CAPÍTULO 02 • CRAWLING UNDER YOUR SKIN
NÃO SEI DIZER O QUE É MELHOR: PROVAR QUE ELE ESTAVA ERRADO, OU ASSISTIR EM TEMPO REAL %SEOJUN% À BEIRA DE IMPLODIR.
Danny acompanha o ritmo marcado da música com mais intensidade do que deveria, uma vez que a intenção da performance é justamente projetar aquela sensação de estar
sem fôlego e
sussurrando, propositalmente projetado para criar uma atmosfera
íntima, convidativa, não o que quer que
Danny estivesse querendo transformar aquilo. Seja para externar apenas seu próprio desprazer por ter que estar ali aquela noite também, ou talvez —
muito provavelmente — estivesse apenas exasperada por ter que estar no
mesmo palco que eu, para
variar. Ainda assim, posso sempre contar com Jex e V para manter o ritmo de Storm sob controle — no máximo
que isso significasse para ela. Aquilo estava saindo de controle, eu
teria que eventualmente falar com ela, mas sinceramente, o problema é
inteiramente de
Danika por ter
expectativas onde não havia
absolutamente nada. Se estava sendo corroída por si mesma agora, era problema dela. Pouco me importo de fato, ela pode lidar com isso sozinha; meu foco está fixo em outra pessoa, para variar, e puta merda se eu não estou tendo o momento da
minha vida vendo
como ele se contorce discretamente parcialmente sentado no banco alto do balcão.
Faço questão de cantar
diretamente para ele.
Sustento seu olhar, em desafio silencioso, provocando-o sem dizer
uma palavra. Quero que ele acredite que cada palavra pronunciada da letra da música é dita
para ele, quero infiltrar-me em suas fantasias e
acabar com aquela música para ele — se essa era sua música preferida ou não, pouco importa, estou colocando um show completo para ter a
certeza de que ele não conseguiria mais
ouvi-la sem pensar em mim, e pela expressão
dele, consigo o que quero. Quero ver
até onde seu autocontrole consegue chegar, quero ver
quando ele vai quebrar. Foco, então, em modular minha voz para soar como um ronronar áspero, tentando manter a música em um tom mais baixo e lento, sensual, diferente da original — que ele
sabia que era mais alta do que
minha voz; foi
deliberada a escolha, e se era assim, então faria
com prazer ele se arrepender —, a letra
explícita, o
convite velado por trás das palavras, soam mais intensas; como dos vários sussurros perdidos em meio a uma noite de prazer, e
sei que ele está pensando a
mesma coisa. Sabia que poderia deixá-lo arrepiado, se ele estivesse prestando atenção em mim, e da forma que ele me encara de onde está parcialmente sentado no balcão próximo ao bar,
sei que ele está fixo em mim sem sequer
piscar direito, não tenho
dúvidas que estou tendo o efeito que desejo.
Mantenho minha atenção fixa nele. Sem importar-me se isso irá gerar alguma especulação externa — sei que vai —, se irá gerar burburinhos e
blind itens na internet, se serei alvo de perguntas e debates em redes sociais que sequer entro, a
única coisa que me interessa é atormentá-lo; quero faze-lo se arrepender por
cada segundo que ele havia gastado aquela noite. Se para provar um ponto para Joel Massaro ou fazê-lo pagar por sua própria petulância, já não sou mais capaz de dizer, a única coisa que me importa, todavia, é vê-lo perder a cabeça. Bem devagar, assistir seu controle começar a escapar de suas mãos como nada se não apenas
areia por entre seus dedos. É destruir aquela máscara de superioridade que ele exibe com tanta facilidade, observar as rachaduras que sou capaz de criar, e assistir de
perto quando entrasse por baixo de sua pele — porque eu
iria. Mal consigo conter um sorriso, satisfeita, quando o observo se ajustar discretamente, trincando um pouco mais a mandíbula perfeita e proporcional, um pequeno músculo bem pronunciado em sua mandíbula acentuando-a ainda mais, revelando uma força demasiada que me entretém.
Retiro o microfone do apoio, liberando meu caminho ao chutar os fios para trás, tentando não revirar meus olhos com o fato de que a escolha havia sido
deliberada por
Massaro. Não é porque o equipamento é ruim, é porque ele queria mandar uma mensagem:
“eu mando, você obedece”, posso sentir seu aperto em minhas cordas tornar-se cada vez mais sufocante, está rasgando-me de dentro para fora e não há montante de dinheiro ou glória, ou fama, ou muito menos
drogas que consiga apagar a sensação de ter mãos coordenando meus movimentos. Uma perfeita marionete que teve seus cinco minutos de rebeldia, mas que voltaria a fazer seu trabalho como lhe era comandando:
animar a plateia, prepará-los para oferecer tudo o que tinham, seu dinheiro, sua devoção, tudo, aos pés de Massaro como uma oferenda voluntária a um deus egocêntrico e narcisista. Há um gosto amargo em minha boca, mas, bem, o que posso fazer? Usar o que tenho em mãos e fazer a merda do jeito que quero.
Uso a música sugestiva que ele havia escolhido para provocá-lo, ignorando o riso nasalado de V, familiar com meu próprio jogo. Tenho a atenção de %SeoJun% fixa em mim, e tudo o que preciso é
fazê-lo desejar trocar de lugar com Jex ou V quando um deles me puxa em suas direções ou me toca. Posso sentir a energia da plateia aumentar. Crepita como fagulhas por minha pele, a atenção é sufocante, mas igualmente se distorce com a adoração, a certeza de que não estou afetando
apenas %SeoJun%, mas qualquer filho da puta que está se esfregando em outro no momento, movidos pelo som de minha voz, pelas carícias, pelos gemidos e notas mais longas sem fôlego.
Não é difícil ter a atenção de um público voltado para si, faça apenas algo estranho, e terá olhares sobre você, mas há algo de sublime em conseguir
dominar uma
audiência, de os fazer desejar um local que jamais estarão, de sentir aquele transe crescente percorrer por sua pele, arrepiando-a, como pura estática.
Ouço a risada nasalada, baixa de V ao pé de minha orelha, mantendo-me concentrada no tempo e na letra — faço uma nota mental de acertá-lo na virilha mais tarde — e ignoro o arrepio inconveniente que percorre aquele ponto sensível de meu corpo. Já conhece meu jogo, então não tem muita cerimônia de sua parte quando ele puxa-me em sua direção, seu braço serpenteando por meu tronco, até repousar em minha coxa — um movimento que para os fãs, normalmente, os levavam a loucura, fazia-os questionar
qual era nossa relação, e criava uma expectativa do caralho; para nós era só o que era, um
ato performático —, os dedos ásperos dele fincando-se em minha pele, as unhas rasgando a fina camada da meia-calça que uso, criando linhas paralelas e desfiadas, expondo a pele por baixo, enquanto acompanho o movimento dos quadris de V atrás de mim, sem desviar os olhos de %SeoJun%.
