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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Segredo de Escritório

Escrita porNyx
Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 16 • A Vida que Eu Escolhi

Tempo estimado de leitura: 41 minutos

  Eu nem sabia exatamente em que momento isso tinha acontecido. Sei apenas que, sem grandes discursos, sem promessas solenes, sem mudanças bruscas, eu simplesmente... comecei a ficar mais na casa dela do que na minha.
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  Primeiro foi uma camisa esquecida no closet. Depois, um tênis largado ao pé da cama. O relógio que eu sempre tirava antes de dormir, repousado na mesinha de cabeceira dela como se sempre tivesse pertencido ali. O meu perfume favorito, um frasco novo, discretamente surgindo ao lado dos dela, como se o universo estivesse, ele também, se acostumando à ideia de nós dois.
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  Era natural. Era inevitável. Era… certo.
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  A cobertura dela, moderna e impecável, agora carregava pequenas assinaturas minhas espalhadas pelos cantos. E %Alice%, mesmo com todo o seu perfeccionismo, nunca reclamou.
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  Pelo contrário: às vezes, quando achava que eu não estava olhando, eu flagrava o olhar dela repousando nesses pequenos vestígios de mim. E ela sorria. De leve. Sutilmente. Mas sorria.
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  Minha rotina se moldou à dela de um jeito curioso. Durante o dia, eu me perdia entre rabiscos, briefings e telas no estúdio da Bravura. À noite... era ela quem me buscava, pontual e majestosa, parando o carro de luxo em frente à empresa como se fosse o gesto mais banal do mundo.
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  %Alice% descia do carro com sua elegância inata — o salto firme, o blazer alinhado, os cabelos sempre emoldurando o rosto como uma obra de arte viva. E, mesmo depois de tudo, mesmo depois de tê-la nua, crua, entregue nos meus braços, cada vez que a via assim — soberana — meu peito disparava como na primeira vez.
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  Ela nunca se importou com os olhares curiosos. Nunca hesitou. Apenas me esperava ali, do lado de fora, braços cruzados e um sorriso reservado, como se dissesse: "O mundo pode olhar. Eu não me escondo mais."
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  E eu… eu saía pela porta da empresa todas as noites sabendo que estava indo para casa. Não o lugar físico, mas para ela. Minha casa era ela.
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  Naquela sexta-feira, por acaso, decidi passar em casa antes de encontrar a %Alice%. Precisava pegar uns documentos antigos, umas ilustrações que eu queria mostrar pra ela — e, bem, parte de mim sentia falta da minha zona de conforto bagunçada.
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  Subi as escadas dois a dois, a mochila jogada de qualquer jeito no ombro, as chaves girando entre os dedos. Quando abri a porta do apartamento, fui recebido por uma cena que me fez congelar no batente.
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  Clara estava no sofá.
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  Marcos também.
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  Muito... próximos.
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  Muito... envolvidos.
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  Beijos intensos, mãos ousadas, gemidinhos abafados — e uma falta generalizada de noção do ambiente.
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  — Pelo amor de Deus, crianças! — exclamei, batendo a porta mais forte do que o necessário para anunciar minha presença.
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  Os dois se separaram como se tivessem levado choque. Clara ajeitou a blusa toda torta e Marcos, coitado, ficou tão vermelho que parecia um tomate prestes a explodir.
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  — Você podia ter mandado mensagem, né?! — Clara reclamou, tentando arrumar o cabelo desordenado com uma dignidade que já era impossível de recuperar.
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  — Ah, claro — revirei os olhos, jogando a mochila no chão — porque a casa é de vocês agora?
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  — Olha quem fala! — Clara retrucou na hora, apontando pra mim como se fosse advogada de defesa. — Você mal pisa aqui, %Arthur%! Vive acampado na cobertura da Barbie executiva!
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  — É, velho... — Marcos murmurou, ainda tentando recompor a postura — Só tô aqui porque sua presença virou evento raro.
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  Eu cruzei os braços, encarando os dois com uma expressão semi carrancuda.
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  — Tá falando como se fosse mentira — resmunguei, arrancando uma gargalhada alta da Clara.
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  Ela se levantou, ajeitando a barra da camiseta e vindo até mim com aquele sorrisinho malicioso que era a marca registrada dela.
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  — A gente tá zoando... — disse, cutucando minha barriga. — Mas sério, você tá feliz, né?
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  Suspirei, deixando o peso da verdade escapar num sorriso que não consegui — nem quis — esconder.
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  — Tô. — admiti. — De um jeito que nem sabia que era possível.
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  Clara sorriu largo, e eu vi um brilho orgulhoso nos olhos dela. Um daqueles momentos silenciosos que diziam mais do que qualquer zoeira.
