Naquela sexta-feira, Nicole estava na delegacia organizando alguns papéis quando Ângelo ligou, conversaram brevemente sobre as trivialidades de suas rotinas, mas logo o amigo e advogado foi avisando do seu processo:
— Ele é meu ex-noivo. Ele é promotor de justiça, nós estudamos juntos na faculdade de direito, então namoramos. Apesar de um relacionamento de idas e vindas, não imaginei que ele terminaria assim…
Enquanto Nicole e Gabriel conversavam sobre a ligação que a mulher recebeu, Bernardo estava do lado de fora da sala. Havia acabado de chegar para buscar a mulher, mas quando notou pelo vidro da porta que os dois conversavam sorridentes, achou melhor aguardar um tempo, e se colocou a espiar a conversa alheia.
— Achei que eu o conhecia até ele me decepcionar, Gabriel. E ele só vem me decepcionando cada vez mais. Eu até achava que o amava, mas depois de tudo isso, como eu poderia amá-lo? Amor não pode ser aquilo… — confessou ela.
Gabriel afirmou compreendendo os sentimentos de Nicole, que sorriu concordando com o delegado. Bernardo pensou sobre aquilo. Nicole estava dizendo a ele que estava apaixonada? E não parecia ser pelo seu amigo… Ao mesmo tempo, dava a entender que a pessoa em questão não a merecia. Um lastro de ideia descabida passou à sua mente: será que eles falavam dele? Nervoso por pensar aquilo, Bernardo respirou fundo e decidiu que já escutara demais. Bateu na porta anunciando sua chegada.
Gabriel perguntou levantando-se da própria mesa onde estava apoiado. O fazendeiro olhou para Nicole, e depois para o Gabriel, de modo desconfiado e lhe respondeu seco:
Nicole despediu-se com um beijo no rosto do amigo e sendo retribuída num abraço de contentamento, pelas notícias recebidas. Bernardo observou à cena, sentiu a boca amargar e desviou os olhos para a saída da mulher. Logo que os dois ficaram sós na sala, o fazendeiro se aproximou sentando à frente da mesa do delegado, que tornou também a sentar-se em sua cadeira.
— Isso não tem importância no momento. Não estou cobrando reciprocidade dela, por enquanto somos amigos. Mas Bernardo, eu não quero uma situação chata entre nós se eu realmente me envolver com a Nicole, então me responde, por favor… Você sente algo pela Nic?
Bernardo encarou ao rosto sincero e plácido do amigo, de certo modo até cuidadoso, e sentiu a pergunta lhe descer rasgando a garganta no mesmo amargor que sentia momentos antes.
— Eu realmente não entendo de onde você tirou esta ideia absurda! Fique tranquilo Gabriel, eu não sinto nada por ela… E mesmo achando que ela também não sinta por você… Eu espero que você seja feliz.
O delegado assentiu concordando em silêncio e despediu-se em seguida. Nicole aguardava o fazendeiro ao lado de fora da delegacia, sem encontrar onde estava a camionete velha, porém conservada. Bernardo surgiu saindo da delegacia, com uma expressão séria e pensativa. Entrou em outra camionete melhor, maior, mais bonita e cabine dupla, sem se atentar à presença de Nicole, que seguindo o homem e o observando esguio, entrou no carro novo. Quando Nicole fechou a porta e afivelou o seu cinto em silêncio, Gabriel surgiu próximo à janela ao seu lado.
Bernardo arrancou, deixando claro o quanto estava irritado. Nicole observou aquela reação dele um tanto quanto assustada pela arrancada, e curiosa. Em seu tom irônico perguntou:
Ele nada respondeu. E ao notar que a rispidez estava além do habitual, ocorreu a ela que não fora a conversa dele com o delegado que o deixara daquela forma. Será que Bernardo teria escutado algo sobre a conversa dela? Era possível que ele estivesse a ignorando, por agora saber que a julgou mal e que, estava errado aquele tempo todo sobre ela, com suas ideias desconhecidas e inteligíveis a respeito dos tais “planos de Nicole”?
Bernardo respondeu incomodado, mas sem perder a marra. Mantinha os olhos azuis quase cristalinos, semicerrados, a encarar a estrada, tentando não olhar na direção dela e perceber o possível sorriso de deboche no rosto de Nicole. Pelo visto, ele havia entendido alguma coisa errada.
Bernardo arregalou os olhos, um tanto surpreso. Varreu suas lembranças como quem buscava indícios daquele homem, e então se recordou da única vez que se lembrava de ter visto Nicole: no velório do tio Rodolfo. E Lucas era certamente o homem que a amparava.
