Capítulo 12 • Beijos de Chuva

23 de Maio de 2019

Alguns dias se passaram e Nicole e Bernardo já estavam lidando melhor com o humor um do outro. Depois do que Carolina dissera, titia observava à neta e à Nicole, de um jeito diferente quando estavam juntas, mesmo que a pequena não tivesse mais a chamado de mamãe. Certamente, naquele dia ela tivera um delírio, uma demonstração sonâmbula.
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  Carolina entrou na sala, em uma das tardes pacatas e comuns, arrastando dificilmente uma lata de tinta para madeira, e titia sorria com a cena. Nicole descia as escadas de seu quarto observando aquilo e nada entendia. Apesar de morar ali, há quase três meses, ela não era colocada a par dos assuntos da fazenda até eles serem postos em prática. Titia até falava coisa ou outra, mas como Bernardo tomava a frente de tudo, ele nunca a dizia nada. Na verdade, ele evitava falar qualquer coisa com ela, e nem mesmo direcionava seus olhares à mulher quando era possível evitar.
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  — Olha Nic! As tintas novas para pintar o celeiro! — Carol falou ao ver que a mulher estava presente.
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  — Deixe que eu pego isso, pequena.
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  Assim que se inclinou para pegar a tinta que a criança arrastava, Bernardo que havia surgido sem ela notar, abaixou e pegou a lata de sua mão levando-as para os fundos da casa. Carol percebeu a atitude do pai, mas não disse nada. Apenas olhou para a avó que fez um sinal de “não ligue”. A pequenina abaixou a cabeça tristonha. Chovia, e tentando reconfortá-la das inúmeras cenas intimidadoras que ela presenciava o pai fazer com Nicole, a delegada convidou a criança para lhe ajudar a preparar bolinhos de chuva.
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  Bernardo retornou pelo corredor de baixo e passou por ela e pela filha, calado. Subiu as escadas e titia o seguiu. Carol ficou observando a avó e o pai, então Nicole tomou a atenção da criança para si, guiando-a para a cozinha a fim de conferirem os ingredientes. Ao notar a ausência de aventais ali, Nic pediu para Carolina esperá-la quietinha enquanto ela subia para pegar um limpo no quarto de sua tia. E foi então que flagrou a conversa da senhora com Bernardo enquanto passava no corredor:
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  — Você está magoando muito a nossa, Carol. Há pouco eu fiquei com o coração na mão, ao vê-la se entristecer por você ignorar a Nicole! Não percebe o quanto elas se gostam?
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  — Vou conversar com a Carolina, mãe. Mas, eu não queria que ela e essa mulher se aproximassem assim! Eu tentei evitar. Você também não ajuda, ?
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  — Você não tem que tentar afastá-las!
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  — E a senhora quer que eu faça o quê? Que eu deixe a minha filha suprir a carência materna numa total desconhecida?! — Bernardo perguntou no mesmo tom que sua mãe.
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  — Você sabe que eu não estou falando disso, Bernardo! É claro que a Nicole não pretende ocupar este lugar e não devemos fazer a Carol pensar que sim, mas elas são boas amigas e…
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  — Amigas, mamãe?! — Ele debochou: — Carolina tem amigos dos mais diferentes tipos, desde os patos até aos unicórnios imaginários! A responsabilidade de não iludir aquela criança com fadas madrinhas que não existem, é daquela mulher. E de certa forma, é minha também! Enfim, dos adultos!
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  — Está exagerando! — sua mãe o encarou incrédula, por tamanha proteção e perguntou um tanto dura: — Do que afinal você tem medo, Bernardo?
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  E um silêncio se fez presente. Nicole saiu de trás da porta ao notar que a discussão se engrossava, para não ouvir mais. Tantas vezes ela pensou em fazer suas malas e sumir dali sem se despedir de ninguém… Buscar uma vida nova em outro lugar, ou até mesmo, retornar para São Paulo e recomeçar de qualquer forma.
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  Até porque, não havia sentido em ficar ali. Aquela não era a sua terra, o seu lar. Todavia, Nicole sentia que seria ingrata com titia ao fazer isso. Seria monstruosa com Carolina. E indelicada com Rosa, Marcelo e até com Gabriel que também estava sendo um grande amigo. O delegado foi até a fazenda convidá-la para passear umas duas vezes e ela havia aceitado. Ele era divertido e sempre cavalheiro. Carol não gostava de vê-los juntos e chegou a fazer pirraças. Puxou ao pai. E depois de Nicole conversar com ela algumas vezes, as pirraças foram diminuindo, mas a menina sempre deixou claro que não queria que Nicole namorasse o Gabriel.
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  Aquele parecia ser o futuro entre Gabriel e Nicole, afinal, titia, Carolina, e as pessoas da cidade se indagavam sobre os dois, como se eles não tivessem outra opção a não ser se envolverem. Mas na concepção de Nicole, as pessoas daquele lugar levavam muito a sério, aquela história de namorar. Ela não poderia ter um amigo? Era só a verem com ele e ela já estava namorando? Nicole não deu importâncias aos comentários, na verdade, evitava ouvi-los e Gabriel também era tão mente aberta quanto ela e não ligou para as más-línguas do interior.
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  A cada dia que passava, a cada hora, minuto e segundo, sem informações do seu processo, a cada dia mais distante dos resquícios da sua vida de São Paulo, Nicole ansiava por novos ventos.
