Capítulo 16 • Sound of war
O cheiro de canela e maçã impregnava o ar enquanto as luzes coloridas da árvore de Natal piscavam suavemente, a tradição da família tinha sido levemente alterada naquele ano - já que Joe e %Annie% que montavam todas as vezes enquanto os pais observavam e tiravam foto -, dessa vez foi Michelle quem ficou no lugar de Joe. E pelo brilho nos olhos dela, %Annie% soube que ela tinha gostado de toda a empolgação de montar a árvore.
A barriga ainda pequena, mas já perceptível sob o vestido verde, pulsava com a vida que representava sua única esperança em meio ao caos silencioso que tinha se tornado sua realidade.
- Mais um pouco de rabanada, filha? - Alexander perguntou com seu sorriso um pouco torto, mas não menos caloroso.
%Annie% balançou a cabeça, pousando a mão instintivamente sobre a barriga.
- Não, pai. Acho que a Angelina já está satisfeita por hoje. - ela sorriu, vendo o pai concordar sem desfazer o sorriso. - Estou guardando espaço para o pavê da mamãe.
Sandra, que retirava os pratos na mesa da sala de jantar decorada com velas e um caminho de mesa vermelho e dourado, levantou as sobrancelhas.
- Isso mesmo. Não é todo dia que faço seu preferido. Eu caprichei dessa vez.
- A senhora sempre capricha. - %Annie% complementou, recebendo um sorriso tímido da mãe como resposta.
Michelle se aproximou com uma taça de suco de uva, entregando-a para %Annie% com um sorriso solícito.
Seus olhos escuros pareciam sempre observar tudo ao redor, mesmo quando aparentava total descontração.
- Aqui está. Sem álcool, como prometido. - disse Michelle, sentando-se ao lado de %Annie% no sofá. - Seu irmão já deveria ter ligado, não? Já passa das dez.
%Annie% consultou o relógio na parede, sentindo uma pontada de preocupação. Joe nunca atrasava suas ligações, especialmente em datas importantes. Desde que partira para o treinamento de novos recrutas fazia questão de manter contato regular.
- Ele deve estar ocupado com os preparativos da festa no quartel. - Alexander comentou, ajeitando-se no outro sofá com alguma dificuldade. A cicatriz da cirurgia ainda era visível sob os cabelos grisalhos. - Lembram quando ele era pequeno e insistia em ficar acordado para ver o Papai Noel? Acabava dormindo embaixo da árvore!
%Annie% sorriu com a lembrança, mas seu pensamento vagou para outro lugar.
Para o que seria este Natal se ele estivesse ali ao seu lado, com a mão grande e calorosa descansando sobre a barriga dela, sussurrando planos para o futuro da filha que nunca conheceria.
A dor familiar se instalou no peito, aquela sensação de vazio que parecia sugar todo o ar dos pulmões. %Annie% apertou os dedos ao redor da taça de suco, o vidro frio contra a pele um lembrete de que ainda estava viva, ainda respirando, mesmo quando cada batimento do coração doía.
Ela sabia que não devia pensar mais nisso, não naquele dia feito para celebrar e festejar, mas desde a festa de aniversário da avó de %Ryan% parecia que todo o esforço que tinha feito para focar no que estava palpável bem a sua frente, tinha evaporado.
Se o Major não a tivesse feito relembrar toda a dor, toda a mágoa, talvez seus pensamentos não estariam tão nebulosos.
- %Annie%? - a voz de Michelle soou distante, embora ela estivesse bem ao lado. - Você está bem?
Ela piscou, forçando-se a voltar ao presente, a taça em sua mão, às luzes piscando, à preocupação genuína nos olhos da família.
- Sim, só... só pensando no Joe mesmo. - a mentira saiu mais fácil do que deveria. %Annie% havia se tornado expert em esconder a verdade por trás de sorrisos forçados e desculpas plausíveis.
Sandra parou de arrumar a mesa momentaneamente e seus olhos encontraram os do marido que desviaram da filha para a esposa, os dois conversaram através daquela troca de olhar.
Ah eles sabiam que tinha alguma coisa que %Annie% não queria contar, não era apenas seu luto, toda a turbulência que estava tendo que enfrentar em sua vida. Entretanto, respeitavam a filha o suficiente para não mencionarem em voz alta o que já sabiam.
O silêncio se espalhou pela sala como uma nuvem pesada, quebrado apenas pelo som distante dos fogos de artifício de algum vizinho impaciente. Michelle mexeu-se desconfortavelmente no sofá, seus dedos tamborilando contra a almofada.
Foi então que o telefone tocou.
O coração de %Annie% pulou uma batida enquanto ela se apressava para atender o celular. Na tela, o rosto de Joe apareceu, o sorriso largo iluminado pelas luzes de Natal do quartel atrás dele.
- Feliz Natal, família! - ele exclamou, a voz ligeiramente distorcida pela conexão. - Desculpem a demora, tivemos um pequeno problema com a decoração. O Tenente Gonçalves achou que seria uma boa ideia pendurar luzes usando apenas fita adesiva.
%Annie% sentiu o alívio inundar seu corpo. Ela segurou o telefone para que todos pudessem ver Joe, seu irmão com o uniforme impecável e o mesmo sorriso travesso de quando eram crianças.
- Filho! - Sandra exclamou, aproximando-se mais da tela. - Estávamos preocupados. Seu pai já estava pronto para ligar para o comandante.
Alexander balançou a cabeça, rindo.
- Não exagere, baixinha. - disse o apelido da esposa em um tom suave. - Mas é bom ver você, filho. Como está o Natal por aí?
- Nada comparado ao banquete que estou vendo aí atrás. - Joe gemeu dramaticamente, inclinando-se para tentar ver melhor a mesa. - Isso é rabanada da vovó? E aquilo... não me diga que é o pavê da mamãe! %Annie%, você é cruel em me mostrar isso quando estou comendo peru ressecado do refeitório!
%Annie% riu, a primeira risada genuína da noite.
- Deveria ter vindo para casa então, seu bobo.
- E deixar meus homens sozinhos no Natal? Eles iriam destruir esse quartel. - Joe fez uma careta exagerada, depois sorriu mais suavemente. - Mas sério, guarde um pedaço desse pavê para mim.
- Desculpa, mas não vai sobrar. - %Annie% provocou, apontando para Alexander com um sorriso maroto. - O pai já está na terceira fatia e olhando para a quarta como um lobo faminto.
Alexander arregalou os olhos e levou a mão ao peito em uma expressão teatral de indignação, as rugas ao redor dos olhos se aprofundando com o gesto exagerado.
- Vou mesmo comer tudo. - ele admitiu finalmente, passando a língua pelos lábios ainda doces de açúcar, a voz assumindo aquele tom infantil que sempre usava quando era pego em flagrante. - Está divino. Melhor que no ano passado.
- Que sacanagem comigo… - ele reclamou em um tom sério, mas brincando.
Michelle se aproximou, acenando para a câmera.
- Olá, Sargento %Madden%. Parece que vocês estão tendo uma festa e tanto por aí.
O rosto de Joe se iluminou com um sorriso radiante, seus olhos brilhando de carinho e saudade.
- Você está na melhor delas, acredite. - ele disse, sua voz carregada de um desejo sincero de estar ao lado dela.
- Teria sido melhor se você estivesse aqui. - ela respondeu, sua voz suave e segura.
%Annie% observou a troca de olhares entre os dois, a tensão quase palpável mesmo através da tela pequena do celular. Ela pigarreou, fingindo não notar o rubor nas bochechas de Michelle.
- Então, vamos abrir os presentes? Papai precisa descansar logo. - %Annie% sugeriu, piscando para o pai que tentava disfarçar um bocejo.
- Abrir os presentes agora? Mas é só meia-noite! - Joe protestou através da tela, seu rosto assumindo aquela expressão de criança contrariada que %Annie% conhecia tão bem.
- Está bem, você pode assistir enquanto abrimos. - %Annie% cedeu, ajustando o telefone para que o irmão pudesse ver a árvore e os pacotes coloridos espalhados embaixo dela.
Sandra fez as honras em distribuir os pacotes, o presente de Joe continuou embaixo da árvore e ela enfatizou que o filho só saberia o que era quando voltasse.
Alexander ganhou um relógio antigo restaurado, era o mesmo que pertencera ao pai dele e que havia sido danificado anos atrás.
Sandra ganhou um colar que projetava uma imagem da família se colocasse um feixe de luz contra o pingente.
Joe falou com orgulho que tinha preparado o presente da sobrinha e %Annie% abriu o pacote, mostrando para todos o body que tinha a frase “
Eu tenho o melhor tio do mundo” com um sorriso genuí
no.
O body se tornou pauta para a conversa um pouco mais longa que tiveram, Alexander brincou que o filho já era o tio mais babão e Sandra segurou o body para observar melhor enquanto imaginava Angelina vestindo-o, ainda tão pequena.
- Ei, %Annie%. - a voz de Joe chamou a atenção da irmã após as risadas cessarem. - O seu presente está em uma caixa azul com fita prateada. Pede para a Michelle te entregar.
Michelle imediatamente se levantou, seus movimentos fluidos e graciosos enquanto caminhava até a árvore.
Ela voltou com a caixa azul nas mãos, entregando-a a %Annie% com um sorriso de quem já sabia o que estava ali.
- Aqui está. Parece pesado. - comentou, sentando-se novamente.
%Annie% pegou o pacote, sentindo seu peso considerável sem ter a menor ideia do que poderia ser.
- Vamos lá, %Annie%, não temos a noite toda! - Joe brincou da tela do celular, que Sandra agora segurava para que ele pudesse ver tudo.
%Annie% removeu o papel de presente, revelando uma caixa de madeira entalhada. Seus dedos traçaram os detalhes do acabamento, admirando o trabalho artesanal.
- Joe... é linda. - ela murmurou, abrindo a tampa com cuidado.
Dentro havia um grosso caderno de anotações marrom em um estilo retrô, com uma chave presa a uma tira dupla que envolvia o caderno. Mas não era só isso, também havia uma caneta de pena com detalhes incríveis no corpo bem como o recipiente para a tinta.
Era o sonho de consumo de %Annie% quando era pequena, infelizmente o tipo de caderno que queria era caro demais na época então nunca chegou a ter algo nem ao menos remotamente parecido.
%Annie% sentiu as lágrimas queimarem seus olhos enquanto alisava a capa macia.
- Fiquei sabendo que você está escrevendo um diário da maternidade e achei que era a oportunidade perfeita para você ter um material adequado. - explicou Joe, sua voz mais suave agora. - Tem espaço suficiente para colocar também as primeiras fotos do ultrassom, para o dia do nascimento, primeiro banho... tudo. E olha as páginas do meio.
%Annie% virou as páginas até o centro do álbum. Ali Joe havia colocado fotos antigas: ele e %Annie% quando crianças, brincando no quintal; Alexander ensinando Joe a andar de bicicleta; Sandra com farinha até os cotovelos fazendo nhoque com os filhos.
- Para ela conhecer a família. - Joe disse, a voz embargada mesmo através da conexão digital. - Para saber de onde vem.
%Annie% não conseguiu conter as lágrimas agora, elas escorriam livremente por seu rosto enquanto ela abraçava o caderno contra o peito.
- Obrigada. - foi tudo que conseguiu dizer.
O silêncio que se seguiu foi carregado de emoção, interrompido apenas pelo som distante de mais fogos de artifício. Alexander pigarreou, disfarçando a própria emoção.
- Bem, a festa não pode parar por nossa causa. - Alexander disse, tentando aliviar o peso emocional do momento. - Michelle, você não ganhou presente ainda.
Michelle balançou a cabeça, suas mãos se movendo nervosamente sobre o vestido.
- Não, não precisa. Eu que deveria ter trazido algo para vocês. Não esperava...
- Bobagem. - Sandra interrompeu, já se dirigindo novamente para debaixo da árvore. - Claro que temos algo para você. Faz parte da família agora, não é?
