CAPÍTULO 3 • A LIBERDADE TEÓRICA
Tempo estimado de leitura: 24 minutos
Por %Theo% %Montenegro%
A pergunta escapou antes que eu tivesse tempo de avaliar o peso dela e, assim que saiu, ficou suspensa entre nós, maior do que parecia quando ainda estava só na minha cabeça.
%Helena% não respondeu de imediato, não desviou o olhar, não abaixou a cabeça nem demonstrou qualquer reação impulsiva. Apenas me observou com aquela calma concentrada que eu conhecia bem, como se estivesse analisando uma proposta formal antes de dar um parecer. Aquilo, por si só, já dizia muito.
— Se a gente for fazer isso… — começou, com a voz firme, estável demais para o que estava sendo discutido — vai ser do meu jeito também.
Piscar foi quase instintivo, como se eu precisasse de um segundo a mais para acompanhar.
Não era o que eu esperava.
Eu tinha me preparado para resistência, para discussão, talvez até para um “não” definitivo. Mas aquilo não era resistência.
— Do seu jeito? — repeti, mais para ganhar tempo do que por falta de compreensão. Ela assentiu devagar.
— Você quer experiência, quer liberdade, quer certeza. Eu consigo entender isso — disse, fazendo uma pausa breve antes de continuar. — Mas isso não vai ser unilateral.
Senti o estômago contrair levemente. Até então, tudo aquilo girava em torno da minha inquietação, da minha dúvida, da minha necessidade de testar algo que eu ainda não sabia explicar direito. %Helena% estava me lembrando, com uma clareza desconfortável, que ela também fazia parte daquela equação.
— Eu não vou ser o ponto fixo enquanto você testa o mundo — continuou. — Se isso acontecer, acontece para os dois. — Engoli em seco.
— Claro — respondi rápido demais.
Rápido o suficiente para denunciar.
%Helena% sempre percebia.
Cruzou os braços, não em defesa, mas como quem organizava ideias antes de apresentá-las.
— E não vai ser bagunça — acrescentou. — Não vai ser “vamos ver no que dá”. Se a gente fizer isso, vai ter regras.
Quase sorri. Era tão ela que chegava a ser previsível — e, de alguma forma, reconfortante.
— Que tipo de regras? — perguntei. Ela apoiou as mãos na mesa e se inclinou levemente para frente.
— Transparência total. Nada escondido, nada descoberto por terceiros. Se acontecer alguma coisa, a gente conta.
Assenti. Naquele momento, parecia mais do que justo.
— Sem envolvimento emocional — continuou. — Se alguém começar a gostar de outra pessoa, a gente para. E, se sair dos trilhos, a gente conversa antes de virar traição.
O silêncio que se seguiu foi mais denso, mais real. Observei o rosto dela com mais atenção; a postura reta, o controle absoluto, a forma como cada palavra era escolhida com cuidado. %Helena% não estava reagindo; ela estava delimitando território.
— Eu não vou competir com mentira, %Theo%. — A frase me atingiu de um jeito mais profundo do que eu esperava.
— Eu não quero mentir — respondi, e era verdade, pelo menos naquele momento. Ela sustentou meu olhar por mais um segundo antes de acrescentar:
— E não é só você que pode viver coisas. Eu também posso.
Aquilo reverberou de um jeito inesperado. Eu não tinha imaginado %Helena% em outro cenário, não tinha imaginado alguém ocupando um espaço que sempre foi meu. Afastei o pensamento antes que ele se formasse por completo.
Eu tinha começado aquilo.
— Eu sei — respondi, mas minha voz já não tinha a mesma firmeza.
Ela estendeu a mão sobre a mesa. Não era um gesto romântico, era encerramento. Um acordo.
O aperto foi firme, controlado, quase profissional.
E, naquele momento, tudo pareceu simples, quase fácil de organizar. Teórico. Controlável. Como se estivéssemos lidando com um conceito, não com consequências reais. Eu ainda não sabia — ou escolhi não perceber — que a teoria só é confortável enquanto não precisa ser vivida.
Quando soltamos as mãos, o apartamento pareceu diferente. Não havia briga, nem tensão explícita, apenas a sensação estranha de que alguma coisa tinha sido reorganizada entre nós.
%Helena% recolheu os pratos como sempre fazia, e eu ajudei como sempre ajudava. Os gestos eram os mesmos, mas já não significavam exatamente a mesma coisa.
Quando fomos para o quarto, o silêncio nos acompanhou. %Helena% entrou primeiro no banheiro. Ouvi a torneira abrir, o armário fechar, os passos controlados. Tudo seguia no mesmo ritmo de sempre.
Havia uma energia inquieta sob a pele, algo mais próximo de adrenalina do que de felicidade, como se alguma coisa tivesse sido liberada dentro de mim — liberdade, experiência, possibilidade.
