CAPÍTULO 4
Love, we loved so many times
And in so many lives, sometimes we got it right
Pain, it found its way back in
Until we meet again into that good night
(Cosmic - Avenged Sevenfold)
Londres, 1943
Quando eu finalmente despertei, vendo ao meu redor aquelas paredes brancas, barulhos de monitores e %Mason% dormindo sentado na cadeira ao lado da cama, eu percebi que tinha sido grave, mas que pelo menos eu estava viva. Mas logo veio em minha mente uma outra pessoinha… Minha filha! Passei a mão sobre a barriga e percebi que estava murcha, ainda inchada, mas era perceptível que não tinha mais nada ali dentro.
Comecei a entrar em desespero, porque ao olhar ao redor eu simplesmente não via nada relacionado a nossa filha. Apenas %Mason% e eu. Apenas o vazio que ela havia deixado em mim.
— %Mason%! %Mason%! — chamei ele, minha voz estava mais alta e desesperada.
Ele levantou rápido da cadeira, acordando praticamente em um pulo.
— O que foi, meu amor? — ele perguntou, mas sua voz era baixa e com certo pesar.
Eu já sabia o que tinha acontecido, só não queria acreditar.
— Cadê ela? — pergunto com a voz chorosa, vendo a expressão no seu rosto se fechar ainda mais. Ele retirou os óculos e passou as mãos sobre os olhos.
Quando ele retirou os óculos que pude perceber que ele tinha olheiras, não sabia ao certo se era de ficar acordado ou por ter chorado. Talvez os dois.
— Eu… Eu sinto muito, %Aurora%. — ele falou, segurando em minha mão e eu comecei a chorar em desespero.
— NÃO! POR FAVOR… — um grito de desespero saiu de minha garganta, tão alto ao ponto de doer, mas não tanto quanto o meu peito ao perceber a ausência da minha filha.
Ela tinha falecido simplesmente por uma irresponsabilidade minha, eu tinha causado isso e jamais iria me perdoar por tê-la colocado em risco.
New York, 2024
O sol batia em meu rosto, fazendo com que eu me incomodasse com a claridade. O sonho que eu tive nessa noite foi ainda pior, eu acordei com a sensação como se realmente estivesse sofrendo a perda e o luto pela minha filha. Era uma dor dilacerante, parecia apertar meu peito.
A última coisa que veio em minha memória foram as palavras de %Mason% para mim. Então, ele também sonhava comigo? Por que isso acontecia? Era um tanto estranho.
Aquele dia estava mais gélido, ao ponto de sentir meu nariz gelado como se estivesse andando pelas ruas em um dia de outono, onde a brisa batia sem dó em meu rosto. Essas sensações traziam meu pai na memória, quando ele levantava bem cedo e o sol nem havia nascido ainda, eu o acompanhava até a porta. Era como um ritual meu e dele e acontecia todos os dias e sempre no mesmo horário.
Depois de muito custo, levantei da cama com certa dificuldade, parecia que um caminhão havia me atropelado várias vezes. Tomei um banho e fiz tudo o que se deve fazer pela manhã, obviamente meu rosto necessitava de mais cuidado, então eu passei uma maquiagem de leve, tentando ocultar as olheiras escuras embaixo dos meus olhos.
E então, quando desci até a cozinha pude ver minha mãe e meu irmão sentados na mesa. Meu irmão me encarava com um sorriso travesso nos lábios e minha mãe, um tanto curiosa. Conforme fui me aproximando da cozinha, eles cochichavam, algo sobre ontem que eu não conseguia entender muito bem.
— Bom dia? — perguntei, assim que me sentei na mesa junto com eles e coloquei um pouco de café na xícara.
— %Ethan% estava me falando que ontem a noite o seu professor entrou com você nos braços… — minha mãe falou e eu suspirei, balançando a cabeça em negação. — Ele pediu a permissão para seu irmão, se podia entrar e te deixar na cama, mas o que me deixou intrigada foi o fato dele ser seu professor e estar te carregando nos braços.
— Foi só um mal entendido, mãe. Eu acabei pegando no sono e ele me deixou em casa. Só isso. — na minha cabeça, era basicamente o que tinha acontecido.
— Minha filha, não é normal que um professor te busque todos os dias no seu serviço e ainda te leve para dentro de casa quando você sem querer dorme no carro dele. — minha mãe falou e meu irmão apenas observava a conversa.
— Eu acho que vocês estão sendo extremamente precipitados em pensar qualquer coisa a respeito do %Mason%. — minha voz saiu baixa e evidenciando que eu estava totalmente na defensiva.
