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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Paixão e Crueldade

Escrita porZsadist Xcor
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 50 minutos

  Damon despertou um pouco mais cedo que o costume no dia seguinte devido às melodiosas notas tocadas no piado. Sozinho em seu quarto, fez sua higiene matinal, se banhou e, como naquela manhã especificamente estava livre, sentou-se em frente a janela para realizar um hobby capaz de lhe tranquilizar, afastando as preocupações e voltando a atenção somente nos movimentos sutis do pulso.
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  Costumava desenhar desde a infância. Se aprimorou sozinho nos traços sem o auxílio de ninguém. Reproduzia as imagens que contemplava com o auxílio de papel e lápis. Naquele momento, parou os olhos na bela árvore metros à frente dos seus aposentos onde havia pequenos esquilos percorrendo os galhos em busca de alimentos.
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  Não demorou em sua criação graças a habilidade adquirida. Antes de depositá-la na mesa de cabeceira, notou algo nela.
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  Houvera desenhado uma figura indistinta ao longe. Se assemelhava a silhueta masculina, caso avaliasse meticulosamente. A estranheza veio por não constatar os traços antes por terem sido reflexo do seu inconsciente na tentativa de lhe mostrar algo de importante.
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  - É bobagem me prender nessa besteira.
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  Deu de ombros antes de guardá-la escondida na gaveta, longe das vistas dos empregados curiosos.
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  Foi à sala de estar onde imaginava encontrar a esposa. No caminho lembrou-se de como, certa vez, a ouvira comentar que não tinha a agilidade necessária para nenhum instrumento musical. Portanto, apressou os passos para descobrir quem produzia os sons harmônicos.
  Nada o prepararia para a cena a seguir.
  Sentado ao banco em postura elegante, Sebastian deixava-se levar pelas teclas há quase uma hora e meia incessantemente. Focava unicamente na canção agradável, completamente alheio ao redor. A música o levava a um lugar de calmaria, onde não havia distinção racial, escravidão, maus-tratos ou subjugação.
  Se perdia nas poucas memórias felizes da infância, recordando da conversa com a mãe aos oito anos.
  Aos trinta e cinco anos, Diara era uma bela mulher. Crescera na Angola, cuja cultura vasta a encantara. A vida era como a de qualquer moça da região. Infelizmente, o cenário de liberdade sofreria terrível mudança quando, há dez anos, fosse sequestrada, colocada no navio negreiro e transportada na companhia de dezenas do seu povo para terras longínquas.
  A felicidade de outrora daria lugar a desconfiança e ao alerta constante por sofrer as violências direcionadas para as negras nas mãos masculinas. Na última vez resultaria no nascimento de seu filho, cujo pai era o dono da propriedade onde trabalhavam.
  Sussurravam deitados a noite na senzala, com os demais espalhados entre eles já adormecidos de exaustão.
  - Os brancos são cheios de regras, meu menino. – afagava os cachinhos da criança abraçada sobre si, quem acomodou a cabeça no vão entre o pescoço e o ombro – Tudo é pecado na visão deles, mas nem sempre é verdade. – o sotaque angolano era carregado por não se acostumar ainda ao linguajar europeu.
  - Como o que, mamãe?
  Durante a noite não havia choros, açoites ou gritos. Costumava ser serena, então apreciava a calmaria do horário.
  - Aqui você vê mulher beijando mulher? Ou homem amando homem?
  - Não.
  - De onde a gente vem, algumas mulheres não se apaixonam por um homem. Da mesma forma como tem homem que não se apaixona por mulher.
  - Por quê?
  - Porque não é da natureza deles. Não significa que seja errado. Amar não é errado, filho. É bonito. – apertou sutilmente o ombro – Vamos, olhe para mim.
  Ergueu o tronco magricela para fitá-la.
  No menino visualizava mais os ancestrais do que o homem responsável por engravidá-la. Apenas o tom de pele mais claro denunciava quem era o seu verdadeiro genitor, assim como a pequena pinta na lateral do pescoço.
  Aquela era outra razão para apreciar a madrugada: a mãe não parecia estar tão abatida quanto no decorrer do dia.
  - Se lembre sempre do que estou te contando, tá? Mesmo se eu não estiver mais aqui. É importante conhecer as suas raízes. Te traz força. Promete pra mamãe?
  - Prometo.
  - Agora dorme. – beijou a testa pequena – Amanhã te conto sobre como o seu avô era.
  Abriu os olhos com certo pesar porque ela jamais teria a oportunidade de contar as histórias do avô materno graças às chibatadas ordenadas pela esposa do ex patrão, movida pelo ciúme da escrava devido às preferências do marido para com a mãe de Sebastian, o deixando órfão.
  Talvez fosse a razão de ser tão cuidadoso com Bia. Sabia como era solitária e perigosa a infância de uma criança negra sem a proteção da mãe para lhe dar os devidos carinhos e o acolhimento indispensável para a idade. Sentiu na pele a ausência da companhia de Diara e não era de sua vontade a menina compartilhar da mesma dor na mesma proporção como ele. Deveria estar sob alguma guarida – e as ações masculinas mostravam como jamais deixaria de cuidar dela.
  Levantou-se do banco assustado ao ver Damon o observando. Os seus mais de vinte anos atuando como escravo falaram mais alto. Automaticamente os pensamentos foram direcionados para quais tipos de punições receberia pelo erro – se existisse violência física na propriedade, é claro.
  - Senhor Smith. – atrapalhado, se distanciou do piano em movimentos ligeiros.
