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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Apenas uma Noite

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Prólogo

"You want all my love and my devotion
You want my love and soul, right on the line
I have no doubt that I could love you, forever
The only trouble is, you really don't have the time

You've got one night only, one night only
That's all you have to spare
One night only
Let's not pretend to care"


  O corpo do menino balançava à medida que o carro seguia o curso. Encolhido no banco traseiro, não ousava fazer nenhum barulho e se policiava para não se prejudicar ainda mais. Com medo do motorista ver as mãos dele soltas, consideradas femininas para um homem, decidiu cruzar firmemente os braços para evitar reprimendas.
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  "Viadinho!"
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  "Aberração!"
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  Tais palavras ecoavam em sua mente acompanhadas pela ardência dos arranhões espalhados pelo corpo, consequências gravadas na pele pelo cinto de quem deveria lhe amar, proteger e aceitar acima de tudo. A dor havia diminuído um pouco, mas a aspereza da roupa contra a pele gerava um estranho incômodo, como se estivesse causando autoflagelo pelo erro cometido. Com as costas apoiadas contra a porta traseira e os pés descalços no assento, recusava-se a encarar o homem que continuava a dirigir sem diminuir a velocidade. Não soube distinguir há quanto tempo estavam no carro. Uma hora? Duas horas? Não sabia.
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  Encarou a estrada e se deu conta que anoitecia. Se perguntava se a sua mãe teria forças para enfrentar o marido. A mulher não era ruim. Longe disso. Era amável, carinhosa, atenciosa e nunca insultou o filho por ser quem era. Não exigia que se enquadrasse num padrão e nem rejeitava a essência do menino. Ela era o único consolo que tinha dentro daquela residência. O problema é que não foi criada para o confronto e nem para gerenciar conflitos — sequer tinha o temperamento adequado para isso. Portanto, o máximo que fazia era buscar proteger o filho e amenizar a ira do outro.
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  "Olhe para mim" — Segurava o rosto do menor, completamente avermelhado pelo desespero e banhado em lágrimas. — "Você não é ninguém. Jamais será mais do que isso. Essa coisa insignificante e errada que é. Ainda não acredito como a sua mãe foi capaz de parir um monstro."
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  Pelo reflexo da janela conseguiu enxergar as marcas das unhas deixadas pelo pai na têmpora.
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  O clima denso dentro do veículo era quase palpável. O jovem o sentia em cada célula do corpo. O medo o fez paralisar desde que o pai invadiu seu quarto tamanho o pavor. Torcia inutilmente para o rádio ser ligado e ele poder ouvir uma música como forma de se distrair e afastar da mente a incógnita do que viria a acontecer nos próximos momentos. Nem teve tempo de pegar seus fones de ouvido, sequer o celular. Tentava em vão buscar o aparelho enquanto era empurrado pelos braços e caminhava descalço aos tropeços. Era a única esperança para acionar a mãe — se bem que, pelo estado emocional do pai, não saberia dizer se a mulher conseguiria controla-lo.
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  Seu genitor era um homem de temperamento terrível, cheio de preconceitos e inflexível. Pautava a vida nos ensinamentos bíblicos e tudo que fosse contra o que estivesse escrito naquele livro que o filho tomou verdadeiro asco, deveria ser erradicado de sua frente, excluído e ignorado — mesmo que fosse a existência de alguém. Para a infelicidade da família, o filho mais novo era a personificação daquilo que era abominado pelo pai.
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  Nunca foi um menino considerado comum pelos padrões da sociedade. Sempre teve gostos que não condiziam com o sexo masculino. Na escola, costumava brincar com as meninas e suas respectivas bonecas, já que, onde morava, isso era impossível. Brincava de maquiar, pentear e de casinha com as demais alunas. Ao menos no colégio não recebia reprimendas. Não era apreciador de nenhum esporte e nunca teve inclinação para lutas marciais. O genitor se esforçou para fazê-lo gostar de "coisas de homem", assim como gostava de enfatizar.
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  Colocou o filho no futebol e no judô. Esperava que o garoto se desenvolvesse melhor ali. A frustração foi grande quando ambos os professores conversaram com o adulto em menos de quatro meses, alegando que o aluno não queria estar ali — palavras proferidas pela criança em todos os lugares, inclusive dentro de casa, em confidência com sua mãe. Não foi nem um pouco agradável lidar com o genitor nas semanas seguintes.
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  Quanto mais o garoto crescia, mais era notório que a sua presença era incômoda dentro de casa. As feições eram delicadas demais, o corpo tinha certo ar de feminilidade e seus gestos eram igualmente considerados femininos. Era chamado de "viadinho" antes mesmo de saber o significado da palavra. Aos 9 anos começou a se monitorar. Evitava gesticular muito para não "desmunhecar" — sabe-se lá Deus o que isso significava. Passou a aceitar as roupas escolhidas pelo pai. Até mesmo se esforçava para assistir jogos de futebol numa tentativa de não receber ataques verbais do genitor. Por um tempo deu certo. Até aquela tarde fatídica.
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  Apesar da tentativa de fingir ser quem não era para se proteger, não mentia para si. Por isso, longe dos olhos críticos e julgadores do pai e cercado de quem gostava dele, mantinha sua essência. As suas amizades na escola eram compostas por grupos majoritariamente de meninas. No ano anterior, a escola recebeu um novo aluno. Os olhos simpáticos e com uma ponta de humor logo lhe chamaram a atenção. Teve a sorte de sentar ao lado dele na escola.
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  Por ser bem comunicativo, não houve dificuldade em conversar com o garoto de cabelos negros e sorriso de dentes alinhados.