Era ridículo pensar que eu poderia ter algo com ele, afinal, ele estava em um relacionamento, não era simplesmente porque eu não queria, na realidade, eu com certeza teria algo com ele se eu pudesse, mas infelizmente a vida nem sempre é como a gente quer.
— Bem, se você acha que isso não é nada demais… Quem sou eu para pensar diferente? — minha mãe novamente falou e eu suspirei.
— Eu preciso ir, senão vou me atrasar. — dei um longo gole no café, a fim de me livrar daquela situação extremamente chata. — Amo vocês.
Eles concordaram com a cabeça e não falaram mais sobre o assunto. Deixei o copo na mesa e dei um beijo na bochecha dos dois, peguei a mochila e sai pela porta, sem nem olhar para trás.
O caminho da faculdade era o mesmo de sempre, meio distante e era por isso que eu costumava sair mais cedo de casa, para chegar a tempo.
Quando cheguei na sala de aula, pude ver alguns alunos sentados em lugares dispersos da sala e também, %Mason% em sua mesa, mexendo no celular. Eu me aproximei dele sorrateiramente e logo vi que ele se virou para mim.
A expressão dele se iluminou em um sorriso bonito, mas logo se apagou, como se ele tivesse se arrependido da ação anterior.
— Bom dia, %Mason%. — comecei a falar, achando um pouco estranho esse tipo de reação vindo dele, mas achei que talvez pudesse ser pura impressão minha. — Eu queria te agradecer por ontem e também pedir desculpas, acabei realmente pegando no sono.
— Não tem problema, %Aurora%. — ele falou e desviou o olhar do meu, voltando a atenção para o celular.
Aquilo com certeza não era normal.
— Tem certeza que está tudo bem? — perguntei novamente e ele soltou o celular na mesa, bufando irritado.
— Não é uma boa hora, %Aurora%. — ele falou, mas sua voz era em um tom baixo para que ninguém ouvisse o que a gente estava conversando. — Eu passei dos limites ontem, não vai acontecer de novo. É melhor a gente se afastar.
Quando ele falou aquilo, eu fiquei um pouco sem reação e até pensei que poderia ser brincadeira dele. Porque no dia anterior, ele me tratou como uma princesa e agora, estava me esculachando.
Eu não queria, mas ao mesmo tempo entendia. Aquela nossa relação e proximidade estranha, estava começando a ficar um pouco descontrolada. E com certeza eu não gostaria de ser “a outra” da história.
— Tudo bem… — eu acabei falando baixo, sentindo um nó na garganta, que praticamente me impedia de engolir a saliva.
— Vem aqui. — ele levantou e segurou devagar em meu pulso, me levando para fora da sala, até a entrada da biblioteca que era ao lado, por sorte, ela estava vazia. — Eu estou confuso, %Aurora%. E sinceramente, não posso fazer isso com a Elisa.
Parte de mim pensava que ele também não queria aquilo, que ele estava numa luta interna, mas também, que tinha escolhido um lado. O lado da noiva dele, era justo. Eu não podia ser hipócrita e pedir que ele me escolhesse, ele ao menos tinha um motivo plausível para isso.
— Você não precisa me explicar nada, %Mason%. É a sua vida, você decidiu assim… Vamos nos afastar, vai ser melhor assim. — eu acabei concordando, soltando meu pulso de suas mãos.
— %Aurora%… — ele suspirou, tirou os óculos e esfregou uma das mãos no rosto em frustração e na mesma hora, eu me lembrei do sonho, que ele fazia a mesma coisa. Retirava os óculos e esfregava o rosto, era simplesmente horrível lembrar dele, ter todas essas memórias e não ter ideia do que se tratava.
— Está tudo bem, é sério. Eu sei que acabou tomando proporções que a gente não imaginava, você está certo por escolher ela, no final das contas… É a sua noiva.
Eu sentia um misto de emoções e sentimentos, parte de mim queria sair correndo e chorando dali, para os braços da minha mãe porque era tudo muito confuso. A outra parte queria ficar ali e ser superior, fingir que qualquer coisa que ele faça simplesmente não me afeta.
Era a primeira vez que eu entrava na biblioteca desde o primeiro dia de aula. Ela tinha um tom todo amadeirado, prateleiras enormes com muitos tipos de livros, uma escada caracol que guiava para o andar de cima, onde tinha mais prateleiras amadeiradas com vários livros. No centro dela, algumas mesas com cadeiras, outras mesas com computadores e uns banquinhos estilo aqueles de praça.
