Na Hora Certa


Escrita porNyx
Editada por Lelen


CAPÍTULO 11 • A Medida Certa

POV %Isla% %Torres%

  O corpo estava cansado antes mesmo de eu atravessar o portão. Não era aquele cansaço simples, de uma noite mal dormida, era o tipo de exaustão que se acumulava nos ombros depois de dias vivendo em fuso errado, barulho constante e decisões rápidas demais. Montreal ainda parecia grudada na minha pele, o cheiro de borracha, o zumbido dos motores, a tensão que não ia embora nem depois que o carro parava.
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  Eu mal tinha terminado de puxar a mala pela calçada quando a porta se abriu antes mesmo de eu pensar.
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  — Mamá!
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  O impacto veio antes do som terminar. %Liam% atravessou o pequeno caminho correndo, os pés desajeitados batendo contra o chão com aquela pressa descoordenada que só criança tem, e se jogou em mim com força suficiente pra fazer o resto do mundo desaparecer por um segundo inteiro.
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  Eu nem pensei.
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  Só abaixei, largando a mala de qualquer jeito, e o abracei de volta como se estivesse tentando compensar todos os dias que eu não estive ali.
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  — Ei… — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava, quase falhando no meio do caminho. — Eu senti sua falta.
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  Ele se encolheu contra mim como se aquilo fosse resposta suficiente. O cheiro dele me atingiu primeiro. Shampoo infantil, sabonete neutro, alguma coisa doce que eu nunca conseguia identificar direito. Familiar. Seguro. Meu.
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  Eu fechei os olhos por um instante, pressionando o rosto contra o cabelo dele, sentindo o peso pequeno no meu colo como se fosse a única coisa sólida depois de dias vivendo no automático.
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  — Ele perguntou de você todos os dias — minha mãe disse, parada na porta com um sorriso que misturava alívio e aquele tipo de carinho silencioso que não precisava de muita explicação.
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  Eu levantei o olhar, ainda com %Liam% preso em mim, e sorri de volta, sem conseguir responder nada imediatamente.
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  — Eu sabia que você vinha hoje, mas alguém aqui achou que você ia aparecer ontem também — ela continuou, inclinando a cabeça na direção dele.
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  — Eu achei mesmo — %Liam% respondeu, sem nem se afastar, como se aquilo fosse uma acusação séria.
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  — Foi quase — eu murmurei, ajeitando-o melhor no colo enquanto me levantava devagar. — Só que a mamá precisava trabalhar mais um pouquinho.
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  — Tinha que ganhar corridas, né, mamá? — ele decretou, com a convicção de quem ainda não entendia o que isso realmente significava.
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  — Isso mesmo — respondi, rindo baixo.
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  Meu pai apareceu logo atrás da minha mãe, com seu macacão aberto no peito, já vindo pegar a mala antes mesmo de eu pedir.
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  — Chegou inteira dessa vez? — ele perguntou, puxando o zíper com um olhar avaliador que sempre me fazia sentir dez anos mais nova.
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  — Mais ou menos — dei de ombros. — Mas tô aqui.
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  — Tá mesmo — ele respondeu, simples, como se aquilo já bastasse.
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  Entrei na casa ainda com %Liam% no colo, sentindo o corpo finalmente relaxar de um jeito que não acontecia em hotel nenhum. O barulho era diferente, o cheiro era diferente, o tempo parecia passar em outro ritmo ali dentro.
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  Eu deixei a bolsa sobre a mesa sem muita preocupação e sentei no sofá com ele ainda agarrado em mim, os dedos pequenos já puxando a manga da minha blusa como se quisesse garantir que eu não ia desaparecer de novo.
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  — Eu trouxe uma coisa pra você — falei, inclinando um pouco o corpo pra alcançar a mochila aberta ao lado.
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  — O quê? — os olhos dele brilharam imediatamente.
