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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Segredo de Escritório

Escrita porNyx
Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 13 • Ecos do Adeus

Tempo estimado de leitura: 36 minutos

  O relógio marcava 9h quando eu cheguei ao prédio discreto onde funcionava o Studio Bravura. Nada de fachadas chamativas, nada de recepção luxuosa. Era um sobrado simples, com paredes brancas e janelas grandes que deixavam a luz natural invadir cada canto. Mas, do lado de dentro, tudo gritava arte. Quadros de vários estilos forravam as paredes, prateleiras abarrotadas de sketchbooks, mesas com pincéis, tablets gráficos e molduras esperando para serem preenchidas.
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  Respirei fundo, tentando controlar o frio no estômago.
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  Você não está mais em uma reunião de diretoria, %Arthur%. Agora é outro tipo de batalha.
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  Ajeitei a alça da mochila no ombro e avancei para a pequena recepção improvisada. Um quadro negro com letras tortas dizia: "Bem-vindo, onde sua arte fala primeiro." A frase me arrancou um sorriso nervoso.
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  Antes que eu pudesse me perder demais naquele universo novo, uma mulher de sorriso fácil e cabelo ruivo preso num coque bagunçado se aproximou.
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  — %Arthur%? — perguntou, a voz doce, mas segura.
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  — Sou eu. — respondi, estendendo a mão.
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  — Prazer, eu sou a Marina. — disse, apertando minha mão com firmeza. — Fico feliz que tenha vindo. O pessoal aqui adorou seu trabalho no Instagram.
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  Meu coração tropeçou dentro do peito. Eles viram. Eles realmente viram.
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  Marina me conduziu até uma sala iluminada, onde algumas telas em processo de criação estavam encostadas nas paredes. No centro, uma mesa redonda simples, com duas cadeiras.
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  — Pode ficar à vontade — disse ela, sorrindo enquanto se sentava. — Aqui, a gente acredita que técnica é importante, claro, mas o que mais nos interessa é o que está por trás do traço. A sensibilidade, a autenticidade. A voz de quem desenha.
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  Assenti, engolindo em seco. Sentia a camisa colar um pouco nas costas de tanto nervosismo.
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  A entrevista começou leve, com perguntas sobre minha rotina de desenho, o que me inspirava, que tipo de arte eu gostava de consumir. Fui falando aos poucos — sobre como eu comecei desenhando super-heróis no caderno da escola, sobre como a vida foi me puxando pra longe disso, mas o amor pela arte nunca deixou de existir.
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  Em algum momento, nem parecia mais uma entrevista.
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  Era uma conversa. Uma troca.
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  Marina perguntou qual era o meu sonho, e, antes que eu pudesse racionalizar, a resposta saiu:
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  — Só quero... criar coisas que façam alguém parar o que está fazendo e sentir algo. — murmurei, meio sem jeito. — Não importa se é grande ou pequeno. Só... sentir.
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  Ela sorriu, um sorriso genuíno, como se tivesse ouvido exatamente o que queria.
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  — Acho que é disso que o mundo precisa, %Arthur%. De artistas que ainda se importam em fazer sentir.
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  Ficamos ali por quase uma hora, falando de técnicas, referências, projetos futuros. Quando a entrevista terminou, Marina apertou minha mão de novo e disse que entrariam em contato em breve.
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  Sai do estúdio com o sol forte batendo no rosto e a cabeça leve — como se eu tivesse deixado algo meu lá dentro, junto com os traços das minhas ilustrações.
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  Não sabia se ia ser o bastante. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha sido cem por cento eu. E, de algum jeito estranho e bonito, aquilo já era uma vitória.
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  Dois dias depois da entrevista, eu já estava quase convencido de que não tinha dado em nada.
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  Estava sentado na minha velha baia do Planejamento, tentando me concentrar em uma planilha absurda de orçamento, quando o computador apitou discretamente. Uma nova notificação de e-mail. Olhei sem muita pressa — provavelmente só mais alguma cobrança de relatório.
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  Mas quando vi o remetente, meu coração tropeçou.
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  [Studio Bravura Ilustração] – Retorno da entrevista
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  Meus dedos congelaram sobre o teclado.
