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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Segredo de Escritório

Escrita porNyx
Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 14 • À Sombra do Orgulho

Tempo estimado de leitura: 37 minutos

Por %Alice% %Dias%

  O som dos meus saltos ecoava como sempre no corredor. Preciso. Rítmico. Inquebrantável. Era assim que deveria ser. Era assim que eu precisava ser.
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  Atravessei o setor de diretoria sem diminuir o passo, sem olhar para os lados, sem deixar que nada quebrasse a imagem que passei anos aperfeiçoando. A imagem da mulher que nunca perdia o compasso.
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  Mas, por dentro, cada batida dos saltos soava como um vazio.
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  Hoje era o primeiro dia sem ele.
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  Me sentei à minha mesa, abri o notebook e tentei focar nos relatórios que Mariana havia separado logo cedo. Ela era organizada, aplicada e atenta. Estava fazendo tudo o que precisava ser feito, mas, ainda assim, o peso da ausência dele preenchia cada espaço.
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  Mariana trouxe um café. Eu agradeci com um aceno discreto. Ela voltou para a própria mesa, digitando sem parar. O café estava… ok. Sem açúcar, como sempre. Mas sem alma também.
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  Já havia desistido de pedir os croissants. Nunca vinham quentes o suficiente. %Arthur% sabia disso. Sabia que eu gostava deles levemente tostados, com as pontas crocantes e o centro macio. Sabia que eu tomava o café em goles curtos, entre uma reunião e outra, e que deixava sempre um último gole intacto, por puro hábito. Ele sabia.
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  E era isso que doía: ele sabia até as pequenas coisas que eu nunca precisei dizer...
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  Tentei trabalhar.
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  Ou pelo menos, fingir.
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  Mas era como tentar costurar um tecido que já vinha rasgado. Os pensamentos não paravam. As lembranças vinham em ondas — suaves no começo, depois devastadoras.
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  Eu sempre dava um jeito de vê-lo. Antes, era fácil — bastava um chamado, um e-mail, um relatório qualquer, e lá estava ele: entrando pela porta da minha sala, com aquela postura sempre respeitosa, mas os olhos… os olhos diziam muito mais do que qualquer protocolo.
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  Chamava para reuniões desnecessárias. Pedia atualizações que eu nem precisava. Inventava pretextos só para vê-lo ali, só para ter a presença dele me preenchendo os silêncios.
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  Depois que voltou para o setor de Planejamento, tudo mudou. Eu não podia chamá-lo sem motivo. Não podia mais tê-lo orbitando ao meu redor com a mesma constância silenciosa. Mas... me adaptei.
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  Descia para a copa em horários específicos, apenas para esbarrar com ele no corredor. Esticava as pernas no saguão com a desculpa de encontrar algum gerente — quando, na verdade, só queria vê-lo de longe. Pegava o elevador fora do meu horário só para correr o risco de dividir alguns segundos com ele, em silêncio.
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  Esses encontros se tornaram a minha rotina. Meu vício secreto. Um aceno. Um “bom dia”. Um olhar rápido demais para ser casual. Mas agora, nem isso, nem a casualidade me dava mais o direito de vê-lo.
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  Era estranho. Porque sempre fui eu quem controlava o ritmo. Sempre fui eu quem decidia quando e como algo terminava. Mas, com %Arthur%, ele foi embora antes que eu conseguisse admitir que queria que ele ficasse.
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  Fechei os olhos por um segundo.
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  Só um.
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  Só para tentar retomar o controle.
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  Respirei fundo.
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  Mas não adiantava. Porque eu sabia exatamente quando tudo começou.
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  Não foi no dia em que nos beijamos ou quando fizemos sexo pela primeira vez. Nem na noite em que ele apareceu na minha porta, pronto para me enfrentar. Começou muito antes. No detalhe. No imprevisto.
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  Foi naquele final de tarde, quando ele entrou na minha sala e corrigiu um dado do relatório com tanta calma, mesmo eu estando impaciente. Quando ele me respondeu com firmeza, mas sem arrogância. Quando ele me olhou como quem me enxergava — de verdade — e não apenas como a CEO impossível de agradar.