  - Não, não se assuste. Está tudo bem. Eu gostei das músicas. Trouxeram vida pra esse lugar. Costuma ser silencioso demais. Como aprendeu a tocar piano? Não conheço nenhum escravo cuja habilidade foi desenvolvida.
  Durante a fala se aproximou a passos fluidos. Por fim, hesitante, deu um último para frente, chegando mais perto do que teoricamente deveria.
  - O primeiro senhor pra quem trabalhei junto a minha mãe.
  Esclareceu pelo semblante de incompreensão de Damon.
  - A minha mãe morreu nos meus oito anos. A esposa do antigo patrão sentia ciúmes dela por... Bem, a vida das escravas é ainda pior comparada a dos escravos. – a voz foi tomada por uma tristeza antiga, principalmente pela falta da figura materna e o quanto ela sofreu por causa do homem quem a comprara por causa da beleza e da juventude – Semanas depois fui designado aos serviços domésticos, então fui ensinado sobre etiqueta, recebi lições de piano e mais algumas coisas.
  - Por isso escreveu aquele bilhete no meu escritório?
  Assentiu.
  - Foi atencioso de sua parte. – o rubor característico da timidez foi discreto – Como descobriu que gosto de doce de leite?
  - Passarinhos me contaram. – a voz rouca transmitiu contida travessura.
  O menor disfarçou o sorriso de contentamento por detectar certa afeição no tom escolhido desviando o olhar para o chão e curvando os cantos da boca para baixo na refreada agitação.
  Por ser bastante sagaz em sua análise sobre o comportamento humano, Sebastian captou como o gesto o sensibilizou, principalmente por causa do insistente sorriso do qual certamente se recriminaria, inapto em evitar a sua amabilidade.
  - Vou sanar a sua dúvida só porque não acho justo deixá-lo na curiosidade. – por um ínfimo momento a ideia de Damon gostar de olhá-lo o intrigou porque as írises ganharam o brilho peculiar de interesse perante as palavras – Ouvi Bianca instruir a cozinheira para preparar uma quantidade extra por ser o seu doce preferido. Aí quis lhe fazer um agrado.
  Suspirou surpreso sem esperar pela confidência delicada. A mão coçou em tocá-lo como na noite anterior, o que foi misterioso graças a criação que não o incentivou a ser tão receptivo com toques em consequência das repreendas do pai.
  - Eu deveria ter imaginado. Ela é uma das poucas pessoas quem realmente gosta de mim. – soou solitário.
  - Certamente há mais alguém.
  Não captou a mensagem subliminar na frase por ainda não estar receptivo a esse ponto, mas lhe aqueceu o coração o impactando sutilmente.
  - Tocar piano te faz bem, Sebastian?
  Mais tarde se convenceria de que a pergunta era mera curiosidade, não tentativa de trazer conforto para o outro ou prolongar o assunto por gostar de estar na presença dele sem a barreira da janela para dialogarem.
  - Bastante.
  - Tem a minha permissão para se sentar ao piano, então. É claro, desde que Kassandra não esteja aqui.
  - Eu imaginei. Por isso o meu atrevimento, inclusive. – soltou a frase segurando o risinho – Ficarei feliz em alegrar os seus dias com música quando for possível.
  Damon pôs a mão na boca para esconder o sorrisinho teimoso porque adorou ouvir a risada baixa do moreno, principalmente a escolha de palavras. Não concluiria como, no decorrer do tempo, o mordomo seria capaz de habilmente tirar cada camada de sua máscara social tão bem construída ao longo da vida sem o ruivo sequer notar a mudança. Não era planejado. Simplesmente iria acontecer de maneira natural por serem iguais graças ao desinteresse por mulheres.
  - Posso tocar pro senhor caso queira.
  - Desde que seja da sua vontade... – deslizou as costas dos dedos para o queixo ao falar os posicionando ali.
  - É, sim.
  - Fique à vontade, então.
  Satisfeito pela primeira conversa significativa entre eles acontecer, se dirigiu ao instrumento onde, sentado, voltou a tocar a linda melodia, de vez em quando o fitando com certa afeição no olhar.
  Lhe lançou um sorriso de despedida o qual aqueceu o coração do moreno por ser o mesmo sorriso dado durante as noites dos encontros noturnos antes de retirar. Visto de perto e na luminosidade do dia, era ainda mais bonito.
  Nos meses seguintes descobriria que o homem não sorria tão docemente para mais ninguém além do escravo.
  - Deve ser fome. – o rapaz pensou se encaminhando para a cozinha por sentir as incomuns borboletas no estômago.
  No mês seguinte retornaria na tarde de sábado em sua carruagem. Saíra cedo para resolver assuntos referentes aos lucros da fazenda, então estava faminto por ter demorado mais do que previra.
  Logo notou algo de errado.
  Bia o aguardava perto da entrada da casa. Ao avistar a lenta carruagem, correu desesperada ao encontro do veículo segurando o vestido para não tropeçar no tecido.
  - Pare a carruagem. – exigiu para o cavaleiro.
  Ouviu um som distante e bizarro quando a menina com lágrimas nos olhos parou agarrando a porta para se comunicar através da janela aberta.
  - Qual o problema? – se assustou pelo estado emocional da garota.
  - Estão açoitando o Sebastian, senhor Smith. – soluçou.
  Não soube quais sentimentos foram mais evidentes em seu íntimo ao receber a notícia: o ódio pelas ordens desobedecidas ou a aflição pelo moreno.
