Capítulo 13 • Sentimentos Estranhos

21 de Junho de 2019

Naquela sexta-feira, Nicole estava na delegacia organizando alguns papéis quando Ângelo ligou, conversaram brevemente sobre as trivialidades de suas rotinas, mas logo o amigo e advogado foi avisando do seu processo:
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  — Ângelo, que excelente notícia! Então o Lucas também será acusado?
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  — Exatamente Nicole! Eu apresentarei as provas no julgamento!
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  — Eu te falei que nós conseguiríamos!
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  — Sim, mas não se precipite Nic! Sabemos que provar a culpa dele é mais difícil do que provar a sua inocência!
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  — Eu sei, mas só de saber que o Lucas começará a ser investigado já é uma alegria! Obrigada meu amigo. Muito obrigada!
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  — Não por isso, linda! Qualquer nova informação eu te aviso, agora eu preciso ir, nos falamos depois. Abraços!
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  — Obrigada Ângelo! Um beijo!
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  Nicole sorria animada com aquela ligação e Gabriel logo notou a felicidade nos brilhos dos olhos dela. As notícias certamente eram boas.
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  — Quem é Lucas? — Gabriel perguntou sorrindo.
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  — Lucas é quem armou toda esta sujeira para mim.
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  — E como ele entrou na história?
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  — Ele é meu ex-noivo. Ele é promotor de justiça, nós estudamos juntos na faculdade de direito, então namoramos. Apesar de um relacionamento de idas e vindas, não imaginei que ele terminaria assim…
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  Enquanto Nicole e Gabriel conversavam sobre a ligação que a mulher recebeu, Bernardo estava do lado de fora da sala. Havia acabado de chegar para buscar a mulher, mas quando notou pelo vidro da porta que os dois conversavam sorridentes, achou melhor aguardar um tempo, e se colocou a espiar a conversa alheia.
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  — Achei que eu o conhecia até ele me decepcionar, Gabriel. E ele só vem me decepcionando cada vez mais. Eu até achava que o amava, mas depois de tudo isso, como eu poderia amá-lo? Amor não pode ser aquilo… — confessou ela.
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  — Ainda bem que vocês não ficaram juntos. Sabe-se lá o que mais, ele poderia fazer você passar.
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  Gabriel afirmou compreendendo os sentimentos de Nicole, que sorriu concordando com o delegado. Bernardo pensou sobre aquilo. Nicole estava dizendo a ele que estava apaixonada? E não parecia ser pelo seu amigo… Ao mesmo tempo, dava a entender que a pessoa em questão não a merecia. Um lastro de ideia descabida passou à sua mente: será que eles falavam dele? Nervoso por pensar aquilo, Bernardo respirou fundo e decidiu que já escutara demais. Bateu na porta anunciando sua chegada.
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  — Boa noite, Bernardo. — disse o delegado, e Nicole já se direcionou a pegar sua bolsa.
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  — Boa noite, Gabriel. — Bernardo respondeu em baixa voz, ainda absorto ao que havia escutado.
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  — Antes de vocês irem, será que poderíamos conversar Bernardo?
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  Gabriel perguntou levantando-se da própria mesa onde estava apoiado. O fazendeiro olhou para Nicole, e depois para o Gabriel, de modo desconfiado e lhe respondeu seco:
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  — Claro.
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  — Eu vou esperá-lo lá fora Bernardo… Até amanhã, Gabriel!
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  Nicole despediu-se com um beijo no rosto do amigo e sendo retribuída num abraço de contentamento, pelas notícias recebidas. Bernardo observou à cena, sentiu a boca amargar e desviou os olhos para a saída da mulher. Logo que os dois ficaram sós na sala, o fazendeiro se aproximou sentando à frente da mesa do delegado, que tornou também a sentar-se em sua cadeira.
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  — Como estão as coisas? — Bernardo perguntou.
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  — Estão seguindo normalmente… E com vocês na fazenda?
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  — Tudo certo. Mas, vamos! Diga o que quer.
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  — Bernardo, somos amigos há anos e eu não acho que deveríamos deixar que os meus sentimentos por Nicole atrapalhassem isso.
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  — Seus sentimentos por ela? — O fazendeiro perguntou de forma debochada — E os sentimentos dela por você?
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  — Isso não tem importância no momento. Não estou cobrando reciprocidade dela, por enquanto somos amigos. Mas Bernardo, eu não quero uma situação chata entre nós se eu realmente me envolver com a Nicole, então me responde, por favor… Você sente algo pela Nic?
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  Bernardo encarou ao rosto sincero e plácido do amigo, de certo modo até cuidadoso, e sentiu a pergunta lhe descer rasgando a garganta no mesmo amargor que sentia momentos antes.
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  — Eu realmente não entendo de onde você tirou esta ideia absurda! Fique tranquilo Gabriel, eu não sinto nada por ela… E mesmo achando que ela também não sinta por você… Eu espero que você seja feliz.
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  O delegado assentiu concordando em silêncio e despediu-se em seguida. Nicole aguardava o fazendeiro ao lado de fora da delegacia, sem encontrar onde estava a camionete velha, porém conservada. Bernardo surgiu saindo da delegacia, com uma expressão séria e pensativa. Entrou em outra camionete melhor, maior, mais bonita e cabine dupla, sem se atentar à presença de Nicole, que seguindo o homem e o observando esguio, entrou no carro novo. Quando Nicole fechou a porta e afivelou o seu cinto em silêncio, Gabriel surgiu próximo à janela ao seu lado.
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  — Amanhã as oito eu passo lá para te buscar, Nicole. — disse sorrindo e piscou para ela.
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  — Estarei te esperando. — Nicole devolveu a piscadela e um beijo no ar para ele.
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  Bernardo arrancou, deixando claro o quanto estava irritado. Nicole observou aquela reação dele um tanto quanto assustada pela arrancada, e curiosa. Em seu tom irônico perguntou:
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  — A conversa foi tão ruim assim?
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  Ele nada respondeu. E ao notar que a rispidez estava além do habitual, ocorreu a ela que não fora a conversa dele com o delegado que o deixara daquela forma. Será que Bernardo teria escutado algo sobre a conversa dela? Era possível que ele estivesse a ignorando, por agora saber que a julgou mal e que, estava errado aquele tempo todo sobre ela, com suas ideias desconhecidas e inteligíveis a respeito dos tais “planos de Nicole”?
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  — Escuta… O que você ouviu?
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  — O suficiente. — respondeu seco.
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  — Jura? Então acho que não preciso te explicar mais nada sobre o processo, não é? — Nicole respondeu desafiadora.
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  — Como?
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  — Já que você disse que ouviu o suficiente.
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  — Não, eu não ouvi nada sobre processo algum.
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  Bernardo respondeu incomodado, mas sem perder a marra. Mantinha os olhos azuis quase cristalinos, semicerrados, a encarar a estrada, tentando não olhar na direção dela e perceber o possível sorriso de deboche no rosto de Nicole. Pelo visto, ele havia entendido alguma coisa errada.
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  — E o que você ouviu?
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  — Sobre… — pigarreou e tentou buscar palavras, a fim de disfarçar o constrangimento — Você amar alguém que não merece.
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  — Ah! Você me escutou falar sobre o Lucas. O meu ex-noivo!
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  Bernardo arregalou os olhos, um tanto surpreso. Varreu suas lembranças como quem buscava indícios daquele homem, e então se recordou da única vez que se lembrava de ter visto Nicole: no velório do tio Rodolfo. E Lucas era certamente o homem que a amparava.