Observo-o perder seu fôlego, a bebida esquecida em sua mão esquerda. O movimento de seu pomo de adão torna-se visível, quase espasmódico, revelando sua dificuldade para engolir sua própria saliva, ou a bebida que outrora tomava. Os lábios estão entreabertos, enquanto os olhos dele escurecem, uma sensação de triunfo percorre por meu corpo ao ver seu olhar acompanhar não minhas expressões, mas o movimento da mão de V em meu corpo, fixo,
vidrado, como se não desejasse perder
um segundo do espetáculo, perdido
demais em seus próprios pensamentos para que eu tenha
certeza do que ele provavelmente está pensando. Seus olhos acompanham, em transe, a mão de V percorrer meu corpo, deslizando por meu abdômen, e brincando com a linha inferior de meu sutiã, provocando a plateia com o
acesso que ele poderia ter ali se quiser, antes de sentir a mão de V envolver, sugestivamente, meu pescoço, jogo minha cabeça para trás, em ritmo com o tempo da música, antes de empurrar V para trás, sorrindo, quando a música retorna para o refrão. Tenho-o onde o quero.
A música está quase no final, a plateia pulando, alguns cantando conosco, um pouco mais desafinados, mas não menos animados, quando tenho o prazer de ver, %Lee% %SeoJun% se levantar abruptamente de onde está, saindo em disparada pelas escadas, empurrando pessoas cegamente para fora de seu caminho, provavelmente em busca de ar. Abro um sorriso largo que faz minhas bochechas doerem, mas não consigo evitar. Volto meu olhar deliberadamente na direção de Joel Massaro, jogando o microfone por meus ombros, quando a música termina e a plateia explode em excitação e antecipação, palmas ecoam pelo espaço, pessoas, até mesmo algumas conhecidas, pulam, animadas, ouço Jex murmurar que “agora a festa havia começado” com um sorriso idiota no rosto que espelha o meu, mas pouco me importo. Sustento o olhar de
Joel com um desafio silencioso. Posso ver em seu rosto decrépito e envelhecido pelo tempo o incômodo, há sim uma ponta de satisfação ali, há aquele olhar de superioridade que fazia minhas entranhas se contorcerem e tudo em mim querer gritar até que minhas cordas vocais estivessem permanentemente machucadas, mas há também
raiva. Pura e imprevisível
raiva.
Seu novo brinquedinho vinha com uma surpresa. Era
estupidez de Joel
achar que eu não iria tentar descobrir
mais sobre a pessoa que
ele está usando para me ameaçar. Como uma boa parte de grupos do mesmo gênero dos
BEATBOIZ, ou seja lá qual o nome deles fosse — não dá para chamar todo mundo de
BTS sem ser uma completa cuzona —, era
comum que seus empresários gostassem de ganhar em cima de fãs
desesperadas; relacionamentos parassociais eram doentes, até mesmo
perigosos — se você quiser
começar a considerar
stalkers —, mas rendem
muito dinheiro sobre. Uma pessoa disposta a vender sua casa inteira apenas por cinco minutos de atenção de seu ídolo? Não é qualquer um que está disposto a fazê-lo, mas a necessidade primordial a se manter é: a
fantasia de que
existe chance de uma fã qualquer conquistar os astros que eles estão vendendo. É por isso que, teoricamente, nos contratos que Joel Massaro recebeu da companhia que havia criado o grupo, enfatizava a cláusula de que eles não eram liberados para
“relacionar-se” publicamente ou criar-se boatos de que estavam envolvidos com alguém, seja homem ou mulher, por pelo menos quatro anos, tempo este que seria necessário para se estabelecerem mais firmemente na indústria mundial — não apenas a coreana. Ou %SeoJun% caía na minha conversa, ou tornava-se impossível para ele ficar no mesmo espaço que eu, e considerando que eu estou
sempre na
Altas Records, bem,
touché, Massaro.
Dois poderiam jogar aquela porra de jogo — e eu só entro quando
sei que ganharia, ele deveria
saber disso a essa altura.
•••
Suor cobre meu corpo como uma segunda pele, grudando fios de cabelos em meu pescoço, têmporas, obrigando-me a roubar a primeira coisa que encontro — um canudo de metal do bar, fedendo a cereja e licor — e usá-lo para prender meus cabelos no alto. Alguns fios ainda pendem pelo meu rosto, mas a sensação de ar gélido noturno, ainda que breve, é um alívio para minha pele em chamas. A água ajuda a diminuir o incômodo na garganta, mas ainda há um gosto metálico em minha boca, e minha voz ainda parece mais rouca do que antes. Meu ouvido esquerdo está parcialmente zunindo, e sei que irei tomar alguma bronca de Jeff amanhã, quando aquela dor se tornar mais forte e ele me relembrar
por que usar proteção auditiva é necessário. Algum DJ havia subido no palco, enquanto tudo se desfaz aos poucos em borrões e cores distorcidas. Vejo todos os rostos que empurro para fora do meu caminho, e pior, vejo mais do que só os rostos. Vejo o passado. Praguejo baixo, irritadiça, conte
sempre com
Danny para lhe dar algo estragado e de procedência duvidosa. Merda, talvez a LSD apenas tenha batido do jeito errado dessa vez.
Localizada mais afastada do centro de
Hollywood Hills, o clube privado
The Lótus, que curiosamente havia recebido o apelido popular de
Boca do Inferno —
adivinha o porquê —, fica afastado, perdido em meio a um pequeno deserto e algumas colinas mais próximas das montanhas. É propositalmente projetado para dar a privacidade às pessoas que o frequentam, um espaço que permite que essas figuras públicas, de grande poder, pudessem permitir-se aproveitar em seus próprios desejos e fetiches. A estrutura é discreta, composta por metal, madeira e vidro, não há, todavia,
transparência ali se não fosse em espaços internos. As festas ali são
comuns por poder oferecer a privacidade necessária para manter os assuntos que aconteciam ali enterrados. A maioria dos convidados precisa assinar
Acordo de Não Divulgação antes de entrar ali, quem já é da casa ganha um espaço para si em algum dos andares. É um espaço gigante, uma mistura entre boate,
strip club e clube de
swing. A calefação sempre está ligada mais alto do que deveria, e há
sempre o
desejo de aproveitar com o que quer que estivesse à disposição para não lembrar da porra da noite. Acordar ao lado de um desconhecido não era o problema, o problema eram as conversas, em lugares privados, os avisos, os
olhares. Céus, posso sentir o desconforto se espalhar por meu peito como
veneno.