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  — Um carro de corrida — respondi, tirando o brinquedo e colocando na mão dele.
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  Era pequeno, vermelho, com detalhes pretos e um número estampado na lateral que provavelmente ele não ia notar, mas eu notei. %Liam% ficou em silêncio por um segundo, analisando, e então o rosto inteiro se iluminou.
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  — Ele ganha? — Eu soltei um riso baixo.
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  — Depende de quem tá dirigindo.
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  — Eu vou dirigir — ele decidiu, imediatamente, como se aquilo resolvesse qualquer variável do universo.
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  — Então ele vai ganhar — respondi, simples.
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  Ele nem questionou. Só apoiou o carrinho no meu braço e começou a fazer o barulho com a boca, acelerando de um lado pro outro, completamente concentrado, o corpo inteiro acompanhando o movimento como se estivesse dentro da corrida.
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  — Cuidado com a curva — murmurei, entrando no joguinho dele.
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  — Eu sei — ele respondeu, sério, virando o carrinho com cuidado exagerado. — Agora vai passar todo mundo.
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  — Claro que vai.
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  Meu celular vibrou em algum lugar dentro da bolsa, eu nem precisei olhar pra saber quem era. Ainda assim, meus olhos escaparam na direção do aparelho por reflexo.
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  — Você não vai largar ele agora, né? — minha mãe perguntou, num tom leve demais pra ser cobrança.
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  — Não — respondi, automática.
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  E não larguei.
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  Fiquei ali com %Liam% sentado no meu colo, fazendo o carrinho correr pelo meu braço, inventando ultrapassagens improváveis e comemorando vitórias que só existiam pra ele, enquanto eu acompanhava cada detalhe como se estivesse tentando guardar tudo em algum lugar seguro dentro de mim.
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🏁🛠️

  O som da porta da frente abrindo veio seguido de passos e do barulho leve de sacolas encostando na bancada da cozinha.
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  — Se alguém não guardar isso agora, eu vou assumir que posso comer tudo sozinho — a voz veio antes dele aparecer.
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  — Julián — chamei, virando o rosto na direção do corredor.
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  Ele surgiu na sala segundos depois, ainda segurando uma das sacolas, o olhar passando por mim, depois por %Liam% no chão… e então voltando pra mim com um sorriso lento, daqueles que já vinham carregados de comentário.
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  — Olha só — murmurou. — A estrela do paddock resolveu dar as caras.
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  — Engraçadinho — respondi, sem esforço.
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  Ele largou a sacola sobre a mesa e atravessou a sala, me dando um beijo rápido na cabeça antes de se jogar no sofá como se nada tivesse mudado.
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  — O que que é isso aí? — Julián perguntou, apontando com o queixo na direção do %Liam% assim que entrou na sala.
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  — Presente novo — respondi, olhando para ele no chão, completamente concentrado em fazer o carrinho atravessar um “circuito” improvisado entre as almofadas.
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  — Hm — ele murmurou, já entendendo. — Cheiro de culpa de mãe que ficou dias fora.
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  — Não começa — retruquei, sem nem olhar pra ele.
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  — Não comecei — respondeu, jogando a chave sobre a mesa. — Só observei.
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  — Agora ele vai passar — %Liam% anunciou, sério, empurrando o carrinho com precisão exagerada. — E ganhou.
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  — Já? — perguntei, inclinando a cabeça.
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  — Uhum — ele assentiu. — Porque eu dirigi melhor.
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  — Justo — murmurei. Julián soltou um riso baixo, passando a mão pelo rosto.
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  — Tá criando um piloto ou um chefe de equipe?
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  — Os dois — respondi, dando de ombros.
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  — Perigoso.
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  — Muito.
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  %Liam% ergueu o olhar pra mim de repente, como se tivesse lembrado de alguma coisa importante no meio da corrida.
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  — O Charles não conseguiu, mamá.
