ótimo. Mantenha a calma. Meus homens estão posicionados.
  O carro parou suavemente junto ao meio-fio. %Annie% olhou rapidamente para trás antes de sair, o SUV preto tinha estacionado a meia quadra de distância.
  - Vá. - instruiu Walker pelo telefone. - Agora.
  Com o coração disparado, %Annie% abriu a porta e saiu do veículo. Walker atravessou a distância entre eles em passos largos, envolvendo-a em um abraço protetor assim que ela chegou ao alcance de seus braços.
  O calor do corpo dele contra o seu, embora fosse descomedido, era reconfortante.
  - Você está bem? - ele perguntou, afastando-se apenas o suficiente para olhar em seus olhos, as mãos segurando firmemente seus ombros.
  %Annie% assentiu ainda trêmula enquanto Walker a conduzia rapidamente para dentro do prédio, os homens formaram uma barreira protetora ao redor deles, olhares atentos varrendo a rua.
  No saguão elegante, o porteiro se levantou imediatamente, a expressão preocupada ao notar a agitação.
  - Vamos subir. - Walker murmurou contra seu cabelo, guiando-a até o elevador. - Já coloquei homens para rastrear o SUV.
  Dentro do elevador, %Annie% sentiu as pernas fraquejarem, a adrenalina começando a dar lugar ao esgotamento. Walker passou o braço pela sua cintura, sustentando-a enquanto digitava o código de acesso para a cobertura.
  Ela nem ao menos se importou se aquela era a primeira vez que tinham um contato tão íntimo como aquele, precisava de sustentação ou então provavelmente iria desmaiar. Apesar de sempre ter o toque frio, o calor do corpo de Walker a acolhia de uma forma estranha e desconhecida.
  - Por que isso está acontecendo? - %Annie% sussurrou, mais para si mesma que para ele.
  Walker apertou levemente sua cintura, os lábios formando uma linha tensa.
  - Não sei ainda, mas vou descobrir. Prometo.
  O elevador abriu e rapidamente eles entraram no apartamento de Walker.
  - Sente-se. - ele indicou o sofá enquanto falava rapidamente ao telefone. - Sim, quero relatório completo em vinte minutos. Verificação de placas, reconhecimento facial se conseguirem imagens. Mobilize a equipe inteira se necessário.
  %Annie% afundou no sofá, as mãos instintivamente protegendo a barriga. Fechou os olhos por um momento, tentando afastar as imagens dos homens mascarados invadindo a mansão, o terror daquela noite ainda era fresco demais.
  Walker se aproximou oferecendo um copo d'água que ela aceitou com gratidão. Seus dedos trêmulos e frios roçando contra os dele durante a troca.
  Ele se sentou ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa, mas próximo o suficiente para que ela sentisse sua presença protetora.
  - Você estava certa em me ligar. - disse ele, a voz mais suave do que o habitual. - Não quero nem pensar no que poderia ter acontecido se...
  Ele não completou a frase, mas %Annie% entendeu. O medo que sentira no carro ainda pulsava em suas veias, misturado agora com exaustão.
  Bebeu a água em pequenos goles, tentando acalmar o coração que ainda batia forte contra suas costelas.
  - Isso tem a ver com o ataque na mansão, não tem? - perguntou finalmente, encarando Walker.
  Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto que denunciava sua preocupação.
  - Provavelmente. Estamos investigando todas as possibilidades, mas sim, acredito que seja o mesmo grupo.
  - Por que eu? O que eles querem comigo?
  Walker hesitou, seus olhos percorrendo o rosto dela como se procurasse a melhor maneira de responder.
  - Talvez queiram te assustar. - ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. - Ou te fazer ceder por acharem que você sabe de algo.
  %Annie% sentiu o estômago afundar.
  O que ela teria que fazer para provar que não sabia de nada?
  - Não quero discutir isso agora. - Walker respondeu com um suspiro pesado. - Você passou por muito hoje.
  O telefone dele tocou, interrompendo a conversa. Walker atendeu rapidamente, seu rosto assumindo novamente a expressão profissional que %Annie% conhecia tão bem.
