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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Apenas uma Noite

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Capítulo 3

"In the morning this feeling will be gone
It has no chance going on
Something so right has got no chance to live
So let's forget about chances, it's one night I will give

One night only, one night only
You'll be the only one
One night only
Then you have to run

One night only, one night only
There's nothing more to say
One night only
Words get in the way

One night only"

One Night Only — Jennifer Hudson


  Aquiles era a personificação da frase "não há nada tão ruim que não possa piorar".
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  Nos anos seguintes, perambulou pela rua em total situação de vulnerabilidade social, física e emocional. Comia o que encontrava nas lixeiras e até aproveitava o horário que alguns restaurantes colocavam o lixo da cozinha pra fora, objetivando se alimentar. Aprendeu a não se entregar completamente ao sono porque poderiam tentar tirar-lhe vantagem. Nos dias frios os papéis e papelões eram seus melhores amigos, usando-os para se esquentar. Apesar de todo esse sofrimento, ainda carregava um bom coração. Dilacerado, mas bom. Quando via um animal se aproximar, fazia questão de acaricia-lo na cabeça e era gentil, sempre dividindo com ele o seu alimento se carregasse um consigo. Por sorte ou misericórdia divina, quando a fome apertava mais o estômago, a sede quase secava a garganta ou era tratado com mais grosseria, aparecia um cachorro ou um gatinho para lhe trazer consolo. Era quando conseguia esboçar um sorriso e se sentir melhor, nem que fosse um pouco.
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  Numa noite de domingo a rua onde ficava era deserta. Não passava ninguém ali. Costumava gostar de permanecer em lugares mais sozinho, mas as coisas estavam prestes a mudar radicalmente naquela noite quente de verão.
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  Um grupo de homens sob efeito de álcool começou a segui-lo. Tentava há quase trinta minutos despistá-los sem sucesso. O medo deu lugar ao pavor à medida que buscava atravessar as ruas com eles em seu encalço — principalmente por proferirem palavras e frases de baixo calão por Aquiles ser gay. Adentrava nas vielas até que, por fim, se viu num beco largo onde havia algumas latas grandes de lixo.
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  Tentou escapar mesmo estando encurralado. Os olhos arregalados demonstravam o quão em alerta seu corpo estava. A adrenalina passava pelo sangue numa tentativa frustrada de conseguir se defender ou fugir. Odiou ter perdido peso por estar desnutrido ao ponto de se tornar uma presa fácil para aqueles desconhecidos, assim como odiou o pai por ser o responsável de todos os momentos de aflição, despeito e desprezo sofridos nos últimos anos. Quando as lágrimas caíram nada mais eram do que uma mistura do mais profundo ressentimento de quem sofre as consequências de um crime que não cometeu — e nesse caso sequer poderia dizer o contrário, já que o seu grande pecado era ser um garoto gay numa sociedade machista e homofóbica, onde era ele quem sofreria pelo terrível erro de simplesmente existir.
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  Tendo os braços imobilizados pelos agressores, a bile subiu a garganta ao ver que um deles trazia um cabo de vassoura jogado no chão e se dirigia até ele.
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  Quando esse tentou lhe abaixar as calças, um tiro foi ouvido — som esse que os assustou. Uma voz firme, autoritária e fria surgiu em seguida:
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  — Soltem esse garoto ou suas famílias vão enterrá-los amanhã.
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  A imagem não poderia ser mais desconexa. Uma idosa loira segurava a arma apontada para o que carregava o cabo de vassoura. A expressão não mostrava nenhum desconforto. Pelo contrário. Respirava tranquilamente, como se estivesse na presença de queridos amigos da época de escola. O longo vestido preto era justo no busto, deixando os fartos seios evidentes. Nos pés descansavam sandálias pratas de tira fina. No antebraço esquerdo descansava uma bolsa azul e na outra empunhava a arma. As unhas eram cor vermelho sangue, assim como o batom nos lábios.
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  — Pera lá, pera lá, senhora.
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  — Senhora é a vagabunda da sua mãe que deveria ter te abortado — respondeu ríspida.
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  — Abaixa isso. A gente só está se divertindo.
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  — Chama isso de diversão? — Pela primeira vez demonstrou nojo ao invés de orgulho na postura altiva. — Filho — a voz se tornou mais branda ao se dirigir a Aquiles —, está se divertindo?
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  Como não tinha condições nenhuma para falar, apenas balançou a cabeça em negativa de forma frenética enquanto as lágrimas caíam pelo rosto.
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  — Desconfiei. Soltem-no ou não respondo por mim.
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  — Uma velha como você não...
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  Não teve oportunidade de terminar a frase. A bala passou de raspão no braço e soltou um grito pelo susto e pela dor.
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  — Eu cravei uma faca no peito do meu pai no dia em que ele tentou subir em cima de mim. Acha mesmo que não tenho coragem pra atirar em desconhecidos? Desconhecidos esses que não farão a menor falta, inclusive.
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  — É blefe. — O que o segurava passou a língua na bochecha do garoto, que contraiu o corpo com asco.
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  A mulher engatilhou a arma para demonstrar que não hesitaria em atirar.
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  — Quer pagar pra ver?
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  Apesar da idade avançada, algo naquela mulher mostrava imponência. O tom de voz grave, o queixo erguido, os olhos fixos e rosto impassível. Ao analisa-la naqueles instantes, Aquiles sentiu medo dela — na posição que ele estava, isso era até bom.
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  Após um longo silencio onde a arma não foi abaixada nenhum centímetro, o que o segurava se deu por vencido:
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  — Ótimo. Deixem ele ir.
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  — Ainda não terminamos. Filho, aponte para um.
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  Estendeu o indicador na direção do que ainda segurava o cabo de vassoura.
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  — Por quê?
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  — Foi ele quem apontou pra mim e os incentivou a virem atrás de mim. Aí começaram a me perseguir.
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  A bala atingiu de supetão a mão do homem, atravessando a carne e deixando um belo buraco de presente.