  Desceu pedindo de imediato:
  - Me leve até onde ele está.
  Correram o mais rápido que as pernas permitiam pela propriedade até chegarem aos fundos. No espaço amplo o pelourinho colocado pelo seu pai no passado permanecia no mesmo lugar. Antes os escravos eram açoitados, mas, em respeito pela memória de Meggie, mãe de Damon quem não concordava com as punições físicas, o viúvo as proibira. O filho manteria a tradição. Portanto, as ações foram condizentes ao ver a cena desumana.
  A governanta, a cozinheira e outros dois escravos assistiam a cena sem poderem evitá-la. Bianca carregava um corte no supercilio estancado pelo pedaço de pano que, agora, estava manchado de vermelho.
  Sebastian foi amarrado pelas mãos na estrutura de madeira quente pelo sol. Vestido apenas de calças e sem os calçados, o tronco suava pelo calor e as costas e os braços traziam as marcas recentes dos açoites. Gritava a cada chicotada que lhe abria a carne pelo impacto do instrumento de tortura manuseado pelo desconhecido.
  Não agiu pela razão. As emoções a sobrepujaram, se deixando levar pelo instinto de proteção.
  Antes do décimo sexto açoite feri-lo, puxou o outro pela roupa, quem recebeu um forte soco ao ponto de quebrar três dentes e cair no chão desnorteado. Irado, o agarrou novamente desferindo mais golpes, só parando quando sentiu o nariz quebrando contra o punho e o sangue escorrer pelas narinas e pela boca.
  Tossia se engasgando com o próprio sangue espeço. Ignorando os inúmeros hematomas, a pequena mão direita o agarrou na garganta, o obrigando a encará-lo.
  - Quem deu a ordem? – sibilou entre dentes.
  A cólera era tanta que soou animalesco.

  - A sua esposa. – replicou com dificuldade de falar.
  - Vamos deixar uma coisa bem clara. – apertou os dedos inconscientemente, quase restringindo por completo a passagem de ar – Nessa fazenda o único a dar ordens sou eu. Caso alguém as desobedeça, corre risco de morte pelas minhas mãos. E acredite, vou me divertir bastante no processo. – em virtude do tom baixo, soou ainda mais perigoso, principalmente pela frieza transmitida em cada poro.
  Sabia que o dono da fazenda não mentira. Era normal a resolução de determinados assuntos na base do assassinato – em especial os condizentes com a honra ou negócios. Ao contrário do pai, nunca recorria a tais recursos cruéis em sua opinião para solucionar conflitos por ser avesso à prática. Em consequência aprendera a desenvolver jogo de cintura, usando da persuasão para chegar a um acordo. Entretanto, se deparar com Sebastian torturado lhe despertou algo no íntimo difícil de se lidar. Era intenso, forte, para além do instinto de proteção – inclusive porque, mais tarde, de cabeça fria, descobriria que agiu de maneira violenta porque também lhe doeu emocionalmente a pele dilacerada, o sangue pingando, os gritos de agonia e os sons do açoitamento.
  Caso fosse outra pessoa, de repente não lhe gerasse tamanha ojeriza. Repudiaria, sim, mas não ao ponto de despertar tanta agressividade nele.
  O aviso lhe causou calafrios por ser carregado de verdade.
  - Sim, senhor.
  Se afastou de súbito indo até o moreno. O nó na garganta se formou ao encontrá-lo desmaiado – e mesmo inconsciente, a dor pela tortura se manifestava nas feições.
  - Ralph! Akil! Me ajudem a tirá-lo daqui. – disfarçou o embargo na voz a engrossando.
  Os dois que estavam junto às mulheres na tentativa infrutífera de impedir o castigo, correram para auxiliá-lo enquanto o patrão o desamarrava. Impediram de ele desabar, um o segurando no lado esquerdo e outro no lado direito distribuindo o peso igualmente.
  - O levem para o quarto dele nos fundos da casa. A cozinheira vai mostrá-los onde é. Ralph, o faça companhia. Akil, chame Dean o mais rápido possível.
  Se apressaram a seguir as ordens.
  Bianca criou Damon desde o nascimento, então o conhecia bem o suficiente. Por debaixo da polidez beirando a frieza, existia um ser humano cuja docilidade destoava dos homens da época, inclusive no tratamento para com pessoas cuja classe social era inferior comparada a sua. Entretanto, pela primeira vez não o reconheceu.
  O rapaz não era inclinado a violência. Nada a prepararia para presenciar tais ações furiosas reproduzidas por ser levado pela ira. E foi graças a isso que descobriu haver um motivo para além da explosão que talvez ele próprio sequer conhecesse ainda.
  Tencionava acompanhá-los, mas, ao ver o pano ensanguentado da governanta, interrompeu os seus planos.
  Gentilmente segurou o pulso e afastou a mão junto ao pano, revelando o corte.
  - O que foi isso?
  - Ela tentou impedir. Pediu para o esperar chegar, mas foi ignorada. Aí tomou um tapa dele. – foi a criança quem respondeu secando as lágrimas e apontando para o desconhecido.
  Puxou o ar fortemente antes de dizer:
  - Esperem aqui. Bia, fecha os olhos e tampe os ouvidos. Crianças não devem presenciar tais comportamentos como os que estou reproduzindo.
  Se encaminhou irado indo de encontro ao responsável pela aplicação do castigo justamente quando conseguia se levantar com enorme custo. Apanhou o chicote ao lado e, impiedoso, desferiu dez golpes sem se importar onde a pele era atingida.