%Annie% observou Michelle através das lágrimas que ainda embaçavam sua visão. Havia algo no modo como a mulher se encolheu ligeiramente ao ouvir as palavras de Sandra, uma hesitação quase imperceptível que passou despercebida pelos outros. %Annie% piscou, limpando os olhos com as costas da mão, sentindo tristeza por ela.
Nem poderia julgar a cunhada, depois de tudo que havia compartilhado e o fato de ser o primeiro natal dela, entendia a hesitação.
- Este aqui tem seu nome. - Sandra anunciou, voltando com um pacote pequeno embrulhado em papel dourado.
Michelle recebeu o presente com as duas mãos e %Annie% notou como seus dedos tremeram sutilmente. O nervosismo era compreensível afinal, estava sendo incluída em uma tradição familiar íntima.
- Muito obrigada. - Michelle disse, sua voz mais baixa que o usual. Ela desembrulhou o papel com cuidado excessivo, como se quisesse ganhar tempo.
Dentro havia uma pulseira delicada, com um pequeno pingente em formato de coração.
- É linda. - Michelle murmurou, segurando a pulseira com delicadeza. - Realmente, vocês não precisavam...
- Claro que precisávamos. - Joe disse da tela, seu sorriso radiante. - Você está cuidando da minha família enquanto estou longe. Isso vale muito mais que qualquer presente.
- Joe está certo. - Alexander concordou, ajustando-se na poltrona. - Você tem sido um anjo para nós, especialmente para a %Annie%.
Michelle sorriu agradecida, nunca tinha comemorado o Natal antes mas estar em família e se sentir acolhida daquele jeito era o seu maior presente. %Annie% percebeu isso nela e olhou cúmplice para a cunhada que apenas levou as mãos até o peito, sem saber o que dizer.
A conversa durou alguns minutos a mais antes de Joe desligar, alegando que iria brindar com os soldados na base - nada de álcool, apenas a boa e velha soda -, garantindo que em breve estaria em casa e se despediu.
Assim que ele desligou, Michelle foi ajudar Sandra com a louça enquanto Alexander e %Annie% ficaram na sala conversando sobre os presentes, ele tinha ficado tocado com o fato de %Annie% ter ajudado Sandra a achar um jeito de recuperar o relógio da família.
Quando Michelle e Sandra voltaram, já era perto da meia-noite e ficaram conversando um pouco mais até levantarem para fazer a contagem regressiva.
- Cinco... quatro... três... dois... um... Feliz Natal! - exclamaram juntos.
O relógio da sala bateu meia-noite e os quatro se aproximaram em um abraço coletivo.
%Annie% sentiu o calor dos braços de seu pai envolvendo suas costas, o perfume familiar de sua mãe misturando-se com o aroma suave que emanava de Michelle. Era estranho como aquele momento simples parecia preencher uma pequena parte do vazio que carregava no peito.
- Feliz Natal, minha querida. - sussurrou Sandra, beijando a testa de %Annie%. - Este ano foi difícil, mas estamos juntos. É isso que importa.
%Annie% assentiu, incapaz de falar através do nó em sua garganta. Quando se separaram, ela notou algo surpreendente, lágrimas brilhavam nos olhos de Michelle.
A mulher sempre tão composta e controlada parecia genuinamente emocionada, suas mãos tremendo levemente enquanto ajustava a pulseira que acabara de ganhar.
- Obrigada. - Michelle disse, sua voz quase um sussurro. - Nunca tive... isto.
Não precisou explicar o que "isto" significava.
%Annie% compreendeu instintivamente. Uma família, um lugar para pertencer, o calor de um Natal verdadeiro.
Naquele momento, %Annie% sentiu uma conexão inesperada com a cunhada, como se visse além da superfície polida que Michelle sempre apresentava.
Alexander soltou um bocejo que tentou, sem sucesso, disfarçar com a mão.
- Acho que está na hora deste velho ir para a cama. - ele anunciou, passando o braço pelos ombros de Sandra. - O remédio está me deixando sonolento.
Sandra concordou, lançando um olhar preocupado para o marido.
- Sim, você precisa descansar. Amanhã ainda temos o almoço com os seus primos.
- Boa noite, meninas. - Alexander disse, inclinando-se para beijar a testa de %Annie% e, após um momento de hesitação, a de Michelle também. - Feliz Natal.
%Annie% observou os pais subirem as escadas lentamente, o pai apoiando-se no corrimão com mais força do que gostaria de admitir.
A fragilidade dele ainda a assustava, um lembrete constante de como a vida podia mudar em um instante.
- Você quer um chá? - %Annie% perguntou a Michelle quando ficaram sozinhas, a casa se enchendo com um silêncio confortável.
- Um chá seria perfeito. - Michelle respondeu, seguindo %Annie% até a cozinha.
Enquanto %Annie% pegava as xícaras, notou como Michelle parecia mais relaxada agora, os ombros menos tensos, o sorriso menos medido.
Era como se algo tivesse mudado nela durante aquela noite, alguma barreira invisível que começava a se dissolver.
- Você gosta de camomila? - %Annie% perguntou, já colocando água para ferver.
- Na verdade, prefiro hortelã, se tiver. - Michelle respondeu, apoiando-se no balcão da cozinha. - %Annie%, eu queria te agradecer.
%Annie% levantou os olhos, surpresa.
- Por me receber tão bem. Sei que não deve ser fácil ter uma estranha na casa da sua família, especialmente… - Michelle hesitou, como se pesasse cuidadosamente suas próximas palavras. - Especialmente em um momento tão difícil para você.
%Annie% sentiu um aperto no peito. Era a primeira vez que Michelle mencionava diretamente sua situação, o luto que carregava como uma sombra constante.
- Você não é uma estranha. - %Annie% disse finalmente, surpreendendo a si mesma com a sinceridade daquelas palavras. - E tem sido bom ter você aqui. De verdade.
As duas trocaram um olhar de entendimento mútuo, algo inexplicável passando entre elas. %Annie% tinha a estranha sensação de que Michelle guardava segredos próprios, dores que talvez um dia compartilhasse.
O apito da chaleira quebrou o momento. %Annie% se virou para preparar o chá, despejando a água quente sobre as folhas de hortelã.
- Vamos para a sala? - sugeriu, entregando uma xícara fumegante para Michelle.
Mal haviam dado dois passos em direção à sala quando a campainha soou, o som estridente cortando o silêncio da casa. %Annie% franziu o cenho, consultando o relógio de parede, quase uma da manhã.
- Quem poderia ser a esta hora? - murmurou, colocando sua xícara sobre a mesa e dirigindo-se à porta.
Michelle ficou para trás, seu corpo instantaneamente tenso, a mão instintivamente movendo-se para o quadril, onde %Annie% notou com estranheza, que não havia nada.
%Annie% foi até a porta com a testa franzida e quando abriu, vendo a figura feminina tomou um susto.
%Annie% olhou através da porta escancarada e por um instante hesitou, incapaz de processar o que via.
Ali, no meio do frio da madrugada, estava Lynn sem maquiagem, de moletom azul e tênis de corrida, os cabelos ainda úmidos de suor.
O contraste entre a presença inesperada e o momento familiar de segundos atrás a deixou sem palavras. Lynn abriu um sorriso largo ao ver a amiga, mas havia uma tensão visível no modo como esticava os ombros e segurava uma sacola na mão direita.
- Lynn, quando foi que você chegou? - %Annie% balbuciou, a voz saindo mais aguda do que gostaria.
- Ontem. - respondeu a amiga, os olhos faiscando com aquela velha energia que sempre fazia quando estava prestes a dar uma notícia bombástica. - Quis fazer uma surpresa, mas acho que você fez isso antes. - Lynn ergueu a revista que trazia consigo.
%Annie% reconheceu de imediato: era a última edição do jornal online local, o rosto dela em uma foto com o Major Walker durante a festa da família %Mackie% estampava a capa com uma manchete escandalosa sobre o noivado.
O choque fez %Annie% estremecer, o corpo inteirinho enrijecendo como se fosse explodir de vergonha a qualquer momento.
O tempo pareceu desacelerar. Ela olhou de relance para Michelle, ainda parada na entrada da sala, atenta como um cão de guarda, olhando de Lynn para %Annie%, avaliando cada reação.
- Não era pra ser assim. - %Annie% sussurrou, abaixando a cabeça.
O peso de todas as decisões mal-explicadas dos últimos dias pressionando sua nuca.
- Eu espero que não, já que você me convenceu de que jamais aceitaria o pedido dele. - Lynn rebateu, entrando sem cerimônia e fechando a porta com o calcanhar. - Posso saber o que rolou?
- Muita coisa aconteceu. - %Annie% respondeu rapidamente, consciente de que cada palavra seria dissecada pela amiga, perita em detectar mentiras ou meias-verdades.
- Tenta me explicar então. - Lynn insistiu, a voz mais baixa, quase gentil, mas com uma urgência desesperada de alguém que não tolera ser deixado para trás.
Por um momento, %Annie% pensou em contar tudo.
Mas as palavras travaram na garganta. Não podia envolver a amiga mais do que já estava envolvida, não podia arrastar ninguém para aquele mar de segredos e desconfianças.
Ela apenas balançou a cabeça, os olhos marejando.
- Eu não posso. - admitiu, e a cada sílaba sentiu se despedaçar um pouco mais.
Lynn encarou %Annie% por um longo instante em silêncio.
Não precisava dizer nada, porque o julgamento estava inteiro estampado na cara. %Annie% reconheceu aquele olhar, o de irmã mais velha que ela sempre carregava, da confidente que sempre a direcionava para o caminho mais certo e seguro, da que ouvia seus segredos sempre com o coração aberto e pronta para dar conselhos que %Annie% eventualmente seguia.
- Sabe qual é o problema? Você está com raiva do %Ryan%, raiva de ainda amá-lo. - Lynn soltou e %Annie% arregalou os olhos, sentindo o golpe direto. - Você tá agindo igualzinho a ele. Fingindo que não sente nada, posando de durona, mas por dentro tá toda estraçalhada. E eu sei disso porque faço igual.
A frase caiu como uma bomba entre elas e Michelle, ainda parada ao lado, prendeu a respiração, visivelmente desconfortável com a discussão que invadia a privacidade do lar dos %Madden%.
%Annie% nem sequer se incomodou, estava acostumada a lavar roupa suja com Lynn na frente de quem fosse.
- O que você queria que eu fizesse? - %Annie% se defendeu, a voz oscilando entre o choro e a raiva. - De repente, tudo que eu achava que sabia era mentira, até o apartamento do %Ryan%, aquele que ele disse que era alugado, era dele de verdade, oficialmente, e ele nunca me contou!
Lynn começou a rir, mas não foi um riso de deboche. Foi um riso amargo, cansado, o riso de quem já passou por isso antes e sabe que é impossível vencer.
- Enquanto você estava por aí com o Major, ele aproveitou para mexer os pauzinhos dele e transferir o Connor para os Estados Unidos.
%Annie% piscou, demorando alguns segundos para registrar a informação.
- Ele não só aprovou, como também solicitou que o Connor fosse transferido para a embaixada dos EUA assim que voltasse da lua de mel. - Lynn explicou, agora soando mais mãe do que amiga, como se estivesse relatando um boletim escolar ruim. - A gente só descobriu quando pisou no aeroporto de volta para cá. E, antes que você pergunte, não tinha nada no sistema que indicasse isso. Foi um acordo por fora.
Mas… aquilo não fazia sentido algum.
Por que ele faria isso? Por que ele não contou a ela?
- Quando vocês vão? - %Annie% perguntou ainda tentando assimilar.
- Depois do feriado de ano novo. Achei que você já soubesse… Pela tua cara, não era o caso. - Lynn retrucou, cruzando os braços. - Walker não te conta tudo, né?
- Acredite, Lynn, o Walker não me conta nem metade. - %Annie% respondeu, cada vez mais preocupada com o rumo da conversa.
A sensação de ser uma peça em um tabuleiro cujas regras desconhecia só aumentava.
Lynn olhou para Michelle, como se só então notasse a presença da outra mulher no cômodo, e o olhar foi rápido, mas afiado.
