CAPÍTULO 2 • A PROPOSTA
Tempo estimado de leitura: 27 minutos
Por %Helena% %Albuquerque%
%Theo% disse que a gente precisava conversar, e foi curioso perceber como o meu corpo reagiu antes da minha mente conseguir acompanhar.
Meu coração acelerou primeiro. Não o suficiente para virar pânico, mas o bastante para me obrigar a inspirar devagar, como se precisasse reorganizar o ar dentro do peito.
Na minha cabeça, a palavra imediatamente abriu uma série de pastas invisíveis, como um arquivo sendo consultado em velocidade.
Faculdade? Ele tinha ido mal em alguma avaliação prática?
Família? Os pais dele estavam pressionando sobre alguma coisa?
Dinheiro? A gente nunca discutia sobre isso, mas ainda assim era uma possibilidade.
Meu cérebro procurava explicações lógicas enquanto eu levantava os olhos para ele.
%Theo% estava parado na porta da cozinha como se tivesse esquecido por que tinha entrado ali. As mãos nos bolsos, os ombros tensos demais para alguém que só queria iniciar uma conversa casual.
— Conversar sobre o quê? — perguntei, mantendo a voz firme.
Eu nunca gostei de rodeios. Se havia um problema, eu preferia saber qual era o mais rápido possível. Problemas claros são mais fáceis de resolver.
%Theo% não hesitava. Ele pensava, organizava, decidia. Sempre foi assim. Mesmo quando estava nervoso, ele parecia seguro do caminho que estava seguindo.
Ali, porém, havia algo diferente.
— Não é nada grave — ele começou, e eu senti o estômago contrair antes mesmo de entender por quê. — Eu só… fiquei pensando.
Cruzei os braços, apoiando o peso em uma perna só.
Ele respirou fundo antes de responder, como se estivesse preparando o próprio discurso. %Theo% passou a mão pela nuca.
— Eu gosto muito de você — disse.
Meu coração errou uma batida. Ninguém começava uma conversa com
“eu gosto muito de você” quando tudo estava simples.
E foi ali, entre o cheiro de café ainda no ar e a luz da manhã atravessando a cozinha, que eu percebi que aquela conversa não era sobre faculdade, família ou dinheiro. Era sobre algo que eu nunca tinha considerado frágil: era sobre nós. E eu não estava pronta para isso.
— Eu gosto muito
mesmo de você — ele repetiu, como se reforçar aquilo fosse necessário.
— Eu sei — respondi. Ele assentiu, mas não parecia aliviado.
— E está tudo bem. A gente está bem. Isso não é… — ele respirou fundo — não é sobre terminar.
Meu corpo reagiu antes da razão. Porque ninguém diz isso quando não existe a possibilidade de término pairando no ar.
%Theo% sempre organizava pensamentos como quem montava um diagnóstico clínico. Só que, dessa vez, as palavras pareciam escapar antes de se encaixarem direito.
— Eu fiquei pensando… — começou. — A gente está junto desde sempre.
— A gente nunca viveu outra coisa. Nunca
experimentou nada além…
disso.
Ele não precisou apontar para nós. Eu sabia exatamente ao que ele se referia.
— Eu nunca beijei outra pessoa — ele continuou. — Nunca soube como é estar com alguém que não seja você. E não é porque eu queira outra pessoa. Não é isso.
As palavras começaram a ganhar forma: experiência, escolha, certeza e liberdade. Ele falava como se estivesse tentando convencer a si mesmo de que aquilo fazia sentido.
— Eu só… às vezes eu me pergunto se estou aqui porque eu escolho, ou porque sempre foi assim. Eu queria ter certeza. Queria saber que é uma decisão, não só continuidade.
Porque eu sempre escutava antes de reagir, ele não parecia cruel, não parecia insatisfeito, parecia inquieto. E inquietação é mais difícil de combater do que desamor.
— Eu não estou infeliz, %Helena% — ele acrescentou rápido. — Eu só tenho curiosidade. Sobre o mundo. Sobre experiência. Sobre saber como é ter liberdade… e ainda assim escolher você.
Eu entendi antes mesmo que ele terminasse, mas ele terminou.
