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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Segredo de Escritório

Escrita porNyx
Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 18 • Do começo ao começo

Tempo estimado de leitura: 36 minutos

  A gente mal tinha descido do avião e já estava rindo. Entre a fila da locadora e as piadas internas sobre o calor do Tocantins ser um portal direto pro inferno, a viagem já prometia.
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  Alugamos um carro no aeroporto de Palmas — um sedã prata com ar-condicionado decente, graças aos céus — e seguimos estrada adentro rumo à cidade onde eu e Clara crescemos. Uma daquelas cidades pequenas do interior onde todo mundo conhece todo mundo, onde o tempo passa devagar e a comida tem gosto de infância.
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  %Alice% ajeitou o cinto no banco da frente enquanto eu programava o GPS. Estava em silêncio, o que não era incomum… mas havia algo diferente. Ela passou a mão pelos cabelos, prendeu e soltou o coque umas três vezes, e mordeu o canto da unha — um tique raro, que eu só via quando ela estava nervosa de verdade.
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  — Tá tudo bem? — perguntei baixinho, virando de leve o rosto pra ela.
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  — Uhum. — assentiu rápido demais. — Só… conhecendo o território.
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  Clara jogou a mochila no porta-malas com a habilidade de quem já tinha feito isso mil vezes, enquanto Marcos, do outro lado, guardava o celular como quem se despedia mentalmente da internet — e talvez da civilização moderna por alguns dias.
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  — Preparados pra três dias de arroz de vó, perguntas indiscretas e cochilos na rede? — Clara perguntou, empolgada, já ligando o bluetooth para assumir a trilha sonora da viagem.
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  — E pra ouvir sua mãe tentando disfarçar que tá me avaliando o tempo todo? — Marcos brincou, se afundando no banco traseiro com um sorriso nervoso. — Primeira vez a gente nunca esquece, né?
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  Clara virou pra ele com um olhar afetuoso.
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  — Relaxa. Se ela te servir cuscuz com manteiga e fizer perguntas sobre sua infância, é porque já te aprovou.
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  — Ótimo. Se ela perguntar meu signo, eu fujo. — respondeu ele, arrancando risadas de todo mundo no carro.
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  %Alice% sorriu, mais contida, e lançou um olhar cúmplice para ele pelo retrovisor. Eles estavam no mesmo barco. Então cruzou os braços, virou pra mim e lançou um olhar entre provocação e disfarce:
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  — E você? Preparado pra apresentar sua namorada oficialmente?
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  Soltei o ar num riso meio nervoso, meio feliz.
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  — Preparado é uma palavra forte… Mas animado, sim.
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  Ela sorriu, mas os dedos tamborilavam discretamente no joelho. %Alice% %Dias%, CEO, mulher que já encarou salas de diretoria e plateias de investidores... estava tensa pra conhecer minha família. E, de algum jeito, aquilo me fez amá-la ainda mais.
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  O Tocantins se estendia à nossa frente, com suas paisagens secas, céu escancarado e retões infinitos de estrada. Clara e Marcos no banco de trás, entre risadas e travesseiros. %Alice% ao meu lado, de óculos escuros e a mão repousada na minha perna, como quem dizia tô aqui, mesmo quando tudo dentro dela dizia isso é novo.
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  Era a nossa roadtrip e eu sentia, no fundo do peito, que ela ia mudar tudo.
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  Nos últimos quilômetros, a estrada virou chão batido. O GPS já tinha desistido, mas eu não precisava dele. Cada curva, cada árvore torta, cada placa desbotada — tudo era memória.
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  — Isso aqui ainda existe? — Clara perguntou, rindo, ao passar por uma casinha de madeira que a gente jurava que teria caído com o tempo.
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  — Estamos em Lizarda. Aqui nada cai, só sobrevive. — respondi, com a voz levemente embargada.
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  %Alice% observava tudo pela janela com os olhos de quem queria guardar cada detalhe. Os pés descalços das crianças correndo na rua de terra, os cachorros dormindo na sombra, a vendinha da esquina com os refrigerantes empilhados na porta.
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  — Aqui parece um mundo à parte. — ela disse, quase num sussurro.