%Annie% também virou para Michelle, esperando algum comentário, mas ela apenas sorriu amarelo e saiu de fininho, deixando as duas sozinhas.
- Acho que não é só ele, não é? - Lynn perguntou, o tom acusatório suavizando, dando lugar a uma tristeza resignada. - Eu vim aqui para me despedir, %Annie%. Eu não queria que fosse assim. Mas você não me deixou escolha.
%Annie% sentiu vontade de se encolher, de enfiar a cabeça entre as pernas e sumir dali.
Sua voz saiu pequena, quase infantil.
Lynn deixou a sacola sobre o sofá sem pressa, como se o gesto fosse parte de algum ritual secreto delas.
A amiga se dirigiu até o sofá e se sentou, finalmente deixando a fachada de durona cair.
- Eu não faço ideia do porquê ele fez isso. - %Annie% confessou e pela primeira vez naquela noite, não estava mentindo para ninguém.
Por alguns segundos, ficou tudo em silêncio, exceto pelo tique-taque do relógio e pelo ronco abafado do pai no andar de cima.
Lynn mordia o próprio lábio, os olhos vermelhos de choro contido.
- Eu espero que você descubra antes de cometer a burrice de se casar com o Walker. - Lynn falou baixo. - Você merece muito mais que isso.
%Annie% ficou olhando para as próprias mãos, os dedos entrelaçados como se fossem a última barreira antes de desmoronar.
Pensou em tudo que já tinha perdido e no que ainda perderia.
%Ryan%. A família. O próprio senso de quem era. E agora, talvez, a melhor amiga.
Ela sentiu um nó na garganta, e só conseguiu dizer:
- Significa que você não vai no casamento?
Lynn deu um sorriso triste, o mesmo que %Annie% vira tantas vezes antes, quando confessavam fracassos, desilusões, ou simplesmente desabavam juntas no sofá da mansão da família Alcântara.
- Aí é que tá, %Annie%. Não sei se eu consigo…
A confissão pairou no ar, dolorosa e definitiva. %Annie% sentiu vontade de chorar, mas se conteve, porque sabia que se começasse, não conseguiria parar.
- Eu queria que as coisas fossem diferentes. Queria mesmo. - Lynn continuou, a voz embargando. - Mas parece que a gente está sempre presa nesse ciclo, né? De perder o que importa quando menos se espera.
%Annie% assentiu, porque não havia argumento que sustentasse o contrário. Tudo que podia fazer era aceitar.
Então ficou ali olhando para a amiga que era quase uma irmã e tentou memorizar cada detalhe daquele momento.
- E sua família? E vocês? - perguntou, temendo a resposta.
- Meus pais acham que é uma boa oportunidade, meu irmão não está tão feliz e o Connor está animado com a mudança, mas eu… Eu só queria ter certeza que você estava bem antes de partir.
- Eu tô. - mentiu %Annie%, sabendo que Lynn enxergava através da mentira, mesmo assim agradecendo por não ser chamada de volta à realidade.
Ficaram em silêncio por alguns minutos, as duas olhando para o chão, cada uma perdida em pensamentos e lembranças.
Pensou em como a vida delas tinha se entrelaçado e agora parecia que seguiam caminhos opostos.
- Tem algo na sacola pra mim? - %Annie% perguntou finalmente, tentando aliviar a tensão.
Lynn sorriu, um sorriso genuíno dessa vez.
- Sim. Achei que você poderia precisar, não é o seu presente de Natal porque não deu tempo de tirar tudo da mala. - ela pegou a sacola e deu a %Annie%.
Curiosa, %Annie% abriu a sacola e encontrou um pote de sorvete de chocolate.
- Para os dias ruins. - Lynn explicou, dando de ombros. - Imaginei que, independente do que estiver acontecendo na sua vida, isso sempre ajuda.
%Annie% sentiu as lágrimas finalmente escaparem, escorrendo silenciosamente pelo rosto.
Era um gesto tão simples, tão típico de Lynn, lembrar dos pequenos detalhes, das coisas que realmente importavam.
- Obrigada. - murmurou, segurando o pote de sorvete como se fosse o objeto mais precioso do mundo.
- Eu também trouxe isso. - Lynn continuou, tirando um pequeno envelope do bolso do moletom. - É um cartão de Natal, mas também tem meu novo endereço nos Estados Unidos. E o número do telefone de lá.
%Annie% pegou o envelope, seus dedos tremendo levemente.
- Eu também. - Lynn respondeu, a voz firme apesar dos olhos úmidos. - Mas não é como se fosse para sempre, certo? Você pode me visitar quando quiser. E tem essa coisa maravilhosa chamada internet.
%Annie% riu, mesmo em meio às lágrimas. Era assim com elas, sempre encontravam um jeito de fazer piada mesmo nos momentos mais difíceis.
- Promete que vai me ligar quando chegar lá? - %Annie% pediu, enxugando as lágrimas com as costas da mão.
- Prometo. E você promete me contar o que realmente está acontecendo quando estiver pronta?
%Annie% hesitou, o peso dos segredos puxando seus ombros para baixo.
- Prometo. - disse finalmente, sabendo que talvez nunca pudesse cumprir essa promessa.
Lynn se levantou, ajeitando a bolsa no ombro.
- Preciso ir. Eu meio que deixei o Connor sem saber aonde eu iria assim que chegamos na casa dos meus pais. - %Annie% assentiu, levantando-se também.
As duas se encararam por um momento, antes de se abraçarem com força, como se tentassem absorver a presença uma da outra antes da separação.
- Se cuida. Cuida da Angelina, eu vou pedir pra mandarem o presente dela. E o seu também. - Lynn sussurrou no ouvido de %Annie%. - E qualquer coisa, me liga. Não importa a hora.
- Você também. - %Annie% respondeu, relutante em soltar a amiga.
Quando finalmente se separaram, Lynn levou a mão até a barriga de %Annie% e fez um carinho com um sorriso sutil.
Mesmo que a amiga não tivesse falado nada, %Annie% podia ler perfeitamente o que se passava na cabeça de Lynn.
Ela sabia o porquê de %Annie% fazer aquilo.
Lynn se afastou e caminhou até a porta, parando apenas uma vez para olhar para trás.
Naquele olhar havia uma mistura de preocupação, amor e uma pergunta silenciosa que %Annie% não estava pronta para responder.
A porta se fechou com um clique suave e %Annie% ficou parada segurando o pote de sorvete derretendo em suas mãos, sentindo como se uma parte dela tivesse acabado de partir.
- Ela é importante para você.
%Annie% se virou, surpresa ao encontrar Michelle parada na entrada da cozinha observando-a com uma expressão que não conseguia decifrar.
Não era uma pergunta, mas uma constatação.
- Desde a infância. - %Annie% confirmou, levantando o pote indicando que iria levá-lo até a cozinha. - Ela me conhece melhor do que eu mesma às vezes.
Michelle assentiu, um movimento curto e preciso, enquanto observava %Annie% ir até a cozinha e a seguiu.
- Deve ser bom ter alguém assim.
Havia algo na voz de Michelle, uma nota de solidão. %Annie% se perguntou sobre o passado da cunhada, sobre as amizades que talvez tivesse deixado para trás ao se mudar para ficar em Shalom.
- Você quer terminar aquele chá? - %Annie% ofereceu, tentando afastar a melancolia que ameaçava engoli-la, depois de guardar o sorvete.
- Na verdade - Michelle hesitou, olhando para o relógio no celular -, acho que também vou me recolher. Foi um dia longo.
%Annie% concordou, subitamente consciente do cansaço que pesava em seus próprios ossos.
Michelle sorriu, aquele sorriso contido que nunca parecia alcançar completamente seus olhos.
- Boa noite, %Annie%. E... feliz Natal.
Quando Michelle subiu as escadas, %Annie% ficou sozinha na cozinha iluminada apenas pela luz suave sobre o fogão.
Ela abriu a geladeira novamente, pegou o pote de sorvete e uma colher. Não se importava que fosse quase duas da manhã ou que o sorvete estivesse meio derretido.
Nem se importou de sentar-se, se apoiou na bancada e arrancou a tampa do pote com tanta força que quase quebrou a borda.
Na primeira colherada seus olhos caíram sobre o anel de noivado que Walker havia dado, respirou fundo antes de largar a colher e tirar o anel com raiva do dedo, deixando que o diamante rodopiasse contra a bancada em um breve instante.
Seu coração martelava contra as costelas enquanto uma certeza queimava dentro dela.
Assim que Walker pisasse de volta na cidade, ela o encurralaria e arrancaria dele cada maldita resposta.
[...]
Major Walker andava de forma apressada pelo corredor da base sentindo as mãos formigarem, tinha tanto a fazer mas mesmo assim sua única preocupação era a visita surpresa que estava esperando-o em sua sala.
Não era de receber visitas e isso o deixava em modo de alerta.
Abriu a porta já preparado para seja lá qual fosse a guerra interna que teria que lidar mas ao olhar o rosto feminino da figura de pé perto da sua mesa, tomou um susto.
- Alcântara? - sua voz denunciou a surpresa e também chamou a atenção de Lynn que a fez virar.
- Bom dia, Major. - algo no sorriso de leve de Lynn fez o Major engolir seco e fechar a porta com receio.
- Eu não sabia que já estava de volta à cidade. - ele comentou enquanto andava até a mesa, estendendo a mão para que ela se sentasse na cadeira à frente.
- Muitas surpresas por esses dias, não é mesmo? - o tom de Lynn era ácido e impulsivo, claramente ela não iria manter a finesse por muito tempo.
Isso fez com que Walker desviasse os olhos.
- Por favor, fique à vontade.
Major respirou fundo, entendendo que estava entrando em um campo minado, e sentou-se em sua cadeira apoiando os cotovelos na mesa.
Lynn não mudou o peso do corpo, permaneceu de pé, ereta, elegante e seus olhos de águia estavam atentos a qualquer piscada de Walker.
Ele, no entanto, não pareceu se incomodar em ser observado com tamanha raiva e frustração, na verdade já estava esperando essa reação.
- Eu sei que você e Connor foram pegos de surpresa com a mudança, eu iria falar pessoalmente…
- Poupe meu tempo, Major. - Lynn interrompeu, levantando a mão para sinalizar que não queria mais ouvir. - Não vim aqui para cobrar suas explicações.
Walker levantou as sobrancelhas perguntando silenciosamente o que ela estava fazendo ali então e seus ombros enrijeceram instintivamente, prevendo o próximo ataque.
- Vim para te alertar. - ela cruzou os braços. - Eu não sei o que você está fazendo e o que a %Annie% tem a ver com isso, mas vou deixar bem claro, se algo acontecer com ela ou com a Angelina…
- Não vai acontecer nada. - ele a cortou com a voz firme e fria. - Eu estou garantido que ambas fiquem seguras.
Foi a vez dela respirar fundo, sua expressão denunciava claramente que ela não só não acreditava nas palavras dele, como também não confiava.
Foi por isso que ela apoiou as mãos na mesa e inclinou o tronco, uma chama de fúria em seus olhos da qual Major não pôde ignorar pela invasão de seu espaço pessoal.
-
Se algo acontecer, não vai ter dinheiro no mundo que o faça escapar da minha fúria. - ela continuou com determinação, ignorando completamente as palavras dele. - E eu não estou falando como uma Alcântara, estou falando como a melhor amiga.
Major não respondeu de imediato, continuou encarando Lynn enquanto via a verdade nos olhos dela.
Ela não recuou, nem se abalou. Poderia jogar na cara dele o quanto a sua influência a ajudaria, mas não havia necessidade. Walker sabia, a família Alcântara era poderosa demais e Lynn tinha recursos para fazer o que ela estava deixando nas entrelinhas.
Ela o caçaria se fosse preciso.
Lynn sorriu de lado sarcasticamente, a vontade era dizer que as palavras dele não significavam nada para ela.
Aquela conversa nem ao menos deveria ter acontecido, se não fosse a atual situação. Ela sentia que tinha alguma coisa acontecendo, só não podia provar.
Mas ela estava atenta e queria que ele soubesse disso.
