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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Paixão e Crueldade

Escrita porZsadist Xcor
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 36 minutos

  Despertaram juntos às seis e meia da manhã contra a vontade.
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  A governanta, por ser a única da casa – até então – a ter uma chave do quarto de Damon, invadiu os aposentos silenciosamente de maneira proposital. Controlou o mau-humor matinal por ser chamada antes da hora por Mary.
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  Detestava ser acordada por alguém antes das sete da manhã.
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  Sabia dos encontros noturnos no escritório por, certa vez, ver Sebastian passar pela porta que sempre estava trancada. Verificou se o filho de Meggie Ward estava no quarto sem o encontrar. Logo, deduziu facilmente sobre o que poderia acontecer ali. Nunca foi invasiva ao ponto de abordar o assunto com o dono da mansão ou tecer comentários.
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  Por outro lado, precisou mudar a sua conduta naquela manhã.
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  Como a cozinheira era sempre a primeira dentre os empregados a levantar para preparar o café da manhã dos patrões e dos escravos cuja qualidade não era distinta, achou peculiar a ausência de Damon. Não o encontrou pela casa após vasculhar cada cômodo a procura dele. Estranhou porque ele não era de dormir muito – ou melhor, se obrigava a levantar tão cedo quanto Mary.
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  Apesar do trato realizado com a cozinheira desde quando a fazenda ficara a seu encargo, insistia em descer para verificar se os escravos eram devidamente alimentados de forma igual.
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  Por não ser tão próxima do ruivo, recorreu à Bianca, a acordando antes da hora para averiguá-lo.
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  E foi assim que ambos tiveram o maior susto experimentado.
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  O mais novo só não gritou porque paralisou de pavor pela imagem do rosto rabugento tomar o seu campo de visão por completo.
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  Sebastian o puxou para si protetoramente, preocupado em como empalidecera e enrijecera os músculos. Respirava pesadamente com as pálpebras arregaladas e o queixo trêmulo. Parecia prestes a desmaiar ou vomitar.
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  Ao contrário do esperado pelo mais novo, ficou claro que a mulher não os repreenderia. Não havia surpresa, críticas ou julgamento no semblante. Caso estivessem atentos o suficiente, detectariam cumplicidade nas írises escuras.
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  - Vocês precisam se levantar agora antes dos outros empregados ou, Deus nos livre, Kassandra acordarem.
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  - Bianca...
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  - Bianca, nada! – a mulher interrompeu Sebastian – Se vistam logo!
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  - Não contigo aqui. – puxou a coberta para tampar os peitos desnudos – A gente está pelado!
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  - E eu não sei?! Não sou cega! – os minutos corriam a deixando nervosa – Quanto mais tempo passamos aqui, mais se aproxima dos demais acordarem! Andem logo! Você. – apontou para o escravo – Cubra-se. Você. – apontou para Damon – Eu troquei suas fraldas e te dava banho. Não tem nada aí que eu já não tenha visto dos mais diversos ângulos. Se apressem porque os empregados não demoram a transitarem pela casa. Te aguardo lá fora para ajudá-lo caso alguém o veja saindo daqui.
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  Só quando a governanta se retirou, Sebastian se dirigiu ao rapaz. A aparência, no mínimo, o afligia:
  - Você está bem, bebê? – sem quebrar o contato corporal, o acariciava na bochecha com as falanges longas.
  Ofegando para conter o choro, enterrou a cabeça no ombro forte:
  - Ela viu a gente. – soluçou quase sem voz – Não era para nos verem assim.
  - Eu sei, mas não me pareceu que teremos problemas. – beijou os cabelos tentando lhe trazer conforto.
  - E se mais alguém souber? E se ela contar? E se...
  Balbuciava diversas hipóteses atropelando as palavras e gaguejando enquanto se erguia o suficiente para fitá-lo.
  O desespero sobrepujava a racionalidade. A governanta jamais o prejudicaria, mas os sentimentos conflitantes não eram capazes de clarear a sua mente.