— Jura? Você acha? — Nic zombou: — Engraçado achar isto, já que alguém foi capaz até mesmo de ter uma filha com você. Convenhamos, Bernardo, eu sou muito mais…
— Pois bem, Bernardo! Vamos ao que interessa! Eu sou delegada e estive trabalhando no cargo pouco mais de três anos. O Lucas estudou comigo na faculdade de direito, mas ele já era formado e fazia uma pós-graduação. Nós nos envolvemos, brevemente, mas entre idas e vindas, o namoro ficou sério quando eu já estava na delegacia. Ele trabalhou na mesma DP que eu, e ficou por lá pouquíssimo tempo já que passou no concurso de promotor de justiça. Cerca de uns cinco meses antes de eu vir para cá, peguei um caso investigativo do antigo delegado da minha corporação: o Dr. Rubens Paiva. Ele foi assassinado e o processo ainda corria em investigação quando foi arquivado sem mais, nem menos. Algumas pessoas estavam sendo investigadas pelo desaparecimento das provas do homicídio quando isso ocorreu, e sem explicações convincentes, o caso foi então arquivado por falta de provas.
— Sim. Trabalhou por anos ao lado do meu pai, e quando papai faleceu ele assumiu a subchefia. Mas o caso que peguei não era relacionado ao homicídio dele, e sim sobre um esquema corrupto envolvendo o narcotráfico no qual ele estava prestes a descobrir tudo. Infelizmente, antes de fundamentar as provas e depoimentos, ele foi assassinado. Eu tive que continuar de onde ele parou… O que me remeteu a buscar antigas declarações e testemunhas, mas tudo desapareceu dos arquivos policiais e as principais testemunhas estavam mortas. Com isso, eu tive que me debruçar no assassinato dele para tentar entender e ligar os fatos. Trabalhei, incansável, dia e noite nisso! Até que constatei que três pessoas ligadas ao poder judiciário estavam envolvidas no crime. Duas eu consegui identificar e prender: um juiz e um delegado de São Paulo. A terceira pessoa ainda era um mistério. Com esses dois cúmplices descobertos e o depoimento deles, eu teria as provas necessárias para fechar ambos os casos, mas faltava o terceiro nome. E quando eu consegui uma bússola para onde apontar, fui afastada do inquérito por uma calúnia ridícula!
Enquanto dirigia atento à estrada, ora ou outra, Bernardo olhava para Nicole, que permaneceu contando tudo com olhar firme à frente, como se estivesse revendo as cenas narradas. A curiosidade, logo foi instigada nele:
— A quadrilha lucrava com a exploração do narcotráfico apreendido. Eles apreendiam as drogas e as distribuíam para o tráfico de outras capitais. Um ciclo que nunca acabaria se alguém não interviesse. Rubens Paiva interviu, mas não chegou ao fim e os integrantes ficariam cada vez mais ricos. Então eu assumi o caso e redescobri tudo, já que os caminhos do Paiva foram apagados. Só que o mandante da facção, o terceiro elemento que era essencial, eu ainda não consegui garantir a certeza. Quando a minha mente apostou em um nome, fui acusada de estar envolvida, de ser a mandante e que tudo não passava de um plano meu para despistar as investigações. Acusada pela mesma quadrilha, suponho. Provas contra mim, foram implantadas e agora estou sendo investigada. Só não fui presa porque as provas iniciais foram descartadas por não serem contundentes. Mas ainda assim, geraram um inquérito sério e o juiz decidiu me afastar até segunda ordem, e o processo que eu investigava foi paralisado. O terceiro nome agora deve estar muito bem… Em seu iate de luxo rindo às minhas custas!
A voz de Nicole transpassava toda a raiva e injustiça que ela sentia. Bernardo notou aquilo, e arriscou perguntar, imaginando que ela já tivesse a resposta do tal envolvido:
— Isso tudo é muito louco e muito sério! — Bernardo soltou um muxoxo e logo, sua paranoia se fez presente: — Pessoas morreram por se envolver nisso e você também pode morrer, ou pior, podem atingir quem estiver perto de você!
Bernardo, à medida que ouvia a tudo aquilo, dirigia tenso e mantinha os olhos arregalados, como quem maquinava em sua mente as possibilidades daquela história terminar muito mal.
— Nicole, deixa de ser burra! Se forem pessoas de dentro da sua corporação, as envolvidas… Saber onde você está é o de menos. Você não deve satisfações à lei?
Nicole o observou e repensou no que diria. Bernardo agora parecia muito mais preocupado ao volante e muito mais irritado pelo fato da mulher estar em sua convivência. A verdade, é que ele estava irritado não com ela, mas por ela estar correndo aquele risco todo. No fundo, Bernardo não sabia de onde vinha a sensação, mas acreditava naquela verdade que a própria defendia sobre ser inocente. E certamente, aquilo era algo que ele não pretendia contar a ela.
