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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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NDA

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

🛈

CAPÍTULO 05 • NDA

Tempo estimado de leitura: 47 minutos

  — AQUELA ERA %ERIN% %VANHELSING%? — KAIN DIZ COM UM SORRISO LARGO, EM COREANO, PARA QUE NINGUÉM MAIS ENTENDA ALÉM DE NÓS.
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  Não o respondo. Uma parte de mim ainda está chocado com o desdém da rockstar. O golpe, ainda que acidental, parece reverberar por meus ossos, acompanhado daquela sensação elétrica que ela parecia exalar, acompanhado do choque abrupto. Levo minha mão instintivamente para o local acertado, prendendo minha respiração e franzindo o cenho. Então, há uma frustração gritante; %Erin% acabou de passar por mim e sequer me viu?! Sinto o impulso de estender minha mão para impedir que o elevador se feche, exigir que me reconheça, mas então, ela já foi, o elevador já começou a descer, e deparo-me com meu reflexo. Solto um chiado entre dentes, minha respiração um pouco mais rápida do que gostaria, com o montante de frustração. Balanço minha cabeça, tentando manter o foco claro; foi só uma transa, só uma noite qualquer, não era como se eu não tivesse tido casos de uma noite na minha vida. Mas sempre havia sido eu a passar com indiferença, não? Acho que há uma vingança poética, considerando os corações que parti antes da morte de Suho, elas se sentiriam satisfeitas de saberem que fui eu quem virou só mais um nome na cama de %VanHelsing%.
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  Sou acometido, de repente, por uma estranha incerteza: pela maneira que ela estava gemendo, assumi que havia gostado, mas foi só fingimento? %VanHelsing% era lá assim tão boa atriz? Parte de mim queria acreditar que ela não é, mas então, aquela conversa com Danny, a baterista dela continua voltando à minha mente. As palavras, as acusações, mesmo as expressões era tudo calculado. Sinto minha mandíbula apertando-se, a eletricidade torna-se algo mais quente, mais profundo e perigoso. Aceitei o papel de palhaço, uma parte porque queria ver até onde ia, já a outra porque queria saber como era estar com ela, mas ser esquecido? É claro, ela é uma rockstar, duvido muito que tenha algo que ela não tenha feito ou experimentado antes, em comparação, considerar-me medíocre chega a ser patético, mas imediatamente esquecido? Quando ela ainda estava com minha blusa? Não é apenas um golpe em meu ego doloroso, é um choque de realidade, uma piada ridícula. Sinto um riso depreciativo começar a borbulhar por meu peito, mas o contenho. Passo minha mão por minha face, tentando livrar-me dos resquícios de ressaca que ainda tornam minha cabeça sensível, que fazem minha visão parecer saturada, suscetível a aceitar a absorção de luz mais fácil. Tento aliviar o montante de frustração crescente, mas quanto mais penso nisso, quanto mais lembro-me da maneira com que ela havia me encarado e a forma com que sequer parecia ter me enxergado ao entrar naquele elevador, mais irritado fico.
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  Não sou invisível. Não sou qualquer um. Sei que não, então porque a indiferença dela incomoda? Tsc, perda de tempo…
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  — Aish, se for, não é muito educada, huh? — comento com uma indiferença forçada, abrindo um sorriso torto para Kain, espreguiçando-me languidamente. Meus músculos estão doloridos pela noite, e a sensação é gostosa, se não fosse o amargor da indiferença de %VanHelsing% e a certeza de que ela sequer parecia reconhecer-me agora, talvez tivesse um bom dia. Ouço Kain soltar uma risada forçada, seguindo-me pelo corredor. Os olhos do segundo vocalista do grupo, cintilando com uma pergunta silenciosa que ignoro deliberadamente.
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  — Ela tem liberdade poética para isso. — Min-Hyuk surpreendentemente com sua opinião, projetando-se ao meu lado e dando-me um tapa nas costas, divertido. É um gesto amigável, mas quase me faz soltar um chiado que se projeta em minha garganta, em resposta a sensibilidade da pele que ele havia acertado; as marcas de unhas de %VanHelsing% ainda latejavam, condecorando minhas costas como sua obra de arte pessoal. Agora, questiono-me se for tirar satisfações ela irá fingir que nada aconteceu… — É bem mais impressionante do que achei que seria. Quer dizer, ela é… uau… — Min-Hyuk diz com um quase sorriso, lançando um olhar em direção ao elevador uma última vez, antes de voltar a encarar-me com uma expressão divertida e um olhar especulativo. Não posso dizer por que, mas algo incomoda na expressão de Min-Hyuk, uma coisa era ter Kain comentando sobre %VanHelsing%, ele praticamente comentava sobre qualquer mulher ou homem bonito que se aproximava, mas Min-Hyuk quase nunca tinha um comentário sobre.
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  De todos nós é ele quem leva aquele contrato absurdo a sério. Tão arrisca que suspeitava que já tivesse entrado em celibato sem saber; não que esse seja o problema. Solto um bufar nasalado, lançando um olhar de soslaio para meu melhor amigo, tentando ignorar o estranho aperto que envolve minhas entranhas.
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  — Sério? Já vi mais bonitas. — Não consigo convencer a ninguém, nem a mim mesmo, com aquela mentira, mas não me importo como havia soado. Min-Hyuk estreita os olhos, erguendo uma sobrancelha, e troca um olhar silencioso com Eun-Ho; não gosto do que vejo, então uso Taehoon para divergir a atenção, acertando-lhe um tapa contra o peito usando as costas de minhas mãos, indicando com o queixo para que ele volte a si e continue andando. Empurro-o à frente de mim, mais porque queria um escudo do que qualquer outra coisa. — Você tem que começar a tomar cuidado com as merdas que você faz, cara, sorte que o lugar era privado, mas ainda assim, se o boato sair, não vai cair bem.
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  Taehoon dá de ombros, girando em seus calcanhares para encarar-me, um sorriso torto nos lábios e uma expressão petulante. Os cabelos mais curtos ainda estão desalinhados, apontando para todos os lados como se ele não tivesse se dado ao trabalho de penteá-los, mas ainda está apresentável. A jaqueta de couro que envolve seu tronco destaca a pele pálida, o rosto fino, quase o faz parecer perigoso, mas é o mesmo idiota que me atormentou a viagem inteira para assistir Princesa Mononoke e havia chorado como uma criancinha com o final porque “havia sido lindo” o filme. Acho que dormi na metade do filme e acordei com os soluços de Taehoon.