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  — Achou que fosse sobre quem? — Nicole perguntou.
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  — Ninguém. Só fico surpreso que alguém fosse capaz de ter pedido você em noivado. — dissera insolente, tentando implicar para disfarçar sua surpresa.
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  — Jura? Você acha? — Nic zombou: — Engraçado achar isto, já que alguém foi capaz até mesmo de ter uma filha com você. Convenhamos, Bernardo, eu sou muito mais…
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  — Limite-se a falar apenas deste processo.
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  Bernardo a interrompeu antes que a discussão piorasse e ele perdesse a chance de saber a história toda.
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  — Certo… Está na hora de eu esclarecer algumas coisas, quem sabe assim você me dá uma chance.
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  — Eu não te darei chance alguma.
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  — Pois bem, Bernardo! Vamos ao que interessa! Eu sou delegada e estive trabalhando no cargo pouco mais de três anos. O Lucas estudou comigo na faculdade de direito, mas ele já era formado e fazia uma pós-graduação. Nós nos envolvemos, brevemente, mas entre idas e vindas, o namoro ficou sério quando eu já estava na delegacia. Ele trabalhou na mesma DP que eu, e ficou por lá pouquíssimo tempo já que passou no concurso de promotor de justiça. Cerca de uns cinco meses antes de eu vir para cá, peguei um caso investigativo do antigo delegado da minha corporação: o Dr. Rubens Paiva. Ele foi assassinado e o processo ainda corria em investigação quando foi arquivado sem mais, nem menos. Algumas pessoas estavam sendo investigadas pelo desaparecimento das provas do homicídio quando isso ocorreu, e sem explicações convincentes, o caso foi então arquivado por falta de provas.
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  Bernardo assentiu, e mais tranquilo investiu no diálogo:
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  — Então, Rubens Paiva era delegado do batalhão que você assumiu?
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  — Sim. Trabalhou por anos ao lado do meu pai, e quando papai faleceu ele assumiu a subchefia. Mas o caso que peguei não era relacionado ao homicídio dele, e sim sobre um esquema corrupto envolvendo o narcotráfico no qual ele estava prestes a descobrir tudo. Infelizmente, antes de fundamentar as provas e depoimentos, ele foi assassinado. Eu tive que continuar de onde ele parou… O que me remeteu a buscar antigas declarações e testemunhas, mas tudo desapareceu dos arquivos policiais e as principais testemunhas estavam mortas. Com isso, eu tive que me debruçar no assassinato dele para tentar entender e ligar os fatos. Trabalhei, incansável, dia e noite nisso! Até que constatei que três pessoas ligadas ao poder judiciário estavam envolvidas no crime. Duas eu consegui identificar e prender: um juiz e um delegado de São Paulo. A terceira pessoa ainda era um mistério. Com esses dois cúmplices descobertos e o depoimento deles, eu teria as provas necessárias para fechar ambos os casos, mas faltava o terceiro nome. E quando eu consegui uma bússola para onde apontar, fui afastada do inquérito por uma calúnia ridícula!
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  Enquanto dirigia atento à estrada, ora ou outra, Bernardo olhava para Nicole, que permaneceu contando tudo com olhar firme à frente, como se estivesse revendo as cenas narradas. A curiosidade, logo foi instigada nele:
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  — E o que você já havia descobrido?
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  — Quem assassinou o delegado Rubens e o motivo. Uma quadrilha formada pelo juiz preso, um delegado e mais essa terceira pessoa.
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  — E, por que eles assassinaram o homem? Algo como queima de arquivo?
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  — A quadrilha lucrava com a exploração do narcotráfico apreendido. Eles apreendiam as drogas e as distribuíam para o tráfico de outras capitais. Um ciclo que nunca acabaria se alguém não interviesse. Rubens Paiva interviu, mas não chegou ao fim e os integrantes ficariam cada vez mais ricos. Então eu assumi o caso e redescobri tudo, já que os caminhos do Paiva foram apagados. Só que o mandante da facção, o terceiro elemento que era essencial, eu ainda não consegui garantir a certeza. Quando a minha mente apostou em um nome, fui acusada de estar envolvida, de ser a mandante e que tudo não passava de um plano meu para despistar as investigações. Acusada pela mesma quadrilha, suponho. Provas contra mim, foram implantadas e agora estou sendo investigada. Só não fui presa porque as provas iniciais foram descartadas por não serem contundentes. Mas ainda assim, geraram um inquérito sério e o juiz decidiu me afastar até segunda ordem, e o processo que eu investigava foi paralisado. O terceiro nome agora deve estar muito bem… Em seu iate de luxo rindo às minhas custas!
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  A voz de Nicole transpassava toda a raiva e injustiça que ela sentia. Bernardo notou aquilo, e arriscou perguntar, imaginando que ela já tivesse a resposta do tal envolvido:
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  — Quem é o terceiro nome que você desconfia?
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  — O Lucas. Meu ex-noivo. E não desconfio, eu tenho certeza. Só preciso provar isso.
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  — Isso tudo é muito louco e muito sério! — Bernardo soltou um muxoxo e logo, sua paranoia se fez presente: — Pessoas morreram por se envolver nisso e você também pode morrer, ou pior, podem atingir quem estiver perto de você!
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  Bernardo, à medida que ouvia a tudo aquilo, dirigia tenso e mantinha os olhos arregalados, como quem maquinava em sua mente as possibilidades daquela história terminar muito mal.
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  — Sim. Mas fique tranquilo quanto a isso. Ninguém vai fazer nada contra a sua família, nenhum “inimigo” sabe que estou aqui. E…
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  — Nicole, deixa de ser burra! Se forem pessoas de dentro da sua corporação, as envolvidas… Saber onde você está é o de menos. Você não deve satisfações à lei?
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  — Sim, claro. Mas…
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  Nicole o observou e repensou no que diria. Bernardo agora parecia muito mais preocupado ao volante e muito mais irritado pelo fato da mulher estar em sua convivência. A verdade, é que ele estava irritado não com ela, mas por ela estar correndo aquele risco todo. No fundo, Bernardo não sabia de onde vinha a sensação, mas acreditava naquela verdade que a própria defendia sobre ser inocente. E certamente, aquilo era algo que ele não pretendia contar a ela.
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  — Bernardo! Escuta! Relaxa ‘? Tem gente da minha confiança rastreando todos os que apontei. Dois estão sobre custódia e o Lucas… Se for ele, ele não poderá fazer nada!
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  O fazendeiro ainda se perdia em seus próprios pensamentos, desatento a ela, então Nicole tocou no braço dele, o pedindo:
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  — Olha para mim!
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  Bernardo diminuiu a velocidade do carro, parando-o no acostamento da estrada de chão, perto da cerca, e enquanto a poeira baixava, a encarou, atento ao que a mulher ainda diria.
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  — Eu não vou deixar nada acontecer à sua família! Eu prometo. Eu não viria para cá se não tivesse a certeza de que ninguém iria me encontrar, ou interferir nas suas vidas. — A mulher relatou de modo firme.
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  — É bom mesmo.
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  — Você acredita em mim?
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  — Não vou dizer que não ou sim. Eu ainda me mantenho afastado e irritado pela sua presença, e agora muito mais por causa de tudo o que ouvi!
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  — Como é?