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  Foi aí que alguma coisa trincou e continuou nas pequenas coisas.
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  Na forma como ele puxava a cadeira com um cuidado quase tímido. Como me trazia um café extra nos dias de reunião longa, sem que eu precisasse pedir. Como ele ficava em silêncio ao meu lado sem pressa, como se minha presença bastasse. Como ele sorria quando achava que eu não estava olhando.
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  A verdade é que eu fui me apaixonando em silêncio. Enquanto fingia indiferença, mantinha a distância, enquanto me escondia atrás de ordens e formalidades.
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  E agora… agora era tarde demais para admitir. Ele já tinha ido embora e eu ainda estava aqui — estagnada no meio do que não disse, do que não fiz, e do que fingi não sentir.
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  O interfone tocou.
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  — Senhorita %Dias%, a Rafa Kalimann está aqui para a reunião de alinhamento. — informou Mariana.
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  — Pode mandar entrar. — respondi, a voz tão fria quanto o vidro daquela sala.
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  Segundos depois, Rafa entrou, cheia de energia, como se o peso do mundo não a tocasse. Jogou a bolsa em uma poltrona e me lançou um sorriso largo. Fran veio logo atrás, ajeitando o tablet na mesa de apoio.
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  Mariana já estava em sua posição habitual: sentada em uma das cadeiras do canto da sala, caderno no colo, caneta em mãos, pronta para anotar cada palavra que saísse dali. Sempre eficiente. Sempre discreta. Mas ainda... estranha, deslocada. Como se aquele espaço ainda não a reconhecesse.
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  Rafa olhou para Mariana rapidamente, depois para mim, com um olhar cheio de malícia.
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  — Então... — começou, casual — cadê o seu secretário gato?
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  A pergunta bateu como uma pedra no meio da sala. Arqueei uma sobrancelha, mantendo o rosto inexpressivo. Controle. Sempre controle.
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  — O %Arthur%? — perguntei, como quem mal se lembrava.
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  — É, ué. — Rafa deu uma risadinha leve. — Cadê ele? Achei que ia ver o sorriso dele brilhando nesse andar.
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  Vi Mariana se mexer desconfortavelmente na cadeira, abaixando o olhar para o caderno. Mantive a voz neutra, a mais prática possível.
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  — Ele foi transferido para outro setor. E, recentemente, aceitou uma proposta em uma empresa de ilustração. — Disse, ajeitando distraidamente uma pasta de documentos, apenas para ocupar as mãos. — Mais alinhada com o que realmente quer fazer.
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  Rafa franziu o cenho, surpresa genuína.
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  — Ilustração? — perguntou, interessada. — Uau. Não fazia ideia.
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  — Ele é muito talentoso. — escapou da minha boca antes que eu pudesse filtrar o tom. Baixei os olhos imediatamente, forçando-me a voltar ao foco.
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  Rafa, esperta como sempre, não deixou passar. Um sorriso sapeca surgiu no canto dos seus lábios, mas ela se conteve — talvez percebendo que era um assunto que sangrava mais do que parecia.
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  — Entendi. — disse apenas, se acomodando para começarmos a reunião.
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  Mariana continuou anotando tudo em silêncio. Certa tensão pairava no ar, mas ninguém ousou comentá-la.
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  Falamos de campanhas, novas ações para os próximos meses, discutimos prazos e metas. Mariana fazia o possível para acompanhar, suas anotações rápidas preenchendo o caderno. Ainda assim, era impossível não perceber a diferença. Com %Arthur%, tudo era mais fluido, havia uma sincronia silenciosa. Agora... havia lacunas. Silêncios que nem Mariana — com toda a sua boa vontade — conseguia preencher.
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  Quando a reunião terminou, Rafa se levantou, ajeitando a bolsa no ombro. Olhou de novo para Mariana, depois para mim.
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  — Trocaram o sorriso mais bonito do setor, hein? — comentou em tom brincalhão, mas os olhos me estudavam.
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  Controle, %Alice%. Sempre.