  - Se aparecer nas minhas terras de novo, será enterrado como indigente nas plantações. – ameaçou largando o açoite, completamente ofegante.
  - Só estava cumprindo ordens, senhor. Fui bem pago. Tenho esposa e dois filhos pra criar. – encolhido no chão de terra, choramingou completamente dolorido.
  - Não me interessa. Tivesse pensado na sua família antes de desobedecer às minhas ordens e agredir a mulher quem me criou.
  Voltou para o interior da casa seguido por elas. Ao passar por Akil, quem se encaminhava apressado para o exterior da mansão, o segurou pelo braço:
  - Quero que também leve o infeliz pra fora da fazenda. Ele que encontre o rumo de casa sozinho.
  Assentiu antes de prosseguir. Até o escravo se assustara pelo comportamento de Damon.
  - Preciso de uma coisa de vocês. – se dirigiu às duas – Liberem Ralph de lá e fiquem com Sebastian. Mary precisará preparar refeições pro Sebastian. Ele não pode ficar sem comer. Onde minha esposa está?
  - No quarto. – retorquiu a mais velha.
  - Obrigado. Não vou me demorar.
  Subiu as escadas de dois em dois degraus em passos decididos e entrou sem cerimônias nos aposentos dela, a encontrando costurando acomodada na macia poltrona.
  - Deu agora de me desacatar, Kassandra?! – caso não fosse tão educado, certamente teria gritado.
  O vislumbre de medo perpassou as feições dela por nunca o ver naquele estado.
  - Não foi nada de demais. O encontrei tocando no meu piado, então apenas mandei aplicar o castigo condizente para lhe refrescar a memória sobre a posição dele nesta casa.
  - Eu o permiti tocar no piano o qual você jamais demonstrou interesse.
  - Isso é irrelevante. Eu sou a dona dessa casa. Os empregados devem obedecer a mim.
  - O verdadeiro dono desse lugar sou eu! – berrou – Posso me livrar de você quando bem entender ou trocá-la por outra mulher, mas não deixarei de ser o proprietário dessa fazenda!
  - E qual mulher se submeteria a ser sua esposa se nem o seu papel de marido você cumpre? – o desafiou orgulhosa.
  - Aquela quem eu saberia bem até demais a como persuadi-la a me obedecer prontamente sem me questionar. – rebateu em tom cortante.
  Damon jamais agrediria uma mulher na vida. Afinal, ao contrário dos homens com quem convivia, não concordava com as ações covardes. Todavia, se a ameaça serviria para impedi-la de voltar a passar por cima de si, a ameaçaria sem hesitar – mesmo que nunca fosse encostar um dedo nela.
  Detestou como empalideceu de terror perante as palavras acentuadas pela raiva do marido. Não gostava de ser temido. Por outro lado, se fosse o preço para não perder o controle do funcionamento de sua residência, seria necessário.
  - Eu te dou casa, comida, vestes e dignidade. A respeito como ser humano, esposa e mulher. Nunca fiz nada para lhe prejudicar, ferir ou envergonhar. Não tente ultrapassar os limites da minha paciência. Estou lhe avisando, Kassandra. Não ouse infringir minhas ordens. Do contrário se arrependerá amargamente. Estamos entendidos?
  Assentiu engolindo em seco.
  Somente quando o ruivo se retirou notou que prendia o ar.
  Dean demorou quase uma hora para passar pelas portas da mansão Smith. Acompanhou Akil em seu encalço, o levando até o quarto onde Sebastian foi deitado de bruços ainda inconsciente.
  - Por que demorou tanto? – o criticou de braços cruzados encostado na parede e acenando para o escravo se retirar. Não saíra de lá desde o diálogo com a esposa.
  Bia aguardava do lado de fora, sentada no chão de pernas cruzadas angustiada pela espera. A cozinheira se apressou para preparar uma sopa de legumes para o moribundo.
  A governanta observava Damon silenciosamente numa expressão impassível desde o retorno para a fazenda em sua carruagem. O rapaz insistira em não se afastar enquanto aguardava o médico. Lhe custava manter a máscara graças a aflição de como as costas do moreno foram deixadas, principalmente por não acordar. Ao encará-lo o sofrimento e a amargura eram evidentes – e isso não passou desapercebido por ela.
  - Eu nem em casa estava, para início de conversa. – inclinou o tronco para avaliar meticulosamente as chagas – Quantas chibatadas foram?
  - Segundo Bianca, quinze. – passou a mão nos cabelos nervosamente – Ele não ficará com sequelas, ficará? – a voz tremulou.
  O verdadeiro questionamento era se Sebastian sobreviveria. Conhecia casos graves cuja morte levou os escravos graças a brutalidade estabelecida durante as agressões. A possibilidade era angustiante. Não poderia cogitar nessa terrível hipótese de tão impactante para si. A ideia de não o ver mais o desesperava ao ponto de sentir dor física no peito e nó na garganta.
  - No máximo, cicatrizes. É uma lástima terem feito isso com ele. – por detrás do tom pesaroso, havia a crítica ao trabalho escravo – Nunca fui a favor do sistema. A minha profissão apenas reforçou o meu pensamento, como bem podem imaginar.
  - Todos nesse quarto compartilham da mesma opinião. E então? O caso é grave?