O arrepio que se espalha por meu corpo é conduzido pela adrenalina. Tenciono minha mandíbula, levando por instinto minha mão em direção ao meu pescoço; não é só a performance que havia cansado minha garganta, era a maldita sensação de estar sendo prensada por duas paredes contrárias até ser esmagada, é a sensação de que não importa
aonde esteja,
olhos, arregalados e vidrados, estariam fixos em mim. Posso fechar os olhos, posso fingir que não estou ali, posso fingir que nada disso está acontecendo, mas estaria apenas mentindo para mim. Finco as unhas
stilettos em meu pescoço, arranhando-o como se
isso pudesse me oferecer algum conforto, mas tudo o que deixa é a maldita linha paralela de vergões avermelhados sobre minha pele.
Empurro quase cegamente as portas que se formam em meu caminho. A
Boca do Inferno é gigante. Há espaços específicos para tudo, mas não há
camarins, ironicamente, as strippers que possuíam contrato com a casa haviam improvisado uma coxia precária próxima do banheiro feminino. Poderia ter seguido para lá com Virgil e Danika, mas a verdade é que conheço Virgil, ele está contando os minutos para sair dali e ir encontrar-se com um de seus amantes aquela noite — não para
transar ou qualquer outra
baixaria que aproveitamos, Virgil provavelmente queria apenas encontrar Johnny, ter um jantar calmo e tranquilo e o que quer que um romântico como ele poderia fazer
sem atrair a atenção da mídia para si. Tínhamos um acordo
muito seguro de
nunca mencionar a sexualidade de Virgil,
mesmo que ele fosse corajoso e decidido o suficiente para enfrentar o que quer que lhe fosse jogado, o público que nos cerca, por
vezes, não seriam
assim tão receptivos com a revelação.
Alguns fãs mais sensíveis
percebiam, alguns idiotas
já faziam piadas o suficiente para que ele temesse por sua vida. Se é na obscuridade que lhe proporcionava segurança e o direito de viver como desejava? Poderia culpá-lo? Ao menos ele não mente para si mesmo. Questiono-me
até quando ele conseguirá fazer tal coisa, até quando conseguirá viver naquela escuridão sem poder se libertar das correntes que o prendiam e o sufocavam. Sei que
eu não consigo por muito tempo, mas então, novamente, não é uma escolha
minha. É
dele. Tudo o que eu posso fazer é apoiá-lo com o que desejasse fazer, da forma que desejasse fazer e estar pronta para
roubar os
holofotes quando ele finalmente estivesse
pronto para atacá-lo.
Virgil, todavia, é um completo filho da puta maldito, porque
sabe que a
última pessoa que desejo conversar naquele momento é Danika, e isso significa que
sem sombra de dúvidas, ele me deixaria sozinha com ela. Tenho vontade de revirar os olhos, mas apenas faço uma careta de novo ao deparar-me com Jex, já esparramado em um divã, com uma
groupie a tiracolo.
Quem era aquela garota mesmo? Era Genny? Alisson? Alice? Porra, não, Alice é a bonitinha de
bob cut e cheiro de cigarro impregnado em sua pele.
Quem é aquela? Reviro os olhos, tentar descobrir com
quem Jex se envolvia dessa vez era apenas perda de tempo, e não é como se a garota quisesse
muito mais do que a memória sexual de ter dormido com um
rockstar. Bem anos 70, mas pelo menos ela poderia validar-se com o pensamento de
“cara, Jex Spade me comeu uma vez!” como se isso
fosse significar alguma coisa. Talvez significasse, mas sinceramente, com os olhos vermelhos e o cheiro pungente de maconha vindo
dele, eu duvido
muito que
Jex se lembre disso amanhã.
Quase quero a
sensação que ele tem, mas a ideia de ficar
completamente fora de mim é mais assustadora do que o prospecto de me drogar. Usar algo para tentar diminuir minha ansiedade ou me auxiliar a desassociar por algumas horas? Tudo bem, eu poderia fazer isso, mas a ideia de estar
completamente vulnerável naquela porra de lugar? Em
qualquer lugar? É assustadora demais para
sequer considerar o fazer.
Tensiono minha mandíbula atravessando o espaço elegante reservado para nós. A
Boca do Inferno sempre oferece espaços privados para seus clientes mais
“tímidos” ou que apenas presam pela discrição. É suficientemente espaçoso para lembrar um quarto de hotel cinco estrelas, mas com objetos sexuais o suficiente para que não fosse um. São sempre limpos, com pisos de mármore escuro, impecável e lustrados ao ponto de conseguir ver meu próprio reflexo contra o material.
O estalo de minhas botas ecoa em unensíssimo com as risadinhas irritantes da groupie de Jex, e o que quer que ele diz a ela. Uma janela panorâmica dá uma visão precisa do centro de Los Angeles à distância, as luzes cintilando como pequenas estrelas vindas dos prédios e estabelecimentos do centro da cidade dos anjos.
Faço uma careta quando observo a marca de um corpo curvilíneo contra o vidro. Lanço um olhar, entre a profunda exasperação e o crescente
horror com a imagem mental que tenho, para Jex, e vejo-o apenas piscar em minha direção, como se compartilhássemos um segredo — um
bem nojento. Reviro meus olhos, parando na cabine com os licores de Joel, e alço o primeiro, servindo-me um pouco. As luzes amareladas contra o espaço contrastam com as estruturas de mármore e espelhos e metal. Um pouco mais à frente do divã em que Jex está, há um sofá largo e macio, que pode servir como cama, em frente a pole dance e um espelho que cobre a parede inteira. Há um banheiro à minha direita, mais aos fundos, e um pouco mais à nordeste há uma cama
kingsize confortável com cobertas limpas, intocadas. Alguns quartos possuem piscinas, outros possuem balanços ou o que quer que seu
fetiche necessite. Há uma mesa com bebidas e comidas afrodisíacas, e algumas gavetas com brinquedos sexuais.
Para um
hedonista, o paraíso. V riu alto quando disse que minha meta era convencer algum líder religioso a participar daquela porcaria de lugar; acontece que já participava, só ficava do outro lado do prédio, onde há os
“Glory holes”. Cada um com seus fetiches, para ser sincera, não é da minha personalidade criticar alguém assim. Levo o copo de cristal em direção aos meus lábios, quase desesperada pela sensação de amortecimento que o álcool oferece. Arrependo-me
imediatamente. — Tá parecendo que vai vomitar, Van Helsing. — Ouço a voz arrastada e carregada com aquele sotaque irritante, britânico polido, enquanto a groupie deitada sobre ele, mordiscando seu mamilo, solta uma risadinha abafada. Lanço um olhar cético na direção de Jex. Fantasio acertá-lo com um tijolo, e estranhamente, a imagem mental me acalma mais do que deveria. Não seria divertido o fazer? Certamente,
a coragem eu tenho, ao invés disso, apenas forço um sorriso sarcástico para ele.