  - Amor, amor. – o abraçou acariciando os cabelos na tentativa de dissipar a apreensão – Está tudo bem. Nada disso vai acontecer. A gente está seguro – o sentiu relaxar minimamente nos braços – Escuta, a Bianca tem razão. Preciso ir. Mais tarde podemos conversar melhor?
  Assentiu em movimentos rápidos de cabeça.
  Se vestiu o mais rápido que podia. Antes de sair ajeitando os cachos, lhe beijou ternamente a testa e tocou a ponta do nariz com o indicador.

  Permaneceu no quarto por mais trinta minutos se recuperando do abalo. O coração batia acelerado, tremia incapaz de controlar os nervos e, agora, a pele ganhara uma alarmante coloração cinza com algumas gotículas de suor se formando na testa.
  Infelizmente, por não estar preparado para lidar com seus sentimentos mais controversos e profundos os quais iam contra a tudo aquilo que lhe foi ensinado como parâmetro para medir as suas ações como certas ou erradas, não se recordava da declaração de Sebastian quando faltava pouco para adormecer.
  Lembrava que algo de importante fora falado. Lembrava de como se sentiu banhado por alegria reconfortante e acolhedora. Lembrava da sensação dos braços dele ao lhe proferir palavras tão belas. Todavia... Não se recordava do teor delas. A informação foi guardada pelo inconsciente nos recônditos da mente em área cujo acesso ainda não lhe era permitido por primeiro ser necessário se despir de dogmas, regras e pecados cujas crenças o impediam de alcançar a felicidade genuína.
  Por sorte chegaria o momento em que a reminiscência surgiria em noite distinta onde, sem escolhas e impulsionado pela paixão, pela saudade e pela volúpia, admitiria para o escravo o quanto o amava ardentemente.
  De calças, continuava encolhido na cama elaborando diversos cenários os quais mostravam as consequências de seus atos.
  Caso a fofoca saísse de sua casa, nem o pai poderia protegê-lo de agressões, situações constrangedoras ou comentários humilhantes. Temia sofrer rejeição ou condenações dos únicos amigos, assim como a hipótese de trazer esse escândalo em particular para a sua imaculada família cujo modelo de conduta era motivo de admiração de terceiros o horrorizava. Afinal, era um exemplo a ser seguido de educação, respeito e trato social. Apesar de ser necessário raras vezes se impor com maior firmeza, não recorria ao uso da força – exceto, é claro, no episódio onde encontrou Sebastian sendo chicoteado.
  Só notou que já não estava mais sozinho quando o colchão se mexeu e ouviu a voz feminina:
  - Posso saber por que parece que vai desmaiar desde quando os acordei? Sebastian realmente se preocupou contigo. Só sossegou quando concordei em vir te tranquilizar após dialogar rapidamente com ele sobre a situação de vocês. – se acomodou no espaço onde o amante se deitou, então estavam bem próximos.
  O tom da governanta não poderia demonstrar mais paciência e acolhimento.
  Apreensivo, se virou para ela se sentando.
  - Tia, eu não... – se esforçava para não chorar, mas foi impossível delas não transbordarem.
  Um misto de sentimentos perpassava no semblante: medo, ansiedade, tristeza, susto, angústia. Agora, podendo raciocinar com mais calma sem o véu da volúpia lhe anuviando os pensamentos pelas intensas sensações da madrugada, se questionava como foi capaz de se deixar levar daquela maneira imprópria – graças às concepções distorcidas sobre os papéis sociais da época.
  Não era para dois homens se tocarem daquela maneira.
  Não era para dois homens se beijarem.
  Não era para dois homens se abraçarem.
  Não era para passarem o dia nus na cachoeira.
  Não era para tremer nos braços de Sebastian.
  Não era para...
  Não era para ter gostado.
  - Me ouça primeiro. Tudo bem? – secou os vestígios das lágrimas cuidadosamente – Desde a chegada de Bia e de Sebastian aqui, a casa se tornou mais alegre. A menina trouxe vida para cá. Sebastian conquistou o seu coração, meu menino. Eu adoraria poder registrar como a sua fisionomia se tornou mais tranquila desde que ele começou a se aproximar de você.