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  — A Mariana é muito competente. — respondi com firmeza. — Estamos nos adaptando.
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  Rafa apenas sorriu, como quem entendia muito mais do que ouvia, e saiu acompanhada por Fran, que já abria a agenda para marcar a próxima reunião. Quando a sala ficou vazia novamente, Mariana se aproximou, deixando os papéis para assinatura.
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  Assinei tudo no automático. Nem olhei para ela. Nem precisei. Assim que ela saiu, o silêncio caiu como uma cortina pesada. E eu, pela primeira vez em muito tempo, não encontrei refúgio no trabalho.
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  Por impulso, quase sem pensar, abri o navegador e digitei: %Arthur% Torres Ilustração
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  Seu perfil surgiu imediatamente.
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  Uma nova ilustração.
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  Uma xícara solitária. Um café vazio. A luz filtrada pela janela. Solidão desenhada em linhas suaves. Saudade desenhada sem nem saber que era saudade.
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  Fechei a aba com um clique rápido, como se pudesse apagar o que aquilo mexia dentro de mim. Ajeitei a postura, endireitei os ombros, segurei a máscara de CEO com ambas as mãos invisíveis.
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  Eu era %Alice% %Dias%.
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  E %Alice% %Dias% não sentia falta.
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  Ou, pelo menos, deveria ter aprendido a não sentir.
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👠💻

  A chave girou na fechadura com um estalo seco.
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  Empurrei a porta da cobertura e entrei, os saltos ecoando no piso impecável de mármore claro. Joguei a bolsa sobre a poltrona mais próxima e me desfiz do blazer, deixando-o cair com precisão estudada sobre o encosto.
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  O apartamento parecia ainda mais silencioso do que o normal.
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  Era perfeito. Luxuoso. Moderno. Linhas retas, tons neutros, arte minimalista decorando as paredes brancas como folhas em branco. Cada peça tinha sido escolhida com cuidado. Cada detalhe exalava sucesso.
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  E, ainda assim... Era frio. Inerte. Um cenário de revista que não sabia abrigar ninguém de verdade.
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  Suspirei, tirando os saltos e atravessando a sala até a cozinha aberta. Peguei uma taça de vinho na prateleira, servi o líquido vermelho até a metade e encostei o quadril na bancada, encarando a vista noturna de São Paulo através da parede de vidro.
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  As luzes da cidade piscavam lá fora, indiferentes ao que se passava aqui dentro.
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  Tentei me distrair. Peguei o notebook. Abri pastas. Respondi e-mails. Programei reuniões que nem sabia se queria ter, mas nada me prendia. As palavras escapavam entre meus dedos. As planilhas dançavam na tela. O foco, que sempre foi minha fortaleza, hoje era uma muralha rachada.
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  Fechei o notebook com um estalo mais forte do que pretendia.
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  Cada canto daquele apartamento parecia ecoar a mesma ausência. Cada móvel. Cada quadro. Cada centímetro do chão. Tudo gritava a falta que eu não sabia nomear direito.
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  Fechei os olhos por um segundo. E então, sem pedir permissão, o flash veio.
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  %Arthur%.
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  De pé, no meio da minha sala. A carta de demissão nas mãos. A expressão decidida e triste ao mesmo tempo. A voz dele — rouca, firme, cortando o espaço entre nós:
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  "Eu tô escolhendo ser feliz."
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  As palavras reverberaram dentro de mim como um trovão. Escolhendo ser feliz.
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  Escolhendo ser livre de mim.
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  Abri os olhos devagar, como quem emergia debaixo d'água. O peso da solidão parecia mais denso naquela noite, infiltrando-se pelas paredes frias da cobertura, colando na pele.
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  E, ainda assim, algo em mim se recusava a soltá-lo completamente...
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  Por que eu soube da contratação antes dele.
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  Vi seu nome entre os novos contratados da Bravura antes mesmo que %Arthur% anunciasse. E naquele momento, sozinha no silêncio frio da minha cobertura, algo dentro de mim aqueceu.