Walker tinha agora mais um alvo em suas costas.
- Faça uma boa viagem. - ele sorriu, não alcançando seus olhos.
Lynn recuou, mantendo o queixo erguido e retribuiu sorrindo divertida.
- Faremos, iremos na comitiva do Almirante. - avisou e por um mísero segundo Walker vacilou. Ela tinha gostado de ter dado a notícia para ele. - Você não estava sabendo? Sabe como é, para evitarmos
acidentes.
Lynn não quis ouvir a resposta do Major e por isso deu as costas, com pressa de sair daquela sala intimidante e sufocante.
Seu recado tinha sido claro e objetivo, não precisava mais perder tempo ali.
- Seu marido sabe que veio até aqui? - o tom ameaçador a pegou desprevenida, fazendo-a parar com a mão na maçaneta.
Ela nem ao menos fez questão de virar para encará-lo, rindo seco.
- Ao contrário do seu relacionamento com a minha melhor amiga, Connor sabe de tudo que eu faço.
[...]
Era véspera de ano novo, %Annie% tinha ficado em casa enquanto Michelle tinha ido levar Alexander e Sandra na fisioterapia dele, a cunhada não voltaria para casa como costumava fazer já que por ser a última sessão do ano Alexander iria demorar um tempo a mais e Michelle tinha uma emergência no serviço para resolver.
%Annie% achou bom ficar sozinha em casa, acabou falando com Lynn no telefone por alguns minutos. A amiga estava surtando com a viagem e %Annie% sabia que o fato dela ter ido se despedir pessoalmente era um pedido mudo para não ir até o aeroporto e transformar aquela despedida em algo ainda mais doloroso.
Ela também não estava pronta para isso, não depois de ouvir o tom de desapontamento da amiga.
Sabia que Lynn não a julgava, mas também sabia que ela não concordava com a sua decisão.
Além disso, tinha sido uma manhã bem produtiva, tinha atualizado o seu diário e acabou pesquisando algumas coisas na área da culinária. Não que fosse realizá-las agora já que não conseguiria a primeiro momento mas gostava de estar atualizada sobre, para quando tivesse a oportunidade de voltar a estudar não estaria parada no tempo.
Estava levando o lixo para fora de casa quando um carro desconhecido parou na calçada de sua casa, a única coisa que ela podia dizer era que aquele carro não era o tipo que seus vizinhos costumavam ter, muito menos que aparecia com frequência na rua dela.
Por isso, estava disposta a simplesmente ignorar e entrar, mas não chegou a fazer quando o vidro do passageiro desceu revelando quem estava por trás do volante.
%Annie% teve que conter o queixo que estava tentado a cair ao olhar a figura feminina elegante que fitava %Annie% com receio.
- O que a senhora quer? - perguntou, sem se importar se soou rude, estava imóvel sem saber o que fazer.
- Entre no carro e podemos conversar. - o tom de Cristina era rígido e sério.
%Annie% não sabia se era porque ela estava com vergonha de estar ali ou de falar com ela, podia ser os dois já que Cristina usava óculos escuro grande o suficiente para praticamente esconder seu rosto.
- Não sei se devo. - rebateu, sincera.
A vontade de %Annie% era simplesmente virar as costas e deixar Cristina falando sozinha, não estava nem um pouco interessada em ser destratada de novo, porém uma minúscula parte de si estava curiosa para saber o que ela estava fazendo ali, principalmente como ela sabia onde %Annie% morava.
Se bem que, isso não era tão difícil de adivinhar.
Respirando fundo, ela concordou com a cabeça silenciosamente e entrou no carro segurando firmemente o celular na outra mão.
O carro ficou em um silêncio perturbador enquanto Cristina saía da rua da casa dos %Mackie%, %Annie% estava encolhida no banco e a testa franzida denunciava o quão na defensiva ela estava, nem ao menos conseguia ouvir a respiração de Cristina e isso era agonizante.
%Annie% segurou o telefone como se fosse uma âncora, os dedos apertando a capa protetora até os nós dos dedos ficarem brancos. O silêncio dentro do carro era sufocante, mas nem por isso %Annie% se atreveu a quebrá-lo.
Ela não conseguia ver os olhos de Cristina por trás dos óculos escuros, já que a observava pelo canto do olho, mas sentia o peso do olhar da mulher como se estivesse sendo estudada.
Ela manteve o corpo colado à porta, a mão direita descansando sobre a maçaneta, pronta para saltar se fosse necessário.
Cristina dirigia com precisão mecânica, as mãos enluvadas segurando o volante numa posição perfeita, como se tivesse saído de uma aula de direção defensiva. Cada movimento era calculado, controlado, e isso deixava %Annie% ainda mais nervosa.
- Aonde estamos indo? - %Annie% perguntou finalmente, a voz saindo mais tensa do que pretendia.
- Para um lugar onde possamos conversar sem ser interrompidas.
A resposta não esclareceu nada e %Annie% sentiu uma pontada de pânico subir pela espinha. Ela olhou pela janela, tentando memorizar o caminho, mas Cristina havia tomado uma rota que %Annie% não conhecia bem.
As ruas estavam menos movimentadas por causa do feriado e isso só aumentava sua ansiedade.
O celular vibrou em suas mãos, uma mensagem de Michelle perguntando se ela precisava de alguma coisa do mercado. %Annie% digitou rapidamente uma resposta, sem tirar os olhos de Cristina, que parecia não se importar com o que ela fazia.
- Sua família sabe onde você está? - Cristina perguntou, como se tivesse lido seus pensamentos.
%Annie% hesitou. Mentir seria mais seguro, mas algo na voz de Cristina sugeria que ela já sabia a resposta.
As palavras enviaram um calafrio pela espinha de %Annie%. Ela apertou o telefone com mais força, por um momento se arrependeu de ter entrado naquela droga de carro.
Quando ela começou a cogitar a hipótese de avisar Michelle, reconheceu a rua onde Cristina começava a parar o carro.
%Annie% controlou a expressão de confusão ao reconhecer o jardim da família %Mackie% se aproximando.
O mesmo jardim onde ela havia se encontrado às escondidas com %Ryan% diversas vezes.
Por que Cristina a levaria ali?
Sem dizer nada, Cristina parou o carro de vez e saiu do veículo tendo a certeza que %Annie% faria o mesmo.
Assim que o fez, %Annie% viu Cristina balançar levemente a cabeça para que ela a acompanhasse. Ainda confusa, ela seguiu Cristina que começava a adentrar o jardim um pouco mais a frente e levantou os óculos até o topo de sua cabeça.
Com os braços para trás, Cristina observava o jardim mantendo a postura elegante e impecável.
- Esse jardim costumava ser o refúgio de %Ryan%. - a voz de Cristina estava carregada de tanta emoção que %Annie% se surpreendeu, talvez fosse a primeira vez que ouvia a mulher falar em um tom que não transbordasse raiva ou arrogância.
Tinha uma melancolia que combinava com o clima daquele dia, vento forte, cheiro de chuva, céu nublado.
- Eu sei. - %Annie% suspirou profundamente assim que Cristina parou diante das flores brancas. - As favoritas dele.
Um sorriso triste se formou em seu rosto ao ser inundada pela lembrança e suas palavras fizeram com que Cristina se virasse para encará-la com um misto de surpresa e nostalgia.
Cristina parecia chocada, como se não pudesse acreditar que %Annie% soubesse que as tulipas eram as flores preferidas de %Ryan%.
Ela respirou fundo e sua expressão séria, que já era quase uma máscara impenetrável, voltou ainda mais rígida do que antes, como se estivesse se preparando para enfrentar uma tempestade de emoções.
Cristina ficou de costas para %Annie%, os ombros rígidos, mas assim que falou a voz saiu mais humana do que %Annie% jamais ouvira antes.
- Sabe quanto eu paguei para a mídia não cobrir a morte dele?
A pergunta vinha seca, sem drama, como se Cristina tivesse ensaiado cada palavra por meses e ainda assim, quando se virou o rosto estava marcado por sulcos de exaustão e raiva contida.
%Annie% foi pega de surpresa. Não sabia exatamente o que esperava ouvir daquela mulher, mas não era isso.
O coração pulou no peito, piscou mais do que o necessário e as mãos formigaram de tensão.
Entretanto, Cristina não esperou resposta.
- É impressionante como qualquer um tem seu preço. Os grandes jornais, as revistas, até os tabloides de quinta. Todos aceitaram. - ela caminhou ao redor de uma moita de tulipas, afastando distraidamente os galhos com o dorso da mão. - Achei que seria fácil, sabe? - o tom era amargo. - Mas quando meu filho morreu, eu descobri que não há nada simples em perder alguém que você carregou por nove meses. Ou em explicar para os outros por que você não quer virar um espetáculo.
O impacto daquelas palavras deixou %Annie% muda por vários segundos, a língua presa no céu da boca, o corpo de repente pequeno demais para conter toda aquela dor.
Nunca pensou que Cristina tivesse sentimentos parecidos com os seus, nem sequer que fosse capaz de senti-los. Mas ali, diante das flores preferidas de %Ryan%, a fachada daquela mulher parecia ruir bem à sua frente de uma forma que jamais tinha sequer imaginado que um dia poderia assistir de perto.
- Eu fiz isso para que não doesse, pelo menos não toda vez que ligasse a televisão ou pegasse o jornal. - Cristina olhou para %Annie% como se a desafiasse a duvidar. - Ver notícias, matérias, programas inteiros sobre a morte dele era doloroso demais, e eu sabia que viriam atrás de nós como abutres famintos. - uma pausa longa, o olhar se perdeu no céu nublado. - Eu preferi preservar o que tinha restado da nossa família. Por isso a mídia não sabia onde foi o funeral. Ninguém sabia, exceto talvez meia dúzia de pessoas confiáveis
%Annie% sentiu um gosto amargo na boca, uma pontada de indignação misturada com pena.
Aquilo explicava muita coisa, mas não era como se ela tivesse se preocupado com isso na época porque não pensava em nada além de sua dor, ignorou todo o resto.
Imaginou o que teria sido para Cristina enterrar a lembrança de seu único filho - já que nem ao menos tiveram as cinzas dele de volta -, cercada de seguranças e advogados, todos orientados a calar jornalistas e impedir fotos.
Odiou a ideia, mas odiou ainda mais a si própria por entender o impulso de proteger quem se ama, mesmo que isso custe a própria sanidade.
%Annie% quis rir do trágico paralelo entre elas, nunca imaginou que tivesse algo em comum com Cristina mas ali percebeu que naquele momento agia como ela.
%Annie% estava tentando salvar a sua filha que estava para nascer enquanto Cristina salvava provavelmente uma das poucas coisas que havia restado de %Ryan%: sua memória.
Cristina fechou os olhos por um instante, puxou o ar como quem luta para não desabar, e voltou a falar.
- Eu sei o que você deve pensar de mim. Sei que nunca fui a mãe que ele merecia e menos ainda uma sogra decente. - a voz falhou, mas ela não se permitiu chorar. - Não foi fácil ver meu filho renunciando à carreira, do futuro… - olhou de relance para %Annie%, os olhos quase brilhando de desafio. - … de tudo, por alguém que eu nem conhecia direito.
Por alguém como eu, pensou %Annie%.
Uma sombra de ressentimento dançou em seu peito, mas ela conteve a língua. Não queria afastar Cristina agora que pela primeira vez, a mulher mostrava algo além de hostilidade.
- Não vim aqui te acusar de nada. - Cristina recomeçou, a postura de novo dura, mas a voz cada vez mais baixa. - Só quero que saiba que, apesar de tudo, eu respeito a sua dor.
As palavras ecoaram em %Annie%, estranhas e quase absurdas, como se tivessem sido pronunciadas em outro idioma.
Por um segundo ela ficou tentada a agradecer, mas percebeu que seria inútil.
- Se a senhora acha que eu quero dinheiro… - arriscou %Annie% com um fio de voz, mais para preencher o silêncio do que por convicção.
Cristina ergueu uma das sobrancelhas, o rosto agora sem qualquer afetação.