  - Então não está zangada comigo? – fungou pestanejando – Não acha as minhas atitudes execráveis? – a voz saía entrecortada.
  - Claro que não. Escuta, a gravidez da sua mãe foi complicada. Sangrou cinco vezes durante os nove meses que o carregou no ventre. O seu nascimento foi um milagre. A acompanhei o tempo todo porque sempre fomos amigas. Ao lhe dar à luz, Meggie me fez prometer pouco antes de morrer que, na ausência dela, eu seria a responsável por cuidar de você, querido. Vejo como está mais feliz por causa das interações com o Sebastian. A opinião da sociedade não me interessa. A sua felicidade, sim.
  Graças às palavras, o rapaz rompeu em exagerado pranto tanto pela empatia quanto pela fala da única figura materna que teve na vida porque mãe consanguínea, Meggie, teve trágica morte oriunda de hemorragia terrível após o nascimento do menino.

  Sebastian só encontrou a oportunidade de conversar com Damon passado o horário de almoço.
  Desde que o viu descendo as escadas para tomar o café da manhã na companhia da esposa, não achou propícia a aproximação porque, quando os olhos se encontravam ao longo daquelas horas, o ruivo sempre os desviava.
  Não apresentava inclinação para o diálogo com o escravo por insegurança e vergonha de como foi escandaloso o comportamento despudorado na noite anterior. Nunca se deitou com outro homem, então vivia um horrível conflito interno jamais experimentado antes. Afinal, o prazer compartilhado era considerado errado devido aos moldes hipócritas da sociedade e do rigoroso catolicismo onde qualquer movimento em falso condenaria o mais santo dos homens a queimar no inferno pela eternidade.
  Para o seu desgosto, simultaneamente, havia gostado – e isso lhe afetava profundamente.
  A dualidade era apresentada ao longo do dia. Quase não se alimentou. Não teve fome em nenhuma refeição, então colocava pouco alimento no prato e se obrigava a comer. Não desejava levantar suspeitas sobre o seu estado emocional. Deveria manter certo grau de serenidade nas feições. Em consequência, a ansiedade era extravasada de outras maneiras. No tamborilar insistente dos dedos nas superfícies de madeira, no mordiscar das unhas e dos lábios, no tremular na extremidade da pálpebra e no bater acelerado no calcanhar no assoalho.
  Ao observá-lo atentamente por exatos dez segundos, a cozinheira e a governanta concluíram que o patrão não estava em seus melhores dias.
  Sebastian aguardou tempo demais até, finalmente, depois de um movimento de cabeça indicando para conversarem com privacidade, o seguiu para o salão onde o majestoso piano foi limpo recentemente.
  Como Kassandra havia saído, teriam privacidade.
  - Bebê. – parando na frente dele, o cumprimentou tocando a ponta do nariz com o indicador em gesto característico de demonstração de afeto entre eles – Parece estar melhor agora.
  - Melhor?
  - Quando a Bianca foi nos acordar estava prestes a desmaiar. Me preocupou.
  Se recriminou pelo sorriso doce desenhado nos lábios por ouvir as palavras.
  Além de Bianca, do pai e dos três amigos, ninguém expressou preocupação para com o seu bem-estar.
  - Eu só fiquei com medo... – se interrompeu mordendo o lábio para não prosseguir.
  Notando o quão frágil o outro estava, entrelaçou os dedos alvos e o encaminhou para o sofá confortável, onde se sentaram de costas para a janela. Portanto, minutos mais tarde, não veriam a figura da mulher atravessando apressada os jardins – completamente alheia ao que acontecia no interior do salão.
  - De ser julgado ou recriminado? – prosseguiu o mais velho deixando as mãos unidas sobre a coxa torneada.
  - Uhum.
  - Acho difícil. Ela é a última pessoa quem te atacaria ou te prejudicaria.
  - Tudo é possível nesse mundo. Não quero correr riscos ou trazer problemas para a minha família.
  - Insisto que é tolice levantar suspeitas sobre ela.