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  — Você se preocupa demais, irmão — Taehoon diz com um sorriso torto, e lhe lanço um olhar silencioso. Ele dá de ombros. — Se alguma coisa sair, tudo o que a gente tem que fazer é ligar para o seu pai e pedir para que ele dê um jeito, lembra?
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  Kain solta uma risada baixa, desdenhosa.
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  — Isso só funciona com o principezinho aqui, Tae — Kain pontua, mas percebo o veneno em suas palavras. É enviesado, distorcido para soar como uma piada, mas sei bem que seu desdém não é somente pela minha origem. Ofereço a ele um sorriso sarcástico, considerando quando iremos ter aquela briga. Sinto que a tensão pairar, ainda que imperceptível e leve, crescendo entre nós dois. Desde que nos conhecemos, quando influenciei a entrada dele no grupo que Jun-Woo queria criar, Kain havia desenvolvido algum tipo de repulsa velada comigo. Não o julgo por faze-lo, ele era mais próximo de Suho do que a mim, posso perceber que, até uma extensão, ele igualmente culpa-me pelo o que aconteceu, mas Kain nunca deixa de atingir exatamente onde meu ego torna-se sensível. E a pior parte? Apesar do tom de escárnio e desdém que implica enviesado, não deixa de ser verdade. — A gente é outro caso, pé na bunda na hora.
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  — Não tenho culpa se dei sorte de nascer na família que nasci — faço piada, mas a alfinetada contínua ali. Lanço um olhar enviesado para Kain que abre um sorriso largo, afiado, e por um segundo tenho a vaga consciência de que ele iria adorar conhecer %VanHelsing%. Os dois parecem compartilhar ao menos a mesma capacidade de colocar-me em alerta mesmo quando não deveria. A ideia de Kain se aproximando de %VanHelsing% soa perigosa, o suficiente para enviar-me um desconforto que ignoro completamente, focando na tarefa em mãos. — Mas isso não significa que as coisas que um faz não vá resvalar em todos. — Onde está meu prêmio por ser a merda de um hipócrita?
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  Min-Hyuk solta uma gargalhada alta, gostosa, deixando sua cabeça pender para trás, enquanto os ombros tremem debaixo da camisa azul escura; destaca-se em sua pele com uma tonalidade azul escura que mais se parece arroxeada sob a luz que encontramo-nos contrastando agradavelmente com os cabelos tingidos de azuis dele. Forço um pequeno sorriso, ciente do que ele irá falar, mas ainda assim, dói um pouco; sei que deveria ter me acostumado com aquele tipo de reação, nunca fui o filho perfeito dos meus pais, este era Suho, nunca fui o amigo perfeito, este era Suho, nunca fui sequer metade do artista que ele era, mas observar a descrença de Min-Hyuk, ainda que seja uma piada às minhas custas, não deixa de atingir algum ponto sensível de meu ego já ferido. Não importava o quanto tentasse demonstrar minha mudança, não importava o quanto eu tentava acreditar que desta vez seria diferente, de alguma forma, sempre retornava para o mesmo ponto. Nunca saía do lugar. Os céus sabem o quanto tento, mas parece em vão.
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  — Nunca pensei que escutaria você dizer isso, quem é você e o que fez com o %Gray% que eu conheço? — Min-Hyuk provoca com um riso nasalado, dando um tapinha brincalhão em meu ombro, antes de seguir em direção ao estúdio. Obrigo-me a segui-lo, mas percebo-me congelado no lugar. Não é a naturalidade com que ele diz as palavras, é como estas reverberam por meus ouvidos. Um lembrete ativo da descrença que havia conseguido construir com meus erros passados. Chega a ser cômico, se não fosse depreciativo, não importava o quanto tentasse, as marcas de meus erros passados jamais pareciam desaparecer, sequer ficar menos evidentes, ao contrário, a ironia dava-se com o tamanho da profundidade que adquiriam agora.
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  Mas eu ainda estava dormindo com %VanHelsing%, não? Ainda havia bebido quando sabia que não, e ainda podia sentir aquela necessidade ao fundo de minha mente. Pulsando, convidativa, mais do que nunca agora sinto-a pesar; tenho a desculpa perfeita para puxar a primeira garrafa que encontrar e finalizá-la o mais rápido que consigo. Tenho a desculpa para esquecer-me por um momento do oceano que me puxa apenas para baixo. Para esquecer-me dos fantasmas que assombram o vazio e das garras que se fincam em minha mente, arrastando-me de volta para o fundo, onde tenho certeza de que, quando a água invadir meus pulmões, e começar a afogar-me, não terei dessa vez ninguém para me salvar. Um exalo trêmulo escapa por entre meus lábios, baixo, quase imperceptível. Minha garganta está seca, dolorida, e tudo o que consigo pensar é em beber. Não é que o pensamento suma, fica apenas adormecido, ao fundo de minha mente, pulsando como um pequeno arranhão. Na maioria das vezes, é fácil ignorá-lo. É fácil fingir que não estou sentindo nada, ou ao menos atuar com uma indiferença da qual não sinto nem um pouco, mas são em momentos como este que voltam em evidência.
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  Momentos em que não há como encontrar uma forma de escapar de mim. Da culpa que parece enroscar-se mais e mais por minhas entranhas, fazendo-as se contorcer, fincando suas raízes fundo em meus músculos, travando-me no lugar. Ouço a risada nasalada de Kain e sinto o gosto amargo, pungente causado pela bile, escorrer de volta para minha garganta. Tensiono minha mandíbula com força. Kain está certo em culpar-me; se fosse Suho ali
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  — Achei que viriam mais tarde, se soubesse que seriam pontuais, teria ao menos me preparado melhor. — Uma voz grave projeta-se da mesa de som quando atravessamos a entrada do estúdio. — Podem ficar à vontade. — O homem indica em direção aos estofados um pouco mais atrás de sua mesa de som, girando com a cadeira, para voltar em nossa direção. Ele se recosta contra o apoio da cadeira cruzando os braços sobre o peito largo, mas não parece outra coisa senão amigável. É quase um alívio.