Deitei na cama antes dela, olhando para o teto escuro, tentando entender o que exatamente estava sentindo.
Quando %Helena% saiu do banheiro, vestia o pijama de sempre: simples, confortável, familiar. Ela se deitou ao meu lado sem dizer nada. Eu me virei na direção dela, passei o braço pela cintura, e ela não se afastou.
Aproximei meu rosto do dela e a beijei.
O beijo foi lento, mais intenso do que precisava ser, como se eu estivesse tentando provar alguma coisa que nem eu sabia nomear. Ela correspondeu, mas havia uma diferença sutil: não era distância, era contenção.
Minhas mãos percorreram o caminho que já conheciam, mas, dessa vez, havia um pensamento atravessado no meio do gesto, aquele não era mais o único caminho possível.
E essa consciência, por si só, mudava tudo. %Helena% interrompeu o beijo primeiro e encostou a testa na minha.
Não soou como rejeição, e sim como decisão.
Fiquei ali por alguns segundos, sentindo o calor do corpo dela contra o meu, mas não fomos além. Pela primeira vez em muito tempo, não seguimos o roteiro. Ela virou de lado. Eu permaneci olhando para o teto, no escuro, com o coração acelerado, mas não por culpa, e sim por expectativa.
Enquanto %Helena% adormecia com a respiração calma, eu permanecia desperto demais, com a mente girando em torno de possibilidades. Pensei na sexta-feira, na festa, na ideia de viver algo novo e ainda assim voltar para casa.
Naquele momento, não percebi que já estava vivendo algo novo. Era a primeira vez que eu a beijava sabendo que existiam alternativas. E isso, sozinho, já era suficiente para mudar completamente a temperatura do quarto.
⭐⭐⭐
Acordei antes dela naquela manhã.
Fiquei alguns segundos observando %Helena% dormir, o cabelo espalhado no travesseiro, o rosto tranquilo demais para alguém que, na noite anterior, tinha reestruturado um relacionamento inteiro com a mesma calma com que resolveria um caso difícil.
Levantei com cuidado e fui para a cozinha.
Dessa vez, fui eu quem fez o café. Não houve despertador antes dela, nem o som familiar do Vade Mecum sendo aberto logo cedo. O apartamento parecia suspenso, como se ainda estivesse tentando entender qual versão de nós existia ali agora.
Quando %Helena% apareceu na cozinha, os olhos ainda pesados de sono, eu quase sorri pela inversão silenciosa do cenário.
— Você acordou primeiro? — perguntou, com uma surpresa leve na voz.
Ela puxou a cadeira e se sentou. Trocamos um selinho breve, simples, morno. Nada tinha explodido entre nós, mas também nada estava exatamente igual.
Tomamos café juntos, em um silêncio confortável demais para o que tínhamos decidido na noite anterior.
— Eu tenho aula mais cedo hoje — comentei, levantando.
— Eu também tenho audiência simulada logo cedo.
Vida normal. saí antes dela, fechando a porta com a sensação estranha de estar atravessando uma linha invisível.
A aula daquela manhã era teórica.
Um auditório grande, projetor ligado, slides passando em sequência sobre fisiologia cardiovascular. O professor falava com entusiasmo, desenhando esquemas no quadro como se estivesse explicando algo fascinante demais para ser ignorado.
— O coração não falha por emoção — disse ele em determinado momento. — Falha por falha estrutural.
Se fosse assim com pessoas, seria tudo muito mais simples.
Anotei o essencial, participei quando perguntaram, respondi automaticamente quando chamado. Por fora, nada tinha mudado. Por dentro, havia algo novo, mas não era culpa e sim antecipação.
Quando a aula terminou e o fluxo de alunos começou a se dispersar pelo corredor, procurei Isadora.
— Preciso te contar uma coisa. — Ela parou na hora, arregalando os olhos com exagero teatral.
— Mais do que isso. — Ela cruzou os braços.
— Fala logo, %Montenegro%. — Respirei fundo.
— A %Helena% e eu decidimos… abrir o relacionamento.
Isadora piscou duas vezes e, no segundo seguinte, começou a rir.
— Eu sabia. Eu sabia! Foi de tanto eu falar no seu ouvido? — Balancei a cabeça, meio sem graça.
— Meu Deus, eu sou uma influência social perigosíssima — declarou, dramática. — E como foi pra sua namorada perfeita?
— Tá, sua namorada estruturada. — Hesitei por um segundo.
— Ela citou seu nome. — Isadora congelou.
— Ela perguntou se foi você que colocou isso na minha cabeça.
— Eu não quero sua namorada me odiando — disse rápido. — Não tenho energia pra rivalidade feminina.