- Eu sei que você não quer. - a confissão veio como uma brisa gelada. - Embora eu não concordasse com o relacionamento de vocês, eu conhecia meu filho. Se ele estava com você, é porque você tem caráter.
%Annie% não soube como reagir.
Não era um elogio, não exatamente, era mais uma constatação amarga de uma realidade que Cristina nunca conseguiu aceitar enquanto %Ryan% estava vivo, mas era tudo que %Annie% tinha agora.
Não pediu para ser aprovada ou perdoada, mas as palavras de Cristina grudaram nela como uma segunda pele.
Por um momento, as duas ficaram ali em silêncio, cercadas pelos resquícios de uma vida que já não existia.
Cristina olhava para o jardim como se procurasse rastros do filho, alguma pista de que tudo aquilo não tinha sido em vão. %Annie%, por sua vez, sentiu o peso daquela confiança involuntária e se pegou pensando no que aconteceria a seguir.
- Não sei de quem ele herdou isso, talvez do avô. - disse Cristina, quase para si mesma. Os olhos estavam vermelhos, mas a postura era ereta. - Meu pai era assim. Duro, mas justo. Preferia engolir os erros a ter que desculpá-los em público.
%Annie% quis, por um instante, saber o que se passava na cabeça de Cristina. Como era crescer sob a tutela de pessoas frias, como era ser obrigada a enterrar todos os sentimentos debaixo de uma camada de orgulho e protocolo.
Pensou em perguntar, mas algo no olhar de Cristina a deteve, um aviso silencioso de que havia limites para aquela trégua improvável.
- A senhora não precisava me chamar aqui para isso. - disse %Annie%, tentando manter a compostura. - Podia ter mandado uma mensagem, acho que conseguiria achar meu número da mesma forma que conseguiu meu endereço.
Cristina soltou uma risada curta, sem humor.
- Você me acha tão covarde assim?
%Annie% piscou, surpresa.
- Não foi o que eu quis dizer.
- Não? - Cristina se aproximou, as duas agora separadas por menos de um metro. - Eu nunca fui boa em dizer essas coisas, %Annie%. - piscou algumas vezes ao ouvir seu nome sair da boca dela pela primeira vez sem resquício de arrogância. - Nunca aprendi a pedir desculpa, a admitir que errei. Só vim aqui porque achei que você precisava ouvir da minha boca que, apesar de tudo, você foi importante para ele. - o silêncio pesou por um segundo, antes dela acrescentar: - E para mim, também.
O final da frase caiu como uma tempestade silenciosa sobre %Annie%, que sentiu os olhos arderem.
Pensou em %Ryan%, no que ele diria daquela cena, provavelmente ficaria desconfiado com a atitude da mãe em resolver a situação que ela mesma havia criado em um encontro no jardim, o mesmo jardim que ele havia entregado seu coração a %Annie% há anos atrás.
%Annie% mordeu o lábio para não rir nem chorar.
Parecia tão irreal aquilo, como se estivesse vivendo uma cena de um filme.
Cristina ajeitou o óculos escuro no topo da cabeça e ali ficou, encarando %Annie% como quem espera uma sentença.
- Quando %Ryan% foi até a mansão te defender eu não queria ter enxergado o porquê. - Cristina soltou e %Annie% sentiu o corpo paralisar como se tivesse sido picada por um inseto venenoso.
- O quê? - seu sussurro saiu tão fraco que ela nem sabia se a mulher a sua frente ouviu.
Mas ao reparar que Cristina engoliu seco, soube que a resposta era positiva.
- Depois da temporada que ele passou no hospital, ele foi até a nossa casa com a tipóia ainda no braço, eu achei que estava de volta para o lar de onde ele vinha mas foi bem diferente do que eu imaginei. - ela suspirou, seu olhar agora distante a lembrança que rodeava sua cabeça. %Annie% nem ao menos respirava. - A primeira coisa que ele disse foi que não iria abrir mão de você, não existia concessão. Era isso ou ele sumiria das nossas vidas para sempre.
As lágrimas se formaram pesadas e quentes nos olhos de %Annie%, foi preciso muito controle para que elas não saíssem junto com o grito que estava engasgado em seu peito.
%Ryan% nunca tinha comentado isso com ela. Apenas que ele tinha conversado com os pais e que eles entendiam o relacionamento deles.
Nunca imaginou que ele tinha dado um ultimato.
- Eu achei a princípio que ele não estava falando sério, mas quando olhei nos olhos dele assim que meu marido o confrontou, eu vi algo que nunca enxerguei antes. - a voz de Cristina tremeu. - Não era só amor, era também confiança, segurança, pura e limpa. Meu filho sempre escolheu você e eu demorei para entender isso porque doía.
%Annie% desviou os olhos sentindo o estômago revirar, ela poderia vomitar ali e agora se tivesse força para isso, uma lágrima solitária caiu e ela a secou brevemente com ódio.
Não queria chorar. Não queria que aquela conversa a afetasse tanto.
Mas seria mentira se dissesse que aquilo não tinha feito seu coração aquecer, que não sentia o amor de %Ryan% preencher cada poro de seu corpo.
O vento soprou entre os galhos e pela primeira vez %Annie% entendeu que Cristina não era apenas a vilã de sua história, era também uma mãe de luto, uma mulher soterrada por expectativas e obrigações, talvez ela nunca tivesse reconhecido o sentimento que %Ryan% tinha por %Annie% porque nunca havia vivenciado plenamente.
Respirou fundo, esqueceu as dores antigas e tentou focar no presente.
- O que a senhora realmente quer? - perguntou hesitante, tentando esconder a incerteza em sua voz.
Cristina parecia ter uma tempestade acima de sua cabeça, como se estivesse prestes a lançar uma torrente de palavras, mas sem saber por onde começar.
- Eu não vim até aqui para pedir que sejamos amigas.
Cristina disse isso sem rodeios, a voz cortante. %Annie% notou o jeito como seus dedos se entrelaçaram à frente do corpo, as articulações ficaram brancas, e percebeu que aquela mulher estava travando uma guerra silenciosa não só com ela, mas também com o próprio orgulho.
Se estava sendo difícil para %Annie% manter uma conversa com ela por mais de cinco minutos, imaginava como estava sendo difícil para ela ter que ficar ali, abrindo feridas na frente dela, tentando explicar que ela também tinha um coração.
Que, embora não tenha dito em voz alta, ela tenha errado.
%Annie% cruzou os braços, um gesto quase infantil de quem se blinda contra um ataque que já espera, mas também de quem quer sinalizar ao outro que não está completamente à mercê.
- Nem acho que isso seja possível um dia. - respondeu, com uma franqueza inesperada.
Parte de si queria acreditar que no futuro aquela trégua poderia evoluir para uma convivência menos hostil, mas o passado pulsava entre elas como uma ferida aberta.
Não podia simplesmente piscar e esquecer tudo o que havia escutado, tudo o que aquela mulher havia feito.
Cristina balançou a cabeça, um sorriso torto surgindo por um segundo.
- Você é igualzinha ao %Ryan% nessas horas. Não sabe esconder nada.
A frase pairou no ar como uma benção amarga e %Annie% sentiu o peito se contrair. Quase agradeceu à sogra pelo elogio velado, mas não se permitiu ceder ao sentimentalismo.
Já Cristina, mudou o peso do corpo e olhou para baixo, para as mãos que repousavam à frente, os dedos tamborilando lentamente uma melodia invisível.
- Eu sei que esse bebê é do %Ryan%.
O golpe veio seco, sem preparação, e apesar de %Annie% já esperar por isso, ouvir a afirmação em voz alta foi como se alguém tivesse arrancado um esparadrapo de uma ferida ainda fresca.
Ela olhou para a barriga, como se ali pudesse encontrar uma resposta definitiva e então ergueu o queixo, encarando Cristina com determinação.
Cristina franziu o cenho, claramente perdida.
- O nome da nossa filha. É Angelina.
Cristina ficou paralisada por um instante, os olhos marejados de uma emoção que ela não com certeza não iria nomear.
- Eu sempre quis ter uma menina. - murmurou, a voz tão baixa que %Annie% precisou se aproximar um passo para ouvir. - Engraçado, nunca disse isso nem para o %Ryan%.
Por um momento, as duas compartilharam um silêncio carregado, %Annie% se sentiu estranhamente bem ouvindo um segredo de Cristina, era como se estivesse conhecendo a mulher pela primeira vez.
Vulnerável e diferente do primeiro embate que tiveram.
- Infelizmente, não nasci com o dom para ser mãe. - completou Cristina, agora com um sorriso tímido, feito de tristeza e autodepreciação.
Ela piscou afastando as lágrimas em uma velocidade impressionante e ajeitou os óculos escuros que já não escondia mais nada.
- Estou aqui para garantir que não irei mais perturbá-la, mas é tudo o que posso oferecer.
As palavras saíram quase como um pedido de desculpas, ainda que torto e orgulhoso.
%Annie% sentiu os ombros relaxarem, mas o alívio não veio sozinho. Era um alívio contaminado por dúvidas, por lembranças de todas as vezes em que Cristina se preparava para pisar nela como um inseto.
Confiar nela seria impossível.
- É o suficiente pra mim. - disse, tentando convencer a si mesma tanto quanto convencer Cristina.
A sogra soltou uma risada seca que ecoou pelo jardim como o som de uma taça trincada.
- Isso nunca é suficiente para ninguém, %Annie%. Nem para você, nem para mim.
Houve ali um convite para a sinceridade e %Annie% percebeu que Cristina queria mais do que tudo ser reconhecida em sua humanidade falha.
Era quase como se ela estivesse implorando para ser vista além de sua prepotência.
- Entretanto, se um dia você e consequentemente Angelina estiverem em perigo, basta um telefonema e eu farei o que puder.
Cristina mexeu no bolso da calça de alfaiataria e tirou um cartão, estendendo para %Annie%.
A promessa foi dita de tal forma que %Annie% não soube se devia se sentir protegida ou ameaçada.
- Por que está fazendo isso? - indagou, sem conseguir conter a inquietação enquanto receosa levantava a mão para pegar o cartão. - Fala como se fosse inevitável que eu vá correr perigo.
Os olhos de %Annie% correram brevemente pelo telefone no cartão e logo voltou a encarar Cristina que deu de ombros.
- Você é ingênua, %Annie%. O que acha que seu noivado com alguém como o Walker irá trazer?
A menção ao novo noivo foi como um soco no estômago. %Annie% sentiu como se de repente todos os seus segredos tivessem sido postos à mesa e ela sabia que não havia motivo porque era essa a sua mais nova denominação.
Noiva de Walker. Mas por algum motivo, algo no tom dela fez %Annie% vacilar.
Cristina não parou, dessa vez tinha uma cautela beirando a cuidado.
- O Walker não é um homem comum. Não sei se você percebeu, mas ele faz parte de uma engrenagem que engole gente como você sem nem mastigar. - a cada palavra, Cristina cravava os olhos nos de %Annie%, quase como se tentasse hipnotizá-la. - Você está envolvida num jogo que nunca vai entender completamente. E, nesse jogo, mulheres grávidas de herdeiros indesejados acabam desaparecendo.
O sangue gelou nas veias de %Annie%, mas ela resistiu ao impulso de recuar.
Cristina sorriu de forma enigmática.
- Não preciso da sua proteção.
Cristina gargalhou, desta vez com genuíno espanto.
- Precisa, sim. E vai precisar ainda mais quando perceber que, em nome do amor, você abriu mão de todas as suas defesas. - ela se inclinou, apoiando as mãos nos joelhos, e olhou %Annie% nos olhos de novo: - Eu não estou dizendo que o Walker vai te fazer mal. Mas ele não hesitaria em sacrificar você se fosse preciso para manter o próprio poder.
%Annie% franziu a testa. Algo naquele enigma a deixou encucada, desde quando Cristina conhecia Walker?
- Você fala como se me conhecesse melhor do que eu mesma.
Cristina ficou pensativa por um momento.
- Eu conheço homens assim desde criança, %Annie%. Eles parecem protetores, mas são predadores.
