Capítulo 5
A noite que se seguiu à conversa com Mason foi um turbilhão para %Sophie%. Ela mal conseguiu pregar os olhos, sua mente fervilhando com as implicações do acordo. "Mentor", ele havia dito. "Entender você". E o mais intrigante: "Algumas coisas são estudadas. E algumas… são guardadas." O que ele queria dizer com isso? E %Rick% estaria entre o que era "estudado" ou "guardado"?
O brilho
laranja-amarronzado de seu coração, reflexo de sua
dúvida misturada à incerteza, mal a deixava em paz. A cada virada na cama, ela revia a expressão de Mason ao mencionar a sustentabilidade das almas, a forma como ele havia sido pego de surpresa. Ele escondia algo, e ela estava mais perto do que nunca de descobrir.
Na manhã seguinte, %Sophie% chegou à Concentração com uma pontualidade quase obsessiva. O nervosismo estava lá, mas mascarado por uma confiança que ela esperava ser convincente. Mason a esperava no mesmo ponto da recepção, com a mesma postura impecável e aquele sorriso enigmático.
— Bom dia, senhorita Benson — ele cumprimentou, sem mudar uma vírgula de seu tom polido. — Espero que esteja pronta para sua primeira aula particular de sustentabilidade.
%Sophie% assentiu, sentindo o peso de seus olhos sobre ela. Mason a conduziu por um corredor diferente do dia anterior, mais iluminado e com um fluxo maior de pessoas de jaleco branco, todas com colares de cristal que variavam do
verde-claro ao azul-marinho, cores que %Sophie% reconhecia como
calma e lealdade. Ninguém parecia notar a presença de %Sophie% ou de seu próprio colar, que ela sentia vibrar com a cor da dúvida sob a gola alta de seu suéter.
Eles pararam diante de uma porta metálica que dizia
"Arquivo Histórico de Cadastros". Mason usou seu cartão, e a porta deslizou com um chiado quase inaudível, revelando uma sala enorme, cheia de prateleiras que iam do chão ao teto, repletas de pastas e caixas. O cheiro de papel antigo e poeira era forte, quase sufocante.
— Este é o nosso arquivo principal — Mason explicou, gesticulando para as prateleiras que se perdiam na distância. — Cada cidadão de Ópes Civitas, desde o nascimento, tem seu registro aqui. E, claro, todos os resultados dos testes de pureza e os cadastros dos
heartless. Tudo meticulosamente organizado.
%Sophie% sentiu uma pontada de esperança. Se %Rick% estava em algum lugar, seu histórico estaria ali.
— Fascinante. Então, como isso se relaciona com a sustentabilidade? — ela perguntou, tentando soar genuinamente interessada no tópico dela.
Mason sorriu, um brilho de divertimento em seus olhos.
— A sustentabilidade de uma sociedade reside em sua capacidade de aprender com o passado, senhorita Benson. Entender os padrões, as anomalias, as tendências. É por isso que os dados são cruciais. Eles nos ajudam a manter a ordem.
Ele a guiou por entre as prateleiras, pegando algumas pastas aleatórias. %Sophie% observava cada movimento, tentando memorizar a organização, os códigos, qualquer coisa que pudesse lhe dar uma pista.
— Você notou, por exemplo, como a proporção de corações cinzas (
heartless) se manteve estável nos últimos cinquenta anos, apesar do crescimento populacional? — Mason continuou, mostrando-lhe um gráfico em uma das pastas. — Isso é um sinal de que nosso sistema de detecção de pureza é consistentemente eficaz.
%Sophie% ignorou o gráfico, focando em um detalhe nas pastas que ele manipulava:
pequenos selos coloridos na lateral de cada uma. Ela havia visto selos semelhantes em seu próprio histórico de teste, mas não os havia compreendido na época.
— E esses selos? O que eles indicam? — ela perguntou, apontando para um selo azul-escuro em uma pasta que Mason estava prestes a guardar.
Mason hesitou por um milésimo de segundo, um quase imperceptível endurecimento em sua expressão.
— São apenas marcadores internos. Classificação de acesso. Não são relevantes para a sua pesquisa.
Ele fechou a pasta e a colocou de volta na prateleira com uma rapidez maior do que o necessário. %Sophie% percebeu. Ele estava escondendo algo sobre os selos. O
laranja-amarronzado em seu próprio coração pareceu vibrar com mais intensidade, um alerta silencioso.
— Entendi. Mas, voltando aos dados gerais, se o sistema é tão eficaz, por que ainda existem anomalias como… bom, corações transparentes? — %Sophie% ousou, voltando o ataque para si mesma.
Mason a olhou profundamente. Aquele olhar parecia penetrar sua alma, e %Sophie% sentiu o familiar choque elétrico percorrer seu corpo, causando uma mistura de
surpresa (amarelo) e curiosidade (azul claro) em seu próprio cristal, que ele, sem dúvida, notou. Ele se inclinou, sua voz agora mais baixa, quase confidencial.
— Corações transparentes são… interessantes. Eles são como espelhos. Refletem tudo ao redor, mas sua própria essência é difícil de definir. Não são impuros, mas também não são facilmente categorizáveis. A Concentração os vê como um
potencial latente. Para o bem ou para o mal.
Ele se afastou das prateleiras, levando-a para uma pequena área com uma mesa e duas cadeiras.
— Por isso, %Sophie%, sua pesquisa sobre sustentabilidade não pode ser apenas sobre energia ou reciclagem. Ela deve ser sobre o
potencial não explorado. E como, por vezes, a tentativa de controlar esse potencial pode levar a… resultados inesperados.
Mason sentou-se, apontando para a cadeira à sua frente. Ele não estava mais falando sobre sustentabilidade literal. Ele estava falando sobre ela, sobre %Rick%, e sobre os segredos do CEEH.
— Diga-me, %Sophie% — ele continuou, seu olhar fixo nela. — O que você acha que significa ter um coração que reflete tudo? E por quê os heartless são tão importantes para você?
%Sophie% engoliu em seco. Ele estava lhe dando migalhas de informação, mas a cada uma, ele exigia uma parte dela em troca. O jogo estava ficando mais perigoso, e o mistério dos selos coloridos nas pastas de "cadastros" a intrigava ainda mais. Ela sabia que precisava jogar bem, pois a vida de seu irmão – e talvez a sua própria – dependia disso. Seu coração pulsava com uma mescla de
dúvida (laranja-amarronzado) e uma crescente coragem (vermelho vivo).