Na Hora Certa


Escrita porNyx
Editada por Lelen


CAPÍTULO 05 • Nenhuma Peça Fora do Lugar

  POV %Isla% %Torres%

  A segunda-feira trouxe sol.
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  O tipo de sol raro, delicado, que parece pedir silêncio, como se até o céu tivesse entendido que era folga.
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  Estávamos sentados num banco de praça em Maranello. Eu com um sorvete de limão que derretia mais rápido do que dava tempo de saborear. %Liam% com um de chocolate, metade na boca, metade espalhado pela bochecha e pelo nariz.
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  — Mamá, se eu colocar um foguete aqui atrás... — ele levantou o carrinho vermelho, sério como um engenheiro em formação — ...ele vai mais rápido que o carro do Leclerc?
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  Suspirei com um sorrisinho, limpando o chocolate do rosto dele com um guardanapo já encharcado de chocolate.
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  — Vai sim. Direto pro banco de penalidades da FIA.
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  Ele gargalhou como se eu fosse a pessoa mais engraçada do planeta, talvez eu fosse, pra ele, era suficiente.
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  %Liam% se jogou no gramado logo em seguida, fazendo o carrinho descer por uma rampa improvisada entre dois bancos. Era estranho e bonito vê-lo assim: livre.
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  Num mundo que não cobrava, que não media, que não comparava.
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  Eu também estava estranhamente... leve. Sem o macacão, sem dados para revisar, sem vozes no rádio. Vestia uma camiseta folgada, tênis, óculos escuros e aquele sentimento raro de que, por um dia, a vida podia andar devagar.
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  — Mamá! — ele gritou de longe. — Vem brincar comigo!
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  — Agora?
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  — Sim! Você nunca brinca no dia da corrida!
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  Me levantei com uma risada e corri até ele, ignorando o tênis sujo e a calça manchando na grama. Ele me entregou o carrinho com solenidade.
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  — Você vai ser o carro azul. Mas ele tá com defeito, então não vale usar turbo sem avisar.
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  — Entendido, engenheiro-chefe.
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  Nos deitamos de bruços lado a lado, correndo com os carrinhos por cima da grama, desviando de folhas secas como se fossem obstáculos de pista, soltando um “vruuum!” aqui e ali só para rir um do outro. %Liam% narrava a corrida com sotaque de rádio:
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  — E %Isla% %Torres% ultrapassa todo mundo e... voa!
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  — Cuidado com a asa traseira! — gritei, fingindo um acidente dramático.
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  — Mamá, você é muito dramática!
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  — E você é muito rápido!
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  Ele se jogou em cima de mim, rindo, e eu o segurei no ar, como fazia quando ele era menor. Já estava pesado, já cansava. Mas o riso dele… O riso dele fazia qualquer peso valer.
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  Eu ainda ria, deitada na grama, quando senti aquele silêncio estranho se instalar em volta. Não o silêncio natural — o silêncio de gente que não pertencia ao momento.
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  Levantei o olhar. Saltos baixos, vestido claro, maquiagem impecável. O tipo de mulher que parecia sair de catálogo e nunca de casa sem ensaiar o olhar. Ela me avaliou como quem examinava uma peça de roupa fora do cabide.
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  — Que cena… adorável — disse, se aproximando. O sorriso era doce, mas os olhos não. — E essa belezinha aqui é...?
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  — %Liam% — ele respondeu antes de mim, erguendo o carrinho. — Eu sou o filho da %Isla%.
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  Ela arqueou as sobrancelhas, agachando-se só o suficiente para parecer delicada.
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  — Filho da %Isla%… — repetiu, como se estivesse testando o som da frase. — Que fofo. Eu sou a Alix. Namorada do Charles.
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  Ah.
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  Então era ela.
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  Segurei o carrinho junto com o %Liam% e estendi a mão, mantendo o sorriso entre os dentes.
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  — %Isla%. Responsável pelo carro dele.
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  — E também pela companhia fora das pistas, imagino — retrucou, como quem lançava anzol para ver se fisgava.
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  — Só pelo que diz respeito ao carro — devolvi, firme.
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  Ela não pareceu satisfeita com a resposta.
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  — Vocês estavam se divertindo? — perguntou, o olhar varrendo a grama como se buscasse defeitos invisíveis.
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  — Um pouco. Minha primeira corrida com vitória no fim de semana. Achei que merecia comemorar fora do box pela primeira vez.