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  Ele conseguiu, estava seguindo em frente. E, de alguma forma — ainda que ele nunca soubesse —, eu tinha ajudado a abrir essa porta.
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  Era irônico. Sempre me considerei uma mulher prática, calculista. Apoiava causas, projetos, movimentos... mas nunca pessoas. Nunca indivíduos. Nunca deixava que alguém ocupasse espaço demais dentro de mim.
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  Exceto ele.
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  %Arthur%.
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  O erro mais doce da minha vida.
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  E foi por ele — só por ele — que eu rompi minha regra mais sagrada: ajudar alguém sem esperar nada em troca. Sem assinar meu nome no final. Sem querer gratidão. Sem querer reconhecimento.
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  Só... querer vê-lo brilhar.
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  Meu peito apertou, e por um breve instante, deixei minha mente voltar àquela noite. A noite em que tomei a decisão que, até agora, guardei só para mim. A noite em que fiz o único gesto verdadeiramente altruísta da minha vida.
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  Flashback

  O celular vibrava discretamente sobre a bancada.
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  Olhei para a tela — um número conhecido, mas não pessoal. Respirei fundo antes de atender.
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  — %Alice% %Dias% falando.
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  A voz do outro lado era calma, polida. O Sr. Navarro, CEO da Bravura. Um dos poucos contatos que eu mantinha em silêncio no meu círculo de influência.
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  Não porque precisasse dele para algo — mas porque, às vezes, saber pedir da forma certa era mais poderoso do que qualquer ordem direta.
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  — %Alice% %Dias%, recebi sua mensagem, estou curioso. — ele disse, com aquele tom brincalhão disfarçado de formalidade.
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  Agarrei a taça de vinho com mais força do que o necessário, mantendo a voz neutra.
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  — É simples, Navarro. — falei. — Quero que olhe o portfólio de um jovem ilustrador. Sem compromisso. Sem promessas.
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  Ele riu baixo do outro lado, como se aquilo fosse diversão para ele.
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  — E por que o interesse, vinda da toda-poderosa da Domus Enterprises?
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  Mordi o interior da bochecha, controlando o impulso de fechar a cara.
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  — Porque é talento genuíno. — respondi. — E... acredito que o tipo de sensibilidade que vocês procuram. Só isso.
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  Houve uma breve pausa. Do outro lado da linha, senti a mudança de tom.
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  — Sem nomes? Sem indicação oficial?
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  — Sem nomes. — respondi rápido. — Só veja. É tudo que eu peço.
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  Não queria que %Arthur% soubesse. Não queria que aquilo parecesse um favor.
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  %Arthur% era orgulho puro. E eu... eu também.
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  Mas isso — essa pequena intervenção secreta — era a única forma que encontrei de ajudar sem destruir o que ele estava tentando construir sozinho.
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  Um silêncio tenso pairou entre nós, até que Navarro respondeu:
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  — Está bem, %Alice%. Envie o link.
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  — Obrigada. — disse, antes de desligar.
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  Enviei o perfil do %Arthur% no Instagram logo depois, com uma mensagem curta:
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  "Dê uma olhada. Ele merece ser visto."
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  Nada mais.
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  Fechei o celular com um clique seco e encostei a testa contra o vidro gelado da janela da cobertura.
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  Ele nunca saberia.
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  E era melhor assim.
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  Ajudar sem esperar nada. Sem reivindicar nada.
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  Era a minha forma torta de amá-lo. Silenciosa. Oculta. Como tudo o que existia entre nós — e que, agora, só eu carregava…
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  Fim do flashback

  Eu sempre fui boa em me controlar. Em manter tudo sob medida. Frieza, foco, disciplina. Era o que diziam de mim. Casca dura. Inalcançável. E, sinceramente? Eu deixava que pensassem assim. Era mais fácil, mais seguro.
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  Porque a verdade é que eu aprendi cedo demais que se você se permite sentir, você quebra. E eu não podia me dar ao luxo de quebrar.
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  A vida me ensinou, desde cedo, que amor era uma promessa com prazo. Que confiar em alguém era dar a eles a chance de te esmagar. Então, eu virei o oposto disso. Me blindei. Me tornei aquilo que ninguém conseguia atingir.