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  Não bastava estar ali na fazenda, Nicole não sentia que a sua vida tomou um rumo. Ela ainda se encontrava em um estado de respiração, com ajuda de aparelhos. Não se sentia pronta para respirar fundo, aliviada. Seus antigos amigos, onde estavam? Ângelo, Marcos, Verônica e Samuel eram os únicos que ela ainda tinha algum contato. Eram seus amigos de faculdade, trabalharam juntos e eles estavam ajudando no seu processo, mas fora isso…
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  Onde estavam os vizinhos que sorriam para ela, todas as manhãs ao sair do prédio? Onde estavam aquelas amigas do barzinho? Onde estavam os antigos colegas de escola? E o colega de andar, do número 306 que sempre lhe pedia emprestado um pouco de açúcar? E o carteiro que sempre foi tão simpático? O dono da mercearia, do horto, fruta, o farmacêutico, o dono da pizzaria, o entregador de pizza e, todos aqueles amigos que ela achava que fez ao longo da sua trajetória? Onde estavam todos? Só sobraram: Ângelo, Marcos, Samuel e Verônica? Em que ela havia errado? Ela tivera mesmo outros amigos?
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  Convivendo naquela cidadezinha na qual todos se conheciam desde as fraldas, Nicole percebeu o quanto sempre estivera só. E notou que, até mesmo ali, naquele ovo chocado em um só ninho, as pessoas não eram tão amigas quanto deveriam. E os seus namoradinhos de infância? E os seus namoradinhos de adolescência? E o seu primeiro amor? E seu ex-namorado, aquele que ela abandonou por causa de Lucas? Ah! E o Lucas… A vida se vingaria por ela? Ou não adiantaria nada se poupar de sujar suas mãos? Nicole chorou.
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  Chorou tantas noites e dias! Amanheceu em lágrimas muitas vezes diante àquele paraíso natural à sua janela, que por outras vezes, chorar se tornou um ato involuntário. Seus olhos o faziam por si só, sem comandar ao seu coração. Ela pranteou até mesmo quando se sentia feliz. Chorava por compulsão. Chorava automaticamente. Tornou-se uma manteiga derretida como nunca havia sido. Nada ali lhe arrancava um sorriso, com exceção de Carolina. E quando por fim percebeu que Gabriel também conseguia lhe tirar um sorriso ou dois, sinceros, foi que descobriu quase o caminho para uma nova vida que ela tanto esperava. A chance existia. O Gabriel existia. A Carolina existia. Nicole soube então que era hora de tentar cuidar daquelas sementes para que elas florescessem.
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  Ainda havia Bernardo, reticente, covarde e suspeito sobre julgamentos a ela, atrapalhando-a em semear uma relação sólida com Carolina. Mas Nic percebeu que Bernardo mais ladrava do que mordia. Ele gostava de dizer que a queria longe, que não gostava que ela alimentasse as tais “ilusões” na mente da filha… Mas o que ele havia feito, até então, para impedir aquilo ou a afastar, além de ameaças e terrores psicológicos? Enquanto pegava os aventais, Nicole percebia uma informação nova, após ouvir sua tia conversando com o filho: Bernardo estava com medo de Nicole. Mas, por quê?
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  Carolina e ela fizeram os bolinhos de chuva, comeram com leite quentinho debaixo de cobertas, assistindo aos filmes infantis que ela adorava. E Nicole naquela tarde não mais viu ao Bernardo, não porque ele não estivesse lá, mas porque ela não quis e evitou ter que vê-lo.
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~♥ ~

  No dia seguinte, a chuva já havia se distanciado e o sol secou a umidade de uma forma que não ficaram vestígios nenhum do mau tempo. Bernardo quando acordou, ao ver Nicole sentada à cozinha, pegou sua caneca de café e saiu. Dessa vez nada do cordial “bom dia”. Arrumou-se socialmente, saindo logo após eles terem, em silêncio, cuidado dos afazeres da fazenda.
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  A noite passada tinha sido mais uma das muitas noites mal dormidas que Nicole tivera, por isso sentia sua cabeça pesar. Depois que Bernardo acabara de sair, tia Cora acordou e surgiu perto dela, na varanda, e a cumprimentou. A jovem sobrinha respondeu sem tirar os olhos do horizonte matutino. Perguntava àquele horizonte se ele teria algo sobre o seu destino a lhe dizer, mas ele sabia guardar segredos.
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  — Sabe onde está o Bernardo? A cama dele está feita. — Sua tia perguntou surgindo à varanda.
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  — Levantou-se cedo, vestiu uma roupa social e saiu sem nada dizer.
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  — Ah claro, a reunião! Ele tem uma reunião importante hoje… Ele tratou dos animais?
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  — Sim. Eu o ajudei.
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  — Hm… Sabe, talvez uma terapia hoje pudesse afastar estes seus pensamentos confusos.
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  Era notório que, aquele era outro dia triste para Nicole, então titia observadora como era, pensava numa forma de desanuviar os pensamentos e estender um pouco de brilho ao rosto de Nic.
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  — Talvez um pouco do seu tricô pudesse desemaranhar os nós dos meus pensamentos…
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  — Fique à vontade!
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  — Estou brincando tia, eu não sei tricotar. — Nicole fez uma cara indiferente e avistou as latas de tinta ao lado da entrada da casa: — Essas tintas estão ali para quê?
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  — Bernardo deve pintar o celeiro hoje.
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  — Eu posso fazer isso?
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  — Tem certeza?
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  — Absoluta! Se há algo que eu amo fazer é pintar, e… Bem, celeiros não são como as telas, mas seria uma boa distração!
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  — Está certo então. O material está todo lá.
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  Ela vestiu uma roupa velha e surrada, em seguida pegou as latas e as colocou no carrinho de mão indo até o celeiro. Começou pintando o topo, mas as telhas precisavam ser trocadas, então Nicole deixou o beiral do telhado para depois.