Falei com convicção, mas sabia que “brava” era uma palavra pequena demais para o que %Helena% sentia.
— Então vocês combinaram mesmo? Com regras e tudo?
— Transparência total. Nada escondido. Nada de envolvimento emocional. Se sair dos trilhos, a gente para. — Isadora abriu um sorriso largo.
— Cara, isso é perfeito. Vocês são muito civilizados. Parece contrato de sociedade.
— Foi quase isso. — Ela deu um tapa leve no meu braço.
— Relaxa. Agora que está permitido, você pode conhecer o lado bom da vida sem drama. — Ri.
Mas algo dentro de mim não acompanhou completamente, agora que era permitido… parecia real demais. Antes era só ideia, mas agora era ação. E ação tem consequência.
— Sexta você vai — afirmou. Pensei na %Helena%, no aperto de mão, no beijo contido da noite anterior.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, senti não só expectativa.
⭐⭐⭐
Sexta-feira começou como qualquer outra.
Enquanto %Helena% mexia o café na cozinha, limpei a garganta.
— Hoje tem a festa do pessoal do quinto ano. — Ela não levantou os olhos imediatamente.
— Eu sei. — Sabia. Eu tinha comentado durante a semana.
— Você… quer ir? — perguntei, mais por formalidade do que por real expectativa.
Ela finalmente me olhou, não havia acusação, mas honestidade.
— Eu não estou pronta pra ver você ficando com outra pessoa. — A resposta foi direta, sem dramatização. Assenti devagar.
— Eu também não acho que conseguiria ver você com outra pessoa.
E era verdade, só imaginar já trazia um desconforto físico difícil de ignorar. %Helena% mexeu o café mais uma vez.
— Depois me conta como foi. — A frase era simples, mas carregava confiança. Senti o peso dela.
Ela assentiu, como se aquilo encerrasse o assunto, mas não encerrava.
O dia passou rápido demais…
Aulas, corredores, vozes técnicas, slides projetados. Eu participava, respondia, anotava, mas havia uma camada constante de expectativa atravessando tudo.
Quando cheguei em casa no fim da tarde, %Helena% ainda não tinha voltado do estágio. O apartamento estava silencioso. Deixei a mochila no sofá e fiquei parado no meio da sala por alguns segundos.
Nada daquilo era obrigatório, eu poderia não ir, poderia esperar, dizer que ainda era cedo. Mas não era isso que eu queria, eu queria saber.
Tomei banho, escolhi uma camisa que não usava com frequência. Fiquei tempo demais olhando meu reflexo no espelho, não parecia diferente, mas me sentia.
Peguei as chaves, mas quase não fui, quase mandei mensagem dizendo que ficaria em casa.
A casa do pessoal do quinto ano estava iluminada demais para o meu gosto. Música alta, gente suada, copos vermelhos espalhados, risadas competindo com o som. O ambiente era caótico de um jeito quase libertador. Isadora me encontrou antes que eu pudesse pensar demais.
— Olha quem resolveu viver — gritou, me puxando para o meio do grupo. — Relaxa. Você não está traindo ninguém.
A frase ecoou mais do que deveria.
Respirei fundo e comecei a conversar com algumas pessoas. Risos fáceis, assuntos superficiais. Ninguém ali me conhecia desde os treze anos. Ninguém sabia da história longa, das fases atravessadas juntos.
Ali, eu era só %Theo%, sem rótulo ou continuidade, e aquilo era novo.
— Você é do terceiro ano, né? — Ela tinha um sorriso fácil e uma segurança tranquila.
— Lívia. — Estendeu a mão como se estivéssemos num evento formal. Ri.
Ela encostou levemente no meu braço enquanto falava, riu de algo que eu disse, perguntou sobre cirurgia como se fosse algo fascinante.
Nada profundo ou intenso, mas diferente. E novidade tem um peso próprio.
Percebi que gostava da sensação de não ser previsível ali, de não ser o garoto que sempre teve a mesma namorada, de não ser metade de uma história já conhecida.
E, por alguns minutos, aquilo pareceu suficiente.
A música aumentou conforme a noite avançava, o ar ficou quente demais dentro da casa e as pessoas circulavam sem direção, esbarrando, rindo alto como se ninguém tivesse compromisso no dia seguinte.
Eu estava encostado na parede da cozinha quando Lívia se aproximou novamente, segurando dois copos.
Ela sorriu, e ficamos ali por alguns segundos, conversando sobre banalidades — professores exigentes, plantões absurdos, o caos da faculdade. Nada que exigisse continuidade. Só leveza.
Em determinado momento, alguém passou esbarrando, e ela ficou mais perto do que antes. O espaço entre nós diminuiu sem esforço.