  - Entendido. Mantenha-me informado sobre qualquer movimento. - ele desligou, voltando sua atenção para %Annie%. - O SUV desapareceu. Conseguimos uma imagem parcial da placa, mas os vidros eram escurecidos demais para identificar os ocupantes.
  %Annie% assentiu, sentindo-se estranhamente vazia.
  O medo agudo havia sido substituído por uma apatia exausta, como se seu corpo tivesse esgotado toda reserva de energia.
  - Você pode ficar aqui hoje. - ofereceu Walker, seu tom cuidadosamente neutro. - O quarto de hóspedes estava preparado de qualquer forma. Amanhã podemos buscar algumas coisas no seu apartamento, se você decidir ficar mais tempo. - Walker concluiu, olhando para ela com uma expressão que beirava a súplica e algo mais sombrio, %Annie% sabia que tinha raiva ali.
  Pela forma que ele trancava o maxilar, conseguia imaginar o quanto ele estava se segurando para não extravasar seu ódio naquele momento.
  %Annie% assentiu devagar, a exaustão pesando em cada célula de seu corpo. Aparentemente era inevitável a decisão de permanecer sob a proteção de Walker por mais tempo do que havia prometido a si mesma.
  - Obrigada. - ela murmurou, afastando uma mecha de cabelo do rosto.
  Walker pareceu relaxar levemente, como se tivesse estado segurando a respiração.
  - Deve estar cansada, tome um banho. Vou pedir a Magda que faça algo para você comer.
  Ela concordou com a cabeça e se levantou, Walker fez o mesmo mais para garantir que ela conseguiria se manter de pé e ir até o quarto sozinha, ele se manteve a uma distância respeitável, mas a seguiu até o quarto que tinha ficado da última vez que esteve ali.
  %Annie% se sentou na beira da cama, sentindo o colchão ceder sob seu peso. Um cansaço profundo a invadia, mas sua mente continuava agitada, repleta de imagens dos últimos acontecimentos.
  Perigo vinha se tornando parte de sua rotina, exatamente quando ela não poderia ter nenhum estresse.
  - Vou deixar você descansar. - Walker disse, parado na entrada do quarto. - Se precisar de qualquer coisa, estarei na sala.
  Quando ele se virou para sair, %Annie% sentiu um impulso repentino.
  - Walker. - chamou, sua voz mais frágil do que gostaria. - Você acha... você acha que eles vão tentar de novo?
  Ele hesitou, voltando-se para encará-la. Por um momento, %Annie% vislumbrou algo em seus olhos, uma chama de determinação com medo, antes que a máscara de controle voltasse ao lugar.
  - Não enquanto eu estiver aqui. - respondeu ele e havia uma firmeza em sua voz que, apesar de tudo, a reconfortou. - Descanse, %Annie%. Amanhã pensaremos nos próximos passos.

[...]

  Quando %Annie% chegou à antiga casa dos pais na manhã seguinte, o sol pálido mal conseguia aquecer o ar gelado. Walker havia insistido em acompanhá-la, mas ela precisava desse momento sozinha ou ao menos tão sozinha quanto poderia estar com o motorista de confiança dele esperando no carro estacionado na esquina.
  %Annie% hesitou por um instante antes de usar sua chave. A ideia de contar aos pais sobre a mudança para o apartamento de Walker fazia seu estômago apertar.
  Não pela mudança em si, que após o incidente do SUV parecia a única opção sensata, mas por saber que teria que mentir sobre os motivos.
  Como explicar que estava sendo seguida, que homens armados haviam invadido a mansão, que sua vida tinha se transformado numa espécie de thriller político do qual ela não conhecia as regras?
  E pior, que a segurança de todos a sua volta estava em jogo, principalmente a de sua filha.
  - %Annie%! - sua mãe exclamou ao vê-la na porta, abraçando-a com força. - Que surpresa boa! Seu pai está na cozinha lendo no celular.
  O cheiro familiar da casa, uma mistura de café recém-passado e o perfume floral que sua mãe sempre usava, trouxe uma onda de nostalgia que quase a fez chorar. Por um momento, %Annie% desejou poder voltar a ser criança, quando sua maior preocupação era qual livro ler antes de dormir.   - Mãe, eu... vim buscar algumas coisas. - começou tentando manter a voz estável. - Vou ficar no apartamento do Walker por um tempo.