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  O nome veio tão natural que demorou meio segundo a mais pra cair dentro de mim. Eu pisquei, surpresa, mas mantive o rosto neutro.
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  — Não conseguiu o quê?
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  — Ganhar — ele respondeu, simples, como se fosse óbvio. — Eu achei que ele fosse ganhar.
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  O silêncio que veio depois foi curto, mas pesado o suficiente. Julián virou o rosto devagar na minha direção, uma sobrancelha arqueando com uma precisão irritante.
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  — Charles? — ele repetiu, arrastando levemente o nome, como se estivesse testando o gosto dele. Eu nem olhei pra ele.
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  — O piloto — respondi antes que ele pudesse inventar qualquer outra coisa, mantendo o tom casual demais.
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  — Sei — ele murmurou.
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  Mentira, dava pra ouvir na forma como ele disse, mas eu ignorei.
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  — Às vezes não dá pra ganhar sempre — falei, voltando a atenção pro %Liam%. — Mas isso não quer dizer que ele não tentou.
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  — Ele tentou? — %Liam% perguntou, agora realmente investido na resposta.
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  — Tentou — confirmei. — E tentou bem.
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  %Liam% pareceu pensar nisso por um segundo, absorvendo a informação com a seriedade de quem levava corrida mais a sério do que deveria.
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  — Então ele pode ganhar na próxima — concluiu, satisfeito.
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  — Pode — respondi.
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  — Engraçado — Julián soltou, baixo.
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  — O quê? — perguntei, sem olhar.
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  — O fato de que eu passei os últimos dias ouvindo esse garoto falar do Charles — respondeu, tranquilo demais. — Da casa dele. Da piscina dele. Do simulador dele. Da comida dele.
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  Fechei os olhos por um segundo.
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  — Não começa.
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  — Não começo o quê? — ele retrucou, imediatamente. — Eu esperei chegar pessoalmente pra jogar isso na sua cara.
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  Agora eu virei o rosto.
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  — Julián…
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  — Eu nunca achei que fosse ouvir meu sobrinho dizendo que ficou socado na casa do piloto que você mais odiava — continuou, cruzando os braços. — E olha que você falava mal com dedicação, viu?
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  — Eu não odiava — respondi, automática.
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  — Ah, não? — ele arqueou a sobrancelha. — Então aquilo tudo era o quê? Amor reprimido?
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  — Cala a boca. — Ele sorriu. — Ele convidou — continuei, antes que ele fosse mais longe. — Foi só isso. Eu tava com o %Liam%, não tinha por que negar.
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  — Claro que não — ele respondeu, assentindo devagar demais. — Quem recusaria um convite pra uma mansão em Mônaco, né?
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  Ignorei.
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  — Foi um almoço.
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  — Um almoço — ele repetiu.
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  — Foi.
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  — Com piscina.
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  — Julián.
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  — Com simulador.
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  — Julián.
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  — Com comida boa, aparentemente — completou, olhando de relance pro %Liam%, ainda no chão. Eu soltei o ar pelo nariz, já sem paciência.
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  — Você terminou?
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  — Tô começando — ele respondeu, simples.
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  Silêncio.
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  — Ele não namora? — perguntou, mudando de tom direto.
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  — Não — respondi, firme.
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  — Tem certeza?
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  — Tenho. — Ele me encarou por um segundo a mais.
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  — Hm.
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  Esse “hm” era pior do que qualquer comentário.
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  — E você? — ele continuou. Eu franzi a testa.
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  — Eu o quê?
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  — Tá afim mesmo desse cara?
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  Silêncio.
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  Dessa vez, de verdade.
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  %Liam% ainda estava no chão, completamente alheio, fazendo o carrinho dar voltas no tapete como se aquela fosse a única coisa importante no mundo.
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  Eu não respondi imediatamente.
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  Nem podia.
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  Porque qualquer resposta ali… ia dizer mais do que eu queria.
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  Respirei.