Ela inclinou o rosto, e eu percebi antes mesmo que acontecesse. Não houve pensamento longo nem conflito elaborado, só um instante limpo entre perceber e agir. Ela segurou minha camiseta na altura do peito e me beijou.
Foi simples. Rápido. Quase experimental.
Os lábios eram diferentes dos de %Helena% — o ritmo, a pressão, tudo tinha outra medida — e eu senti a descarga imediata de adrenalina, aquela sensação limpa de desconhecido que não vinha acompanhada de memória, história ou expectativa. Não havia passado ali, nem futuro. Era só um momento existindo por si só.
Quando ela se afastou, ainda sorrindo, percebi que eu também estava sorrindo.
Senti uma curiosidade estranhamente satisfeita, como se tivesse aberto uma porta e confirmado que existia outro espaço do outro lado, nada maior do que isso, nada menor.
— Tá tudo bem? — ela perguntou, divertida.
Eu não me sentia traidor. Eu me sentia… vivo.
E, enquanto a música voltava a preencher o ambiente ao nosso redor, pensei que talvez aquilo fosse exatamente o que eu precisava para ter certeza. Ainda não sabia de quê, mas, pela primeira vez, a dúvida parecia menos abstrata.
Antes que o momento se dissolvesse, puxei-a de volta para mais um beijo.
⭐⭐⭐
Voltei para o apartamento quase leve. Não era euforia, mas uma leveza estranha, como se eu tivesse cumprido uma etapa importante de um experimento cuidadosamente planejado. Abri a porta tentando não fazer barulho, mas não adiantou.
%Helena% estava no sofá, a televisão ligada em volume baixo, embora estivesse claro que ela não prestava atenção em nada do que passava. Não estava assistindo, estava esperando. O olhar dela se ergueu assim que entrei, e foi ali que eu percebi: não era ciúme, não era raiva. Era consciência.
Antes mesmo de eu dizer qualquer coisa.
%Helena% permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se organizasse a forma exata de conduzir aquela conversa. Quando falou, a calma era controlada demais para ser natural.
— Antes da gente conversar, %Theo%… eu estou sentindo o perfume dela. Vai tomar um banho, ok? Depois a gente conversa.
Parei no meio da sala. Aquilo não tinha passado pela minha cabeça — não o beijo, não a conversa, mas o cheiro. A materialidade do encontro.
Fui para o banheiro com a mente acelerada. O vapor do chuveiro não abafou os pensamentos; pelo contrário, pareceu amplificá-los. Revivi o beijo, a risada fácil da Lívia, a leveza da situação e, pela primeira vez, tentei enxergar tudo aquilo de fora, do jeito que %Helena% veria.
Quando saí do banho, ainda com a toalha enrolada na cintura, ela continuava no sofá, na mesma posição, como se o tempo tivesse passado apenas para mim. Sentei ao lado dela, mantendo uma distância calculada, nem próximo demais, nem distante o suficiente para parecer fuga. Nossos olhares se encontraram, e havia algo ali que não existia antes.
Era naquele ponto que a teoria deixava de ser confortável.
— Como foi? — ela perguntou.
Simples. Direto. Sem preparação, sem proteção.
Senti um impulso estranho de sorrir.
Animado demais para aquele contexto.
— Foi interessante. — A palavra pareceu pequena no instante em que saiu. %Helena% inclinou levemente a cabeça.
— Interessante como? — Respirei fundo.
— Ela se chama Lívia. É do quinto ano. A gente conversou bastante… é leve. Ela ri fácil. — %Helena% assentiu, absorvendo cada detalhe sem interromper.
— E? — Engoli em seco. Ela não queria descrição. Queria verdade.
— Foi novo. Diferente. Não tem história, não tem peso. — Ela me observava com uma atenção quase clínica.
— E como você se sentiu? — Pensei antes de responder.
— Curioso. Vivo. — Fiz uma pausa, tentando ajustar o tom. — Mas não é nada igual ao que eu tenho com você.
— O que você tem comigo? — Dessa vez, não hesitei.
— Profundidade. História. Segurança. Eu sei quem você é, sei como você pensa, sei como você me olha.
O silêncio que veio depois não era vazio, era denso demais para ser confortável. Continuei, talvez tentando equilibrar o entusiasmo que ainda ecoava na minha própria voz.
— O beijo foi só um beijo. Não tem comparação.
%Helena% não reagiu imediatamente. Ela absorveu a frase inteira antes de qualquer resposta, como fazia com tudo que realmente importava. Não houve explosão, não houve lágrima, mas algo mudou.
Um micro movimento no canto da boca, um endurecimento sutil no olhar, como se uma camada fina tivesse sido colocada entre nós sem fazer barulho. Nada parecia quebrado, mas também não estava completamente intacto.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, eu percebi que maturidade não impede impacto.