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  Não preciso de muito para reconhecê-lo, e tenho minha confirmação quando Kain faz um toque um tanto elaborado para cumprimentar um completo estranho; aquele deve ser Doyle, o produtor. Lembro-me de Suho dizer que havia conhecido o produtor durante uma festa da Pulse em que ele havia sido convidado, não me lembro dos detalhes, não deveria estar sóbrio no dia, mas lembro-me do sorriso largo que Suho tinha em seu rosto; lembro de como falou que o cara parecia ser um gênio, o tipo de pessoa que realmente havia nascido para ser um artista. Daqueles que sabia exatamente o que estava fazendo, o que funcionava e o que não trabalhava bem junto, que parecia ter uma criatividade profunda e uma maneira diferente de enxergar o mundo. Não lembro dos detalhes, mas lembro de Suho dizer que estava ansioso para conhecê-lo. Lembro-me de murmurar algo com indiferença sobre, e apagar no sofá como sempre acontecia. Agora sou eu quem trabalhará com Doyle. Tenho vontade de rir da ironia do destino, mas forço um sorriso agradável, estendendo minha mão em um cumprimento para o produtor.
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  Ele não me conhece, isso é nítido, mas não parece perceber a tormenta que se espalha por minha expressão, se o faz, ao menos é discreto. Puxo um banco que se encontra abaixo da mesa de som, mixagem e gravação dele, sentando-me ali com a estranha sensação de que estou caindo. Em queda livre, só consigo pensar que a única coisa que pode me impedir de atingir o chão é justamente um copo de bebida. Iria ao menos amortecer a queda. Eun-Ho solta um riso baixo de algo que Taehoon diz sobre Kain querer fazer inveja por já ter conhecido o produtor antes. Min-Hyuk puxa um banco e senta-se ao meu lado, lançando-me um olhar tranquilizador, embora sua atenção não demore muito para desvirtuar-se para o sketchbook de anotações de Doyle. Kain se joga no sofá a nossa frente, esticando as pernas sobre a mesa de centro, e apoiando os braços atrás da cabeça. Eu observo Doyle com mais atenção do que deveria.
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  Cabelos bagunçados, desalinhados, mas de um jeito que parece deixá-lo menos como um descuidado, e mais como um rebelde sem causa, o tipo de rebelde que faria sucesso com qualquer mulher que gostasse da estética metaleiro dos anos 80. É um estilo único que possui, a henley preta que se estica sobre seu tronco é simples, mas adornado com os braços fechados de tatuagem, os brincos de ouro nos lóbulos da orelha e o piercing no supercílio esquerdo acompanhado por uma cicatriz o deixa estranhamente estiloso. Olhos verdes intensos, parecem adquirir uma tonalidade mais caramelizada sob a luz amarelada baixa do estúdio. Ele tem um sotaque forte, embora fale de maneira calma e devagar para que Eun-Ho consiga acompanhar sem muitos desconfortos. A maioria de nós é versado em inglês, normalmente cabe a mim ser o interlocutor entre as duas partes, quando não o quero fazer, como agora, é Min-Hyuk que assume o papel. Nós traduzimos o que é mais complicado de compreender e traduzimos de volta para o interlocutor o que os outros membros estavam falando. É cansativo, mas instintivo a essa altura. Isso não significa que todos nós não temos a necessidade de compreender inglês, porque é uma regra rígida da Pulse, parte da preparação e treinamento é ter a certeza de que sabemos nos comunicar bem. Doyle tem um rosto forte, marcado por ângulos intensos, e parece ser exatamente o que qualquer garoto sonharia em tornar-se. O tipo de galã que Hollywood produz, mas de tudo no homem, o que me chama atenção é a lateral de seu pescoço.
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  Um pouco mais abaixo da linha de sua mandíbula, coberto pela mecha de cabelos longos que repousam em seus ombros e costas, encaracolados e desalinhados, percebo uma tatuagem escondida, pequena, familiar. É delicada, discreta, quase impossível de notar, mas evidente se você souber o que está procurando; um beijo. O formato monocromático, baseado em apenas contornos e pontilhados em degradê cinza, se destaca pela pele marrom clara. Estreito meus olhos com a estranha sensação de já ter visto aquela tatuagem em algum outro lugar, tento buscar em minha mente de onde poderia ser, mas meus pensamentos são interrompidos com a pergunta de Doyle sobre nosso processo criativo. Volto meu olhar para os olhos dele, e surpreendo-me com o quão verdes seus olhos são. Solto um pigarro, espelhando a postura dele, cruzando os braços, e esticando minhas pernas para frente. Cruzo meus tornozelos um sobre o outro, tentando conter o impulso de bater a sola de meu pé no chão, tentando aliviar a tensão crescente.
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  — Os hits são criados pela Pulse, nós só seguimos o que é adequado para o conceito do grupo — tento colocar da maneira mais profissional que consigo, a voz arrastada de %VanHelsing% ecoando por meus ouvidos com o escárnio e cinismo enlouquecedor, “Se a piada não se escreve por si mesma”. Odeio que a memória de sua voz faz com meu corpo, como sinto-me em alerta e ao mesmo tempo eletrizado com a mera lembrança de sua respiração contra minha pele, mas detesto ainda mais como ela parece estar certa. Explicar nosso “processo criativo” para Doyle agora soa estranhamente como uma mera piada, é nítido o quão manufaturado nossas ações, até mesmo personalidades e comportamentos eram; não há nada de artístico no que fazíamos. Ocorre-me pela primeira vez a diferença de lugares em que eu, e %Erin% %VanHelsing% estamos; ela pode ser uma femme fatale sem um pingo de consciência, mas suas músicas significam alguma coisa. Poço dizer o mesmo sobre as nossas? — Mas não significa que não tenhamos composições próprias também, na verdade, estamos trabalhando nisso.
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  Doyle assente, o gesto vagaroso, parecendo considerar minhas palavras com cuidado, então ele levanta-se abruptamente. Faço uma careta, inclinando a cabeça para o lado, meus olhos seguindo o movimento que ele faz, leva a mão esquerda em direção à lateral do pescoço, coçando o manto de tatuagens que envolviam seu pescoço. Sou novamente levado a crer que já havia visto aquela tatuagem. Doyle pega um violão de dentro da cabine de gravação, e então retorna, estende-o em minha direção, mas é Kain quem toma para si o instrumento. O movimento atrai meu olhar para a assinatura elegante e afiada que há na madeira do corpo do instrumento, percebo então de o porquê a tatuagem de Doyle me é familiar.
