Na Hora Certa


Escrita porNyx
Editada por Lelen


PRÓLOGO

  POV %Isla%

  Meu pai sempre dizia que o cheiro da graxa era melhor do que qualquer perfume. Na época, eu achava nojento, mas hoje, acho poético. Porque naquela noite abafada de garagem, entre o ronco engasgado de um motor velho e o som metálico das ferramentas, eu finalmente entendi o que ele queria dizer.
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  Estava sentada no chão frio, com a coluna apoiada contra a lataria enferrujada de um carro que já tinha visto dias melhores — assim como eu. A barriga enorme me impedia de ver os próprios pés, mas não de sentir os chutes leves que vinham de dentro. Como se aquele bebê também quisesse dizer: “a gente tá junto nessa bagunça, mamãe.”
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  As mãos estavam imundas. As unhas, encardidas. E o coração…? Desmontado.
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  — Esse eixo não vai alinhar sozinho, %Isla% — meu pai murmurou, com a cabeça enfiada dentro do capô, como sempre fazia quando queria adiar uma conversa difícil.
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  — E esse bebê também não vai esperar o motor pegar, né? — rebati, com um sorriso cansado que tentava disfarçar a angústia.
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  Ele não respondeu. Só continuou mexendo em silêncio, como se cada parafuso apertado fosse uma forma de evitar as palavras que realmente importavam.
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  A verdade é que eu deveria estar em casa, com as pernas pra cima, assistindo reprise de corrida na TV e comendo chocolate direto do pacote, mas a oficina era o único lugar onde eu ainda me sentia… eu. Antes das fraldas, antes das consultas, antes do mundo tentar me convencer que meus sonhos tinham prazo de validade.
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  — Eu podia ter ido mais longe, sabe? — soltei, porque o silêncio dele já estava me machucando. — Se não tivesse me apaixonado por alguém que só tinha beleza e charme. Se não tivesse engravidado. Se não tivesse acreditado que amor bastava.
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  Meu pai largou a chave inglesa com cuidado, mas não como quem termina um serviço e sim como quem se prepara para escutar.
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  — Você ainda vai, filha. Talvez não do jeito que imaginou, mas vai.
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  Fechei os olhos.
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  Quis acreditar. Mesmo com os olhos queimando. Mesmo com o mundo inteiro pronto pra rir de uma “mãe solteira” com graxa na mão e um diploma de engenharia ainda no papel.
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  Mas então ele se ajoelhou ao meu lado, limpou a mão na camiseta manchada e encostou a testa na minha. Como fazia quando eu era criança e chorava por causa de um corte no joelho.
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  — Esse menino vai crescer ouvindo o ronco de motor como canção de ninar — sussurrou. — E vai ter orgulho de você, o mesmo que eu tenho agora.
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  Ali, entre peças soltas, promessas sussurradas e amor bruto de pai, alguma coisa se encaixou em mim, talvez não o eixo do carro, mas o meu.
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  Eu não ia desistir. Nem por ele, nem por mim e nem pelo bebê que já parecia pisar no acelerador de dentro do meu ventre.
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  Eu ia correr, mesmo que ninguém me deixasse entrar na pista.
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