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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

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Segredo de Escritório


Escrita porNyx
Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 17 • Confissões e Quilômetros

  Quando ela desligou o alarme do carro, pronta para abrir o portão automático da mansão, eu tomei coragem.
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  — Amor... — chamei, baixo. Ela me olhou de lado, ainda com os ombros tensos da conversa com a mãe. — Você pode me deixar em casa?
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  Ela franziu o cenho, surpresa.
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  — Em casa? Você não quer ir para cobertura? — Hesitei só um segundo, antes de inventar.
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  — Clara me mandou mensagem mais cedo. Parece que tá meio na bad… só queria estar lá hoje, fazer companhia, sei lá.
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  %Alice% continuou me encarando, como se procurasse rachaduras no que eu dizia. E talvez até tivesse, mas ela não contestou. Apenas assentiu com um movimento pequeno da cabeça e ligou o carro de novo.
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  — Tá bom. Eu te levo.
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  O caminho de volta foi silencioso. Mas não o tipo de silêncio confortável, que se acomoda entre duas pessoas como um cobertor macio. Foi o silêncio denso, incômodo, do tipo que preenchia o carro com mais ruído do que a música do rádio conseguiria cobrir.
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  %Alice% dirigia com as mãos firmes no volante. De vez em quando ajeitava o cabelo ou tocava o próprio joelho, numa inquietação contida. Os olhos fixos na estrada. Eu fingia olhar a paisagem pela janela, mas não via nada. Só repetia a conversa. Palavra por palavra.
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  Quando ela estacionou na frente do prédio, ficou em silêncio. Não desligou o motor, nem me apressou.
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  — Me avise quando chegar. — disse por fim, num tom mais baixo, mais contido do que o habitual.
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  — Aviso sim. — respondeu, puxando um sorriso curto, quase tímido.
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  Me inclinei e beijei sua boca devagar, com um cuidado que não pedia pressa. Meus lábios repousaram nos dela por um segundo a mais do que o habitual — não pela intensidade, mas pelo significado. Foi um beijo calmo. Silencioso. Quase como se dissesse “obrigado”... e também “me perdoa”.
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  E então saí. Sem olhar pra trás. Porque, se olhasse... talvez não conseguisse ir embora.
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  Fechei a porta do apartamento. Clara ainda não tinha chegado. O silêncio me recebeu como um velho conhecido — não exatamente bem-vindo, mas familiar o bastante pra saber onde apertar.
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  Joguei a mochila no sofá com desleixo e fui direto pro quarto. Tirei a camisa, depois a calça social, os sapatos — cada peça caindo no chão como se estivesse cheia de tudo o que eu não consegui dizer hoje.
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  Fiquei parado diante do espelho. O cabelo bagunçado. As olheiras fundas, quase esculpidas. Os olhos vermelhos, mas não era cansaço, era exaustão de um outro tipo.
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  E doeu.
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  Doeu de um jeito silencioso, íntimo, covarde. Doeu porque, pela primeira vez em muito tempo, eu me enxerguei como eles me enxergavam.
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  Um garoto comum. Pobre. Que cresceu ouvindo que teria que trabalhar o dobro pra ser metade. Que vivia de rabiscos e de sonhos que ninguém levava a sério. Que ainda morava num apartamento apertado e com azulejo antigo. E que, mesmo agora, mesmo amando do jeito mais inteiro que sabia, ainda se perguntava se algum dia ia ser suficiente para alguém como ela.
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  O barulho da campainha me arrancou desse torpor. Não era entrega. Não era Clara. Já tinha escurecido. E, no fundo, antes mesmo de levantar… eu soube.
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  Vesti uma bermuda e levantei devagar, o corpo pesado como se cada passo fosse puxado por dentro. Atravessar aquele corredor foi como cruzar um campo minado de inseguranças mal resolvidas.
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  Quando abri a porta, ela estava lá.
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  %Alice%.
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  Casaco escuro, olhos ainda carregados, como se o dia tivesse drenado tudo que havia de paciência. Mas era ela. Sempre ela.
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  — Oi. — disse, baixinho.
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  — Oi. — repeti, engolindo seco. Dei espaço e ela entrou.
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  Fomos direto pra sala, como se o resto do apartamento nem existisse. %Alice% deixou a bolsa no sofá e virou de frente pra mim, os braços cruzados como escudo.
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  — Você sumiu. — falou. — E não foi só no carro. Tá sumido aqui. Nos olhos.
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  — Eu só... precisava de silêncio. — respondi, sentando. — Pra pensar.
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  — Pensar no quê?
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  — Em tudo. — soltei o ar devagar. — Eu ouvi. A conversa entre você e sua mãe, quando fui ao banheiro. Eu estava voltando e... parei sem querer. E aí já era tarde demais...