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  Mas ninguém nascia assim. A gente aprendia. A gente virava.
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  E eu me lembro exatamente quando isso começou.
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  Eu tinha dez anos.
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  A casa era enorme, luxuosa, com pisos de mármore que ecoavam a cada passo e janelas tão grandes que pareciam querer engolir o jardim perfeitamente aparado lá fora. Tudo parecia perfeito — por fora. Mas ali, naquelas escadas de madeira escura, onde eu me escondia sempre que o mundo desabava, o que eu sentia era tudo, menos perfeição.
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  Eu estava abraçada aos joelhos, ainda vestindo o uniforme impecável da escola particular, assistindo ao pesadelo se desenrolar diante dos meus olhos.
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  Meu pai — o homem que me prometeu o mundo e as estrelas — descia carregando duas malas de couro italiano. A expressão dele era fria. Não havia raiva. Nem culpa. Só... ausência. Ele sequer olhava para trás.
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  Minha mãe estava parada à porta da sala de estar, os braços cruzados sobre a blusa de cashmere, a boca cerrada numa linha fina de desdém.
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  Ela não chorava. Nunca chorava.
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  — Vai mesmo nos deixar pra viver com aquela mulherzinha? — disparou, a voz cortando o ar com a precisão de uma lâmina.
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  Ele não respondeu. Apenas ajustou a alça da mala no ombro e continuou andando. E foi aí que eu me movi.
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  Desci correndo os últimos degraus, tropeçando nos próprios pés, sem pensar.
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  Corri até ele. Agarrando a barra do paletó caro como se fosse a última âncora do meu mundo.
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  — Pai... — minha voz saiu num soluço infantil, desesperado. — Não vai embora. Por favor. Fica…
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  Ele parou. Apenas por um segundo. O suficiente para olhar para mim. Seus olhos — os mesmos olhos que tantos elogiavam como "tão claros, tão confiantes" — estavam vazios.
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  Com um gesto impaciente, ele se desvencilhou da minha mão pequena, como quem sacode um incômodo qualquer.
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  — Pare de ser dramática, %Alice%. — disse, sem emoção. — Você vai entender quando crescer.
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  E foi embora.
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  Assim.
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  Deixando para trás malas vazias… e uma menina de dez anos, ajoelhada no chão de mármore frio, abraçando o próprio vazio.
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  Nunca mais me procurou, mandou cartas ou ligou.
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  Reconstruiu outra vida.
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  Outra família.
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  Outra filha — que não era eu.
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  E minha mãe… ela não me consolou. Não me puxou para um abraço. Não disse que ia ficar tudo bem. Apenas virou de costas, caminhou até a copa iluminada pelo lustre de cristal, e ordenou para a empregada com a frieza de quem pede um café:
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  — Prepare o jantar. Minha filha precisa aprender que a vida não para pelos caprichos de homem nenhum.
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  E ali, no meio do luxo, das roupas caras, das viagens internacionais e dos jantares formais, eu entendi: o amor não era seguro, o amor era abandono. Eu cresci sem espaço para ele e construí armaduras em vez de sonhos.
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  Minha mãe virou uma máquina de amargura. Cada dia, cada conversa, cada olhar.
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  — Nunca confie em ninguém, %Alice%. — ela dizia, batendo as louças na pia de mármore com força suficiente para fazê-las tilintar. — Homens são todos iguais. Hoje dizem que te amam, amanhã te trocam como quem troca de carro.
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  Outras vezes, enquanto ajustava as pérolas no pescoço diante do espelho:
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  — Seja sempre a melhor. A mais esperta. A mais fria. Se não for, eles vão te esmagar, igual seu pai fez comigo.
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  E quando eu chorava sozinha no quarto, achando que ninguém ouvia:
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  — Chorar é para as fracas, %Alice%. — a voz dela atravessava a porta fechada. — As fracas viram memória. As fortes constroem impérios.
