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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Cláusula de Liberdade


Escrita porNyx
Editada por Lelen

CAPÍTULO 5 • O CIÚME INVISÍVEL

  Acordei antes dela naquela manhã. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra, e por alguns minutos fiquei apenas observando %Helena% dormir. A respiração era lenta, tranquila, um dos braços descansava sobre o travesseiro do jeito de sempre, e o rosto transmitia uma serenidade incompatível com a conversa que tínhamos tido dias antes.
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  Eu já conhecia aquela imagem de cor.
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  O problema era que minha cabeça não colaborava mais.
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  Sem que eu quisesse, lembranças da noite anterior voltavam em flashes desconexos. O hotel. A palavra "neutro". O banho antes de voltar para casa. A resposta simples dela quando contei como tinha sido: foi muito bom.
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  Não eram cenas completas. Eram detalhes isolados que minha imaginação insistia em juntar até formar uma história inteira. Eu virei o rosto para o teto e fechei os olhos por alguns segundos.
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  Eu tinha pedido liberdade.
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  Só não imaginei que ela viria acompanhada da necessidade de imaginar coisas que eu nunca quis imaginar.
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  E esse era o problema.
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  Não era o que %Helena% tinha feito.
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  Era o que eu fazia com aquilo depois.
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  Alguns minutos mais tarde, ela se mexeu na cama e abriu os olhos devagar.
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  — Você já acordou?
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  — Já.
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  — Que horas são? — Ela sorriu daquele jeito calmo que sempre tinha ao acordar.
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  — Seis e vinte.
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  — Droga.
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  Ela levantou e entrou no banheiro, enquanto eu permaneci sentado na cama. Ouvi o chuveiro ligar e fiquei encarando a porta fechada por tempo demais. Quando ela saiu, percebi imediatamente que alguma coisa me chamou a atenção.
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  Vestia um blazer bem ajustado, o cabelo estava preso com mais cuidado do que de costume e o perfume parecia mais evidente. Ou talvez eu estivesse procurando sinais onde antes jamais teria procurado.
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  Fomos para a cozinha e, dessa vez, fui eu quem preparou o café. %Helena% se acomodou na bancada, abriu a agenda no celular e começou a revisar os compromissos do dia.
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  — Tenho Constitucional agora de manhã. À tarde vou para o fórum. A Dulce pediu que eu revise algumas peças antes da audiência de quinta.
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  — Hm.
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  — O que foi? — Ela levantou os olhos.
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  — Nada.
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  Ela continuou me observando por mais alguns segundos.
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  — Você está me olhando estranho desde que eu saí do banheiro.
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  — Você está mais arrumada. — Desviei a atenção para a cafeteira.
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  — Eu sempre me arrumo. — Ela franziu a testa.
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  — Hoje parece diferente.
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  — Diferente como? — %Helena% se levantou e caminhou até mim.
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  — Mais produzida. — Dei de ombros.
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  — Ou você só está reparando mais. — Ela apoiou as mãos na bancada e sorriu de canto.
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  Aquilo me fez parar por um instante, porque fazia sentido.
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  — Impressão sua — completou. — Eu estou exatamente igual. — Pegou a xícara da minha mão, experimentou o café e fez uma careta discreta. — Você colocou açúcar demais.
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  Quase sorri, era um comentário comum, uma manhã comum. Mas eu já não conseguia viver aquelas pequenas normalidades da mesma forma.
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  Enquanto ela falava sobre a audiência e organizava mentalmente a agenda do dia, meus olhos acompanhavam o movimento da boca dela. E, sem qualquer intenção, minha cabeça construía uma comparação que eu não queria fazer.
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  Foi nesse momento que entendi uma coisa, eu tinha pedido liberdade, mas não tinha pedido para dividir espaço com a minha própria imaginação. Ela terminou o café, pegou a bolsa e caminhou até a porta.
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  — Te vejo mais tarde.
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  Aproximou-se para me beijar.
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  O beijo continuava familiar. Quente. Carregado da intimidade construída ao longo dos anos, mas, pela primeira vez, havia alguma coisa entre nós que não existia antes. Não era falta de amor, era excesso de consciência. E eu começava a entender que imaginar podia ser muito mais doloroso do que simplesmente saber.
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⭐⭐⭐