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  Engoli seco e cliquei.
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  "%Arthur%, foi um prazer enorme conversar com você. Depois de avaliarmos cuidadosamente seu perfil e suas ilustrações, temos o prazer de informar que gostaríamos de tê-lo em nosso time de ilustradores!
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  Seja bem-vindo ao Studio Bravura! 🎉
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  Em breve enviaremos as informações sobre o contrato e os primeiros projetos."
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  Fiquei parado, encarando aquelas palavras como se elas fossem evaporar a qualquer segundo.
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  Eu... consegui.
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  Consegui.
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  Senti a emoção subindo tão rápido que precisei apertar os punhos para não sair comemorando no meio do setor. O coração batia alto demais, e, por um segundo, todo o barulho das conversas, dos teclados e dos telefonemas pareceu se dissolver ao meu redor.
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  Respirei fundo.
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  Fingi costume.
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  Me inclinei discretamente para frente e peguei o celular. Abri o WhatsApp com dedos trêmulos e entrei no grupo da família:
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  Família Torres 💙 %Arthur%: CONTRATADO! 🎉
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  A resposta veio quase instantânea.
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  Pai: Meu filhooo!!! Que orgulho! Você merece tudo de melhor! Tô chorando aqui.
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  Mãe: %Arthur%, meu amor, sempre acreditamos em você. Agora é só o começo! 💖
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  Clara: AAAAAAAAAAAAAA MEU IRMÃOZÃO TALENTOSO!!!
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  Clara: Sabia que aquele sketchbook ia mudar sua vida, eu sabia!!!
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  Clara: (E sim, estou pulando no intervalo entre as aulas, obrigada pela informação)
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  Sorri, sentindo os olhos arderem discretamente. Abaixei o rosto, fingindo olhar para a planilha, só para ninguém perceber que o cara sério do Planejamento estava à beira de se emocionar com um simples celular na mão.
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  Mas não era simples.
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  Nada disso era simples.
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  Era o meu sonho. Era meu verdadeiro caminho se abrindo, debaixo dos meus pés.
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  A ficha ainda não tinha caído por completo, mas uma coisa eu sabia: naquela manhã, sentado numa cadeira meio bamba, cercado de papéis e planilhas, algo dentro de mim finalmente começou a se alinhar.
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  Eu estava prestes a mudar tudo. E, dessa vez, era por mim.
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  Não deu nem tempo de respirar. Clara praticamente me arrastou — e arrastou o Marcos junto — para nossa pizzaria favorita no bairro. Disse que uma notícia dessas não podia passar em branco. E, como sempre, ela venceu.
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  O lugar era pequeno, aconchegante, com luzes amarelas penduradas em fios grossos pelo teto e cheiro de massa assando invadindo o ar. Era o tipo de lugar que sempre parecia familiar, como se abraçasse a gente assim que passávamos pela porta.
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  Nos sentamos numa mesinha de canto, e Clara já fez questão de pedir uma pizza gigante, metade calabresa, metade quatro queijos, antes mesmo de o garçom perguntar.
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  — A casa paga a primeira rodada de refrigerante, hein? — ela disse, piscando, como se fosse cliente VIP.
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  Marcos riu, tímido, ajeitando os óculos no rosto, e eu só balancei a cabeça, tentando acompanhar a energia dela. A pizza chegou rápido — e, junto com ela, a conversa.
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  — Então, %Arthur% — Marcos começou, com aquela timidez simpática dele —, eu vi alguns dos seus desenhos que a Clara me mostrou... São incríveis, cara. De verdade. Como é que você consegue pensar nesses detalhes todos?
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  Sorri, meio envergonhado.
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  — Ah... acho que é prática. E... sei lá. É como... enxergar as coisas de um jeito meio diferente. Como se eu tentasse desenhar o que sinto, mais do que o que vejo.
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  Marcos assentiu, com os olhos brilhando de sincero interesse.
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  — Isso é muito massa. Sério. Dá pra ver que é paixão de verdade.
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  Fiquei quieto por um segundo, absorvendo aquilo. A pizza ainda nem tinha sido tocada. Era engraçado como uma frase simples podia pesar tanto. Foi Clara quem cortou o momento, do jeito irreverente de sempre.