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  Eu cresci ouvindo isso como quem grava uma tatuagem invisível na pele. Dia após dia. Ano após ano. Aprendi a me blindar. A nunca demonstrar fraqueza. A ser melhor do que qualquer um esperava. A nunca precisar de ninguém.
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  Amor?
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  Amor era uma promessa vazia. Uma corda pendurada no penhasco...
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  O mais cruel foi anos depois.
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  Quando meu pai apareceu na coluna social da cidade, sorrindo com a nova esposa e sua filha perfeita. Quando minha mãe — entre um gole de vinho e um prato de jantar servido por funcionários pagos para fingir que éramos uma família — comentou, sem desviar os olhos da revista:
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  — Ainda bem que ele nos deixou. — disse, com um sorriso venenoso. — A gente sempre foi melhor sem ele.
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  Eu olhei para o prato vazio.
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  E soube.
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  Ninguém ia me salvar. Nem ele. Nem ela. Nem ninguém.
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  Se eu quisesse sobreviver, teria que ser forte. Mais forte do que qualquer coisa que pudesse me quebrar.
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  Quando ela — a mesma mulher que me ensinou a desconfiar de todos — passou a cobrar de mim uma família, um marido e filhos, ferrou completamente minha cabeça e de repente, eu precisava mudar minha forma de pensar:
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  — Você já passou da idade de pensar em casamento, %Alice%. — dizia entre um gole de chá e outro, como se estivesse comentando o tempo ou pedindo para passar a manteiga.
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  — Mulher sozinha é mulher esquecida.
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  — O relógio não para pra ninguém, %Alice%. Nem para você.
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  — Ninguém quer uma mulher que trabalha demais e sorri de menos.
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  Engoli o amargor em silêncio. Como sempre.
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  Porque, enquanto ela dizia essas palavras vazias, eu sabia: meu pai tinha construído outra família. Nova esposa. Nova filha. Nova vida.
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  E nunca mais nos procurou. Nunca mais me ligou no meu aniversário.
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  Nunca mandou uma carta. Nunca quis saber quem eu me tornei. Quem eu precisei me tornar para sobreviver à ausência dele.
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  Eu era um quadro velho pendurado numa parede de memórias que ninguém visitava.
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  Abri os olhos de novo, o teto da cobertura me encarando de volta, silencioso e indiferente.  Respirei fundo, tentando afastar a dor antiga que nunca desaparecia — só aprendia a usar saltos altos, ternos caros e a enterrar mais fundo cada cicatriz.
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  Era por isso que eu não deixava ninguém entrar. Era por isso que %Arthur%… %Arthur% me desmontava. Ele me olhava como se eu fosse digna de ser amada. Como se houvesse algo em mim além das muralhas. Além do vazio.
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  E era isso que me assustava mais do que qualquer abandono.
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  Porque eu sabia.
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  Se eu deixasse, ele poderia destruir tudo o que eu construí para me proteger. Ele poderia me fazer querer confiar. Querer acreditar. Querer pertencer. E eu não sabia como consertar isso.
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  Porque a verdade nua e crua era essa: Uma parte de mim já estava quebrada. Uma parte de mim já era dele.
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  E pela primeira vez na vida, eu não sabia se queria me reconstruir...ou se queria simplesmente me permitir desmoronar nos braços dele.
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  A noite avançava sem piedade. As luzes da cidade lá fora brilhavam feito constelações distantes, e eu... eu estava presa aqui dentro. Na minha própria prisão de luxo e silêncio.
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  Fechei os olhos, e a memória veio com a força de uma lâmina bem afiada.
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  A foto.
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  A maldita foto que vazou para a empresa toda.
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  %Arthur% e eu, no estacionamento reservado, tarde da noite, entrando juntos no meu carro. Não era exatamente comprometedora, mas sugeria o suficiente para alimentar especulações — e no ambiente em que trabalhávamos, bastava uma faísca para acender um incêndio.
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  Me vi sentada naquela sala gelada da diretoria, encarando rostos desconfiados, perguntas atravessadas, suposições maliciosas.
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  E eu neguei.