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  — Então... fica lá. — ela piscou. — Mas, se puder, avisa antes de vir.
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  — Principalmente se for de surpresa. — completou Marcos, rindo, puxando Clara de volta pro sofá, dessa vez de forma mais comportada.
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  Revirei os olhos mais uma vez, pegando o que eu precisava no armário da sala.
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  — Dois adolescentes sem controle... é isso que vocês são. — murmurei, saindo pela porta.
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  Clara ainda gritou atrás de mim:
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  — A gente aprendeu com o melhor, %Arthur%! Você e a %Alice% são pura inspiração!
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  Eu só levantei a mão em despedida, sem coragem de olhar pra trás. Porque, no fundo, ouvir isso… também me deixou feliz.
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  Ridiculamente feliz.
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👠💻

  A vida, pela primeira vez em muito tempo, tinha encontrado um ritmo que fazia sentido para mim. Meus dias na Bravura se tornaram uma sequência de pequenos momentos de felicidade que eu nunca tinha imaginado sentir no trabalho.
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  Logo cedo, eu chegava no estúdio com meu sketchbook debaixo do braço, cumprimentava a equipe que, aos poucos, foi se tornando mais do que colegas — foram virando parte da minha história nova.
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  O espaço era leve, cheio de mesas bagunçadas com canecas de café, computadores lotados de referências, pranchetas improvisadas nos cantos e pôsteres de arte moderna pelas paredes.
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  Era... vivo.
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  Era criativo.
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  Era meu.
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  Trabalhava em campanhas publicitárias para marcas grandes — ilustrando conceitos, criando personagens que transmitissem o espírito de cada projeto.
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  Mas o que realmente me fazia sorrir era outro trabalho: pequenas séries de ilustrações para livros infantis.
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  Eu desenhava histórias sobre dragões tímidos, meninas astronautas, florestas encantadas... E cada traço carregava algo que eu nem sabia que estava guardado em mim.
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  Sensibilidade.
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  Sonho.
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  Esperança.
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  Recebia feedback positivo dos colegas e dos meus chefes — gente como a Marina e o Sr. Navarro, que não economizavam elogios quando algo realmente os tocava.
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  — Você tem sensibilidade, %Arthur%. — ouvi uma vez da Marina, enquanto analisávamos as páginas coloridas de um projeto novo. — Não é só técnica. Você... sente o que desenha. E isso não se ensina.
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  Em outra manhã, durante uma reunião de revisão, Navarro passou os olhos por uma série de ilustrações que eu havia feito para um livro sobre amizade e disse, com aquele jeito sóbrio e direto dele:
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  — Você entende de alma humana, garoto. E isso vale mais que qualquer diploma.
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  Teve também a Laura, uma colega de equipe que, ao ver uma sequência de esboços para uma campanha de outono, largou o café na mesa e soltou:
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  — Caramba, %Arthur%! Seus desenhos fazem a gente querer entrar dentro da cena. Tipo... morar nela.
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  Saí desses momentos querendo guardar cada palavra num potinho. Porque, pela primeira vez, eu me sentia exatamente onde deveria estar.
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  Pertencendo.
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  Sendo visto.
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  Sendo valorizado não só pelo que eu fazia... mas pelo que eu era. E parte dessa confiança, eu sabia, vinha do amor que, agora, também morava dentro de mim.
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  %Alice%.
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  Meu presente, meu futuro.
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  O que antes parecia impossível — ser feliz de verdade — agora era minha realidade de todo dia.
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  Feliz.
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  Realizado.
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  Inteiro.
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  Minha vida não era perfeita. Ainda havia dias difíceis, prazos apertados, noites sem inspiração. Mas agora, tinha um lugar para onde eu queria voltar. Tinha braços me esperando. Tinha um amor que, contra todas as probabilidades, tinha encontrado um jeito de existir.
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  Um jeito bonito. Simples. Real.
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  E isso mudava tudo.
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  Meu celular vibrou no bolso justo no meio dos meus devaneios.
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  Amor: "Vem pra cá no seu horário de almoço. É urgente."
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  Pisquei, confuso.
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  Urgente? Com ela?
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  Respondi que iria e, sem nem terminar de almoçar, corri.
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  O elevador parecia mais lento do que nunca. Minhas mãos suavam levemente enquanto atravessava o saguão da empresa dela. Era bizarro como, mesmo agora, a simples ideia de estar naquele território me deixava meio elétrico.
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  Mas... urgente? Entrei direto para o andar da diretoria — e então vi.
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  %Alice% estava em pé, num pequeno círculo de conversa com três chefes de área, todos rindo, papéis em mãos, clima casual de uma reunião pós-apresentação.