— Bernardo! Escuta! Relaxa ‘tá? Tem gente da minha confiança rastreando todos os que apontei. Dois estão sobre custódia e o Lucas… Se for ele, ele não poderá fazer nada!
Bernardo diminuiu a velocidade do carro, parando-o no acostamento da estrada de chão, perto da cerca, e enquanto a poeira baixava, a encarou, atento ao que a mulher ainda diria.
— Eu não vou deixar nada acontecer à sua família! Eu prometo. Eu não viria para cá se não tivesse a certeza de que ninguém iria me encontrar, ou interferir nas suas vidas. — A mulher relatou de modo firme.
Ele a ignorou e voltou a dirigir. Nicole estava confusa. Se não era pela desconfiança da sua relação com a polícia, por que Bernardo tinha um pé atrás com ela? Nicole podia jurar que ao ouvir toda a história, Bernardo compreenderia os motivos por sua vinda à fazenda… Contudo, ele ainda a encarava com olhares de desconfiança. Pela sua paz interior, Nicole precisaria entender o que havia de errado interferindo na sua comunicação com Bernardo. Já levara tempo demais aceitando aquela relação desrespeitosa e infantil entre eles.
Ainda naquela noite, Ângelo ligou trazendo uma nova e importante informação: na segunda-feira seguinte, às oito horas da manhã, iniciaria o primeiro julgamento do caso de Nicole. Embora estivesse nervosa e apreensiva, ela precisava se manter firme psicologicamente durante o fim de semana. Quando telefonou para Gabriel o avisando que iria se ausentar por conta de seu julgamento, o amigo prontificou-se a ir com ela. E no jantar, após Carol sair da mesa, Nicole chamou Bernardo e titia para conversar.
Bernardo se levantou do sofá e lhes deu às costas, indo em direção às escadas. A verdadeira razão para ele querer ir, se relacionava ao fato de que, Bernardo não queria Gabriel ao lado dela porque sabia que o delegado a ampararia. Assim como, reconhecia que não seria ele, quem poderia a proteger ou demonstrar apoio. Mas só de estar perto, garantir que nada aconteceria com a impetuosa delegada, e, ao mesmo tempo, aparentemente, frágil vítima, Bernardo se daria por satisfeito. Como era sabido que Nicole o negaria à sua presença, ser rude daquela forma, foi a saída que ele encontrou. Por mais que se fosse gentil e sincero, ela não tentasse o impedir, na cabeça de Bernardo, agir diferente seria assumir a atração que ele já aceitava sentir por ela.
Nicole encarava a figura do homem se afastando, com incredulidade e raiva, estampadas em seu rosto. Mesmo após ter se exposto a ele, o babaca continuava agindo daquela forma. Tempestiva, ela o seguiu explodindo antes que ele terminasse de subir os degraus:
— Sabe por que eu quis falar na sua presença? Para que você e sua mãe, soubessem sem a Carol ouvir e demonstrar alguma consideração por esta sua… Esta sua má acolhida por mim! Mas eu não me importo nem um pouco com o que você pensa! Eu me preocupo com a Carolina que é muito nova para entender e com a titia! À titia, sim, eu devo explicações! Porque ela, sim, me abrigou nesta casa de peito aberto! Vá se ferrar Bernardo! Eu te odeio, seu estúpido!
Nicole despejou de uma única vez, às costas dele. O homem engoliu a seco as palavras dela, sem se mover ou reagir. Esperou que ela terminasse seu desabafo e então, inspirou ar enchendo os pulmões, soltando as mentiras, que lhe doíam dizer:
Bernardo, que já estava subindo novamente, parou no último degrau, com as mãos na cintura respirando fundo. Como poderia não pensar que o delegado amigo, além de se convidar a acompanhá-la, não iria dispor a ir buscá-la também? Olhou firme para a mulher atrás de si, que tinha o rosto vermelho de raiva e declarou:
Dona Laura segurava um semblante ultrajado e sério, na direção de Bernardo. E descontente advertiu ao filho, que arrogante pôs-se a continuar subindo as escadas:
Nicole suspirou e direcionando-se para o sofá chorava de raiva. Não conseguia acreditar naquela humilhação! Como ele poderia agir daquele jeito? Logo depois de tudo o que ela havia lhe contado? Após ter exposto à calúnia pela qual foi submetida? Bernardo estava sendo um crápula! Sua tia aproximou-se sentando ao lado dela e a abraçou lhe confortando:
— Tudo bem, Nicole. Não dê ouvidos ao Bernardo! Ele não merece estas lágrimas… Olha… Vamos nos felicitar, por quê… Que ótimo que marcaram a data! Agora tudo irá se resolver, querida! Falta pouco!