— Talvez a gente pudesse… abrir um pouco as coisas.
O silêncio que se formou não foi abrupto, foi denso. Eu senti a palavra se acomodar no espaço entre nós.
Ele não precisou usar o termo, eu entendi imediatamente.
Meu rosto permaneceu neutro. Minha respiração continuou controlada, mas algo dentro de mim se deslocou, como se uma estrutura que sempre esteve firme tivesse mudado alguns centímetros de lugar.
Eu não surtei, não levantei a voz, não chorei, não fiz perguntas impulsivas. Eu pensei, minha mente entrou em funcionamento da mesma forma que entrava diante de um caso difícil.
Fatos. Ele estava sendo honesto, não estava escondendo nada. Não havia traição. Não havia mentira.
Ele estava inseguro. E a insegurança não é crime, mas também não é inofensiva.
Observei o rosto dele enquanto falava. Não havia frieza. Havia dúvida. Havia uma tentativa quase desesperada de transformar aquilo em algo racional. Ele não queria outra pessoa, ele queria provar que me escolheria.
A questão era:
precisava provar? Respirei fundo, sentindo o ar frio entrar devagar. Isso era maturidade? Ou medo? Ele tinha medo de nunca ter vivido nada além de mim.
E eu? Eu sempre estive ali. Nunca precisei competir, precisei ser conquistada, ou precisei ser escolhida. Eu fui continuidade, hábito. Eu fui…confortável. E a pergunta que surgiu foi a única que realmente doeu. E se eu for só confortável demais?
O silêncio entre nós continuava pesado, mas mantive o olhar firme. Não porque eu não estivesse sentindo, mas porque eu precisava entender antes de reagir.
Ele queria ter certeza. E, pela primeira vez, eu me perguntei se eu também tinha. Eu não falei nada imediatamente. %Theo% interpretou meu silêncio como algo que precisava ser preenchido.
— Eu não quero machucar você — acrescentou rápido demais. — Não é sobre falta. Não é porque você não é suficiente.
A palavra ficou no ar, mas eu não reagi. Porque reagir seria admitir que doeu.
Passei os dedos pela borda da xícara ainda morna, observando o traço circular que o café deixava na porcelana.
Para ele, aquilo era curiosidade, para mim, era ruptura de lógica. Nós nunca fomos instáveis, intermitentes ou dúvidas. Eu sempre soube onde estava, sempre soube o que éramos. E agora ele estava me dizendo que precisava testar o mundo para ter certeza de mim.
Eu não sentia raiva, sentia deslocamento. Como se alguém tivesse movido um móvel da sala alguns centímetros para o lado, nada quebrado, mas nada exatamente no lugar. Ele continuava me olhando, esperando alguma coisa, talvez uma resposta, um acordo, uma garantia, mas eu não tinha nenhuma das três naquele momento.
— Eu preciso pensar — disse, finalmente.
Minha voz saiu estável, isso eu consegui manter.
— Claro. Eu não estou exigindo nada agora.
Mas ele estava, mesmo que não percebesse. Porque, depois que uma possibilidade é dita em voz alta, ela não voltava para o lugar de antes.
Levantei, peguei minha bolsa, a rotina continuava. Eu precisava ir para a faculdade. Tinha aula. Tinha estágio no fórum. Tinha responsabilidades reais — coisas que obedeciam a regras claras.
Relacionamentos não obedeciam.
Passei por ele na cozinha, ele abriu espaço para que eu saísse. Por um segundo, nossos ombros quase se tocaram, era o mesmo apartamento, o mesmo cheiro de café, a mesma manhã. Mas a estabilidade tinha rachado em silêncio.
No elevador, sozinha, encostei a cabeça no espelho frio, ontem estava tudo bem… ontem à noite eu dormi com a certeza de que éramos suficientes. Hoje eu estava sendo informada de que talvez fôssemos apenas… convenientes.
A porta do elevador se abriu, o mundo continuava normal demais e eu ainda não sabia qual decisão tomaria.
⭐⭐⭐
Peguei a bandeja no refeitório como fazia todos os dias: arroz, feijão, frango grelhado e uma porção de salada que eu provavelmente não terminaria. A sequência era automática, quase mecânica. Meu corpo percorria o balcão sem precisar pensar muito, como se a rotina fosse um trilho invisível conduzindo cada passo.