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  — Marcos, você não tem noção. Se eu te contar direito a novela mexicana que foi a vida amorosa do %Arthur% nos últimos meses, você nem acredita. — disse, pegando uma fatia de pizza como quem preparava o terreno pra fofoca.
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  — Quê? — Marcos olhou confuso entre nós dois. — Como assim? — Levei a mão à testa.
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  — Não precisa exagerar, Clara…
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  — Precisa sim. — ela rebateu, rindo. — Senão perde a graça.
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  Ela se inclinou na mesa, conspiratória.
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  — Então, ó... tudo começou quando o %Arthur% foi ser secretário da CEO. A %Alice% %Dias%. — disse, em tom grave, como quem contava uma história épica. — A mulher mais linda, mais poderosa, mais "deixa todos os marmanjos de joelhos" que já pisou naquela empresa.
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  Marcos arregalou os olhos.
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  — Nossa.
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  — Aí — continuou ela, já empolgada —, num belo dia, i %Arthur% aqui teve que resgatar a dama em apuros, no caso, ela, de um encontro péssimo. Sabe aqueles dates que você pensa: "Se eu não sumir agora, talvez eu morra de vergonha"? Pois então. %Arthur% foi o príncipe do Uber.
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  Eu gemi de vergonha.
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  — Clara, pelo amor de Deus…
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  — Não tô nem na metade! — Ela riu, ignorando meus protestos. — Depois disso, aquela tensão sexual que dava pra cortar com uma faca... e bum. Se pegaram. Tipo, de verdade. Loucura total.
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  Marcos, entre surpreso e fascinado, balançava a cabeça.
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  — Eles tentaram manter a rotina normal, fingindo que eram só chefe e funcionário, mas era mentira, né? — Clara deu de ombros. — O %Arthur% estava praticamente morando na sala dela. Ou melhor… na mesa dela, se é que você me entende.
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  — CLARA! — engasguei com a pizza. Ela gargalhou, batendo palmas discretamente.
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  — Enfim! Aí, do nada, alguém tirou uma foto suspeita deles juntos. A fofoca explodiu. E sabe o que a %Alice% fez? — Clara apontou o dedo pra frente, indignada. — Negou. Falou na reunião que nunca faria isso, que seria "absurdo" se envolver com funcionário. — Marcos arregalou ainda mais os olhos.
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  — Caramba…
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  — Pois é. O %Arthur% ficou com o coração na sola do sapato. — Clara disse, desta vez num tom mais suave. — Mas aí ele decidiu se afastar. Pediu pra sair do setor dela. Foi difícil, viu?
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  Pisquei, tentando disfarçar a pontada no peito que essa lembrança ainda trazia.
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  — E agora? — Marcos perguntou, genuinamente curioso. Respirei fundo.
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  — Agora... — olhei para os dois, sentindo o peso e, ao mesmo tempo, a leveza do que eu ia dizer — eu tô escolhendo ser feliz.
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  O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi cheio. Clara sorriu largamente. Marcos sorriu também. Era como se todos nós soubéssemos que, naquele momento, algo novo se abria à minha frente. Peguei uma nova fatia de pizza e, antes de morder, brinquei:
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  — E é claro que a primeira coisa que vou desenhar no estúdio novo vai ser uma pizza gigante. Em homenagem a essa noite. — Clara gargalhou.
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  — Se você desenhar minha cara no meio da pizza, eu te mato. — ameaçou, rindo.
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  E assim, no meio de queijo derretido, piadas ruins e olhares cheios de orgulho, eu comecei a escrever um novo capítulo da minha história.
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  Dessa vez, inteiro.
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  E pela primeira vez, sem medo de ser exatamente quem eu era.
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  Na segunda-feira, eu cheguei mais cedo do que o normal ao setor de Planejamento. O sol mal tinha subido direito, e o andar ainda estava meio silencioso, com alguns poucos colegas batendo nos teclados ou se ajeitando nas mesas. A luz branca e fria dava àquele começo de manhã um ar meio surreal — como se tudo estivesse suspenso por um instante.