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  Ela congelou, mas não desviou o olhar.
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  — Eu ia te contar. — disse, sentando ao meu lado. — Ia te dizer o que houve, mas você ficou tão quieto… eu achei que talvez quisesse espaço.
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  — Eu queria. Ainda quero. Mas também quero entender.
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  — %Arthur%, o que eu disse pra ela... era verdade. Eu não tenho vergonha de você. Nem por um segundo.
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  — Mas ela tem. E isso ficou bem claro.
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  — Ela sempre teve vergonha de tudo que não consegue controlar. E você não é controlável. Você é… você. E isso é o que mais me atrai.
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  — Eu só… — passei as mãos no rosto. — Eu a ouvi dizendo que eu era limitado, que eu não era homem pra você.
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  — E eu disse que se fosse preciso, eu cortava ela da minha vida. Disse isso com todas as letras. Eu quis que ela soubesse, que entendesse que não se trata dela, nem do que ela quer. É sobre o que eu quero. E o que eu quero é você.
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  Ela se virou de frente pra mim, e segurou minha mão com força.
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  — Eu amo você. E não tô dizendo isso pra compensar. Eu tô dizendo porque é verdade. Porque amar você me fez melhor e eu não troco isso por herança nenhuma.
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  Demorei pra falar. Porque, pela primeira vez, eu sabia que ela falava sério. E isso doía e aquecia ao mesmo tempo.
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  — Eu também te amo. — sussurrei. — Mas… às vezes eu olho pra mim, pra você… e me pergunto quanto tempo vai levar até o mundo tentar engolir a gente.
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  Ela sorriu com a cabeça baixa e balançou a cabeça.
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  — Enquanto você me amar… eu vou lutar com você. Um dia de cada vez.
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  E então ela me beijou.
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  Devagar. Depois mais fundo. A mão dela foi pro meu rosto, a minha pra cintura dela, puxando devagar, sem pressa. Nos deitamos ali mesmo no sofá, os corpos se encontrando em silêncio, a respiração começando a acelerar. As mãos deslizando sem urgência, mas com necessidade.
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  — %Alice%… — murmurei entre beijos.
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  — Eu tô aqui. — ela sussurrou contra meu pescoço.
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  O barulho da chave girando na porta foi como um balde de água fria. Nos afastamos num pulo.
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  — %Arthur%? — Clara entrou com uma sacola na mão, e Marcos logo atrás. — Ah. Vocês estão aqui.
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  %Alice% ajeitou o cabelo, ofegante. Eu me sentei no sofá, tentando parecer casual.
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  — A gente tava… conversando. — falei.
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  Clara arqueou a sobrancelha com um sorrisinho maroto.
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  — Uhum. Conversando, claro. E aí, %Alice%, vai dormir aqui hoje?
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  — Ainda não sei. — ela respondeu, com um sorriso cúmplice. — Mas a conversa foi boa.
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  Clara piscou e foi direto pra cozinha. Eu olhei pra %Alice% e ela me olhou de volta. A conversa tinha sido boa mesmo, mas eu sabia que ainda tinha mais por vir.
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👠💻

  No dia seguinte, nem o café forte, nem os projetos acumulados, nem os elogios da Marina conseguiram abafar a sensação de deslocamento que insistia em voltar. Era como estar presente com o corpo… mas com a cabeça a dois quarteirões de distância.
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  O barulho do garfo batendo no prato do lado me tirou do modo automático. Estávamos em mais um daqueles almoços no restaurante por quilo perto do estúdio. O cheiro de comida, a conversa dos outros, os talheres — tudo girando num ritmo que eu não conseguia acompanhar direito hoje.
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  Sentei com o Hugo e a Ana mais por inércia do que vontade.
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  — A gente se conheceu aqui, né? — Hugo falou com aquele tom leve de sempre. — Primeiro job juntos, primeira briga por causa de referência visual, primeiro beijo na escada de incêndio… — Ana riu.
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  — Você é péssimo em datas, mas ótimo em transformar drama em romance.
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  — Foi meio isso mesmo. — ele olhou pra mim. — E você, %Arthur%? Ainda não contou pra gente... tá com alguém?
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  Fingi que estava concentrado no feijão. Olhei pro prato como se dependesse dele pra sobreviver.
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  — Deixa o %Arthur% quieto. — Ana disse, me dando uma cobertura sutil, mas o olhar dela também era curioso. — Apesar que... tem uma coisa.
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  — O quê? — perguntei, sem levantar a cabeça.
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  — A moça do carrão. — ela disse, como quem solta uma carta estratégica. — Aquela que às vezes vem te buscar aqui na porta. Já vimos mais de uma vez. Salto alto, blazer, aquele carro que parece cuspido de um comercial da BMW. Vai dizer que é sua prima?