Escolhi uma mesa perto da janela, não por preferência, mas por hábito, e me sentei observando o movimento ao redor. O barulho de sempre preenchia o espaço como uma trilha constante: talheres batendo nos pratos, cadeiras arrastando no piso, conversas cruzadas que se sobrepunham sem realmente se escutar. Alguém reclamava de uma prova difícil, outro grupo discutia estágio como se fosse uma guerra iminente, duas meninas riam alto de alguma história que provavelmente perderia a graça em poucos minutos. A vida universitária seguia no volume normal, e nada parecia deslocado — exceto eu.
Peguei o garfo e comi duas garfadas sem fome. O frango tinha gosto de nada. Olhei para o celular, esperando ver algo que quebrasse aquele silêncio estranho, mas não havia nenhuma mensagem. A tela apagada refletiu meu próprio rosto por um segundo antes de escurecer completamente.
E aquilo, tecnicamente, era normal. %Theo% nunca mandava mensagem no meio da manhã sem motivo. A gente tinha rotinas diferentes, horários diferentes, responsabilidades que ocupavam o dia inteiro.
Mas hoje parecia diferente.
Porque agora havia um motivo.
A tela continuava vazia, e enquanto eu girava o garfo no prato sem perceber, a pergunta voltou com uma clareza incômoda: se ele precisava provar ao mundo que me quer… eu não fui suficiente?
Não chorei. Não ali. Apenas mastiguei devagar demais, como se precisasse dar tempo ao meu próprio pensamento, como se desacelerar fosse capaz de reorganizar as coisas dentro de mim.
Levantei os olhos por acaso.
E foi quando vi %Theo% do outro lado do refeitório, sentado com alguns colegas de Medicina, e com Isadora. Ela falava animada, gesticulando como sempre fazia, o corpo inclinado para frente enquanto as mãos desenhavam histórias no ar. Era o tipo de pessoa que ocupava o espaço com facilidade. %Theo% estava inclinado na direção dela, escutando, e rindo.
Não era um riso íntimo nem diferente. Era o riso que eu conhecia.
Mas, pela primeira vez, me peguei observando aquela cena como se estivesse fora da minha própria vida, como se assistisse algo que ainda não tinha decidido se me incluía.
A pergunta surgiu antes que eu pudesse impedir: foi ali que a curiosidade começou? Foi ali que a ideia nasceu?
Talvez tivesse sido ela. Talvez alguém tivesse mostrado a ele um mundo que eu nunca precisei mostrar — um mundo onde experiências são comparadas, onde escolhas precisam ser testadas, onde a liberdade parece mais concreta do que a estabilidade.
%Theo% virou o rosto, e nossos olhares quase se cruzaram.
Desviei primeiro. Não por medo, mas por controle. Eu não queria que ele visse nada no meu rosto, nenhuma dúvida, nenhuma comparação, nenhuma possibilidade de insegurança.
Antes que ele pudesse se levantar, porque eu sabia que ele levantaria se me visse ali, empurrei a cadeira para trás. O som das pernas raspando no chão pareceu mais alto do que deveria. Levantei, deixei metade do almoço no prato e saí do refeitório sem olhar para trás.
No corredor, o ar parecia mais frio, ou talvez fosse apenas a sensação de ter percebido algo que eu ainda não sabia como nomear. Eu não estava com raiva, nem com ciúme.
E consciência é muito mais perigosa do que ciúme, porque o ciúme reagia, enquanto a consciência observava. E, quando você começava a observar demais, algumas coisas nunca voltavam a parecer tão simples quanto eram antes.
⭐⭐⭐
O fórum tinha um silêncio diferente do da faculdade.
Não era o silêncio distraído de estudantes tentando parecer concentrados, mas um silêncio profissional, disciplinado, feito de contenções. Pilhas de processos ocupavam as mesas como pequenas muralhas de papel, carimbos batiam em intervalos regulares ao longe e o som constante de teclas preenchia o ambiente com uma urgência controlada. Ali, tudo parecia mais sério, quase definitivo.
