PRÓLOGO • %ERIN% %VANHELSING%
QUEM É A PORRA DE %ERIN% %VANHELSING%? Se ganhasse uma moeda para cada vez que ouvi essa pergunta, estaria agora deitada em um montante de dinheiro tão grande que facilmente poderia me afogar — talvez eu gostasse disso. Mais fascinante que isso, eram apenas as perguntas nada discretas de esquisitões e fofoqueiros para saber
quem era o novo filho da puta que estaria enfiando a língua, dedos ou o pau na minha boceta —
essa era uma resposta fácil,
nunca a mesma pessoa por muito tempo. Preciso admitir que já a ouvi tantas vezes que tenho decorado vividamente
quem muito provavelmente a irá fazer: apresentadores sem carisma algum tentando entrar em assuntos desconfortáveis para engajar alguma revelação que irá fazer seus números crescerem, ou apenas alguma criatura aleatória querendo expressar algum falso intelectualismo ao deixar-me sem palavras; não faz, mas é divertido vê-los
tentar. A resposta, todavia, varia dependendo do meu humor. Às vezes, quando desejo manter a discrição e escapar da pergunta o mais elegantemente que consigo, direi simplesmente:
“Ainda estou descobrindo”, quando estou querendo ser doce, encaro a câmera com um sorriso meigo e digo, até mesmo quase timidamente:
“uma garota com sonhos muito grandes, e um temperamento bem ruim”, quando quero ser sarcástica, apenas murmuro
“Não tenho ideia, deixo para que os outros digam”, mas a minha resposta preferida? Quando
realmente estou querendo escandaliza-los ou apenas roubar-lhe as palavras, compartilhando do desconforto imposto a mim, simplesmente direi a mais pura verdade, o mais cínica e doce possível que consigo.
%Erin% %VanHelsing% é uma vadia sem coração.
Agora, veja só, essa descrição não foi uma conclusão pessoal minha. Na verdade, viera de um ator de cinema estrangeiro, do qual o nome sequer posso dizer que me lembro de fato. Alegava que havia se apaixonado por mim durante alguma gravação de um filme de ação em Lyon, na França. O filme, lembro-me do nome, era
Copenhagen, ou algo do tipo. Lembro-me que ele era o protagonista ao lado de uma atriz genérica, mas graciosa e até mesmo divertida. Lembro-me de ter visto o rosto dele em algum lugar, talvez uma cafeteria em Marselha, ou em meio ao
Mercado de Pulgas em Paris, nas ruas, disfarçado e a salvo de olhares alheio; conversamos, acho que devo ter flertado com ele também, porque ele ficava facilmente corado com algo que dizia, mas se havíamos tido um caso ou não,
isso, eu não saberia dizer ao certo. Não era como se eu estivesse
preocupada em
lembrar-me de algo daquele dia, muito menos
dele. Até onde sei, ele poderia estar apenas mentindo para ganhar visibilidade — e é claro, ganhou no fim das contas, todo mundo
adora vilanizar uma mulher sem motivo algum, apenas pelo
prazer de dizer
“eu sempre soube que ela era ruim” —, ou ele poderia estar dizendo a verdade; conheço-me bem o suficiente para não
duvidar da possibilidade. Uma noite qualquer, em um quarto de hotel qualquer, entediada? A resposta não é muito mais do que “quando no inferno, se entregue ao diabo”, e acredite, eu o faria
apenas pelo despeito de tudo. Acontece que o ator em questão, na verdade estava
bem certo em descrever-me assim.
No fim das contas,
sou mesmo uma vadia sem coração; mas uma puta vadia rica e gostosa, sendo assim,
qual seria a necessidade de possuir um coração? Aonde isso iria levar-nos?
Sei que devo ter destruído o ego dele de alguma forma, ainda ouço pelos corredores e até mesmo de amigos em comum de que o dito cujo
me detesta. Não perde a chance de me xingar sempre que me encontra, mas também
sei que se lhe desse
mais uma chance, ele igualmente não hesitaria em pular na minha cama o mais rápido que conseguisse. Acho que sua maior frustração é que, ao menos para mim, tenho
muitas opções melhores do que alguém tão medíocre, que a coisa mais impactante que poderia ter, é justamente um personagem que contrasta com sua personalidade real. Mas se quiser
realmente entender quem %Erin% %VanHelsing% é, preciso entrar em um tópico desconfortável.