%Annie% sentiu o corpo inteiro formigar, como se cada célula estivesse prestes a se rebelar contra ela mesma.
Engoliu seco, tentando processar tudo o que ouvira, tudo o que havia feito era tentar proteger quem mais amava e sabia que iria lidar com tal decisão pelo resto de sua vida.
Mas ouvir aquilo de Cristina a fez duvidar se havia tomado a decisão certa, escutar de pessoas próximas era uma coisa, agora de uma pessoa que até ontem a odiava?
- Não quero acreditar que o Walker seja esse tipo de homem.
- Então fique atenta. - Cristina colocou os óculos escuro de volta no rosto e finalmente se virou, preparando-se para deixar o jardim. - Eu dormiria com um olho aberto se fosse você.
%Annie% ficou paralisada, a mão inconscientemente repousando sobre a barriga. A brisa pareceu atravessar sua espinha e por um momento ela pensou em %Ryan%, nos olhos acolhedores que iriam envolver %Annie% antes mesmo de seus braços para tirar qualquer sombra de dúvida que tivesse pairado sobre ela por causa daquela cena, e também no Walker, nos silêncios calculados e na gentileza que agora parecia, à luz das palavras de Cristina, um dinamite prestes a explodir.
Ela se virou para encarar Cristina pela última vez, mas a mulher já deixava o jardim a passos rápidos.
Completamente confusa pelo que ouvira, %Annie% saiu do jardim quase tropeçando no próprio pé, os pensamentos rodando em círculos tão velozes que a paisagem ao redor parecia perder o foco.
Só se deu conta de que estava sem carteira e, portanto, sem dinheiro quando já havia caminhado metade do quarteirão e o vento levantava o cabelo em redemoinhos.
Parou na esquina, tentando puxar o ar de volta para dentro do peito. Pegou o celular do bolso da calça e com os dedos trêmulos abriu o aplicativo de corridas.
O Uber demoraria sete minutos.
Ela digitou o endereço de casa quase no piloto automático, sem saber direito se queria mesmo voltar para seu lar ou se preferia rodar em círculos pela cidade até o sol sumir.
Por um instante, pensou em ligar para %Ryan%, o impulso tão absurdo quase a fez rir.
Ele nunca mais atenderia.
Pensou em Michelle, pensou no Walker, pensou em Angelina. E, no fundo, pensou em Cristina.
De uma coisa precisava admitir, não era daquele jeito que tinha imaginado o seu final de ano.
O carro chegou em cinco minutos, antes do previsto, e subiu na calçada para fazer o retorno. %Annie% entrou no banco de trás, agradecida pela pressa, e passou o trajeto inteiro olhando pela janela para a paisagem borrada da cidade.
O motorista perguntou se ela queria música e ela negou. Queria silêncio. Precisava de silêncio.
Quando chegou ao endereço, respirou fundo com a sensação de segurança tomando conta de seu corpo.
Desceu do carro, agradeceu mecanicamente enquanto colocava o celular no bolso da calça e só percebeu uma presença inesperada quando levantou a cabeça.
Uma silhueta alta, imóvel, encostada no batente da porta de entrada, braços cruzados, como se estivesse aguardando há uma eternidade do lado de fora.
O susto a fez parar de súbito, o coração saltando numa batida.
Não de uniforme, mas em roupas civis, uma camisa social azul escura, calça jeans preta, um sobretudo leve cobrindo os ombros largos.
O cabelo bem penteado, as feições duras suavizadas por uma expressão de fadiga, ou talvez só pelo incômodo de ter sido ignorado.
Ele tinha mandado várias mensagens nos últimos dias, mas ela ignorou boa parte delas, não estava com cabeça para manter uma conversa animada com Walker quando a última coisa que sentia era animação.
%Annie% percebeu num relance que havia olheiras escuras sob os olhos do Major, como se ele não dormisse há dias.
Durante um longo segundo os dois ficaram se encarando, o muro invisível de tudo o que não conseguiam dizer crescendo cada vez mais.
%Annie% sentiu raiva. Raiva de si mesma, de Cristina, do próprio Walker.
Não queria aquele confronto, não agora, não queria mais ninguém no seu mundo pelo resto do dia, mas ali estava ele como um lembrete de que suas escolhas sempre iriam assombrá-la, não importa o quanto tentasse fugir de cada uma delas.
Ela não sabia se estava realmente preparada para despejar em Walker tudo o que se acumulava desde os últimos dias. Havia tanto a dizer, tanto a ser vomitado para fora, que seu corpo inteiro se contraía na tentativa de prender as palavras.
%Annie% percebeu que só agora, depois de tanto fugir, faltava coragem para encarar o Major. Olhos dele tão atentos, tão à espreita, que cada movimento dela parecia um erro prestes a ser apontado e julgado.
Aquela raiva que havia sentido antes, de que o obrigaria a falar tudo o que ela sentia que ele estava escondendo, deu espaço a insegurança e ao medo.
- Major, o que faz aqui? - a voz saiu instável, hesitante, quase infantil. - Você não ia voltar só na próxima semana?
Walker demorou um segundo para responder.
Era de se esperar que ele fosse direto ao ponto, mas talvez nem ele soubesse como iniciar aquele confronto.
- Antecipei a volta. Tive que resolver umas pendências com o comando, mas... - calou-se, a frase suspensa no ar como se procurasse as palavras certas. - Precisava falar com você.
Ele parecia exausto, os olhos fundos como trincheiras, mas sustentou o olhar de %Annie% até que ela sentisse as pernas vacilarem, prevendo algo ruim.
- Tem algum problema? - ela avançou um passo com as mãos trêmulas junto ao corpo.
Walker baixou a cabeça, vasculhando o chão de pedras antes de encarar %Annie% de novo.
- Uma editora chefe da OK Magazine entrou em contato comigo. - disse, sem rodeios. - Querem fazer uma exclusiva conosco.
%Annie% demorou para processar a notícia. Sentiu o estômago revirar e a primeira reação foi negar, desacreditar, torcer para que fosse apenas um blefe ou mal-entendido típico da imprensa marrom.
- Por quê? - a pergunta saiu sem ênfase, quase sussurrada.
- Acho que alguém ouviu a nossa conversa com a Cristina na festa. Talvez algum funcionário, talvez a própria assessoria dela. Já não importa. Eles sabem.
O sangue pareceu fugir do rosto de %Annie%. Ficou ali parada, sentindo o vento gelado chicotear o rosto e a promessa de uma humilhação pública cada vez mais próxima.
Walker soltou um leve suspiro, uma espécie de riso amargo.
- Eu sei que não é o que você queria, mas pode ser bom.
- Bom? - ela perguntou levantando uma sobrancelha, sem conseguir acompanhar o raciocínio.
- Para convencer todo mundo. - ele deu de ombros, como se aquilo fosse óbvio. - Se mostrarmos segurança, não vai sobrar espaço para especulação ou para dúvidas.
%Annie% não conseguia se convencer. Imaginava a própria imagem estampada em portais de fofoca, nas redes sociais, as versões distorcidas da própria existência circulando a cada clique, os comentários, os julgamentos de quem era alimentado por esse tipo de fofoca barata e desnecessária.
Passou a mão pelo rosto, sentindo os ombros cada vez mais pesados.
- Claro - murmurou, sem qualquer entusiasmo. - Vai ser ótimo.
Walker identificou o sarcasmo, mas preferiu ignorar.
- Podemos marcar na mansão da minha família. - falou de forma despretensiosa. - Acho o loft pequeno para o tipo de matéria que eles querem fazer.
É claro que era. Ela mordeu o lábio para não deixar o sorriso irônico escapar.
- Tudo bem. - %Annie% respondeu, embora a expressão de consentimento só tivesse saído para não estender o assunto.
O que mais poderia fazer? Se negassem para a imprensa, a matéria sairia de qualquer jeito, só que eles não teriam controle da narrativa. E a fofoca se espalharia como um vírus.
Tudo o que ela queria evitar.
Ela encarou Walker e observou a contração lenta da mandíbula, o piscar metódico, a forma como ele mexia os ombros desconfortavelmente.
- Por que você não me contou sobre a transferência do Connor? - as palavras saíram afiadas, bem diferente do que deveria ter sido, uma pergunta simples e não um ataque.
%Annie% nem ao menos conseguiu controlar as palavras, quando percebeu já tinha dito em voz alta.
Walker levou meio segundo para processar.
A primeira reação foi reflexiva, quase de autodefesa. Os ombros se enrijeceram, a respiração mudou de padrão e os olhos por um instante ficaram vidrados.
- Não foi uma decisão minha, %Annie%.
- Como não? Você comanda a equipe alfa, tudo passa pelo seu crivo. - sentiu o sangue subir ao rosto, não pela fúria, mas pela suspeita de estar sendo tratada como alguém incapaz de entender o que realmente se passava.
- Nem tudo. - agora o tom dele era moderado, quase neutro.
Mas %Annie% notou a forma como ele desviava o olhar, preferindo mirar os próprios sapatos ou o ponto logo acima da cabeça dela.
Proteção? Fuga? Hesitação? Ela não sabia qual ele estava esboçando enquanto lutava para não a encarar nos olhos.
- Então foi ordem de quem? - %Annie% queria acreditar que era só curiosidade, mas sabia que era muito mais do que aquilo.
- Diretoria de Operações e Contrapropaganda. - Walker soou mais formal do que nunca, como se recitasse um comunicado oficial.
Ele hesitou, rolando a língua pelo céu da boca antes de responder.
%Annie% sentiu vontade de rir, mas era um riso de escárnio, quase desprezo.
- Não estamos na base. Pode guardar o protocolo, Walker. - disse e imediatamente se arrependeu porque viu nos olhos dele a faísca de mágoa, quase imperceptível.
%Ryan% raramente falava de Walker, então ela sempre teve uma visão distante do homem, e nas poucas vezes foi o irmão que com menos tato, dizia que "
o Walker era uma fortaleza cercada de minas terrestres, até o terreno baldio é letal."
A pausa se alongou carregada e %Annie% só percebeu que estava tremendo quando Walker finalmente ergueu a cabeça e estendeu o braço, como se quisesse tocar nela, mas segurou o gesto a meio caminho.
- Não quero discutir isso na calçada. - falou num tom que era quase pedido de desculpas, quase ordem.
- Então não discute. - rebateu %Annie%, mas as palavras perderam força ao atravessar o ar frio.
Walker ficou alguns segundos em silêncio, depois balançou a cabeça devagar.
- Connor foi transferido porque será muito mais útil lá do que aqui. - disse Walker e dessa vez a voz saiu num fio áspero, praticamente um desabafo.
%Annie% sentiu a frase ricochetear dentro do peito e o primeiro reflexo foi de recuo.
Era injusto atribuir culpa só a ele, mas era mais fácil.
A raiva era uma armadura cômoda e simples de vestir, mas tudo o que ela conseguia pensar era que nada daquilo deveria estar acontecendo com nenhum deles, a equipe alfa não merecia aquilo, suas amigas não mereciam aquilo.
- E você fez o quê? - dessa vez não havia hesitação nem filtro, apenas a pergunta crua, como se %Annie% precisasse arrancar uma confissão para enfim perdoar.
Walker apertou os olhos e no contorno do rosto ela viu o traço do cansaço.
Olheiras grossas, linhas novas na testa, um ranger de maxilar que parecia acionar centenas de memórias.
Não respondeu de imediato, buscando as palavras no próprio silêncio até que riu amargo.
Aquilo soou falso, burocrático, automático e %Annie% não disfarçou a incredulidade.
- Não pareceu. - retrucou, a voz subindo meio tom.
O silêncio que se seguiu pesou, Walker respirou fundo, como se reunisse argumentos para uma audiência militar, os dedos brancos de tanta força.
- Eu sei que não, %Annie%. - só então ergueu o olhar e ela percebeu nos olhos dele que não havia só exaustão, mas um tipo de vergonha contida, como se Walker de repente não soubesse mais como medir as próprias falhas. - Mas dessa vez não era comigo. O nome do Connor já estava na lista quando eu cheguei na sala.