  - Acordou comigo na minha cama e ousa me chamar de tolo? – fingiu ultraje em tom de puro humor.
  - Me deu liberdade o suficiente para isso, querido. – rebateu o puxando para um selinho demorado embalando o rosto com as mãos ao se distanciar alguns centímetros– E dormirei na sua cama quantas vezes permitir.
  Detectou dúvida nele se aceitaria a tentadora proposta ou não, quem se manteve quieto. Talvez tivesse se arriscado de falar aquilo. Porém, igualmente lhe provocou algo. Do contrário, não enxergaria amorosidade nas írises e as bochechas não esquentariam sob as palmas morenas.
  - Acordou bem essa manhã? Sentiu desconforto? – preferiu mudar de assunto para não trazer assuntos os quais poderiam resolver futuramente quando houvesse abertura discuti-los.
  Não esperava pela pergunta. Logo, para disfarçar o misto de timidez com vergonha, deitou a testa no ombro largo de olhos fechados e deslizando as digitais pelo peitoral o abraçando. Se aconchegou ali por instantes sentindo o cheiro da pele crua do pescoço, desejando não haver o empecilho das vestes para se tocarem de maneira mais visceral como há horas.
  Como compreendeu o quanto o pequeno corpo enrijecera desde a menção sobre voltarem a compartilhar a cama, distribuiu beijinhos pelas suaves ondas ruivas. O aguardou pacientemente sem pressioná-lo – e nem sabia se o questionamento seria respondido.
  - Acordei um pouquinho dolorido. – finalmente a confidência saiu em receoso volume baixo – É normal?
  - Nas primeiras vezes, sim. Leva tempo para se acostumar.
  - Imaginei.
  - Foi gostoso?
  Se não estivesse tão preso às regras e aos dogmas, provavelmente o beijaria ali para provar o quão gostoso foi. Caso fosse mais atrevido, o tocaria com mais ousadia. Caso não tivesse tanto a perder, certamente o levaria para o quarto às escondidas, longe das vistas dos curiosos empregados. Caso não houvesse mais ninguém em casa além dos dois, indubitavelmente pediria para repetirem.
  Infelizmente, não era o caso.
  Demoraria para alcançar tal patamar de confiança.
  Agora, era necessário receber acolhimento devido a sua fragilidade emocional pelas suas sensações e sentimentos confrontarem intensamente com os dogmas tão enraizados em seu cerne.
  A paciência de Sebastian seria essencial, assim como os conselhos sábios de Bianca e as intervenções dela.
  Inconscientemente Damon apertou o escravo – mais tarde, descobririam que era reflexo corporal em consequência das ondas de prazer – quando os dedos resvalaram pelo abdômen, descendo lentamente até repousar na calça. Imediatamente a mão se encheu pelo volume extra.
  Graças a falta de costume de ser tocado daquela maneira, encolheu ligeiramente os ombros se agarrando nas vestes do mordomo.
  - Você pode não me contar, mas o seu corpo não mente para mim.
  Pelo baixinho gemido escapulir e a respiração sair entrecortada, deduziu os sinais como indicativos para prosseguir. Portanto, aproveitou para massageá-lo lentamente por cima do tecido.
  Por encontrar a glande facilmente, desenhou círculos preguiçosos nela com o dedo anelar.
  De imediato o mais novo lembrou de como foi quando a falange foi introduzida em si massageando o ponto escondido o qual nem sabia da existência e da úmida boca escorregadia o sugando com primor. Aos poucos se entregava à volúpia, principalmente porque, em seguida, a língua acariciava o lóbulo diversas vezes em virtude do rapaz se entregar cada vez mais ao momento de intimidade.
  - Também foi gostoso para você, querido? – soltou a baforada de ar quente pela boca atingindo a pele sensível do largo pescoço onde depositou um beijo quente.
  - Tire suas próprias conclusões.
  Apanhou a mão na sua e a arrastou em si até repousá-la no colo, onde o volume a encheu igualmente.