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  O Sol subia tímido enquanto a mulher pintava, e lá de cima ela pôde observar o astro descolando-se do horizonte devagar. Não percebera as horas passando enquanto pintava, pois, escutava seu velho MP3 que encontrou perdido na mala. Naquele momento, o Sol queimava sua pele e Nic cantava altíssima a música “Luz nos olhos”, na voz de Nando Reis. Ela amava aquela canção, embora Lucas tenha-a dedicado para ela no dia que a pediu em namoro. Quando Nicole escutava as suas canções favoritas ela se desligava de tudo! E desligou mesmo. Pincelava e cantava gritando! Até que tivera a impressão de ouvir alguém lhe chamar. Nicole pausou a música e olhou para baixo. Era Bernardo, que a olhava espantado e curioso.
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  — O que foi? — Ela gritou.
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  — Desça daí!
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  — Não! Eu estou pintando, não está vendo?
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  — Estou! Mas, não precisa continuar!
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  — Mas eu quero continuar!
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  Ele saiu dando de ombros, esbaforido. Nicole voltou atenção ao seu fone, cantando ainda mais alto quando ele lhe deu as costas. Bernardo olhou para trás e ela sorriu travessa para si. Do alto, ela avistava a varanda da casa e titia lhe acenava de longe. Dona Laura e Carol avistaram Nicole — de um modo desajeitado — dançar, pintar e até mesmo puderam ouvi-la, bem de longe, cantando. Por isso Bernardo, que tinha acabado de chegar foi até a delegada mandá-la descer. Assim que Bernardo chegou à varanda e percebeu o que sua mãe e filha estavam observando risonhas, seus olhos tiveram a visão de Nicole se sacudindo há um pouco menos de oito metros do chão. Imediatamente, tomado por uma preocupação súbita, ele encaminhou-se a tentar tirar a mulher dali, como visto, sem sucesso.
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  — E então meu filho? — Dona Laura perguntou-o.
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  — Ela disse que vai continuar! Mãe, como você deixou essa maluca fazer isso? — Apontou descontente na direção do celeiro e foi categórico: — Eu vou me trocar e dar um jeito de diminuir o tempo dela, sobre aquela escada! Não é bom que ela se arrisque assim!
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  Dona Laura sorriu satisfeita pela preocupação que ele não soubera esconder. Um pouco depois ele surgiu malvestido, com mais uma escada e outros materiais, e se encaminhou na direção de Nicole. Os dois ficaram lado a lado do outro, e a mulher continuou cantando e fingindo que Bernardo não estava ali. Em uma olhada furtiva que deu a ele, o pegou sorrindo da sua atitude, um tanto adorável, de cantar e quase dançar, pintando em uma escada há metros de altura.
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  Aquele pequeno gesto a causara surpresa. Ele sorriu? Sorriu de novo? Sorriu dela? Sorriu para ela? Distraída, Nicole desequilibrou-se um pouco e quase caiu.
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  — Cuidado! — Bernardo lhe gritou assustado.
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  Segurou na escada e passado o susto, continuaram a trabalhar em silêncio. Assim que o raiar alto e forte do Sol surgiu, eles desceram para almoçar. Descansaram após o almoço e depois voltaram ao trabalho. Bernardo levou um rádio de pilha, desta vez fazendo com que Nicole tomasse a atitude dele como amigável. Afinal, ela cantava e ouvia músicas e então, ele levou um rádio na volta… Era um favor, não era? Ou, ela tinha uma voz insuportável. Acabaram de pintar toda a parte da frente e de trás do celeiro em um dia. Era inegável que apesar das diferenças, Nicole e Bernardo faziam bons trabalhos juntos.
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  No fim daquele dia do celeiro tudo continuou na mesma. Exceto pela visita de Gabriel, que foi levar um novo convite de passeio à Nicole, para o fim de semana. Marcaram outra saída de amigos e o delegado não demorou muito a ficar pela fazenda. Ele também queria conversar com Bernardo, mas o amigo passou a evitar Gabriel.
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  — Acho melhor você conversar com ele em outra hora. — Titia sempre dizia a mesma coisa para Gabriel.
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  Já no portão da fazenda, os delegados conversavam, a sós, antes de Gabriel ir embora:
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  — Bernardo está muito incomodado comigo Nicole. E acho que sei o motivo.
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  — Se você sabe, então já é um passo a menos… Mas, não ligue para o seu amigo, ele tem agido assim desde que eu entrei nesta casa. O problema não é você, sou eu. Ele não gosta quando eu me envolvo com as pessoas da vida dele.
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  — De qualquer forma, eu vou abordá-lo! Bernardo precisa parar de ser infantil comigo, com você e com tudo!
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  Os dois se despediram e entrando em seu carro, Gabriel seguiu seu caminho. Nicole voltou para o casarão pensando no que ele dissera: “Bernardo precisa parar de ser infantil comigo, com você e com tudo”. Com tudo? Então ela poderia não ser o problema já que ele era infantil com tudo…
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  Nos dias seguintes os dois trocaram as telhas do celeiro e terminaram as pinturas. Numa das manhãs em que os dois cuidavam dos animais da fazenda, Bernardo chamou Nicole para acompanhá-lo até as montanhas que ficavam nas campinas após o riacho. As montanhas também pertenciam à fazenda, mas ela nunca estivera lá até então. Bernardo a perguntou se Nicole dirigia, e assim que ela o confirmou, o fazendeiro jogou-lhe as chaves da camionete em sua direção.
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  — Vou a cavalo, me siga.
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  — Aonde vamos? — Ela perguntou estranhando.
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  — Ao pasto das ovelhas.
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  Ovelhas? Eram, até aquele momento, os únicos animais que ela não sabia existir na fazenda.
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  — Por que nunca as vi?
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  — Construí uma manjedoura, e elas ficam lá para eu não ter que trazê-las de volta todos os dias.
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  — E exatamente por que vai trazê-las hoje?
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  — Vou vendê-las.
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  — Mas, vai trazê-las na caçamba? Não são muitas? — Ele a olhou como se a mulher fosse idiota.
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  — Não. É que uma delas está prestes a parir.