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  %Erin% %VanHelsing% também a tem.
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  O choque imediato envia-me uma onda de tensão, meus ombros latejam com a pressão que coloco neles, mas obrigo-me a afastar de minha mente o desconforto. Pode ser mera coincidência; se fosse popular em qualquer site de imagens era puramente apenas uma ideia genérica que os dois tiveram a infelicidade de fazer. Mas algo a mais na situação que a torna, no mínimo, esquisita. É coincidência demais que %VanHelsing% compartilhasse a mesma tatuagem com aquele cara, estando no mesmo estúdio que ele, compartilhando os mesmos espaços para que assumisse que não havia algo ali. Pior, há significado. Não faço ideia do porquê, mas certamente não apaga o amargor em minha boca, se algo, apenas o faz crescer. Não me cabe saber sobre, e tampouco faz diferença; seja lá qual fosse a motivação, seja lá qual fosse a história que ela parece compartilhar com Doyle, não quero saber. Não importa. Havia sido apenas uma noite, nada mais. Tento afastar os pensamentos, tento focar na tarefa em minhas mãos, mas meu desconforto e frustração estão crescendo.
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  Preciso pensar em alguma outra coisa. Preciso tirá-la do meu sistema, da minha cabeça.
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  Apoio meus cotovelos sobre meus joelhos, inclinando-me para frente e estreitando os olhos para Kain. Há um desafio silencioso ali, uma armadilha da qual não irei cair, mas fico tentado a dar-lhe uma resposta equivalente. Doyle balança a cabeça em concordância, assumindo a mesma postura que eu, indicando para que Kain mostre as composições que Suho e ele passaram noites trabalhando; mesmo que tivesse sido eu a consertá-las posteriormente, não dá para deixar de sentir o montante de frustração crescente em meu peito. Min-Hyuk acerta minha costela com um movimento discreto, lançando-me um olhar de soslaio, uma advertência silenciosa. Porra, hoje não está sendo meu dia. Há igualmente a percepção pessoal que tanto eu quanto Kain possuímos de que somos dois trens descarrilados à beira de um choque. Não posso dizer que aceito suas justificativas, mas não posso culpá-lo igualmente; se Suho estava morto, era por causa de mim, e se Kain odeia-me por ter matado seu melhor amigo, então tenho que lidar com isso pelo resto da vida.
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  Minha garganta contrai, seca e dolorida, e por instinto levo minha mão em direção a mesma, coçando-a. Está começando a ficar sufocante, até mesmo desvirtuando-me de meus próprios interesses e propósitos ali. Se pelo menos houvesse uma bebida por perto, algo que eu pudesse usar para aliviar o peso de minha própria consciência, de meu ego ferido e da minha frustração. Busco com o olhar por algo, mas não há máquinas de venda ali, não tem como eu pedir por um energético ou até mesmo uma garrafa pequena de cerveja sem que Min-Hyuk ou os outros caras percebam. O tempo arrasta-se, insuportável. Passo minhas mãos pelo meu rosto, impaciente, e não tenho certeza se Doyle percebe algo, mas pego-o encarando-me em silêncio. Os olhos estreitam-se por uma fração de segundos, antes de anunciar, uma hora depois, uma pausa.
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  Para minha sorte é nesse momento que Sumi invade o estúdio com passos assertivos e claramente irritada. Não me importo nem um pouco quando ela chama por meu nome com os dentes cerrados, parecendo estar se controlando para explodir, tenho vontade de agarrá-la pelos ombros e beijá-la como se não houvesse amanhã por oferecer-me a desculpa perfeita para sair dali. Para colocar um pouco de distância aquele lugar e a sombra de %VanHelsing%, mesmo que ela não esteja ali. Levanto-me abruptamente, agarrando minha jaqueta e disparo para fora do estúdio, concentrando-me em minha respiração.
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  Sumi é uma figura reconfortante. A conheci ainda quando ela era chamada por um outro nome, e antes de sua transição, mas ela sempre foi, irrevogavelmente, Soo-Min. Quando Suho e eu não passávamos de crianças idiotas, sempre competindo para ver quem teria um pingo de atenção, por menor que fosse, das pessoas que estivessem ao nosso redor; Suho costumava ganhar qualquer adulto com sua postura meiga e mínima ridícula de etiqueta que nossa avó tanto fizera questão que nós aprendêssemos; eu costumava a causar o caos, gritar, desafiar e até mesmo rir alto de qualquer mínima gafe e ridículo que os adultos faziam. Soo-Min, ou Sumi, como viera a ser chamada, era o único ponto em comum que Suho e eu sempre tivemos. Ela costumava trabalhar como assistente de meu pai, mas seja lá por qual motivo, acabou se demitindo quando Suho estava finalizando sua graduação, e eu era adolescente demais para me importar. Dois anos depois ela retornou, seu corpo redesignado para espelhar sua alma, e com um diploma de advocacia finalizado, agora trabalhando em parceria com Jun-Woo. Jun-Woo administra, cria e coloca seu conhecimento da indústria na mesa, e Sumi é aquela responsável por executá-la, e ela é muito boa nisso; encontra os contratos certos, as palavras precisas para que nós não fossemos usados erroneamente. Mais do que isso, é, de certa forma, como uma irmã mais velha — chamá-la de mãe seria correr o risco de levar um tapa por fazê-la sentir-se velha — para nós, a única pessoa que se importava, ainda que minimamente.
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  Sigo-a sem resistência alguma, deixo-a guiar-me para fora da gravadora, atravessamos a rua movimentada, alguns paparazzi se aglomeram um pouco a distância, no estacionamento do restaurante, parecendo determinados a flagrar algum movimento de alguma grande celebridade que entrasse naquele lugar. Vejo-os tirarem uma ou outra foto minha com Sumi quando puxo a porta do restaurante para que ela entrasse, um ato instintivo de cavalheirismo, então abro meu sorriso mais charmoso e aceno para eles, tentando parecer simpático. É uma faca de dois gumes essa situação, ser simpático com um paparazzo é dar a ele a falsa impressão de que há liberdade para se aproximar e invadir uma conversa privada eventualmente, mas recusar-se e ressenti-lo por aglomerar-se ao seu redor só iria os atrair mais. Além disso, não é a minha marca ser mal-educado e agressivo com paparazzi.