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  — Claro. Família é tudo, né? — disse, baixando o olhar para %Liam%. — Mas deve ser difícil conciliar filho, viagens, trabalho em um ambiente tão… masculino.
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  — Eu chamo isso de especialização. E ele chama de “ver mamãe consertar foguetes”.
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  %Liam% assentiu com a seriedade de quem carregava um crachá imaginário.
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  — Mamá é muito boa com o carro do gritalhão. — Ela forçou um riso.
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  — Imagino. E o pai dele? Também trabalha com carros? Ou você é… casada?
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  Respirei fundo, pronta para responder, mas %Liam% foi mais rápido:
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  — Mi papá vem me ver de vez em quando. Mas ele não gosta muito de Fórmula 1. Ele gosta de tirar foto para postar depois.
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  Engasguei com o ar. O sorriso da Alix vacilou por um segundo antes de se recompor.
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  — Interessante... — murmurou, como quem saboreava o gosto do veneno.
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  — O que é interessante, Alix — rebati, cada sílaba afiada — é como algumas perguntas parecem preocupação, mas carregam mais julgamento do que empatia.
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  O silêncio que se seguiu foi denso, incômodo.
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  Ela ajeitou a alça do vestido no ombro, recobrando a pose.
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  — Bem, aproveitem o dia. Só quis cumprimentar. — O sorriso dela foi mais afiado que gentil. — O Charles é importante demais para andar mal acompanhado.
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  Virou-se e se afastou com passos firmes, como quem saía de cena antes que o aplauso acabasse.
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  Fiquei ali. Na grama, com meu filho, o carrinho e a sensação de que, mais uma vez, não era a %Isla% quem estava fora do lugar.
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  Depois que Alix desapareceu da praça, %Liam% voltou pra corrida como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo ainda fosse simples, e gente estranha fosse só figurante na brincadeira.
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  — Mamá, vamos brincar mais uma vez? Última volta, prometo.
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  — Última volta de agora ou última volta tipo “corrida com bandeira vermelha”? — perguntei, me jogando de novo na grama.
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  — Última de verdade. Juro.
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  Corremos mais uma vez com os carrinhos. Ele narrando como se fosse um comentarista profissional:
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  — %Isla% %Torres% toma a frente com o foguete azul! %Liam% na cola! Quem vai ganhar?!
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  — Quem vai dormir depois do almoço, isso sim — retruquei, tentando recuperar o fôlego.
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  Ele se jogou no meu colo, rindo alto. E ali, com a cabeça dele encostada no meu peito e o carrinho ainda nas mãos, eu quis congelar o tempo. Guardar aquilo em algum lugar entre o motor e o coração.
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🏁🛠️

  Mais tarde naquele mesmo dia, depois de correr na praça, rir até doer o estômago e tomar sorvete como se não houvesse amanhã, peguei minhas coisas no box, chamei um táxi até o aeroporto de Bolonha e embarquei no último voo disponível para Barcelona.
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  Duas horas e quarenta minutos de avião. Um cochilo quebrado, uma cabeça cheia de dados ainda rodando em segundo plano, e uma saudade apertada que já começava a pesar antes mesmo do pouso.
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  Cheguei em casa pouco depois das oito da noite. A cidade ainda respirava o fim do dia. As ruas do meu antigo bairro tinham aquele cheiro de padaria misturado com vento salgado do mar. E mesmo depois de tudo — de todas as pistas, boxes e motores — Barcelona ainda me reconhecia. E eu a reconhecia de volta.
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  Assim que toquei a campainha da casa dos meus pais, ouvi os passos apressados.
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  — Olha quem chegou! — veio a voz da minha mãe lá de dentro, quente como sempre.
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  A porta da frente da casa dos meus pais já estava aberta. Como sempre.
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  O cheiro vinha antes do abraço: arroz fresco, carne grelhada, alguma coisa no forno com queijo derretido.
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  Ela apareceu com o avental florido e as mãos cheias de farinha. Lucía %Torres% era baixinha, de cabelo preso num coque frouxo e olhos que enxergavam demais. Me envolveu num abraço forte, daqueles que esmagavam as saudades.
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  — Finalmente! Já tava achando que esse negócio de carro tinha feito você esquecer da gente.
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  — Só dos seus horários, mãe. Nunca da comida — respondi, rindo.
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  Meu pai, Ramón, surgiu logo depois, com as mãos sujas de graxa, o rosto suado e o macacão meio aberto no peito. O mesmo de sempre. Abriu os braços e me apertou com força.