  - O meu corpo responde ao seu, meu pequeno. – se afastou apenas para se fitarem naquela áurea cheia de sentimentos não expressos e toques sedutores – Não sabe como estava lindo quando entrei em você.
  Do lado de fora, Bia atravessava o corredor a caminho da cozinha. Como havia duas entradas no aposento, uma com porta e outra sem, pôde ver a cena de relance quando ouviu os passos decididos de Kassandra. Foi fácil reconhecê-los porque mais ninguém fazia tanta questão de afirmar a sua presença ao se locomover tão decida, produzindo sons altos cujo destino seria a sala onde os dois estavam sozinhos.
  O cérebro da menina era ágil, então inferiu que seria, no mínimo, problemático a mulher encontrá-los daquela maneira.
  Seguiu seus instintos sem pensar.
  Atravessou correndo a entrada sem porta, os flagrando assustados longe um do outro.
  - Me obedeçam agora!
  Os agarrou desengonçada, os puxando aos tropeços até um apertado armário destinado para guardar vestes dos visitantes ou dos donos – geralmente casacos. Sebastian se pôs atrás de Damon, ambos confusos pela reação urgente dela e pelos questionamentos não serem respondidos naquele curto espaço de tempo.
  - Não falem nada. Sigam minhas instruções. – foram as últimas palavras antes de Kassandra chegar no belo vestido volumoso cor de esmeralda.
  No exato momento cuja porta foi fechada pela garota, os três se sobressaltaram ao ouvirem a voz. Automaticamente o mais velho o abraçou por trás com o braço direito e usou a mão esquerda para tampar a boca. A menina pulou de susto dando as costas para o móvel.
  - Quietinho, bebê. – sussurrou rente ao ouvido pela lágrima de terror escorrer na face alva em voz tão baixa que Damon pensou ser fruto de sua imaginação.
  - Já não disse para se manter longe de mim? – imperativa, a mulher ergueu o queixo com soberba.
  - Senhora, me desculpe. – abaixou a cabeça de súbito. Para o plano dar certo, era primordial demonstrar submissão total para não correr o risco de eles serem descobertos juntos no esconderijo – Comentaram comigo que havia saído para eu poder vir efetuar a limpeza do espaço.
  - Uma coisa eficaz entre os empregados é como bisbilhotam a vida dos donos da casa. – mais tarde a informação seria valiosa para o seu ardiloso projeto de vingança – Saia da frente. Preciso apanhar meu xale.
  Conteve a ira quando a garota se pôs na frente do armário.
  No interior, Damon se virou para o outro enlaçando a cintura e repousando a testa nas vestes. Não havia saída e nem explicação plausível para estarem ali caso a esposa os encontrasse. Buscando lhe transmitir apoio e amparo o envolveu em um abraço acolhedor o acariciando suavemente com os dedos. Não se importou da lapela molhar em virtude do desesperador choro silencioso.
  - Perdoe, mas não posso permitir que o abra, senhora.
  - Para alguém do seu tamanho é insolente demais. Saia logo da minha frente! Está me atrasando para um compromisso.
  Antes de alcançá-la para afastá-la com as próprias destras, ouviu algo capaz de lhe repudiar completamente e se afastar do móvel.
  - Está infestado de baratas!
  Damon relaxou completamente nos braços de Sebastian. O encarou aliviado sorrindo largamente porque a mulher detesta insetos, especialmente baratas.
  Estavam à salvo.
  - Baratas? – deu três passos para trás em total aversão.
  - Sim. Elas se proliferam rápido. Não me surpreende uma infestação desse tamanho.
  Lançou um último olhar de repúdio para o armário, de onde ficaria longe nos meses seguintes.
  - Mande jogar fora todas as roupas daí de dentro. E resolva esse assunto o mais rápido possível.
  Apenas abriu as portas quando a viu saindo pela carruagem através da janela.
  - Você é a menina mais espera quem já conheci, Bia. – Sebastian a abraçou erguendo-a no ar em agradecimento.
  - Não foi nada de demais. – contou ao ser colocada no chão sorrindo – Apenas achei que ela não iria gostar caso os vissem.