— Você tem esse efeito em mim. — Devo ter dito algo
hilário porque Jex se desfaz em gargalhadas altas, gostosas.
Quase me faz rir,
quase. Paro à frente da mesa de mogno com a variedade composta de bebidas que
Joel gosta de manter em estoque para impressionar algum convidado, alçando um copo de cristal. — Vai passar a noite aqui?
— Talvez, a Lily aqui me pediu por uma demonstração dos meus talentos, e você
sabe que detesto recusar pedidos. — Jex lança-me uma piscadela travessa e eu o encaro, sem preocupar-me de fingir o falso interesse pelo tópico com ele. Sei o que ele está fazendo, é por
isso que entre os
quatro, e todos os outros que já haviam passado por aquela banda, é justamente
Jex com que me dou
melhor. Talvez, sejamos apenas
muito parecidos: ambos não temos um
pingo de caráter, nossa moralidade é, para dizer o mínimo,
questionável e temos a tendência de apenas aceitar a situação como é. Não há subterfúgios, nem expectativas, isso às vezes se torna até divertido, mas não deixa de ser um golpe em meu ego. De todas as pessoas do
mundo com quem me dou melhor, é a porra de um lixo radioativo. Que fantástico;
igual reconhece igual. — Se quiser, pode participar também.
Encaro-o, estupefata, já ele o faz com um sorriso animado.
— Eu duvido
muito disso — Jex rebate, colocando-se sentado e ignorando o muxoxo que
Lily havia soltado. Observo a groupie se deitar languidamente contra o divã, atrás de Jex, e me encarar com um par de olhos com maquiagem borrada em um sorrisinho que está parecendo tentar
decidir se eu sou alguma ameaça à sua
“conquista” ou se tornara-me
parte de sua noite de depravação e baixaria. Fico mais ofendida com o prospecto de Lily assumir que
Jex era algum tipo de
conquista do que qualquer outra coisa.
Quem entrava no lixo e pegava papel higiênico usado como se fosse a porra de ouro? Mas então,
eu o conheço, Lily não. Faço uma careta, levando o copo em direção aos meus lábios e bebendo de uma vez o licor. Que merda,
tinha que ser de
cereja. Tenho vontade de cuspir aquela merda, mas obrigo-me a engolir. — Além disso, é uma
boa maneira de passar o tempo, sabe? Se está fugindo de Danny, no mínimo poderia estar se divertindo. Te dizer, se chamar o galãzinho estrangeiro lá tenho certeza que a gente consegue fazer um acordo interessante, hm?
Lanço um olhar em forma de aviso para Jex, e isso apenas o faz sorrir mais como a porra de um gato. Ah, que merda, é como olhar para a porra de um espelho… se eu tivesse um pau, fosse loiro, britânico, fedesse a maconha e plástico queimado, e minha pele tivesse a resistência de um camarão em pleno sol.
— Não estou fugindo de
ninguém, e
você… — Aponto o indicador na direção de Jex, imperiosa. Se ele estivesse perto de mim, tenho
certeza que teria mordido a porra do meu dedo, como está sentado no divã, ele apenas alarga seu sorriso, revelando o piercing em sua língua, brincando com objeto metálico, empurrando-o com os dentes para frente e para trás, fazendo a parte inferior do piercing, baixo de sua língua, se movesse irritante. Considero o peso do copo em minhas mãos, e
quanto tempo levaria para estraçalhar na cabeça dele. — Já tem distração o suficiente para a noite. Foca primeiro no que você tem em mãos antes de
achar que consegue engolir mais do que pode.
Jex não responde de imediato, mas seu olhar está preso ao meu rosto.
Detesto que ele me encara por tanto tempo, detesto a possibilidade de que aquele maldito homem possa ter visto algo que eu
ainda não percebi, ou não consegui ocultar a tempo o suficiente. Exalo por entre meus dentes cerrados, fechando os olhos e massageando minhas têmporas, praguejando baixo; meus sentidos estão erráticos, graças ao efeito letárgico que a maldita bala de Danika havia causado. Tenho a sensação de estar sendo observada mesmo dentro daquela sala, e por algum motivo, mesmo que esteja apenas com a meia-calça e sutiã,
ainda parece que meu corpo está em chamas. Talvez esteja começando a ficar febril, talvez fosse começar a gripar em breve, levando que minha garganta parece mais sensível, ou pode ser apenas
uma das reações que o lugar entupido de afrodisíacos e algo que ainda
não faço ideia do que seja fundido com a máquina de fumaça. Eu
odeio aquele lugar, mas tampouco poderia
escapar dele.
— Você tá bem, %Jean%…? — Arremesso o copo na direção dele antes que ele pronuncie a porra do nome. O grito assustado de Lily, desabando para trás quando o copo se conecta com a parede a alguns metros de distância de onde os dois estão, desfazendo-se em pequenos fragmentos de vidro, acompanhado do barulho alto do impacto. Lily grita alguma coisa, está me xingando, talvez sobressaltada demais com a reação agressiva de minha parte do que qualquer outra coisa. Jex permanece imperturbável, ainda me encarando. — Você tá bem,
%Erin%? Abro minha boca para respondê-lo, mas percebo naquele momento que não estou com a
menor disposição de
conversar, e
muito menos com Jex. De todos da banda, conversar com Jex era como entregar a porra da faca que seria fincada em suas costas — exceto por mim, eu costumava fazer
pior que ele.
— Cai fora, Jex. — Solto um pigarro, tentando clarear minha voz, mas porra se não sai falhada, rouca demais. Ah, que merda, era só o que me faltava. — Por favor, Jex… — obrigo-me a pedir, e por um segundo, vejo-o franzir o cenho, parecendo surpreso. Sei que está surpreso com o
pedido e não o
comando; porra, mas que idiota de merda! Está surpreso porque pedi
por favor, e não porque estou tentando chutá-lo para fora dali. Mas então o segundo passa e os olhos dele voltam àquele desdenho característico, quase divertido por me ouvir
pedir por algo;
nunca fazia isso. Tensiono minha mandíbula, sustentando o olhar dele.
Jex não se move, apenas me encarando agora com um sorriso idiota no rosto.
Merda. Sou poupada de respondê-lo ou ouvir sua resposta, porque uma Danika
furiosa se projeta para frente ao abrir a porta abruptamente — como se em sua fantasia estivesse
prestes a flagrar algo. Já está vestida com suas roupas comuns, o couro abandonado por uma calça
baggy jeans de lavagem clara e cintura baixa, revelando os ossos dos quadris acentuados e a barriga chapada, o
cropped preto é duas vezes maior que ela, e fica caindo por seu ombro direito. Os cabelos, agora, estão soltos, as mechas pretas azuladas e rosa pink se misturando enquanto a maquiagem borrada revela
o quão sóbria ela deve estar — não muito, mas então, nenhum de
nós está realmente
sóbrio.