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  — É. E foi aqui que eu cresci. — respondi, apertando de leve a mão dela no câmbio. Ela apertou de volta. Um gesto pequeno, mas cheio de significado.
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  Quando viramos na última rua de terra, a casa apareceu. Simples, mas acolhedora, com paredes claras, telhado de cerâmica e um quintal cheio de plantas e cadeiras espalhadas. Tinha cheiro de café fresco no ar — e de bolo também. Sempre tinha bolo.
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  %Alice% soltou um longo suspiro. Eu percebi. Ela endireitou a postura e olhou pra mim.
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  — Só pra confirmar… sua mãe gosta de vinho?
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  — Ela ama. Mas vai gostar mais ainda de você.
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  Ela sorriu, mais aliviada. Mas ainda havia nervosismo escondido naquele sorriso e era compreensível. Porque, às vezes, conhecer o mundo do outro é também aprender a se enraizar nele e ela estava disposta.
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  Eu sabia.
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  E isso era tudo.
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  — Chegamos. — falei, engolindo seco.
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  %Alice% respirou fundo ao meu lado. Estava com as mãos entrelaçadas no colo, tentando esconder o nervosismo que eu conhecia bem demais. O maxilar dela estava travado, um sinal claro de que a CEO estava dando lugar à mulher que só queria causar uma boa impressão na casa do namorado.
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  — Pronta? — perguntei, apertando de leve sua mão.
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  — Acho que sim. — ela respondeu, forçando um sorriso. — Ou pelo menos… o mais pronta que dá pra estar.
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  Clara, por outro lado, desceu do carro com a pressa de quem voltava pro próprio ninho. Mal esperou desligar o motor e ela já corria pro portão com um sorriso que não cabia no rosto.
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  — Mãeeeeeee! — gritou, feito criança.
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  Minha mãe surgiu na porta com o avental florido, os braços abertos e os olhos marejados. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Clara correu e se jogou nos braços dela com força, como se quisesse matar toda a saudade de uma vez só.
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  — Minha menina… — murmurou minha mãe, apertando-a contra o peito, a voz embargada de emoção. — Você tá magrinha, Clara. Tá se alimentando direito, filha?
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  — Tô, mãe. Mas a saudade pesa mais que kilo. — ela respondeu, rindo com os olhos brilhando.
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  — Meus meninos! Minhas meninas! — exclamou então, olhando pra mim e pros outros, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Entrem! Vocês devem estar mortos de fome! Olha o calor que tá isso aqui! — Minha mãe foi entrando junto com Clara.
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  %Alice% hesitou um segundo antes de sair do carro. Seus olhos passearam pela fachada simples da casa, pela varanda com samambaias e a cadeira de balanço, como se tentassem mapear o terreno emocional daquele novo mundo.
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  — Vem. — murmurei, entrelaçando nossos dedos. — Eles vão amar você.
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  Ela assentiu. E sorriu. Um sorriso contido, nervoso, mas real.
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  A porta da frente rangeu um pouco quando empurrei. O cheiro de café passado na hora e bolo de fubá recém-saído do forno invadiu o ar, misturado com algo familiar, lembrança, talvez. Memória em estado bruto.
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  — Pode entrar. — falei pra %Alice%, ainda de mão dada com ela. — Fica à vontade.
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  Ela entrou devagar, como se o chão simples e bem varrido fosse feito de vidro. Olhava ao redor com atenção: os retratos antigos pendurados tortos na parede, o sofá com manta de crochê da minha avó, o rádio velho apoiado sobre uma estante baixa, a cortina de tecido florido balançando com a brisa.
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  %Alice% parecia absorver cada detalhe como se estivesse tentando se encaixar. Como se quisesse entender de onde eu vinha antes de fazer parte do meu presente.
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  E então, minha mãe surgiu do corredor. O sorriso largo, o cabelo preso no coque frouxo, e o mesmo avental florido de sempre, agora com uma nova manchinha de farinha.
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  — E essa aqui é a tal da %Alice%, né? — disse, indo direto abraçá-la. %Alice% arregalou os olhos, surpresa, mas se deixou envolver.
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  — Sou eu, sim. É um prazer conhecer a senhora.