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  Respirei fundo, ajeitei a mochila no ombro e caminhei até a sala do Rodrigo. Ele já estava lá, como sempre, ajeitando relatórios e tomando café num copo descartável que parecia pequeno demais para o tanto de energia que ele precisava para aguentar o dia.
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  Bati na porta duas vezes, firme.
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  — Pode entrar! — ele disse, sem levantar o olhar. Entrei, fechando a porta atrás de mim com cuidado.
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  — Rodrigo... — comecei, tirando do bolso a carta de demissão que tinha escrito no fim de semana inteiro —, posso roubar uns minutos?
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  Ele levantou a cabeça, estranhando o tom da minha voz. Seus olhos bateram na folha de papel nas minhas mãos antes de me encarar de verdade.
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  — Opa. — ele sorriu de um jeito meio triste, meio orgulhoso. — Sabia que essa hora ia chegar.
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  Entreguei a carta pra ele. Meus dedos tremeram um pouco, era definitivo agora.
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  Rodrigo leu rapidamente, depois apoiou o papel na mesa com delicadeza. Seu sorriso cresceu, e havia algo de genuíno ali, como um paizão vendo o filho tomar coragem.
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  — Tô feliz por você, %Arthur%. — ele disse, a voz grave, cheia de sentimento. — Vai fazer falta aqui, não vou mentir. A equipe vai sentir. Eu vou sentir. Mas, cara... você tá indo pelo caminho certo. E isso é o que importa de verdade.
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  Engoli seco.
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  Rodrigo se levantou e me puxou para um abraço forte, rápido, mas que disse tudo o que ele talvez nem soubesse como colocar em palavras. Dei dois tapinhas nas costas dele, tentando não deixar a emoção me trair ali no meio da manhã.
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  — Obrigado. — murmurei, sentindo o peso de todas as escolhas, de todos os caminhos, pousar nos meus ombros e, ao mesmo tempo, se tornarem mais leves.
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  Ele se afastou e, com aquele jeito meio prático dele, perguntou:
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  — E a %Alice%? Já falou com ela? — Senti minha garganta apertar na hora. Respirei fundo.
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  — Ainda não. — admiti. — Mas vou.
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  Rodrigo apenas assentiu, com aquele olhar que dizia "boa sorte" sem precisar de palavras.
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  Quando saí da sala dele, já dava pra sentir o setor ganhando vida. Gente chegando, conversas começando, o cheirinho de café se espalhando.
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  Parei por um momento no meio do corredor, olhando para aquelas baias onde vivi tanta coisa — as vitórias pequenas, as derrotas invisíveis, os dias em que duvidei de mim mesmo. Tudo aquilo fazia parte de quem eu era agora. E me despedir... doía. Mas era um tipo bom de dor. Daquelas que abrem espaço para algo novo.
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  Fui de mesa em mesa, me despedindo dos colegas. Júlia, Beatriz, Felipe, Marcel... cada um reagiu de um jeito.
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  — Mas já? — Júlia fez cara de drama.
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  — Nem deu tempo de a gente encher seu perfil de memes! — protestou Felipe, rindo.
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  — E a gente tava pensando em te dar uma caneca nova de presente! — disse Beatriz, fingindo indignação.
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  — Eu vou cobrar, hein. — brinquei, sentindo o aperto no peito se misturar com o riso.
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  Eles insistiram em marcar uma comemoração, um jantar de despedida, alguma coisa. E eu sorri, sincero, dizendo:
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  — Não é um fim. É só... um recomeço.
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  Eles concordaram, e o clima que podia ter sido pesado se tornou leve, como se todos entendessem, de alguma forma, que era exatamente isso.
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  Peguei minhas coisas, me preparando mentalmente para o próximo passo: a despedida mais difícil de todas.
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  %Alice%.
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  Ela ainda não sabia que aquele seria o nosso último encontro como parte do mesmo mundo, mas eu sabia. E, dessa vez, eu estava pronto para seguir.
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  — Vamos nessa, %Arthur%. — murmurei pra mim mesmo, ajustando a mochila nas costas.
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  E fui.