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  Ela usava um conjunto azul-marinho que parecia desenhado no corpo, cabelo preso num coque despojado que deixava sua nuca à mostra — e, como sempre, irradiava aquela mistura única de elegância e poder.
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  Antes que eu pudesse sequer abrir a boca, ela me viu. E, sem hesitar, caminhou até mim, pegou a minha mão com naturalidade — e, virando para os presentes, falou:
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  — Para quem ainda não conhece oficialmente: esse é %Arthur%. Meu ex-secretário, e agora meu namorado.
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  O chão sumiu por um segundo.
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  Senti o rubor subindo pelo pescoço, tomando o rosto inteiro. O zum-zum-zum foi imediato.
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  Olhares arregalados. Pessoas trocando mensagens discretamente. Sussurros atravessando a sala feito corrente elétrica.
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  Eu fiquei ali, sem saber se sorria, se falava algo, se cavava um buraco para me enfiar. Mas %Alice%... %Alice% não vacilou nem por um segundo. Ela manteve a postura reta, impecável, um leve sorriso no canto dos lábios, mas era nos olhos — só nos olhos — que eu via.
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  Vi o que ela queria me dizer sem palavras:
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  "Eu não vou te esconder."
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  "Eu escolho você."
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  Meus dedos apertaram de leve a mão dela, sem pensar.
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  Era simples.
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  Era direto.
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  E, ainda assim, era o gesto mais grandioso que ela podia fazer.
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  — Muito prazer — murmurei, meio sem ar, cumprimentando os poucos que ainda tentavam disfarçar o espanto.
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  — Ele trabalha com ilustrações agora, na empresa Bravura que admiro muito — %Alice% continuou, natural como se estivesse apresentando o novo CFO da companhia. — E é... a melhor parte dos meus dias.
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  Senti meu coração bater no ritmo errado.
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  Porra, %Alice%.
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  Ela sorriu pra mim, breve, privada, daquele jeito que só eu conhecia. Que só existia para mim. E naquele instante, no meio de cochichos, olhares curiosos, e celulares vibrando com fofocas internas, eu soube:
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  Ela não estava apenas me apresentando.
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  Ela estava me assumindo.
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  Nos assumindo.
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  Sem medo. Sem reservas.
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  E a parte mais bonita? Ela não disse isso com promessas ou declarações melosas. Disse com um gesto. Com a coragem de ser vista ao meu lado.
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  Respirei fundo, com o peito tão cheio que parecia que ia explodir.
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  E sorri.
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  Sorri como quem finalmente entende que, às vezes, os reparos mais profundos vêm em silêncio — mas deixam marcas eternas.
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👠💻

  O sábado parecia normal.
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  Eu estava jogado no sofá da cobertura da %Alice%, sketchbook no colo, rascunhando qualquer coisa sem muita pretensão. O sol da tarde entrava pelas janelas enormes, banhando a sala num dourado preguiçoso. O cheiro de café vinha da cozinha, e por um segundo, tudo parecia absurdamente em paz.
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  Até ela aparecer.
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  %Alice% cruzou a sala com passos leves, os passos ecoando no piso de mármore, e parou na minha frente, cruzando os braços de um jeito que só ela conseguia fazer parecer natural e autoritário ao mesmo tempo.
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  — Troca essa roupa aí. — ordenou, com um sorriso pequeno e perigosamente adorável. — Vamos sair. Quero fazer uma coisa diferente.
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  Ergui uma sobrancelha, desconfiado, olhando para minha camiseta velha e o short de moletom.
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  — Diferente tipo... o quê?
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  Ela apenas piscou, divertida, e se jogou de lado no sofá, roubando espaço e fingindo estudar meu desenho.
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  — Confia em mim, lindo.
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  Suspirei, já rindo. Era impossível dizer não para ela — principalmente quando usava aquele apelido de propósito, só pra me provocar.
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  Larguei o sketchbook na mesinha de centro e fui me trocar. Quando voltei, ela já batucava os dedos no braço do sofá com uma impaciência divertida.
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  A viagem foi tranquila. %Alice% dirigia com a mesma elegância que fazia tudo na vida — segura, decidida, impecável. Eu tentei arrancar alguma dica sobre o destino, mas ela apenas ria e desviava, jogando o cabelo para trás como quem escondia o segredo mais valioso do mundo.
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  Foi só quando viramos uma esquina que eu entendi.
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  — Parque Marisa? — perguntei, surpreso, olhando as luzes coloridas e meio gastas, a roda-gigante girando contra o céu azul-acinzentado.