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  Suspirei. A boca querendo negar, mas o coração... não deixava.
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  — Não. — murmurei. — É minha namorada.
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  Hugo largou os talheres com um clac animado.
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  — Aí sim! E você escondendo o ouro! — disse, rindo. — O menino é discreto, mas tá namorando uma ricaça, é isso?
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  — Ela não é uma ricaça. — corrigi, mesmo sabendo que era. — Ela só... trabalha com liderança.
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  Ana estreitou os olhos, claramente juntando as peças com mais rapidez do que eu gostaria.
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  — Ahn. Tá apaixonado, %Arthur%?
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  Sorri, pequeno.
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  — Sim, tô tentando ser feliz, só isso.
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  Eles sorriram também. E voltaram a comer, mas a atmosfera ao redor parecia mais leve, como se agora soubessem de um segredo que nos deixavam cúmplices. Se eles soubessem de tudo...
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  — Um dia a gente quer conhecer. — Hugo disse, por fim.
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  — Um dia. — respondi.
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  Mas antes disso, eu ainda precisava provar pra mim mesmo que merecia estar com ela.
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  O fim do expediente chegou como sempre: tarde demais e rápido demais ao mesmo tempo. O céu já começava a mudar de cor, estava cansado, a cabeça cheia. O coração... nem se fala.
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  Eu já estava descendo as escadas do estúdio quando a vi. Encostada no carro, braços cruzados, blazer jogado nos ombros e um sorriso enviesado de quem sabia exatamente o impacto que causava. %Alice% ergueu a mão num aceno breve, e o coração bateu no mesmo ritmo de sempre — acelerado, meio sem aviso.
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  Quando me aproximei, ela destravou o carro com um clique e abriu a porta do motorista com elegância.
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  — Entra. — disse, sem perder o sorriso.
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  Obedeci, meio hipnotizado, e me acomodei no banco do passageiro. Ela deu a volta com passos calmos e seguros, entrou ao meu lado e fechou a porta com um estalo firme.
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  — Oi. — falei, virando um pouco o rosto na direção dela.
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  — Oi, você. — ela respondeu, se inclinando para me dar um selinho demorado, daqueles que aquecem o peito mais do que o ar-condicionado.
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  Logo depois, deu partida com a mesma tranquilidade de quem carrega um furacão no porta-luvas.
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  Ficamos em silêncio por um minuto ou dois, só o barulho da cidade filtrando pela janela aberta. A respiração dela estava calma, mas o jeito como segurava o volante — firme demais — entregava que ainda havia coisas não ditas. Até que ela quebrou o clima:
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  — Sobre o almoço com a minha mãe… — começou, com a voz mais baixa do que o habitual.
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  Eu respirei fundo, como quem se prepara para uma colisão inevitável.
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  — Não foi exatamente... caloroso. — ela continuou, os olhos presos na rua à frente. — Mas eu fui firme. Disse que não tinha espaço pra ela interferir nas minhas escolhas. E que se ela quisesse continuar fazendo parte da minha vida, precisava aceitar você nela.
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  Virei um pouco o rosto, observando o perfil dela à luz do fim de tarde. Havia algo no tom que era mais do que simples desabafo — era um limite traçado a ferro e fogo.
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  — E ela? — perguntei, com cautela.
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  %Alice% soltou uma risada breve, sem humor.
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  — Disse que não entende. — deu de ombros. — Que não aprova, mas respeita. Que esperava outra coisa pra mim… outro tipo de futuro. Mas percebeu que não vai conseguir me moldar do jeito que fazia antes. E que, mesmo com todas as ressalvas dela, viu que eu tô feliz. E que você me faz bem.
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  Ela respirou fundo, como se cada palavra da mãe ainda estivesse ali, latejando por dentro.
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  — Acho que... ela vai engolir a própria expectativa. Vai fingir que não vê, que não escuta, que não concorda, mas vai estar presente. Aos poucos. Do jeito torto dela. É o que temos. Não é uma aceitação calorosa, mas é um começo.
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  Eu fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando digerir tudo. %Alice%, tão acostumada a ser racional e impenetrável, tinha enfrentado o coração de pedra da própria mãe por mim.
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  — Isso é... muita coisa. — murmurei, mais tocado do que consegui demonstrar. — Obrigado por não desistir.
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  Ela soltou uma risada suave, dessa vez verdadeira, e apertou minha mão que estava sobre o câmbio.
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  — Eu já desisti de muita coisa pra caber nos moldes da minha mãe, %Arthur%. Mas de você? Nem pensar.
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  Assenti, olhando pela janela. Deveria ser um alívio — e era, em partes. Mas o silêncio que veio depois trouxe junto aquele velho incômodo. A diferença de mundos. De realidades.