  A aula de clínica médica parecia mais arrastada do que o normal. No telão, o professor projetava um caso de um paciente de cinquenta e oito anos, com dor torácica atípica e histórico de hipertensão, enquanto pedia que a turma levantasse hipóteses diagnósticas. Eu anotava, respondia quando era chamado e acompanhava a discussão como fazia todos os dias, mas minha atenção escapava com frequência.
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  Minha cabeça não estava naquela sala. Estava no sábado que se aproximava.
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  "Vou sair de novo."
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  A frase voltava sem que eu precisasse lembrá-la.
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  Quando o intervalo começou, fui direto para o corredor. Encostei na bancada de mármore e tirei o celular do bolso sem qualquer motivo real, apenas para ocupar as mãos. Não havia mensagens novas. Ainda assim, fiquei olhando para a tela até perceber Isadora se aproximando com um copo de café.
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  Ela se apoiou ao meu lado e mexeu a bebida com uma concentração exagerada, como se encontrar o ponto ideal do açúcar fosse uma ciência.
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  — Se esse professor repetir "evidência científica" mais uma vez, eu desisto da Medicina.
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  — Você fala isso toda semana. — Soltei um meio riso.
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  — Porque toda semana ele repete isso umas cinquenta vezes.
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  Ficamos alguns segundos em silêncio, observando o movimento no corredor, até que ela voltou a falar.
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  — Você respondeu errado aquela pergunta agora há pouco.
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  — Não respondi errado. — Olhei para ela.
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  — Respondeu, sim. Confundiu os marcadores inflamatórios.
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  — Foi distração. — Dei de ombros.
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  Ela me encarou por um instante antes de balançar a cabeça.
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  — Você nunca é distraído.
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  Não respondi.
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  Isadora tomou mais um gole do café e continuou me observando, como se estivesse esperando que eu completasse o raciocínio sozinho.
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  — Você anda estranho esses dias. Muito mais quieto.
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  — Não ando. — Soltei uma risada sem humor.
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  Ela virou completamente o corpo na minha direção.
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  — Anda, sim.
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  Sustentei o olhar dela por alguns segundos, mas acabei desviando primeiro. Passei a mão na nuca e suspirei.
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  — Eu não achei que fosse ser assim. — Ela franziu levemente a testa.
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  — Assim como?
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  Demorei alguns segundos para responder.
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  — Na primeira saída dela... ela foi até o fim.
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  Isadora demorou um instante para entender.
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  — Foi até o fim como?
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  — Ela transou com o cara. — Engoli em seco.
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  Ao nosso redor, o corredor continuava exatamente igual. Gente passando de um lado para o outro, risadas, grupos comentando a prova, alguém reclamando do estágio. Era estranho como o mundo conseguia continuar funcionando quando a sua cabeça parecia completamente ocupada.
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  — E isso mexeu com você — disse ela, mais afirmando do que perguntando.
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  Demorei antes de responder.
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  — Achei que fosse me sentir mais livre.
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  — E se sentiu? — Ela inclinou discretamente a cabeça.
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  Pensei por alguns segundos.
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  — No começo, sim. Eu me senti... no controle.
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  — E agora?
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  Respirei fundo.
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  — Agora parece que eu abri uma porta que não sei mais fechar.
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  Ela permaneceu em silêncio por um momento, me analisando com a mesma atenção com que observava um paciente durante as aulas práticas.
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  — Você ficou com duas garotas antes de ela sair com alguém, não ficou?
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  — Fiquei.
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  — E foi até o fim com alguma delas?
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  Hesitei.
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  — Não.
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  Ela assentiu devagar, como se estivesse organizando as peças antes de chegar ao diagnóstico.
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  — Então o que está te incomodando não é o sexo. — Continuei em silêncio. Ela respirou fundo antes de concluir: — É o fato de ela ter atravessado essa linha antes de você.
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  Aquilo acertou em cheio, porque fazia sentido.
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  — Eu não queria imaginar ela vivendo isso também — admiti, mais baixo.
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  Isadora soltou uma risada curta, mas havia mais compreensão do que deboche.
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  — %Montenegro%... você queria liberdade até o momento em que ela passou a ser dela também.
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  Baixei os olhos, ela tinha acertado de novo.
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  — Você não queria viver outras coisas? — perguntou.
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  — Queria.
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  — Então vive. — Balancei a cabeça.
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  — Não é isso.
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  Ela esperou.
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  — Então é o quê?
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  Fiquei alguns segundos olhando para o chão antes de encontrar uma resposta.
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  — Acho que eu queria saber que, no fim, ela ia escolher voltar.
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  O silêncio que se seguiu foi curto. Isadora cruzou os braços e soltou o ar devagar.
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  — Então você nunca quis liberdade. — Levantei os olhos para ela. — Você queria validação.
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  A frase me desmontou.
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  Porque, naquele instante, eu percebi que ela tinha razão. Nunca tinha sido sobre experimentar o mundo. Era sobre confirmar que, depois de experimentar qualquer coisa, %Helena% ainda me escolheria.
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  Só que agora ela estava vivendo essa liberdade de verdade.
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  E, pela primeira vez desde que tudo começou, eu não tinha mais certeza de que estava preparado para descobrir qual seria a escolha dela.
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⭐⭐⭐