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  Os demais passaram correndo por ela fugindo, mas não sem receberem presentes como aqueles nos corpos — ombros, braços, joelhos ou pés. Nada que fosse fatal, mas lhes gerou bastante dor e demorariam para se recuperarem.
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  Quando estavam sozinhos, a mulher indagou, guardando a arma na bolsa:
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  — Está bem contigo, filho?
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  A última vez que foi chamado de filho com ternura foi pela mãe, na tarde quando levou Marcos pra sua casa. Isso quase fez o coração sangrar.
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  — Sim.
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  — Bom. Anda, volta pra sua família. É perigoso perambular sozinho nesse horário.
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  Deu as costas e se afastou a passos firmes. Por não ouvir que era acompanhada pelo garoto, virou-se e se deparou com ele parado no mesmo lugar.
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  — Não me ouviu?
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  — É que não tenho pra onde ir.
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  — E a sua família?
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  — Não tenho família há um tempo, moça.
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  A resposta a fez franzir o cenho.
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  — Vem, chega perto da luz para eu te enxergar direito. Me deixa dar uma olhada em você.
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  Assim ele fez.
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  Aquiles era a sombra do que já foi. Os cabelos eram opacos e longos. A pele se tornara manchada e macilenta, num leve aspecto acinzentado. Os olhos guardavam uma dor profunda que jamais ousaria contar para alguém. O estreito corpo era tão magro que as costelas e os demais ossos eram aparentes. As roupas eram largas, enfatizando mais a sensação de vulnerabilidade. Havia intensas olheiras protuberantes.
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  — A vida não tem sido fácil contigo, né, filho?
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  Secou as lágrimas num sorriso triste ao acenar que não devagar.
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  — Anda. Me acompanha, então.
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  — Pra onde vamos?
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  — Só vai descobrir se vier comigo.
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  — Quem eu amava e confiava me colocou pra fora de casa. Minha vida tem sido um inferno desde aquela tarde. Por que eu esperaria melhor tratamento de sua parte?
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  — Não tem como saber. — Pôs uma das mãos na cintura. — Sou só uma mulher que carrega uma arma quando sai. Não sei quem foi o desgraçado que te expulsou de casa, mas, independentemente de quem seja, não merece sequer respeitá-lo. E o seu erro foi depositar a sua fé na pessoa errada. Só porque é família não significa que vá ser bom pra você. Mas você é novo. Ainda há muito a aprender. A pergunta que deveria fazer é: o que de pior poderia lhe acontecer se vier comigo? Não tem nem onde cair morto.
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  Foi o suficiente para acompanha-la.
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  Seguiu com ela no banco da frente em silêncio. Quando a loira ligou o som e uma música sertaneja começou a tocar, um sorriso tímido desenhou aquele rosto marcado pelo destrato.
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  — Gosta de música?
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  — Hum-hum.
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  Apesar de não ser apreciadora do estilo musical, o deixou tocando durante o caminho pelos cantos dos lábios do rapaz estarem inquietos como se tentasse esconder o sorriso.
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  Chegaram minutos depois num bar movimentado. Após estacionar o carro, a mulher disse:
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  — Vem, vamos entrar pelos fundos. Não quero ouvir buchichos hoje. Já tive emoções suficientes para uma noite e não tenho paciência para explicar aos meus funcionários sobre os últimos acontecimentos.
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  Após passarem pela porta de madeira, percorreram um pequeno corredor estreito, onde, ao fim, tinha uma escada caracol. Ao subirem, se deparou com um outro corredor, dessa vez bem mais largo, onde os quartos ficavam. No trajeto, o garoto detectou sons de gemidos em alguns quartos.
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  Foram até o último, por onde adentraram.
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  — Pronto. Pode passar essa noite aqui. Ali fica o banheiro. Já volto.
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  O deixou sozinho. Quando retornou tinha uma muda de roupa nas mãos e uma toalha limpa de cor amarela.
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  Quase berrou de susto ao encontra-lo sentado no piso gelado de pernas cruzadas.
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  — Que está fazendo no chão, garoto?!
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  A voz estridente o fez levantar de súbito.
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  — É que a cama, a cadeira e o tapete estão tão limpinhos... Não queria sujar.
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  A resposta apertou o coração da mulher, mesmo que não admitisse.
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  — Não, não se preocupe com isso. — Colocou as roupas no colchão junto com a toalha e o pote de shampoo. — Aqui, são pra tomar banho e se vestir pra descansar. Mais tarde trago comida. Presumo que não coma algo decente há um tempo. — Pôs as mãos na cintura. — Não quero você saindo desse quarto essa noite, entendeu? Vai, vai tomar banho. Daqui a pouco nos vemos.
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  Quando ficou sozinho naquele espaço, não soube bem como reagir. Era a primeira vez em anos que alguém o tratava com gentileza. Era difícil para assimilar o contexto do que aconteceu.
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  Por fim, após alguns minutos onde apenas ficou de braços cruzados, resquícios das repreendas do pai, escolheu fazer o que lhe foi ordenado.
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  Aproveitou cada segundo debaixo daquele chuveiro sem se importar em quanto tempo levou no banho. Descobriu na miséria que era um verdadeiro luxo se banhar todos os dias. Só quando vestiu o conjunto viu que era um baby doll, roupa visivelmente feminina. A etiqueta mostrava que era nova. Embora tenha gostado da estampa de fundo preto com pequenas bolinhas brancas, se preocupou qual seria a reação da mulher ao vê-lo no conjunto curto e delicado. Não que ela fosse fazer algo contra ele fisicamente, mas tinha medo de receber julgamentos e críticas. A voz do pai ainda ecoava no fundo de sua mente e, devido aos seus últimos anos de vida, já passava a crer que o homem estava certo.
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  — Olha pra você — a loira comentou quando o viu saindo do banheiro. Ao lado do armário espelhado o aguardava. — Um bom banho faz milagres, né, meu filho? E essa roupa combinou contigo. Gostou dela?
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  Aquiles abaixou a cabeça cruzando os braços com medo da resposta.
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  — É surdo, menino?! — A voz enérgica ecoou pelo quarto com autoridade. — Estou falando! Gostou? Sim ou não?