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  — Sim. — ela sorriu, desligando o motor do carro de luxo que destoava completamente dos outros no estacionamento de terra batida. — Achei que a gente merecia uma tarde sem regras. Sem cobranças. Só... diversão.
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  Meu peito apertou com uma ternura quase adolescente.
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  %Alice% %Dias%. No Parque Marisa.
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  Deixei que ela puxasse minha mão e nos guiasse entre as barraquinhas de algodão doce, crianças correndo, cheiro de pipoca e carrossel tocando música velha.
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  E foi mágico.
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  %Alice%, que normalmente era a própria definição de autocontrole, soltou um grito agudo na primeira volta da roda-gigante, agarrando meu braço com tanta força que eu achei que ia perder a circulação.
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  — %Arthur%! — ela exclamou, com os olhos arregalados, a mão espalmada contra o meu peito. — Eu odeio altura, você não me avisou que balançava tanto!
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  Soltei uma risada baixa, puxando-a mais para perto.
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  — Você quem quis vir, amor. Agora aguenta. — provoquei, beijando de leve sua testa.
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  %Alice% bufou, mas se aninhou ainda mais contra mim, os dedos cravados no meu casaco. E, quando a roda-gigante começou a descer suavemente, ela soltou uma risada nervosa — daquelas que escapam sem querer, quebrando toda a pose.
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  Descemos, e ela, já mais corajosa, me puxou pelo braço em direção aos carrinhos bate-bate, a expressão agora desafiadora.
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  — Vamos ver se você é tão bom no volante quanto fala. — disse, arqueando uma sobrancelha.
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  — Tá me desafiando, %Dias%? — perguntei, rindo.
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  — Tô te avisando. — ela retrucou, piscando.
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  Entramos em carrinhos separados e, no segundo que a buzina soou, ela veio na minha direção como uma bala. O impacto nos fez ricochetear de um lado pro outro, %Alice% rindo alto, a risada dela mais livre e escandalosa do que eu jamais tinha visto.
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  — Isso é guerra! — gritei, fingindo indignação enquanto tentava escapar dela.
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  — Guerra é o que você vai ter se continuar fugindo! — ela gritou de volta, a voz embargada de tanto rir.
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  Quando finalmente saímos dos carrinhos de bate-bate, o cabelo dela estava todo bagunçado, a jaqueta torta no ombro e os olhos brilhando de adrenalina. E, mesmo rindo, eu só conseguia pensar: estou ferrado.
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  — Viu só? — disse, ajeitando o zíper com um ar vitorioso. — Quem ri por último, ri melhor.
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  — É, mas quem bate melhor... — sacudi a cabeça, fingindo dor no ombro — sou eu.
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  Ela me mostrou a língua, sem um pingo de vergonha, e me puxou pela mão em direção ao próximo desafio: o jogo das argolas.
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  — Se eu ganhar, quero sorvete. E um pedido de desculpas público. — anunciou, pegando as argolas como se fosse uma atleta olímpica.
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  — E se eu ganhar? — arqueei a sobrancelha, entrando no jogo.
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  — Hm... — %Alice% fingiu pensar, mordendo o lábio de leve. — Eu admito que você é bom em mais de uma coisa.
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  — Excelente prêmio. — sorri, pegando minhas argolas.
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  Ela foi a primeira. Mirou com concentração, ergueu a mão… e errou feio. A primeira caiu longe. A segunda quicou fora do alvo. A terceira bateu no suporte e rolou.
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  — Isso é claramente sabotagem. — murmurou, olhando para as mãos como se elas tivessem a culpa.
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  — Claro, amor. As argolas se rebelaram contra você. — provoquei, rindo tanto que precisei apoiar as mãos nos joelhos.
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  Quando chegou a minha vez, acertei logo de primeira. Depois outra. E mais uma.
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  %Alice% cruzou os braços, o nariz empinado, a expressão teatralmente ofendida.
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  — Injusto. Você deve ter treinado escondido.
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  — Ou talvez eu só seja... talentoso. — falei com falsa modéstia, lançando a última argola direto no alvo.
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  Ganhei um ursinho de pelúcia de olhos tortos e segurei como se fosse um troféu. Fiz questão de estender pra ela com pompa.
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  — Agora, cadê meu prêmio?
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  — Vocêébomemaisdeumacoisa. — ela murmurou num sussurro rápido e indecifrável.
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  — Hein? Repete, por favor. Volume e dicção, docinho. — Ela me fuzilou com os olhos.
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  — Você é insuportável…
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  — Mas irresistível. Vai negar?
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  — Tá bom! — ela bufou. — Você é bom em mais de uma coisa. Satisfeito?
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  — Muito. — sorri, roubando um selinho rápido antes que ela pudesse fugir. — E o prêmio vai para a dama que perdeu com muita classe.