Leva alguns segundos para que ela registre a situação em mãos. Lily semi nua atrás de Jex com uma expressão irritada que apenas azeda ainda mais com sua presença. O sorriso largo de Jex esparramado no divã como a porra de um deus preguiçoso, e eu, parada do outro lado da sala, com as mãos na cintura, considerando se devo me jogar da janela ou da porra da primeira sacada que encontrasse em meu caminho. Danny congela no lugar, engolindo em seco, e lançando um olhar confuso,
quase decepcionado ao observar o que diabos está acontecendo ali, antes de fuzilar-me com o olhar. Tenho vontade de rir, porque aquilo é
puro absurdo, mas engulo o riso, e o gosto é amargo o suficiente para fazer com que minhas entranhas se revirem.
— Oh, não, me pegou, Danny, em flagrante, e agora? — provoco antes que possa conter-me, fazendo um beicinho decepcionado, sarcasmo escorre por meus lábios como veneno, e não sinto
nada senão
raiva quando ela encara-me ofendida, como se tivesse acabado de tocar em uma ferida.
Aperto meus lábios, assentindo, mais para mim mesma do que qualquer outra pessoa, e então me despeço de Lily, a groupie com um aceno de cabeça.
Aquela ali iria ter algumas histórias
bem interessantes para compartilhar na internet,
se Jex quisesse
expor seu caráter real para a mídia, algo que eu duvidava muito, mas para todo acordo
sempre havia uma
brecha. Se Danny fazia questão de ficar ali, então,
eu me retiraria. Maldito seja Virgil e sua vida
perfeita e
equilibrada, malditos sejam Jex e Lily, a groupie da noite, maldito seja
Joel Massaro e a porra de seus esquemas, mas acima de tudo, maldita seja
Danika por não conseguir simplesmente aceitar a
realidade como
é. Preciso sair daqui antes que enlouqueça.
Tento forçar meu caminho para fora do quarto privado, inspirando fundo, mas minha respiração está escapando mais rápido do que consigo controlar. Tenho a sensação de estar submersa, de ouvir a pulsação do meu sangue martelar por meus ouvidos. Não é mais só o zunido em meu ouvido esquerdo, é o composto de tudo. Segue o ritmo do meu coração, que assola, como um pássaro selvagem recentemente capturado contra minha caixa torácica; faz-me considerar se irei vomitar, quando o fizer, vomitarei o órgão inteiro? Passo por Danny, puxando meu braço do aperto de sua mão, e de
como suas unhas fincam-se em minha pele; resulta em um arranhado bem mais fundo do que gostaria, antes de conseguir soltar meu braço.
De volta para o corredor iluminado apenas pelas luzes em neon vermelho, por um segundo sinto tudo girar ao meu redor. Aquela
maldita fumaça que se espalha pelo espaço
apenas para ser efeito
dramático — se antes era uma suposição,
agora tenho quase certeza que há alguma droga nessa merda. Tento livrar-me da sensação, focando em meus passos enquanto caminho mais para dentro do corredor, ouvindo Danika chiar atrás de mim. Procuro por algum quarto disponível, aberto, qualquer um, mesmo que não seja no meu nome,
seria meu essa noite. Qualquer lugar que estivesse
aberto.
— Não! Você não vai! — grita Danny atrás de mim, apertando o passo e tentando segurar meus ombros. Consigo empurrar a primeira porta aberta que encontro, adentrando sem muita cerimônia no espaço, e giro o mais rápido que consigo para fechá-la, mas Danny já havia projetado parte de seu corpo para dentro e bloqueia a porta. Tento forçar, obrigá-la a sair daquele entremeio, mas Danny apenas chuta minha canela, e eu cambaleio para trás. Acabo caindo sentada contra o estofado macio próximo da entrada do quarto privado. Fuzilo o rosto de Danny com frustração, mas não digo nada. — Não
se atreva a
tentar sair daqui — ela rosna, e eu tenho vontade de gritar com ela, apenas chegar perto de seu rosto e gritar até que minha voz desaparecesse, ao em vez disso, ergo minhas duas mãos para o alto, em um gesto de redenção.
No máximo que essa palavra poderia ser aplicada a
mim.
Danny fecha a porta atrás de si com um clique suave, e por um segundo parece estar tentando decidir o que diabos quer fazer. Vejo-a hesitar e isso apenas me irrita. Todo esse show, essa perseguição para ela hesitar agora? Apoio meus cotovelos sobre meus joelhos, inspirando fundo, e trincando meus dentes com força, sem desviar meus olhos de Danika, esperando pelo sermão, pelas acusações e dedos apontados para meu rosto,
para variar.
— Que porra foi aquela, %Erin%? — A voz de Danny escapa mais baixa que o normal, estranha para os meus próprios ouvidos, quase…
trêmula, mas
isso é impossível, porque Danika não é o tipo de pessoa que se
magoa facilmente.
Tensiono a minha mandíbula um pouco mais, unindo minhas sobrancelhas e então focando na porra das minhas unhas. O sotaque esquisito, aquela mistura entre sotaque do
Brooklyn e agora aquele característico alongar de
Valley Girl normalmente
pede para que se faça piada, mas agora soa estranho, quase afiado como faca. Ótimo, tudo o que eu
precisava. Arranco uma pele no canto de minhas unhas, dando de ombros, indiferente.
— Uma apresentação, o que mais seria? — Tento dizer o mais indiferente que consigo, mas soa como se eu tivesse cuspido as palavras. Arranco mais
uma pele ao redor da minha unha, fazendo uma careta quando a dor aguda atinge-me, mas ignoro totalmente ao voltar minha atenção para Storm.
Merda, quando pensava que cedo ou mais tarde teria que me resolver com ela, a minha decisão
sempre era
mais tarde, nunca
mais cedo. Especialmente, não agora. Não
hoje. Tensiono minha mandíbula um pouco mais, a pressão é o suficiente para fazer com que minhas têmporas fiquem doloridas, ainda assim, não digo nada, desvio meu olhar para o chão, observando os coturnos dela se aproximarem. O desenho idiota de tubarão feito à mão nas pontas dos sapatos com
spikes de caneta permanente, me faz revirar os olhos. Quero odiar aquilo, mas bem, é puramente
ela, no fim das contas, e por mais que tente, não consigo
odiá-la ainda, não que ela não esteja
conseguindo me dar motivos o
suficiente.