  - O processo de cicatrização vai ser longo, admito. Por outro lado, não corre risco de vida. – foi até a mesa para apoiar a mala e abri-la – Quando acordar, precisará ser bem alimentado e tomar água. As feridas precisarão ser mantidas limpas para não correr o risco de infecção. – retirou uma garrafa de vidro escuro – O faça tomar três vezes ao dia. O gosto não é dos melhores, mas os efeitos para fechar ferimentos tão profundos compensam. – a deixou na mesa.
  - O Sebastian vai melhorar?
  A voz infantil tomou conta do ambiente, então todos se viraram para a porta. Bia estava parada de pé, o rosto ainda avermelhado pelo choro.
  - Vai, sim, querida. Pode demorar um pouco...
  Não o permitiu prosseguir. Correu e lhe abraçou em sinal de alívio. Desconcertado, levou a mão nos cabelos cacheados presos no rabo de cavalo lhe dando gentis tapinhas rápidos na cabeça.
  - É, só cumpri o meu dever.
  Caso Damon não estivesse tão apreensivo, teria rido porque o amigo não sabia como demonstrar afeto, então estava profundamente desengonçado pela falta de costume em lidar com crianças.
  Bianca aguardou Dean sair da propriedade para conversar com Damon, quem avaliava o enfermo na porta do quarto.
  O segurou pela mão assim como fazia quando o rapaz era criança. Era a única capaz de tomar tal liberdade por cria-lo na ausência da mãe. O levou para o interior dos aposentos fechando a porta.
  - Damon... Sabe que me preocupo contigo. – parou na frente dele com olhar materno – Por causa disso é meu dever deixá-lo de sobreaviso. Seja mais discreto. Controle melhor as suas emoções. Aqui – o tocou no peito sentindo o coração bater – não pode transparecer tanto, independente da intensidade dos seus sentimentos.
  - Não entendo do que está falando. – murmurou intrigado.
  Recebeu um sorriso compreensivo como resposta.
  - Não posso explicar a que me refiro. Primeiro você precisa viver, meu menino. – acariciou a bochecha notando o vinco entre as sobrancelhas de preocupação – Só tome cuidado.
  Lançou um longo olhar para Sebastian antes de se retirar.
  Se certificou que todos dormiam antes de voltar para o quarto do escravo, onde abriu a janela para refrescar o ambiente.
  Escondido, graças ao auxílio de uma tigela com água e panos limpos, limpou as feridas cuidadosamente atento a qualquer sinal de desconforto. Em seguida, conseguiu lhe retirar as calças para prosseguir, o deixando em trajes íntimos. Passou o pano pelo corpo como podia para retirar os vestígios de suor.
  Em seguida, jogou a água fora pela janela, saiu e retornou, dessa vez com uma receita aprendida com Akil.
  Ralph trouxe mais cedo plantas cujos componentes surtiam ótimo efeito para feridas como aquelas. Macerara algumas como fora instruído. Apanhou outros panos, dessa vez os umedecendo na água. Os torceu para, em seguida, cobrir a área machucada com eles para evitar infecções, moscas depositarem ovos ou qualquer outro problema. Aquilo ajudaria também no processo de cicatrização, então o cuidado era indispensável para o reestabelecimento do moreno.
  Despejou o conteúdo do recipiente fora. Prestes a ir embora, cedeu à tentação de retornar.
  Ainda não entendia o que movia suas ações. Hesitante, se acomodou no chão ao lado da cama. Suspirou de apreensão de tão inquieto em virtude do desmaio. Sem tocá-lo, percorreu a face com os dedos numa distância mínima. Adoraria fazer aquilo se estivesse desperto. Adoraria encontrar as írises castanhas com o brilho habitual de quando se viam ou nas raras vezes em que conversaram. Como não era o caso, não ousava encostar nele. O único gesto de afeto permitido fora a leve carícia na bochecha.
  Pelo braço não estar sobre o colchão, pousou a palma sobre a dele a acariciando, notando a aspereza por causa do labor e brincando com os dedos. Ao entrelaçá-los, se surpreendeu em como o encaixe fora perfeito – e a percepção mexeu consigo. Jogou a cabeça para trás tentando controlar a emoção que teimava a se manifestar.
  - Me desculpa. – permitiu o rolar das lágrimas por não haver outra alternativa. A trouxe para sob o queixo, agora a embalando com as suas pequenas destras – Sinto muito. Eu não queria... – soluçou.
  A culpa o corroía desde a descoberta que Kassandra mandou açoitá-lo porque tocava piano. Sozinho, poderia dar vazão aos seus sentimentos os quais resistia tanto para não transparecer ao longo das horas.
  - Quem está aí?
  Arregalou as pálpebras o fitando em assombro pela pergunta balbuciada de Sebastian. Como continuava de olhos fechados, saiu vagarosamente do estado de alerta. Secou o rosto nas vestes.
  - Um bom amigo. – fungou o soltando cautelosamente.
  Como usou a voz natural, não descobriu a identidade por ainda não estar totalmente desperto, num estado entre a sonolência e o atordoamento.
  - É o meu médico?
  - De certa forma, sim. – acariciou os cachinhos com o vislumbre do sorriso nos lábios finos.
  - Continua segurando a minha mão? A sensação é boa.
  Acatou ao pedido se surpreendendo com os próprios atos, constatando que estava certo. A sensação de darem as mãos era tão agradável quanto da primeira vez.
  - Não me deixa sozinho, não. Eu gosto da sua companhia. – pediu manhoso.
  - Vou continuar contigo até dormir. Tenta descansar. Seu corpo precisa se reestabelecer.
  Como provavelmente não se recordaria da ação, beijou as costas da mão docemente.