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  — %Alice%... — comecei, devagar. — Você tem noção que só o valor do condomínio do seu apartamento é maior do que meu salário?
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  Ela olhou de relance, depois voltou os olhos pra estrada.
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  — E?
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  — E isso é surreal. A gente vive universos diferentes.
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  — %Arthur%… — ela suspirou. — Você acha mesmo que eu tô com você esperando equilíbrio bancário? Eu não quero você se importando com essas coisas.
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  — Mas e se isso virar um problema?
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  — Não vai. — disse, firme. — Namoros sérios evoluem. E é óbvio que, em algum momento, a gente vai falar sobre casamento, casa, rotina... Mas a minha conta bancária não pode ser o motivo da gente ter uma DR. Eu te amo. E isso é o que importa.
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  Fiquei quieto. Tentando absorver o que, para ela, parecia tão simples.
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  — Eu não me importo de pagar as coisas da casa. Se a gente morar junto, eu cuido disso. Eu cresci com tudo isso sendo natural.
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  — E eu cresci sabendo que eu tinha que correr atrás. — respondi. — Se a gente casar um dia, eu vou ajudar. Mesmo que seja com pouco e que você possa cobrir tudo.
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  Ela sorriu, sem desviar os olhos do trânsito.
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  — E é por isso que eu te amo, %Arthur%. Porque você nunca foi pequeno. Nem quando o mundo tenta te fazer sentir assim.
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  Soltei o ar devagar. Olhei pra ela, com aquele amor que era meio susto, meio milagre.
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  — E é por isso que eu tô tentando ser suficiente pra você. Mesmo com o medo inteiro no bolso do casaco.
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  Ela soltou uma risada baixa, doce.
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  — Você já é.
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  E a mão dela procurou a minha sobre o câmbio. Quente, firme, decidida.
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  Naquele instante, a diferença entre os nossos mundos parecia menos importante. Porque o que a gente tava construindo ali, entre sorrisos, DRs e trânsito engarrafado... era um universo só nosso.
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  Os dias passaram.
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  Não com a leveza que eu gostaria, mas passaram. %Alice% e eu voltamos a nos ver com frequência — o café da manhã juntos, as noites no sofá, os domingos preguiçosos em que ela tentava fazer panquecas e eu fingia que dava certo. A vida seguiu. A gente seguiu.
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  E eu tentava. De verdade. Tentava me manter no presente, nos olhos dela, na risada dela, nos dedos entrelaçados nos meus durante um filme qualquer, mas vez ou outra, o fantasma daquela manhã voltava.
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  O tom da mãe dela. A palavra "limitado". A forma como me vi, mesmo depois de tudo, ainda duvidando se bastava.
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  No trabalho, eu me agarrava ao que me fazia bem. Aos rabiscos no sketchbook, às reuniões criativas, às ideias que surgiam no meio de um café derramado. Hugo sempre puxava conversa com aquele entusiasmo de quem parecia viver em ritmo de trilha sonora otimista. Ana me arrastava pros feedbacks coletivos com Marina, que continuava dizendo que meus traços tinham alma.
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  Era bom. Era leve. Era o que eu precisava. Mas mesmo assim… havia algo que não desgrudava. Talvez fosse só coisa da minha cabeça, fosse o medo voltando em ondas pequenas, disfarçado de paz.
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  Foi quando ouvi.
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  A conversa veio pelo corredor, num tom baixo demais pra ser oficial e alto demais pra não alcançar meus ouvidos.
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  — …aquela recomendação perfeita, vinda da %Dias%, CEO da Domus… — disse o senhor Navarro, com aquele jeito empolgado de quem valoriza bons contatos e sobrenomes importantes.
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  Parei. Congelado.
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  %Dias%. CEO da Domus.
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  %Alice%.
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  Me escondi atrás do monitor como se aquele gesto patético fosse capaz de amortecer o impacto do que eu tinha acabado de ouvir, mas era tarde. O nome dela martelava na minha cabeça como se alguém tivesse acabado de gritar.
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  A garganta secou. O coração bateu como se tivesse tropeçado num degrau invisível.
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  Não era coincidência. Não podia ser. Eu sabia como o Navarro falava quando estava impressionado. Eu conhecia aquele tom. Aquele entusiasmo.
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  E então, tudo fez sentido. As portas abertas. O convite inesperado. O elogio súbito. A oportunidade que tinha surgido rápido demais, sem que eu tivesse me movido.
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  Ela.
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  Foi ela.
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  E ela não me contou.
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  Por mais que eu soubesse que ela me admirava, que me amava — uma parte de mim se sentiu pequena e exposta. Como se, no fim, a mãe dela tivesse razão. Como se eu só estivesse ali porque alguém com um sobrenome importante me colocou.