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  — Senhora nada, menina. Me chama de Dora. Aqui ninguém tem tempo pra formalidade. — ela respondeu, com um olhar curioso que escondia, mal disfarçado, uma avaliação silenciosa. — Bonita, viu? E simpática. Fez bem, meu filho.
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  Fiquei vermelho. Literalmente. E antes que eu pudesse me recuperar, ela emendou:
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  — E esse moço bonito aqui — apontou pro Marcos, que se aproximava — é o namorado da minha menina, né?
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  — Isso mesmo, dona Dora. — Marcos respondeu, estendendo a mão com respeito. — Finalmente tive a honra.
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  — Menino educado. Clara escolheu bem também. — ela disse, puxando ele pra um abraço apertado.
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  — Cadê o pai? — perguntei, olhando ao redor.
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  — Foi comprar carvão pra assar uma carninha pra amanhã. Disse que queria agradar as visitas. Mas deve tá chegando.
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  Como se fosse combinado, ouvimos o portão rangendo. Meu pai apareceu, camiseta surrada, chapéu de palha e um sorriso que sempre foi maior do que ele próprio. Ele olhou pra todo mundo, viu as malas encostadas, a filha, o genro novo, a nora desconhecida. E então veio me abraçar com força.
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  — Eita, meu filho… Tava com saudade, viu? — disse, me dando três tapinhas nas costas.
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  — Eu também, pai.
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  Depois ele se virou pra %Alice%, ajeitando o chapéu como quem quer causar boa impressão.
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  — Oi, moça. Eu sou o Silvério. Pai do %Arthur%. É um prazer ter você aqui.
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  — O prazer é meu, seu Silvério. — ela disse, estendendo a mão. Mas ele, claro, puxou pra um abraço também.
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  — Aqui a gente é de abraço. — ele brincou.
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  Em seguida, olhou pra Clara com os olhos já marejando.
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  — Minha menina… — disse, emocionado, abrindo os braços.
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  Clara correu pra ele, rindo, e se jogou no abraço como quem se reencontra com um pedaço de casa.
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  — Tava morrendo de saudade, pai. — ela falou, escondendo o rosto no ombro dele.
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  — Eu também, minha filha. Sua falta é barulhenta aqui em casa, viu?
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  Depois, ele olhou para o Marcos com curiosidade calorosa e estendeu a mão, mas com aquele brilho travesso no olhar.
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  — E você é o rapaz que tá fazendo minha filha rir pelos cantos?
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  — Marcos. Muito prazer. — ele respondeu, sem jeito, apertando a mão do meu pai.
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  — Muito prazer nada, venha cá, rapaz. — E puxou Marcos pra um abraço desajeitado, mas sincero. — Se vai fazer parte dessa bagunça, tem que se acostumar com abraço também.
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  Todo mundo riu. Até o silêncio pareceu sorrir naquele instante.
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  A mesa da cozinha estava posta com generosidade. Pão caseiro ainda morno, bolo de fubá cortado em quadrados grandes, biscoitinhos amanteigados num prato de vidro e café preto passado na hora, fumegando na garrafa térmica azul.
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  — Senta aí, minha gente. — disse dona Dora, já puxando cadeiras. — Aqui a gente conversa melhor comendo.
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  Nos sentamos os seis à mesa — eu, %Alice%, Clara, Marcos, meu pai e minha mãe. A luz da manhã entrava suave pela janela, iluminando a toalha de mesa xadrez e dando um tom quase nostálgico à cena.
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  — Então… — Marcos começou, com aquele jeito leve de sempre. — A gente quer saber de tudo. Como era o %Arthur% e a Clara pequenos? Quem era mais levado?
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  — Os dois eram levados. — riu Silvério, servindo o café. — Mas o %Arthur% era mais calado. Vivia desenhando nos cadernos, nos guardanapos, nas paredes do quarto. Teve uma época que a gente não podia ver uma caneta fora do lugar que ele já pegava e sumia.
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  %Alice% sorriu, olhando pra mim com ternura.
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  — Já fazia arte desde pequeno, então?
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  — Fazia, menina. — confirmou dona Dora. — E quando a gente ia chamar ele pra almoçar, ele dizia que tava “terminando uma ideia”. Eu ficava doida! Tinha dias que era preciso desligar o disjuntor pra ele parar e vir comer.