  Foi a última sensação de Sebastian antes de adormecer, então se lembraria dela no dia seguinte.
  - Damon. – murmurou por último se entregando ao sono.
  Ao sair silenciosamente depois de alguns segundos, ouviu o peculiar som de passos do lado da fora, então foi vistoriar.
  Mais cedo, Bia saíra decidida em direção a um lago localizado vários metros à frente da casa. Seu plano era ir sozinha, mas a cozinheira a flagrou por pegar ferramentas de pesca no armário da cozinha.
  - Onde a senhorita pensa que vai?
  A menina se virou, se deparando com a figura dela com as mãos na cintura.
  - Pescar, ué.
  - Nesse horário?
  - É o melhor horário para pescaria.
  Não creu nas palavras proferidas.
  - Sozinha?
  - É o jeito.
  - Você não vai passar por essa porta, não.
  - Ah, vou, sim.
  A discussão demorou cinco minutos até, por fim, se dar por vencida e acompanhá-la noite afora.
  Não desistiu até pescar um peixe grande o suficiente para precisar usar ambas as mãos para segurá-lo. O colocou de pé encostado ao tronco, a cabeça fria pendendo pouco abaixo do ombro.
  Usaria a árvore para acessar ao quarto de Kassandra sob protestos de Mary. Infelizmente, foi impedida por serem pegas em flagrante.
  - Que diabos...
  A voz masculina a assustou, então quase se desiquilibrou. Não caiu por se agarrar a um galho grosso. Acabou largando o peixe o deixando cair num baque surdo.
  - Senhor Smith. – sobressaltou a cozinheira temendo a represália
  - Que inferno é... – balbuciou apontando para onde o animal caíra e, graças ao gemido infantil de frustração, olhou para cima a vendo agarrada ao galho – Que está fazendo aí em cima, menina?!
  - Ah... É uma história bem engraçada. – sorriu amarelo devido ao nervosismo.
  - Eu falei pra ela não fazer isso, mas não me ouviu. Olha a confusão que se meteu. – repreendeu a mulher.
  Ao juntar as peças do enigma na cabeça, crispou os lábios para não rir.
  - Mary, deixa comigo. Eu assumo por aqui. Pode se descansar.
  Só quando se retirou, se dirigiu a pequena ainda na árvore.
  - Você ia colocar esse bicho na cama da minha esposa, né? – a voz travessa denunciava a aprovação.
  - Ia, sim. – ergueu o tronco sentada no galho – Ela merece o troco depois do que fez pro Sebastian.
  - Vem, desce daí. – gesticulou temendo dela se machucar caso se desequilibrasse.
  Decepcionada pelo flagrante, pôs os pés na grama em questão de segundos. Cruzou os braços zangada fazendo um bico.
  - Por que não me contou nada? Eu ia te ajudar se soubesse.
  A careta foi em virtude das palavras as quais jamais pensou ouvir.
  - A Cassie sempre deixa a janela trancada durante a noite. Só dá pra entrar pela porta. Vem comigo. – foi pegar o peixe pesado antes de retornarem para a casa de mãos dadas porque temia da menina tropeçar em algo e cair na escuridão.
  O silêncio da manhã foi quebrado pelos gritos de Kassandra, quem saiu do quarto em disparada ao despertar abraçada a um peixe.
  Seguindo o combinado, Bia invadiu os aposentos longe das vistas da mulher para retirar o animal.
  Damon não se esforçou em esconder a satisfação pelo desespero dela, inclusive quando o levou consigo de volta ao cômodo. Para a sua confusão, encontrou a cama vazia.
  - Provavelmente foi um pesadelo, querida. – falaria se divertindo.
  Se reuniu em seguida com a cozinheira e Bia na cozinha.
  - De quem foi a ideia maravilhosa?
  A pequena ergueu o braço.
  - Não ficou com medo da Kassandra acordar, não? Parecia estar bastante calma. – desconfiou.
  - Ela pediu chá de camomila antes de dormir. Só adicionei umas ervas que conheço para quem sofre de insônia. Não chegam a prejudicar ninguém, mas é impossível não adormecer profundamente após ingeri-las.
  - Esperta. – sorriu em admiração – Por que estava com Bia ontem à noite?
  - Eu não ia deixá-la andando por aí sozinha.
  - Ótimo. Bia, conte para Mary os seus pratos preferidos para se basear neles ao preparar o cardápio, inclusive as sobremesas. Mary, pelo resto do ano ganhará aumento no seu salário. Não merecem menos.
  É claro que dentre os seus pratos favoritos adicionaria os de Sebastian.
  Apenas para sanar a dúvida e por precaução, Bia foi até o moreno carregando uma colher e uma tigela de sopa.
  - Já acordou?
  - Bia?
  - Graças a Deus!
  Se aproximou esbaforida. Se sentou no chão em imenso alívio.
  - Abre a boca. Precisa comer. – juntou uma porção de pequenos pedaços de legumes na colher – Como se sente? – a pairou rente aos lábios para ele comer.
  - Dolorido. – mastigava faminto.
  - Não era de se esperar.
  - O que aconteceu? Antes de desmaiar posso jurar ter ouvido alguém apanhando.
  - O desgraçado foi praticamente espancado. Levei o senhor Smith até você. Nem mesmo os escravos mais antigos o viram daquele jeito. – lhe deu mais comida – Ouvi Akil e Ralph dizerem que até sentiram medo. Acho que mais ninguém ousará desobedecer às ordens estipuladas.
  - Qual jeito se referiram?