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  A volta pra casa foi um borrão. O metrô, os degraus, o elevador que demorou mais do que devia. Quando abri a porta, ela tava ali: descalça, um copo de vinho na mão, cabelo preso no alto da cabeça e uma playlist baixa preenchendo o ar.
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  — Amor… — ela começou, mas parei no meio da sala, sem sentar, sem sorrir.
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  — Você falou com alguém do Bravura antes de me chamarem pra entrevista?
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  Ela franziu o cenho, surpresa real, e pousou o copo na mesa com cuidado.
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  — %Arthur%…
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  — Fala a verdade, por favor. — %Alice% respirou fundo, sem fugir.
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  — Eu só pedi que olhassem seu portfólio. Só isso. Não fiz indicação formal, não promovi, não forcei. Eu pedi que analisassem com atenção, porque você é bom. Porque você merece ser visto.
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  Eu fechei os olhos por um segundo. O coração doía. O orgulho também.
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  — Eu queria ter conseguido sozinho.
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  — E você conseguiu! — ela se levantou, andando até mim. — Eu só empurrei a porta. Você que entrou. Eles viram seu trabalho, te entrevistaram, te testaram. Foi mérito seu.
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  — Mas se ninguém tivesse falado nada, será que eles teriam me notado?
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  — %Arthur%... — a voz dela falhou. — Eu juro que se quiser, eu ligo pra eles agora. Navarro vai dizer. Não teve recomendação formal. Só olharam seu Instagram por minha causa, mas o resto... o resto foi tudo você.
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  — Mesmo assim...
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  — Você vai terminar comigo por isso? — ela perguntou, mais baixo. — Por eu ter acreditado em você antes mesmo de você acreditar em si?
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  Fiquei em silêncio. E ela continuou, agora com a voz mais trêmula:
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  — Eu tive medo. Medo de te perder por conta de algo que nem foi interferência de verdade. Eu nunca quis te diminuir. Pelo contrário. Eu só queria te dar uma chance de ser visto. E você foi. E eles te escolheram. Isso não te basta?
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  Respirei fundo. Doía. Porque era verdade.
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  — É. Eu consegui. — murmurei.
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  %Alice% encostou a testa na minha, segurando meu rosto como se o mundo inteiro dependesse daquele toque.
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  — Não vamos estragar isso, por favor.
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  Fechei os olhos, deixando meus braços a envolverem, e a abracei forte. O tipo de abraço que pedia desculpas e também pedia pra ficar. Ela beijou minha testa, como se tentasse colar todas as partes inseguras que ainda existiam em mim. Como se dissesse sem palavras: não vai embora por isso.
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  Mas eu não consegui responder. Porque algo dentro de mim ainda latejava. Soltei o ar devagar, e os dedos que estavam nas costas dela hesitaram.
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  — %Alice%…
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  Ela recuou só o suficiente pra me encarar, os olhos ainda marejados. Não de medo de mim, mas da distância que já sentia vindo.
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  — Eu… — limpei a garganta, procurando alguma forma de não dizer do jeito errado. — Eu preciso de um tempo. Pra pensar. Para colocar as coisas no lugar.
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  — Um tempo? — ela sussurrou, quase sem acreditar.
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  — Não é porque eu quero ir embora. É porque eu preciso entender o que isso mexeu aqui dentro. — levei a mão ao peito. — Eu não quero brigar com você por orgulho, nem carregar esse peso pra frente como se nada tivesse acontecido.
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  Ela ficou quieta e, por um segundo, só ficou me olhando. Depois assentiu, devagar, como quem não concorda, mas respeita.
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  — Tá. Se esse tempo for o que você precisa para voltar inteiro… então vai. Mas volta.
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  — Eu te amo, %Alice%. — falei, com a voz firme, mesmo doendo.
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  Ela sorriu, mas foi um sorriso triste.
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  — Eu sei. E eu também.
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  Ela disse isso com os olhos nos meus. E por um segundo, por um instante quase covarde, eu quis fingir que aquilo bastava. Quis esquecer tudo e ficar, mas não seria justo comigo.
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  Soltei um suspiro longo, como quem desaprende a respirar por um momento, e a abracei mais uma vez. Apertado. Silencioso.
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  Depois me afastei devagar. Como quem desmontava um cenário. Peguei minhas coisas em silêncio. A chave, a carteira, o celular. O casaco jogado na poltrona.
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  %Alice% não tentou me parar. E eu soube, ali, que era porque ela me amava. Porque ela entendia, mesmo que doesse.
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  Abri a porta devagar, e antes de sair, olhei por cima do ombro.
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  Ela continuava no meio da sala, imóvel, com os olhos brilhando e os braços cruzados sobre o peito, como se quisesse se manter inteira. Eu quis dizer algo. Qualquer coisa, mas não disse.
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  Apenas assenti, uma vez, fechei a porta atrás de mim.