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  Ele a ignorou e voltou a dirigir. Nicole estava confusa. Se não era pela desconfiança da sua relação com a polícia, por que Bernardo tinha um pé atrás com ela? Nicole podia jurar que ao ouvir toda a história, Bernardo compreenderia os motivos por sua vinda à fazenda… Contudo, ele ainda a encarava com olhares de desconfiança. Pela sua paz interior, Nicole precisaria entender o que havia de errado interferindo na sua comunicação com Bernardo. Já levara tempo demais aceitando aquela relação desrespeitosa e infantil entre eles.
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  Ainda naquela noite, Ângelo ligou trazendo uma nova e importante informação: na segunda-feira seguinte, às oito horas da manhã, iniciaria o primeiro julgamento do caso de Nicole. Embora estivesse nervosa e apreensiva, ela precisava se manter firme psicologicamente durante o fim de semana. Quando telefonou para Gabriel o avisando que iria se ausentar por conta de seu julgamento, o amigo prontificou-se a ir com ela. E no jantar, após Carol sair da mesa, Nicole chamou Bernardo e titia para conversar.
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  — Preciso informar vocês de uma coisa.
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  — O que aconteceu querida? Está tão séria! — A preocupação era evidente no rosto de Dona Laura e também, em Bernardo, que a escutou atento.
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  — Há pouco recebi um telefonema do meu advogado avisando a data do meu julgamento.
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  Titia a encarou assustada pela sobrinha tocar abertamente no assunto, na presença de Bernardo, que notando esclareceu:
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  — Tudo bem, mãe, ela já me contou a novela mexicana.
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  — Será segunda-feira às oito horas da manhã. — Nic avisou.
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  — Eu irei com você!
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  — Não, Bernardo, não precisa ir.
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  — Eu vou e ponto. Assim saberei toda a verdade desta história!
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  — Espera aí! Depois de tudo o que eu te contei, você ainda desconfia de mim?
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  — Eu não confio ou desconfio, mas eu devo acompanhar tudo de perto, afinal você está na minha casa.
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  — Bernardo! — Cora, que só os observava, ao ouvir aquilo, o repreendeu, mas o filho não deu importância.
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  — Mãe. Por favor! — Ele disse sério e contundente, afirmou: — Eu vou Nicole! Está acabado.
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  Bernardo se levantou do sofá e lhes deu às costas, indo em direção às escadas. A verdadeira razão para ele querer ir, se relacionava ao fato de que, Bernardo não queria Gabriel ao lado dela porque sabia que o delegado a ampararia. Assim como, reconhecia que não seria ele, quem poderia a proteger ou demonstrar apoio. Mas só de estar perto, garantir que nada aconteceria com a impetuosa delegada, e, ao mesmo tempo, aparentemente, frágil vítima, Bernardo se daria por satisfeito. Como era sabido que Nicole o negaria à sua presença, ser rude daquela forma, foi a saída que ele encontrou. Por mais que se fosse gentil e sincero, ela não tentasse o impedir, na cabeça de Bernardo, agir diferente seria assumir a atração que ele já aceitava sentir por ela.
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  Nicole encarava a figura do homem se afastando, com incredulidade e raiva, estampadas em seu rosto. Mesmo após ter se exposto a ele, o babaca continuava agindo daquela forma. Tempestiva, ela o seguiu explodindo antes que ele terminasse de subir os degraus:
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  — Sabe por que eu quis falar na sua presença? Para que você e sua mãe, soubessem sem a Carol ouvir e demonstrar alguma consideração por esta sua… Esta sua má acolhida por mim! Mas eu não me importo nem um pouco com o que você pensa! Eu me preocupo com a Carolina que é muito nova para entender e com a titia! À titia, sim, eu devo explicações! Porque ela, sim, me abrigou nesta casa de peito aberto! Vá se ferrar Bernardo! Eu te odeio, seu estúpido!
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  Nicole despejou de uma única vez, às costas dele. O homem engoliu a seco as palavras dela, sem se mover ou reagir. Esperou que ela terminasse seu desabafo e então, inspirou ar enchendo os pulmões, soltando as mentiras, que lhe doíam dizer:
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  — Grite o quanto quiser! Esperneie! Faça a sua cena! Eu irei! Assim eu posso garantir exatamente quando você vai embora desta casa!
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  — Eu te odeio Bernardo!
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  — Esteja pronta bem cedo na segunda! Sairemos de madrugada!
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  — Eu não vou com você! Eu vou com o Gabriel! Ele disse que me acompanharia para me apoiar!
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  — Claro! O Gabriel!
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  Bernardo, que já estava subindo novamente, parou no último degrau, com as mãos na cintura respirando fundo. Como poderia não pensar que o delegado amigo, além de se convidar a acompanhá-la, não iria dispor a ir buscá-la também? Olhou firme para a mulher atrás de si, que tinha o rosto vermelho de raiva e declarou:
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  — Mas isso não impedirá que eu vá.
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  Dona Laura segurava um semblante ultrajado e sério, na direção de Bernardo. E descontente advertiu ao filho, que arrogante pôs-se a continuar subindo as escadas:
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  — Conversamos logo mais, Bernardo!
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  Nicole suspirou e direcionando-se para o sofá chorava de raiva. Não conseguia acreditar naquela humilhação! Como ele poderia agir daquele jeito? Logo depois de tudo o que ela havia lhe contado? Após ter exposto à calúnia pela qual foi submetida? Bernardo estava sendo um crápula! Sua tia aproximou-se sentando ao lado dela e a abraçou lhe confortando:
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  — Tudo bem, Nicole. Não dê ouvidos ao Bernardo! Ele não merece estas lágrimas… Olha… Vamos nos felicitar, por quê… Que ótimo que marcaram a data! Agora tudo irá se resolver, querida! Falta pouco!
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  — Obrigada pelo apoio, tia.
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  — Eu vou subir e ter uma conversa com ele, você descanse.
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  Assim que sua tia saiu, Nicole enxugou as lágrimas e caminhou até a varanda. Observava a noite estrelada quando o celular em seu bolso tocou, indicando outra ligação de Ângelo:
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  — Olá Anjinho. — atendeu.
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  — Nicole. Acabei de receber novas notícias e não são muito agradáveis. Lucas foi escalado para promotor de acusação do seu julgamento.
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  — Mas assim de repente?
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  — Um dos promotores sofreu um acidente, e faltando um à bancada o julgamento teria que ser adiado. Eu não sei como ele conseguiu ser nomeado a suplente, mas… Quero dizer… Sabemos não é? — ironizou o advogado.
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  — Que droga! Céus! E agora Ângelo?
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  — Mantenha a calma, isso não vai atrapalhar a minha estratégia. O juiz seria negligente de não o afastar depois do que apresentaremos. Verônica e eu estamos investigando tudo cautelosamente. A última coisa que você deve fazer é perder a calma!
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  — Tudo bem Anjinho. Obrigada.
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  — Ei, linda! Acredite em nós! Vai dar tudo certo. Eu até queria evitar, mas você precisava saber disso. Se cuide! Boa noite, amamos você!
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  Nicole desligou a chamada e se direcionou a subir para seu quarto. Ouviu uma conversa um pouco mais alta, porém contida, vindo do quarto de Bernardo e ficou atrás da porta, algo que fazia bastante nos últimos tempos, escutando uma pequena parte:
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  — Pare de agir assim com ela! — Dona Laura dizia com as mãos na cintura, para o filho que estava escorado na porta de sua sacada.
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  — Eu não vou mudar de ideia a respeito de tudo isso, independente dela ser inocente ou não!
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  — Ela não merece o seu tratamento, meu filho!