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  — Sim. Eu gostei — sussurrou de ombros encolhidos.
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  — Viu como não foi difícil me responder?
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  — É que... Fiquei com medo.
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  — Medo? Tudo bem que você me viu atirando naqueles desgraçados, mas foi pra te ajudar.
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  — Não, não é isso. — Respirou fundo tomando coragem e a encarou. A figura dele não poderia mostrar mais fragilidade, como se algo tivesse quebrado no interior. — É que eu sou... Eu não deveria gostar desse conjuntinho, mas eu gosto.
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  Candelária compreendeu perfeitamente. Então quebrou o espaço que os separava, ficando cara a cara.
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  — Filho, presta atenção em mim. Você pode e tem o direito de gostar do que você quiser e amar quem tiver de amar. Já vi muito machão por aí que coloca chifre na esposa a torto e a direito com a desculpa de ser homem. Inclusive usa dessa mesma conversa esfarrapada pra justificar seus crimes. Aqui você pode se vestir como bem entender e amar outro homem. Mas pra tudo isso acontecer, precisa fazer uma coisa primordial. — Tocou no queixo dele e o ergueu até os olhos ficarem na mesma altura. — Tenha orgulho de si de cabeça erguida. Tudo bem?
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  Recebeu um sorriso e um aceno de cabeça como resposta. Pela primeira vez desde que o encontrou, percebeu uma pequena faísca de alegria no olhar até então melancólico.
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  — Ótimo. Trouxe comida. — Apontou para uma pequena mesa onde tinha um saboroso prato de jantar, refrigerante, três frutas, uma garrafa de água e uma sobremesa de chocolate, além de biscoitos doces e salgados. — Essa noite sua única preocupação é se alimentar e dormir. Ninguém caminha direito de barriga vazia. Vai, vai jantar. E não coma só essas besteiras, não. Seu corpo também precisa desses legumes, frutas e verduras pra te dar forças. Nos vemos amanhã.
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  Correu para a comida quando foi deixado sozinho. O sabor, a textura e o cheiro de comida fresca e temperada o fizeram agradecer a Deus pela alimentação decente em anos — e não se importou em derramar algumas lágrimas.
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  Pegou tudo na mesa e levou até a sacada para ouvir melhor a música da boate. Ali em cima gostou do frescor do vento. O céu limpo era uma bela visão. A lua cheia trazia uma boa sensação, como se algo estivesse prestes a passar por inesperada transformação. Não esperava que aquilo acontecesse, de fato. Porém, era bom para ele sonhar. Terminou a refeição no chão da sacada, pela primeira vez não temendo o anoitecer.
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  Permaneceu ali aproveitando cada mordida, garfada e golada. Ao terminar, continuou na mesma posição — pernas cruzadas e as costas apoiadas contra a parede. Se deixava envolver pela música agradável da boate e cantarolava as que conhecia. Só quando o sono falou mais alto, recolheu tudo e voltou para o quarto, deixando o prato, os talheres e o copo na mesa.
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  Após escovar os dentes se deitou. Foi a primeira vez que se deleitou de um sono tranquilo desde a expulsão de casa.
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  Candelária preparava o café da manhã do garoto. Havia bolo de chocolate, frutas cortadas, uma porção de biscoitos de morango, suco, chocolate morno, suco de laranja, pães de queijo e pães franceses, manteiga, queijo, presunto e mortadela a parte. Queria saber mais sobre o passado dele, entretanto, pra isso, precisava ter tato para lidar com as pessoas e certo nível de gentileza — características essas que ela não adquirira ao longo da vida.
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  Portanto, chamou Lívia sem pestanejar. Lívia sem dúvida tinha algo em comum com o menino — e isso facilitaria demais a conversa.
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  — Diga.
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  — Filha, preciso da sua ajuda. Leve isso tudo lá pra cima, pra aquele quarto desocupado. — Mostrou a bandeja branca pra ela.
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  — Quem é que vai comer esse banquete, gente? — Terminou de amarrar o cabelo num coque frouxo.
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  — Tem um garoto lá.
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  — Aê, Candelária! Está pegando mucilom agora? — ironizou.
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  Retrucou enérgica:
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  — Para de falar bobagem, mulher! Eu lá tenho cara de querer alguma coisa com homem nessa altura do campeonato? — Abaixou um pouco a voz, como se trocasse confidências com uma querida amiga: — Na minha época aproveitei o que tive de aproveitar. Homem agora pra mim só presta se gastar dinheiro no meu bar.
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  — Ok, ok. — Pegou um batom no bolso do short jeans e logo o passou, deixando os lábios vermelhos. — Já vou. Afinal, quem está lá? — O guardou no bolso traseiro. — Preciso saber pelo menos o nome, né?
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  — Aquiles.
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  — Aquiles? Nunca ouvi falar, mas quebro esse galho. — Desconfiada, indagou: — Por que está chamando justamente a mim? Todas as meninas estão por aqui ainda. Eu era uma das poucas ocupadas ajudando a Paloma a organizar o bar pra mais tarde.
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  — Porque tem muito em comum com ele. É bom aproveitar isso porque quero que descubra o passado desse garoto. O pobre coitado mal abriu a boca desde que o encontrei ontem. — Pôs a mão na cintura e a outra estendeu o dedo indicador em sinal de comando e autoridade. — O que ele contar você me passa assim que chegar nessa cozinha, entendeu? Vai, se adiante.
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  Lívia estava preparada para colocar a bandeja na mesa, se deparar com a figura masculina dormindo debaixo das cobertas, acordá-lo gentilmente afagando os cabelos e lhe dar bom-dia assim que abrisse os olhos, tudo nessa ordem. Todavia, não foi o que aconteceu.
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  Assim que viu Lívia, Aquiles se assustou e entrou em estado de alerta. Pulou da cama e quase caiu dela ao se atrapalhar com a coberta. Pedia em prantos para que não fizesse nada com ele, que ele não havia feito nada de errado e coisas do gênero enquanto se encolhia contra a parede.