  - Violento. Deveria ver como espancou o homem contratado pela Kassandra pra te açoitar. Foi uma confusão danada.
  - Verdade?
  - Sim. Vem cá, quem colocou esses panos em você?
  - Eu não sei. Quando acordei já estavam aí. – não diria a verdade para mais ninguém além do ruivo.
  Antes de continuar falando, Damon e a governanta adentraram no quarto para averiguá-lo.
  - Que bom que acordou! – o rapaz sorriu por ouvi-lo do corredor.
  A mulher fez o sinal da cruz mais tranquilizada.
  - Quando eu cheguei já haviam colocado isso nele. – a pequena apontou para os panos – Só não sei quem foi.
  - Bianca.
  A mais velha pestanejou pela frase.
  - É claro, Damon. Fui eu! Euzinha, mesmo sem eu saber nem pra que, diabos, isso daí serve! Quem mais seria o responsável por esses panos, não é, mesmo? – lhe lançou um olhar irritado sem disfarçar a ironia.
  Para protegê-lo, sustentaria a mentira até a total recuperação do mordomo.
  Todas as noites Damon iria escondido para o quarto. Tratava as feridas por meio da receita ensinada por Akil, sempre trocando os panos quando todos estivessem dormindo. Lhe dava o tônico indicado por Dean manhã, tarde e noite. Bia, a governanta e Mary se alternavam em alimentá-lo antes de ser capaz de comer sozinho.
  Os encontros noturnos eram o ponto alto do dia dos dois. Damon costumava lhe contar os acontecimentos, se chegaram convites para bailes ou qualquer ínfima coisa. Bia já havia relatado cada detalhe horas atrás, entretanto gostava de ouvi-lo. Não lhe tiraria a oportunidade de achar que estivesse exercendo bem o seu papel e nem desistiria de apreciar a maciez da voz melodiosa que, aos poucos, surgiu pelo acolhimento passado pelo escravo, assim como a boa sintonia entre eles.
  Como geralmente não estava em seu campo de visão e o moreno não podia se mover, apenas notava que a verdadeira personalidade do ruivo se mostrava pelo tom de voz mais macio.
  - Prontinho. Agora posso ir. – comentou se levantando da cama.
  - Espera. Quero me despedir devidamente.
  - Como?
  - Vem aqui.
  Sem alternativa, o menor se agachou com o rosto perto de Sebastian.
  - Vem mais perto.
  Acatou ao pedido cauteloso. Num gesto suave, Sebastian ergueu o braço o suficiente para tocar a ponta do nariz com o indicador.
  - Obrigado. É o máximo que posso fazer para agradecer.
  Ao ser o seu cuidador, Damon abaixava a muralha criada ao redor sem perceber. Podia agir um pouco mais como era, assim como quando estava com os amigos ou Bianca. Quando fosse capaz de se sentar, não veria como o semblante do rapaz relaxava em sua companhia.
  De fato, ambos os tratamentos foram eficazes. No período de trinta e cinco dias Sebastian estava completamente recuperado. As feridas deixaram algumas cicatrizes sobre a derme – o que foi um milagre comparado ao que o açoite fez consigo.
  Após o almoço, Damon adentrou ansioso no quarto.
  - Desculpe. – pestanejou encolhendo os ombros por encontrá-lo em pé apenas de calças – Eu deveria ter batido.
  - Está tudo bem.
  O queixo caiu por pousar os olhos no peitoral de Sebastian. Não costumava ver mais ninguém minimamente desnudo, nem mesmo os amigos – exceto Kassandra, mesmo sem ela lhe despertar desejo nenhum. Portanto, o assombro ao encontrá-lo daquela maneira era diferente porque... Deus, aquele homem era bonito. Seria errado querer sentir a textura da pele sob suas palmas? Se era, iria para o inferno certamente.
  - Deseja alguma coisa?
  Sequer notou os instantes em silêncio de boca aberta. Durante o transcorrer do tempo Sebastian abriu um sorriso delicado iluminando o semblante.
  - Desculpe, é... – se agitou reproduzindo gestos apaziguadores – Eu gostaria de saber se aceitaria sair. Esteve vários dias dentro do quarto. Seria bom pra você.
  - Adoraria.
  O modo como o olhar foi tomado de afeição deixou a face rubra.
  Cada um em seu respectivo cavalo, chegaram quase quarenta minutos depois numa linda cachoeira. Saltaram dos animais os deixando livres.
  - Bianca costumava me trazer pra cá quando eu era mais novo, principalmente depois do meu pai me recriminar por alguma coisa. – comentou retirando os calçados.
  - Ele era muito severo? – acariciou o pescoço do animal o encarando.
  - Está querendo matar o coitado antes da hora? – fingindo ultraje, retorquiu humorado durante o riso.
  - É a primeira vez que o menciona.
  Caminharam juntos até se sentarem numa pedra grande o bastante para ambos.
  - Não costumei a ter tanto contato com ele. – apoiou as mãos paralelamente aos quadris – Era sempre mais distante de mim.
  Sebastian notou o tom mais introspectivo e como as feições foram tomadas por certo ressentimento. Ousou quebrar a distância de centímetro a centímetro pela superfície áspera até sentir a ponta dos dedos tocá-lo. Era tão sutil que Damon se perguntou se era proposital. A ação lhe trouxe frio na barriga e, pelo medo da demonstração de entreouvi-lo, decidiu não ceder a vontade de observar as mínimas carícias.
  - Deve ter sido meio solitário. – usou o indicador para afagar as costas da mão alheia, feliz por não ser rejeitado.