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  — Não me importo mãe! Acha justo me fazer passar por isso de novo? — Ele direcionou o olhar para a senhora, que notou um brilho incomum aos olhos dele.
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  — Não é como você pensa, Bernardo! Se isso for…
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  — Mãe! Não! — interrompeu: — Não é por causa deste processo! Eu não vou aceitá-la por aqui! Eu não posso!
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  — Bernardo! Abre os olhos! Olha a Carolina!
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  — Não mãe! Pare com isso! A senhora está errada! Eu estou com os olhos abertos e os pés bem firmes no chão, é a senhora quem está criando expectativas inúteis!
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  Tia Laura mordeu os próprios lábios, e uniu suas mãos uma à outra, abaixando a cabeça de forma quase desistente, mas insistiu:
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  — Tente conviver em paz com ela, pelo menos! Você nem deu uma chance de conhecê-la!
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  — Para quê? Sem precisar disso eu já estou passando por todas essas coisas! Mãe… Não força, ou então… Não será ela a sair! Serei eu!
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  Nicole não entendia o contexto da discussão, mas sabia que o assunto era ela. Assustou-se ao sentir, Carolina pegando em sua mão depois de se aproximar de mansinho da mulher.
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  — Nic?
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  — Carol? Ei! Está fazendo o quê acordada? Achei que estivesse dormindo. — Nicole falou guiando a pequenina de volta ao quarto dela.
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  — Por que eles estão brigando?
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  — Por que… — pensou — Seu papai fez besteira. Eles não estão brigando. A vovó só está dando bronca nele. Igual quando você faz bagunça.
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  — O que o papai fez?
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  — Ele quebrou uma louça que a vovó gostava, mas foi sem querer. Só que… A vovó está dando bronca para ele prestar mais atenção.
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  — Não gosto dessas broncas, Nic. — A menina confessou chorosa aninhando-se no colo de Nicole.
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  — Não. Também não gosto. Ei, não chora tá? Vai ficar tudo bem.
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  Nicole ninou à Carolina e as duas adormeceram juntas no quarto da menina. Depois de um tempo, de repente a mulher acordou e foi para o seu aposento. Estava passando pela porta de Bernardo, quando o viu com o rosto afundado nas mãos, chorando como até então não tinha visto. Ao vê-lo vulnerável daquela forma, Nicole quis entrar e perguntar se ele estava bem. Entretanto, sabia que foi melhor ignorar e assim, passou direto.
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  Já em seu cômodo despiu-se e adormeceu, mas não por muito tempo. Lá para as três horas da manhã, Nic acordou assustada com o pesadelo que começava a ter, vestiu seu robe curto e foi sonolenta até a cozinha beber água. Assim que subiu, mais uma vez, pela porta do quarto aberta, avistou que Bernardo ainda estava acordado, deitado olhando de modo fixo ao teto. Ponderou se deveria se aproximar, e decidiu por bater levemente à porta. O homem se assustou e quando viu a figura dela parada ali, e de súbito sentou-se na própria cama.
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  — Você está bem? Eu… Ouvi você e sua mãe brigando.
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  Ele a olhava fixamente sem nada pronunciar. Pensava em sua relação confusa e desnecessária de inimizade com a mulher até ali, movido pela insônia que aquela noite lhe causara. E de repente, a razão por sua falta de sono, surgia tão bela à sua porta, quase como uma miragem, ou uma provocação. Nic, percebendo que Bernardo não diria nada, e apenas ficaria a encarando como se ela fosse um fantasma, lhe deu as costas, arrependida por seu ato. Foi para o seu quarto e deitada em sua cama fechou os olhos para dormir, e enquanto pegava no sono sentiu um beijo em sua testa. Um beijo de anjo. Sonhou com anjos lindos naquela noite. E eles diziam enquanto tocavam suas harpas: “seja forte e confie em Deus, as respostas estão próximas”.
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~ ♥ ~

Julgamentos Diversos

  Ao dia seguinte, Bernardo estava acordado desde muito cedo e quando Nicole chegou à varanda com sua caneca de café recém-coado, estendeu uma para ele. Ela era gentil com Bernardo, mais do que ele para com ela. E apesar disso, Nicole optava em ser, na maior parte do tempo, gentil. Talvez aquele cântico angelical do sonho dela, significasse exatamente isso: não se importe e siga em frente.
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  Bernardo quebrava lenha na entrada da casa, vestindo uma camisa branca de algodão fino com mangas compridas, que colava em seu corpo desenhando-o perfeitamente. O suor a fazia grudar ainda mais em seus músculos, já Nicole estava na varanda ainda enrolada no seu cobertor, observando e se perdendo naquela visão. Quando se deu conta daquilo, chamou o homem e estendeu a caneca de café para ele, que se aproximou brando.
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  — Bom dia, Bernardo.
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  — Bom dia. Obrigado. — Ele disse pegando a caneca esmaltada.
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  — Está do seu jeito?
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  — Está.
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  — Você madrugou… Não poderia cortar a lenha mais tarde? — tentou puxar algum diálogo, sem gritos, embora ele parecesse ainda arisco.
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  — Me acalma acordar cedo e trabalhar.
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  Nic murmurou um muxoxo, o estudando com os olhos e então desviou sua visão para o horizonte do Sol que nascia, decidindo esclarecer:
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  — Bernardo, sobre ontem de madrugada… Me desculpe! Eu ouvi parte da discussão com a sua mãe.
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  — Estava espiando? — os olhos semicerrados e o inspirar que inflou seu peito, eram sinais próprios da ansiedade de Bernardo.
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  — Não vou mentir, até porque eu não tenho razões para isso. Estava sim.
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  — Isto é típico da Carolina.
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  — Ela também ouviu.
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  — E você a deixou escutar tudo aquilo? — perguntou já se sentindo mais incomodado.
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  — Não! Quando ela chegou no corredor, eu a levei de volta para o quarto… Mas, ela ficou assustada.
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  — O que você disse a ela?
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  — Que você levou bronca por quebrar pratos. Por fazer besteira, o que não deixa de ser verdade.
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  — Obrigado. E me desculpe por ontem… Eu não desconfio da sua inocência neste processo. — revelou olhando profundamente nos olhos dela, subindo um degrau da varanda, ficando à altura de Nicole e lhe sendo sincero: — Não mesmo Nicole.
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  — E por que disse tudo aquilo? — Os dois se encaravam olho no olho, tensos.
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  — Porque você…
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  Bernardo suspirou e pegou no rosto de Nic com uma das mãos, e pousou a caneca no cercado da varanda com a outra. Dedilhava calmo e carinhoso o polegar na face dela, e Nicole se mantinha paralisada. Os dois perdiam-se no olhar um do outro, até que ele disse:
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  — Você causa um mal tão grande em mim! Um desconforto imenso e me irrita simplesmente por existir.
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  Nicole já não respondia por si diante àquele toque, queria respondê-lo já da forma malcriada de sempre, mas Bernardo a desarmou. Passava os dedos aos lábios da mulher os observando:
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  — E é tudo tão vicioso Nicole! Que eu não sei se consigo resistir.
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  Estavam próximos, tensos naquela atmosfera de descobertas, e foi inevitável: de novo, se beijaram. Pela terceira vez. Nicole abraçou Bernardo pela nuca e seu cobertor caiu ao chão, revelando a ela o quão fria estava aquela manhã. O homem a apertava deliciosamente em seus braços, de forma segura e livre de todas as barreiras que impunham sobre si.