Sentei na minha mesa e comecei a organizar os processos que tinham chegado naquela manhã. Numerei folhas, separei anexos, conferi prazos com atenção quase automática. Organizar sempre me ajudou a pensar; colocar coisas em ordem dava a ilusão de que o resto da vida também poderia ser reorganizado da mesma forma. E, naquele momento, eu precisava desesperadamente de alguma sensação de controle.
— Você está com cara de quem ganhou um processo e perdeu outra coisa.
A voz veio atrás de mim, e eu nem precisei virar para reconhecer.
Marina Duarte tinha vinte e seis anos e era a estagiária mais velha do setor, além de possuir um olhar atento demais para deixar qualquer detalhe escapar. Depois de um noivado que terminou mal o suficiente para mudar a forma como ela enxergava relacionamentos, Marina se tornara uma espécie de especialista informal em detectar rachaduras emocionais nos outros.
Ela inclinou a cabeça, analisando meu rosto como se estivesse avaliando uma prova pericial.
A palavra não soou como convite.
Fomos até a pequena copa do fórum. O espaço era apertado, com uma mesa redonda encostada na parede e uma cafeteira que sempre parecia trabalhar mais do que devia. O cheiro de café recém-passado estava impregnado no ambiente, misturado ao de papel e toner.
Marina serviu duas xícaras e me entregou uma, sem açúcar.
Segurei o café entre as mãos por alguns segundos, observando o vapor subir devagar. Não dramatizei, não chorei, não fiz pausas teatrais.
— Meu namorado quer abrir o relacionamento.
Marina não reagiu imediatamente. Não arregalou os olhos, não fez escândalo, nem soltou qualquer exclamação exagerada. Ela simplesmente ficou em silêncio, permitindo que a frase ocupasse o espaço entre nós.
Depois perguntou, com a mesma calma:
Eu hesitei, e percebi que era a primeira hesitação real desde que o dia tinha começado.
Marina soltou um suspiro baixo.
— Ser madura não é aceitar tudo — respondeu. — É saber o que você aguenta.
A frase me atingiu com mais força do que eu esperava. Apoiei os cotovelos na mesa e passei os dedos pela borda da xícara, tentando organizar pensamentos que ainda pareciam dispersos.
— Mas a gente é melhor amigo antes de ser namorado — falei, mais baixo. — Ele não disse isso como alguém insatisfeito. Ele falou como alguém confuso, como quem está tentando entender a própria cabeça.
Marina continuava me observando sem interromper.
— Ele desabafou comigo — acrescentei. — Como faria com um amigo.
Ela permaneceu em silêncio, esperando que eu terminasse.
— Eu não quero perder o que eu tenho com ele — continuei, sentindo a frase ganhar peso ao ser dita em voz alta. — Minha vida sempre foi com ele por perto. Eu não sei existir sem ele. Não existe uma versão de mim que não tenha %Theo% %Montenegro%.
Falar aquilo tornou tudo mais concreto do que eu gostaria.
Marina inclinou o corpo levemente para frente.
— Isso é bem preocupante.
— Você não saber quem é sem ele.
Ela tomou um gole do café antes de continuar.
— E talvez não seja de todo ruim você conhecer pessoas novas também.
— Eu não quero outras pessoas.
— Não estou falando só de romance — explicou, apoiando a xícara na mesa. — Estou falando de mundo.
Ela fez um pequeno gesto com a mão, como se abrisse algo invisível no ar.
— Às vezes a gente se apega tanto à ideia de “sempre” que esquece de perguntar se aquilo ainda é escolha.
A palavra ficou ecoando na minha cabeça.
Parecia me perseguir desde aquela manhã.
— Ele disse que quer ter certeza — murmurei.
Marina me encarou diretamente.
Porque, até aquela manhã, eu nunca tinha me feito essa pergunta.
Marina recostou na cadeira e cruzou os braços.
— Se você aceitar isso só para não perder ele, vai perder alguma coisa de qualquer jeito.
— E se eu disser não, eu posso perder ele também.
Ela não respondeu imediatamente. Apenas me observou por alguns segundos antes de falar com calma:
— Então a pergunta não é o que ele quer viver. A pergunta é o que você aguenta viver.