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  — Menino, calma! Está tudo bem. — Num ato de desespero levantou a blusa e mostrou o abdômen cheio de cicatrizes.
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  Ironicamente, foi isso o que o acalmou. Com o lábio inferior trêmulo, se esforçou para as palavras saírem:
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  — O que houve?
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  — Me machucaram.
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  — Por quê?
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  — Porque eu sou diferente das pessoas que me feriram. — Abaixou o tecido. — É por causa disso que não uso roupa que mostre a barriga.
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  — Diferente como?
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  — Olha pra bem mim. — Se agachou pra ficar na altura dele. — Pareço ser uma mulher comum? Eu sou trans. Nasci num corpo de menino, mas não me reconheço como homem. Foi por esse motivo que me machucaram. E você? Também o machucaram por fugir dos padrões como eu, né?
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  Balançou a cabeça secando as últimas lágrimas com o braço.
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  — Qual seu nome, menino?
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  — Aquiles.
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  — Nome bonito. — Notou que estava indo pelo caminho certo quando recebeu um sorriso pelo elogio. — Me chamo Lívia. Que tal você vir tomar o seu café da manhã? A comida está bem gostosa.
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  Lívia saiu do quarto quase sessenta minutos depois. Se encaminhou para a cozinha, onde Candelária a aguardava.
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  — O que descobriu? Não passou esse tempo todo lá dentro à toa.
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  — Não espere uma história bonitinha, não. — Pôs a bandeja com os talheres, copos e os demais utensílios na pia, já começando a lavá-los.
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  — É ruim assim?
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  — Pior. Em resumo, é gay e o pai tradicional. Tenho horror dessa combinação. Ela é desastrosa. Enfim. O pai não o aceitava e viveu um inferno dentro de casa. Nesse meio tempo se apaixonou por um colega de escola. Um dia, quando o pai chegou em casa, se deparou com ambos transando. Não sei como não teve morte. O espancou até não aguentar mais e o abandonou na sarjeta a própria sorte há uns anos.
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  — Coitado desse menino... Quantos anos ele tinha quando essa tragédia aconteceu?
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  — 15. Desde então vive nas ruas. Hoje está com quase 21. O que vai fazer com ele?
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  Após um instante onde só podia ouvir o burburinho das mulheres do bar e Lívia lavando a louça, disse numa expressão séria e mexendo no conjunto de colares:
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  — Deixa eu pensar primeiro. Preciso pensar.
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  Candelária passou as horas seguintes observando Aquiles. Conseguiu roupas emprestadas com Lívia, então o garoto usava um short jeans, uma camisa branca sem mangas amarrada na cintura que Lívia precisou insistir sete vezes que ele poderia amarrá-la até porque a própria só usava a camisa assim e chinelos.
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  Obviamente estava traumatizado. Fiscalizava com os olhos o lugar inteiro enquanto conversava com as funcionárias. Se alguém chegasse por trás não era pego desprevenido. Se virava rapidamente, como se intuísse a aproximação. Pedia mais desculpas do que a dona do Night Club o pedia no decorrer de cinco meses.
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  Sentada na cadeira do balcão, não se surpreendeu ao ouvir a voz de Zeca:
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  — Conheço bem esse olhar. — Estendeu um copo de água pra ela. — Já tomou uma decisão, não é?
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  — Você me conhece bem, meu amigo. — Tomou o líquido transparente. — Podia ter adicionado uísque nessa água.
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  — Está cedo demais pra beber, minha velhinha. — Ele era o único que ela deixava falar assim consigo devido aos mais de trinta anos de amizade e parceria genuínas.
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  — Nunca é cedo demais pra beber, meu velho. — Mordiscou o interior da bochecha batendo as longas unhas no balcão.
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  — A idade deve estar amolecendo esse seu coração de pedra. — Despejou um pouco de vinho no copo vazio para ela tomar. — Não lembro qual foi última vez que foi gentil.
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  — Foi no verão de 1998. O pior ano da minha vida. — Tomou a bebida com certo rancor devido a lembrança.
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  — Como o trouxe pra cá?
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  — O encontrei ontem na rua. Estava encurralado por seis homens. Sabe-se Deus o que iriam fazer com o garoto. Prefiro nem pensar no que poderia ter acontecido caso não tivesse ouvido os choramingos, mas é difícil não imaginar. Já tenho maldade o suficiente pra saber que, no mínimo, pararia no hospital se tivesse sorte. Sei bem o quão cruel esse mundo é. Bem, como não tinha para onde ir, o trouxe comigo.
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  — Família?
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  — Desde quando um pai que não aceita o filho de 15 anos por ser gay e o larga de noite no meio da rua e bem longe de casa para ele não voltar sem dinheiro e documentos após espanca-lo pode ser considerado família?
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  — Pobrezinho.
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  — Assim como você disse. A idade está deixando o meu coração molenga demais.
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  — Até porque o peso na consciência de deixar a sua filha pra sua irmã cuidar não tem nada a ver com isso, né?
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  Não hesitou em apertar a orelha do amigo. Não ao ponto de machucá-lo, mas o suficiente para gerar incômodo.
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  — Você fala demais! O que queria que eu fizesse? Desse uma subvida pra menina? Eu mal tinha como comer! Pelo menos com a Lupi está tendo do bom e do melhor. E Luciana acha que é filha da minha irmã, então não precisa conviver com o estigma de ter como mãe uma prostituta que, devido ao trabalho, não faz ideia de quem seja o pai. Não faço nenhuma falta. — Zeca até acreditaria se a voz não fosse carregada de um amargo ressentimento. — Mas... Fiquei com dó dele.
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  — E peso na consciência por não procurar notícias da menina — insistiu, semicerrando os olhos.
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  — Um pouco. Bem pouco. Foi melhor assim.
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  Quando começava a anoitecer, perto do horário da boate abrir, Aquiles desceu as escadas e se dirigiu a Candelária, quem estava no bar conversando acompanhada do cozinheiro. Trajava as roupas do dia anterior já lavadas.
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  — Oi! — esfregava as mãos em sinal de nervosismo.