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  O corredor parecia mais frio do que o normal. O elevador demorou pra chegar, como se o mundo estivesse me dando tempo pra mudar de ideia, mas eu não mudei.
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  Desci. Cruzei o saguão com o rosto quente e as mãos frias. Lá fora, a noite tinha caído de vez e a cidade parecia não se importar com o fato de que, naquele instante, eu estava indo embora do lugar onde mais queria ficar.
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  Mas precisava.
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  Chamei um carro.
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  Entrei e encostei a cabeça na janela, tentando não pensar, mas pensando em tudo. E assim, pela primeira vez em muito tempo, voltei pra casa. Mas não levei paz comigo. Levei só o silêncio.
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  Os dias que se seguiram pareceram longos demais para tão poucas horas. Eu voltava pra casa todos os dias, mas o conceito de casa já não era o mesmo. O sofá, o café amargo, o silêncio das paredes… tudo tinha gosto de ausência.
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  %Alice% não me mandou mensagem e eu também não mandei. Mas pensei nela em todos os intervalos. Na hora de escovar os dentes, na hora de dobrar a roupa, na hora de não saber onde guardar o que eu estava sentindo.
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  Eu tentava me convencer de que era o certo. Que eu precisava desse tempo pra respirar, mas uma dúvida ainda corroía devagar — como ferrugem, como formiga em fruta doce: Ela realmente não tentou me ajudar mais do que disse? Ou estava apenas me poupando da verdade que doía mais?
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  Na manhã de quarta-feira, tomei coragem. Vi Navarro no refeitório da empresa, com seu jornal dobrado e a caneca de café fumegando como sempre. Ele estava só, folheando lentamente as páginas de cultura como se o mundo pudesse esperar por ele terminar.
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  Respirei fundo e me aproximei.
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  — Navarro? — chamei, tentando manter o tom leve. Ele ergueu os olhos por cima dos óculos.
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  — %Arthur%. Senta aí, rapaz.
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  Obedeci. A cadeira de metal fez um rangido irritante. Me senti com doze anos, prestes a pedir desculpas por algo que nem tinha certeza se tinha feito.
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  — Eu queria… tirar uma dúvida contigo, sobre minha entrada aqui. — Ele franziu o cenho, curioso.
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  — Algum problema?
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  — Não, não. Nada disso. É só que… esses dias eu soube que meu nome chegou até vocês por causa de uma recomendação da %Alice% %Dias%. — Navarro assentiu devagar, como quem volta no tempo.
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  — Sim, foi isso mesmo. Ela me mandou seu perfil pelo Instagram. Disse que achava seu traço único, que tinha frescor, sensibilidade. Que a Bravura podia se beneficiar com alguém como você e eu confio no faro criativo da %Alice%. Sempre confiei.
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  — Ela chegou a pedir alguma coisa? Algum tipo de… preferência?
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  Navarro me encarou por um segundo a mais. Não com suspeita — mas com sinceridade.
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  — Não, %Arthur%. Se tivesse feito isso, eu teria dito. Ela foi clara: “Olha esse perfil com calma. Só isso.” E foi o que fiz. Pedi pra nossa equipe de RH entrar em contato. Fizemos entrevista, portfólio. Você passou por tudo, como qualquer outro candidato.
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  Assenti devagar, sentindo o estômago apertar.
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  — Então... se ela não tivesse falado nada, você acha que meu trabalho teria chamado atenção?
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  Ele pensou, mas não demorou.
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  — Eu não gosto de trabalhar com “e se”. Mas seu portfólio… era bom. Ela acendeu a luz, %Arthur%, mas quem entrou na sala foi você.
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  Fiquei em silêncio, digerindo as palavras. Parte de mim queria que ele tivesse dito o contrário. Parte de mim queria ter com o que brigar. Mas ele apenas confirmou o que eu já sabia, no fundo e talvez fosse por isso que doía.
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  — Obrigado por ser honesto. — murmurei, já me levantando.
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  — %Arthur%. — ele me chamou antes que eu saísse. — Nem sempre o orgulho é sinônimo de força. Às vezes, reconhecer que alguém te estendeu a mão também é.
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  Assenti. Com mais peso do que queria carregar naquele momento. Voltei pra mesa com um buraco no peito — e, ao mesmo tempo, um pouco mais de clareza.
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  Porque a verdade, dita com calma, também podia deixar cicatriz, mas pelo menos não deixava dúvida.
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👠💻

  A televisão estava ligada, mas eu nem sabia o que passava. Só fazia barulho de fundo enquanto eu rabiscava o canto de uma folha amassada e tentava fingir que não via o celular imóvel na mesa.
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  Quatorze dias.