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  As barreiras caíram diante as diferentes sensações: o cheiro de lenha e orvalho na roupa dele, o cheiro dele… A umidade da sua pele, causada pelo suor frio que secara com o vento da manhã… Os toques gelados e a barba roçando no rosto fino da mulher… O dançar das línguas e as correntes energéticas de seus corpos causando espasmos… Bernardo puxava os cabelos de Nic, apertava a sua nuca demonstrando a virilidade de suas maneiras, e ela não conseguindo conter nada daquilo, a ele pertencia devagar.
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  A delegada arranhava as costas do viril fazendeiro por debaixo da blusa e de mansinho, o Sol surgia cada vez mais cúmplice daquele momento desvelando à cena. Bernardo a puxou ainda mais para perto de seu corpo, e em passos lentos, a empurrou até a parede da varanda. Ergueu o corpo dela, colocando-a como uma flor delicada em sua cintura. Nicole sentia que a qualquer momento perderia as forças restantes que ainda se mantinham dentro de si, para lutar contra tudo aquilo. E de repente, reuniu o pouco de sanidade desgrudando os seus lábios e o encarando assustada.
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  — Pare… — sussurrou ofegante o medindo nos olhos.
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  Como em uma hipnose, Bernardo despertou. Ela também despertou, e os dois se soltaram.
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  — Desculpe.
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  — Não peça… — Nicole afirmou enquanto olhando para ele, se afastou ao pegar seu cobertor no chão.
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  Direcionou ao Bernardo um sorriso sem graça, e entrou no casarão.
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  Bernardo levou as mãos à cabeça sacudindo seus cabelos, e escorou um braço livre, estendido na pilastra da varanda, que sustentava ao telhado. Ficou alguns minutos ali, extremamente confuso e revoltado por tê-la beijado de novo. Por que era tão difícil resistir a ela? Por que ele se sentia como um garoto que não sabia controlar mais seus sentimentos? Pensar em Nicole e nas razões pelas quais a mulher o envolvia tanto, não o levaria a lugar algum, então o fazendeiro voltou ao seu serviço braçal. Com ainda mais ímpeto em descontar as emoções, nos estalos da madeira que rachava.
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  Nicole, tal como ele estava perturbada na cozinha e pensativa. Bebia a mais uma xícara de café, enquanto sentia ainda os toques de Bernardo em sua pele. Ao notar que não estava lhe fazendo bem remoer o ocorrido, virou um copo de água gelada em um só gole ao sentir seu corpo aquecer. Não era culpa do café. Ela estava em êxtase! E bastante irritada por sua fraqueza. Que loucura adolescente era aquela que estava vivendo?
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  Com seu cobertor embolado nos braços, saindo da cozinha esbarrou em sua tia, mas não a disse nada. Nicole nem respondeu ao “bom dia” da senhora, de tão zonza que estava. Direcionou-se a tomar banho e se preparar para o dia que se iniciou. Só conversou devidamente com a matriarca, quando a encontrou à mesa do café.
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  — Bom dia, querida. Está tudo bem?
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  — Sim, me desculpe por passar direto, tia… Eu fiquei um pouco zonza.
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  — Está se sentindo mal?
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  — Não, foi só… Uma tontura boba.
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  — É, mas fique atenta à sua saúde, querida! Pode ser o estresse pré-julgamento… Agora, sente-se! Venha tomar café.
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  Nicole se sentou lateralmente à sua tia e de frente para a porta dos fundos, onde Bernardo tomava uma “ducha” no banheiro improvisado do quintal. Não notou, mas passou o café inteiro observando o homem e Dona Laura percebeu. Quando Nicole deu-se conta, de que Cora olhava para onde ela tanto fitava, disfarçou encarando ao próprio café como quem não quer nada. Bernardo passou pelas duas na cozinha sem falar nada e sem camisa também. Ato infeliz! As marcas avermelhadas das unhas de Nicole ainda estavam em suas costas, e a mãe dele, apesar da idade avançada, não estava cega.
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  — O que foi isso nas suas costas meu filho? — perguntou e Nicole abaixou a cabeça, pois, se ele fosse burro a ponto de olhá-la antes de respondê-la, sua mãe perceberia o ocorrido.
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  — Não sei. Deve ser alergia a algum matagal.
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  — Está coçando? — perguntou.
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  — Um pouco. — Bernardo deu de ombros saindo.
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  — Passe aquela pomada antialérgica! Está no meu quarto. — titia avisou-lhe.
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  E calado, Bernardo subiu. Sua mãe, direcionando o olhar para Nicole a observava de maneira amistosa, passando-lhe calma e confiança, mas a sobrinha postiça se manteve silenciosa e indiferente. Sempre mentiu muito bem embora não gostasse, e por não gostar, às vezes era fácil perceber quando ela o fazia. Tia Laura levantou-se recolhendo sua xícara e pratos e antes de levá-las para a pia parou, lançando à mais nova, um olhar de ternura e desafio apoiada na mesa:
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  — Saiba que pode conversar comigo sobre qualquer coisa! Tudo bem?
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  — Obrigada tia Cora. Irei sempre me lembrar disso.
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~ ♥ ~

  Nicole arrumava-se para o seu passeio com Gabriel vestindo a um florido diferente, do tipo que ela nunca usaria em São Paulo. Os ares interioranos faziam-na mudar não apenas as suas perspectivas de vida, mas também a sua crítica à moda. Trançou os cabelos para o lado, a maquiagem era leve e o vestido médio até os joelhos com alças finas, de um verde florido discreto, porém campestre. Nos pés, botas de cano curto, marrom. Também carregava uma bolsa de mão e um suéter branco. Uma aparência simples, confortável e a cara da cidade. Saiu ao corredor esbarrando em sua tia que carregava uma cesta de novelos para o seu costumeiro tricô.
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  — Como está bela! Aonde vai?
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  — Sair com o Gabriel! Mas, não sei para onde ele vai me levar. — Nicole sorriu animada.
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  — Vocês têm saído muito ultimamente. — titia nem completou a frase, já dando indício do que pretendia.
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  — Não estamos juntos, tia. Pelo menos, por enquanto temos saído sem compromisso algum, apenas como amigos.
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  A mulher sorriu dando ao assunto menos importância do que a tia fazia parecer. As duas já desciam as escadas quando Bernardo, que assistia TV com Carolina deitada em seu colo, notou a figura de Nicole. Nunca tinha visto-a tão… Diferente. As roupas mais leves, a aparência simplória, o vestido feminino no lugar das calças e shorts jeans tão metropolitanos… Nicole parecia um souvenir perfeito do cenário da fazenda. Percebeu que ela iria sair, e deu-se conta de que era provável que Gabriel estivesse no meio daquela história. Então não pôde evitar, afinal, Bernardo era mais transparente do que gostaria de soar, sentiu-se enciumado a encarando. Carol ficou deslumbrada por ver a mulher vestida como a própria menina costumava se vestir também, e correu até ela beijando seu rosto.
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  — Você parece uma boneca que eu tenho! Não é vovó? — Ela dizia animada rodando na barra do vestido de Nicole.
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  — É sim! Ela é uma boneca, Carol. — Dona Laura sentou em sua cadeira de balanço entre um riso e outro.
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  — Aonde você vai Nic?
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  — Eu não sei, Carol. O Gabriel me levará a um passeio! — Nicole acariciava os cabelos da pequenina tão carinhosa, abraçada a ela.
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  — De novo? — Carol murmurou claramente descontente.
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  — Sim, Carol. E eu só não te chamei, porque a senhorita está de castigo.
