✦ Epílogo ✦
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A sala de reuniões da Domus Enterprises continuava com o mesmo aroma leve de café e mobília polida. As cadeiras estofadas, a vista panorâmica de São Paulo pela janela de vidro, o ar-condicionado sempre um pouco frio demais. Nada ali mudava — exceto o fato de que, pela primeira vez em tempos, eu estava do outro lado da mesa.
%Alice% entrou na sala alguns minutos depois, acompanhada dos acionistas e diretores da empresa. Usava um terno branco impecável, os cabelos presos num coque firme, a expressão centrada. Uma muralha de foco e poder.
E eu, %Arthur%, representante da Bravura Design, com meu caderno em mãos e os esboços organizados na pasta, me levantei por reflexo quando ela entrou. Não porque era minha cliente. Mas porque era ela.
A CEO da Domus. E a dona do meu coração.
— Bom dia a todos. — ela disse, firme, sentando-se à cabeceira.
— Bom dia. — respondi junto aos outros.
A reunião começou. Profissional. Estratégica. Ela apresentava as demandas com precisão cirúrgica, discutia com os sócios, elogiava a equipe de criação da Bravura. E eu? Anotava tudo. As palavras dela, os olhares, os gestos que só eu sabia o que significavam. A %Alice% profissional era fascinante. Mas a minha %Alice%... era a parte que o mundo não via.
Uma hora depois, a reunião foi encerrada.
— A Bravura vai entrar em contato com nosso jurídico para seguir com as etapas, certo? — ela disse, olhando diretamente pra mim, como se eu fosse só mais um nome na sala.
— Certo. — confirmei, devolvendo o mesmo tom formal.
Um por um, os acionistas começaram a sair. Cumprimentos, pastas fechando, celulares sendo checados. O último a deixar a sala foi um dos gerentes de marketing. Assim que a porta se fechou atrás dele, o silêncio caiu.
— Eu disse que viria. — me aproximei da mesa devagar. — A Bravura não recusaria um projeto da Domus. Nem eu.
Ela tirou os óculos com calma e os deixou sobre a mesa.
— Achei que fosse estranho te ver aqui... mas agora parece certo.
Não foi preciso mais palavras. Ela contornou a mesa e, antes que eu respirasse fundo, estava ali, perto demais, puxando minha gravata com um sorriso torto.
— Ainda fica bonito de camisa social, %Arthur%.
— E você ainda me desmonta em três palavras, %Dias%.
O beijo veio urgente, quente, do tipo que carrega lembrança. As mãos dela no meu pescoço, os dedos nos meus cabelos. As minhas na cintura dela, puxando de leve, como se o tempo tivesse voltado para aquelas manhãs e tardes escondidas, atrás da porta da sala de reuniões, quando a gente se pegava em silêncio pra não levantar suspeita.
Ela riu contra minha boca, sussurrando:
— A gente era muito idiota.
— A gente era muito apaixonado.
Beijei o pescoço dela devagar, o cheiro do perfume conhecido misturado ao da memória. Encostamos na parede de vidro, com a cidade inteira passando lá fora, indiferente ao que acontecia ali dentro.
— Olha só a gente. — ela sorriu. — De volta ao lugar onde tudo começou.
— Só que agora... sem esconderijo. Sem medo.
— Sem segredo de escritório.
Ela se afastou um pouco, só pra me olhar de novo.
— Então, senhor %Arthur%... posso contar com você nesse projeto?
%Alice% mordeu o lábio, como quem segura um riso, e depois estendeu a mão.
Apertei os dedos dela, firme.
A gente não sabia... mas era o começo de tudo. FIM.