— Ah, certo,
todo mundo sabe que foi só a
porra de uma apresentação — Danny cospe de volta e ergo a linha de meu olhar para a encarar com descrença. Sério? É
sério isso? Estreito meus olhos, silenciosamente tentando desafiá-la a dizer o que
realmente queria, a expor as garras de uma vez, quando minha paciência já havia sido extinguida. A adrenalina não baixa em minha corrente sanguínea, e isso apenas piora tudo. Estou cada vez no meu limite e não faço
ideia do que vai acontecer: se
eu irei quebrar, ou se irei
explodir. Danny não desvia o olhar, as sobrancelhas grossas unidas, os cantos dos lábios repuxados para baixo, fuzilando-me com o olhar. Então, ela vê algo em meu rosto, e joga os braços para o alto, chutando a parede com a ponta de seu coturno antes de enterrar suas mãos em seu rosto. — Porra, você é uma puta do caralho, %Erin%.
Atinge-me em cheio —
exatamente como ela queria. Levanto-me antes que possa me controlar, sem conseguir conter uma risada amarga. Lanço um olhar depreciativo e desdenhoso na direção dela.
— Uau — é só o que consigo dizer. Danny trinca a mandíbula, encarando-me com olhos verdes, brilhantes e furiosos, mas ela ao menos tem a decência de perceber o peso de suas palavras, especialmente
sendo quem é. Se ela as compreende, todavia, não sou capaz de dizer. São olhos bonitos, é claro, mas percebo, pela primeira vez desde que a conheço, que não estou
os admirando, apenas parecem
distantes,
desconhecidos. — Terminou o discurso? Já estou liberada do sermão?
— Porra, qual é a merda do seu problema %Jean%?! — Explode Danny. Algo perigoso corrói meus pensamentos. Prendi minha respiração, instintivamente, voltando-me na direção da outra mulher, dando um passo na direção dela e agarrando seu rosto, minhas unhas fincam em seu rosto, mas ela não está assustada, está apenas com
mais raiva. Ela me empurra para trás, e acerta meu rosto com um tapa alto o suficiente para ecoar pelo quarto vazio.
Dor explode por trás dos meus olhos, a lateral do meu rosto esquenta com o contato, e sinto o pequeno incômodo no interior de minha bochecha; que porra, meus dentes devem ter batido contra a pele e cortado, porque posso sentir a ardência familiar e o gosto salgado, ferroso do sangue escorrer por minha língua. Cuspo no chão, fazendo uma careta, antes de me endireitar e voltar na direção de Danny. Não estou com raiva dela ter me empurrado, ela estava no direito dela, eu
não deveria ter avançado ou cedido a tamanha reação visceral, mas
estou com raiva dela ter usado
meu nome. A única coisa que tenho que
repetir para que não façam, e a única coisa que
continua a acontecer. Aponto o indicador na direção dela, aproximando-me até que estivesse perto o suficiente para sentir o cheiro de seu suor e perfume misturados. Não desvio meu olhar, encarando-a agora, realmente irritada.
— Não me chame assim, entendeu?
Danny move a mandíbula, engolindo em seco, e por um segundo tenho as esperanças de que ela tenha compreendido meu aviso velado, mas é claro, essas esperanças morrem rapidamente quando ela bufa, desdenhosa.
—
Agora eu tenho sua atenção,
%Jean%? — Danny cospe em meu rosto, e fecho meus olhos, instintivamente. Não mexe um músculo para limpar a merda do cuspe dela do meu rosto, mesmo que seja
nojenta a sensação de tê-lo escorrendo por meu rosto. Obrigo-me a ficar parada. Conheço-a há tempo o suficiente para saber
quais são suas táticas para tirar uma reação de mim, e puta merda, eu a odeio por isso. Sei que vou me arrepender amanhã, mas agora? Não poderia me importar menos. — Ah, que merda! Porra! — Dou um passo para trás quando o rosto dela se contorce em uma careta, e vejo as lágrimas se projetarem nos cantos de seus olhos. Ainda estou com meu sangue quente, mas a última coisa que eu queria era que ela
chorasse.
Sei como lidar com algum desgraçado gritando em meu rosto, eu
não sei como consolar alguém. Em nossa casa, sempre havia sido Niamh a responsável por consolar e oferecer palavras gentis; eu
sempre fui, e
sempre serei, só o
problema. A
causa do choro. — Por que você tem que ser assim? Por que tem que
me tratar assim? Por que tem que fazer
isso com a
gente…
— A gente? — ecoei desacreditada.
É por muito pouco que não começo a rir. Lanço um olhar ao meu redor, quase esperando a pegadinha em ação, mas estamos sozinhas ali, ou é o que
acredito quando minhas reações e
sentidos estão amortecidos, distorcidos pela maldita bala dela que havia usado naquela noite. De todas as ideias que eu poderia ter tido,
aquela havia sido a
mais idiota.
— Porra, Danika, não pode estar falando sério, né? — A encaro desacreditada, e fico ainda mais estupefata quando vejo o rosto dela se tornar mais magoado do que irritado. Vejo-a apertar os lábios, os ombros se encolhendo um pouco, quase imperceptível, mas não escapa de meu olhar. — Sério mesmo? Você
realmente quis dizer isso?
A gente? — Imito, por despeito, a voz dela, vendo-a se encolher quando digo
“a gente”, trincando os dentes com força.
— Para de me chamar assim! — As palavras escapam antes que eu possa me controlar. Danny pisca, prendendo a respiração, com força, os olhos fixos nos meus, sem
desviar os olhos do meu rosto. — Não
tem a gente, Danika. Nem agora, nem
nunca. Caralho,
quantas vezes vou ter que dizer isso? — Merda, a culpa vai me matar amanhã de manhã, mas agora? Agora eu não
poderia me importar
menos. Solto um riso baixo, descrente, mas soa afiado demais, cortante demais. — A gente
não tem um relacionamento, Danika! Nem
amigas a gente é! Só trabalhamos juntas porque
alguém tinha que assumir a porra do lugar que ficou vago! A gente transou algumas vezes, e daí? Não é como se você também cobrasse Holly ou qualquer outra
idiota com quem
você já se envolveu, e
nem por isso te chamo de
puta! Danny estala os lábios, parecendo no limite das lágrimas ou de uma explosão, mas ela força um sorriso afiado, que parece
quase com uma careta e não um sorriso.