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  A pequenina levou uma das galinhas para brincar com ela no quarto e fez a maior bagunça no cômodo! O chão do local era uma mesa posta de milho, farelos, biscoitos, bolo, e ela ainda encharcou o lugar de “chá”, segundo a sua imaginação. Levou uma bronca dupla do pai com um mantra já conhecido de“eu já te falei…”.
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  — Eu arrumava um jeitinho de ir também. O papai deixava, se soubesse para quê eu ia! — Carolina falou de braços cruzados e fazendo bico correu para o colo do pai.
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  — E posso saber para o quê a senhorita iria? — Nic perguntou curiosa.
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  — Para atrapalhar tudo! — falou emburrada.
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  — Carolina! Deixe de ser malcriada! Peça desculpa à Nicole!
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  Bernardo bronqueou, mas a menina tinha o gênio dele e mesmo pedindo desculpas, continuou emburrada com a mais velha.
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  — Desculpa.
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  — Está desculpada, Carol. — Nicole falou assustada com aquela reação da criança, até então inédita.
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  — Você ‘ namorando ele?
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  De repente, a garotinha perguntou séria e os outros dois presentes também olharam interessados para Nicole.
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  — Não Carol.
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  Não demorou muito, e Gabriel chegou buzinando. Nicole o convidou a entrar, mas logo se despediram. Carol continuou chateada fazendo companhia ao Bernardo, a birra em forma humana. No caminho, Gabriel e ela conversavam sobre o processo:
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  — Estou nervosa, eu acredito no trabalho do Ângelo, porém, Lucas é um ótimo promotor de acusação e eu tenho medo. Não por Ângelo, mas pelos argumentos que o Lucas possa usar. Pelas tramoias que ele é capaz de armar…
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  — Não pense assim Nicole! Você tem provas e estava no caminho certo! O juiz vai sentenciá-la inocente.
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  — Esse não é o problema, Gabriel. Como o Ângelo disse é mais fácil provar a minha inocência do que a culpa de Lucas. Eu sei que não serei julgada culpada, mas temo pela impunidade.
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  — Vamos manter o pensamento positivo e a fé na justiça divina. — Gabriel disse segurando sua mão sorrindo.
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  — Que horas pretendemos sair daqui segunda-feira?
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  — Comprei nossas passagens para às quatro e meia, chegaremos ao aeroporto da capital para o primeiro voo às seis horas.
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  — Não precisava se incomodar com as minhas passagens, Gabriel. — Nicole deixou clara em sua voz o descontentamento.
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  — Não se preocupe com isso você! Por favor!
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  — Faço questão de pagá-lo.
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  — Faço questão de não aceitar. Até porque você terá que comprar sua passagem de retorno. Lamento Nicole, mas eu precisarei voltar na segunda-feira, mesmo.
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  — Gabriel, não precisa ir! Isso vai te atrapalhar e será cansativo para você…
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  — Faço absoluta questão de ir, até porque eu te prometi! Sempre cumpro minhas promessas. Há algum problema em voltar sozinha?
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  — Não, de forma alguma. E depois, eu não voltarei sozinha. O Bernardo cismou em ir!
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  O bom humor de Nicole começou a se dissipar, e ficou transparecido por seus trejeitos ao informar aquilo. Mas, logo ela desfez seus pensamentos sobre o homem e Gabriel a encarou surpreso e curioso pela nova informação.
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  — Sério?!
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  — Me aporrinhou a paciência com um discurso medíocre! Típico dele. — Gabriel analisava-a atenciosamente e ela notou a postura dele: — Por que está me olhando assim?
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  — Já percebeu como o Bernardo mexe com você? — falou sério e sorriu desanimado.
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  — O que você quer dizer?
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  — Ele consegue te tirar do sério como nada mais que eu tenha visto, até então… E você nunca me pareceu uma mulher explosiva. Pelo contrário. É emocional, mas não deste modo… Só com ele. Quando o assunto é o Bernardo ou você, os dois são duas dinamites.
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  — Não tenho culpa se ele me provoca! Nada mais me irrita, além é claro, de mentiras e injustiças. É por isso que ele me tira do sério! Ele é injusto comigo.
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  Gabriel segurou sua mão acariciando-a e sorrindo de uma forma indecifrável, mas meio tristonha. Assim que chegaram ao “local surpresa”, o queixo de Nicole caiu-se em um nostálgico espanto infantil. Gabriel havia a levado para um parque. Um parque! Há quantos anos ela não via nada como aquilo? Provavelmente desde a infância. Os dois jogaram nas barracas de jogos, típicas de parque, dessas que você gasta o seu dinheiro e não consegue ganhar nada que valha a pena, como brinquedo de bolhas de sabão. Nicole também avistou Lúcia nas barracas de maçã do amor. Acenou e cumprimentou-a, mas ela ainda parecia tímida com a sua presença. Depois, o casal foi à roda-gigante, ao carrinho de bate-bate e acabando os brinquedos que lhes interessavam saíram em direção à praça da igreja. Sentaram risonhos em um daqueles banquinhos.
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  Gabriel a proporcionava alegrias. Nicole se esquecia dos motivos que tinha para chorar com ele por perto. Ele comprou um algodão-doce que os dois compartilharam. E enquanto saboreavam sorridentes como adolescentes, aquela delícia de açúcar que simplesmente desaparece na ponta da língua, um bebê corria divertido em sua frente. Não devia passar de um ano e alguns meses. Os pais, o vigiavam zelosos e felizes. Nicole contemplou aquela cena tão pura, que na sua vida antiga em meio ao tumulto de São Paulo, ela jamais perceberia com o mesmo olhar.
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  — Ainda vai passar por tantas coisas. — Gabriel dizia fazendo referência ao bebê que Nicole olhava admirada.
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  — Como a Carolina… — Ela atestou olhando para ele, distraída — Você me julgaria louca se eu lhe dissesse que amo aquela pequena como… Enfim, eu não sei explicar! Eu tenho um vínculo tão forte com ela!
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  — É compreensível. Vocês duas são parecidas.
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  — Jura?
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  — Sim, você não sabe o quanto!
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  — Eu posso estar sendo precipitada e extremista, mas sinto pela Carol um carinho maternal… Não sei se posso dizer isso, porque nunca fui mãe também.
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  — Você com certeza será uma ótima mãe. — Gabriel afirmou ajeitando os cabelos no rosto dela, enquanto conversavam.
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  — Será mesmo?
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  — Pelo jeito como fala de Carolina, e pela forma como a ama e cuida dela…
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  — Ah, Gabriel… — lamuriou — Se soubesse o quanto me incomoda, que Bernardo sempre esteja disposto a me afastar da filha…
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  — Talvez ele também tenha percebido a semelhança entre vocês e por isso tem medo. Quer a afastar.
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  — Eu… — Nicole olhou desconcertada para Gabriel — Já propus adotar a Carol…
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  — O quê? — espantou-se.
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  — Achei que pudesse ser uma madrinha, como uma mãe para ela. Mas a mãe dela está viva, e mesmo que não a procure eu não tenho este direito. E depois… Bernardo e eu não conseguimos conviver. Não estão sendo saudáveis para Carolina, as nossas desavenças sem motivos, e obrigá-la a presenciar isso com mais frequência é errado e cruel. Acho que mesmo se eu recebesse o posto de madrinha da menina, o Bernardo e eu não iríamos nos dar bem.
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  — Bernardo concordou com isso? — Ele perguntou contrariado.
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  — Não. Ele ficou furioso! Foi apenas um lapso meu.