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  — A ideia de que eu estaria envolvida com um funcionário é absurda. Nunca faria algo assim. Até parece que não me conhece. Trabalhamos até tarde, eu lhe dei uma carona até sua casa, e foi só isso! — ouvi minha própria voz, fria, calculada, ecoando nas paredes.
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  Uma mentira que soou tão fácil. Tão automática. Uma mentira que não me custou nada na hora — mas que depois...depois me custou tudo.
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  O olhar dele me assombrava até hoje.
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  %Arthur%, parado no corredor, depois da reunião. %Arthur%, ouvindo minhas palavras como se fossem tiros disparados direto contra ele. A confusão nos olhos. O ferimento aberto. A decepção. Porque sim, eu vi o momento em que ele tinha ouvido tudo.
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  Eu me traí.
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  Traí a nós.
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  E, naquele instante, o perdi.
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  Por quê?
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  Eu poderia dizer que foi orgulho. Que foi a empresa. Que foi o protocolo. Mas não. A verdade era ainda mais cruel.
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  Eu neguei porque estava apavorada. Apavorada com o que significava admitir. Porque se eu dissesse em voz alta que amava %Arthur%... Se eu permitisse que o mundo — que ele — soubesse… Então ele teria o poder de me destruir.
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  Como meu pai teve.
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  E eu sabia — sabia no fundo do meu peito fechado — que amar era se expor. Era baixar a guarda. Era colocar tudo o que eu tinha nas mãos de alguém. E eu nunca fui ensinada a fazer isso.
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  Fui treinada para sobreviver, não para confiar. Fui treinada para vencer, não para amar.
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  Então, como a covarde que me tornei, eu escolhi o medo. E, ao proteger a mim mesma… eu perdi o %Arthur%. Perdi a única pessoa que enxergou quem eu era antes mesmo de eu saber.
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  E talvez — apenas talvez — fosse tarde demais para consertar isso.
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👠💻

  A semana passou arrastada. Cada dia uma tortura elegante, escondida atrás de relatórios, reuniões e planejamentos futuros que eu preenchia como se fossem cimento, tentando tapar as rachaduras.
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  Trabalho. Trabalho. Trabalho.
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  Essa era a regra. Sempre foi.
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  Mas o vazio… o vazio crescia.
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  E nenhuma métrica, nenhum gráfico, nenhum novo projeto conseguia preencher a ausência dele.
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  %Arthur%.
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  O nome dele era uma constante dentro da minha cabeça, mesmo que eu me proibisse de pronunciá-lo em voz alta.
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  Na sexta-feira, voltei para casa com os olhos ardendo e a cabeça latejando. Deixei a bolsa atirada no aparador da entrada, tirei os saltos com um movimento brusco e me joguei no sofá, encarando o teto.
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  Eu podia fingir. Podia continuar fingindo. Era o que sabia fazer melhor. Mas algo dentro de mim... quebrou.
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  Segui direto para o banheiro, como se o banho pudesse lavar a inquietação que latejava sob minha pele. A água quente desceu pesada sobre mim, mas não levou embora o que eu carregava.
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  Fiquei ali por longos minutos, de olhos fechados, enquanto a lembrança do %Arthur% — do sorriso dele, da última vez que nossos olhos se cruzaram — se agarrava à minha mente como uma segunda pele. E pela primeira vez em anos, deixei-me fraquejar.
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  Quando saí do banho, enxuguei o corpo devagar, como se cada movimento exigisse concentração para não desmoronar.
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  Meus cabelos, que costumava prender em coques perfeitos ou alisar com perfeição milimétrica para os dias de trabalho, estavam ali, selvagens, cacheados e livres. Toquei-os com cuidado, sentindo a textura natural deslizar entre meus dedos. Por um segundo, hesitei. Depois, deixei. Deixei que fossem como eram. Como eu era.
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  No quarto, vesti jeans escuros — uma raridade no meu guarda-roupa engomado —, uma blusa branca simples, de tecido leve, que caía suavemente sobre o corpo. Nos pés, optei por um all star preto, discreto. Nada de blazers estruturados. Nada de roupas feitas para intimidar.
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  Só eu, ou o que restava de mim.