— Ah, é verdade, eu esqueci, ‘cê tá falando do Nolan, não é? — ela cospe as palavras dessa vez com uma raiva visceral, e não percebo que dou um passo para trás, instintiva, até que acerto o canto da mesa atrás dos sofás. Prendo minha respiração, tentando obrigar-me a manter minha expressão
neutra. Não importa que ela havia
conseguido atingir-me exatamente onde doía, o que me importa é não dar a ela a satisfação. Seja lá o que faço, devo ter falhado miseravelmente, porque a risada que se segue faz meu estômago revirar, e tenho vontade apenas de tampar meus ouvidos. — O quê? Não era para eu ter descoberto isso? Você sabe, enquanto você tá se divertindo por aí com o primeiro filho da puta que aparece como a
cadela fácil que é, eu tive
bons momentos de conexão com a Holly, sua assistente, sabe? — Danny abre um sorriso irônico e sinto algo se romper ao fundo da minha mente, não sou capaz de dizer, mas vejo vermelho. A raiva que se apossa de meu peito é
visceral, e por um segundo quero apenas jogar-me contra ela e arranhar seu rosto até que não passe de fatias ensanguentadas, mas o nome que ela conjura me congela. Joga-me em espiral antes que perceba
onde estou caindo. Não a respondo, porque
não consigo, não porque não
quero. — Ela me contou algumas coisas
bem interessantes sobre você,
%Jean%, realmente interessantes.
Que Holly faria alguma merda, isso eu já esperava, mas que
Danny usaria isso contra mim,
aí eram outros quinhentos. Ainda assim, obrigo-me a manter minha expressão gélida, no máximo que consigo. Minha mandíbula aperta, o suficiente para que uma dor de cabeça nas minhas têmporas comece a se instalar.
— É mesmo? — digo com um tom de voz baixo, surpreendentemente mais calmo do que eu
esperaria que estivesse. Isso
quase faz Danny hesitar, mas não é o suficiente. — Se casem, então. — Forço um sorriso falso de animação, antes de deixar meu rosto retornar àquela máscara de raiva controlada. Danny parece mais ofendida com meu comentário, congratulando-a pelo relacionamento do que pelo meu tom, e eu a encaro descrente.
Que merda ela estava tentando provar ali?
— Me responde, %Jean%, você fez isso com o Nolan também, ou com
ele foi diferente? — Danny dá um passo em minha direção, mas dessa vez, eu não me movi. Agarro seu pulso antes que ela possa
pensar em me acertar de novo, minhas unhas pressionadas contra o interior de seu pulso. Ela até tenta puxar o braço de volta, mas não consegue, ou simplesmente desiste. — Você
também usou ele e quando cansou o chutou? Esse é seu
modus operandi, não é? Puta merda, todo mundo
sempre diz que você tem problemas, mas eu não sabia o
quanto era!
Tem algo que seja especial para você, %Jean%, ou tudo é só uma
ferramenta temporária?!
— Oh, então
isso que você quer saber? Se
você é especial, Danny? — O riso que escapa de meus lábios é amargo, e Danny
percebe isso. Não fica muito feliz com minha reação, percebo, ou talvez é só a percepção da mentira que ela havia contado para si mesma sobre mim se partindo. Não posso dizer que me sinto culpada
por isso. — Não é. Nunca foi. — Encaro-a com desdém, talvez
mais do que realmente sinto de fato. — Que porra fez
você achar que
eu poderia amar alguém
como você, Danny? — Não consigo terminar a frase antes de levar outro tapa de Danika, merecido e dolorido. Cambaleio um pouco para trás, perdendo o equilíbrio, percebendo tardiamente que ela
havia conseguido acertar meu ouvido esquerdo no gesto, e por um segundo tudo o que consigo fazer é encolher-me, segurando minha cabeça com a desorientação
inesperada.
Tá, eu
totalmente mereci o tapa, mas a dor ainda não diminui o peso das acusações, e tampouco minha
consciência — se é que ainda a
tenho. Inspiro fundo, com a sensação estranha de que algo em meu nariz não estava certo, com a vaga impressão de que posso sentir o cheiro pungente de ferrugem e
ferro em minha narina esquerda, imaginando se estava sangrando, apenas para limpá-lo com as costas de minha mão e descobrir que
não havia nada ali. Deixo-me cair novamente no estofado macio que há na entrada do quarto, balançando minha cabeça, tentando livrar-me do pulsar enlouquecedor em meu ouvido esquerdo. Posso ouvir um fungar baixinho de Danny, mas estou com raiva dela
demais para me dar ao trabalho de pedir desculpas. Não porque eu não devesse, mas porque minhas palavras, no fim das contas,
são verdadeiras.
Chame-me do que for, mas eu
nunca fui uma
mentirosa.
— Se falar outra vez sobre… — Odeio que não consigo pronunciar o nome dele, odeio como as emoções me sufocam, e como toda aquela merda de situação me coloca naquela posição exposta a inquisições. Inspiro fundo, passando as mãos por meus cabelos, coçando com mais força meu couro cabelo do que deveria, antes de tensionar minha mandíbula, ainda sem encará-la. Não consigo. — Se falar mais uma vez sobre esse assunto, eu
acabo com você, entendeu, Danika? Não estou dizendo isso apenas por dizer, eu vou
acabar contigo, carreira, reputação,
o que restar — ameaço, ignorando como minha voz soa falha, ou como Danny se encolhe, ignorando o nó que se forma em minha garganta, e como estou presa naquele precipício entre o desejo de avançar no pescoço de Danny, e apenas trancar-me no banheiro do quarto. Se rastejar para debaixo de uma das camas, ainda serei percebida?
Danny não responde a princípio, fungando, não a encaro, foco em minhas unhas outra vez, arrancando as peles que se formam ao redor da tinta vermelha escura com mais força do que deveria. A sensação de dor aguda que se espalha pelas pontas dos meus dedos é um consolo
amargo.
— Como você fez com o Nolan? — Danny provoca, e a fuzilo com o olhar.
—
Exatamente. — Meu tom é amargo, mas direto, e pela primeira vez em toda minha vida, ela finalmente
escuta. Prendo minha respiração, vendo-a soltar aquele riso quebrado, realmente magoada. Não vou conseguir consertar isso, tenho plena consciência, mas
isso é o que faço. É a
única coisa que sou
boa em fazer; eu
quebro as pessoas, as faço sentirem-se insignificantes, doentes. Vejo os olhos dela marejaram com lágrimas que será orgulhosa demais para deixar cair em minha frente, mas não diminui o peso de minhas próprias ações. Sinto meu queixo se contrair, e obrigo-me a inspirar fundo algumas vezes, tentando controlar as
minhas emoções.
Sinto o gosto pungente e amargo do desprezo, mas não é voltado para Danny.
— Então, o rapper coreano, do grupo… — Danny parece se esforçar a falar e eu tenho vontade de apenas tapar meus ouvidos, tentar emudecê-la pelo resto da noite, ou pedir para alguém me nocautear. Não faço ou digo nada, deixo que ela tome seu tempo, e formule as frases da forma que se sentir mais confortável, escondendo a voz de choro. Ela funga, soltando um riso baixo e sem humor algum, e endireito os ombros, negando com a minha cabeça, frustrada. Danika era incrível, a melhor baterista que já tivemos, e uma puta mente criativa quando se
dava ao trabalho de fazer alguma coisa,
é uma artista, mas o maior problema dela?