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  Entreguei o ursinho com uma reverência exagerada. Ela segurou o bicho com uma expressão de quem queria fingir desprezo… mas não conseguia esconder o sorriso.
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  — Eu vou guardar. — disse, num tom tão sério que meu peito apertou.
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  E eu sabia. Ela não falava só do ursinho. Falava daquele momento. Daquela lembrança. Da gente. E eu... eu queria guardar ela. Aquele momento. Aquela %Alice% que ninguém conhecia — mas que era só minha.
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  Depois da nossa pequena "competição" nas barracas, com %Alice% ainda abraçada ao ursinho de pelúcia como se ele fosse feito de ouro, fomos andando devagar pelo parque. O vento da noite já começava a ficar mais frio, trazendo o cheiro doce do algodão doce misturado ao de pipoca estourada.
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  Ela ergueu o rosto devagar, os olhos nos meus. E então me beijou.
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  Foi um beijo que veio com calma, mas que cresceu em intensidade a cada segundo. Os lábios dela se moldavam aos meus com precisão quase absurda — como se tivessem sido feitos pra isso. Era um beijo quente, profundo, que trazia saudade e promessa na mesma medida. A ponta dos dedos dela se enroscou na gola da minha jaqueta, enquanto minhas mãos seguravam sua cintura com delicadeza, como se qualquer movimento brusco pudesse desfazer o momento.
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  Tudo girava — a roda, o mundo, o meu peito — menos a gente.
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  E então, no auge do silêncio, do encaixe, da certeza… o celular dela vibrou.
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  %Alice% afastou os lábios com um suspiro frustrado, encostando a testa na minha. E só então o encanto começou a se desfazer. Ela franziu a testa, relutante. Eu a vi hesitar antes de pegar o aparelho no bolso da jaqueta. Quando olhou a tela, o sorriso sumiu do rosto na mesma hora.
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  Ela olhou o visor do celular e, por um segundo, hesitou. Depois atendeu, já com a voz mais contida.
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  — Mãe?
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  Permaneci em silêncio, apenas observando. Mas era impossível não notar como os ombros dela ficaram tensos quase que imediatamente. A forma como a mão livre apertou o tecido da calça, como se precisasse de um ponto de apoio invisível.
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  — Sim… — ela disse, a voz firme no início. — Eu apresentei, sim. Na empresa.
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  Ela desviou o olhar pra janela da cabine, mas não parecia ver nada lá fora.
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  — O nome dele é %Arthur%.
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  Meu peito apertou com força. Não pelo nome — mas pela maneira como ela o disse. Como quem tenta manter o controle enquanto o chão racha sob os pés.
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  — Eu sei o que estou fazendo. — continuou, mais baixo. — É a minha vida. A minha decisão.
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  As pausas começaram a ficar mais longas. As palavras, mais escolhidas. A cada resposta que ela dava, algo nela parecia encolher. Como se estivesse recuando para dentro de si mesma.
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  — Mãe… — sussurrou, quase sem som.
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  Aquilo doeu mais do que qualquer grito. Ela ficou em silêncio por uns segundos, ouvindo, e então disse, com uma calma que me cortou:
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  — Eu te ligo depois.
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  Desligou.
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  Ficou olhando o aparelho na mão, como se esperasse que ele dissesse mais alguma coisa. Depois guardou no bolso da jaqueta e soltou o ar devagar, como quem não sabia mais onde enfiar a dor.
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  — %Alice%… — chamei baixinho, colocando a mão sobre a dela.
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  Ela piscou, como se estivesse voltando de algum lugar.
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  — Tá tudo bem — mentiu, com um sorriso pequeno, amargo. — Só ganhei um novo título, só isso.
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  — Que título?
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  Ela me encarou, os olhos ainda carregados da conversa.
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  — "Erro estratégico". "Erro estratégico". — repetiu, quase rindo, mas o som saiu seco. Irônico. Como se tentasse achar graça só pra não chorar.
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  Fiquei quieto por alguns segundos. Não sabia se puxava ela pra mais perto ou se dava espaço. Não sabia se falava alguma coisa ou se o silêncio era o que ela precisava, mas ela não me deixou escolher.
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  — Ela sempre estraga tudo. — disse de repente, com os olhos fixos no vidro da cabine. A roda-gigante continuava girando devagar, como se zombasse da tensão no ar. — Sempre.
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  — %Alice%...
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  — Eu não posso fazer nada espontâneo. Nada. — o tom dela era mais alto agora, mas não gritava. Era um tipo de raiva contida, sussurrada com os dentes cerrados. — Se eu tomo uma decisão, tem que ter lógica, estratégia, retorno. Até pra amar alguém, eu tenho que fazer planilha?