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  Subi até o setor da diretoria com o coração batendo forte no peito, como se quisesse fugir antes de mim. Cada passo até a porta de vidro da sala dela parecia mais pesado do que o anterior. Bati duas vezes, com firmeza, tentando manter as mãos firmes.
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  — Entre. — ouvi a voz dela do outro lado.
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  Abri a porta.
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  %Alice% estava sentada à mesa, impecável como sempre — o blazer cinza claro ajustado ao corpo, o coque alinhado sem um fio fora do lugar, a postura ereta como se sustentasse o mundo nas costas. Mas o olhar… o olhar era diferente.
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  Quando me viu, houve um segundo — só um — em que a expressão dela vacilou. Como uma sombra cruzando uma superfície polida. Depois, como sempre, ela recompôs o rosto numa máscara serena, inquebrável. Fechei a porta atrás de mim. Respirei fundo. Cruzei a distância até a mesa dela.
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  — Eu precisava falar com você. — minha voz saiu firme, mesmo que minhas entranhas gritassem.
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  %Alice% apenas assentiu, as mãos entrelaçadas sobre os documentos como se quisesse impedir que tremessem. Puxei uma folha do bolso da jaqueta — uma cópia da carta de demissão — e a coloquei, sem cerimônia, sobre a mesa.
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  Vi o olhar dela endurecer ao bater no papel. Seus dedos deslizaram lentamente até pegar a folha. Ela leu. Não disse nada por um momento longo o suficiente para que eu ouvisse o zumbido leve do ar-condicionado. Quando finalmente falou, a voz dela era controlada demais.
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  — Entendo. — disse. — Se encontrou em outro lugar.
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  Era uma frase prática. Fria. Profissional. Mas quem a conhecia — como eu conhecia — saberia ler nas entrelinhas o que o orgulho tentava esconder: a tristeza. Não uma tristeza escandalosa, de filme. Era a tristeza silenciosa de quem sabe que não pode pedir para alguém ficar.
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  Sorri de canto, sem rancor.
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  — Me encontrei em mim mesmo. — corrigi. — Era hora.
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  %Alice% desviou o olhar por um instante, como se algo em mim tivesse a atingido mais do que ela gostaria de admitir.
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  — Para onde vai? — perguntou, a voz um pouco mais baixa.
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  — Fui contratado por um estúdio de ilustração. — respondi, sem esconder o brilho nos olhos. — Vou trabalhar desenhando. Criando. Coisa que eu sempre sonhei. — dei de ombros, meio tímido. — Só... demorou pra eu lembrar que podia.
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  %Alice% apertou levemente os lábios, como quem tenta conter alguma reação.
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  — Você vai ser brilhante. — disse, e dessa vez havia verdade rasgando a voz dela. — Mesmo sem mim.
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  Por um instante, o peso daquelas palavras quase me derrubou. Sorri de novo, mas havia melancolia ali, inevitável.
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  — Mesmo sem você. — repeti, a voz saindo mais rouca do que eu queria.
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  O silêncio que caiu entre nós dois era quase palpável.
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  %Alice% respirou fundo, como se estivesse prestes a fazer algo. Seus dedos se moveram sobre a mesa, como se quisessem — por um impulso que ela mal controlava — se estender até mim. Como se, no fundo, ainda houvesse tanto a dizer, tanto a fazer.
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  Mas ela se conteve.
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  Eu também.
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  Dei um passo atrás, gentilmente, respeitando aquela barreira invisível que ela ainda precisava manter. Ela então se levantou. Olhou para mim. E, pela primeira vez, sem máscaras, sem defesas, disse:
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  — Obrigada por tudo, %Arthur%.
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  Era simples. Mas era real.
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  Meu peito apertou.
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  — Obrigado, %Alice%. — respondi. — Por tudo também.
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  Nos encaramos por mais alguns segundos que pareceram se esticar no tempo. Eu sabia que, se saísse agora, aquela seria a última imagem dela que eu teria guardada: forte, sozinha, lutando contra sentimentos que jamais admitiria.
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  Mas algo em mim se rebelou. Dei dois passos de volta e, sem dar espaço para dúvidas, segurei o rosto dela entre as mãos e a beijei.
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  Não foi um beijo casto. Nem contido.
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  Foi um beijo que queimava.