  Sandra parou de mexer na massa de bolo que preparava, olhando para a filha com uma expressão que %Annie% não conseguiu decifrar completamente, havia preocupação ali, mas também uma compreensão silenciosa.
  - Bem, era de se esperar, não é? Vocês estão noivos. - ela sorriu, embora o sorriso não alcançasse completamente seus olhos. - Seu quarto está como você deixou.
  %Annie% assentiu, grata por sua mãe não fazer mais perguntas. Atravessou a sala até a varanda, onde encontrou o pai absorto na tela.
  - Pai?
  Alexander baixou a mão, os olhos iluminando-se ao ver a filha.
  - %Annie%! Que bom te ver, filhota. - ele se levantou para abraçá-la, e %Annie% sentiu o cheiro familiar de loção pós-barba misturado ao aroma do café na xícara ao lado. - Tudo bem com você e a pequena?
  - Sim, estamos bem. - %Annie% respondeu, sentindo uma pontada de culpa por não contar toda a verdade. - Na verdade, vim buscar algumas roupas. Vou... vou me mudar para o apartamento do Walker por um tempo.
  O pai ergueu as sobrancelhas, olhando-a por cima dos óculos de leitura.
  - Já? Pensei que vocês esperariam até depois do casamento.
  %Annie% desviou o olhar, fixando-se nas plantas da janela da cozinha.
  Como explicar que não tinha escolha? Que cada sombra agora parecia uma ameaça?
  - Com a gravidez avançando, achamos melhor começar a nos adaptar. - ela improvisou. - O apartamento dele é mais seguro... tem porteiro 24 horas e...
  - %Annie%. - a voz do pai a interrompeu, gentil, mas firme, tirando o óculos por completo. - Está tudo bem mesmo?
  Ela sentiu o peito apertar. Ele sempre conseguia ler através de suas mentiras, desde criança.
  - Está. - respondeu com um sorriso forçado. - Só estamos antecipando as coisas um pouco.
  Seu pai a estudou por um momento, como se pesasse cada palavra não dita entre eles. Finalmente, assentiu.
  - Você sabe que essa sempre será sua casa, não importa o que aconteça.
  %Annie% sentiu as lágrimas ameaçarem cair e as conteve com esforço.
  - Sei, pai. Obrigada.
  Ela subiu para seu antigo quarto, sentindo-se cada vez mais culpada por não compartilhar o que queria.
  Pegou uma mala pequena do armário e começou a separar algumas peças. Não precisava de muito, até porque Walker já tinha providenciado um guarda-roupa completo, mas apenas o suficiente para alguns dias, até que pudesse organizar uma mudança mais completa.
  - Precisa de ajuda?
  %Annie% virou-se para encontrar Michelle parada na porta, não tinha ouvido a cunhada chegar.
  - Michelle! O que está fazendo aqui?
  - Sua mãe me ligou. - Michelle entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. - Disse que você estava de mudança para o apartamento de Walker, eu já estava voltando pra cá. Achei que poderia precisar de uma mão amiga.
  %Annie% sentiu uma onda de gratidão pela presença de Michelle. Entre todas as pessoas em sua vida atualmente, Michelle era talvez a única que compreendia a complexidade de sua situação mesmo que só soubesse o essencial.
  - Obrigada. - %Annie% disse, sentindo-se aliviada pela presença de Michelle. - Acho que estou um pouco sobrecarregada com tudo isso.
  Michelle sorriu e começou a dobrar algumas roupas de maternidade que %Annie% tinha separado sobre a cama.
  - Imagino. Tudo está acontecendo tão rápido. - ela fez uma pausa, dobrando cuidadosamente uma blusa azul-clara. - Walker te trata bem?
  %Annie% hesitou por um momento, as mãos parando no meio do gesto de fechar a gaveta.
  - Sim, ele... tem sido atencioso. - não era mentira, pensou. Walker realmente estava se esforçando para fazê-la se sentir confortável e segura.
  O problema eram todas as coisas não ditas entre eles, os segredos que ele guardava e que provavelmente não iria compartilhar tão cedo.