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  — E a Clara? — %Alice% perguntou, curiosa.
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  — A Clara era falante, esperta, metida a mandar em tudo. — disse Silvério, rindo. — Organizava teatrinho, fazia os vizinhos de figurante, escrevia falas no caderno, queria que todo mundo decorasse.
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  — Um terror. — completou Dora, rindo também. — Mas tudo com bom coração. Sempre quis ser a protagonista de tudo, sempre sendo a “irmã mais velha”.
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  — Ué… mas eu sou dois anos mais nova! — Clara rebateu, rindo.
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  — Pois é. — disse o pai. — E mesmo assim, achava que mandava no irmão mais velho desde que aprendeu a falar.
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  A mesa caiu na gargalhada, e até eu tive que rir. Porque era verdade. Clara podia ser a mais nova… mas sempre teve alma de general de quintal.
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  O papo seguiu leve, cheio de histórias da infância: a vez que roubamos goiaba do vizinho e nos escondemos embaixo da cama, o dia que eu levei bronca na escola por desenhar a professora como uma bruxa, a primeira vez que Clara ficou de castigo por “emprestar” as ferramentas do nosso pai pra montar uma cabana no quintal.
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  %Alice% ouvia tudo com os olhos brilhando, rindo alto, às vezes segurando minha mão debaixo da mesa. E eu? Eu só observava. Aquilo. Ela ali. Como se fosse parte desde sempre.
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  — E vocês, meus filhos? — perguntou Dora depois, olhando pra %Alice% e Marcos. — O que vocês fazem da vida?
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  — Eu curso Engenharia com a Clara. — respondeu Marcos, ajeitando os óculos. — Quero seguir na área aeroespacial, mas por enquanto tô estagiando numa empresa de engenharia civil.
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  — Olha que bonito. — disse Silvério, sincero. — Isso é importante demais, rapaz. Boa sorte nesse caminho.
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  — Obrigado, senhor. — Marcos sorriu, um pouco tímido, mas com aquele brilho de quem acredita no que tá construindo.
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  Os olhos da minha mãe então se voltaram para %Alice%. Curiosa. Atenta. Não de forma dura, mas com aquele jeito de quem ainda tá tentando entender o que une mundos tão diferentes.
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  — E você, minha filha?
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  %Alice% limpou a boca com o guardanapo de pano e respondeu com um sorriso sereno:
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  — Eu sou CEO da Domus Enterprises. — respondeu %Alice% com naturalidade. — É uma holding especializada em marketing e publicidade. A gente desenvolve campanhas estratégicas e posicionamento de marca para grandes empresas. Trabalhamos com vários setores, desde tecnologia até incorporação imobiliária.
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  Silêncio.
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  Um breve silêncio.
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  Até meu pai colocar a xícara na mesa com um toc.
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  — Rapaz…
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  — Eita. — murmurou Clara, escondendo o riso. Dora piscou algumas vezes.
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  — E… é tipo… chefe mesmo?
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  — Tipo isso. — %Alice% respondeu, mantendo o tom humilde. — Tenho uma equipe muito boa comigo, mas sim, estou à frente da empresa desde os 28.
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  — Oxente. — disse meu pai, com os olhos arregalados. — Eu achei que você trabalhava em banco. Ou sei lá, na parte administrativa de uma firma.
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  — É mais ou menos isso. Só que a firma é dela. — Marcos completou, divertido.
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  Eu já ia intervir, dizer algo, amenizar, quando vi minha mãe balançar a cabeça, com um sorriso entre encantado e surpreso.
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  — Eu nunca imaginei que o %Arthur% fosse namorar uma mulher tão decidida.
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  — Nem eu. — disse meu pai, honesto. — Mas olha… deu gosto de ver como você fala com firmeza. Tem brilho no olho. A gente vê quando a pessoa gosta do que faz.
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  — Gosto mesmo. — %Alice% respondeu, olhando de canto pra mim. — Mas mais do que tudo… gosto dele.
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  Eu corei. Minha mãe sorriu.
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  E ali, com café quente e bolo partilhado, eu soube que ela tinha ganhado espaço. Não só no meu coração, mas naquela casa também.