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  Meus lábios encontraram os dela com força, como se dias de silêncio, raiva, desejo e mágoa tivessem se condensado naquele único toque. Um impacto bruto, desesperado, que dizia tudo o que as palavras jamais conseguiriam.
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  %Alice% correspondeu na mesma intensidade — não havia hesitação, não havia controle — só urgência. Seus dedos se agarraram à minha camisa, fechando-se com força no tecido, puxando-me para mais perto, como se quisesse me manter ali, como se cada segundo importasse.
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  O corpo dela colou ao meu, tenso, trêmulo, e eu deslizei as mãos por sua cintura, apertando-a com a mesma necessidade cega. O beijo aprofundou-se, faminto, nossos corpos se encaixando como se fossem feitos para se perderem um no outro.
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  Meu peito doía pela falta de ar, mas era impossível parar. Ela gemeu baixinho contra a minha boca — um som abafado, sofrido, que atravessou meu corpo inteiro feito corrente elétrica. Passei uma mão pela linha da mandíbula dela, subindo até a nuca, puxando levemente o coque mal preso enquanto nossos lábios continuavam se procurando, se machucando, se despedindo.
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  Era amor. Era raiva. Era a última vez.
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  Quando finalmente me obriguei a recuar, deixei nossas testas encostadas, as respirações misturadas, pesadas, sufocadas pelo que não podia ser dito.
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  Meus dedos ainda acariciava de leve a curva do rosto dela antes que eu sussurrasse:
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  — Essa é a nossa despedida.
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  %Alice% manteve os olhos fechados, os lábios entreabertos, como se ainda sentisse meu gosto, como se ainda lutasse contra a vontade de puxar-me de volta.
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  E naquele instante, eu soube.
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  Nenhum outro beijo que viesse depois carregaria tanto.
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  Ela lutava para não pedir que eu ficasse. Para não quebrar o próprio mundo só pra me manter ali, mas não disse nada. E isso, de alguma forma, era resposta suficiente.
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  Soltei seu rosto devagar, como se a última parte de mim estivesse sendo arrancada dali.
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  Dei um passo para trás.
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  %Alice% abriu os olhos. Havia lágrimas presas ali. Mas não caíram. Virei-me, caminhei até a porta, e antes de sair, olhei uma última vez por cima do ombro. Ela ainda estava lá, parada, linda, despedaçada de um jeito que só eu podia ver.
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  Abri a porta.
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  Fechei atrás de mim.
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  E, dessa vez, ao cruzar o corredor silencioso do setor de diretoria, percebi algo diferente. Dessa vez, eu não deixava pedaços de mim para trás.
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  Eu ia inteiro.
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  Finalmente inteiro.
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  A porta do estúdio da Bravura Ilustração se abriu com um leve tilintar do sino preso no batente. Eu respirei fundo antes de dar o primeiro passo para dentro. A sala de entrada era cheia de quadros coloridos pendurados nas paredes — estilos completamente diferentes convivendo lado a lado —, e havia cheiro de café fresco misturado a tinta de aquarela.
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  Era… diferente. Acolhedor.
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  Nada da frieza corporativa que eu estava acostumado.
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  Uma recepcionista sorridente me cumprimentou e me indicou onde esperar. Poucos minutos depois, Marina — a gerente simpática que tinha me entrevistado — apareceu, o cabelo preso num coque bagunçado e um sorriso fácil nos lábios.
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  — %Arthur%! Bem-vindo oficialmente à bagunça mais linda da cidade. — ela brincou, estendendo a mão. Apertei a mão dela, sorrindo também.
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  Ela me apresentou rapidamente a alguns ilustradores, designers e ao pequeno time de criação. As baias eram abertas, cheias de plantas, sketchbooks espalhados, quadros de referências e post-its coloridos. Não havia silêncio absoluto ali — havia música instrumental baixinha tocando, risadas de fundo, conversas rápidas sobre projetos. Era caos, mas um caos que parecia respirar arte.
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  Passei a manhã conhecendo o sistema deles, o fluxo de trabalho, e me entregaram logo um projeto inicial: criar esboços para uma campanha de uma marca de cafés artesanais. Livre, criativo, divertido.