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  — Sei que de alguma forma o vínculo que você tem com a Carolina é forte demais, mas… — disse cuidadoso segurando na mão de Nic: — Vá com calma, Nicole! Ela acha que a mãe morreu e a menina também tem um vínculo forte com você. Qualquer distanciamento entre vocês, por menor que seja, será doloroso.
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  — Eu sei. Mas… Ela tem me feito pensar na maternidade. Dá para acreditar?
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  — Dá. Quase toda mulher reflete sobre isso em algum momento, eu acho. — sorriu — Penso que sua mudança radical de vida engloba também a isso. Talvez seja hora de você pensar no seu futuro, em constituir uma família.
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  — Não Gabriel! — Nicole riu abanando as mãos em negativa: — Ainda não está no momento.
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  — Pensar nisso não significa prontamente acontecer. Você já planejou alguma vez ter uma estrutura familiar?
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  — Não! Eu, não.
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  — Eu já. Eu sei exatamente o que devo fazer se a pessoa certa aparecer.
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  — E quanto ou o quê, falta para encontrá-la?
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  — Não sei. Eu deixo as coisas acontecerem. — olhou-a sorrindo com toda a sua placidez nos gestos e expressões.
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  — Tenho seguido isso ultimamente. Deixar acontecer.
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  — E tem dado certo?
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  — Têm acontecido coisas… — Nicole respondeu pensativa na aproximação louca com Bernardo: — Que não fazem nexo algum. E que não importam agora.
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  — Entendo…
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  Gabriel a olhava carinhoso, acariciou o rosto de Nicole, com suas mãos sempre macias e convidativas:
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  — Vamos, está ficando tarde.
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  Nicole achou que ele fosse a beijar, mas desde que eles se sentaram ali, Gabriel se tornou tristonho. Ela notou aquilo, mas sabia que ele sempre agia conforme um tempo e um limite que a própria, não entendia. Realmente achou que havia ali, um clima para um beijo por parte dele, e como em outras situações anteriores, ele não o fez. Como amigos, os dois se levantaram e foram embora.
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  Já dentro da fazenda, após um caminho de conversas descontraídas, mas sem qualquer ligação com a noite que tiveram, Nicole avistou que todos dormiam. Ela e Gabriel desceram do carro e perceberam a luz do quarto de Bernardo, acesa. Nicole estava de frente para a janela dele, mas por sorte não havia sinal daquele ser rabugento.
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  — Obrigada pela noite maravilhosa! — Ela disse recebendo o abraço de despedida do amigo.
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  — Foi assim tão boa?
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  — Claro!
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  — Será que eu posso tentar fazê-la melhor?
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  Nicole sorriu sem graça, pela surpresa e o encarou divertida, prevendo que o beijo, que não aconteceu antes, aconteceria agora.
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  — Tentar? Você pode.
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  E finalmente eles se beijaram. Estranho era a palavra que Nicole usaria para definir aquele beijo. Ela não estava preparada, ou talvez esperasse mais, porque não se sentiu como foi com o Bernardo. Sentiu-se louca por pensar no fazendeiro enquanto beijava o Gabriel. Ela soubera que o beijo foi bom, mas faltava algo, e com certeza faltava algo em si, e não no delegado. Os amigos se despediram após aquela demonstração de intimidade, e Nicole logo entrou em casa, rumando para o andar de cima do casarão.
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  Bernardo estava deitado em sua cama, com uma pilha de papéis em volta e lendo uma revista. Havia trabalhado até tarde, portanto perdera o sono. Viu Nicole passar distraída pelo corredor rumo ao próprio quarto e encarou o relógio de sua mesa de cabeceira verificando a hora em que ela chegava. Em seguida, reuniu suas coisas e foi dormir. Não precisaria mais a esperar chegar, para dormir tranquilo. Ou melhor, quase tranquilo. No domingo à tarde, um dia depois do passeio com Gabriel, Bernardo pediu para conversar com Nicole.
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  — O que houve? — perguntou arisca entrando ao quarto dele e fechando a porta.
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  — Carolina.
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  — Ela ainda está chateada comigo ou é só impressão minha?
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  — Ela está chateada. E eu juro Nicole, eu tentei falar com ela, mas sobre este assunto ela está firme.
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  — Que assunto?
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  — Você e Gabriel.
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  — E você tentou falar com ela, para melhorar ou piorar a situação?
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  — Que interesse eu teria em ver a minha filha descontente com isso? E depois, eu deixei claro para ela que você tem o direito de escolher quem quiser para namorar e ela não deve se meter nisso, até porque é uma criança. Mas eu agradeceria se você pudesse conversar com ela depois. Ela está… Muito confusa.
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  — Conversarei. E obrigada.
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  Nicole assentiu e saiu do quarto de Bernardo em direção ao de Carol, onde a encontrou triste na janela.
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  — Carol?
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  — Oi! — A menina respondeu com voz amuada. — Será que nós podemos conversar?
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  — O quê? — Ela ainda não havia olhado para a mulher.
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  — Sente-se aqui comigo na cama, e vamos conversar como duas mocinhas. Está bem?
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  Carolina se aproximou com a boneca debaixo dos braços e a cabeça baixa.
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  — O que foi? — A menina perguntou triste.
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  Cortava o coração de Nicole vê-la daquele jeito e, ao saber que era ela a culpada por aquilo, Nicole achava justo que Bernardo a castigasse. A mulher pegou as mãos da menina e levantou seu rosto para que Carolina pudesse a olhar.
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  — O que está te incomodando? Eu fiz algo errado?
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  — Fez.
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  — E o que seria?
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  — Você gosta mais do Gabriel.
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  — Gosto mais dele? Comparado a quem?
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  — Eu.
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  — Que bobagem! Você é a minha boneca! Nada é mais importante do que você. — beijou a testa dela, mas ela continuou triste — Ainda tem alguma coisa te incomodando?
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  — Você namora com ele?
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  — Eu já falei que não, Carol.
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  — Mas o papai disse que vocês podem namorar e que nós não podemos fazer nada.
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  — Se eu namorasse o Gabriel, por que você não gostaria? Ele é tão legal!
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  Àquela altura Carolina deixava lágrimas fraquinhas escorrerem por suas bochechas. Nicole sentiu seu coração pequeno e a abraçou forte.
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  — Eu não quero que você namore com ele!
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  — Mas… Por que Carol?
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  — Eu quero que você seja a minha mamãe!
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  Aquilo foi um choque. Nicole jamais imaginou que um dia, verdadeiramente ouviria aquilo da menina.
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  — Mas eu posso ser como a sua mamãe, só que não é certo…
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  — O papai me disse isso.
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  Somos amigas, não somos? Eu nunca vou te abandonar pequena! E mesmo se eu namorasse alguém, isso não mudaria o tamanho do amor que eu tenho por você!
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  — Mas você tem que casar com o meu papai!
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  — O quê? — Nicole perguntou confusa, de olhos arregalados e surpresa por aquele tipo de insinuação vindo da criança.
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  — É! Eu perguntei para ele se assim era certo e ele falou que é!
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  — Seu pai disse isso? Seu pai disse que quer casar comigo?
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  — Não. Ele disse que assim você seria minha mamãe, mas que isso não vai acontecer porque vocês não se amam… Como nos filmes. — Ela ficou triste de novo e Nicole recuperava o fôlego pelo susto que tivera.
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  — É Carol. Pessoas se casam porque se amam… Igual à sua tia Rosa, lembra?