Assim que sua tia saiu, Nicole enxugou as lágrimas e caminhou até a varanda. Observava a noite estrelada quando o celular em seu bolso tocou, indicando outra ligação de Ângelo:
— Um dos promotores sofreu um acidente, e faltando um à bancada o julgamento teria que ser adiado. Eu não sei como ele conseguiu ser nomeado a suplente, mas… Quero dizer… Sabemos não é? — ironizou o advogado.
— Mantenha a calma, isso não vai atrapalhar a minha estratégia. O juiz seria negligente de não o afastar depois do que apresentaremos. Verônica e eu estamos investigando tudo cautelosamente. A última coisa que você deve fazer é perder a calma!
Nicole desligou a chamada e se direcionou a subir para seu quarto. Ouviu uma conversa um pouco mais alta, porém contida, vindo do quarto de Bernardo e ficou atrás da porta, algo que fazia bastante nos últimos tempos, escutando uma pequena parte:
— Não me importo mãe! Acha justo me fazer passar por isso de novo? — Ele direcionou o olhar para a senhora, que notou um brilho incomum aos olhos dele.
— Não mãe! Pare com isso! A senhora está errada! Eu estou com os olhos abertos e os pés bem firmes no chão, é a senhora quem está criando expectativas inúteis!
Nicole não entendia o contexto da discussão, mas sabia que o assunto era ela. Assustou-se ao sentir, Carolina pegando em sua mão depois de se aproximar de mansinho da mulher.
Nicole ninou à Carolina e as duas adormeceram juntas no quarto da menina. Depois de um tempo, de repente a mulher acordou e foi para o seu aposento. Estava passando pela porta de Bernardo, quando o viu com o rosto afundado nas mãos, chorando como até então não tinha visto. Ao vê-lo vulnerável daquela forma, Nicole quis entrar e perguntar se ele estava bem. Entretanto, sabia que foi melhor ignorar e assim, passou direto.
Já em seu cômodo despiu-se e adormeceu, mas não por muito tempo. Lá para as três horas da manhã, Nic acordou assustada com o pesadelo que começava a ter, vestiu seu robe curto e foi sonolenta até a cozinha beber água. Assim que subiu, mais uma vez, pela porta do quarto aberta, avistou que Bernardo ainda estava acordado, deitado olhando de modo fixo ao teto. Ponderou se deveria se aproximar, e decidiu por bater levemente à porta. O homem se assustou e quando viu a figura dela parada ali, e de súbito sentou-se na própria cama.
Ele a olhava fixamente sem nada pronunciar. Pensava em sua relação confusa e desnecessária de inimizade com a mulher até ali, movido pela insônia que aquela noite lhe causara. E de repente, a razão por sua falta de sono, surgia tão bela à sua porta, quase como uma miragem, ou uma provocação. Nic, percebendo que Bernardo não diria nada, e apenas ficaria a encarando como se ela fosse um fantasma, lhe deu as costas, arrependida por seu ato. Foi para o seu quarto e deitada em sua cama fechou os olhos para dormir, e enquanto pegava no sono sentiu um beijo em sua testa. Um beijo de anjo. Sonhou com anjos lindos naquela noite. E eles diziam enquanto tocavam suas harpas: “seja forte e confie em Deus, as respostas estão próximas”.
Ao dia seguinte, Bernardo estava acordado desde muito cedo e quando Nicole chegou à varanda com sua caneca de café recém-coado, estendeu uma para ele. Ela era gentil com Bernardo, mais do que ele para com ela. E apesar disso, Nicole optava em ser, na maior parte do tempo, gentil. Talvez aquele cântico angelical do sonho dela, significasse exatamente isso: não se importe e siga em frente.
Bernardo quebrava lenha na entrada da casa, vestindo uma camisa branca de algodão fino com mangas compridas, que colava em seu corpo desenhando-o perfeitamente. O suor a fazia grudar ainda mais em seus músculos, já Nicole estava na varanda ainda enrolada no seu cobertor, observando e se perdendo naquela visão. Quando se deu conta daquilo, chamou o homem e estendeu a caneca de café para ele, que se aproximou brando.
— Obrigado. E me desculpe por ontem… Eu não desconfio da sua inocência neste processo. — revelou olhando profundamente nos olhos dela, subindo um degrau da varanda, ficando à altura de Nicole e lhe sendo sincero: — Não mesmo Nicole.