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  — Eu tô… conhecendo — respondi por fim, sem olhar pra Julián.
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  — Conhecendo — ele repetiu, baixo.
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  — Devagar — acrescentei. Agora eu olhei. — Do meu jeito.
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  Ele me observou em silêncio por alguns segundos. Dessa vez, sem piada ou provocação. Só… entendendo, ou tentando.
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  — Desde quando? — perguntou, mais direto.
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  A pergunta ficou no ar.
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  Eu desviei o olhar por um instante, acompanhando o carrinho do %Liam% atravessando o tapete como se aquilo pudesse me dar tempo suficiente pra organizar a resposta.
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  — Japão — falei por fim, baixo.
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  — Japão? — Julián franziu a testa. Assenti. — Você odiava ele — Julián corrigiu, sem esforço.
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  — Eu achava que odiava — retruquei. Ele não interrompeu dessa vez. — Foi no Japão que mudou — continuei. — Ele me ajudou a escolher o presente do %Liam%. O robô. — Julián arqueou levemente a sobrancelha.
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  — O robô que faz dancinha.
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  — É — confirmei. — Eu tava perdida, sem saber onde achar ou se ia dar tempo de comprar algo… e ele simplesmente… me ajudou.
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  A memória veio mais nítida do que eu gostaria.
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  — Andamos pelas ruas de Tóquio, como se aquilo fosse casual, ele me contou um pouco sobre a vida dele, ele achou o robô, me entregou e era como… como se aquilo realmente importasse.
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  — E importava — Julián murmurou.
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  — Pra mim, sim — respondi.
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  — Eu não conhecia aquele lado dele — continuei, mais baixa. — Não era o piloto. Não era o cara do paddock. Era só… alguém sendo paciente. Atento. Presente.
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  Engoli seco.
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  — E isso ficou. — Julián me observava com atenção agora. De verdade. — E de lá pra cá?
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  — Foi… acontecendo — respondi, dando de ombros, mas sem convicção nenhuma.
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  — Tá — ele disse por fim. — Só não finge que isso é pequeno.
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  Eu respirei fundo.
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  — Eu não tô fingindo — respondi, mais firme. — Eu só… não quero que vire um evento antes de ser alguma coisa de verdade.
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  Ele inclinou a cabeça.
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  — Como assim?
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  — Assim — suspirei. — Eu não quero que a mamãe saiba, nem o papai e muito menos o %Liam%.
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  Julián piscou.
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  — O %Liam% já sabe o nome do cara.
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  — Sabe como piloto — corrigi. — E assim que vai continuar por enquanto.
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  Ele soltou um riso curto.
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  — Você acha mesmo que vai conseguir esconder isso?
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  — Não é esconder — respondi, rápida. — É… proteger.
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  — De quê? — Demorei meio segundo.
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  — De virar mais do que é antes da hora. — Ele me analisou por mais um instante, mais calmo agora.
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  — E o que é?
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  A pergunta veio sem peso, mas com precisão. Eu olhei pro %Liam%, depois pro chão, depois de volta pra ele.
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  — Eu ainda não sei.
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  — Tá — Julián disse por fim, dando um passo pra trás. — Mas quando você souber… eu quero ser o primeiro a dizer “eu avisei”.
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  — Você não avisou nada — rebati, automática.
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  — Ainda não — ele respondeu, com um meio sorriso.
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  Revirei os olhos, mas não respondi. Porque ele tava certo e talvez fosse exatamente isso que mais me incomodava.
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🏁🛠️

  %Liam% não parava, nem quando sentava, nem quando cansava. Nem quando o carrinho já tinha passado pelo mesmo “circuito” improvisado dez vezes seguidas.
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  — Agora ele vai ganhar de novo — anunciou, empurrando o carro com força demais pelo tapete.
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  — De novo? — perguntei, apoiando o queixo na mão, observando.
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  — Porque eu sou melhor — respondeu, sério.
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  — Justo.