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  Eu, que passei meses suprimindo cada traço de mim mesmo, senti algo reacender. O lápis dançava no papel quase sozinho. Era como lembrar de uma parte esquecida do meu próprio corpo.
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  Na hora do almoço, sentei com dois colegas — Ana e Hugo — e já me vi rindo de bobagens, sem o peso de formalidades sufocantes.
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  Quando o dia acabou, saí do estúdio com o peito tão leve que parecia que podia flutuar. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava exatamente onde deveria estar.
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  Abri a porta já sorrindo, e como sempre, encontrei Clara jogada no sofá, notebook no colo, e Marcos... no tapete, montando alguma coisa de Lego com peças que claramente eram da minha irmã.
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  Ele levantou a cabeça assim que me viu.
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  — E aí, campeão? Como foi o primeiro dia? — perguntou, sincero.
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  Larguei a mochila no canto, largado também, e me joguei no sofá ao lado da Clara, soltando um suspiro satisfeito.
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  — Foi… — procurei a palavra certa, ainda meio embriagado da sensação — diferente. No melhor sentido possível. Eu não precisei ser uma versão editada de mim. Não precisei apertar meu talento em planilhas ou reuniões inúteis. Só... desenhar. Pensar. Criar.
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  Clara fechou o notebook, sorrindo daquele jeito que sempre parecia mais abraço do que gesto.
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  — Eu sabia. — disse, vitoriosa.
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  — E você já fez amigos? — perguntou Marcos, curioso, ajeitando os óculos.
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  — Conheci o Hugo e a Ana hoje. — respondi, contando de forma animada sobre o almoço, a vibe do lugar, a liberdade. — E eles têm um cachorro chamado Tofu que às vezes vai trabalhar com eles. Tá na descrição de funcionário oficial do estúdio.
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  Marcos riu.
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  — Se tem cachorro no trabalho, já é meu emprego dos sonhos.
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  Clara cruzou as pernas no sofá, o olhar cheio de orgulho.
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  — Você merecia isso, %Arthur%. Muito antes do caos todo.
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  Olhei pra ela, e depois pro Marcos, que parecia cada vez mais à vontade, mais parte da casa do que visitante. Na verdade, ele já era. Marcos passava tanto tempo com a gente que já tinha uma caneca com o nome dele na cozinha.
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  — E pensar que até pouco tempo eu não sabia mais quem eu era... — murmurei, olhando para as minhas mãos, agora meio manchadas de grafite.
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  Clara inclinou a cabeça para o lado, como quem segura uma pergunta.
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  — E a %Alice%? — ela perguntou, delicada. Suspirei, sentindo ainda uma pontada, mas muito menor do que antes.
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  — Ela vai seguir o caminho dela. Eu vou seguir o meu. — disse. E, pela primeira vez, essa frase parecia verdade. Uma verdade limpa. Sem mágoa sufocante.
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  — Crescimento, bebê. — Clara cantou, rindo e jogando uma almofada em mim. Eu ri também, agarrando a almofada e jogando de volta nela.
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  — Agora, sério — disse, sentando direito. — Obrigado, Clara. Por... ter me puxado de volta quando eu estava me perdendo.
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  Clara sorriu largamente.
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  — Eu vou estar sempre aqui. — ela disse. — De mochilinha pronta para invadir seu estúdio se você deixar a arte morrer de novo.
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  — Não vai acontecer. — prometi, em voz alta. — Eu tô escolhendo ser feliz.
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  Eles sorriram ainda mais, e eu juro que naquele momento, mesmo com o caos que o mundo podia trazer, mesmo sem saber tudo o que viria… eu me senti exatamente onde precisava estar.
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  No lugar certo.
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  Com as pessoas certas.
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  E, principalmente, sendo eu.
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💻👠

  Uma semana se passou.
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  Sete dias inteiros trabalhando no estúdio Bravura, desenhando, criando, respirando arte. Sete dias onde, a cada manhã, eu acordava com uma sensação estranha — mas boa — de que finalmente estava construindo alguma coisa que era minha.