O café já estava frio quando me levantei. Eu ainda não tinha resposta, mas, pela primeira vez desde que aquela conversa começou, a decisão não parecia ser apenas sobre ele.
Parecia ser sobre mim também.
E isso me assustava muito mais do que a proposta dele.
⭐⭐⭐
Cheguei em casa antes dele.
A chave girou na fechadura com o mesmo som discreto de todos os dias, e o apartamento me recebeu do jeito que sempre recebia: silencioso, organizado, previsível. Deixei a bolsa na cadeira da sala e permaneci parada por alguns segundos no meio do ambiente, como se o corpo ainda precisasse decidir o que fazer com o resto do dia.
O silêncio ali dentro tinha peso.
Não era simplesmente ausência de barulho. Era a presença constante de pensamento.
Passei pela cozinha e toquei a bancada com a ponta dos dedos enquanto observava o espaço ao redor. O sofá estava no mesmo lugar, a televisão desligada, e o copo que ele tinha usado pela manhã ainda permanecia na pia.
Troquei de roupa, prendi o cabelo e comecei a preparar o jantar antes mesmo de decidir conscientemente o que faria. Cortar legumes ajudava a pensar; movimentos repetitivos traziam foco, como se o corpo pudesse ocupar a mente enquanto ela tentava reorganizar o resto.
Quando a porta se abriu, eu já sabia que era ele.
O ritmo dos passos sempre entregava.
— Oi — disse ele, entrando como se nada tivesse acontecido naquela manhã.
Ele largou a mochila no sofá e veio até a cozinha. Depositou um beijo leve na minha bochecha, um gesto automático e familiar que carregava um calor conhecido demais.
— Como foi o dia? — Continuei mexendo a panela.
— Normal. — Ele permaneceu alguns segundos ali, talvez esperando que eu dissesse mais alguma coisa.
— O meu também — respondeu por fim.
O jantar seguiu exatamente o roteiro de sempre: pratos servidos, televisão ligada em volume baixo, conversas superficiais tentando preencher o espaço. Ele comentou sobre uma aula prática na faculdade; eu mencionei um processo que tinha passado pela mesa do fórum.
Mas tudo soava ensaiado, como se estivéssemos representando a normalidade em vez de realmente vivê-la.
Eu mastigava devagar demais, prestando mais atenção ao peso do silêncio do que ao gosto da comida.
— Você está bem? — ele perguntou em determinado momento.
Levantei os olhos para ele. E, de repente, percebi que estava cansada demais para continuar organizada.
— Não. — %Theo% ficou imóvel.
— Não? — Larguei o garfo.
— Eu tive um dia de merda, %Theo%.
Ele abriu a boca para responder, mas eu continuei antes que ele conseguisse dizer qualquer coisa.
— Eu não consegui prestar atenção na aula. Anotei artigo errado, coisa que eu nunca faço. Saí do refeitório porque vi você rindo com a Isadora e fiquei me perguntando se foi ali que tudo começou. Passei o dia inteiro ouvindo na minha cabeça você falar sobre escolha e liberdade como se eu fosse um ponto fixo da sua vida, algo que sempre estaria aqui, esperando.
Minha voz não estava alta.
— Eu não sou confortável, %Theo%. Não sou continuidade automática da sua vida. Não sou um hábito que você pode testar para ver se ainda funciona.
Ele permaneceu em silêncio.
Respirei fundo antes de continuar.
— Eu sei que você foi honesto. Sei que você não quer me trair e que está tentando entender o que sente. Eu sei que você está confuso. Mas eu não vou fingir que isso não me afetou.
O ar entre nós parecia pesado demais.
— %Helena%… — ele começou.
— Eu pensei o dia inteiro — interrompi.
E pensei mesmo. Na faculdade, no fórum, no caminho de volta para casa.
Ele ficou tenso de imediato.
Segurei o olhar dele por alguns segundos. Pela primeira vez desde os treze anos, tive a sensação clara de que o que eu dissesse ali não seria apenas uma resposta momentânea.
Poderia mudar completamente a história que construímos juntos.
E, pela primeira vez, eu precisava escolher com a mesma consciência que ele dizia buscar.