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  Não soube o que responder. Porque, no fundo, eu sabia que essa cobrança que ela carregava nas costas não tinha começado agora. E não era sobre mim.
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  Ela passou a mão no cabelo, puxando com força as pontas como se quisesse arrancar a frustração pela raiz.
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  — Eu tava feliz. Um único momento de paz, de leveza, e ela liga. Como se eu precisasse de autorização pra sentir. Como se tudo que eu faço ainda tivesse que passar pelo crivo dela.
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  — %Alice%, olha pra mim. — pedi, tocando seu queixo com delicadeza.
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  Ela relutou por um segundo, mas acabou virando o rosto, os olhos mais marejados do que ela permitiria que alguém percebesse.
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  — Você quer conversar sobre isso?
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  — Não. — respondeu rápido, mas sua voz falhou. — Eu só precisava de um dia sem isso. Só um.
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  Puxei-a pra mais perto, mesmo que ela estivesse meio rígida no início. Aos poucos, seu corpo foi cedendo, e ela se aninhou no meu peito, como antes.
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  — Não é você. — murmurou, quase um pedido de desculpa. — É ela. Sempre foi ela.
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  — Eu sei.
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  Ficamos em silêncio por um momento. A roda-gigante girava, lá embaixo a cidade seguia acesa, ignorando nossas dores pessoais. E então, quase como quem se lembrou de mais um detalhe irritante no meio do caos, ela falou:
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  — Ah... — o tom agora era levemente sarcástico, como se tentasse retomar o controle pelo humor ácido — Ela quer te conhecer.
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  Eu arregalei os olhos, surpreso.
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  — O quê?
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  — A rainha-mãe quer avaliar o plebeu. — disse, se afastando um pouco só pra me encarar. — Mas não se anima, tá? Não é porque ela se interessou por você. É porque quer descobrir com qual das minhas decisões você vai destruir o legado da família primeiro.
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  Não consegui evitar um riso nervoso.
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  — Tá, agora eu tô com medo real.
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  %Alice% sorriu de leve, um daqueles sorrisos curtos e cansados, que não disfarçavam a exaustão emocional, mas tentavam.
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  — Bem-vindo à minha vida, %Arthur%. Quem namora comigo, namora com a sombra da minha mãe também.
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  — Então deixa eu te dizer uma coisa. — segurei sua mão. — Se for pra estar contigo, eu lido com qualquer sombra. Até a dela.
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  Ela não respondeu. Mas respirou fundo, encostando de novo no meu peito. E quando não disse nada, eu entendi: o silêncio dela também era uma resposta.
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  E, naquela noite, bastava.
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👠💻

  A manhã seguinte chegou mais rápido do que eu gostaria — como se a noite tivesse sido só uma vírgula entre dois parágrafos de ansiedade. Desde a ligação da mãe da %Alice%, que encerrou nosso passeio na roda-gigante, meu cérebro parecia ter entrado em modo de emergência. Dormir? Só se fosse com o pensamento desligado. E claramente não era o caso.
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  %Alice% estava visivelmente irritada — com a mãe, com a situação, com o mundo. Disse que ela estragava tudo. E que agora queria que eu fosse tomar café da manhã… com elas.
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  Sim. Café. Na casa dela.
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  Com direito a cara fechada, julgamento silencioso e a sensação de que eu seria escaneado da cabeça aos pés por uma mulher que tratava o coração da filha como um patrimônio de alto valor estratégico.
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  Talvez por isso — ou talvez porque o clima entre a gente tenha ficado estranho depois da ligação — eu tenha decidido dormir em casa naquela noite. O que era raro, ultimamente. Mas naquela noite... eu precisava do meu quarto. Do sofá da sala. Da torneira que pinga desde 2019. Do café da Clara feito no fim do dia como se fosse um abraço em forma líquida.
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  Então lá estava eu, na manhã seguinte, no quarto da Clara, com uma camisa social passada, sapato lustrado e um pânico crescente a cada vez que o espelho me devolvia o reflexo.
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  Eu juro que tentei manter a calma. Mas era como se o colarinho tivesse sido costurado com ansiedade pura.
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  — Tu vai tirar sangue dela ou só tomar um café, %Arthur%? — perguntou Clara, parada na porta com os braços cruzados e aquele sorriso debochado de quem se diverte com a tragédia alheia.
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  — Clara, por favor. — murmurei, tentando ajeitar o cabelo que teimava em cair na testa. — Eu vou conhecer a mãe da %Alice%. A mulher me vê como se eu fosse… sei lá… uma planilha desatualizada no sistema dela.