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  Bernardo colocou uma balsa improvisada, mas muito bem-feita, na caçamba da camionete. E antes de seguir para dentro da água montado em seu cavalo, perguntou:
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  — Nicole! Você consegue atravessar com a camionete?
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  — Acho que sim! — gritou e ele ficou parado com o cavalo observando.
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  Nicole acelerou aos poucos riacho à dentro. Bernardo sabia muito bem o que fazer, ele aguardou a hora que a correnteza corria devagar e baixa para poder atravessar. Mas o carro antes de atingir uma considerável distância dentro da água, parecia agarrar e não seguir. Nicole pediu por ajuda do Bernardo, que lhe disse para dar a ré. Então ela deu a ré, e com o carro de volta para fora da água ele mencionou que ela descesse. Bernardo aproximou-se de Nicole e apeando de seu cavalo, pegou a mulher no colo, a fazendo montar em seu animal. A mulher assustada e insegura observou-o atenta.
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  — Segure firme a rédea, e fique calma. Pode deixar que a Lunia segue o caminho, sozinha. Apenas segure as rédeas para ela sentir que você está a controlando. Entendido?
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  — Tem certeza? Mas, e se ela pegar um pique? — A mulher disse assustada.
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  — Ela não vai. Ela atravessará e eu irei atrás com a camionete. Lunia não pisa por onde tem buracos de areia.
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  Assim foi feito e o carro atravessou direitinho. Bernardo em seguida ajudou Nicole a descer do lombo da égua, e desembarcou a balsa com a sua ajuda. Montou novamente e continuou pedindo para que ela o seguisse.
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  Enquanto dirigia por aquela campina, Nicole se recordava do dia em que os dois tiveram uma breve cavalgada, mas logo foi se livrando daqueles pensamentos. Não ficava muito distante o pasto das ovelhas, passaram por um espaço entre as montanhas e quando chegou ao outro lado, ela desceu do carro. À sua frente estava a manjedoura e algumas ovelhinhas.
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  Enfim, Bernardo apontou para trás: na montanha e em cima dela havia muitos dos animais. Era uma das mais belas cenas que Nic avistou ali, desde então. A mulher, admirada observou Bernardo subir à montanha no galope, pastoreando as ovinas e as fazendo descer. Quando todas estavam próximas, Bernardo e Nicole ficaram parados contemplando aquele lugar incrível. Ela, perplexa. Ao longe surgiu um arco-íris que ele a mostrou.
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  — É lindo. Você tem sorte de morar aqui, Bernardo. — A mulher falou baixinho e os dois se olharam — De onde eu vim, beleza assim não seria possível.
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  Bernardo nada a respondeu sobre isso, apenas disse que deveriam se apressar porque arco-íris era sinal de chuva. Novamente aquela cena de filme se desfez na face dele, voltando à sua realidade agressiva. O humor oscilante daquele homem, para ela sempre seria uma incógnita.
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  O fazendeiro instigou a ovelha prenha que estava dentro da manjedoura, a subir na caçamba e puderam enfim voltar o seu percurso, com ele pastoreando as outras. Quando chegaram ao riacho, Nicole desceu do carro e ficou cuidando para que elas não dispersassem enquanto ele atravessava pequenos lotes dos animais em cima da balsa. Bernardo a ensinou como pastoreá-las e após atravessar com todas ele guiou o carro, a seguindo montada em Lunia, de novo.
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  Nicole estacionou a camionete, um pouco distante da entrada do lugar onde elas ficariam, e assim que ela desligou o motor do carro, ela desceu e abriu a caçamba. A ovelha que estava mais lenta, por causa de sua gestação, levantou aos poucos, e saiu seguindo calmamente as outras, que Bernardo já guiava.
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  O fazendeiro prendeu as ovelhas no pequeno cercado interno anexo ao estábulo central, separando um espaço especial para a ovelha prenha com já quatro meses de gestação. E de novo, os dois ficaram ali namorando, silenciosos, às ovelhinhas que já estavam presas. Aquele silêncio que passava a ser confortável entre eles, mal denunciou o tempo mudar do lado de fora, e a chuva começou a cair enquanto ainda estavam lá dentro. E caiu feroz.
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  Os dois olharam para a porta do anexo, assustados, constatando que haviam deixado o carro aberto. Bernardo saiu correndo e Nicole foi atrás dele e até chegarem ao lugar onde Nicole estacionara, ambos se molharam bem! Entraram na camionete e assim que fecharam a porta, trancaram-se totalmente, subindo os vidros das janelas. A chuva era uma tempestade passageira. Assim, como Nicole também esperava que fosse a situação atual da sua vida.
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  Bernardo avançou o carro com um pouco de dificuldade em direção ao casarão, a visibilidade era péssima de tamanha a quantidade de água que batia no vidro. Os limpadores do para-brisa mal davam conta e um pouco à frente, eles atolaram em uma grande poça de lama que havia se formado, em um buraco no caminho.
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  — Droga! — Bernardo bradava descendo do carro. Nicole desceu atrás dele e a chuva estava forte e gelada.
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  — Entra no carro, Nicole!
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  — Eu te ajudo!
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  Mais uma vez discutiram, e Bernardo a ordenava que voltasse ao carro. Ela encharcada e emburrada, bateu a porta ao sentar-se novamente no banco do carona.
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  — Vamos esperar aqui. — Ele retornou para o automóvel no minuto seguinte — O casarão não está longe, mas não podemos sair debaixo dessa chuva.
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  — O que houve com o carro?
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  — Atolou bem a frente, e a camionete é velha, não tem tração. — Bernardo sustentou uma cara brava.
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  — Tudo bem, a gente tira depois. Você não poderia fazer o milagre de enxergar o breve caminho com esse aguaceiro todo.
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  Por conta da ironia, no tom de voz da Nicole, que já estava novamente irritada pela forma que ele a tratou, Bernardo também se irritou com ela.