— Eu escolhi não fazer merda, não magoar a Elisa. Não significa que não tenha sentido nada por você. — ele falou simplesmente, fazendo meus olhos irem de encontro aos dele.
— Por favor, não fale isso. Não fala mais nada disso, eu não quero saber… Não quero ouvir. — em um impulso, eu coloquei as mãos no ouvido e abaixei a cabeça.
Não queria ouvir mais nada que pudesse me deixar pior, pior do que eu já me sentia. Eu sabia que essa aproximação era uma coisa perigosa, por causa do relacionamento dele e dos meus sonhos, mas eu me senti ainda pior quando descobri que ele também sonhava comigo.
— %Aurora%, é sério. — ele colocou as mãos nos meus braços, a fim de tirá-las do meu ouvido.
Mas assim que ele fez isso, pude claramente sentir uma eletricidade percorrendo todo meu corpo. Pude ver ele um uniforme do exército britânico, parecia muito o uniforme da segunda guerra mundial, seus óculos tinham um formato parecido com o atual que eram quadrados.
Ele se afastou e virou de costas para mim, passando as mãos nos próprios cabelos. Era uma frustração que eu percebia que ele também sentia e também pude perceber que ele havia sentido o mesmo que eu, senão não fugiria.
Ao invés de ficar e continuar praticamente discutindo com ele, eu decidi sair correndo daquela biblioteca. Mas infelizmente ao fazer isso, senti meu corpo se chocar com o de alguém e quase ir para o chão, mas eu tinha conseguido me equilibrar.
— Porra. — pude ouvir a voz masculina e então levantei meu olhar até o dono da voz.
Richard.
— Desculpa, eu… Estava com um pouco de pressa. — falei e vi que ele esticou a cabeça para olhar dentro da biblioteca, era possível ver %Mason% com os braços cruzados e o rosto um pouco avermelhado.
— Está tudo bem? — ele colocou um braço em volta do meu ombro, como se indicasse para caminharmos para a sala, mas pude ver que seu olhar ainda estava em %Mason%, dando um sorriso superior para o homem.
Eu não entendi aquela ação dele, mas também não me preocupei em perguntar. Eu era grata ao %Mason% por todas as caronas que ele me dava, por todas as vezes que ele me ajudou. Mas tinha acabado dessa vez.
— Está sim. — assenti, caminhando em direção a sala de aula junto com ele.
— Escuta, pensou a respeito da fraternidade? — Richard perguntou e eu fiz uma careta.
Eu não sei se deveria sair da minha casa, onde cresci, todas as minhas lembranças estão lá.
— Acho que eu passo, pelo menos por enquanto. — falei sincera, me sentando em um lugar no meio da sala. Queria o mínimo de contato possível com %Mason%.
— Tem certeza? — ele perguntou e eu assenti, irrefutável pelo menos por enquanto.
Eu ia responder, mas pude ver %Mason% entrando na sala. Sua expressão era fechada, não precisava conhecer para saber que ele estava irritado.
— Alguém está irritadinho hoje. — Richard sussurrou, eu fingi um sorriso e suspirei.
Aquela merda de aula ia ser longa.
— Você trabalha hoje, %Aurora%? — Richard chamou minha atenção novamente, enquanto eu tirava minhas coisas da mochila.
— Sim, trabalho todos os dias. Raramente tiro folgas, às vezes só no domingo. — encolhi os ombros. Sabia que o meu horário de serviço era meio ridículo, mas eu tinha combinado com o Sr. Albert daquela forma, para que eu pudesse receber um pouco mais.
— Você trabalha demais. — ele falou novamente, descansando as costas na cadeira e olhando na minha direção. — Sábado a noite vamos fazer uma festa na fraternidade que eu moro, tenta aparecer lá.
— Sério? Vai ser a minha primeira festa desde… Sempre. Pelo menos esse tipo de festa.
Fui sincera e ele riu, concordando. Logo, %Mason% começou a falar sobre a matéria e sua cara era de poucos amigos. Eu não podia fazer nada, a escolha partiu justamente dele.
O resto da aula passou como todos os outros dias, super maçante e cansativa. Mas pelo menos tinha acabado. Já era em torno de cinco horas da tarde e eu estava em frente a televisão, sentada ao lado do meu irmão enquanto comíamos pipoca.
— Você está quieta hoje. — meu irmão falou, fazendo eu sair do transe.
— Um pouco chateada. — falei, levando um punhado de pipoca até a boca.