Bernardo suspirou e pegou no rosto de Nic com uma das mãos, e pousou a caneca no cercado da varanda com a outra. Dedilhava calmo e carinhoso o polegar na face dela, e Nicole se mantinha paralisada. Os dois perdiam-se no olhar um do outro, até que ele disse:
Nicole já não respondia por si diante àquele toque, queria respondê-lo já da forma malcriada de sempre, mas Bernardo a desarmou. Passava os dedos aos lábios da mulher os observando:
Estavam próximos, tensos naquela atmosfera de descobertas, e foi inevitável: de novo, se beijaram. Pela terceira vez. Nicole abraçou Bernardo pela nuca e seu cobertor caiu ao chão, revelando a ela o quão fria estava aquela manhã. O homem a apertava deliciosamente em seus braços, de forma segura e livre de todas as barreiras que impunham sobre si.
As barreiras caíram diante as diferentes sensações: o cheiro de lenha e orvalho na roupa dele, o cheiro dele… A umidade da sua pele, causada pelo suor frio que secara com o vento da manhã… Os toques gelados e a barba roçando no rosto fino da mulher… O dançar das línguas e as correntes energéticas de seus corpos causando espasmos… Bernardo puxava os cabelos de Nic, apertava a sua nuca demonstrando a virilidade de suas maneiras, e ela não conseguindo conter nada daquilo, a ele pertencia devagar.
A delegada arranhava as costas do viril fazendeiro por debaixo da blusa e de mansinho, o Sol surgia cada vez mais cúmplice daquele momento desvelando à cena. Bernardo a puxou ainda mais para perto de seu corpo, e em passos lentos, a empurrou até a parede da varanda. Ergueu o corpo dela, colocando-a como uma flor delicada em sua cintura. Nicole sentia que a qualquer momento perderia as forças restantes que ainda se mantinham dentro de si, para lutar contra tudo aquilo. E de repente, reuniu o pouco de sanidade desgrudando os seus lábios e o encarando assustada.
Bernardo levou as mãos à cabeça sacudindo seus cabelos, e escorou um braço livre, estendido na pilastra da varanda, que sustentava ao telhado. Ficou alguns minutos ali, extremamente confuso e revoltado por tê-la beijado de novo. Por que era tão difícil resistir a ela? Por que ele se sentia como um garoto que não sabia controlar mais seus sentimentos? Pensar em Nicole e nas razões pelas quais a mulher o envolvia tanto, não o levaria a lugar algum, então o fazendeiro voltou ao seu serviço braçal. Com ainda mais ímpeto em descontar as emoções, nos estalos da madeira que rachava.
Nicole, tal como ele estava perturbada na cozinha e pensativa. Bebia a mais uma xícara de café, enquanto sentia ainda os toques de Bernardo em sua pele. Ao notar que não estava lhe fazendo bem remoer o ocorrido, virou um copo de água gelada em um só gole ao sentir seu corpo aquecer. Não era culpa do café. Ela estava em êxtase! E bastante irritada por sua fraqueza. Que loucura adolescente era aquela que estava vivendo?
Com seu cobertor embolado nos braços, saindo da cozinha esbarrou em sua tia, mas não a disse nada. Nicole nem respondeu ao “bom dia” da senhora, de tão zonza que estava. Direcionou-se a tomar banho e se preparar para o dia que se iniciou. Só conversou devidamente com a matriarca, quando a encontrou à mesa do café.
Nicole se sentou lateralmente à sua tia e de frente para a porta dos fundos, onde Bernardo tomava uma “ducha” no banheiro improvisado do quintal. Não notou, mas passou o café inteiro observando o homem e Dona Laura percebeu. Quando Nicole deu-se conta, de que Cora olhava para onde ela tanto fitava, disfarçou encarando ao próprio café como quem não quer nada. Bernardo passou pelas duas na cozinha sem falar nada e sem camisa também. Ato infeliz! As marcas avermelhadas das unhas de Nicole ainda estavam em suas costas, e a mãe dele, apesar da idade avançada, não estava cega.
— O que foi isso nas suas costas meu filho? — perguntou e Nicole abaixou a cabeça, pois, se ele fosse burro a ponto de olhá-la antes de respondê-la, sua mãe perceberia o ocorrido.