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  — Almoçou?
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  — Sim. Estava muito bom.
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  O encarou por um momento.
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  — Desembucha, menino. O que veio falar comigo?
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  — Eu vim agradecer. Há muito tempo não passo um dia assim tão bom.
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  — E... — o pressionou. Era óbvio que havia algo mais.
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  — Me despedir. Não quero ser um peso pra vocês. — De súbito enfiou as mãos nos bolsos e os puxou. — Pode ver, não estou roubando nada. Obrigado e... Tchau.
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  Quando passou por ela, a voz de Candelária o fez parar:
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  — E pra onde vai, meu filho?
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  Se virou para a loira tentando demonstrar altivez de pensamento.
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  — Ah... Por aí. Eu dou meu jeito. Se preocupa, não.
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  — Aquiles, vem pra cá. — Zeca colocou o pano de prato no ombro e retirou um bolo de cartas do bolso. — Há muito tempo não faço consulta, mas... É por uma boa causa.
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  — O que é isso?
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  — Ele joga cartas, meu filho. Foi graças a Zeca que abri essa boate — contou orgulhosa encarando o amigo com um raro olhar carinhoso.
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  Embaralhando as lâminas o homem explicou:
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  — O jogo vai ser simples. Vou tirar seis cartas ao todo. No lado direito três e no esquerdo o restante. No primeiro vai corresponder a seguinte pergunta: Voltar pra rua será bom pra você? O outro Candelária já sabe qual é. Lembrando, a decisão é sua, garoto. Aqui só aparece a maior probabilidade do que pode acontecer futuramente de acordo com o que o consulente, no caso você, decidir.
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  Assim o fez.
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  — Ave Maria! Ratos, Chicote e Caixão. Só carta ruim! — comentou ao virar as três cartas que indicariam como seria caso escolhesse retornar pra rua. — Caminhos, Peixes, Coração... — Se abaixou para pegar uma que pulara enquanto embaralhava as cartas. — Caiu, então vou considerar. Árvore. — Crispou os lábios e escolheu outra carta de forma avulsa. — Aliança. Deixa eu confirmar uma coisa... — Virou o Baralho Cigano, revelando as duas últimas lâminas. — Buquê. Casa. Olha... Saiu mais uma informação aqui. Você não veio a esse mundo pra ser solteiro, não. Tem um homem pra chegar nos seus caminhos caso tenha um pingo de juízo nessa cabecinha e saiba escolher direito o que é melhor pra sua vida. Esse homem é mais velho e está bem longe de ser feio. Vai chamar muito a sua atenção e vice e versa. Só será necessário ter paciência porque o bichinho é complicado. Parece ter algum medo que o trava, mas o jogo não mostrou qual medo é esse. Até porque nunca se apaixonou antes, então ficará bem confuso. Voltando ao que interessa pra você, Candelária... — Trocou um olhar cúmplice com a amiga. — É seguro fazer a proposta. Isso daqui vai ser bom a médio e longo prazo pra ambos os lados. Ou melhor, três lados, porque homem aqui que vai chegar ainda vai ser ajudado pelo Aquiles. Anota isso, garoto. Pode até demorar, mas esse homem vai aparecer na sua vida.
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  Embora tenha gostado de ouvir a previsão, não acreditou nela. Já havia passado por um longo período de tristeza e preferia não se agarrar a esperança de algo bom acontecer e acabar se frustrando.
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  Mal sabia que a previsão fosse se tornar realidade anos mais tarde.
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  — Qual proposta?
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  — Menino, preciso falar contigo. — Se virou pra Aquiles. — Só esperei Zeca abrir as cartas pra eu descobrir se seria uma boa ideia ou não o que tenho pra resolver contigo. A proposta é a seguinte. Eu deixo você ficar aqui. Vai ter roupa, comida, moradia e um quarto seu. O acolho sem problema nenhum, mas sou velha demais. Já vi coisa demais nesse mundo. Já estendi a mão antes pra uma cobra que me deu o bote em questão de semanas. Quase morri por ser boazinha e jurei pra mim mesma não voltar a cometer esse erro. Como aprendi minha lição, a sua estadia não será de graça. Vai trabalhar como garçom. Zeca e eu podemos ensina-lo, mas não pense que será simples. Ao menor sinal de que é ou se tornou uma víbora bem da venenosa, o expulso daqui na base da vassoura e se ousar me trair, meu amigo vai te jogar uma mandinga braba e você vai se arrepender amargamente em cogitar me apunhalar pelas costas. Estamos entendidos?
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  Augusto não podia imaginar que uma pessoa tão cheia de alegria e divertida pudesse carregar um passado tão infeliz. Ouvia as palavras sentindo total piedade pela sua formosura. Definitivamente não merecia ter passado por tantas privações e violência.
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  Ele era um homem bruto e violento quando necessário porque foi moldado dessa forma pela sociedade mais pobre de Pedaço do Céu. Aquiles? Não desenvolveu esse lado, até porque não lhe era exigido. Não havia formas para se defender — até porque seu temperamento mais complacente não o permitia recorrer às agressões físicas.
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  Ouvia as palavras sem indagar. Oferecia apoio emocional e um ombro pra chorar — literalmente, já que o rapaz havia se aconchegado em seu ombro, onde soluçava baixinho o abraçando.
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  — Ô, formosura... — Distribuía beijos nos cabelos e o apertava mais contra seu corpo, transmitindo sensação de proteção. — Perdoa eu por ter perguntado isso. Eu não gosto de te ver triste, não. Eu sô um burro, mesmo. Ocê não merece chorar, não.
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  — Não. — Se separou dele secando o rosto, mostrando a face molhada e os olhos avermelhados. — Você não é burro. Eu só te contei porque você se abriu pra mim. Eu não ia ficar calado, já que confiou em mim ao ponto de me revelar o seu passado. Seria injusto e não gosto do que não é recíproco. Está sendo muito bom pra mim sendo tão cuidadoso comigo desse jeito e nos permitindo ter essa noite maravilhosa. E isso me deixa contente.
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  — Verdade? — perguntou desconfiado.