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  Sem mensagem, ligação e %Alice%. E, dessa vez, o silêncio era escolha minha. Mesmo depois da conversa com Navarro. Mesmo depois da confirmação que deveria ter encerrado tudo.
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  Mas saber disso não tornava mais fácil encarar o que eu ainda sentia. O orgulho, a insegurança, o medo de parecer pequeno demais ao lado dela — tudo isso ainda morava aqui dentro.
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  Clara surgiu no corredor com um casaco jogado nos ombros e aquele olhar de quem não ia fingir que estava tudo bem.
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  — %Arthur%, a gente vai pra casa dos nossos pais no fim de semana, lembra? Já confirmei tudo com eles.
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  — Vocês vão? — respondi sem pensar. Ela me encarou.
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  — Nós, %Arthur%. A ideia sempre foi essa. Eu vou apresentar o Marcos pra nossa família. E você devia fazer o mesmo com a %Alice%. — Suspirei, recostando no sofá.
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  — Clara...
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  — Não, sério. — Ela sentou do meu lado, direta como sempre. — Já deu esse “tempo”. Você ama aquela mulher. E ela ama você. Ficar se punindo por orgulho não vai mudar isso.
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  Soltei um riso seco, mais amargo do que deveria. Fechei o caderno com um estalo.
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  — Sei lá… Tô me sentindo uma droga. Parece que tudo o que conquistei foi porque ela… ajudou.
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  — %Arthur%, pelo amor de Deus. Você já conversou com o Navarro. Ele te confirmou. Ela não te indicou. Ela só disse: “olhem com atenção.” E ainda bem que disse. Porque eles viram o que eu, ela, e qualquer um com olhos funcionais já via: que você é bom.
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  — Mas e se ela não tivesse falado nada? Talvez eu nem tivesse sido chamado.
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  — Talvez tivesse demorado mais, mas teria acontecido. Porque você é talentoso e comprometido. E sabe o que mais? Se você ama alguém, é natural querer que o mundo enxergue aquela pessoa com o mesmo brilho que você vê.
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  Fiquei quieto. Porque doía. Mas doía mais saber que ela estava certa.
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  Clara me analisou de lado, com aquele olhar que ela reservava pras broncas mais sinceras.
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  — Esse “tempo” que você inventou… já passou da validade. Agora tá virando covardia, %Arthur%. — Ela pegou minha mão com firmeza. — Me desculpa, mas se você não consegue olhar pra mulher que te ama e dizer “obrigado por ter acreditado em mim quando eu mesmo não conseguia”, então talvez o problema não seja ela. Talvez seja o medo que você tem de admitir o quanto ama de verdade.
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  — Eu só… — respirei fundo. — Tenho orgulho. Às vezes ele fala mais alto do que eu gostaria.
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  — E você vai deixar o orgulho te impedir de apresentar a mulher da sua vida pra nossa família? Vai deixar esse silêncio virar ponto final?
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  — Eu não sei…
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  — Pois eu sei. — Ela apertou meu braço com mais força. — Você vai viajar com a gente. Vai respirar outro ar. Vai lembrar quem você é, o que construiu, sem precisar se diminuir. E, se tiver um pingo de juízo, vai chamar a %Alice% pra ir junto.
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  Fez uma pausa. E então completou:
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  — Porque se o Marcos vai conhecer nossos pais, ela também merece. Aliás… ela já devia ter conhecido.
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  — Isso foi um ultimato? — perguntei, arqueando a sobrancelha.
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  — Isso foi amor, %Arthur%. Eu só tô dizendo o que você mesmo não tá conseguindo enxergar.
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  Marcos apareceu na cozinha com uma lata de refrigerante na mão.
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  — Vai dar sermão toda semana, amor?
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  — Enquanto esse bobo não tomar vergonha na cara, vou sim.
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  — Justo.
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  Sorri. Pequeno, mas real. Talvez aquele fim de semana fosse mesmo o que eu precisava. Pra respirar. Pra voltar a mim. E, talvez... pra voltar pra ela.
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  Peguei o celular. Escrevi devagar, como se as palavras estivessem pesando mais do que deviam, mas enviei. Deixei a tela virada para baixo, como quem sabe que a resposta já existia antes mesmo de chegar.
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  Não deu dois minutos. A resposta apareceu, curta e sem hesitação:
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  Amor: Podemos sim. Que vir na minha casa?
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  Respirei fundo. O peito já apertava fazia dias. Peguei a jaqueta. E fui.
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  Demorei alguns segundos parado diante da porta. Não por hesitação, mas porque... respirar antes de cruzar aquela linha parecia necessário. Tinha passado dias imaginando como seria revê-la. O som da voz. O primeiro olhar. O que eu diria. O que ela não diria.
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  Mas a verdade é que, quando a gente ama alguém, nenhum ensaio serve de muito. Levantei a mão pra tocar a campainha, mas não foi preciso.