E calado, Bernardo subiu. Sua mãe, direcionando o olhar para Nicole a observava de maneira amistosa, passando-lhe calma e confiança, mas a sobrinha postiça se manteve silenciosa e indiferente. Sempre mentiu muito bem embora não gostasse, e por não gostar, às vezes era fácil perceber quando ela o fazia. Tia Laura levantou-se recolhendo sua xícara e pratos e antes de levá-las para a pia parou, lançando à mais nova, um olhar de ternura e desafio apoiada na mesa:
Nicole arrumava-se para o seu passeio com Gabriel vestindo a um florido diferente, do tipo que ela nunca usaria em São Paulo. Os ares interioranos faziam-na mudar não apenas as suas perspectivas de vida, mas também a sua crítica à moda. Trançou os cabelos para o lado, a maquiagem era leve e o vestido médio até os joelhos com alças finas, de um verde florido discreto, porém campestre. Nos pés, botas de cano curto, marrom. Também carregava uma bolsa de mão e um suéter branco. Uma aparência simples, confortável e a cara da cidade. Saiu ao corredor esbarrando em sua tia que carregava uma cesta de novelos para o seu costumeiro tricô.
A mulher sorriu dando ao assunto menos importância do que a tia fazia parecer. As duas já desciam as escadas quando Bernardo, que assistia TV com Carolina deitada em seu colo, notou a figura de Nicole. Nunca tinha visto-a tão… Diferente. As roupas mais leves, a aparência simplória, o vestido feminino no lugar das calças e shorts jeans tão metropolitanos… Nicole parecia um souvenir perfeito do cenário da fazenda. Percebeu que ela iria sair, e deu-se conta de que era provável que Gabriel estivesse no meio daquela história. Então não pôde evitar, afinal, Bernardo era mais transparente do que gostaria de soar, sentiu-se enciumado a encarando. Carol ficou deslumbrada por ver a mulher vestida como a própria menina costumava se vestir também, e correu até ela beijando seu rosto.
A pequenina levou uma das galinhas para brincar com ela no quarto e fez a maior bagunça no cômodo! O chão do local era uma mesa posta de milho, farelos, biscoitos, bolo, e ela ainda encharcou o lugar de “chá”, segundo a sua imaginação. Levou uma bronca dupla do pai com um mantra já conhecido de“eu já te falei…”.
— Eu arrumava um jeitinho de ir também. O papai deixava, se soubesse para quê eu ia! — Carolina falou de braços cruzados e fazendo bico correu para o colo do pai.
Não demorou muito, e Gabriel chegou buzinando. Nicole o convidou a entrar, mas logo se despediram. Carol continuou chateada fazendo companhia ao Bernardo, a birra em forma humana. No caminho, Gabriel e ela conversavam sobre o processo:
— Estou nervosa, eu acredito no trabalho do Ângelo, porém, Lucas é um ótimo promotor de acusação e eu tenho medo. Não por Ângelo, mas pelos argumentos que o Lucas possa usar. Pelas tramoias que ele é capaz de armar…
— Esse não é o problema, Gabriel. Como o Ângelo disse é mais fácil provar a minha inocência do que a culpa de Lucas. Eu sei que não serei julgada culpada, mas temo pela impunidade.
— Faço questão de não aceitar. Até porque você terá que comprar sua passagem de retorno. Lamento Nicole, mas eu precisarei voltar na segunda-feira, mesmo.
O bom humor de Nicole começou a se dissipar, e ficou transparecido por seus trejeitos ao informar aquilo. Mas, logo ela desfez seus pensamentos sobre o homem e Gabriel a encarou surpreso e curioso pela nova informação.
— Me aporrinhou a paciência com um discurso medíocre! Típico dele. — Gabriel analisava-a atenciosamente e ela notou a postura dele: — Por que está me olhando assim?
— Ele consegue te tirar do sério como nada mais que eu tenha visto, até então… E você nunca me pareceu uma mulher explosiva. Pelo contrário. É emocional, mas não deste modo… Só com ele. Quando o assunto é o Bernardo ou você, os dois são duas dinamites.
— Não tenho culpa se ele me provoca! Nada mais me irrita, além é claro, de mentiras e injustiças. É por isso que ele me tira do sério! Ele é injusto comigo.
Gabriel segurou sua mão acariciando-a e sorrindo de uma forma indecifrável, mas meio tristonha. Assim que chegaram ao “local surpresa”, o queixo de Nicole caiu-se em um nostálgico espanto infantil. Gabriel havia a levado para um parque. Um parque! Há quantos anos ela não via nada como aquilo? Provavelmente desde a infância. Os dois jogaram nas barracas de jogos, típicas de parque, dessas que você gasta o seu dinheiro e não consegue ganhar nada que valha a pena, como brinquedo de bolhas de sabão. Nicole também avistou Lúcia nas barracas de maçã do amor. Acenou e cumprimentou-a, mas ela ainda parecia tímida com a sua presença. Depois, o casal foi à roda-gigante, ao carrinho de bate-bate e acabando os brinquedos que lhes interessavam saíram em direção à praça da igreja. Sentaram risonhos em um daqueles banquinhos.