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  Depois do café reforçado, minha mãe empurrou mais uma fatia de bolo pro Marcos, disse que a %Alice% tava “muito fina” pra comer tão pouco e já avisou que o almoço seria galinhada no fogão a lenha.
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  Enquanto ela recolhia as xícaras, meu pai se levantou e olhou pra mim com aquele ar de quem já tinha um plano em mente.
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  — Tô indo ali na fazenda do seu Zeca ver o pasto novo... Se quiserem, posso levar vocês pra conhecer. Tá bonito demais depois da chuva. E tem uns cavalos mansos lá que vocês podem montar.
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  — Cavalos? — %Alice% perguntou, com um sorriso contido e as sobrancelhas arqueadas.
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  — Tem medo, moça? — meu pai respondeu com um brilho divertido nos olhos.
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  — Não. Mas nunca montei. No máximo, cavalo de carrossel.
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  — Pois vai gostar. A vista de cima muda tudo.
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  E foi assim que, meia hora depois, a gente tava a caminho da fazenda. Marcos parecia levemente arrependido da decisão e Clara já tinha colocado um chapéu de palha emprestado da mãe. %Alice% segurava firme minha mão no banco de trás da caminhonete, tentando disfarçar a ansiedade.
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  A fazenda era um espetáculo à parte. Cercas de madeira, galinhas soltas perto da casa principal, uma porteira que rangia e aquele cheiro bom de mato e terra molhada. Seu Zeca, um senhor magro e simpático, recebeu a gente com sorriso largo e dois cavalos já selados nos esperando.
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  — Esses dois são mansinhos. O branquelo é o Lua, e o mais escuro ali é o Carvão. Podem confiar. — garantiu.
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  Ajudamos %Alice% e Marcos a montarem primeiro. Marcos quase caiu tentando subir de um pulo só, e Clara não perdeu a chance de rir alto.
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  — Achei que o atleta aqui era você, amor. — ela provocou.
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  — Tô economizando energia pro casamento. — ele rebateu, ajeitando o chapéu torto na cabeça.
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  %Alice%, por outro lado, surpreendeu. Segurou firme nas rédeas, ouviu as instruções com atenção e, aos poucos, foi se acostumando com o movimento do animal sob ela.
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  — Ok... isso é oficialmente mais legal do que eu esperava. — ela disse, sorrindo. — Tipo filme de faroeste. Só falta a trilha sonora dramática.
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  — Cuidado que aqui em Lizarda, filme de faroeste vira documentário rapidinho. — brinquei, cavalgando ao lado dela.
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  Seguimos os quatro por uma trilha de terra batida que contornava um campo aberto e depois se afunilava entre árvores altas. O sol forte refletia no chão seco, mas a sombra das árvores e o vento leve tornavam o passeio agradável.
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  Foi no meio desse silêncio tranquilo, quebrado só pelo trote dos cavalos e os sons da natureza ao redor, que %Alice% olhou pra mim e disse:
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  — Seus pais... são incríveis.
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  — Eles gostaram de você. Já te adotaram, acho. — Ela sorriu, abaixando um pouco a cabeça.
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  — Eu tava com medo, sabe? De não caber nesse mundo. De parecer... artificial demais, mas foi tudo tão natural.
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  — Porque você pertence. Não é sobre de onde a gente vem. É sobre pra onde a gente quer ir.
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  %Alice% esticou a mão até alcançar a minha. E ali, em cima de um cavalo emprestado, no meio do mato, com cheiro de terra e coração batendo tranquilo, eu soube que aquela mulher — com toda sua força, seu mundo sofisticado, seus medos e a coragem de superá-los — cabia em qualquer lugar que eu chamasse de lar.
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  Voltamos da fazenda no fim da tarde, cheios de poeira, risadas e histórias novas. O céu já tingia o horizonte de laranja queimado quando chegamos em casa, e o cheiro da galinhada no fogão a lenha nos recebeu como um abraço quente.
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  — Vai todo mundo direto pro banho! — gritou dona Dora da cozinha, já mexendo a panela com a colher de pau como se regesse uma orquestra.
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  No almoço-jantar, a mesa estava ainda mais cheia. Meus tios tinham passado por lá, um vizinho apareceu “só pra dar um oi”, e logo a cozinha virou aquela bagunça boa: vozes sobrepostas, piadas internas, pratos sendo repostos antes mesmo de esvaziar.