Quando as pessoas me questionam quem diabos eu sou? Ou ao menos, quem
%Erin% %VanHelsing% é, eles querem ouvir algo que lhes agrade: a confirmação de um preconceito relacionado ao meu nome, apenas para poder enfatizar como eles
“sabiam” disso, ou a pura e inerente motivação de me constranger da melhor forma possível. Às vezes, ofereço a dádiva da dúvida, apenas pelo prazer pessoal de fazê-los andar em círculos. Mas qualquer pessoa
realmente interessada em compreender-me, vai perceber, muito rápido, que não há como
saber quem é
%Erin% %VanHelsing% sem entender
quem, primeiro, foi a
porra de Patrick Rooney.
Um ex? Amante? Stalker? Ah, não, não, Patrick Rooney, ou como os amigos de bar dele o chamavam:
Paddy, é algo
bem pior do que um ex relacionamento. Ele é
meu pai. Patrick Rooney era um homem de classe social média alta, o pai era um neurologista, trabalhava em um hospital público, mas ficou
bem conhecido na indústria pelo caso extraconjugal que havia tido com uma das estagiárias de enfermagem, na época com 20 anos; anos depois, a mesma enfermeira o processou e venceu um caso de aliciamento contra ele — quer dizer, bom para ela —, com uma professora de ensinos religiosos do ensino médio, curiosamente, devota ferrenha da religião católica romana, que acreditava piamente que até mesmo o ato de respirar poderia ser considerado pecado — não há nada mais sadomasoquista do que um católico desesperado por punição.
Apesar de seus problemas internos, construíram uma imagem sólida de uma família perfeita, com um filho perfeito — veja só, o erro que cometeram, deixaram Patrick
acreditar que era
alguma coisa. Patrick cresceu assim, um garoto cercado do bom e do melhor, com a certeza de que todos ao seu redor o amavam, enganado pelos pais e amigos, quando na realidade não passava de um garoto
medíocre, com uma personalidade narcisista, terrivelmente inseguro e com aspirações de grandeza que nunca condizem com seus
“talentos” pessoais. Cresceu no interior de Galway, mas teve que se mudar com seu pai e sua nova família para Dublin quando tinha 12 anos, após o escândalo do caso empestear a cidade. É claro que Patrick escolheu seguir o pai, e não ficar com a mãe, afinal,
quem diabos poderia oferecer a ele a vida que desejava se não o pai neurologista? Aos 15 anos, Patrick achava que era o cara
mais gostoso da escola — não era, de acordo com fotografias, na verdade era Cormac Murphy, com olhos intensos e sorriso torto cativante —, mas na verdade era só um zero à esquerda tão fácil que bastava soprar em seu ouvido da maneira certa que mancharia suas calças em segundos.
Para a sorte de Patrick, e completo azar dela, ele conheceu Siobhan — se pronuncia
Shivawn — O’Hara, a garota que se sentava na frente de sua mesa durante as aulas de biologia e história. Opinada, destemida, com um olhar intenso como fogo, e um riso capaz de iluminar uma sala inteira, Siobhan tinha suas prioridades
bem estabelecidas: iria se formar com honra no ensino médio em Dublin, de lá partiria então para Londres, com o único propósito de se tornar a
melhor no curso de Psicologia, e então iniciaria sua carreira como uma terapeuta de casal, em pouco tempo conseguiria estabelecer seu nome com esforço, suor e sagacidade se tornaria um exemplo para a comunidade terapêutica, voltaria para Oxford, é claro, mas desta vez como Mestre, aos 30 anos teria se tornado finalmente Doutora, e com 35, seria PhD, aos 40 anos? Tinha certeza de que o
prêmio Nobel lhe era garantido. Siobhan O’Hara possuía toda sua vida
scriptada e estava determinada a conquistá-la, custasse o que custasse, mas então, ela derrubou sua caneta preferida no chão. E
esse foi seu erro.