  - Um pouquinho. Por sorte a Marie, o Simon e o Dean estiveram comigo. São amigos muito bons pra mim.
  Só não se incomodou porque, pelas reações de Damon, era óbvio nunca ter tido contato amoroso com outros homens.
  - Fico feliz. Por que não entra comigo nessa água?
  - As roupas vão demorar pra secar.
  - E quem disse que precisaremos delas?
  Levantou-se se despindo sem pudor.
  - Sabe que é a única maneira das roupas permanecerem secas, né? – riu pelo misto de timidez e interesse do rapaz.
  Passou despido por ele até entrar na água. Foi proposital, é claro. Ao se virar com a água batendo no peito, indagou:
  - Você não vem?
  - Fica de costas que vou, sim. – falou surpreso, principalmente pelo homem acatar ao pedido para deixá-lo confortável.
  O dia não poderia ter sido melhor. Naquela tarde notou como o ruivo era mais retraído quando o assunto eram questões sexuais. Claramente o desejava. A forma como o fitava transmitia certa inocência e deslumbre por algo jamais vivido antes. As sensações corporais também surgiram, principalmente porque ouviu o arquejo quando, propositalmente, foi verificar os cavalos lhe dando visão total do seu corpo nu.
  Ainda na água, depois de se divertirem jogando água um no outro em meio a gargalhadas, decidiram ir embora pelo começo do pôr do sol.
  Caminhando lado a lado para irem até as indumentárias, o mais velho o parou pela frase:
  - Foi você quem apareceu no meu quarto naquela noite quando acordei, né?
  A serenidade se esvaiu das feições. Como não respondeu visivelmente desconcertado, se direcionou para os cavalos. Porém, foi impedido.
  Enlaçou a fina cintura com o braço no confortável aperto. Ali Damon poderia ficar ainda mais envergonhado, mas Sebastian lhe passava tamanha doçura e segurança que diminuiu o constrangimento do confronto. De ombros encolhidos e a pele mais branca por causa da temperatura gelada da água, os lábios rosados se destacavam, assim como os globos escuros, as sobrancelhas e longos cílios.
  Como o rapaz era mais acanhado e a timidez comprovava sua inexperiência, o moreno compreendeu como o processo seria lento. Haveria crenças, dogmas, regras e pecados já citados pela sua mãe na última conversa significativa com a mulher. Logo, era pra agir sem pressa nenhuma para não lhe causar estranhamento ou afastamento. Era paciente, então não seria difícil para si.
  O ruivo imaginou vários cenários exceto aquele. Sebastian deslizou a mão livre pelo braço até encontrar a destra. Sem cortar o contato visual, a levou até a boca lhe depositando um beijo casto.
  - Eu só queria retribuir o gesto, pequeno.
  Damon deu um sorrisinho por diversos pontos – ser chamado pelo apelido pela primeira vez, o tom carinhoso e a doçura na face do outro.
  - Não tem o costume de demonstrar afeto, né? – soltou a mão para colocar a palma na cintura.
  - Eu... – mordeu o lábio na dúvida se seria prudente contar – Fui criado para ser o dono da fazenda. Nada mais. – escolheu não se aprofundar no assunto.
  - Não era permitido fraquejar perante ninguém? – a pergunta saiu como afirmação – Sempre foi exigido ser forte o tempo todo e se esconder para evitar julgamentos ou críticas.
  Mordendo o lábio, balançou a cabeça engolindo em seco. O peso de tal fardo era visível.
  Se questionou se o tremor foi devido à baixa temperatura corporal, ao peso das palavras, aos toques de Sebastian ou a proximidade em circunstâncias tão íntimas.
  - Não se preocupe. Comigo pode ganhar e receber afeto, assim como ser quem é. Estará sempre seguro ao meu lado.
  - Posso, mesmo? – encolheu os ombros em sinal de vulnerabilidade.
  - Sim.
  Piscou incerto cheio de indagações e inseguranças. Por fim, ainda incerto, quebrou a distância para deixar um beijo rápido na bochecha morena. Para alcançá-lo, ficou na ponta dos pés pela baixa estatura comparada a do outro, maior e mais corpulento.
  Apesar do corajoso ato carinhoso, temia pela repreenda ou por consequências negativas. E isso não aconteceu.
  Como era visível nele a guerra entre a racionalidade e as emoções, Sebastian o abraçou protetoramente colando os corpos. Acariciava as ondas úmidas lentamente roçando o nariz no ombro baixo. Em questão de segundos, com o coração batendo acelerado, Damon relaxou em seus braços. Deus, aquilo lhe fazia tanta falta... Nem se lembrava qual foi a última vez que foi abraçado. Soltando o ar pela boca, o ruivo retribuiu o gesto afetuoso lentamente como se degustasse de cada segundo.
  Se sentiu ser preenchido por algo que ainda não sabia identificar. Trouxe acolhimento, proteção, permissão e calor após uma vida inteira vivendo de forma apática, sem cor ao seu redor por se distanciar de sua essência devido a criação rígida sem espaço para amabilidade e da muralha construída ao redor para se defender.
  - Eu não vou recriminá-lo por ser quem é, nem por gostar de carinho. – murmurou – Prometo.
  Foi inevitável Damon não o apertar ainda mais. Não havia teor sexual apesar da nudez. Era apenas uma pessoa redescobrindo a sua essência e se permitindo receber o afeto que tanto lhe carecia.
  A partir daquela tarde, tudo mudaria na vida deles.
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