  - Como assim? – Damon engoliu em seco sentindo frio no estômago.
  - Quando passei os vi abraçados no sofá.
  Por precaução, o senhor Smith se apoiou na porta de madeira para caso a fraqueza repentina nos joelhos se intensificasse.
  - E não estranhou ou...
  - Não, senhor. Amigos se abraçam. É normal. Olha. – para provar, abraçou o mordomo por ínfimos instantes – Acho que se as pessoas demonstrassem mais afeto ao invés de críticas, muitos problemas desse mundo estariam resolvidos. Está tudo bem, senhor? – só então notou como os olhos do patrão estavam vermelhos e em como fungava.
  - Ótimo. Foi a poeira nesse armário. Sou meio alérgico. – fingiu coçar as bochechas para limpar os vestígios do choro.
  - Certamente. Bia, pode nos dar licença? Precisamos conversar em particular.
  - Claro. A Mary preparou uns biscoitos. Encontra comigo na cozinha para lancharmos.
  - Tudo bem. Vai lá.
  - Agora, não, Sebastian. – murmurou quando a outra estava a metros de distância – O esperarei no meu escritório mais tarde.
  Antes de receber qualquer réplica, também foi embora.
  Sebastian detestou ser chamado pelo nome – se acostumara com Damon se referir a ele de forma carinhosa quando estavam sozinhos – e em como as palavras soaram – como se o ruivo o temesse ou temesse o momento de intimidade compartilhada cuja interrupção abrupta lhes frustrou por dissipar toda a magia entre eles e trazer a névoa de incerteza sobre como seria o encontro noturno.

  Kassandra chegou a tempo de seu compromisso – chá com outras mulheres das fazendas da região para fofocarem.
  Naquela época, era a maneira mais eficaz de conhecer a índole das pessoas ou de possíveis pretendentes. Como dificilmente homens e mulheres se misturavam pelas regras de condutas sociais, as informações eram repassadas no boca a boca por diversos motivos – desde ponderar se o futuro candidato era violento no trato para com as mulheres ou se era um sensato homem quem daria segurança para a esposa, tanto financeira quanto fisicamente por não a agredir e nem ser inclinado a insultá-la ou desprezá-la por enxergá-la como um ser humano inferior.
  Foi assim que descobriu como Patrick começava a se endividar de novo em jogos de apostas nos bordéis durante as madrugadas.
  Ao pôr do sol, ao invés de ir para sua casa, foi para a residência de Celie, assim como o combinado na semana anterior.
  Nos aposentos particulares, contava sobre as últimas notícias da reunião de mais cedo com as outras senhoras e senhoritas.
  - E quanto à gravidez? Alguma novidade?
  Estavam acomodadas na cama dela por Anthony sair há uma hora – o motivo por concluírem ser o horário mais adequado para a chegada da visitante. Descalças, Celie se sentou no colo da amante para ter a plena visão da mulher com a cabeça repousada nos travesseiros brancos.
  Achava a imagem adorável, principalmente graças aos cachinhos ao redor do rosto que, na presença da única pessoa quem sobrou de relevante na sua vida, não manifestava soberba ou superioridade – sua armadura desenvolvida para sobreviver naquela época histórica tão árdua para mulheres, principalmente as que não eram heteronormativas.
  Por ser aceita plenamente, era inevitável não relaxar. Não havia normas, regras ou condutas. Podia usar seu tom de voz normal sem modulá-lo de forma a deixá-lo mais suave, se livrar dos calçados desconfortáveis ou, simplesmente, passear as mãos pelo corpo da amada como ambas igualmente apreciavam.
  Sozinhas, experimentava o doce sabor da liberdade cuja vivência era desfrutada em raríssimas ocasiões relativamente rápidas.
  - Nenhuma. Graças a Deus, inclusive. Não consigo nem me imaginar cumprindo o papel de mãe. Não combina comigo.
  Era um fato. Maternidade era a última coisa que ansiava. Destoando das outras, não suportava a ideia de carregar uma criança por nove meses no ventre, pari-la em meio a dores excruciantes e criá-la. Não era egoísmo de sua parte. Simplesmente não aflorava a vontade em seu âmago mais masculino, independentemente de quanto tempo passasse.