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  — Preferia ficar no celeiro, madame?
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  — De qualquer forma, estamos parados aqui.
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  — Você… — Ele murmurou irritado e numa lufada de ar descontente afirmou: — É impressionante a sua capacidade de me irritar!
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  — Idem.
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  Os dois encaravam um ao outro, de forma intimidadora. Nicole batia o queixo de frio e num ato imprevisível, Bernardo tocou seu braço. Ele percorria olhos preocupados à figura da mulher.
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  — Você está gelada.
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  Olhou para trás do banco em que ela estava sentada, e recordou-se de sempre deixar uma jaqueta por ali. Bernardo tirou a mão do braço dela e virou o corpo para a parte de trás do banco, procurando a peça, de modo que os dois ficaram muito próximos. A tensão entre seus corpos era palpável, ele olhou nos olhos de Nicole, mantendo seu semblante sério.
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  — Toma. — disse entregando o próprio casaco a ela.
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  — Obrigada.
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  Enquanto Nicole o vestia, por rabo de olho, ela flagrou Bernardo encarando sua blusa molhada, que marcava seu corpo sinuosamente e percebeu que ele continha uma expressão quase atrevida. Foi pego de surpresa pela delegada, o indagando de forma direta:
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  — Perdeu alguma coisa?
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  — Sabe que você não é de se jogar fora? — Bernardo sorria entre deboche e atrevimento e quando a mulher ia respondê-lo à altura, ele foi mais rápido: — Poupe suas reclamações. Eu estou tirando uma com a sua cara. Eu jamais tocaria em você.
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  — Se depender de mim, nunca mesmo.
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  Nic respondeu e com aquilo despertou o olhar curioso dele, que agiu como se não esperasse por aquele tipo de resposta.
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  — Já que estamos aqui… Fale-me Nicole: conte agora qual é o seu problema com a polícia, senhora delegada.
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  — Eu não vou falar nada a você! Mas, apenas para que você fique um pouco mais tranquilo, saiba que eu sou inocente.
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  — Eu nunca estarei tranquilo enquanto você estiver perto de mim e da minha família.
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  Não suportando toda aquela rejeição gratuita, num ato infantil e com um grunhido de raiva, Nicole o empurrou pelo ombro.
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  — Está maluca?
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  Bernardo bloqueou seus punhos, tentando evitar os empurrões da mulher em seu braço, até que ela se soltou do toque dele e se virou de frente para o homem que estava ao banco do motorista:
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  — Por que, Bernardo? O que faz você me odiar tanto assim? Eu nunca te fiz nada!
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  — Deixe de ser cínica!
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  — O quê? Por quê? Eu não entendo!
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  — Não seja mentirosa! Quer saber? — Ele pronunciou evitando o assunto: — Já falamos um com o outro demais por um dia.
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  Bernardo virou o rosto contra Nic, sentindo-se um pouco sufocado pela presença forte dela, no carro, com toda aquela braveza. O som da chuva cada vez mais forte na lataria da picape também abafava ainda mais a discussão, dando-lhes a sensação de acaloramento.
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  — Covarde! Você é um covarde.
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  — O quê? — Ele virou de frente para ela também, e apoiou seu braço no painel do carro, fazendo-a encará-lo olho a olho e bradou: — E você é uma golpista!
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  — Você é um covarde por não falar na minha cara o que tanto odeia! Não fala por qual razão me odeia, e fica fugindo de tudo! Um belo de um covarde e idiota!
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  — Você sabe muito bem, sua fingida! É claro que você sabe os motivos pelos quais eu não vou te aceitar aqui! Você quer me convencer de que não está nos planos da minha mãe fazer você se aproximar de mim?
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  — Do que você está falando?! Se aproximar? De que jeito? — Nicole não entendia nada do que Bernardo dizia.
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  E naquele momento tenso, marcado por desejos escondidos e uma discussão confusa e sem sentido, um trovão estalou e com o susto Nicole agarrou-se ao braço dele que estava tocando, ainda, o painel do carro. Então, sem saberem como aconteceu, tão repentinamente quanto suas capacidades de armar uma confusão, os dois estavam grudados um ao corpo molhado do outro. Se beijando.
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  E que beijo! Mas, que beijo? Não era para nada daquilo estar acontecendo! Bernardo segurava firme na cintura da mulher, e aos poucos seu corpo estava sobre o de Nicole no banco daquele carro, ambos tortos e quase deitados. Ela o puxava ainda mais para perto de si, e ele puxava os cabelos dela de forma bruta. Até que noutro estampido de um trovão, recobrando a sanidade, Nicole o afastou de si. Os dois ficaram se encarando assustados ao pausarem aquele beijo e nenhum deles sabia o que estava fazendo ao certo.
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  — Desculpe. — Nicole pediu.
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  — Não, me desculpe você. Sei lá o que deu em mim… Eu só estava vendo você assustada e… — A frase morreu, dando espaço para o silêncio.
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  Cada um no seu canto, em absoluto silêncio constrangedor. Estavam acuados. Assustados e surpresos com um ato que mal sabiam querer tanto, mas que se provou desejável. Se antes já era insuportável a atmosfera entre ambos, depois do beijo é que ficaria cada vez pior. Nicole sentia que precisava sair dali. E tentou ir à maçaneta da porta, na tentativa de descer, quando Bernardo novamente a puxou dizendo:
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  — Não ficamos parados aqui nos suportando à toa. Você não vai pegar essa chuva! — Ele bateu a porta que ela começou a abrir, sendo sincero: — Eu estou me sentindo tão péssimo quanto você. Fica na sua e eu fico na minha, a chuva já vai passar.