- Eles não tomam decisões assim sem o seu aval. - ela contra-atacou agora mais baixo, como se temesse que algum vizinho pudesse ouvir. - Sempre dizem que você “blinda” os seus.
Walker sorriu, mas o gesto era robótico.
- Eu blindo até o limite do possível. - respondeu e deu um passo para trás, distanciando o corpo. - Mas quando o comando quer fechar uma porta, ninguém força a entrada. Nem eu.
%Annie% engoliu seco, parte contrariada, parte ainda incrédula.
Tinha alguma coisa nos olhos dele que a fazia recuar, como se não tivesse coragem para acreditar que tinha sido exatamente assim.
Parecia até que Walker estava desistindo de sua equipe sem lutar.
%Annie% balançou a cabeça antes que a comparação pudesse vir com mais força.
- E o que vai acontecer com ele? - perguntou, tentando minimizar o tremor na voz.
- Vai para o Centro de Operações Especiais. Já saiu do contingente da cidade. - Walker explicou, agora soando mais protocolar do que nunca. - Lá pelo menos não vai ser exposto igual estava aqui.
%Annie% balançou a cabeça, inconformada.
- Você fala como se fosse motivo de orgulho.
Walker hesitou e só depois de alguns segundos respondeu.
- Não é. Mas é melhor do que o destino da maioria.
Por um instante, os dois permaneceram imóveis, sem querer adentrar mais a fundo naquele assunto tão delicado.
Walker sabia que %Annie% não estava satisfeita e ela sabia que ele não diria exatamente o que ela queria ouvir.
%Annie% percebeu que estava apertando o próprio punho com tanta força que os dedos dormentes chegavam a doer. Olhou para o chão tentando se recompor e foi então que Walker numa gentileza inesperada, quebrou a distância e pousou uma mão leve no ombro dela.
O gesto era hesitante, como se pedisse permissão para tal ato, e %Annie% sentiu a tensão do corpo se transformar em confusão.
Ela nem sabia se devia permitir ou afastar o Major.
- Eu não deveria ter vindo. - Walker murmurou, quase só para si. - Não hoje, não desse jeito.
Ele afastou a mão rapidamente, nem ao menos teve tempo para que o gesto aquecesse %Annie%, fazendo-a se sentir ligeiramente mal por isso.
Ela não queria que a culpa o corrompesse, mas também não sabia o que deveria dizer para amenizar aquela situação.
Tinha imaginado um cenário bem diferente para aquela discussão.
O silêncio seguinte não era mais hostil, só resignado. %Annie% percebeu que não havia nada a confessar, nada a resolver.
O abismo entre eles talvez nunca se fechasse, mas pelo menos era um abismo compartilhado.
- Não vou te incomodar mais. - Walker anunciou, ajeitando os punhos da camisa sob o sobretudo. - Só queria que você soubesse...
Parou, o resto da frase morrendo no ar.
%Annie% teve a impressão de que ele queria pedir desculpas. Ou talvez só perguntar se ainda havia alguma chance.
Mas como sempre optou pelo silêncio.
Walker ficou ali por mais alguns segundos, como se esperasse que ela tomasse alguma iniciativa, ou talvez só quisesse prolongar o contato para além da função protocolar que se tornava rotineira.
- Sei que tudo isso parece uma loucura. - acrescentou, baixando o tom de voz. - Mas eu quero, de verdade, que dê certo.
- Nós. - ele hesitou. - Você, eu, a criança.
%Annie% quis acreditar nessa possibilidade. Quis se projetar em algum futuro em que tudo aquilo não fosse apenas um arranjo de conveniência, mas uma escolha real, sustentada por afeto e não por expectativas alheias.
Mas não conseguiu, por isso suspirou cansada.
- Preciso entrar. - falou seca, cortando a conversa.
Walker assentiu, mas antes de sair tocou de leve o braço dela, gesto rápido, quase involuntário, como se quisesse transmitir alguma coisa que não podia ser dita em voz alta.
- Me liga se quiser conversar. - disse e virou as costas, caminhando para longe com o mesmo passo impecável com que marcharia para uma batalha.
Nem ao menos deu espaço para ela responder e %Annie% até agradeceu mentalmente porque ela não sabia o que dizer.
Entrou em casa sentindo o peito apertar, o fôlego perdido, como se tivesse acabado de correr uma maratona sobre estilhaços.
Percebeu que estava tremendo tanto que as chaves caíram duas vezes antes de acertar a fechadura.
Lá dentro, se jogou no sofá sem acender a luz, preferindo o breu ao espetáculo das próprias emoções.
O celular vibrou com uma notificação: uma mensagem de Michelle. %Annie% leu, mas não respondeu.
Deitou-se encolhida, abraçada ao próprio corpo, tentando reconciliar a ideia de “família” que Walker lhe oferecia com a antecipação do desastre anunciado por Cristina.
Se sentia dividida entre dois exércitos, nenhum dos quais oferecia trégua, apenas demandas e cobranças.
E também novas cicatrizes.
[...]
%Annie% abriu os olhos ao som de fogos de artifício distantes. Por um momento, ficou desorientada, sem saber onde estava. O quarto estava escuro, exceto pela luz que se infiltrava por baixo da porta.
Ela se ergueu nos cotovelos, tentando focar a visão. A casa dos pais. Véspera de Ano Novo.
Havia cochilado depois de passar a tarde toda ajudando nos preparativos para a festa. A família inteira estaria reunida novamente, com exceção de Joe. Pelo menos Michelle estava ali para preencher um pouco o vazio deixado pelo irmão.
%Annie% sentou-se na cama, esfregando os olhos. A barriga já proeminente parecia pesar uma tonelada.
Angelina estava agitada hoje, mexendo como se também estivesse ansiosa para a virada do ano.
Ela checou o celular.
21:48.
Os convidados chegariam em breve. Tios, primos, alguns vizinhos próximos. Uma reunião pequena, mas suficiente para fazer seu estômago apertar com a antecipação de ter que responder perguntas sobre sua gravidez, sobre Walker, sobre o noivado que agora estava estampado em revistas de fofoca.
Depois daquela conversa com Cristina e o encontro com Walker na porta de casa, %Annie% sentia-se constantemente à beira de um abismo.
As palavras de Cristina ecoavam em sua mente.
"Você está envolvida num jogo que nunca vai entender completamente."
E Walker com sua proposta de entrevista só confirmava que sua vida particular agora era assunto de domínio público.
Com um suspiro cansado, %Annie% levantou-se e foi até o espelho. Seu reflexo mostrava olheiras profundas que nem o melhor corretivo conseguiria disfarçar.
Ela passou as mãos pelo vestido branco que havia escolhido para a ocasião, um dos poucos que ainda cabiam confortavelmente em sua silhueta modificada pela gravidez.
- Vamos lá, %Annie%. - murmurou para si mesma. - É só mais uma noite.
O corredor estava iluminado quando ela saiu do quarto.
O cheiro de comida caseira impregnava o ar, o pernil assado de sua mãe, batatas gratinadas, aquele molho especial que Sandra fazia apenas em ocasiões especiais.
Ao descer as escadas, %Annie% viu Michelle na base, o corpo esguio encostado ao corrimão, os olhos fixos no celular. Ela ergueu o olhar quando ouviu os passos de %Annie%.
- Ah, você acordou. - Michelle sorriu, guardando o celular no bolso do vestido azul-marinho. - Sua mãe estava preocupada. Disse que você não dorme tão profundamente desde criança.
%Annie% tentou sorrir, mas seus lábios pareciam pesados demais.
A cabeça ainda estava nublada pelo sono e pelas preocupações que não a abandonavam nem durante os sonhos.
- Umas duas horas. Seu pai quase entrou para te acordar, mas Sandra não deixou. - Michelle olhou para o relógio. - Os convidados já estão chegando. Ouvi a campainha tocar três vezes nos últimos dez minutos.
%Annie% respirou fundo, tentando reunir forças para a noite que tinha pela frente. O som de conversas e risadas vinha da sala, aumentando sua ansiedade. Teria que sorrir, responder perguntas, fingir que tudo estava bem quando na verdade se sentia como uma bomba-relógio prestes a explodir.
- Vamos? - Michelle ofereceu o braço, um gesto simples que %Annie% agradeceu silenciosamente.
Juntas, elas caminharam até a sala onde meia dúzia de pessoas já se aglomerava em pequenos grupos. %Annie% reconheceu os tios paternos, dois vizinhos antigos e alguns amigos dos pais.
Todos pararam brevemente suas conversas quando a viram entrar, olhares curiosos se voltando para sua barriga antes de subirem para seu rosto.
- %Annie%! - Tia Cida foi a primeira a se aproximar, braços abertos, perfume adocicado envolvendo %Annie% em um abraço apertado. - Como você está linda! Essa gravidez te deixou radiante!
%Annie% forçou um sorriso, sentindo o estômago revirar com a mentira.
Não se sentia radiante. Sentia-se exausta, assustada, perdida.
- E quando é o casamento? Já marcaram a data? - Tio Paulo perguntou, aproximando-se com um copo de refrigerante na mão. - Esse noivo militar deve estar ansioso para oficializar tudo antes do nascimento, não é?
%Annie% sentiu o coração acelerar. A sala de repente parecia pequena demais, o ar ficando cada vez mais pesado.
- Ainda estamos decidindo. - respondeu, tentando manter a voz firme enquanto sentia o sorriso congelado em seu rosto.
Mais convidados chegavam e a cada nova pessoa que entrava, %Annie% sentia como se uma nova camada de peso fosse adicionada sobre seus ombros.
As perguntas se repetiam em variações sutis. Quando seria o casamento, como estava o noivo e onde ele estava, se já tinham escolhido o enxoval do bebê.
Cada sorriso forçado consumia um pouco mais de sua energia.
%Annie% encostou-se na parede da sala tentando respirar. O vestido branco que antes parecia confortável agora apertava seu peito e o calor dos corpos reunidos tornava o ar pesado.
Ela passou a mão pela testa, sentindo gotas de suor se formarem apesar da brisa suave que vinha das janelas abertas.
Michelle surgiu ao seu lado com um copo de água.
- Você está bem? - perguntou, os olhos atentos examinando o rosto de %Annie%.
- Só um pouco quente. - %Annie% mentiu, aceitando a água com gratidão. Seus dedos tremiam levemente ao segurar o copo.
Michelle franziu o cenho, mas antes que pudesse dizer algo, Sandra apareceu, o rosto corado pelo calor da cozinha.
- Querida, você poderia me ajudar com as travessas? Já está quase na hora de servir.
%Annie% assentiu, aliviada por ter uma desculpa para escapar das conversas. Seguiu a mãe até a cozinha, onde o cheiro de comida era ainda mais intenso. Seu estômago revirou, não de fome, mas de náusea.
Sandra se movimentava com eficiência entre o fogão e a bancada, organizando pratos e travessas. %Annie% tentou ajudar, mas seus movimentos pareciam lentos e descoordenados.
- Filha, você está pálida. - Sandra observou, parando o que fazia para olhar %Annie% mais de perto. - Está se sentindo mal?
- Estou bem, mãe. Só estou um pouco cansada.
Mas não estava bem. A sensação de sufocamento crescia a cada minuto. As vozes dos convidados na sala, o tilintar de talheres, tudo parecia amplificado, invasivo.
%Annie% apoiou-se na bancada, tentando se concentrar em respirar.
Um, dois, três. Inspire. Um, dois, três. Expire.
Não estava funcionando. Seu coração batia cada vez mais rápido e um zumbido começou a preencher seus ouvidos.
Sandra estudou o rosto da filha por mais um momento, a preocupação evidente em suas feições.
- Estou bem, mãe. De verdade. - %Annie% insistiu, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos. - Só preciso de um minuto.
Ela assentiu, embora não parecesse totalmente convencida.
- Tudo bem. Vou levar essas travessas para a sala. Mas se você não estiver se sentindo melhor em alguns minutos, quero que vá se deitar, entendeu? - seu tom não deixava espaço para discussão.