  - Que bom. - Michelle não parecia completamente convencida, mas não insistiu no assunto. - Vamos levar roupas para quanto tempo?
  - Só o essencial por enquanto. Depois organizo o resto.
  As duas trabalharam em silêncio por alguns minutos, o único som sendo o dos cabides deslizando no armário e das gavetas sendo abertas e fechadas.
  %Annie% percebeu que estava evitando olhar para a caixa de sapatos no fundo do armário, onde guardava as cartas e lembranças de %Ryan%. Não tinha coragem de mexer naquilo agora e muito menos levar a casa de Walker.
  Era como se traísse a memória que ainda tinha de %Ryan%, as boas memórias que não estavam manchadas com dúvidas e inseguranças.
  - Acho que isso é suficiente. - Michelle comentou, fechando o zíper da mala pequena. - Tem certeza que não quer levar mais nada? Livros, talvez? Sei que você gosta de ler antes de dormir.
  %Annie% pegou dois livros da estante, um romance que estava no meio e um guia de gravidez que consultava frequentemente.
  - Só esses, por enquanto.
  Desceram juntas, a mala não era pesada mas Michelle insistiu em carregá-la.
  Na sala, os pais de %Annie% esperavam para se despedir. Sandra tinha os olhos marejados, embora tentasse disfarçar com um sorriso.
  - Ligue quando chegar, está bem? - pediu a mãe, abraçando-a com força. - E venha jantar conosco no domingo.
  - Virei sim, mãe. - prometeu. - Não estou indo para longe de qualquer forma.
  Alexander se aproximou, colocando as mãos nos ombros da filha.
  - Você sabe que pode contar conosco para qualquer coisa, não é? - sua voz estava firme, mas %Annie% reconheceu a incerteza. - Sabemos que você precisa seguir sua vida, construir sua própria família. Só queremos que seja feliz.
  %Annie% engoliu em seco, sentindo o peso daquelas palavras. Havia tanto que queria dizer, sobre o medo que sentia, sobre as sombras que pareciam persegui-la, mas as palavras ficaram presas na garganta.
  - Obrigada, pai. - foi tudo que conseguiu dizer enquanto o abraçava uma última vez.
  Michelle pegou a mala e seguiu %Annie% até a porta, Sandra apareceu com uma vasilha coberta por papel alumínio.
  - Bolo de chocolate. - explicou, colocando nas mãos de %Annie%. - Sei que você tem desejado ultimamente.
  O gesto simples, tão cheio de amor e normalidade, quase quebrou a fachada de %Annie%. Ela abraçou a mãe com o braço livre, respirando fundo para conter as lágrimas.
  - Até domingo. - prometeu, forçando um sorriso.
  Quando as duas saíram para a calçada, %Annie% parou por um momento, olhando para a casa onde crescera, sentindo que deixava para trás muito mais que um endereço, seus melhores anos foram ali. Não era nada fácil olhar para trás.
  Ainda mais quando ela tinha um aperto no coração que não conseguia identificar se era de medo ou incerteza.
  - Eles vão ficar bem. - Michelle disse suavemente, como se lesse seus pensamentos. - E você também.
  %Annie% assentiu, virando-se para seguir em direção ao carro que esperava. Foi então que viu um envelope branco no chão, junto à entrada.
  Não estava ali quando ela chegou.
  - O que é isso? - Michelle perguntou, notando o olhar de %Annie%.
  %Annie% se abaixou para pegar o envelope. Seu nome estava escrito na frente, fazendo seu coração parar por um instante.
  Com dedos trêmulos, abriu o envelope. Dentro havia um desenho feito a lápis, o mesmo estilo dos desenhos que %Ryan% costumava fazer.
  O traço era inconfundível, mais uma vez.
  O desenho de um SUV, idêntico ao que a seguira no dia anterior, e abaixo da imagem uma sequência de números e letras.
  Era a placa do veículo.
  - %Annie%? Você está bem? - Michelle falou ao ver os olhos dela arregalarem. - %Annie%? O que foi? - perguntou, aproximando-se com a testa franzida de preocupação.