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  E assim, os dois ficaram parados cada um na sua até a chuva parar. Bernardo ainda sentia um formigamento nos lábios e a quentura dentro do carro, que parecia de repente abafar-se. Nicole recostou-se de olhos fechados na poltrona, tentando evitar o embrulhar em seu estômago e a sensação das mãos pesadas dele em seu corpo. Quando o tempo estiou, o céu aparecera num visual aberto e límpido, e ninguém diria que caiu uma chuva daquelas. Nicole e Bernardo não se olhavam mais, desceram da camionete e foram a pé até o casarão.
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  Titia estava espiando pela varanda, para ver se encontrava sinal do filho ou de Nicole, após aquela chuva torrencial e rápida. Quando ela percebeu o casal se aproximando, sorriu de longe por vê-los bem. Mas, Bernardo nem cumprimentou a mãe ao cruzar por ela, apenas entrou direto para seu quarto e Nicole, parou à frente de sua tia, evitando olhá-lo. Nervosa, tivera que lidar com a especulação silenciosa dos olhares atônitos da senhora, sobre ambos.
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  Tia Cora a analisava da cabeça aos pés e se assustou com o seu estado: a blusa toda encharcada e a jaqueta de Bernardo vestida no corpo dela.
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  — Que chuva louca! Fiquei preocupada com vocês! O que aconteceu?
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  — A picape atolou e tivemos que esperar a chuva.
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  — E estes trajes?
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  — Ah! É que pegamos chuva e ele me ofereceu uma jaqueta que estava no carro.
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  — Ah… E as ovelhas?
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  — Tudo certo. — A mais jovem também não a encarava nos olhos.
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  — Foi só isso mesmo, querida?
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  — Sim. Eu vou subir tia! — disse beijando a face dela e indo em direção ao seu quarto.
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  Enquanto Nic caminhava de cabeça baixa e confusa pelo corredor dos quartos, ela escapou os olhos para o cômodo dele. Bernardo estava em pé na frente da cama, sem camisa e com aquele seu jeans molhado. O homem tinha as duas mãos aos cabelos, quase de modo desesperado. Sem entender o que fazia e o porquê, Nic que observava a cena de modo furtivo, bateu à porta do quarto dele, o chamando a atenção.
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  — Posso?
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  — Entre.
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  — Sua jaqueta… Eu vim devolver.
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  Nicole não fora até lá por causa de jaqueta nenhuma. Ela não sabia o motivo para querer aproximar-se dele depois do ocorrido, mas impulsivamente se aproximou. Bernardo direcionou passos a ela pegando a jaqueta da sua mão, sem tirar suas iris azuis dos lábios da mulher, e fechou a porta atrás dela. Ela olhou para trás, ainda surpresa e perdida. Então, outra vez, ele a puxou colando seus corpos e não obtivera negativa por parte dela, que apenas direcionou as mãos aos ombros dele.
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  Ambos mantinham os olhares curiosos um pelo outro, inseparáveis. Bernardo guiou o corpo dela até a sua cama, onde caíram deitados e aos beijos. Nicole não conseguia encontrar a razão para aquilo estar acontecendo e muito menos Bernardo. Ele era cada vez mais faminto em seus gestos, e o pior… O pior é que os dois estavam gostando daquilo. Percebendo o quanto aquele contato estava a deleitando, Nicole empurrou subitamente o corpo dele com as pernas.
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  O homem a encarou, confuso, sem entender a pausa, mas não a impediu de sair de seu quarto sem falar nada. Bernardo descobriu que queria beijá-la, mas também estava arrependido. Fazendeiro e delegada não sabiam o que acontecia. Deixavam os corpos falarem e quando voltavam à razão, se envergonhavam do feito.
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  Nicole entrou ofegante em seu quarto e tirou a sua roupa também molhada. Deitou em sua cama a fim de aliviar seus pensamentos e adormeceu sem perceber. Bernardo havia trocado de roupa e ido buscar na fazenda vizinha, alguém para puxar a camionete do atoleiro. Por sorte nada foi danificado. A mulher ainda dormia quando bateram à porta do quarto, e escutou, mas ainda cochilava e não conseguiu discernir se era sonho ou realidade. Até que ela sentiu um toque quente nas suas costas frias.
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  — Acorda Nicole.
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  Olhou para trás e era ele. Visivelmente sem graça.
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  — O que foi? — disse fechando novamente os olhos e se virando de bruços.
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  — Minha mãe pediu para te chamar para o jantar.
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  — Ah…
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  — Não vai se vestir? — Bernardo falou em meio a algumas risadas discretas.
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  Então Nicole se deu conta de como estava e pulou da cama em um susto, caindo ao chão.
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  — Você está bem?
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  — Por que entrou aqui se viu que eu estava em poucos trajes? — gritava furiosa com ele puxando o lençol para se cobrir.
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  — Quando eu abri a porta, achei mesmo prudente não te chamar, depois pensei: “Ela vai tomar um bom susto”.
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  — Sai daqui! — murmurou cansativa.
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  Bernardo saiu do quarto ainda risonho. Inexplicavelmente a cada dia perto da mulher, irritá-la era ainda mais divertido. Contudo, ao assim como se pegava rindo por perceber que conseguia atingir Nicole em esferas de ódio estratosféricas, também se sentia imerso em dúvidas. Afinal, se o que ele desconfiava fosse verdade, que sentido teria em Nicole fingir odiá-lo também? Aquele seria o jogo dela? Fisgá-lo por sentimentos intensos?
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  Bernardo preocupava-se com a possibilidade de nutrir qualquer sentimento forte por ela, ainda que fosse ódio. E a pergunta que ele não queria fazer, mas se via cada vez mais perto de uma resposta: Nicole estava conseguindo fisgá-lo? Antes de chegar ao final do corredor, ele chacoalhou a cabeça para não pensar em todas aquelas coisas. Encontrou Carolina subindo saltitante dizendo que iria pegar o Astolfinho, seu brinquedo, “para jantar”.