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  Olhei para o espelho.
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  Cabelos soltos.
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  Rosto limpo.
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  Olhar inquieto.
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  Era estranho. E, de alguma forma, certo.
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  Peguei a bolsa pequena, as chaves, e desci as escadas do prédio antes que pudesse mudar de ideia.
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  No caminho, parei num mercado qualquer e comprei uma garrafa de vinho sem prestar atenção no rótulo. Não era para impressionar. Nem para brindar. Era só... para ter algo nas mãos que não fosse o próprio coração.
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  Quando estacionei diante do prédio dele, o nervosismo tomou conta.
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  Ridículo.
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  Era só %Arthur%.
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  Só... tudo que eu passei meses tentando esquecer.
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  Toquei a campainha.
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  E esperei.
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  Até que a porta se abriu e tudo desabou. Era uma mulher.
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  Jovem.
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  Bonita.
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  Confortável na casa dele.
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  Ela usava um moletom largo e um sorriso fácil, como quem pertencia àquela casa, àquele espaço, àquela vida. A risada dela ecoou do fundo do apartamento, leve, natural, como algo que eu nunca soube fazer.
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  Minha mente correu em segundos:
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  Ele seguiu em frente.
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  Ele está feliz.
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  Ele esqueceu.
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  O instinto de defesa, aquele velho reflexo que eu achava ter deixado para trás, disparou como uma lâmina afiada.
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  Ergui o queixo.
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  Endireitei a coluna.
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  Vesti minha máscara impecável como se fosse uma armadura.
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  — Desculpe — disse, a voz firme, inexpressiva, enquanto os olhos dela me encaravam, curiosos. — Devo estar atrapalhando.
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  E pela primeira vez em muito tempo, eu — %Alice% %Dias%, a mulher que nunca hesitava — desejei poder desaparecer.
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  — Imagina! Pode entrar. O %Arthur% tá ali. Fica à vontade!
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  Ela sorriu, sem entender nada. Claro que não entendeu. Como poderia?
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  Para ela, eu era só uma visitante inconveniente. Não era a mulher que já conhecia o peso da ausência dele melhor do que o próprio peito. Eu forcei um sorriso vazio — desses que a gente aprende a dar em jantares de gala e reuniões de diretoria — e comecei a me virar para ir embora.
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  Por dentro, porém?
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  Por dentro eu me sentia uma idiota.
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  Eu o deixei livre.
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  Pedi para ele voar.
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  E agora que ele voou... por que é tão insuportável vê-lo feliz sem mim?
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  Dei o primeiro passo para longe. Depois o segundo. O som dos meus passos ecoou no corredor, como a decisão que eu não queria tomar.
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  Eu ia embora.
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  Sem drama.
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  Sem arrependimento aparente.
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  Sem nada.
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  Porque era isso que se esperava de mim. Porque era isso que eu me obriguei a ser, mas antes que eu chegasse às escadas, ouvi.
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  — %Alice%, espera! — a voz dele, urgente, atravessando o corredor como um raio.
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  Senti a mão dele segurar meu braço, firme, quente, real. Meu corpo congelou no mesmo instante. E antes que eu pudesse reagir — ou me proteger de novo —, virei o rosto de leve, encontrando o olhar dele.
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  E foi ali que o capítulo da nossa história — que eu tentei tanto encerrar — se reabriu.
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  De novo.
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  Nota da autora: Esse capítulo é especial. Pela primeira vez, damos espaço para que a Alice conte a própria versão — sem filtros, sem máscaras, sem a lente de ninguém além dela mesma. Aqui, a mulher que sempre pareceu inabalável finalmente cede. Mostra rachaduras. Mostra memórias. Mostra um coração que aprendeu a endurecer cedo demais.
  Escrevê-lo foi um mergulho profundo. Em dores antigas, em silêncios prolongados, em tudo o que ela nunca aprendeu a dizer em voz alta. E talvez por isso tenha sido tão intenso.
  Obrigada por estarem aqui. Capítulo após capítulo.
  Até a próxima atualização.✨

Capítulo 14
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