Gabriel a proporcionava alegrias. Nicole se esquecia dos motivos que tinha para chorar com ele por perto. Ele comprou um algodão-doce que os dois compartilharam. E enquanto saboreavam sorridentes como adolescentes, aquela delícia de açúcar que simplesmente desaparece na ponta da língua, um bebê corria divertido em sua frente. Não devia passar de um ano e alguns meses. Os pais, o vigiavam zelosos e felizes. Nicole contemplou aquela cena tão pura, que na sua vida antiga em meio ao tumulto de São Paulo, ela jamais perceberia com o mesmo olhar.
— Como a Carolina… — Ela atestou olhando para ele, distraída — Você me julgaria louca se eu lhe dissesse que amo aquela pequena como… Enfim, eu não sei explicar! Eu tenho um vínculo tão forte com ela!
— Achei que pudesse ser uma madrinha, como uma mãe para ela. Mas a mãe dela está viva, e mesmo que não a procure eu não tenho este direito. E depois… Bernardo e eu não conseguimos conviver. Não estão sendo saudáveis para Carolina, as nossas desavenças sem motivos, e obrigá-la a presenciar isso com mais frequência é errado e cruel. Acho que mesmo se eu recebesse o posto de madrinha da menina, o Bernardo e eu não iríamos nos dar bem.
— Sei que de alguma forma o vínculo que você tem com a Carolina é forte demais, mas… — disse cuidadoso segurando na mão de Nic: — Vá com calma, Nicole! Ela acha que a mãe morreu e a menina também tem um vínculo forte com você. Qualquer distanciamento entre vocês, por menor que seja, será doloroso.
— Dá. Quase toda mulher reflete sobre isso em algum momento, eu acho. — sorriu — Penso que sua mudança radical de vida engloba também a isso. Talvez seja hora de você pensar no seu futuro, em constituir uma família.
Nicole achou que ele fosse a beijar, mas desde que eles se sentaram ali, Gabriel se tornou tristonho. Ela notou aquilo, mas sabia que ele sempre agia conforme um tempo e um limite que a própria, não entendia. Realmente achou que havia ali, um clima para um beijo por parte dele, e como em outras situações anteriores, ele não o fez. Como amigos, os dois se levantaram e foram embora.
Já dentro da fazenda, após um caminho de conversas descontraídas, mas sem qualquer ligação com a noite que tiveram, Nicole avistou que todos dormiam. Ela e Gabriel desceram do carro e perceberam a luz do quarto de Bernardo, acesa. Nicole estava de frente para a janela dele, mas por sorte não havia sinal daquele ser rabugento.
E finalmente eles se beijaram. Estranho era a palavra que Nicole usaria para definir aquele beijo. Ela não estava preparada, ou talvez esperasse mais, porque não se sentiu como foi com o Bernardo. Sentiu-se louca por pensar no fazendeiro enquanto beijava o Gabriel. Ela soubera que o beijo foi bom, mas faltava algo, e com certeza faltava algo em si, e não no delegado. Os amigos se despediram após aquela demonstração de intimidade, e Nicole logo entrou em casa, rumando para o andar de cima do casarão.
Bernardo estava deitado em sua cama, com uma pilha de papéis em volta e lendo uma revista. Havia trabalhado até tarde, portanto perdera o sono. Viu Nicole passar distraída pelo corredor rumo ao próprio quarto e encarou o relógio de sua mesa de cabeceira verificando a hora em que ela chegava. Em seguida, reuniu suas coisas e foi dormir. Não precisaria mais a esperar chegar, para dormir tranquilo. Ou melhor, quase tranquilo. No domingo à tarde, um dia depois do passeio com Gabriel, Bernardo pediu para conversar com Nicole.
— Que interesse eu teria em ver a minha filha descontente com isso? E depois, eu deixei claro para ela que você tem o direito de escolher quem quiser para namorar e ela não deve se meter nisso, até porque é uma criança. Mas eu agradeceria se você pudesse conversar com ela depois. Ela está… Muito confusa.
Cortava o coração de Nicole vê-la daquele jeito e, ao saber que era ela a culpada por aquilo, Nicole achava justo que Bernardo a castigasse. A mulher pegou as mãos da menina e levantou seu rosto para que Carolina pudesse a olhar.
— Que bobagem! Você é a minha boneca! Nada é mais importante do que você. — beijou a testa dela, mas ela continuou triste — Ainda tem alguma coisa te incomodando?
— Não. Ele disse que assim você seria minha mamãe, mas que isso não vai acontecer porque vocês não se amam… Como nos filmes. — Ela ficou triste de novo e Nicole recuperava o fôlego pelo susto que tivera.