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  Nicole, tal como Bernardo, estava deitada em sua cama ainda olhando ao teto com expressão perdida. Afinal de contas, o que ocorria com ele? E com ela! Os beijos de mais cedo não saíam de sua memória, e nem mesmo as sensações sentidas. Se pegou refletindo nas inúmeras brigas e na sensação de adrenalina que elas traziam. Nos poucos momentos em que ele surgia como um pai amoroso e filho dedicado, e nem de longe se parecia com o ogro que a destratava. Quando essa visão de Bernardo surgia sob seus olhos, Nicole se percebia desejando fazer parte de tudo aquilo. E ainda havia as recentes memórias da cavalgada…
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  Era definitivo: Nicole Andrade estava se deixando iludir por um romance adolescente que, aparentemente, só existia na cabeça dela. Aparentemente. Porque naquela manhã, o que seria uma “fanfic” estava se tornando real. Ou ela estava se precipitando dentro dos seus próprios desejos.
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  Nicole se levantou, abriu a porta do quarto e olhou de um lado para o outro do corredor. Estava vazio, então pelas pontas dos pés ela foi para o banheiro, só se lembrando depois que a toalha estava no quintal. Carolina saia de seu quarto, cantarolando e ao vê-la, Nicole a pediu que a trouxesse sua toalha. A menina encarou curiosa à Nicole apenas com a cabeça para fora do banheiro, perguntando os motivos da mais velha estar se escondendo.
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  — Eu esqueci de pegar as minhas roupas, Carol. — explicou breve: — Vai lá pequena, por favor. Tia Nic vai deixar a porta entreaberta ‘tá?
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  — ‘Tá! — A garotinha respondeu como uma adulta antes de sair cantarolando, e apontando o dedinho para Nicole: — Mas você não pode esquecer suas roupas, tia Nic! Tem menino nessa casa! Tem o meu papai, esqueceu?
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  — É Carol… Não posso.
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  Levar uma bronca de uma menina de sete anos. Mais uma que Nicole poderia colocar na lista de coisas improváveis de sua vida. Durante o jantar, Bernardo e Nicole não se olhavam, não falaram nada e se limitaram apenas a responder o que titia e Carol perguntavam ou diziam, mas tia Cora olhava desconfiada para os dois. Havia notado algo estranho no ar. Quando Nicole acabou o seu jantar, ela foi a pia lavar a louça e logo titia se aproximou ajudando-a e sondando.
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  — Achei você tão calada no jantar.
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  — Não, impressão sua titia.
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  — Bernardo também estava muito calado.
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  — Bem, ele nunca fala, não é?
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  — Não, vocês dois estavam estranhos. Tem certeza de que não aconteceu nada?
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  — Só o de sempre. Brigas. — Nic sorriu para ela.
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  — Hm… — A velhota suspirou e parou o que fazia olhando pela janela e constatando: — Barulho de carro.
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  As duas observavam pela janela, curiosas até Bernardo surgir na soleira da cozinha com uma expressão irritada.
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  — Visita para você Nicole. — disse irritado e subiu.
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  Gabriel tinha chegado para falar com Nicole, e ela foi até a varanda recebê-lo. Tia Cora também se aproximou e o convidou para um café, mas Gabriel recusou e também não quis entrar. Ele não se sentia mais tão bem recebido, não por titia, mas por conta de seu amigo, Bernardo.
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  Há alguns dias, Gabriel estava saindo da casa de seu tio Tadeu, quando Bernardo chegou para fazer umas entregas na vizinhança. O delegado aproveitou a ocasião para tentar esclarecer algumas coisas:
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  — Bernardo!
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  O amigo chamou-lhe animado e Bernardo buscou a voz conhecida. Encarou Gabriel de forma séria, e tocou em seu chapéu, o cumprimentando, com um aceno e um sorriso fraco. Gabriel levou as mãos à cintura e observou a maneira fria de seu amigo de infância, já imaginando o que se passava. Aproximou-se dele e foi direto ao assunto:
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  — Você vai parar de falar comigo porque eu estou interessado na sua prima?
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  — Vocês dois fazem o que quiserem de suas vidas, e aquela mulher não é minha prima, eu já te disse. — Bernardo respondeu ainda descarregando a caçamba da camionete.
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  — Bernardo, me escuta. — Gabriel pediu se aproximando mais e então obteve total atenção do amigo para si: — Você gosta dela?
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  — Que espécie de pergunta é esta?
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  — Só isso explica o fato de você estar virando a cara para mim, desde o casamento da sua irmã. E só piorou desde que eu tenho saído com a Nicole.
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  Bernardo apertou os olhos e bufou ao cruzar os braços e encarar o amigo.
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  — O que você quer Gabriel? Está buscando a minha aprovação ou algo do tipo? Se for, está perdendo o seu tempo! Eu já disse que vocês fazem o que quiserem de suas vidas.
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  — Não é nada disso. Eu só quero saber se existe a probabilidade de vocês se envolverem, porque estou dizendo que gosto da Nicole e pretendo investir em uma relação com ela.
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  Bernardo recebeu as palavras diretas de Gabriel com tanta surpresa que mal pôde disfarçar, apenas descruzou os braços e retornou ao seu trabalho dizendo para o amigo, com um olhar direto:
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  — Boa sorte.
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  Gabriel encarou o chão e sorriu debochado. Sacudiu a cabeça de um lado ao outro, atestando a pirraça do amigo, e lhe aconselhou antes de lhe dar as costas:
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  — Se continuar fugindo das pessoas Bernardo, sem nenhum motivo plausível… Vai mesmo obrigar a sua mãe a trazer amigos até você.
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  — Eu não estou fugindo de ninguém. — respondeu fazendo o delegado o encarar novamente: — E nem estou me opondo a você, só acho que está cometendo um erro. Você não a conhece.