%Annie% concordou com a cabeça, aliviada quando sua mãe pegou duas grandes travessas e saiu da cozinha.
Assim que ficou sozinha, ela se apoiou na bancada fechando os olhos. A pressão em seu peito aumentava, como se um peso invisível estivesse esmagando seus pulmões.
A porta da cozinha se abriu novamente e %Annie% se endireitou rapidamente, preparando-se para mais uma mentira tranquilizadora.
Mas era Michelle quem entrava, carregando alguns copos vazios.
%Annie% tentou esboçar um sorriso, mas o lábio inferior traiu seu esforço e tremeu. Michelle que vinha caminhando suavemente pela cozinha parou abruptamente, pousando os copos com um som seco sobre a bancada.
Os olhos dela imediatamente correram da superfície de vidro para os olhos de %Annie%, atentos.
A sensação de exposição, de ter sido flagrada no instante mais vulnerável, fez %Annie% vacilar.
Por um segundo, ela pensou em se recompor, em vestir uma máscara de normalidade. Em vez disso, deixou o corpo escorregar pelo armário até sentar-se no chão frio, abraçada aos joelhos.
O cheiro do pernil assado agora parecia enjoativo. O zumbido em sua cabeça aumentava, abafando até mesmo a trilha sonora de conversas e risadas que antes era insuportável.
Michelle se ajoelhou ao lado, as mãos pairando sobre o ombro de %Annie% como se temesse que um toque pudesse fazê-la desmoronar totalmente.
- %Annie%! - chamou, a voz mais grave do que de costume, firme e urgente.
%Annie% tentou responder, mas as palavras se emaranharam na garganta.
Sentia a língua grossa, a boca seca, a respiração curta como se estivesse submersa.
O mundo ao redor parecia girar e ela temeu que fosse desmaiar. Michelle repetiu seu nome, mais baixo agora, enquanto seu toque finalmente se firmava, um calor real e material em contraste com a irrealidade da crise.
- Eu não sei o que eu tô fazendo, Michelle. - %Annie% conseguiu, finalmente, entre um soluço e outro. - Parece um pesadelo. A minha ex-sogra aparece do nada, machuquei a minha melhor amiga, como se não bastasse tudo o que… não sei se… eu só queria… eu…
Ela não terminou. As palavras se dissolveram no próprio desespero e Michelle ficou ali, sustentando seu ombro com uma delicadeza inabalável.
- Ok, respira. - Michelle disse, o mesmo tom que Joe usava com ela quando era mais firme. - Olha pra mim, %Annie%. Olha aqui, nos meus olhos.
%Annie% obedeceu, mas seu olhar era turvo, como se enxergasse de dentro de um aquário.
- Agora me diz: qual a cor do meu brinco?
A pergunta foi um choque. %Annie% piscou, confusa, mas Michelle insistiu.
- Me diz. Olha pro meu brinco. Qual a cor?
- Verde? - %Annie% respondeu, hesitante.
- Muito bem. Agora descreve ele pra mim.
- É… prateado. Fino. Tem um pingente verde, cor de esmeralda. - a cada palavra, a voz voltava um pouco mais ao normal, menos afogada em pânico.
- Uhm… Tem uns pontos pretos? Acho que é tipo umas pedrinhas pequenas pretas.
Michelle assentiu sorrindo de leve, mas seus olhos estavam marejados.
- Sabe por quê? Porque eu não tenho dinheiro pra comprar joia de verdade, então eu compro bijuteria no Saara. - o sorriso se tornou mais nítido, quase divertido. - Obrigada, %Annie%.
- Por ter voltado. Você teve uma crise de ansiedade.
A frase pareceu pairar no ar por um momento antes de se dissolver na realidade da cozinha.
%Annie% permaneceu sentada, a testa encostada nos joelhos, absorvendo a informação como se fosse uma novidade sobre si mesma. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, mas era a primeira vez que alguém nomeava o fenômeno com tanta calma sem o menor traço de julgamento.
Michelle puxou uma cadeira e sentou-se ao lado, deixando que o silêncio se estendesse.
Passado o ápice do desespero, %Annie% sentiu o corpo exausto, como se tivesse corrido uma maratona sob chuva ácida.
- Vai passar. - Michelle disse, com a certeza de quem já esteve ali antes. - Só precisa esperar um pouco. Pode ficar aqui comigo se quiser.
%Annie% assentiu, grata por não precisar fingir nada. Ficaram assim, lado a lado, respirando juntas até que os ruídos da festa pareceram distantes o suficiente para não ferirem mais.
Quando finalmente se levantaram, %Annie% lavou o rosto na pia, usando a água gelada para varrer os últimos fragmentos de pânico. Olhou-se no espelho da cozinha: os olhos ainda inchados, mas o rosto já menos pálido que antes.
Michelle estava de pé atrás dela como uma sombra benevolente.
- Pronta. - %Annie% fechou os olhos por um segundo, depois sorriu de verdade, ainda que fosse um sorriso cansado.
Juntas voltaram para a sala, onde a festa continuava sem suspeita da tempestade que acabara de passar na cozinha.
%Annie% percebeu que as pessoas retomavam as conversas e risadas como se nada tivesse acontecido, o que de certa forma, era um alívio.
No decorrer da noite, ela até conseguiu responder às perguntas dos tios e das vizinhas com mais leveza.
Quando a meia-noite se aproximou e todos se reuniram para a contagem regressiva, %Annie% buscou o olhar de Michelle na multidão. Encontrou. Sorriram cúmplices de um segredo pequeno, mas vital.
Na hora dos fogos, sentiu a filha mexer forte, como se soubesse que algo tinha mudado.
[...]
O som de passos ao longo do corredor era sutil, mas para quem atravessava o labirinto de sombras e móveis antigos cada rangido e estalo era um aviso de alerta, uma denúncia de sua posição que não era só crucial, mas fatal.
O invasor escorregava entre os recortes de luz da lua cheia que iluminava aquele ambiente. De vez em quando alguns feixes a mais apareciam brevemente no céu seguidos dos sons abafados, os fogos de artifício daquela noite festiva estavam um pouco mais afastados.
Cada centímetro de pele exposto já marcado por hematomas e cortes mostrava a disputa silenciosa pela sobrevivência. Naquele ambiente, o silêncio absoluto das respirações era tão fundamental quanto a arma fria mantida rente ao peito.
Não sabia quantos corpos havia deixado pelos corredores e tampouco se importava.
A cada embate um imprevisto diferente. Cassetete improvisado de perna de cadeira, lâmina de cozinha, até mesmo uma garrafa quebrada de vodca. Os oponentes caíam diante da figura como peças de dominó. Um ou outro ainda se debatia no piso gelado ou fazia menção de arrastar-se até o rádio de comunicação, mas não chegavam a tempo.
O resultado era sempre o mesmo.
O invasor de pé respirava com regularidade calculada enquanto os inimigos repousavam no piso, cada vez mais distantes do mundo dos vivos. O que movia naquela noite não era adrenalina ou vingança. Era a determinação de quem cumpre um protocolo antigo.
Seu alvo era um nome, uma missão a ser cumprida antes do amanhecer.
Ouviu passos decididos na sala ao lado, o padrão de quem protege uma retaguarda, não de quem foge. Arma em punho avançou para o batente, os olhos ajustando-se ao escuro absoluto.
Quando uma silhueta apareceu, reagiu antes da sombra ter tempo de sequer pensar. Com uma torção de punho, desarmou o primeiro adversário e num único movimento arremessou a pistola contra o rosto do comparsa que surgia logo atrás com os olhos arregalados. O disparo do silenciador veio baixo e abafado, errando o alvo por centímetros. A bala cravou-se em algum ponto do porcelanato e um filete de poeira subiu no ar.
O primeiro homem ainda atordoado, recebeu uma coronhada seca na nuca e desabou sem resistência. O parceiro, tropeçando para trás, tentou sacar uma navalha da bota, mas foi interceptado por um movimento ágil. O invasor puxou o próprio canivete e numa espécie de dança cruel cravou a lâmina na coxa do adversário que em resposta soltou um uivo involuntário.
Saboreou a brecha aberta pelo próprio golpe e avançou, o punho fechado mirando direto no osso da bochecha do alvo, que caiu com a cabeça ressoando em algum objeto de madeira.
Respirou fundo, a mão firme ao redor do cabo da faca. Observou os corpos empilhados, a lambança de sangue e suor, e sorriu.
Os primeiros que enfrentara pareciam mais perigosos e atentos, o resto do grupo parecia preocupado demais em acabar com a vodca da casa.
Ao notar o brasão costurado nos uniformes, uma estrela vermelha sobre fundo azul, franziu a testa. Não esperava naquele endereço encontrar gente de bandeira estrangeira.
Arrastou os dois corpos desacordados até a sala de jantar. Era um cômodo amplo, cujas paredes ostentavam fotos de família e diplomas encapados em vidro.
Sentou os adversários ainda inconscientes nas cadeiras, amarrando-os com cordas grossas na altura do tórax e coxas com nós duplos, dignos de marinheiro.
Não havia chance de fuga, nem se acordassem sóbrios e com toda a força.
Ajustou a iluminação da sala para um tom amarelo opaco. Puxou uma terceira cadeira e acomodou-se com paciência de quem executa uma rotina doméstica.
O silêncio da casa era interrompido apenas por gemidos esparsos vindos dos corredores seguidos dos sons dos fogos de artifício.
Enquanto aguardava o despertar, limpou o sangue da faca no braço do uniforme de um dos homens e revisitou mentalmente cada movimento feito nos últimos minutos e em especial as possíveis falhas.
Não era paranoia, era experiência.
Sabia que nos próximos segundos cada decisão tomada poderia ser a diferença entre sair dali com vida ou virar quadro de perícia na manhã seguinte.
Quando o primeiro prisioneiro recobrou os sentidos, gemeu alto, balançando o tronco com violência inútil.
O segundo demorou um pouco mais, porém quando abriu os olhos, arregalou-os ao perceber a cena e parou de se mover por completo.
- Boa noite, princesas. - falou alto, gostando do próprio eco. O timbre era gelado, sem traço de nervosismo.
Os homens se entreolharam em desespero explícito, mas continuaram calados.
Talvez esperassem que como todo predador fizesse um discurso, ameaçasse, ou perdesse tempo com métodos clássicos de intimidação.
- O chefe de vocês vai ficar bem desapontado. - disse, projetando o corpo para frente. Uma simples menção do chefe e o terror brotava nos olhos deles em questão de segundos. - Aliás, acho que isto me pertence.
Esticou o braço o suficiente, retirando o canivete da perna do mais novo que grunhiu e tentou avançar, impedido pelas cordas.
Sorriu, girando a lâmina entre os dedos com destreza.
- Eu devia ter avisado. Me desculpem. - o tom era falso a ponto de soar cômico. - Agora, quem vai me explicar o que estão fazendo aqui?
Olhou de um para o outro.
Sabia que não teria respostas fáceis.
Passou para a segunda etapa.
- O que russos como vocês fazem aqui? - o tom agora era sombrio, firme.
O mais novo vacilou, olhou para a mão sangrando, então desviou o olhar. O mais velho sorriu, um sorriso largo e oco, e de repente começou a rir alto.
A gargalhada de quem já não espera nada do mundo.
Acompanhou a risada por um segundo e depois, sem hesitar levantou a arma e disparou. Um som seco, o projétil perfurando a testa do homem.
O corpo tombou para trás, colidindo com a parede e escorregando até parar com o queixo apoiado no peito.
- Ainda acha graça? - perguntou para o vazio, sabendo que ele nunca mais responderia.
O mais novo agora sozinho e em pânico transparente, tentou se livrar das amarras com força histérica. Chorou um palavrão em russo, mas logo a dor e o medo o renderam à realidade.
- Vai falar agora por que vigiam esta casa?
O prisioneiro murmurou algo apressadamente em russo, como se recitasse uma oração. Se irritou com a evasiva e sem qualquer compaixão enfiou o canivete na mão presa à cadeira. O homem berrou, a voz ecoando pela sala como se chamasse por alguém.
Mas ninguém viria salvá-lo.