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  Há uma reserva no nome de Soo-Min no restaurante, o que faz-me questionar a quanto tempo ela estava planejando o que quer que estava furiosa, mas ignoro completamente o aviso dela para que a seguisse caminhando em direção ao bar, e apoiando-me contra o balcão de mármore polido. Peço pela primeira bebida que posso pensar, whisky on the rocks, peço sem o gelo. Recebo um olhar exasperado do bartender, ciente de que meu pedido distorce o que são normas para preparação dos drinks, mas sem importar-me nem um pouco. Só quero um copo, só isso; não é muito, posso me controlar. Um copo não vai matar-me, não matou ontem, não fará hoje também. Está sob controle. Estou bem.
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  Estou prestes a pedir para que o bartender deixasse a garrafa ali perto, só por desencargo de consciência, quando Sumi agarra meu braço puxando-me para a mesa na área reservada ao fundo do restaurante. A sigo com uma sobrancelha erguida, um quase sorriso surgindo por meus lábios, achando graça. Ela nunca havia sido pequena, mas com os saltos e a carranca, parece-se com uma amazona, elegante, mortal e está bufando de raiva quando me empurra contra a cadeira à sua frente e aponta o indicador imperiosamente em minha direção com um aviso silencioso — estou ferrado. Os cabelos pretos, longos e lisos, estão penteados para trás cheios de gel que dá a impressão que ainda estão úmidos, deixa o rosto livre para a maquiagem suave que usa, apenas para realçar seus olhos e nariz arrebitado. As sobrancelhas angulosas estão unidas, evidenciando sua falta de controle para a raiva que parece exalar de sua postura. O vestido elegante, preto, executivo parece ser composto por alfaiataria cara. Deveria ser novo porque nunca a havia visto com aquele antes, e certamente não havia em sua mala. Quando ela tivera tempo para comprar aquele vestido? Meu sorriso diminui um pouco, incerto, quando ela joga a papelada que carregava com violência sobre a mesa.
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  É um grande bloco de papel, mas ainda escapa da minha compreensão a razão para sua frustração e nítida raiva comigo devido àquilo. Tento conter um revirar de olhos, levando o copo em direção aos lábios e bebendo o whisky em um único gole. Solto um suspiro pesado, quase me arrependendo da velocidade com que bebi, sentindo aquele calor familiar percorrer por meu corpo, o álcool queima, é claro, minha garganta, mas a sensação de alívio relaxa meus músculos, amortece um pouco meus pensamentos e deixa minha cabeça mais leve. Apoio o copo sobre um dos pratos, inclinando-me para frente, para tomar em mãos os papeis e encontrar algum sentido naquela situação toda.
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  Soo-Min não se senta, o que me diz de imediato que há um jogo de poder acontecendo agora. Pela maneira com que ela me encara sei que fiz alguma merda, a acusação é nítida o suficiente para que ela não tenha tomado de minhas mãos o copo de bebida, ciente do porquê o deveria fazer, tento buscar em minha mente o que diabos poderia tê-la feito se irritar dessa forma, mas não encontro nada, não era como se eu… congelo no lugar, meus olhos quase saltando das órbitas. Porra…
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  — Explica! — comanda Soo-Min, furiosa.
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  As palavras somem de minha boca, meus ombros se tencionam mais uma vez, e o efeito letárgico da bebida, que deveria ter servido para aliviar o peso em meus ombros e silenciar minha mente, prende-me no lugar; mistura-se com o alerta que ela havia despertado em mim, acelera os batimentos de forma irregular, prende-me em um limbo desorientador de perigo e a certeza de que estou prestes a ter que lidar com as consequências de minhas ações. Levo minha mão em direção a minha boca, a fim de abafar um praguejar em alto e bom som, ciente de que uma hora ou outra ela e os caras acabariam descobrindo sobre o que fiz, mas torcia para que fosse mais tarde, quando já estivessem longe daqui e a memória fosse apenas uma piada. Não assim. Pego o amontoado de papeis, piscando algumas vezes para conseguir focar-me naquilo, e tento ler; as palavras dançam um pouco por meus olhos, e sei que não é a bebida que causou tal reação. Posso sentir o aperto crescente em meu peito, as palmas de minhas mãos parecem ser feitas de gelo, um tremor está crescendo e percebo que, acumulado com a situação de mais cedo, o desconforto com Doyle e sua maldita tatuagem, estou tendo um pico de ansiedade e isso não é a pior parte.
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  O garçom que nos atende oferece vinho para Sumi, e ela não impede-me quando pego o copo para mim. Viro a taça de uma vez, e praguejo mentalmente, aquela merda, embora amarga ainda era fraca demais. Preciso de algo mais potente, algo que pudesse ajudar-me a escorar minha própria ansiedade com. Leio as palavras, mas só consigo pensar em %VanHelsing%.
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  Um contrato de confidencialidade.
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  Estava me questionando qual seria a jogada dela. Estava calculando que talvez pudesse ter até mesmo fodido um pouco de simpatia por mim nela, mas não. Não cheguei nem perto. Passo pelas páginas recheadas por jargões jurídicos e apontamentos precisos. Percebo que não deve ser a primeira vez que ela havia feito aquilo; quer dizer, %Erin% %VanHelsing% é a porra de uma rockstar não é? Ela deveria ter feito muita merda e ocultado com um contrato de confidencialidade. A oferta de dinheiro não é pequena, pelo contrário, chega a ser até mesmo generosa, e se a desgraçada tem todo aquele montante para oferecer em um simples contrato, então… o quão poderosa é %VanHelsing%? Até onde o poder de sua influência e seu dinheiro vão? Deixo os papeis caírem outra vez sobre a mesa apoiando meus cotovelos sobre a madeira polida e laminada, antes de enterrar meu rosto em minhas mãos. Puta merda… esfrego com as pontas de minhas unhas meu couro cabeludo, sentindo-a deixar pequenos cortes pela pele sensível, mas ignoro a pequena ardência que se espalha.