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  O perfil no Instagram também começava a ganhar vida. Alguns seguidores a mais, alguns comentários de ilustradores que eu admirava. Pequenas conquistas que eu colecionava como quem guardava estrelas no bolso.
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  Ainda era cedo. Ainda era frágil. Mas era real.
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  E hoje, depois de um dia puxado no estúdio — rascunhos, reuniões de criação, cafés demais —, eu só queria chegar em casa, largar tudo num canto e relaxar.
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  Abri a porta da sala e encontrei Clara e Marcos esparramados no sofá, assistindo algum filme adolescente com um pote de pipoca gigante no colo. Clara gritou a plenos pulmões assim que me viu:
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  — Adivinha quem chegou do primeiro brainstorm sem parecer que queria jogar alguém pela janela?!
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  — Olha quem fala. — resmunguei, jogando a mochila no chão. — Vocês mora aqui agora ou...?
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  Marcos, com a boca cheia de pipoca, levantou a mão.
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  — Eu pago aluguel em risadas. — respondeu, sério.
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  — E em constrangimento alheio. — completei, me jogando na poltrona mais próxima, fingindo exaustão. — Porque se eu tiver que assistir mais um filme em que adolescentes salvam o mundo enquanto usam jaquetas estilosas, eu vou pedir emancipação.
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  Clara jogou uma almofada em mim.
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  — Reclamão. Você ama estes filmes. É só inveja porque você nunca foi o quarterback da escola.
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  — Graças a Deus. — murmurei, pegando uma almofada para me proteger de novos ataques.
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  O clima era leve. Quente. De família improvisada e perfeita do jeito bagunçado que era a nossa cara. Foi então que a campainha tocou. Clara deu um pulo, animada.
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  — Eu atendo! — disse, já correndo em direção à porta.
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  Nem me mexi. Provavelmente era entrega, ou algum vizinho pedindo ajuda com algo. Voltei a encarar o filme, jogando algumas pipocas no ar e tentando acertar a boca.
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  Resolvi olhar para a porta, e então, a vi.
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  %Alice%.
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  De jeans escuros, all star, uma blusa branca simples, o cabelo solto como raramente eu via. Linda. Desarmada. Humana.
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  Clara ainda sorria para ela, totalmente à vontade, sem nem desconfiar da bomba que tinha acabado de entrar pela porta. %Alice%, por outro lado, manteve a postura impecável, mas os olhos... os olhos dela vacilaram. Só por um segundo — pequeno, mas suficiente para eu ver.
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  O olhar dela passou de mim para Clara novamente, e foi então que, com aquela voz controlada demais para ser casual, ela disse:
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  — Desculpe. Devo estar atrapalhando.
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  As palavras saíram suaves, educadas, mas havia uma lâmina fina de tensão cortando cada sílaba.
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  E o olhar dela? O olhar ficou em Clara por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse medindo, julgando, tentando entender que tipo de “amiga” era aquela.
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  Eu travei.
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  Clara, completamente inocente, só riu, abrindo mais espaço com o braço.
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  — Imagina! Pode entrar. O %Arthur% tá ali. Fica à vontade!
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  Mas %Alice%... %Alice% continuou parada, ainda olhando para ela. Ainda tentando decifrar algo que a estava corroendo por dentro — e que ela, orgulhosa do jeito que era, jamais admitiria em voz alta.
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  O silêncio se alongou, tenso e pesado.
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  E eu soube que aquela noite não ia terminar do jeito que eu tinha planejado.
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  Nota da autora: Capítulo de transição, mas tão carregado de significado pra mim ✨
  Nosso Arthur finalmente teve sua vitória profissional, tomou coragem, escolheu ser feliz e começou a se reencontrar. Foi um capítulo que eu escrevi com um sorriso bobo no rosto, porque ele merecia demais esse momento 💙
  E já aviso: o próximo capítulo vai ser muito especial. Vamos entrar pela primeira vez na cabeça da Alice.
  Sim! O capítulo 14 será todinho narrado por ela, com direito a todas as emoções, angústias e verdades que só ela sabe. Se preparem, porque vem aí! 👀
  E claro, não deixem de me contar o que acharam… eu AMO ler cada teoria e surto de vocês hahaha! Beijos!

Capítulo 13
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