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  — E você não é? — Virei, indignado.
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  — Muito engraçado. Vai abrir um stand-up? — Ela jogou uma almofada em mim, rindo.
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  — Relaxa. A %Alice% te ama. Ela te apresentou pra empresa inteira, lembra? Depois daquilo, é meio tarde pra fingir que você é só o secretário bonitinho.
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  Suspirei e voltei a encarar o espelho. No fundo, eu sabia que não era só sobre o café. Era sobre o que aquela mulher representava: frieza, lógica, poder. O sobrenome dela abria portas antes mesmo dela bater. E eu? Eu era um ex-secretário, agora ilustrador de um estúdio pequeno, morando num apartamento alugado com a Clara e uma selva de samambaias.
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  — Eu só… — respirei fundo. — Não queria que ela achasse que eu tô com a filha dela por interesse.
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  Clara, que ainda ria, parou na hora.
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  — %Arthur%, você foi o único cara que a %Alice% apresentou pra alguém em anos. Se essa mulher tiver um pingo de bom senso, vai perceber que você não tá ali por status. E se não perceber... — ela deu de ombros. — A %Alice% que lute.
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  Não contive o riso, mesmo com o estômago embrulhado.
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  — E se ela me olhar com aquela cara de CEO do mal?
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  — Você já sobreviveu a uma CEO do mal. Inclusive, tá dormindo com ela agora.
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  — Touché.
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  Clara se aproximou, ajeitou meu colarinho com aquele carinho silencioso que só irmão tem e disse, mais suave:
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  — Você não precisa ser rico. Nem CEO. Nem ter sobrenome de peso. Só precisa ser o %Arthur% que ama a %Alice% como ela merece. O cara que não joga charme, mas tem um coração do tamanho do mundo. Isso basta.
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  — E se ela perguntar onde eu me vejo em cinco anos?
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  — Aí você mente. Com classe. E depois volta chorando que eu faço chocolate quente.
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  Suspirei, rindo nervoso.
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  — Não sei se tô mais pronto… ou mais ferrado.
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  — Os dois. — ela piscou. — Agora vai. Impressiona a sogra.
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  A mansão de Regina %Dias% era exatamente como eu me lembrava da primeira vez que estive ali com a %Alice%: elegante demais, silenciosa demais, grande demais. Uma daquelas casas em que até o ar parecia pedir permissão para circular. Tudo era imaculado, simétrico, com móveis que pareciam ter saído direto de um catálogo de luxo e uma escadaria digna de final de novela. Nenhum objeto fora do lugar. Nenhum aroma que indicasse que ali vivia, de fato, uma família.
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  Ela surgiu na sala de jantar como quem presidia uma reunião do conselho — passos firmes, expressão calculada, cabelo impecavelmente preso num coque alto e um conjunto bege tão alinhado quanto os talheres dispostos à mesa.
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  — %Arthur%. — disse, com um leve aceno de cabeça. As sobrancelhas erguidas, os olhos avaliando como se eu fosse um relatório trimestral.
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  — Dona Regina. Bom dia. — respondi com um sorriso educado, ainda que tenso. Senti o peso de cada letra do meu cumprimento.
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  Ao meu lado, %Alice% estava com o maxilar travado. Ombros erguidos. Ela já esperava o embate — só não contava que fosse antes mesmo do café esfriar.
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  Regina caminhou até a cabeceira da mesa com a mesma precisão meticulosa de antes. Sentou-se com elegância quase ensaiada, cruzou as pernas com delicadeza e, então, ajeitou o guardanapo no colo com a precisão de um bisturi.
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  Nós a acompanhamos, tomando nossos lugares à mesa logo em seguida. As cadeiras estofadas eram rígidas como o ambiente, e por um momento me perguntei se alguém ali realmente já havia relaxado de verdade naquela casa.
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  — Nós já nos vimos antes, não foi? — comentou, como se retomasse uma reunião pendente. — Você esteve aqui com a %Alice% há um tempo.
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  — Sim, senhora. Foi uma visita breve.
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  — Hm. Parecia... deslocado.
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  — Talvez porque eu estivesse. — tentei aliviar com um sorriso, mas ela nem piscou.
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  — Espero que agora se sinta mais à vontade. — disse, embora seu tom deixasse claro que “à vontade” não era exatamente o que ela esperava de mim.
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  %Alice% pigarreou. Quase um aviso.
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  — Mãe, viemos apenas tomar café. Vamos manter isso simples, por favor?
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  — Eu prefiro refeições a reuniões. As pessoas se revelam muito mais entre goles e garfadas do que em qualquer sala com ar-condicionado. — comentou, enquanto se servia de frutas com gestos medidos.