De repente Carolina abraçou Nicole que nada entendia, mas mesmo assim ficou tranquila. A criança enxugou o próprio pranto e sorriu como se tivesse entendido algo revelador. Era a primeira vez que Nicole falava de Deus a alguém e ficou feliz, sentiu-se bem. Saiu dali com as coisas “resolvidas” entre sua pequena e ela.
À noite, estava em seu quarto com uma pequena mala pronta ao pé da porta e ansiosa pela manhã. Estava, sinceramente, muito nervosa e acordada em sua cama quando bateram à porta.
Ele entrou. Fechou a porta e se virou para Nicole sorrindo tímido. Perguntou a ela se ele poderia sentar-se à cama dela e após assentir, Nicole observou Bernardo se aproximar e sentar-se à beira da cama.
Bernardo e Nicole quase não se falavam desde o beijo na varanda. Titia ficava os rondando tentando colher alguma pista que explicasse todo o silêncio dos dois, em moldura falsa de paz, mas não obtivera resposta. E naquele domingo, a única vez em que eles se falaram foi pela tarde, antes de Nicole ir até Carolina.
— Eu achei que fosse, na época, mas… Aquilo não poderia ser amor. Por favor! Se o amor for aquilo, faço questão de alertar a Carol! — riram juntos de novo.
— Eu acredito no amor, só não sei se existe amor entre homem e mulher da maneira que nos fazem acreditar… Eterno. — Ele levantou, respondendo enfático em poucas linhas e a perguntando: — Que horas você vai amanhã?
Bernardo e Nicole focaram os olhos um do outro, num ar perdido, ela estava sem ação com a reação resistente de Bernardo. De repente, a figura do homem se transformou por uma simples pergunta.
Os dois ficaram se encarando silenciosos. Ele olhou de cima a baixo o rosto de Nicole analisando suas expressões. Nic ficou nervosa com aquela aproximação estranha e quando ia pedi-lo para soltar seu braço, Bernardo desviou o olhar para o chão como se acordasse de um delírio, soltando-a:
— Fique tranquila com isso. Nós podemos voltar juntos, não vai fazer diferença mesmo… — Um raso silêncio e ela sorriu para ele, sem graça — Boa noite, Nicole.
O fazendeiro saiu confuso, mexendo em seus cabelos e Nicole ficou parada, quase trêmula, analisando as costas perfeitamente esculpidas de Bernardo. Mas o que estava acontecendo? Ela estava ficando louca? Bernardo encostou-se à parede do corredor assim que saiu do cômodo, e apoiou a cabeça de forma cansada olhando para o teto. Em sua mente um milhão de pensamentos aleatórios passavam, e Bernardo buscava entre eles qualquer resposta de que aquilo que estava mexendo tanto consigo era estresse, e não paixão.
Para ler o restante da história, você pode adquirir o livro físico [aqui] ou e-book [aqui]. Ou, caso seja assinante do Kindle Unlimited, pode baixar o livro para leitura na Amazon. Por favor, não esqueça de avaliar o livro nas plataformas de compra, e no Skoob.
Nota final da autora: Olá leitoras. Se você chegou até aqui, eu quero te agradecer por acompanhar essa história. “No Coração da Fazenda” foi uma fanfic escrita em 2012 e finalizada em 2019, que passou por adaptação e reescrita para ser publicada como livro em 2020. Sem dúvidas, foi o meu maior projeto de romance e tornou-se meu bestseller. Se algumas pessoas hoje conhecem “Ray Dias”, a escritora independente, muito é devido a esta obra. Fora aquelas que já conheciam a Ray escritora de fanfics, não é? A ideia de possibilitar uma degustação desse livro pra vocês aqui no site, é não só uma forma de apresentar esse enredo a outras pessoas, como também, de me motivar na publicação da duologia, onde o volume 02 está sendo escrito.
Lucas pode ir pro inferno abraçar o capeta 😀
E eu ainda tô julgando forte o Bernardo, o moço até tenta se ajudar, mas não se ajuda muito não .-.
Eu ainda sou team Gabriel… será que ele vai dar umas mancadas ou o Bernardo vai virar perfeitinho e teremos dois perfeitos disputando a principal? KKKKKK
Lucas pode ir pro inferno abraçar o capeta 😀
E eu ainda tô julgando forte o Bernardo, o moço até tenta se ajudar, mas não se ajuda muito não .-.
Eu ainda sou team Gabriel… será que ele vai dar umas mancadas ou o Bernardo vai virar perfeitinho e teremos dois perfeitos disputando a principal? KKKKKK
Não vou dar spoilers, mas se o Gabriel dá mancada, saiba que a Nicole dá maiores.