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  Ela havia avisado. Fui eu quem a subestimou. Porra! Isso não pode estar acontecendo; mas está, e a pior parte é não poder resolver isso da minha forma, comigo mesmo. Se não tivesse sido tão estúpido, se não tivesse aceitado aquela maldita fantasia. Mas eu tinha que envolver-me em problemas, não? Não deveria ter bebido ontem, se não tivesse começado, não teria cedido tão facilmente a %VanHelsing%. Mas então, era %VanHelsing% ali; a porra de %Erin% %VanHelsing%, um sonho inalcançável para muitos que eu quis saber que gosto tinha. E era bom, bom demais para ser verdade. Não tenho como escapar dessa, não tenho como dizer que ela inventou aquilo porque há provas claras de que não é mentira. Odeio-me por ter acreditado que talvez, por trás da máscara, houvesse um pingo de decência em %VanHelsing%. Odeio-me por ter me deixado seduzir. Odeio-me por ter acreditado que era uma boa distração. Odeio-me por ter acreditado que talvez, ela pudesse ter me reservado um pingo de graça, e percebesse que não somos inimigos, não sou seu oponente; mas ela me transformou em um. Colocou-me do outro lado, e está determinada a destruir tudo o que me resta — o que resta de Suho. Por um momento tudo o que consigo sentir é apenas raiva, abrasiva, violenta, consumindo tudo o que encontra pelo caminho. Odeio-me por ter caído tão facilmente; por ser apenas mais uma de suas vítimas.
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  Mas odeio mais ela.
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  — Olha, eu estava bêbado… — começo a dizer, entre dentes, defensivo demais, mas não é meu tom que revela a confirmação que Sumi precisava, é minha escolha de palavras. Acabo de confirmar meu erro, e Sumi parece querer explodir. Porra, não era para isso ter acontecido. De repente quero matar o %SeoJun% de ontem. Se não fosse a porra de um imbecil que não podia controlar o próprio pau, eu não estaria nesta situação agora. Deveria ter seguido o conselho de Massaro e ficado longe, puta merda, Massaro havia me avisado, fiz pouco de suas palavras por mero capricho egocêntrico. Se ela fosse um monstro, garoto, Hollywood já a teria esquecido, o empresário havia me dito, acreditei que partira de um lugar de despeito, mas agora? Agora tenho a plena certeza de que não era, e que Massaro igualmente estava equivocado; %Erin% %VanHelsing% é um monstro, mas ela é bonita demais para conseguir disfarçar. Esfrego mais uma vez meu rosto, como se isso pudesse acalmar meus nervos, como se pudesse me oferecer alguma solução ou guia para aquela situação. Não ajuda em nada. Havia sido apenas uma noite! Como isso poderia ter virado esse caos?! Repouso meu olhar sobre a papelada outra vez, tentando entender o que ela queria. Tento ignorar a parte ferida de meu ego que espirala imaginando o quão ruim pode ter sido para ela aquela noite para não querer que fosse falado sobre, mas estaria enganando-me se convence-me que ela não havia gostado.
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  Sei que gostou. Pude sentir; ela queria tanto quanto eu. Ela havia aproveitado cada minuto, lembro-me de seus gemidos vividamente, por mais que seja uma completa desgraçada, duvido que pudesse fingir aqueles sons. Ela está tentando foder comigo para atingir Massaro, ela havia admitido isso, mas aparentemente, o plano é mais profundo e preciso, porque agora é minha carreira inteira na mão de uma vadia sem coração.
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  — Sabe o que é isso? Estou falando com você, %Lee%, olhe para mim quando estiver falando! Sabe o que é isso?! — ela grita em um sussurro urgente, inclina-se para frente e acerta a mesa com um tapa forte. Não tenho uma reação a sua atitude agressiva porque estava familiarizado com aquele tipo de demonstrativo, mas certamente, não faz muito para aplacar minha própria fúria. Deixo-me recostar-me contra a cadeira, apoiando minhas duas mãos sobre a mesa, fechadas em punhos. Sustento seu olhar acusatório, mas não a respondo. Só consigo pensar em como quero acabar com %VanHelsing%. Sumi inspira fundo, endireitando-se, algo parece ter atravessado meu rosto, para que sua postura mude, de uma irada para uma frustração mal controlada enquanto ela se senta à minha frente pela primeira vez. Gesticulo para o garçom outra vez, a fim de pedir por uma bebida, e manter a garrafa perto desta vez. Isso é demais, mesmo para mim. — Desculpe, eu não quis te assustar — ela diz em nossa língua natal, mas não a respondo. Não estou assustado, estou furioso, tenho a sensação de que se disser algo, se fizer algo, irei explodir, e se explodir, o quanto ainda terei controle sobre mim dessa vez? Ela inspira fundo, esperando em silêncio enquanto o garçom coloca mais vinho em minha taça, mas dessa vez sou mais rápido e comando, mais imperioso do que tinha intenção, para que ele deixasse a garrafa. Vejo Sumi unir as sobrancelhas, prestes a abrir sua boca para corrigir-me, mas algo em minha expressão a faz hesitar. Desvia completamente a atenção para o contrato de confidencialidade, puxando-o para si, e trincando a mandíbula. — Ela mandou um contrato de confidencialidade para você, %Lee%. Não é uma resposta da gravadora, sequer da boate que estavam, ela pediu para que os advogados pessoais dela o fizessem, isso aqui é pessoal. Sabe o que significa a porra de um contrato de confidencialidade?
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  Tenho vontade de gritar com Sumi. Amo-a como se fosse parte de mim, é doloroso pensar em sequer descontar a frustração que sinto nela quando ela é a única boia que impede-me de submergir outra vez. Já havia perdido Suho, não quero perdê-la também. Mas está testando minha paciência ao tratar-me com tal condescendência; sim, havia acabado de foder com minha vida, minha carreira e provavelmente o grupo inteiro porque quis uma noite para mim, entretanto não é culpa minha se a desgraçada da mulher com quem havia dormido é na verdade uma completa maldita. Tensiono minha mandíbula com força, sinto meus dentes travar, meus olhos queimam o semblante impaciente de Sumi.
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  — Não, o que significa, Soo-Min? — Minha voz soa ríspida demais, minha raiva transborda por minhas palavras mesmo sem intenção de atingi-la. Levo a taça em direção aos meus lábios, mas a bebida parece amarga em minha língua agora.
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  — Não seja insolente, garoto idiota! — Sumi chia entre dentes, antes de lançar as mãos para cima, e exalar pesado. Vejo-a esfregar a ponte de seu nariz, massageando-a com impaciência, antes de apoiar os cotovelos sobre a mesa e unir as mãos à frente de seus lábios. O gloss avermelhado deixa os lábios dela rosados, destacam-se na pele clara como porcelana. — Até onde foi?