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  Aos poucos se aproximaram e Marcos ingressou no círculo de amizade do aluno mais antigo.
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  Ah, os amores juvenis.... Pela primeira vez sentiu aquelas borboletas no estômago acompanhadas do calor entre as pernas. Embora torcesse para que tivessem algum tipo de envolvimento amoroso, achava que não seria capaz de acontecer. Até porque o colega não dava indícios de ser gay. Era sempre mais masculino, sem trejeitos e com a voz mais grossa. Ouvia rap, era fã do Fluminense e tinha uma certa marra na postura ereta, como se não admitisse ser olhado de cima por ninguém. Então pode-se imaginar o êxtase que invadiu o corpo do garoto quando Marcos segurou a sua pequena mão pela primeira vez. Foi um momento inocente e íntimo entre os dois.
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  O loiro era canhoto e o de cabelos negros, destro. Um dia, enquanto anotavam a explicação do professor sobre Napoleão na aula de História Geral, sentiu algo roçar em sua mão, mas não deu devida atenção. Quando constatou algo lhe entrelaçando os dedos, olhou para baixo curioso e se deparou com a mão segurando a sua. Ao encarar Marcos, foi recebido por olhos hesitantes e receosos, como se tivesse reunido toda a coragem naquele pequeno ato. Estava tão tenso que, quando recebeu um sorriso doce como resposta, Marcos soltou o ar que prendia nos pulmões.
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  A partir dali começou a frequentar a casa do aluno quase semanalmente. Teve um alívio de sua tormenta, podendo estar na companhia da família dele. O membro júnior era aceito pelos demais e ninguém destratava o outro garoto. Quando ambos entravam no quarto, podiam ficar de porta fechada — e foi assim que aprenderam a se dar prazer.
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  Numa tarde de sábado, o que era seu alívio se transformou na sua desgraça.
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  Nunca descobriu como, mas o pai ouviu comentários sobre Marcos. Escolheu um dia para avisar que faria dois plantões no trabalho — era médico. Passaria o final de semana todo fora. Por causa disso, o filho aproveitou a oportunidade para chamar Marcos em sua casa, com o objetivo de conhecer a sua mãe. A mulher o recepcionou com amorosidade por saber o quão importante era aquele momento para o filho. Logo após o almoço, precisou sair ao mercado, então os dois teriam a casa para si por poucas horas.
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  Quando estava chupando aquele pau que adorava, sentiu uma dor latejante nas costas que o fez cair. Não conseguiu distinguir como ou com o que foi golpeado, mas não demorou para os gritos começarem para expulsar o convidado de lá.
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  O pai havia chegado de surpresa. Ao se deparar com a cena, não pensou duas vezes antes de socar as costas do filho. A fúria era tamanha que, após jogar Marcos pelos cabelos portão afora, pegou o cinto e desferiu incontáveis golpes no filho, proferindo palavras de ódio e xingamentos. O adolescente vestia apenas a cueca. Não teve um centímetro do corpo do adolescente que não tivesse sofrido com a fivela daquele cinto. As lágrimas e os soluços de dor não foram suficientes para o adulto cessar a violência.
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  Por fim, quando cessou o episódio de violência pelo cansaço, o obrigou a se vestir e o tirou de casa, o colocando dentro do carro.
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  — Pode sair. — Foram as primeiras palavras ditas pelo pai após começar a dirigir. Não havia nenhuma emoção na voz.
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  — Sair pra onde? — A voz embargada não passou de um sussurro.
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  — Aí já não me interessa. Anda. Não quero nunca mais olhar pra sua cara. — Cuspiu pela janela em sinal de escárnio.
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  — Não vou ficar aqui. Pai...
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  Se calou quando o homem virou para encará-lo pela primeira vez desde que o arremessou dentro do veículo. Os olhos carregados de ódio e nojo o fizeram engolir as palavras.
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  — Não me chame assim. Não é e nem nunca foi meu filho. Deus deve ter me punido por algum erro que cometi, mas já estou expurgando esse karma para longe da minha vida. Saia. Você não passa de um erro da natureza.
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  Um silêncio sepulcral se instalou entre eles.
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  Como o mais novo não mexeu um músculo sequer, o adulto abriu a porta do carro, mas não sem avisar:
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  — Tudo bem. Já que quer tornar as coisas mais difíceis...
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  O filho tentou lutar, sem sucesso. As súplicas por misericórdia não foram suficientes, nem mesmo os soluços e a voz trêmula puderam impedi-lo. O garoto se agarrou ao banco numa tentativa de continuar no interior do carro. Quem costumava ser chamado de pai o segurou pelos cabelos e o agarrou pelos braços sem dificuldade, o retirando de onde passou as últimas três horas. Jogou o filho no chão com tanta força que sentiu o ar sumir momentaneamente dos pulmões e a testa bateu com força no asfalto da estrada. O impacto foi forte ao ponto do galo logo se instalar. Quando conseguiu se ajoelhar, pôde vê-lo entrar no veículo. Não adiantou correr para tentar alcançar o carro.
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  Pela primeira vez se deparou com uma realidade que jamais pensou que fosse se tornar a sua, nem em seus piores pesadelos.
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  Sozinho, abandonado, com feridas no corpo e na alma após ser espancado e com apenas a roupa do corpo para lhe proteger do frio do inverno, virou as costas e iniciou a caminhada tendo a luz da lua como sua como guia.
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