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  %Alice% foi elogiada pela compostura, pelo apetite e até pelo jeito de segurar o copo — minha tia disse que “essa menina tem modos de princesa, mas sorriso de mulher de verdade”.
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  Depois, já quase meia-noite, minha mãe levantou com um bocejo teatral:
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  — Vamos ajeitar os quartos, né? Meninas num, meninos noutro. Aqui a casa pode ser moderna no wi-fi, mas continua tradicional no resto.
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  %Alice% engasgou levemente com o chá. Marcos soltou um “vish” abafado. E eu... apenas engoli a frustração com o pão de queijo.
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  Mais tarde, o silêncio da casa caiu como um cobertor pesado. No meu quarto, Marcos já dormia roncando baixo, de barriga cheia e alma em paz. Eu, por outro lado, só virava de um lado pro outro, olhos presos no teto e o corpo inquieto.
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  Até ouvir três batidas secas e leves na janela.
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  Levantei sem fazer barulho, empurrei a vidraça e lá estava ela. %Alice%, de moletom e pés descalços, com aquele sorriso de canto que só aparecia quando ela tava tramando alguma coisa.
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  — Vem pro quintal. — sussurrou.
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  — Você quer me matar, é isso?
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  — Quero… mas de outro jeito.
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  Desci pelas escadas da cozinha como um ladrão em missão secreta e a encontrei encostada no pé de acerola, os cachos soltos, bagunçados de sono, e o rosto meio iluminado pela lua e pelo abajur velho da varanda que insistia em piscar.
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  — Você tá linda. — falei, antes mesmo de pensar.
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  — E você tá me devendo beijos desde a estrada.
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  Não precisei de mais convite. Me aproximei, peguei o rosto dela entre as mãos e a beijei devagar, com a calma de quem queria saborear cada segundo. Mas ela não estava com pressa, estava faminta.
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  O beijo começou lento, mas logo virou outra coisa. Urgente. Quente. A respiração dela contra a minha, os dedos puxando minha camiseta, as mãos me prendendo pela nuca. A boca dela tinha gosto de saudade e lavanda. E tudo nela pedia mais.
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  Encostamos no tronco da árvore, os corpos se pressionando num ritmo familiar, desesperado e contido ao mesmo tempo. Um aperto aqui, um gemido baixo ali. Ela mordeu meu lábio de leve e puxou meu quadril mais perto.
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  — Você tá me deixando louca. — sussurrou, com a voz rouca de desejo.
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  — Você me deixou assim faz tempo.
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  Beijei o pescoço dela, sentindo a pele arrepiar. Os dedos dela se afundaram no meu cabelo e as pernas roçaram nas minhas com precisão. Era difícil lembrar que a casa estava cheia, que estávamos a poucos metros da minha mãe, que um galo podia cantar a qualquer momento.
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  E então… um estalo.
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  Alguém chutou um balde, ou uma telha caiu. Sei lá. Mas o barulho veio de perto, e nos fez congelar.
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  Ela me empurrou com as mãos no peito, rindo entre o susto e o nervoso, ainda com os lábios inchados do beijo.
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  — Meu Deus… — sussurrou, tentando recuperar o fôlego. — Você me deixa igual adolescente. Daqueles que fogem pra se pegar atrás do galinheiro.
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  Ri baixinho, encostando minha testa na dela e dando um selinho demorado, só pra não deixar a vontade acabar ali.
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  — E você me deixa burro. Burro o suficiente pra achar que isso aqui é uma boa ideia. — falei, beijando de novo o canto da boca dela.
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  — É a melhor ideia. — respondeu, colando nossos corpos de novo.
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  Ficamos ali mais alguns minutos, só nos tocando, respirando perto demais, rindo do absurdo que era precisar se esconder como dois moleques apaixonados no quintal da casa dos meus pais.
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  Mas era isso. A gente era isso.
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  E mesmo que fosse loucura, era a nossa loucura favorita.