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  Não a respondo, e percebo de imediato que fazer-me de desentendido não irá funcionar, não dessa vez. Ainda assim, tento soar o mais ofendido possível quando retalho de volta, um sussurro afiado escapando de meus lábios:
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  — Quer que descreva tudo para você? — Sumi silencia-me com um chiado entre dentes. Mordo minha língua para não retorquir ela outra vez, já estava em uma situação inimaginável, seria ainda pior se colocasse Sumi como minha inimiga também. A única que possuo agora é %VanHelsing%, e deus a proteja porque uma parte de mim quer muito arruinar completamente a carreira daquela miserável gostosa. Finalizo mais um copo antes de exalar alto, cruzando os braços sobre meu peito e erguendo meu queixo ao encarar Sumi. Petulante, é claro, mas não menos obediente. — Mating press, Reverse Cowgirl, ela é bem flexível quando quer — solto com um tom afiado, se para chocá-la ou para irritá-la não tenho certeza, mas tenho minha resposta pela forma com que Sumi fecha os olhos e inspira fundo pelo nariz, solta pela boca.
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  Ficamos em silêncio por um momento, e sinto uma estranha vontade de rir. Talvez seja o nervosismo, talvez seja o amontoado gritante de frustração que se formou em meu peito e agora nubla meus pensamentos, mas quando penso mais a fundo, a situação é tão ridícula que questiono-me se é uma pegadinha. É claro que não é, %VanHelsing% sabia sobre meu contrato, assim como eu, ela só havia sido um pouco mais esperta que eu ao aproveitar-se de brechas que eu não havia calculado direito ainda. Aos frangalhos, meu ego apenas explicita uma imbecilidade de minha parte que estou apenas começando a compreender. Enquanto o silêncio se estende entre nós dois, alcanço a garrafa de vinho outra vez, tomo mais um copo, e então mais um, é somente no terceiro que Sumi faz algo e toma a garrafa de minhas mãos. Ela lança-me um olhar exasperado, um aviso silencioso, mas tudo o que consigo concentrar-me é na sensação frustrante de ainda estar com meus pensamentos nublados, de ainda permanecer preso naquele precipício iminente entre a completa ansiedade e fúria, e o relaxamento que o álcool costumava a oferecer. Sei que não deveria, estou exagerando demais, mas sinceramente? Que tudo fosse para o inferno… posso parar amanhã. Por hoje tudo o que desejo é esquecer que vi %Erin% %VanHelsing% em minha vida.
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  — Ouça, a Pulse não é idiota — Sumi começa a dizer cautelosamente, as sobrancelhas unidas com uma ponta de preocupação que ignoro completamente. Não é por despeito, mas por covardia; seria mais fácil fingir que ela não se importava, minha consciência ficaria mais tranquila, ao menos. — Eles sabem que há momentos como esses, eles estão preparados para isso. Não há problema nenhum em ficar com alguém, %SeoJun%, não transformando isso em um relacionamento público, o contrato está seguro.
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  Fecho meus olhos, deixando minha cabeça pender para trás. Posso quase ouvir um belo de um “eu avisei, garoto” vindo de Massaro e nem o conheço direito.
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  — Mas — Sumi apressa-se a pontuar — só funciona quando é um anônimo. Uma garota qualquer! É fácil descredibilizá-las! Não deixe provas, %Lee%! Achei que havia ensinado isso a você — Sumi diz afiada, e assenti lentamente. Fuzilo-a com o olhar, mas a crueldade de suas palavras são apenas um reflexo do mundo que estamos inseridos, logo, posso culpá-la por isso? Era só o que era. Havia coisas piores a acontecer. — O que estava pensando quando escolheu justamente %Erin% %VanHelsing% para isso? Tem ideia do inferno que será tentar descredibilizá-la?
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  Solto um riso nasalado, irritado.
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  — Não tão difícil assim, ela já tem a fama de uma vadia mesmo, qual a diferença? Diga que inventou uma história, que está querendo chamar atenção — rosno em um sussurro para Sumi, e não consigo me sentir culpado pelo que sinto. Quer dizer, não deixa de ser verdade, de certa forma, que ela é uma maldita desgraçada querendo atenção, todos nós somos, e querendo ou não, ela possui aquela fama, se for ser sincero, tenho quase certeza de que ela gosta de ser vista como uma vadia, isso lhe permite o que quiser. Embora seja passível de críticas duras de algum lado da mídia e até mesmo dos fãs, ainda assim tem algum tipo de poder ali. Se não, por que diabos ela nunca havia feito nada sobre? Sumi lança-me um olhar indecifrável, mas estou com tanta raiva de %VanHelsing% que não me importo de questionar, ou sequer tentar entender o que diabos ela queria convir com aquilo.
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  Ela solta um exalo baixo, entre dentes, impaciente.
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  — Aish, você não está me ouvindo, %Lee%. — Sumi exala entre dentes, um pequeno sibilo escapando ao servir-se do vinho que tomara de minhas mãos. Observo o líquido, não o rosto da única pessoa ali que poderia confiar minha vida cegamente. Detesto vinho, acho fraco e rançoso, quando se coloca na boca, parece crescer, é azedo e, em sua maioria, apenas um suco levemente alcoolizado, mas minha garganta ainda seca ao observar o líquido à minha frente. Trinco meus dentes, sentindo a mistura de frustração e raiva crescerem, mas sei que é mais do que isso, uma parte de mim quer gritar com Sumi apenas para que consiga a bebida, já a outra, ainda está enredada demais com o problema que %VanHelsing% é para importar-me tanto assim com educação, mesmo que devesse. Controlo-me, todavia, esperando que ela ao menos elabore o que quer que esteja tentando com tanto afinco explicar para minha inteligência “limitada”. — %VanHelsing% é conhecida por muito, mas não é uma mentirosa, se vier a público, mesmo que não diga o seu nome, as pessoas vão acreditar. Merda, ela é a porra de um sexy symbol há dois anos! Chamam-na de vadia, e há idiotas em podcasts falando um monte de merda, mas tenho certeza que implorar de joelhos por um simples olhar! — A tensão em minha mandíbula aumenta, e sinto-a espalhar-se como uma pressão frustrante por minhas têmporas. Contenho o impulso de interromper Sumi, de dizer-lhe que era superestimar %VanHelsing%, mas estaria sendo mesquinho e equivocado; %Erin% é tudo isso sim, talvez mais, e como eu a odeio por isso. Sumi leva o copo aos lábios, desviando os olhos para as pessoas que sentam no restaurante, sua maioria parte da gravadora ou de uma boutique de moda de alta costura que ficavam naquela rua; não consigo conter o impulso espelhar, engulo em seco ao observar o movimento de sua garganta. — Além disso — Sumi umedece os lábios, antes de pigarrear baixo, vejo os cantos de seus lábios se contraírem e então curvarem-se para baixo —, o contrato é unilateral. Proíbe você de falar sobre o que aconteceu, mas a cláusula dela só a impede de referenciá-lo de quaisquer formas. Ela ainda irá poder falar sobre, e se mencionar rapper e k-pop numa mesma frase, considerando que vocês são os primeiros e talvez únicos no momento na mesma gravadora, quanto tempo irá levar até que eles relacionem vocês dois? — Sumi termina e sinto como se tivesse acabado de levar um soco.