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  — Minha menina voltou. E venceu. Eu vi. Tava com o cronômetro na mão.
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  Vi que o carro não vibrava mais na curva cinco. Você mexeu ali, né?
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  Assenti, rindo.
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  — Mexi. E o piloto ainda tá tentando entender como.
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  %Liam% correu pro avô com o carrinho na mão, e o velho %Torres% se agachou no chão como se fosse um menino também.
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  — Abuelito, eu gritei "vá mamá" bem forte quando começou. Acha que ajudou?
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  — Foi o empurrão da vitória — respondeu ele, sério como se estivesse assinando um contrato.
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  Julián, meu irmão mais novo, apareceu logo em seguida com o mesmo corte de cabelo desalinhado e um moletom do %Liam% em mãos.
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  — Ele largou isso no banco de trás — disse, jogando o moletom em cima do sofá. — Vocês correram da polícia ou da Fórmula 1?
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  — Das duas — respondi. — Mas só uma me paga salário.
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  O almoço foi caótico e perfeito.
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  Panelas no centro da mesa, pratos sendo repostos, %Liam% pedindo “mais batata igual a do tio”, minha mãe se orgulhando da entrevista que tinha visto na TV (“essa menina é minha filha, olha o nome aqui!”), meu pai perguntando de peças, e Julián me dando bronca por não responder as mensagens.
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  — Como estão as coisas com o carro do Leclerc? — meu pai perguntou, depois da terceira garfada.
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  — Intensos — respondi, bebendo água. — Ele grita, eu ignoro. Ele grita de novo, eu ajusto o carro. E agora, ele ganha corrida.
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  — Então ele que te agradeça.
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  — Nem isso ele sabe fazer direito. Mas tudo bem. O carro falou por mim.
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  Minha mãe me serviu mais arroz e disse, do jeito dela:
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  — Vai ter gente que vai olhar pra você com cara feia a vida inteira. Só pra tentar esquecer que você é melhor do que eles.
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  Fiquei em silêncio por um momento. Não porque duvidei, mas porque me lembrei.
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  Depois do almoço, brinquei mais um pouco com %Liam% na sala, ajudei a guardar a louça e preparei a mala com a calma de quem queria adiar. Mas o relógio não adiava por ninguém.
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  Na hora de ir embora, %Liam% sentou na escada com a mochila pequena nas costas e o carrinho vermelho nas mãos.
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  — Você vai viajar de novo? — Ajoelhei na frente dele, segurando as alças da mochila.
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  — Vou. Pro Japão agora.
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  — É muito longe?
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  — É. Mas é só uma semaninha. Segunda-feira que vem eu tô aqui de novo, prometo. — Ele fez bico.
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  — Mas sem foguetão dessa vez? Só você?
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  — Só eu. Você vai ficar com a vovó, o vovô e o tio Julián. E eu vou te ligar todo dia. De manhã, de noite, até se você não quiser.
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  — Eu sempre quero. — Me abraçou com força. E dessa vez, eu apertei ainda mais.
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  — E traz um presente legal. Eu ainda tô pensando o que eu quero…
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  — Vou ver o que posso fazer — sussurrei, com a voz já apertada.
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  Antes de sair, minha mãe me entregou um potinho com pão doce e disse pra eu não esquecer quem me ensinou a desmontar uma embreagem e a aguentar gente grossa.
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  Sorri. Abracei cada um.
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  E quando a porta do carro se fechou atrás de mim, com a mala no porta-malas do aplicativo e o %Liam% acenando da varanda com o carrinho vermelho na mão, eu segurei o choro como quem segurava o volante numa curva molhada.
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  O motorista perguntou se o ar-condicionado estava bom. Assenti com um sorriso vazio. Nem lembro se respondi em voz alta.
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  Encostei a cabeça no vidro da janela e deixei Barcelona passar por mim como se o mundo tivesse diminuído a velocidade só pra me despedir.
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  “Vai doer sempre assim?”, pensei.
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  Talvez.
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  Mas o carro seguiu. O aeroporto me esperava. O Japão também.
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  E lá no fundo, eu sabia:
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  O carro… já sentia minha falta.
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🏁🛠️

  O paddock em Suzuka era organizado demais. Quase desconfortável pra quem cresceu entre bancadas improvisadas e graxa no tênis.
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  Mas ali estava eu, no Japão. Segunda etapa da temporada. Com jet lag nos olhos e relatório técnico na ponta da língua.