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💻👠

  Acordei com o cheiro de alho e cebola dourando na manteiga. O som do rádio velho tocando modão baixo e o tilintar de talheres na panela denunciavam que a cozinha já estava em movimento. Levantei devagar, me espreguicei e fui até o corredor, guiado mais pelo instinto do que pelos pés. Me escondi discretamente na porta entreaberta e vi a cena que quase me fez voltar a sonhar só pra viver aquilo de novo.
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  %Alice% estava ali. De avental emprestado, cabelo preso em um coque torto e rindo de algo que minha mãe dizia. Cortava tomate com cuidado, precisão e foco. Mas sorria como quem sabia que ali, naquele ambiente simples e cheio de calor, ela era bem-vinda.
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  — Esse tempero aí é segredo de família, viu? — Minha mãe dizia, apontando com uma colher de pau. — Se contar pra alguém, ele desanda.
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  — Pode deixar. Confidencial. NDA assinado. — %Alice% respondeu, com aquele humor de canto de boca que me fazia apaixonar por ela de novo todo dia.
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  Fiquei só observando por alguns minutos, com o coração leve e um sorriso besta no rosto. Ver a mulher que eu amo se encaixando ali — entre panelas, cheiro de comida e afeto — era mais do que um sonho realizado. Era casa. Em todos os sentidos possíveis.
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  — Tá na mesa, minha gente!
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  Nos sentamos todos juntos, eu, %Alice%, Clara, Marcos, minha mãe e meu pai. A mesa estava farta: arroz soltinho, feijão com caldo grosso, carne de panela que desmanchava só de olhar, salada fresquinha, farinha torrada com alho e, claro, suco de caju gelado na jarra grande.
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  — Olha esse cheiro, meu Deus do céu… — Marcos comentou, puxando a cadeira ao lado da Clara. — Se eu comer demais, vocês me carregam pra rede depois?
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  — Rede não, meu filho — disse dona Dora, já se sentando com o pano de prato no ombro. — Aqui quem come muito ajuda a lavar a louça depois!
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  — Ih, se prepara então, Marcos — Clara riu — Você vai lavar até a panela da carne.
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  — Com esse tempero aqui? Vale o sacrifício. —  ele caprichou no prato, enquanto se servia.
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  O almoço correu do jeito que só um almoço em casa de mãe sabe correr: conversas atravessadas, gargalhadas altas, disputas por quem pegava o último pedaço da carne.
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  — E esse feijão, dona Dora? — %Alice% elogiou, com a voz embargada entre a timidez e a satisfação. — Nunca comi um igual.
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  Minha mãe deu um sorrisinho de canto, limpando as mãos no pano de prato com aquele olhar de quem já tinha sido cativada.
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  — Ué, mas você ajudou a fazer, menina! — disse, com afeto. — Foi você quem cortou o alho e ficou mexendo a panela enquanto eu ajeitava a carne.
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  — Mas o tempero é seu. Eu só segui ordens. — %Alice% respondeu, com um riso leve, olhando para ela com carinho.
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  — Ah, menina… se você quiser mesmo a receita, tem que vir aqui pegar pessoalmente — disse Dora, piscando, com orgulho na medida certa.
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  — Se tiver bolo de fubá envolvido, eu venho quantas vezes for preciso. — %Alice% brincou, e todo mundo riu.
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  Meu pai, por sua vez, passou metade do tempo contando histórias da infância que eu jurei que estavam enterradas para sempre. E a outra metade... olhando pra %Alice% com aquele brilho de quem já tinha adotado.
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  — Lembro como se fosse ontem do %Arthur% escondendo goiaba no colchão pra comer de madrugada. Apodreceu tudo. A Dora quase teve um troço.
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  — Silvério! — minha mãe reclamou, rindo. — Vai ficar queimando o menino na frente da namorada?
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  — Ué, ela tem que saber no que tá se metendo.
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  — Olha, eu já tô colecionando material pra chantagem — disse %Alice%, divertida. — Toda CEO precisa de um bom arquivo secreto. — Clara gargalhou com a boca cheia.
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  — Ihhh, %Arthur%, você vai ter que se explicar agora. — Fiz uma careta e levantei o copo de suco em protesto.
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  — Difamação no próprio lar. É isso que eu ganho por voltar pra casa?
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  — Vai dar trabalho pra você, viu, %Arthur%? — emendou meu pai, servindo mais suco no copo da %Alice%. — Mulher decidida é bicho arretado.