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  — Sim — assegurou. — Está sendo ótimo ficar assim contigo. Só fiquei mais sensível porque é um assunto que não gosto de tocar. Prefiro deixar o passado no passado. Por isso também decidi nunca mais me esconder.
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  — Como assim?
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  — O meu pai vivia me julgando por ter um jeito mais afeminado. Tinha que policiar meu tom de voz, o meu andar, como me mexia, como me comportava... Passei a vida inteira evitando demonstrar isso, mesmo quando estava na rua. E é muito cansativo. Machuca aqui. — Espalmou a mão no lado esquerdo do peito do peão. — E aqui também. — Tocou-lhe a testa com o mindinho. — Quando aqueles homens me perseguiram foi porque perceberam que sou gay. Aí desisti de tentar me adequar aos padrões. Não adiantava de nada me esconder se a minha essência é mais feminina. Eu gosto de usar short curto, eu gosto de passar delineador, eu gosto de colocar salto pra ir numa festa mais formal e ando rebolando porque faz parte de quem sou. O Aquiles é assim e dane-se quem não gostar. Tenho completo direito de ser quem sou. Por isso não admito voltar a fingir ser uma coisa que não sou.
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  Graças a esse discurso Augusto constatou o quanto Aquiles era corajoso. Tiveram criações totalmente opostas onde um teve o prazer, por exemplo, de frequentar a escola e comemorar o aniversário em festas e o outro não teve acesso a nada disso. Entretanto, o capataz não achava correto ferir ou prejudicar alguém devido ao seu modo de vida — desde que não causasse dano a alguém. Ele podia até achar que relações homossexuais eram erradas devido ao que era pregado pelos homens de Pedaço do Céu, entretanto não concordava em desmerecer ou podar alguém só por não agir de acordo com o que era exigido pela sociedade.
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  Talvez Aquiles fosse mais valente até do que o peão. Mais tarde Augusto chegaria a essa conclusão. Diferente do mais velho, estava em paz consigo mesmo ao seguir pela vida sem negar a si, sentimentos, vontades e desejos. Augusto precisava usar da violência e, dependendo da ocasião, de uma arma — apesar de, no começo, não querer manuseá-la e ser obrigado a fazer o serviço sujo de Osmar. O garçom? Usava somente de sua inteligência e astúcia. Porventura, esse era o segredo para estar em harmonia com a vida: estar em paz consigo — e faltava justamente esse detalhe no peão.
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  — Cê é bem corajoso — comentou admirado enquanto deitava na cama e o rapaz se acomodava no peitoral. — Né fácil viver assim desse jeito bonito que ocê falou, não. — Começou as carícias pelas costas. Naquela noite descobriu o quanto gostava de sentir a textura da pele macia. — Precisa ser muito macho pra se opor assim.
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  — Glória! — Se não estivessem num lugar onde exigia privacidade, sem dúvidas Aquiles teria berrado. — Finalmente! Viu como o conceito de macheza não se resume a brutalidade? Eu sou macho por ter culhão em ser quem sou! — Ajoelhou na cama e uniu as mãos olhando para o teto. — Obrigado, pai santíssimo, por atender aos meus clamores — agradecia em tom cômico enquanto o outro se divertia com a cena. — O senhor, pai, vê o quanto eu me esforço para exercer a paciência que o senhor nos pediu graças a este homem! — Apontou o dedo em direção a Augusto, que já dava roucas risadas. — Podia ter sido antes, já que estávamos num chove e não molha desgraçado não é de hoje? Podia, mas o senhor é o conhecedor de todos os mistérios mais misteriosos dessa vida e eu entendo os seus planos. Ouvi um amém, irmãos? Um aleluia? — Colocou uma mão no peito e estendeu o outro braço para cima enquanto o balançava ao som do coro de "amém" e "aleluia" reproduzido por Augusto.
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  O trabalhador dos Navarro sentou na cama e esfregou o rosto na barriga.
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  — Só ocê pra me fazer rir. — Apoiou o queixo no abdômen definido o encarando com olhos carinhosos.
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  — E só assim pra eu ficar maior que você, né? — comentou bem humorado fazendo cafuné nos cabelos.
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  — O rapaz mais lindo que já vi.
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  As palavras foram ditas com tamanha devoção que foi impossível não se inclinar para beijá-lo ternamente.
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  — Meu malvado favorito — sussurrou quando os lábios se separaram.
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  — Me responde uma coisa...
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  — Ih... — Voltou a se acomodar no tronco dele. — Estou começando a me preocupar quando você me pergunta isso.
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  — Perdoa eu por voltar no assunto, mas é que lembrei de uma coisa aqui e não sei se tem a ver. Quantos eram te seguindo naquela noite, mesmo?
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  — Eram uns cinco.
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  O capataz olhava para o lado, como se estivesse absorto em alguma lembrança.
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  — Aquela véia ruim desceu bala neles, né?
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  — Sim.
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  — E pegou?
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  — Pegou. — Deitou a cabeça no peitoral, sentindo as batidas do coração. — Por que tantas perguntas sobre isso?
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  — É que há uns ano o patrão chamou a peãozada pra dar cabo nuns homi a pedido da Candelária. Quando os encontramos cada um tinha uma ferida de bala. No início a ordem era só pra dar um sacode bão neles, mas o patrão investigou mais e descobriu que eram envolvidos com coisa errada das brabas. Quando o detetive que ele contratou descobriu as coisas ruins tudo que eles fazia, o patrão mudou de ideia e achou que seria... Como diz... Misericordioso matar eles.
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  — E o que houve?
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  — Oia... Não vou entrar em detalhes porque tenho medo de ocê num gostar... Digamos que eles não podem mais fazer nenhuma das mardades, não... Até porque é difícil prejudicar alguém entrevado em cima da cama, né?
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  — Ah, felicidade! — Abriu um sorriso largo erguendo a cabeça. — Bem feito! Mereceram! — Bateu a mão no colchão em comemoração. — Bem feito! Não costumo gostar dessas coisas, não, mas nesse caso adorei, sim! Tenho pena de gente ruim, não. Só me arrependo de você não ter me falado antes pra eu comprar uma roupa novinha e assistir tudo de camarote comendo minha pipoquinha na felicidade!