— Por quê? — ele se virou, esquecendo a televisão na nossa frente e me encarou.
— Não é nada demais, só que eu e o %Mason% decidimos nos afastar. — falei, olhando de canto para ele, enquanto comia a pipoca.
— Mas se vocês se gostam, por que se afastar? — ele perguntou como uma criança curiosa.
— Ele é comprometido. — falei simplesmente e me levantei.
Tinha voltado a sentir um nó na garganta, estava muito triste porque toda vez que eu lembrava dele, dos nossos sonhos, principalmente o de hoje… A situação só ficava pior.
As horas foram se passando e agora, eu já estava praticamente no horário de ir embora do serviço. Por sorte tinha sido uma noite movimentada, muitos atendimentos, quase não parei. Mas também pude perceber que pela primeira vez desde que eu conheci o %Mason%, ele não veio aqui e não ficou me esperando até eu sair.
No fundo, eu sabia que ele não faria isso. Ele não tinha motivos para vir aqui, me dar carona até em casa.
Minha bolsa já estava nas costas e eu tinha saído da lanchonete. Porém, quando começo a caminhar vejo o carro preto de %Mason% estacionado do outro lado da rua e ele encostado no carro.
Fico ponderando a ideia de ignorar ele e seguir meu caminho ou então, ir até lá e ver o que ele tem para dizer. Acabo decidindo a primeira opção, meu coração doía por fazer isso, mas tudo o que eu menos precisava agora era estar num carro fechado com ele.
Continuo caminhando por mais alguns instantes, até perceber o carro dele andando quase colado na guia, a rua já estava escura e vazia. Um cenário quase de terror.
— Entra no carro, %Aurora%. — sua voz era mandona e eu fingi que não ouvi.
Ele continuava a me acompanhar com o carro, andando devagar.
— %Aurora%, para de graça e entra no carro. — ele falou novamente, parecendo impaciente e eu não respondi, também não olhei para ele. — Não seja infantil. %Aurora%!
Quando ele me chamou de infantil, parei de andar e me virei para olhá-lo, apoiando na porta do carro.
— O que você quer, %Mason%? Estava certo que nós iríamos nos afastar. Por que você está aqui? — perguntei, com a sobrancelha franzida.
Eu tinha o encarado novamente, eu não conseguia decifrar o olhar dele, parecia um misto de sentimentos.
— Vim te levar para casa, como falei que ia fazer todos os dias. Já disse que é perigoso você andar sozinha por aqui nesse horário. — ele falou com a maior calma do mundo, fazendo eu me irritar.
— Você não tinha que fazer isso. — suspirei, abaixando um pouco a guarda.
— Eu sei, mas eu quis. Entra aí. — ele falou, destravando a porta do carro e eu, depois de muita luta interna, caminho até a porta do passageiro e entro, colocando o cinto de segurança.
O carro escuro me impossibilitava de ver o rosto dele, mas também era bom porque ele não conseguia ver o meu. O caminho tinha sido silencioso, nem mesmo o rádio estava ligado naquele dia.
Eu não queria discutir, ele parecia não querer também, mas estávamos numa situação um pouco… Difícil.
Assim que ele estacionou na frente de casa, eu soltei o cinto e abri a porta, mas antes de descer eu o observei mais um pouco, pela última vez naquele dia.
— Obrigada pela carona.
Eu ia me levantar para sair do carro, mas fui impedida por uma mão segurando meu pulso novamente. Suspirei e me virei para ele novamente.
— Você… Você pode até não entender o porquê de eu estar fazendo tudo isso, mas eu espero que um dia eu consiga te explicar. %Aurora%, você ocupa a minha cabeça mais do que imagina, mas eu não posso fazer isso antes de finalizar qualquer outra coisa que eu tenho com outra pessoa. — seu olhar era fixo em mim, o rosto dele era iluminado apenas pelas luzes da rua e eu pude ver verdade em seus olhos.
Eu não sabia como e nem o porquê, a gente tinha algum tipo de conexão estranha que eu não entendia, mas comecei a pensar que talvez devesse investigar sobre esses sonhos que tenho com ele.
— Tudo bem… Boa noite, %Mason%. — eu acenei e segui o meu caminho, sem mesmo olhar para trás.
Se tem algo que eu preciso fazer, é: Colocar todos os meus pensamentos no lugar, lidar com meus sentimentos e tentar o máximo possível descobrir sobre esses sonhos, para conseguir tirar o %Mason% da minha cabeça.