  Se fosse possível, usaria calças e camisas ao invés dos volumosos vestidos exuberantes. Definitivamente era bela ao vesti-los. Infelizmente, se afastava da sua verdadeira personalidade. Com a essência aprisionada, perdia parte do brilho interior.
  Ao contrário de Kassandra, Celie teve três filhos. Estudavam em Paris e retornavam para casa no período de férias.
  Ao vê-la interagir com eles quando eram crianças, chegou a se questionar se, na companhia da mulher, seria capaz de ser uma boa mãe caso engravidasse.
  - Não é tão ruim. Você cria vínculo com a criança, brinca, amamenta... – prosseguiu Celie rindo.
  - Vê o corpo mudar, fica com os pés doloridos, lida com enjoos e vômitos, não dorme direito.
  - É só por nove meses.
  - Nove meses intermináveis.
  Adorava o som da gargalhada contagiante dela, então a acompanhou.
  - Você não tem jeito. – rindo, se inclinou para beijá-la por longos minutos – Sabe por que quero que engravide do senhor Smith? – enterrou a testa entre o pescoço e o ombro, respirando fundo para inalar o cheiro do perfume.
  Para usufruírem de maior contato, Kassandra resvalou as palmas ao longo das pernas por debaixo do vestido rosa em tom pastel.
  - Não.
  Deslizou o corpo fino para o colchão, se posicionando deitadas frente a frente para conversarem em teor mais sério.
  - Porque é garantia da sua sobrevivência, Cassie. – afagava o rosto de olhos verdes – Não pode desistir de lhe dar um filho. Uma criança é garantia de teto pelo resto da sua vida, meu amor.
  - Mesmo que para isso eu pague um preço imensurável?
  Era insuportável de tão pesado o fardo de se moldar numa cultura onde jamais seria aceita – e o gasto de energia para manter o disfarce social dia pós dia não era menos pior.
  - Nascemos mulheres numa civilização cujos costumes foram feitos para sermos pisadas ao menor deslize. Pagamos diariamente o preço de não carregarmos um membro entre nossas pernas. Nos casamos e engravidamos para termos o mínimo de dignidade, segurança e respeito perante a sociedade, não necessariamente para sermos felizes. Precisamos ser espertas.
  - Quer o Damon em cima de mim, então?
  - Nunca. Detesto a imagem, inclusive. Mas se isso lhe traz salvaguarda, é um mal necessário.
  - Ele quase não me procura. – subiu o vestido deixando as finas pernas à mostra. Repousou as digitais na cintura por cima do corpete e a puxou para si – Provavelmente detesta dividir a cama comigo. Nunca pareceu gostar. Sempre foi um dever para ambas as partes.
  - Talvez o Damon goste tanto de mulheres quanto nós gostamos de homens.
  - Já levantei essa hipótese. Até porque nunca me chegou notícias dele ir aos bordéis ou procurar pelas escravas.
  - Eu dou graças a Deus quando o Anthony vira a noite fora ou prefere a companhia de outras. Assim, ele me deixa em paz porque... Bem, só conheci prazer contigo, Cassie.
  Colocar em palavras a sua vivência foi doloroso, pois demonstrou em suas doces feições o sofrimento dos anos presa no casamento desastroso.
  Aos vinte e cinco anos, Celie se desesperava porque era filha única e estava passando da idade de se casar. Se esforçava para se manter sempre bela, aparentar doçura, inocência e ser simpática na dose certa para atrair pretendentes que não se aproximavam dela.
  Logo, quando Anthony começou a cortejá-la, o pai achava o noivo ideal – ignorando os clamores da mãe por conhecer histórias terríveis sobre o rapaz, é claro. Por fim, como a mãe não podia fazer nada pelo marido não lhe dar ouvidos, Celie se casou em três meses.
  Não demorou nem sete dias para as agressões começarem.
  Para dissipar a melancolia, tratou de beijá-la por longos minutos até o beijo se tornar cada vez mais voluptuoso.