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  Eu nem percebi quando meu celular vibrou. Só percebi quando minha atenção desviou por meio segundo a mais do que deveria. Uma notificação.
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  Eu já sabia.
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  Mesmo assim, desbloqueei.
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  %Liam% não parava, nem quando sentava, nem quando cansava. Nem quando o carrinho já tinha passado pelo mesmo “circuito” improvisado dez vezes seguidas.
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  — Agora ele vai ganhar de novo — anunciou, empurrando o carro com força demais pelo tapete.
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  — De novo? — perguntei, apoiando o queixo na mão, observando.
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  — Porque eu sou melhor — respondeu, sério.
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  — Justo.
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  Eu nem percebi quando meu celular vibrou. Só percebi quando minha atenção desviou por meio segundo a mais do que deveria. Uma notificação.
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  Eu já sabia.
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  Mesmo assim, desbloqueei.
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  Charles: Como tá o %Liam%?
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  Simples.
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  Direto.
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  Sem rodeio.
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  Meu polegar ficou parado sobre a tela por um segundo, enquanto eu olhava de volta pro meu filho no chão, completamente concentrado em fazer o carrinho “ultrapassar” uma almofada.
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  Eu podia responder depois, podia ignorar por algumas horas. Podia… mas não quis.
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  %Isla%: Bem. Acabou de ganhar mais uma corrida aqui.
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  Enviei.
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  Voltei o olhar pro %Liam% como se nada tivesse acontecido.
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  — Ele bateu — ele murmurou, frustrado.
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  — Quem?
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  — O outro carro.
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  — Normal — respondi, dando de ombros. — Faz parte.
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  — Não faz — ele retrucou, já corrigindo a trajetória com o dedo. — Agora ele vai ganhar de novo.
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  Eu sorri, meu celular vibrou de novo.
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  Charles: Então eu tenho um concorrente forte.
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  Eu soltei um riso baixo pelo nariz, desviando o olhar pro canto da sala.
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  — O que foi? — %Liam% perguntou, sem parar de brincar.
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  — Nada — respondi.
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  Eu levantei o celular um pouco, ajeitando o ângulo sem pensar muito.
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  — Mostra sua mão aqui — pedi.
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  — Pra quê?
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  — Só mostra.
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  Ele estendeu a mão, ainda segurando o carrinho, os dedos pequenos envolvendo o corpo vermelho com uma firmeza desajeitada. Eu tirei a foto. Sem pensar demais, sem analisar... só fiz.
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  Olhei por um segundo.
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  E enviei.
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  Voltei a atenção pro %Liam%, que agora fazia um barulho alto demais de motor com a boca, completamente envolvido na própria corrida.
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  — Cuidado com a curva — murmurei.
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  — Eu sei — ele respondeu, concentrado.
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  O celular vibrou de novo.
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  Eu olhei.
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  Charles: Ok, eu retiro o que disse. Não tenho chance nenhuma.
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  Eu mordi o canto da boca, tentando segurar o sorriso.
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  Charles: Ele parece mais focado que metade do grid.
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  Soltei o ar devagar pelo nariz.
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  Aquilo… era fácil demais.
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  Leve demais.
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  E era exatamente por isso que eu precisava tomar cuidado.
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  %Isla%: Ele leva isso a sério.
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  Charles: Eu também levaria, se tivesse um engenheiro desses em casa.
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  Eu revirei os olhos, mas o sorriso veio mesmo assim.
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  — Mamãe — %Liam% chamou, puxando minha manga. — Olha.
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  Eu abaixei o celular imediatamente.
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  — Tô olhando.
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  Ele fez o carrinho atravessar o “circuito” inteiro, com direito a curva, reta e uma comemoração exagerada no final.
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  — Ganhou — anunciou, satisfeito.
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  — Eu sabia — respondi.
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  Ele encostou de leve em mim depois, como fazia sempre. Sem pedir ou pensar, só porque queria.