  %Annie% mal conseguia respirar, o envelope tremeu em suas mãos enquanto ela encarava o desenho.
  Não era o primeiro e isso a fazia ter mais certeza do que enxergava.
  Ninguém desenhava assim, exceto %Ryan%.
  - Isso não é possível. - murmurou, mais para si mesma do que para Michelle.
  Cada detalhe estava ali, para-choque levemente amassado no canto direito, o adesivo discreto no vidro traseiro. E abaixo, como uma acusação silenciosa, a placa completa que ela não conseguira ver.
  Só existiam duas possibilidades para aquela situação: a história tinha vazado ou ela estava sendo atentamente vigiada.
  Porém, não importava qual das duas eram, pois ambas eram assustadoras a ponto de fazer um frio correr por sua espinha.
  - %Annie%, você está me assustando. - Michelle insistiu, pousando uma mão em seu ombro. - O que tem nesse papel?
  Ela dobrou o desenho rapidamente e o guardou no bolso do casaco, seu coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito.
  - Não é nada. - mentiu, sabendo que soava pouco convincente. - Só uma... propaganda. Política.
  Michelle a estudou por um momento, claramente não acreditando nela, mas assentiu.
  %Annie% olhou ao redor, procurando por algum sinal de quem poderia ter deixado o envelope. Aquela mesma sensação de que estava sendo observada voltou, dessa vez mais forte e desesperadora.
  A rua estava deserta, exceto pelo motorista de Walker esperando pacientemente no carro.
  - Vamos. - disse, ajeitando a bolsa no ombro e pegando a vasilha com o bolo que quase deixou cair. - Não quero deixar o motorista esperando.
  Enquanto caminhavam até o carro, %Annie% sentia o desenho queimando em seu bolso como uma brasa.
  Quem quer que o tivesse deixado, sabia exatamente quando ela estaria ali.
  - Tem certeza de que está tudo bem? - perguntou Michelle quando chegaram ao carro. - Você parece que viu um fantasma.
  Um fantasma. Talvez fosse exatamente isso que tinha visto.
  - Estou bem. - respondeu, forçando um sorriso. - Só um pouco emotiva por deixar a casa dos meus pais.
  O motorista saiu para abrir a porta para elas e %Annie% aproveitou o momento para dar uma última olhada na casa.
  Seus pais estavam na porta, acenando com sorrisos forçados que não escondiam a preocupação em seus olhos. %Annie% acenou de volta, sentindo um nó na garganta.
  Eles pareciam tão pequenos e vulneráveis ali, e por um segundo ela quis voltar correndo, contar tudo, pedir ajuda.
  Mas não podia. Não quando nem ela mesma entendia o que estava acontecendo.
  Não quando estavam vigiando cada passo seu.
  Durante todo o trajeto até o apartamento de Walker, %Annie% manteve a mão sobre o bolso onde guardara o desenho, como se temesse que ele pudesse desaparecer. Michelle tentou iniciar uma conversa algumas vezes, mas %Annie% respondeu monossilábica, perdida em pensamentos que giravam em círculos vertiginosos.
  Aqueles traços. O estilo inconfundível das sombras.
  Se não era %Ryan%, então quem? Quem poderia imitar sua técnica com tanta precisão?
  E por que deixar o desenho do veículo que a seguira, com a placa claramente visível? Era um aviso? Uma ameaça?
  Ou uma pista?
  Quando o carro parou em frente ao prédio de Walker, %Annie% sentiu o peso da decisão que precisava tomar.
  Poderia entregar o desenho a ele, contar sobre o envelope misterioso. Walker tinha recursos, contatos, poderia rastrear a placa em minutos.
  Mas algo a impedia. A mesma intuição que lhe dizia que aquele desenho era de %Ryan% também sussurrava que não devia confiar em Walker.
  Não completamente. Não ainda.


  Nota da autora: Aqui estou eu de novo com um capítulo gigantesco que eu não conseguia finalizar hihihi
  E eu nem acredito, mas estamos indo pra reta final... Eu vou deixar pra comentar isso depois quando a ficha cair hahaha
  Espero que gostem desse capítulo e até o próximo!!

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Capítulo 17
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