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  — Ama o meu papai Nicole! — A menina chorona, implorava olhando para Nic, com seus próprios olhinhos suplicantes e marejados.
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  — Ah pequena… Não é assim que acontece… É… Tão complicado.
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  — O que o papai tem que fazer para você amar ele?
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  — Carol, o amor… É uma coisinha que Deus coloca no coração da gente, não adianta forçar. Entende?
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  — Ah! A vovó estava certa então!
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  De repente Carolina abraçou Nicole que nada entendia, mas mesmo assim ficou tranquila. A criança enxugou o próprio pranto e sorriu como se tivesse entendido algo revelador. Era a primeira vez que Nicole falava de Deus a alguém e ficou feliz, sentiu-se bem. Saiu dali com as coisas “resolvidas” entre sua pequena e ela.
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  À noite, estava em seu quarto com uma pequena mala pronta ao pé da porta e ansiosa pela manhã. Estava, sinceramente, muito nervosa e acordada em sua cama quando bateram à porta.
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  — Entre.
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  — Com licença? — Bernardo surgiu com o rosto à porta e ela se cobriu com o lençol.
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  — Olá, pode entrar.
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  Ele entrou. Fechou a porta e se virou para Nicole sorrindo tímido. Perguntou a ela se ele poderia sentar-se à cama dela e após assentir, Nicole observou Bernardo se aproximar e sentar-se à beira da cama.
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  — Como você está?
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  — Apreensiva.
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  — Não fique… Deus sabe o que faz. — E aquela foi a primeira vez que Bernardo falava de Deus para ela.
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  — É… Deve saber.
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  — Quem não sabe somos nós. — olhou sincero para a mulher e chacoalhou os cabelos de um jeito encantador — Como foi com a Carolina?
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  Bernardo e Nicole quase não se falavam desde o beijo na varanda. Titia ficava os rondando tentando colher alguma pista que explicasse todo o silêncio dos dois, em moldura falsa de paz, mas não obtivera resposta. E naquele domingo, a única vez em que eles se falaram foi pela tarde, antes de Nicole ir até Carolina.
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  — Não foi fácil. — respondeu.
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  — Imaginei que não seria.
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  — Ela pediu minha mão em casamento, por você. — A mulher disse e ele arregalou os olhos, em seguida ambos caíram no riso.
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  — Ela é tão inocente! Acredita em coisas bobas como o amor.
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  — Acredita porque você a ensina.
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  — Não é porque eu não acredito que exista amor sincero entre um homem e uma mulher que signifique que eu vá matar os sonhos da minha filha.
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  — Sim, mas isso demonstra que você espera que exista, do contrário não a deixaria se iludir.
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  — Você fala como se acreditasse nisso também.
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  — Não desacredito Bernardo. Apenas não aconteceu comigo.
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  — E o Lucas?
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  — Eu achei que fosse, na época, mas… Aquilo não poderia ser amor. Por favor! Se o amor for aquilo, faço questão de alertar a Carol! — riram juntos de novo.
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  — E o Gabriel? — Ele perguntou e então se entreolharam duvidosos.
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  — Não é esse tipo de amor. Pelo menos ainda.
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  Nicole ficou estranhamente sem graça de responder àquela pergunta, e um silêncio breve se fez ali.
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  — E você Bernardo? Por que não acredita no amor?
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  — Eu acredito no amor, só não sei se existe amor entre homem e mulher da maneira que nos fazem acreditar… Eterno. — Ele levantou, respondendo enfático em poucas linhas e a perguntando: — Que horas você vai amanhã?
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  — Sairemos as três para a rodoviária, o ônibus sairá três e meia.
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  Bernardo e Nicole focaram os olhos um do outro, num ar perdido, ela estava sem ação com a reação resistente de Bernardo. De repente, a figura do homem se transformou por uma simples pergunta.
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  — Ele vem buscá-la?
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  — Gabriel? — Ele fez que sim com a cabeça — Vem. Só que voltará amanhã mesmo. Você ainda vai?
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  — Vou. Comprei passagens no mesmo horário. Voo das seis horas. E reservei um quarto em um hotel próximo ao aeroporto. Onde você vai ficar?
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  — DROGA! — Nicole praguejou se levantando rápida e procurando o celular: — Eu nem me lembrei das reservas!
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  — O que está procurando?
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  — Meu celular.
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  Bernardo lhe ajudou a procurá-lo e quando Nicole encontrou o aparelho, telefonou à Verônica, sua amiga, mas a chamada não completava.
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  — Não consigo falar com ela! — jogou o aparelho no colchão, estava nervosa.
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  Caminhou até à janela, abaixou a cabeça e percebeu que se estressar não era a saída.
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  — Vamos manter a calma. — falou para si e virando-se para Bernardo, disse: — Amanhã eu resolvo isso por lá mesmo!
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  — Eu… Posso ver isso no mesmo hotel em que estou.
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  — Não, tudo bem. — Nicole disse saindo de perto dele e passando arredia ao seu lado, mas Bernardo tocou em seu braço com firmeza.
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  Os dois ficaram se encarando silenciosos. Ele olhou de cima a baixo o rosto de Nicole analisando suas expressões. Nic ficou nervosa com aquela aproximação estranha e quando ia pedi-lo para soltar seu braço, Bernardo desviou o olhar para o chão como se acordasse de um delírio, soltando-a:
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  — Fique tranquila com isso. Nós podemos voltar juntos, não vai fazer diferença mesmo… — Um raso silêncio e ela sorriu para ele, sem graça — Boa noite, Nicole.
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  — Boa noite, Bernardo.
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  O fazendeiro saiu confuso, mexendo em seus cabelos e Nicole ficou parada, quase trêmula, analisando as costas perfeitamente esculpidas de Bernardo. Mas o que estava acontecendo? Ela estava ficando louca? Bernardo encostou-se à parede do corredor assim que saiu do cômodo, e apoiou a cabeça de forma cansada olhando para o teto. Em sua mente um milhão de pensamentos aleatórios passavam, e Bernardo buscava entre eles qualquer resposta de que aquilo que estava mexendo tanto consigo era estresse, e não paixão.
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Fim da degustação de leitura.

Para ler o restante da história, você pode adquirir o livro físico [aqui] ou e-book [aqui]. Ou, caso seja assinante do Kindle Unlimited, pode baixar o livro para leitura na Amazon. Por favor, não esqueça de avaliar o livro nas plataformas de compra, e no Skoob.

  Nota final da autora: Olá leitoras. Se você chegou até aqui, eu quero te agradecer por acompanhar essa história. “No Coração da Fazenda” foi uma fanfic escrita em 2012 e finalizada em 2019, que passou por adaptação e reescrita para ser publicada como livro em 2020. Sem dúvidas, foi o meu maior projeto de romance e tornou-se meu bestseller. Se algumas pessoas hoje conhecem “Ray Dias”, a escritora independente, muito é devido a esta obra. Fora aquelas que já conheciam a Ray escritora de fanfics, não é? A ideia de possibilitar uma degustação desse livro pra vocês aqui no site, é não só uma forma de apresentar esse enredo a outras pessoas, como também, de me motivar na publicação da duologia, onde o volume 02 está sendo escrito.

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Lelen

Lucas pode ir pro inferno abraçar o capeta 😀
E eu ainda tô julgando forte o Bernardo, o moço até tenta se ajudar, mas não se ajuda muito não .-.
Eu ainda sou team Gabriel… será que ele vai dar umas mancadas ou o Bernardo vai virar perfeitinho e teremos dois perfeitos disputando a principal? KKKKKK

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