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  Meu celular vibrou mais uma vez.
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  Eu não olhei na hora.
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  Fiquei ali, com o peso leve do corpo dele encostado no meu, o som da respiração tranquila, o carrinho ainda preso na mão pequena.
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  Esperei alguns segundos, mais alguns... então, com cuidado, peguei o celular de novo.
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  Charles: Sobrevivi ao jantar da equipe. Por pouco.
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  Eu ri baixo.
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  %Isla%: Milagre.
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  A resposta demorou um pouco mais dessa vez. O suficiente pra não parecer necessidade e pra continuar sendo escolha.
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  Charles: Ainda tô convencido de que perdi a corrida mais importante do dia.
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  Eu arqueei uma sobrancelha.
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  %Isla%: Qual?
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  Charles: A do %Liam%.
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  Eu balancei a cabeça, sorrindo sozinha.
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  Charles: Vou precisar de revanche quando voltar.
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  Meu olhar ficou preso na tela por um segundo a mais. Depois dois. Sem perceber, meus dedos travaram.
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  Porque aquilo parecia uma brincadeira, mas também não parecia só isso, pois eu sabia o que ele estava fazendo.
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  Devagar.
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  Sem pressionar.
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  Sem pedir nada diretamente, mas aparecendo.
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  Eu bloqueei o celular devagar, sem responder. Levantei o olhar, %Liam% ainda estava ali, a cabeça encostada em mim.
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  Respirei fundo. Porque, pela primeira vez desde que aquilo tinha começado…não era só sobre gostar. Era sobre espaço. E, aos poucos… o Charles estava pedindo pra existir dentro dele.
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🏁🛠️

  O paddock de Ímola tinha um tipo diferente de silêncio, não era vazio, era concentração. O som metálico das ferramentas, vozes baixas em italiano atravessando o ar, passos rápidos entre os boxes. Tudo funcionando como uma engrenagem que não podia falhar.
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  Eu caminhei direto, sem hesitar, sem medir o espaço antes de ocupar.
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  — %Isla% — alguém chamou, antes mesmo de eu chegar completamente no box.
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  Virei o rosto.
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  — A gente precisa validar o ajuste da curva sete — o engenheiro disse, já me estendendo o tablet. — A telemetria não bateu com a simulação.
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  Eu peguei, sem pedir contexto, ou esperar explicação completa. Os dados estavam ali. Claros, pressão, entrada, saída ou resposta. Passei o dedo pela tela, ampliando o gráfico.
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  — A resposta tá atrasando na saída — falei, já analisando. — Não é só o ponto de frenagem. Tem atraso no torque.
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  — Foi o que a gente pensou — ele respondeu, assentindo.
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  Não questionou, não corrigiu. Só… acompanhou.
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  — Ajusta o mapeamento antes do S2 — continuei. — Se a gente suavizar a entrega, ele vai conseguir segurar melhor na saída.
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  — Certo.
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  Simples assim. Sem explicação extra, sem aquele olhar de dúvida que existia meses atrás. Ele virou, já chamando outro membro da equipe pra implementar.
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  E eu segui andando. John estava na bancada principal, analisando os dados com dois outros engenheiros. Ele levantou o olhar quando me aproximei.
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  — A gente tá discutindo a consistência do segundo setor — disse, sem rodeio. — O que você acha?
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  Não era um teste, era convite. Eu me inclinei levemente sobre a bancada, observando os números.
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  — Ele tá entrando bem — falei. — O problema não é a entrada. É a saída acumulando erro. — Apontei pra tela. — Aqui. E aqui. — Um dos engenheiros ao lado assentiu, ajustando o zoom. — Se a gente não corrigir isso, ele vai perder tempo na reta seguinte.
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  John cruzou os braços, olhando pra tela por mais um segundo. Depois assentiu.
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  — Faz sentido. — Virou pro outro lado.
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  — Vamos testar isso no próximo stint.