  %Helena% estava sentada à mesa da sala, revisando alguma coisa da faculdade quando cheguei perto da porta. Os papéis estavam espalhados à frente dela, e a concentração era tanta que ela demorou alguns segundos para perceber minha presença.
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  — Vou sair hoje.
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  — Com a Natalie? — Ela levantou os olhos só então.
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  — É. Ambiente mais tranquilo dessa vez.
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  Esperava alguma reação, qualquer sinal de desconforto. Não veio. Ela apenas fechou a pasta devagar e respondeu:
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  — Tudo bem por mim. Depois me conta.
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  A frase já tinha se tornado parte da nossa rotina, mas, naquela noite, carregava um peso diferente.
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  — Quer detalhes? — perguntei.
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  Ela sustentou meu olhar por um instante.
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  — Quero a verdade.
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  Aquilo me atravessou mais do que deveria, peguei as chaves e saí.
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  O lugar era um bar pequeno, de iluminação baixa e música num volume que permitia conversar sem precisar gritar. Era muito diferente das festas universitárias onde tudo tinha começado. Não havia gente espremida, copos vermelhos espalhados ou a sensação de caos constante.
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  Parecia um encontro.
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  Natalie já me esperava em uma mesa perto da janela. Vestia um vestido simples, o cabelo caía solto sobre os ombros, e sorriu assim que me viu.
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  — Repetindo a dose?
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  — Acho que sim. — Sorri de volta.
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  A conversa fluiu com facilidade. Falamos sobre o internato que se aproximava, os plantões que ainda estavam por vir, as viagens que ela sonhava fazer quando finalmente tivesse férias de verdade. Em algum momento, enquanto ria de alguma história, ela deixou a mão descansar sobre a minha perna.
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  Eu percebi o gesto.
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  E quis percebê-lo.
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  Quando ela se aproximou para me beijar, correspondi sem hesitar. Dessa vez, porém, eu sabia que não queria parar ali. Havia uma parte de mim determinada a atravessar aquela linha, como se fazer isso fosse confirmar que eu realmente sabia viver a liberdade que tinha pedido.
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  E nós transamos, tudo aconteceu com naturalidade, não houve constrangimento, nem dúvidas aparentes, mas, em algum ponto, minha cabeça deixou de acompanhar o momento.
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  %Helena% apareceu sem ser chamada, a risada dela no sofá, o cheiro do café pela manhã, o quarto, a rotina. Forcei minha atenção de volta.
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  Concentra.
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  Mas a comparação surgia sozinha. Não porque uma experiência fosse melhor do que a outra. Eram apenas diferentes. E o diferente não provocou a euforia que eu imaginava, mas não era falta de desejo, era excesso de consciência.
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  Mesmo estando ali, eu me observava o tempo inteiro, como se analisasse minhas próprias reações, esperando sentir alguma confirmação que nunca chegava.
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  Quando tudo terminou, não senti culpa, mas também não senti arrependimento. O que veio foi uma estranha sensação de deslocamento, eu tinha atravessado a linha que durante semanas parecia tão importante e, ainda assim, nenhuma transformação aconteceu dentro de mim. Não houve libertação, nem a sensação de ter encontrado alguma resposta definitiva.
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  Apenas silêncio. Um vazio discreto, difícil de explicar, eu tinha provado que conseguia, só que provar não trouxe o que eu imaginava. E, pela primeira vez, comecei a desconfiar de que talvez o problema nunca tivesse sido a falta de experiência.
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  Talvez fosse o medo de perder a única pessoa que realmente importava.
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  Natalie se vestiu primeiro, com a mesma leveza que tinha conduzido a noite inteira. Ajustou o cabelo diante do espelho e sorriu para mim.
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  — Foi bom. — Assenti.
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  — Foi.
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  E teria sido injusto mentir, porque foi bom e diferente, mas era uma diferença que terminava ali. Nós nos despedimos na porta do bar com um beijo breve, sem promessas nem cobranças.
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  — Me chama qualquer dia.
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  — Chamo.
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  Entrei no carro e fiquei alguns segundos com as mãos apoiadas no volante antes de ligar o motor.
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  Durante o caminho de volta, percebi que estava comparando as duas experiências sem ter planejado fazer isso. Não era uma questão de quem beijava melhor ou de quem despertava mais desejo.