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  — Como eu ia dar com a língua nos dentes? A gente ainda não se conhecia. Se não teria contado antes.
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  — Quer saber? — Segurou as grandes mãos ao lado do corpo do peão entrelaçando os dedos. — Foi bom saber disso. Curiosamente acabou participando da minha vida de maneira indireta. Gostei.
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  — Só lembrei disso pruque cê contou. Esse trabalho foi encomendado pela antiga dona do bar. O patrão não contou o motivo. Só falou que devia um favor pra ela e ia quitar uma dívida.
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  — Até hoje me pergunto o rabo preso que os dois tinham um com o outro. Ela sabia de muita coisa desse homem. Certeza!
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  — É... Então depois da véia te abrigar as coisas melhoraram pra ocê, né?
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  Mais uma vez o tom amargurado ao se referir à falecida.
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  — Um pouco.
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  — Como assim? Era pra ter melhorado, né?
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  — Não exatamente. Quando o assunto é ser humano, nada é tão simples.
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  O capataz dos Navarro encostou as costas na cabeceira da cama e Aquiles se ajeitou no homem, encolhendo as pernas e, de costas pra ele, descansou no peitoral. Aceitou de bom grado quando os braços dele o envolveram num abraço acolhedor — um circulando a cintura e o outro o peito, dando apoio a cabeça de fartos cabelos com os bíceps. Dessa forma podia distribuir carinhos e beijá-lo facilmente.
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  — Então... — prosseguiu acariciando o longo braço. — Os dias se passaram e comecei a ter umas crises estranhas. Eu evitava segurar num cabo de vassoura quando nos revezávamos na limpeza do bar. Durante sete dias ajudava o Zeca na cozinha por não querer varrer o lugar. Quando Lívia colocou do nada aquela vassoura na minha mão... Olha, foi desesperador. Tive uma crise horrorosa. Gritava, chorava... Só melhorei quando me levaram ao hospital e me deram calmante na veia. Quando acordei, voltei pro Night Club, mas, no dia seguinte, a dona Candelária foi comigo pra fazer uma consulta com o psiquiatra de lá. Ele me encaminhou pra psicóloga e fui diagnosticado com Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
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  — E que diabo é isso?
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  — É quando após um evento traumático, como o meu e o seu em relação ao seu pai, o corpo começa a desenvolver sintomas referentes ao que sofreu. No meu caso eu tinha dificuldade pra dormir e, quando dormia, acordava desesperado devido aos pesadelos com aqueles homens. Além disso tinha isolamento social, ataques de pânico, estresse agudo, esquecimentos, taquicardia, hiper vigilância, me assustava facilmente e outras coisas. Nossa, foi horrível.
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  — E isso de trauma aí?
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  Acariciando a barba, explicou paciente:
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  — Sabe quando você se machuca e fica uma marca ali?
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  — Sei.
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  — É isso, só que a nível emocional. Quando acontecem coisas bem ruins com a gente, como o que você sofreu com o seu pai e o que eu vivi na rua e também com a praga que me expulsou de casa, isso fica registrado no nosso coração e no nosso cérebro como uma marca. Aí traz uma série de dificuldades pra nossa vida porque precisa ser curado primeiro pra nos libertarmos. Eu diria que é até por causa disso que você não se permitiu ficar assim comigo antes. Embora queira e dê todos os indícios que deseja isso há um bom tempo, sempre evitou ter esse contato mais íntimo comigo.
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  O conhecimento limitado do capataz incomodava Aquiles. Não no sentido de ser impaciente ou se irritar com a ignorância voltada para o não saber, mas sim porque tinha a consciência de que, caso Augusto tivesse tido acesso à educação, a vida dele sem dúvida seria completamente diferente. Além disso, sem dúvida não haveria tanta resistência para se entregar pro homem que amava. As coisas entre eles seriam mais rápidas, sem ser necessário se esconderem no começo. Não haveria medo de julgamentos, críticas ou represálias — pelo menos, não tanto pavor.
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  Era inegável que seria até mais feliz caso o capataz dos Navarro não tivesse a mente tão restrita sobre temas atuais como a sexualidade. Não era fácil amar esse homem, embora estivesse certo de que esse sentimento era recíproco e já criara raízes nos corações de ambos. Aguardar pelo tempo do jagunço e se contentar aos avanços lentíssimos era uma tortura lastimosa. Quantas vezes a mão coçou para segurar a dele? Quantas vezes precisou se contentar com as discretas e leves carícias na bochecha quando, na verdade, ansiava por beijos, abraços e intimidade — coisas concretas, não voltadas apenas para a atmosfera ao redor dos dois. Afinal, eram adultos. Adultos podiam beijar, abraçar, transar e se relacionar com outros adultos caso os dois desejassem sem se importarem com comentários alheios.
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  Ter a paciência de aguardar o processo de descoberta — que até então andava aos trancos e barrancos — e aceitação dos sentimentos — esse daí não parecia se resolver assim tão cedo — de uma pessoa que sequer aparentava conseguir dar passos largos quanto a sua evolução e desenvolvimento pessoal era excruciante. Inclusive, tentava trazer humor e risos para a relação com o objetivo de ter mais interação entre ambos e também porque, ao conhecer um pouco mais do modelo de mundo de Augusto, era óbvio que não havia ali espaço para o divertimento. Era tudo muito sério e com uma carga mais densa por ser envolvido com atos criminosos. Então... Sim, era exaustivo. Trazia peso e mais de uma vez foi consolado por Lívia quando a frustração foi tão grande ao ponto de chorar.
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  As feições do capataz tornaram-se inseguras à medida que as palavras saíam da boca de Aquiles. Imaginou se fizera algo desde quando se conheceram que o fez sofrer. Sabia que a conversa que tiveram antes do cantor aceitar ir para cidade onde lhe propôs entrarem num relacionamento como última esperança do homem se aceitar não foi fácil. Porém... Naquela noite também fora magoado pela sua limitação. Indagou-se se, de alguma forma, mesmo que indiretamente, tenha causado dor emocional em seu Aquiles, mesmo que não fosse a intenção.