Nunca sabia
quando parar. — Tudo aquilo mais cedo? É só por que você quer usar ele?
Dou de ombros, desdenhosa.
— Por ora. — Apoio minhas duas mãos atrás de mim, deixando-me inclinar para trás um pouco. Sinto algumas mechas rebeldes de meus cabelos deslizarem por meus ombros quando ergo meu queixo, desafiador, sustentando o olhar de Danny em silêncio. Puta merda, eu magoei ela feio.
Danny pisca, incrédula, muito provavelmente com a facilidade com que digo tal coisa, com que
admito meus pecados, ela desvia os olhos de meu rosto, encarando algum ponto invisível atrás de mim antes de mover a cabeça em um sim lento; não o faz para mim, está fazendo para si mesma, obrigando-se a chegar a um acordo consigo mesma.
— O que… — A voz dela falha, e obrigo-me a manter-me inexpressiva, obrigo-me a não
perceber a forma com que ela clareia a garganta com um pigarro, como inspira fundo, se esforçando para manter a voz firme, indiferente. — O que você ganha com isso, %Erin%? O que…?
— Não é nada que
ele possa me oferecer — digo por fim, exasperada, se a verdade encerra essa conversa, então que pelo menos ela esteja
ciente. — É o que faz com
Joel que estou interessada. Eles são os novos queridinhos de Joel, a nova fonte de dinheiro se quiser chamar assim. Se acerto em %SeoJun%, acerto diretamente em Massaro. É
isso que me importa.
Danny parece estupefata demais com minhas palavras para sequer ficar assim tão surpresa. Ou talvez seja a maneira com que cruza os braços sobre o peito, encolhendo-se um pouco como se estivesse tentando se proteger de minha presença. Ela vai me odiar ainda mais amanhã, mas agora que as emoções estão à flor da pele; puta merda, eu
sou um monstro, huh? Mas então, de novo,
quem diabos havia colocado alguma expectativa em mim assim?
— E qual é o plano? — Danny tenta questionar, mas lanço um olhar irritado na direção dela, mordendo minha língua. Já havia quebrado o suficiente essa noite, não preciso sambar em cima também. Inimigos, eu possuía inúmeros, mas não
homicidas até o momento, embora uma parte de mim não descarte a possibilidade em um futuro próximo.
— Pergunta para Holly — é tudo o que respondo, talvez mais amarga e ressentida do que
gostaria de expressar, mas ao menos dá uma falsa sensação de vitória para Danika a percepção de que ela
havia me machucado, ainda que de forma pequena. Se é isso que a irá fazer deixar-me em paz, então, que acredite que conseguiu.
Observo-a em completo silêncio ao deixar o quarto, surpreendentemente sem bater à porta dessa vez. Ela só encosta, o que acho esquisito, afinal,
desde quando Danika não fechava a porta com violência na minha cara? Descarto o pensamento no segundo que sou deixada sozinha naquele quarto espaçoso e cheirando a algum tipo de perfume amadeirado. Inspiro fundo, apoiando meus cotovelos sobre meus joelhos e então enterrando meu rosto em minhas mãos, fechando meus olhos. Tenho vontade de gritar, tenho vontade de chorar, mas como todas as vezes que o tentava fazer,
nada saía. A culpa é sufocante, a auto aversão me corrói de dentro para fora, tenho vontade de usar minhas unhas para rasgar minha pele, de esfregá-la até que estivesse em carne viva, sentindo-me nojenta, pegajosa,
estranha. Deixo, por fim, minhas mãos caírem de meu rosto, e escuto apenas o barulho distante da música eletrônica por um longo momento, tensionando minha mandíbula.
Não
consigo chorar, por mais que tente. Não consigo livrar-me daquela maldita
apatia enlouquecedora
mesmo que o desejasse fazer, é como se estivesse agarrada a minha pele tal qual um plástico. Enrosca-se por meus membros, prendendo-me no lugar, e então há apenas aquele
vazio. Um grande e insuportável
vazio que cresce a cada dia mais, que faz com que tudo se torne cinzento e insuportável. E a pior parte? Sei que a culpa é minha. Siobhan sempre dizia:
“você busca sua destruição como um viciado busca a próxima dose”, não dá para dizer que ela está errada, mas sinceramente, o
que mais eu tenho a oferecer senão isso? É inevitável. Sempre que alguém se aproxima, consigo encontrar uma forma de machucá-los o suficiente para irem embora. Que merda, mas de novo, colocar alguma expectativa em mim é estupidez pura, todo mundo
sabe que não tenho nada a oferecer senão dores e irritações,
para que tentar?
O estofado ao meu lado afunda. Teria saltado para longe no segundo que o invasor se fez presente, mas minhas reações nunca foram de luta, mas sim
congelar diante de algum ataque inesperado. Então, mesmo que queira gritar e pedir ajuda, congelo no lugar, meus olhos arregalados fixos na pessoa que havia se jogado preguiçosamente no sofá ao meu lado. Meu coração massacra minha caixa torácica, o suficiente para fazer meu peito doer, a pulsação, ensurdecer meus ouvidos, e minha respiração escapa baixa e irregular, rápida o suficiente para me deixar um pouco zonza. Minhas mãos tremem, fechadas em punhos, as unhas fincam-se em minhas palmas com mais força que o necessário, provavelmente as cortando, e levo alguns minutos para compreender
quem havia se jogado ao meu lado. Meu estômago se retorce quando o faço.
%SeoJun%, com os cabelos desalinhados, um sorriso petulante e afiado como navalha preso no rosto, os olhos intensos obscurecidos por uma raiva contida e algo mais, algo sombrio, difícil de compreender à primeira vista. Está completamente encharcado de alguma forma, a blusa social elegante agora gruda em seus músculos como uma segunda pele — surpreendentemente ele está mais em forma do que a figura magricela que eu havia
imaginado —, as calças soltam pequenos estalidos com a movimentação do tecido sobre suas coxas, os cabelos parecem mais escuros, pendem por seu rosto proporcional e atraente, desalinhados. Percebo, com um ponta de divertimento distante, que ele fica mais atraente
assim, desalinhado,
relaxado. Ou talvez seja apenas a falsa sensação de acessibilidade que ele oferece que chama minha atenção. Está fedendo a álcool e questiono-me o
quanto ele deveria ter bebido naquela noite.
Não o suficiente para não ter ouvido minha conversa com Danny, percebo.
— Então. — %SeoJun% abre um sorriso largo, encarando-me com olhos impossíveis de desvendar, e um tom sarcástico afiado como navalha. — Me conta mais sobre seu plano de me usar, eu vou adorar saber.