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  Já passava das dez da manhã quando finalizei os ajustes no mapeamento O calor era úmido, denso, e o box parecia uma estufa de tensão — do tipo que antecedia tempestade ou largada. Trabalhava em silêncio, com os olhos na suspensão dianteira e a mente lutando para não fugir até Barcelona.
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  — %Torres%.
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  A voz me puxou de volta. Levantei o rosto.
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  Charles.
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  Macacão aberto na cintura, cabelos bagunçados, a expressão menos dura do que de costume.
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  — Oi — respondi, sem largar a peça nas mãos.
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  Ele se apoiou de leve na bancada, como quem não tinha pressa.
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  — Seu filho, o %Liam%… ele é esperto. Acho que gostei dele mais do que ele gostou de mim.
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  Um canto do meu lábio cedeu.
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  — Ele gostou, sim. Só não é muito fã de gritos no rádio.
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  Charles riu, baixo, abafado pelo som metálico do box. E por um segundo, a tensão quase se dissolveu.
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  Quase.
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  Meu bolso vibrou. Uma notificação. Outra. Depois, a tela acendeu em insistência.
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  Caio.
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  Revirei os olhos antes mesmo de atender.
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  — Preciso atender essa — avisei, já me afastando alguns passos, sem esperar resposta.
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  Apertei o verde na tela e levei o celular ao ouvido, a voz contida, calculada:
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  — O que foi agora?
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  — %Isla%, então... sobre o fim de semana. Não vou poder pegar o %Liam% de novo. Surgiu uma viagem a trabalho, e...
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  — Você tá de brincadeira comigo? — interrompi, a voz mais alta do que pretendia.
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  Charles levantou os olhos do chão, atento. Eu me virei de costas, tentando conter o sangue fervendo.
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  — Já é a segunda vez em duas semanas, Caio! Eu atravessei meio planeta com o coração na mão achando que ele estava seguro com você. E agora vem com isso?
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  — Eu disse que ia tentar — ele respondeu, com a velha calma irresponsável de sempre. — Mas talvez no domingo eu consiga passar lá. Uns dias depois, sei lá...
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  Fechei os olhos, respirei fundo e soltei:
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  — Você não tem a menor ideia do que é responsabilidade. Você só aparece quando convém. E quando some, quem segura tudo sou eu. Sempre fui eu. Não me liga mais pra “tentar”, Caio. Me liga quando tiver certeza.
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  Desliguei antes que ele pudesse retrucar.
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  Fiquei ali, respirando fundo, mãos nos quadris, olhos no chão. O ar parecia mais denso de repente. Mais quente.
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  Ou talvez fosse só a vergonha de ter explodido com plateia. Me virei, e Charles ainda estava parado no mesmo lugar. Não disse nada.
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  — Era o pai do %Liam% — soltei, antes que ele pudesse perguntar. — Ele sempre diz que vai buscar, sempre some na última hora, sempre tem uma desculpa pronta. A novidade é nenhuma.
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  Ele assentiu, devagar, respeitando o espaço, mas os olhos diziam mais. Talvez algo entre empatia e... surpresa.
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  — Eu... não sabia que você segurava isso tudo.
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  — Não espero que saiba — respondi, voltando a ajustar a cinta da bancada. — Não conto pra todo mundo. Mas... acho que você viu o suficiente.
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  Charles deu dois passos pra frente, como se fosse dizer algo, mas parou.
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  — Se precisar de ajuda... sei lá. Com o %Liam% aqui ou... sei que não é meu lugar. Só queria dizer que...
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  — Que grita, mas escuta — completei, levantando o olhar pra ele.
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  Ele sorriu, breve. Quase tímido.
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  — Isso aí.
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  Nos encaramos por um instante. Longo o bastante para parecer alguma coisa. Curto o suficiente pra não virar nada.
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  Depois ele saiu.
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  E eu voltei ao trabalho. Com o carro à minha frente, as ferramentas na mão...
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  e uma bagunça emocional tentando não gritar mais alto do que o rádio.
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  O resto do dia me engoliu como só a rotina de paddock sabia fazer. Treinos livres, reunião técnica, atualização dos sensores. O carro número 16 foi desmontado, analisado, reconstruído peça por peça.
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  E eu estava lá. Em cada torque, cada dado, cada ruído que só eu parecia ouvir no meio do barulho.