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  Ela abriu antes. %Alice% estava descalça, com uma camiseta larga demais e o cabelo preso de qualquer jeito — e ainda assim, linda do jeito que sempre me desmontava.
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  — Achei que não ia mais me procurar. — disse, num tom mais calmo do que eu merecia.
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  — Eu achei que precisava de tempo pra organizar as coisas na minha cabeça. — respondi, entrando devagar.
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  Ela fechou a porta, mas manteve os olhos em mim. O silêncio da sala era cheio. Mas não desconfortável. Era como se as palavras estivessem ali, pairando, esperando coragem pra nascer.
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  — E organizou? — ela perguntou, sentando no sofá.
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  — Na medida do possível. — me sentei ao lado, com os cotovelos apoiados nos joelhos. — Clara me deu um sermão que você ia gostar de ouvir. Disse que eu estava deixando o orgulho falar mais alto que o amor. E... acho que ela tava certa.
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  %Alice% arqueou uma sobrancelha, o olhar ainda cauteloso, talvez esperando que eu recuasse, mas não dessa vez.
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  — Você sabe que eu nunca quis te diminuir, né? — ela perguntou, com a voz baixa.
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  — Eu sei. — olhei pra ela. — Mas eu me senti pequeno. Não por você… mas por mim mesmo. Por não saber lidar com o fato de alguém como você me amar tanto.
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  Ela estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos meus. Os olhos calmos, mas intensos.
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  — Não importa o quanto você lute contra isso... é real. E não tem nada a ver com dinheiro, nem com currículo, nem com o carro que eu dirijo.
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  Aquela era a mesma mulher que me viu antes de eu mesmo me enxergar. A mesma que acreditou nos meus traços antes que eu me sentisse artista. Sorri. Pequeno, mas sincero.
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  — Eu fui um idiota.
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  — Foi. — ela respondeu sem cerimônia, me puxando de leve com o canto da boca curvado. — Mas eu perdoo. Se prometer parar de fugir.
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  — Prometo. — me aproximei mais. Toquei o rosto dela com a ponta dos dedos, como se ainda precisasse confirmar que era real. — Aliás… eu queria te pedir uma coisa.
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  %Alice% me olhou, curiosa, mas sem desviar.
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  — O que foi?
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  — Clara e o Marcos vão visitar nossos pais esse fim de semana. — respirei fundo. — E eu queria que você fosse comigo. Que conhecesse minha família. Que a gente… dê esse passo.
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  Os olhos dela brilharam por um segundo. O sorriso tentou conter-se, mas não conseguiu.
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  — Você tem certeza?
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  — Tenho. E não é por impulso. Nem por culpa. É porque eu quero você em tudo. Até na sala de estar da minha infância.
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  %Alice% sorriu. Um daqueles sorrisos que derretiam qualquer resistência. E eu soube. Estava de volta. Ao lugar certo.
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  Ela me puxou com delicadeza, como quem sabia exatamente onde me encontrar.
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  Nosso beijo veio devagar, sem pressa. Como se o tempo tivesse desacelerado só pra assistir. Tinha gosto de saudade. De perdão. De recomeço.
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  As mãos dela se prenderam à gola da minha camisa, como se não quisessem mais me soltar. E eu fui, inteiro. Porque era ela, sempre foi.
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  Quando nossos lábios se separaram, o silêncio ficou entre nós — mas, dessa vez, ele não doía. Ele só… repousava. Como se, finalmente, a gente tivesse encontrado paz.
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  — Eu topo. — ela disse, encostando a testa na minha. — Mas você vai me avisar se seus pais forem do tipo que serve fígado de entrada, né?
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  — Prometo. — ri, aliviado. — E, se servirem, eu como por você.
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  — Ah, então tá. Já é casamento.
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  — Cuidado com o que deseja, %Dias%.
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  Ela me beijou de novo. E, dessa vez, o mundo inteiro desapareceu.
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  Nota da autora: Gente, chegamos no penúltimo capítulo de Segredo de Escritório e, olha, foi difícil de escrever. Arthur e Alice estão naquela fase de se entender, se desconstruir, e claro, se apaixonar. Neste capítulo, a gente vê o peso do orgulho, da insegurança, e o tanto que os dois têm a aprender com os próprios sentimentos.
  Eu amei como a Clara, com a sinceridade dela, deu aquele empurrãozinho necessário no Arthur. Ele tava perdido nos próprios medos e ela, como sempre, veio e colocou ele no lugar. E, claro, a Alice não deixou de ser a mulher firme que a gente conhece, enfrentando tudo o que vem pela frente para ficar com o Arthur.
  Eu não estou pronta pra me despedir e vocês? Aaaaaaa, nos vemos no último! Beijos!

Capítulo 17
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