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  Um golpe teria doído menos. Pisco, primeiro em choque, e então, tentando conter a fúria que ameaça transbordar por meu peito. Abro minha boca e então a fecho, minha respiração parece perder-se primeiro, antes de encontrar-se mais rápido e irregular. Não consigo pensar, não consigo absorver a dimensão do que %Erin% %VanHelsing% havia acabado de fazer. Quando disse que destruiria a mim, achei que o faria por meio de polêmicas e rumores, a maioria na indústria seguiria por esse caminho; é mais fácil, e muitas vezes, mais prático. Não que ela ativamente tivesse criado aquele tipo de armadilha. Solto um riso seco, desprovido de quaisquer traços de humor em minha voz, incrédulo, frustrado, mas acima de tudo, furioso. Isso é absurdo! É absurdo puro… mas ainda assim, é exatamente o que ela está fazendo. Proibir-me de sequer mencionar algo que aconteceu ontem à noite, enquanto ela poderia contar a história livremente se quisesse? Ainda posso fazer o mesmo, sei que deve haver alguma lei que me protege de tal coisa. Posso compartilhar minhas experiências individuais da forma que quiser, mas é aí que a crueldade e, para meu desalento pessoal, sagacidade de %VanHelsing% parece entrar: ela sabe que, considerando meu contrato, não irei o fazer.
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  Arriscar dizer que transei com uma rockstar, em uma noite de completa devassidão não é apenas arriscar a quebra e multa de um contrato multimilionário; é provocar a ira em fãs que não iriam hesitar em demonstrar seus desagrados. Que iriam bradar seu desgosto, é manchar para sempre minha imagem, é tornar-me pária em minha própria casa. Ela sabia que jamais o faria; ela sabia que eu aceitaria o que quer que ela oferecesse, fossem quais fossem as condições, para que tivesse a certeza de que ela não poderia dizer nada referente a mim. Apoio meu cotovelo sobre a mesa, outra vez, e então seguro minha boca com força, quero gritar, apenas levantar e gritar; quero quebrar tudo até que minhas mãos estejam ensanguentadas e não sinta nada. Mas é impossível fugir da fúria que direciono aquela única mulher. Isso não vai ficar assim, não, não posso aceitar pensar que ela escapará. Ela havia começado isso, certo? Tudo bem, eu acabaria.
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  — Se não assinar? O que acontece? — Sinto que vou explodir, minhas palavras soam mais baixas que o normal, arrastadas, como se estivesse precisando de um pequeno delay de segundos para projetá-las com a maior calma que consigo exibir. Sumi percebe de imediato, e lança-me um olhar preocupado, ignoro-a, mantendo meu olhar fixo no contrato de confidencialidade à minha frente.
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  — O que você acha que ela irá fazer, %SeoJun%? — Sumi murmura baixo, cautelosa, como se estivesse escolhendo as palavras, mas a pergunta é redundante. Nós dois sabemos o que %Erin% %VanHelsing% fará se porventura não assinasse aquela merda de contrato. Ela iria dizer tudo; iria arruinar tudo. Tudo bem, ela ganhou esta, mas isso é apenas o começo. Recuso-me a ser peão de mais alguém, especialmente se esta pessoa for %VanHelsing%.
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  Não respondo Sumi, apenas estendo minha mão em sua direção, o pedido silencioso por uma caneta. Minha respiração, acelerada e irregular, começa a tornar minha mente rarefeito, sinto que tudo no espaço gira, mas ignoro a sensação, puxando as folhas com mais força do que necessária, sem importar-me de ler. Espero por um momento e tenho certeza de que Sumi está hesitando, ela provavelmente não gosta da ideia de que eu assine aquela porcaria de contrato de confidencialidade — mesmo que houvesse zeros o suficiente para perceber que %VanHelsing% havia investido uma boa quantidade de dinheiro em silenciar-me —, mais do que eu gosto de o fazer, mas que outra escolha tenho? O que me resta a fazer se não abaixar a cabeça para a maldita vadia sem coração que %Erin% %VanHelsing% é?
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  — Não se preocupe, entrego isso para %VanHelsing%, eu mesmo— digo uma vez que todas as assinaturas necessárias estão feitas, e empurro a caneta de Sumi de volta sem gastar mais um olhar na direção da advogada. Sei que não deveria enxergá-la como minha inimiga, e de fato, não o faço, mas não consigo pensar em outra coisa senão %VanHelsing% no momento. Não tenho ideia de como chegar até o endereço, mas não preciso de muito para localizar-me, só de um carro, então pego o de Sumi, mesmo que isso a faça gritar que tenha perdido a cabeça.
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  Perdi sim, e agora farei isso ser problema de todos.
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  Nota da Autora: grava bem o nome do Doyle, essa não será a última vez que você verá ele por aqui. SEIS capítulos (contando com o próximo) para INICIAR a história, mas finalmente o caos começou! Um grande beijo pra Isy, que cuidou dessa fic com tanto carinho e cuidado que nunca vou esquecer! Além de ser um amor, mesmo eu enviando uma tonelada de texto ruim! VALEU DEMAIS MEU ANJO!! Que seu neneco venha saudável, feliz, conhecer a mãe incrível que ele deu a sorte de ter! Obrigada pelo carinho e a atenção com minhas histórias, viu? (e a ansiedade pela eficiência sksks)

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