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  Se deu conta de que Augusto estava absorto nos próprios pensamentos porque olhava para além dele sem necessariamente focar a atenção em algo. Gentilmente, virou o rosto dele para si, o encarando com olhos amáveis.
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  — Me conta. O que está passando por essa cabecinha?
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  — Minha formosura... — inquiriu, demonstrando insegurança — em algum momento eu fiz mal pra ocê?
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  Franziu o cenho em sinal de confusão.
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  — Como assim? — Pestanejou.
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  — É qui eu sou meio bruto. Não tenho esse jeitinho fofo seu. Aí fiquei preocupado se fiz alguma coisa que te entristeceu sem eu notar.
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  — Sendo sincero?
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  — Sim.
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  — Bem... — Em tom ameno procurou escolher bem as palavras para não o afetar. — Eu queria ter vivido contigo uma noite como a de hoje antes. Adoraria poder te beijar, abraçar e segurar a sua mão, mas compreendo que você não está completamente preparado. Enxergo os avanços e eles me deixam felizes porque já aconteceu de a pessoa ter vergonha da minha companhia. Você nunca se envergonhou de mim. Ficava preocupado com a opinião alheia, nada além. É isso.
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  Augusto lhe deu selinhos numa tentativa de consolá-lo de alguma maneira.
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  — Desculpa — murmurou contra os lábios avermelhados.
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  — Está tudo bem. Já passou.
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  O pesar demorou para sair da face de Augusto.
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  — Por fim... — Aproveitou a proximidade para deslizar os dedos pelo rosto do jagunço. — Comecei o tratamento com a psicóloga e o psiquiatra. Foram quase três anos indo toda terça-feira de tarde pro consultório, mas recebi alta.
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  — Isso de psicóloga não é pra quem é meio zureta das ideia, não?
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  A frase foi dita com tamanha inocência que o fez rir.
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  — Não, amor. Psicóloga ajuda quem passa por sofrimentos e angústias. Mais uma vez, como o que aconteceu com nós dois. Sabe, eu acho que seria benéfico pra você fazer terapia. Tem muita coisa guardada que precisa ser externada com urgência. Eu posso até te ajudar, mas até determinado ponto. Passando disso o ideal seria buscar uma profissional qualificada e que estudou pra entender a mente humana.
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  — Como é isso de... Psi... Eu num quero ninguém concatenando minhas ideia, não.
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  — Psicóloga.
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  — Fala devagar pra eu entender mió.
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  — Pi-si-có-lo-ga — soletrou se atentando à fonética das palavras.
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  — Psicóloga. É isso?
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  — É.
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  O sorriso de orgulho em falar corretamente foi o mesmo de uma criança recebendo um belo presente. Havia um toque de inocência nas feições.
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  — Como é isso de psicóloga?
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  — Então... Você vai lá e conversa com ela. Conta sobre a sua vida, os seus medos, as suas dificuldades, sofrimentos... Por ser uma profissional estudada, tem respaldo pra auxiliar a pessoa, no caso você, a se resolver melhor consigo. Não vai fazer nenhum milagre porque isso é impossível, mas é capaz de te ajudar a se curar de tudo isso que passou na sua infância.
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  — Eu preciso falar dos serviços que o patrão me manda fazer?
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  — Pode mencionar a forma como o Osmar te trata, mas não é necessário entrar nesse assunto do serviço sujo que te manda fazer. — Tapou a boca ao bocejar.
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  — Está com sono, né? — Beijou-lhe a ponta do nariz. — Não é de agora que seu olho está piscando mais que o normal.
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  — Sim, mas não queria dormir. Quero continuar aproveitando cada minuto dessa noite contigo.
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  — Nem eu quero dormi. É muito bom por demais ficar agarradinho assim com ocê. — O apertou contra si de leve.
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  Após se observarem em silêncio enquanto Aquiles afagava o braço musculoso, o garçom indagou:
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  — É a primeira vez que se sente assim, né?
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  — Assim como?
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  — Amado.
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  A cara de espanto com uma ponta de tristeza acompanhada pelo silêncio foram respostas suficientes. Augusto não estava acostumado a ser respeitado pelo patrão, quiçá amado. Não sabia o que era aquilo há muito tempo — mais especificamente desde quando a mãe foi morar em outra cidade. Nem teve a oportunidade antes de permitir se apaixonar. Se preocupou a vida inteira em sobreviver — ganhar seu dinheiro para ter moradia, alimentação e enviar uma parte do salário para a mãe. Era uma descoberta de enorme a intensidade e a importância de tudo o que estava vivendo com Aquiles.
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  Continuaram acordados até o horário que conseguiram. Passaram o restante do tempo de maneira mais leve, sem o passado ser citado ou sem aprofundar a conversa no âmbito dos sentimentos. Apenas fizeram valer aqueles restantes minutos se beijando, trocando olhares cúmplices, amando e explorando o corpo um do outro.
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  Às três e meia da manhã decidiram que o melhor era dormir apenas porque já não aguentavam manter os olhos abertos. Aconchegado no corpo de Augusto, Aquiles dormiu de conchinha pela primeira vez com um homem que realmente o amava. Adoraria que aquela noite não fosse a única, mas sim a primeira de muitas que viriam a seguir. Augusto prometeu aproveitar aquela única noite para se entregar aos seus desejos e sentimentos. Esperava que essa decisão lhe mostrasse tudo aquilo que estava se negando há tanto tempo.
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  Antes de adormecer desfrutando da pele nua do homem amado contra a sua, se indagou em como seriam os próximos acontecimentos — e torcia para aquilo ser o impulsionamento que Augusto precisava para abandonar as crenças limitantes e, enfim, se entregar por completo ao amor que sentia por Aquiles.
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Lelen

Ai que horror o que esses dois tiveram que passar ao longo da vida D:
Mas se encontraram. Que eles possam ter o final feliz que merecem 😭

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