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  Mesmo com a cabeça em Barcelona, com a voz do Caio ainda ecoando no ouvido, com Charles surgindo e sumindo feito uma dúvida mal resolvida — eu mantinha o foco. Porque isso, ali na minha frente, era o que eu podia controlar.
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  — %Torres% — chamou Matteo no rádio. — Estamos prontos para o teste de pista. Última volta antes da revisão de mapa.
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  — Entendido — respondi, ajeitando os fones e checando os dados no monitor.
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  Do meu ponto de visão, vi Charles se aproximando do carro. Macacão fechado, expressão neutra, mas havia algo diferente na forma como ele olhava o cockpit.
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  Como se agora soubesse que havia mais do que porcas e parafusos por trás daquela máquina.
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  Ele entrou. Fechamos o halo e a pista foi liberada.
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  O rádio chiou:
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  — Leclerc no traçado. Setor um em progresso.
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  Acompanhei os gráficos na tela com os olhos semicerrados. A suspensão traseira estava respondendo com perfeição. A distribuição de peso… equilibrada. Curvas médias? Lisas. Limpas. Rente ao traçado como nunca.
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  A telemetria falava o que ele talvez não dissesse em voz alta.
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  — Setor dois limpo. Estabilidade perfeita.
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  — Torque ideal na curva oito — informou outro engenheiro ao meu lado.
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  Charles soltou, quase casual:
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  — O carro tá… leve. Preciso. Tá bom.
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  Silêncio no box.
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  Depois:
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  — Pode avisar a %Torres%. Ela acertou de novo.
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  Eu não sorri. Só balancei a cabeça, como quem marcava mais um ponto na conta de quem já cansou de provar o próprio valor.
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  — Preparem o carro para o segundo stint — avisei, profissional até a raiz. — E atualizem o mapa da curva onze. Ainda tem margem ali.
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  Mais tarde, enquanto desmontava o setor frontal com as luvas encharcadas de suor, ouvi alguém atrás de mim comentar:
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  — Engraçado como ela não comemora nunca. Nem parece que tá fazendo milagre.
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  Não respondi.
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  Milagre era quando alguém acreditava que você não conseguia — e mesmo assim, você vai lá e faz. Eu não comemoro milagre, só continuo entregando.
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🏁🛠️

  O hotel era silencioso demais.
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  O tipo de silêncio que só aparecia quando o corpo estava exausto, mas a cabeça ainda corria. Fechei o notebook depois de revisar os últimos ajustes. As anotações estavam todas organizadas, os mapas atualizados, o carro... pronto. Pelo menos por fora.
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  Mas por dentro?
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  Sentei na cama com as pernas cruzadas, o cabelo ainda úmido do banho e o celular entre as mãos, já discando no automático.
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  Papai 💛 Chamando...
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  A tela acendeu com o rostinho dele iluminado pelo abajur da casa dos meus pais.
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  — Mamá!
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  — Mi amor.
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  A voz dele era um cobertor quente.
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  — Como foi o dia aí?
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  — Legal. O abuelito me ensinou a usar a chave de fenda. E eu montei um foguete de papel. Mas ele não voou muito... só caiu no pé da abuelita.
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  — Ai, meu Deus. Ela ficou brava?
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  — Não. Só falou "ai, %Liam%". Igual você. — Sorri. Baixinho. Daqueles sorrisos que só ele arrancava de mim.
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  — Agora me diz… você já pensou no que quer de presente?
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  Ele ficou em silêncio por um instante. Um daqueles silêncios cheios de ideias.
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  — Mas não pode ser carro de verdade, né?
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  — Não. Ainda não tenho permissão da FIA para isso.
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  — Então... um robozinho. Daqueles que andam, falam e dançam igual o do vídeo.
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  — Um robozinho?
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  — Com luz no olho! — Ri, cobrindo a boca.
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  — Tá bom. Um robozinho com luz no olho. Vou dar um jeito de encontrar um no Japão.
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  — Você é a melhor mamá do mundo.
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  — E você é o melhor pedacinho dele. — Ficamos alguns segundos em silêncio, só ouvindo a respiração um do outro. — Dorme bem, tá?
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  — Você também. Boa corrida, mamãe.
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  — Te amo até a lua e de volta.
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  — E mais um pouco.
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  Desliguei devagar. Deixei o celular ao lado da cama e encarei o teto do quarto escuro.
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  Amanhã era dia de corrida e o carro estava pronto, eu também, mas do meu jeito. Com tudo o que me faltava… e tudo o que me movia.
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CAPÍTULO 05
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