  - Não pense nele, amor. – clamava abaixando o corpete e revelando os seios medianos – Pense na gente. Se concentra em mim.
  Foi impossível pensar em qualquer outra coisa ao invés dos lábios de Kassandra envolvendo o mamilo intumescido e passear a língua na carne sensível enquanto ouvia os gemidos da amada se agarrando aos travesseiros.

  Sebastian passou o restante do dia apreensivo porque Damon não demonstrava nenhuma inclinação ao diálogo.
  O rapaz saiu de casa logo em seguida, retornando a tempo do jantar na companhia da esposa. Para o infortúnio do mordomo, o evitou até o momento de entrar no escritório no horário combinado.
  Não imaginava como seria puxado para um beijo urgente ao passar pela porta e nem como o mais novo a tatearia para trancá-la. Não imaginava como seria direcionado para no sofá macio em meio a arfadas de prazer, nem em como seria acomodado ali para o outro se sentar no colo para voltar a beijá-lo, dessa vez com mais urgência.
  Havia algo de diferente ali. Não era como se não quisesse a ousada investida ou se não a apreciasse ou não o desejasse.
  O comportamento destoava do já conhecido de Damon. Parecia querer memorizar o sabor da boca, a textura dos lábios, a sensação das macias línguas se massageando. Parecia querer memorizar como os corpos se encaixavam perfeitamente e como era agradável percorrer as mãos nele – mesmo por cima das roupas intactas. Parecia provocá-lo para ouvi-lo gemendo rouco baixinho para se lembrar mais tarde como a membro respondia aos sons. Parecia enterrar os dedos nos cabelos crespos para não se esquecer como já o tocou com tamanha intimidade. Parecia mexer os quadris para as ereções de chocarem com o empecilho das vestes como prova de que tal prazer era possível entre dois homens.
  Parecia...
  Parecia uma espécie de despedida.
  De olhos fechados, repousou a cabeça no estofado. Damon se ocupava em sugar o lóbulo da orelha sem cessar lhe arrancando gemidos e o obrigando a agarrá-lo ainda mais.
  - Meu pequeno... – balbuciou com a expressão lívida de prazer genuíno – O que... O que está fazendo?
  O segurou pela cintura o puxando para si sem aviso. Os paus sensíveis colidiram em delicioso choque capaz de gemerem manhosos.
  - Quero senti-lo contra o meu corpo. – murmurou ofegante, distribuindo beijinhos carinhosos pela face ao notar como as pálpebras estavam baixas – É tão gostoso.
  Não prosseguiria com os afagos carinhosos pelo rosto moreno caso fosse capaz de encarar as írises escuras.
  Encostou a testa na dele, já saudoso de como a cama se tornaria subitamente fria sem a companhia de Sebastian e igualmente saudoso dos abraços, dos beijos e dos toques tão repletos de cuidado e docilidade.
  - Amor...
  Como se previsse o motivo para o enrijecimento corpóreo do mais novo, o abraçou mais forte na intenção de evitar dele escapar. Amou o atrevimento inesperado – e o pau pulsando no interior das calças era prova disso. Todavia, temia o motivo por detrás de tal comportamento incomum.
  O ruivo aguardou a respiração melhorar precariamente antes de completar:
  - Desculpa, Sebastian. Essa é a última vez que nos encontramos aqui ou no meu quarto.
  Sem falar mais nada, encostou rapidamente o indicador na ponta do nariz para se despedir – o gesto característico criado pelo escravo. Se desvencilhou ágil dos braços largos, embora cada poro da derme implorasse para permanecer assim.
  Não se virou ao ser chamado, nem ao ouvi-lo ir atrás de si quando atravessou a porta a passos firmes. Também se negou a ser tocado pelo mais velho quando os dedos encostaram nos seus por ínfimos instantes no segundo em que saiu para o corredor, caminhando apressado sem olhar para trás.
  O único sinal para Sebastian de que o rapaz sofria foi o soluço e a imagem dele de costas limpando as bochechas.

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