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  — E nem você. A diferença é que eu estou me dando uma chance de conhecê-la.
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  Bernardo observou Gabriel se afastar aos poucos, e retomou o seu trabalho crente de que aquele assunto não iria muito longe.
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  Contudo, agora, dias depois, estava Gabriel novamente na fazenda para ver Nicole e o fazendeiro não queria assumir, mas aquilo o estava incomodando.
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  — Podemos conversar? — Gabriel perguntou ao ver Nicole lhe sorrindo surpresa pela visita.
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  — Claro.
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  Nicole o acompanhou até o carro dele e os dois encostaram-se à lataria do SUV preto.
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  — Como você está?
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  — Estou bem Gabriel, e você?
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  — Ótimo. Principalmente pelas notícias que tenho.
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  — E quais são?
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  — Primeiramente, ainda está de pé nosso passeio final de semana?
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  — Mas é lógico! — Nic disse batendo o seu ombro no dele, sorrindo.
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  — Ótimo! E agora vamos ao assunto que me trouxe aqui… Nicole, você conseguiu algum emprego?
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  — Nada. Estou começando a ficar desesperada.
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  — Não fique! Você não pode trabalhar na delegacia como investigadora e policial, porque não fez concurso e por ordem judicial não pode exercer sua profissão até segunda ordem. Mas ninguém disse nada em ser assessora de um delegado, ou disse?
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  Os olhos de Nicole se arregalaram em expectativa e admiração. Não havia nada que a impedisse de trabalhar como uma secretária.
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  — Gabriel! — Ela pronunciou num largo sorriso: — É sério? Tipo, sua secretária?
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  — É. Secretária pessoal.
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  Bernardo ouviu os gritinhos animados de Nicole na varanda e foi até a janela de seu quarto bisbilhotar. A mulher havia dado um pulo no pescoço do delegado, o abraçando. Gabriel sorria largamente enquanto Nicole agradecia beijando cada face de seu rosto, numa postura de grande gratidão e animação.
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  — Não precisa agradecer. — Gabriel beijou o rosto da amiga e afastou-se entrando em seu carro, tão sorridente quanto ela: — Pode começar amanhã mesmo! Manda um abraço à dona Laura e minhas desculpas pelo horário.
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  — Pode deixar!
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  Ele deu partida no carro e Nicole encostou-se à janela sorrindo para ele agradecida e o beijou a face novamente. Não queria se envolver com ele de uma forma mais profunda, mas não poderia negar que o delegado estava conquistando um carinho sincero da mulher.
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  Assim que ele saiu, Nicole ficou rodopiando sorridente e de braços abertos no quintal, como uma criança. Ela parou de olhos fechados para o céu e ao abri-los avistou a silhueta de Bernardo na janela do quarto dele, no alto da casa. No mesmo instante, Nicole tirou o sorriso de seu rosto, de forma lenta, e entrou em casa constrangida. Mais tarde, ao ir dormir, a mulher ficou pensando nas palavras de Bernardo: “Você quer me convencer de que não está nos planos da minha mãe fazer você se aproximar de mim?”. E indagava-se sobre o que ele quis dizer com aquilo. Adormeceu depois de muito pensar sem obter respostas. Mas naquela noite, dormiu muito feliz. Nicole só não saberia se poderia assimilar toda a sua felicidade apenas ao seu novo emprego ou se existiria algo além a alegrando.
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  Na manhã seguinte, Nicole acordou leve. O Sol subia fraco na sua janela, mas ela o sentia tão ardente como nunca antes. Talvez não fosse o sol, mas sim, o seu coração aquecido. Nicole estava ardente com a vida, porque enfim algo bom lhe acontecia.
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  Depois de todos os afazeres matinais, ela desceu para tomar café, e caprichou ao se arrumar para o trabalho. Sua tia Laura Coralina notou a expressão animada da sobrinha, e a cumprimentou sorrindo contagiada. E Nicole exalava um tom gentil e feliz, mesmo com a figura de Bernardo à mesa:
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  — Bom dia tia! Bom dia, Bernardo!
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  Nic tinha um sorriso extenso no rosto e Bernardo a encarou curioso por aquela alegria e por seu animado cumprimento a ele.
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  — Aconteceu alguma coisa? Aonde vai? — Titia serviu-lhe o café perguntando.
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  — Trabalhar!
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  — Querida! Parabéns! Que ótima notícia!
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  Bernardo paralisou, quase empalideceu. Ela conseguiu um trabalho? Mas onde? Quando? Agora ela poderia ir embora! Deveria se sentir aliviado, mas não soubera definir o que sentiu.
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  — Finalmente titia! Gabriel veio dar essa notícia ontem!
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  — E vai trabalhar onde por acaso? — O tom rude e costumeiro se fez ouvir pela voz do fazendeiro.
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  — Com o Gabriel. Como secretária pessoal.
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  — Claro! — Bernardo soltou em ironia e bufou irritado.
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  Obviamente a atitude dele causou surpresa tanto na mãe quanto em Nicole, mas todos tomaram seu café da manhã com tranquilidade. Bernardo estava bem-arrumado para visitar um cliente na outra cidade e buscar a nova camionete que havia comprado, e como iria trabalhar, ele mesmo levou Nicole. Durante o trajeto os dois permaneciam quietos, calados e distantes. Numa distância e paz instaurada por eles, no acordo silencioso do constrangimento.
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Lelen

EU ainda quero dar uns tapas na cara do Bernardo, tô errada?
Ele acha que ela tá sendo cínica e fingindo que não sabe o que fez, se fosse eu, esfregava na cara da pessoa kkkkk Agora eu tô curiosa pra aprofundar essa história toda.
Esse morde e assopra entre os dois, dá vontade de chacoalhar e falar “DECIDAM LOGOOOOOO”
Gabriel me tem neste momento, desculpa aí, minha gente HSOIADHOSD

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