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  Recebi um café das mãos de um dos empregados. O cheiro era forte. Amargo. Tudo a ver com o ambiente.
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  — Então... — Regina retomou. — Você trabalha como ilustrador?
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  — Sim. Estou no estúdio Bravura. Trabalho com direção de arte editorial, narrativa visual e projetos gráficos autorais.
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  — Hm. Imagino que não seja um setor muito… lucrativo.
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  Ela não perguntou. Afirmou. Engoli em seco e mantive a compostura.
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  — É uma profissão que exige bastante dedicação. Mas paga as contas, sim.
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  — Algumas, talvez. — murmurou, mexendo o chá com a colher prateada. — E quanto você ganha, exatamente?
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  %Alice% largou o garfo. Não foi sem querer.
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  — Mãe!
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  — É uma pergunta simples, %Alice%. Transparência é essencial em qualquer relacionamento.
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  — Isso aqui não é uma entrevista de emprego. — rebateu, fria. — E, sinceramente? O valor que ele ganha é mais digno do que muito executivo com sobrenome e cargo herdado.
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  Regina recostou-se, o sorriso congelado nos lábios.
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  — Que reação desnecessária.
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  — Que pergunta desnecessária. — %Alice% respondeu no mesmo tom.
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  Tentei amenizar o clima:
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  — Se não se importa, dona Regina… onde fica o banheiro?
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  — Segunda porta à esquerda no corredor. — respondeu %Alice%, com um sorrisinho tenso e olhos que pediam desculpa sem dizer.
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  Saí sentindo o colarinho apertar. Lavei o rosto, respirei fundo, deixei a água correr pelas mãos como se pudesse dissolver o desconforto.
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  Na volta, parei no pé da escada. Sem querer. Juro. Mas quando ouvi meu nome no meio da frase, meus pés congelaram.
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  — …é só isso que estou dizendo. Ele é limitado, %Alice%. Um rapaz simpático, claro. Mas não é um homem pra você. Você sabe disso.
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  — Você não o conhece, mãe. E não tem o direito de diminuir alguém que construiu tudo com o próprio esforço.
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  — Esforço não paga viagens para Genebra. Esforço não garante filhos em boas escolas. Não sustenta estabilidade. Eu te criei para escolher com estratégia, não com carência.
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  — Não fala comigo como se eu fosse um investimento, Regina. Porque, se for, prefiro cortar o contato de vez.
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  Silêncio.
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  — Eu amo o %Arthur%. E se você não consegue aceitar isso, talvez precise se perguntar se ainda faz parte da minha vida. Porque eu não vou deixar você acabar com o que a gente tem.
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  O vazio que se instalou depois disso parecia denso. Como se ali, entre aquelas palavras, estivessem anos de frustração engolidos.
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  Afastei-me devagar e voltei a andar com firmeza, os sapatos fazendo barulho de propósito no chão de mármore. As duas se viraram. Regina recompôs o rosto num segundo. %Alice% nem tentou.
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  — Tudo certo, %Arthur%? — ela perguntou, a voz baixa e trêmula.
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  — Tudo sim. — respondi, encarando-a por um instante. Só pra que ela soubesse: eu tinha ouvido. E estava ali.
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  Regina ajeitou a xícara com um tilintar suave.
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  — Como eu dizia… amanhã você almoça aqui, %Alice%. Só nós duas.
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  %Alice% demorou a responder. Quando falou, foi com um olhar afiado:
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  — A gente conversa depois. Agora… eu quero ir embora.
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  E eu fui com ela. Porque, mesmo sem dizer nada, ela segurou minha mão com força. Daquele jeito que dizia tudo.
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  Nota da Autora: Esse capítulo foi uma mistura de calmaria e terremoto. De um lado, temos o Arthur ocupando, de vez, os espaços da vida da Alice, da rotina ao coração. Do outro, temos a mãe dela, jogando aquele balde de água gelada que, no fundo, a gente já esperava. Porque amar é fácil… assumir esse amor diante do mundo (e da família) é que exige coragem.
  Escrever essa fase foi como andar na roda-gigante com eles: subidas doces, descidas bruscas, e aquele frio na barriga que não passa. O passeio no parque, o beijo roubado, os sorrisos sinceros… tudo isso existe no mesmo universo onde a palavra "erro estratégico" ainda machuca. E é aí que a história mostra suas camadas.
  E, sim, a gente tá mesmo na reta final. Agora não tem mais volta. As peças estão todas no tabuleiro, e o fim se aproxima — com promessas, medos e decisões que não dá mais pra adiar.
  Obrigada por estarem aqui.
  Beijos <3

Capítulo 16
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