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  E pronto, sem discussão. Sem precisar defender cada palavra, ou provar que eu sabia do que estava falando. Eu só… sabia. E eles também sabiam.
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  Continuei andando pelo box, passando por um dos mecânicos mais antigos da equipe. Ele estava com uma peça na mão, analisando com atenção. Quando me viu, levantou levemente o objeto.
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  — Isso aqui tá dentro do esperado pra você? — Eu me aproximei.
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  Observei e toquei na peça.
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  — Tá — respondi. — Mas fica de olho no desgaste. Se aumentar mais um pouco, a gente troca antes da classificação. — Ele assentiu, sem questionar.
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  — Perfeito.
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  E voltou ao trabalho, simples, direto, natural.
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  Eu parei por meio segundo no meio do box, olhando ao redor. O mesmo lugar, as mesmas pessoas, o mesmo barulho constante. Mas a sensação… era outra. Ninguém me olhava como exceção, ninguém me media, ou esperava que eu errasse. Eu não estava mais tentando caber… eu já fazia parte.
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  — Bom dia.
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  A voz veio atrás de mim, baixa, familiar. Eu não precisei me virar na hora.
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  Sabia.
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  Mas, ainda assim, esperei meio segundo. Talvez dois. Antes de olhar.
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  — Bom dia — respondi.
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  Ele estava ali.
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  Macacão meio aberto na cintura, cabelo ainda levemente bagunçado, olhar atento demais pra alguém que deveria estar pensando em telemetria. E, por um segundo muito breve… o resto do box desapareceu.
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  Só um pouco.
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  — Chegou bem? — ele perguntou. Eu assenti.
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  — Cheguei.
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  Silêncio.
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  Pequeno, mas diferente do que era antes. Agora ele não precisava adivinhar. Eu não precisava evitar. Ainda assim… a gente não avançou.
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  Não ali.
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  Não daquele jeito.
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  — A gente ajustou o mapeamento da sete — falei, voltando pro tom profissional antes que qualquer outra coisa escapasse.
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  Ele assentiu.
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  — Eu senti — respondeu. — Ficou melhor na saída.
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  — Vai melhorar mais no próximo stint.
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  — Confio em você.
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  A frase veio fácil demais, natural demais. E isso… me pegou de surpresa. Eu sustentei o olhar dele por um segundo a mais do que deveria, depois desviei.
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  — Melhor você confiar mesmo — murmurei, voltando a olhar pra tela mais próxima.
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  Ele soltou um riso baixo, quase inaudível e ficou ali, mais perto do que precisava. Mas não perto o suficiente pra chamar atenção.
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  Eu não disse nada, só desviei o olhar, como se aquilo bastasse pra colocar as coisas de volta no lugar.
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  Não bastava.
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🏁🛠️

  O dia passou voando, sem que eu sequer percebesse. Quando dei por mim, boa parte da equipe já tinha ido embora. Alguns monitores continuavam acesos, os dados ainda rodavam nas telas, mas o ritmo frenético das últimas horas tinha diminuído.
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  Em algum momento entre uma revisão e outra, Charles apareceu ao meu lado sem anunciar presença, como fazia cada vez mais.
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  — Terminou por aqui? — perguntou, baixo. Eu não levantei o olhar na hora.
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  — Quase.
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  Eu finalizei o que estava fazendo, bloqueei a tela e só então virei o rosto na direção dele.
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  — Agora sim. — Ele assentiu, como se estivesse esperando exatamente por isso.
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  — Então me dá duas horas suas fora daqui.
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  Direto, sem rodeio, sem charme calculado, só… sincero. Eu segurei o olhar dele por um segundo e, por um instante muito curto, a resposta veio automática na minha cabeça.
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  Sim. Mas eu não disse.
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  — Eu quero — falei, e não era mentira. O olhar dele mudou de leve, quase imperceptível. — Mas hoje não — completei.