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  — Eu gosto de trabalho. — respondi, sem pensar, olhando para ela. %Alice% sorriu com os olhos, daquele jeito que só eu entendia.
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  Minha mãe aproveitou o momento e apontou o garfo pra gente.
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  — Mas olha… fiquei feliz demais de ver vocês dois aqui. De verdade. É bom quando a gente vê que o filho da gente tá sendo amado de um jeito bonito. E você também, Clara — ela olhou pra filha, depois pro Marcos. — Esse moço aí é doce. Tem jeito de quem cuida.
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  Marcos ficou vermelho até a orelha.
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  — Obrigado, dona Dora. Tô me sentindo em casa mesmo.
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  Depois do almoço, meus pais foram descansar no sofá, embalados pelo som da novela baixinha na TV. Clara e Marcos saíram pra caminhar, alegando “digestão ativa”.
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  — Na verdade a gente quer ver se a vendinha da esquina ainda vende aquele picolé de milho — Clara confessou, pegando a mão do namorado. — E dar uma volta, claro. Matar saudade.
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  — Boa sorte — disse %Alice%, rindo. — E tragam um pra mim se acharem.
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  Depois do almoço, quando o sol começou a baixar e o vento ficou mais fresco, a gente escapou pra varanda. Meus pais ainda estavam na sala, embalados pelo som da novela, e Clara e Marcos tinham saído de novo, agora pra visitar um antigo vizinho. Só restamos nós dois — sentados numa rede meio frouxa, lado a lado, os pés balançando no ar, os dedos entrelaçados devagar, como se o tempo tivesse desacelerado só pra deixar a gente respirar.
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  %Alice% encostou a cabeça no meu ombro e ficou em silêncio por um tempo, os olhos no céu que começava a ganhar tons cor-de-rosa.
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  — Se a gente tivesse filhos, você acha que eles iam puxar mais a quem? — ela perguntou de repente, com a voz mansa, quase sonolenta.
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  — A você, com certeza. — respondi, rindo baixinho. — Imagina uma criança com o meu jeitinho metódico e... socialmente inapto? Ia ser um mini-sistema de planilhas ambulante.
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  — E a minha teimosia? — ela provocou, com um sorrisinho preguiçoso.
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  — Perfeito. Uma pequena CEO de fraldas, exigindo relatórios às três da manhã e recusando colo porque quer fazer tudo sozinha.
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  Ela riu alto, com aquele riso que eu amava — e que, honestamente, me desmontava inteiro.
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  — E se eu largasse tudo e virasse sua secretária? — ela perguntou, como quem jogava uma ideia no vento.
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  — Eu pediria um aumento. — disse, sério.
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  — A gente é o RH, %Arthur%. — ela rebateu, divertida.
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  — Então eu aceitaria. Com algumas cláusulas, claro.
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  — Quais?
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  — Beijos obrigatórios a cada meia hora. Direito à rede compartilhada. Café na cama uma vez por mês.
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  — Só uma?
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  — Eu sou um chefe ponderado. Mas podemos renegociar no segundo trimestre do namoro.
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  Ela se afastou um pouco só pra me olhar de perto. O cabelo bagunçado caía num lado do rosto, e os olhos dela brilhavam de um jeito tão calmo e bonito que eu quase esqueci como se respirava.
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  — Você ainda tem medo? — ela perguntou, mais baixo.
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  Demorei um segundo. Não por dúvida, mas por respeito ao peso daquela pergunta.
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  — Não. — respondi, firme. — Não quando você tá aqui. É como se... tudo finalmente tivesse encontrado seu lugar.
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  %Alice% não disse nada. Só voltou a encostar a cabeça no meu ombro, os olhos fechando aos poucos, o corpo se rendendo ao embalo lento da rede, como se ali fosse o lugar mais seguro do mundo.
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  E talvez fosse.
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  Entre o cheiro de terra molhada, o som das árvores balançando devagar e o calor morno da presença dela colada na minha, não existia mais pressa. Nem medo. Nem passado.
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  Só a certeza silenciosa de que amar — mesmo com todos os ruídos, diferenças e tropeços — era isso. Ficar.
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Capítulo 18
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