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  Era outra coisa.
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  Com %Helena%, tudo acontecia naturalmente. Eu conhecia o jeito dela, o tempo dela, as reações dela. Nunca precisava pensar no que fazer ou no que dizer. Depois de tantos anos, a gente simplesmente funcionava.
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  Com Natalie foi diferente. Foi bom, foi leve, mas exigiu uma atenção que eu nunca precisei ter com %Helena%. Em vários momentos eu me peguei pensando no que estava fazendo, como se estivesse avaliando a situação enquanto ela acontecia.
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  Parei em um sinal vermelho e respirei fundo.
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  Passei a semana inteira imaginando %Helena% com outro homem. Agora, pela primeira vez, pensei em como era estar com ela.
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  Percebi que nunca encontraria em outra pessoa a mesma intimidade que construímos ao longo dos anos. Não era algo que surgia em uma noite ou depois de alguns encontros. Era resultado do tempo, da convivência e da confiança que existia entre nós.
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  Foi nesse momento que algumas coisas começaram a fazer sentido.
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  Eu dizia que queria viver outras experiências, mas, no fundo, o que eu queria era descobrir se %Helena% continuaria me escolhendo depois de viver as dela.
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  Talvez o meu medo nunca tivesse sido perder experiências.
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  Talvez fosse perdê-la.
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  Quando estacionei em frente ao prédio, permaneci alguns segundos dentro do carro antes de desligar o motor. Ainda estava tentando organizar os próprios pensamentos.
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  Subi até o apartamento mais devagar do que o normal.
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  Quando abri a porta, encontrei %Helena% no sofá, rindo de alguma coisa no celular. Ela parecia tranquila.
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  Fiquei observando a cena por alguns segundos. Não perguntei com quem ela conversava. Eu sabia que a pergunta não mudaria nada, mas também sabia que, se fizesse, o motivo não seria simples curiosidade.
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  Fechei a porta e ela levantou os olhos.
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  — Nossa... quando você chegou?
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  — Agora.
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  %Helena% deixou o celular de lado, levantou e caminhou até mim. Sem dizer nada, aproximou o rosto do meu pescoço e respirou discretamente.
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  Nós dois entendemos o gesto.
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  — Você não está com perfume de ninguém — comentou, em tom neutro.
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  — Não. — Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.
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  — Você...? — Assenti antes mesmo que ela terminasse.
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  — Sim. Eu transei com a Natalie.
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  %Helena% recebeu a informação sem alterar a expressão.
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  — E como foi? — Pensei antes de responder.
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  — Foi bom. — Ela esperou que eu continuasse. — Foi diferente.
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  — Diferente como?
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  Passei a mão na nuca antes de responder.
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  — Não tinha história entre a gente. Era só aquele momento. — Ela continuou me olhando.
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  — E isso fez diferença? — Assenti.
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  — Fez. — Fiquei alguns segundos em silêncio antes de completar: — Foi uma experiência boa, mas não foi igual.
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  — Igual a quê? — Olhei diretamente para ela.
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  — Igual a estar com alguém que eu amo.
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  Ela não respondeu.
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  Continuei, porque sentia que precisava explicar melhor.
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  — Com você tudo acontece naturalmente. Eu não fico pensando no que fazer nem tentando entender se estou sentindo a coisa certa. Eu simplesmente estou com você.
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  %Helena% permaneceu em silêncio. Ela não sorriu, não chorou, não fez perguntas. Apenas me ouviu até o fim. Passei a mão pelos cabelos e respirei fundo.
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  — Eu preciso dormir.
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  Eu realmente precisava. Minha cabeça estava cansada demais para continuar aquela conversa. Fui para o quarto com a sensação de que tinha passado tempo demais procurando uma resposta para a pergunta errada.
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CAPÍTULO 5
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Lelen

Eu tô só “quem vai ser o primeiro a se magoar nessa história?” porque alguém sempre se magoa. Mas acho que vai ser uma sucessão de pontadinhas doída nos dois lados, né? Mas será que eles vão ficar juntos no final?

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