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  Ele piscou devagar, como se estivesse reorganizando alguma coisa por dentro.
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  — Tá — respondeu.
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  Simples, mas não igual. Eu já conhecia diferença de tom de voz dele melhor do que gostaria.
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  — Eu vou voltar pra casa dos meus pais hoje, já que estamos perto de casa e amanhã eu estou de folga — continuei, antes que aquilo virasse um espaço maior do que precisava. — Eu reorganizei meu horário pra conseguir estar com o %Liam%. — Ele assentiu. — A gente tem uma rotina — acrescentei, mais calma agora. — Ele espera.
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  Silêncio, mais curto dessa vez.
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  — Eu passo tempo demais longe do meu filho pra começar a negociar isso.
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  A frase saiu firme, sem defesa ou pedido de desculpa, só verdade. Ele me olhou por mais um segundo, e assentiu de novo.
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  — Claro — disse.
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  E ele quis dizer, eu sabia que quis. Mas ainda assim… não veio leve. Veio um pouco mais baixo, um pouco mais contido. O corpo dele recuou meio passo, quase nada, mas o suficiente pra eu perceber.
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  — Não é sobre não querer — completei, mais baixa.
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  — Eu sei — ele respondeu.
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  Isso era o mais complicado. Ele passou a mão pela nuca, desviando o olhar por um segundo antes de voltar pra mim.
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  — A gente tenta outro dia.
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  — Sim — respondi.
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  E eu quis dizer de verdade.
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  — Boa viagem, então — ele disse, apontando de leve com o queixo na direção da saída.
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  Eu assenti.
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  — Boa sessão depois.
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  Ele deu um meio sorriso, não aquele de antes, mas também não distante. Só… menor. E então ele saiu, simples assim, sem drama, insistir ou pedir mais. E, ainda assim…deixando algo pra trás.
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  Eu fiquei ali por um segundo.
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  Depois dois.
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  O tablet ainda na minha mão, a tela já apagada, refletindo um pedaço do meu rosto que eu não estava exatamente pronta pra encarar.
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  Respirei fundo, porque era isso. Era exatamente isso, não era sobre escolher e sim sobre encaixar. E, pela primeira vez desde que aquilo tinha começado, eu entendi que gostar dele era a parte fácil. O difícil seria ensinar alguém como ele a existir dentro de uma vida que já vinha inteira, com rotina, ausência e com alguém pequeno demais pra entender ajustes… mas grande o suficiente pra sentir quando eles não aconteciam.
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  Eu passei a mão pelo cabelo, soltando o ar devagar. A gente tinha combinado de ir devagar, mas devagar não era ausência de intensidade. Era precisão, escolha e espaço. E, principalmente… era descobrir se, entre a velocidade da vida dele e o peso da minha, existia um lugar onde ele realmente pudesse ficar.
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  Nota da autora: Antes de qualquer coisa, eu queria pedir desculpas pela demora na atualização.
  Eu sei que essa história está parada há um tempo, a verdade é que minha vida mudou bastante nos últimos meses. Recentemente fui promovida no trabalho (o que é uma conquista enorme e da qual estou muito feliz!), mas essa nova fase também trouxe muitas responsabilidades, aprendizados e um período de adaptação que acabou consumindo mais tempo e energia do que eu imaginava.
  Infelizmente, no meio dessa correria, a escrita acabou ficando em segundo plano por um tempo.
  Mas a boa notícia é que estou conseguindo me organizar melhor agora. Aos poucos estou encontrando um novo equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e escrita, e quero voltar a dar para essa história a atenção que ela merece.
  Obrigada por continuarem aqui, pela paciência, pelo carinho e por não desistirem do Charles, da %Isla% e do pequeno %Liam%. 💛
  Espero que vocês gostem desse capítulo tanto quanto eu gostei de voltar para esse universo.
  Com carinho,
  Nyx ✨

CAPÍTULO 11
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