Quando se levantou para pegá-la, Patrick Rooney já a havia encontrado, com seu sorriso característico e uma piada ensaiada na ponta da língua. Pode dizer o que quiser sobre Patrick, mas uma coisa era inegável sobre ele: além de ser uma figura patética, miserável em seu cerne e com a profundidade de um pires, o cara
sempre havia sido
carismático ao menos. É algo comum, se quer saber, as piores pessoas que você irá encontrar, muito provavelmente vão tentar compensar com charme e carisma para agradar-lhe, afinal, quem gostaria de ter por perto alguém ruim, se não há nenhum retorno positivo? De qualquer forma, foi naquele momento que tudo deu errado para Siobhan, mas
muito certo para Patrick. Em menos de três meses, começaram a namorar, e os planos de Siobhan passaram a ser
“nossos planos”, Patrick, como uma doença contagiosa, se infiltrou na vida de Siobhan contaminando tudo ao seu redor, de repente, ela não era mais a estudante modelo, a melhor da turma, mas a namorada do incrível Patrick Rooney, o garoto de ouro do colégio.
Siobhan descobriu que estava grávida no dia de envio para as aplicações para as universidades do país. O choque foi tamanho, que a jovem só conseguiu curvar-se em posição fetal no banheiro de seu quarto. Patrick, por sua vez, estava recebendo o boquete de sua vida na casa da árvore de uma das melhores amigas de Siobhan — não sabia naquela época, mas essa amiga na verdade só queria ter certeza de sua sexualidade; na verdade, era apaixonada mesmo por Siobhan. A notícia foi recebida com um choque, mas uma vez que a merda já estava feita, o prospecto de uma família tradicional, e o sonho
“americano” havia se tornado muito
mais forte do que a percepção
óbvia da realidade que lhes cabia. Não demorou muito para que Patrick fosse morar com Siobhan; arrumou um emprego que pagava um montante decente com a ajuda do pai, e alugou um apartamento bem ruim no centro da cidade. Já Siobhan trabalhava meio período de casa, revisora de textos para uma editora de livros didáticos na área de
tanatopraxia, e atendente.
O nascimento do bebê estava marcado para o final de Maio, mas por uma tentativa de intervenção do destino, talvez por Siobhan ser melhor do que Patrick jamais mereceria, acabou perdendo-o em uma noite chuvosa de Setembro. Estava sozinha quando aconteceu, e levou uma semana inteira para conseguir ter a coragem necessária para dizer a Patrick o ocorrido. Patrick, é claro, fez a situação toda ser sobre ele, mas ao fim de tudo, percebendo que Siobhan poderia abandoná-lo, fez o que jamais seria capaz de comprometer-se,
a pediu em casamento.
Agora, veja, Siobhan
não é a minha mãe biológica, mas foi, de certa forma, a
única que tive em minha vida. Não é culpa dela, todavia, que eu seja do jeito que sou. Siobhan havia tentado seu melhor comigo, o problema é que, talvez, eu seja
muito filha dos meus pais para valorizar algo assim tão bom — para variar; mas funcionou com Niamh, minha meia-irmã. Quando Siobhan engravidou novamente, alguns anos depois, deu à luz a uma garotinha adorável, uma mistura perfeita de tudo o que havia de bom em Siobhan, sua inteligência, aparência e até mesmo docilidade, e o nariz de Patrick. O que Siobhan não sabia era que, enquanto chegava aos estágios finais de sua gravidez, Patrick havia ouvido um de seus colegas no trabalho dizer que ele possuía uma voz muito boa e que deveria tornar-se cantor — era uma piada, mas Patrick
nunca foi assim tão inteligente para entender
sarcasmo direcionado a si mesmo —, e sem pensar duas vezes, havia deixado o emprego estável para cantar em pubs e alguns bares da cidade, onde conheceu a
Cherry.
Isso aí, minha mãe biológica? É a porra de uma
stripper de uma boate de luxo que se chamava
Cherry. Como ela ganhou o apelido? Passava cereja nos lábios toda vez antes de subir ao palco, e então dizia aos homens, e às vezes algumas mulheres, que era apenas o gosto que ela
tinha — alguns idiotas acreditavam, e sim, estou totalmente falando de Patrick aqui. De qualquer forma, os dois acabaram se envolvendo quando ele se apresentou na boate que ela dançava, o caso acabou tornando-se algo frequente, Patrick, sendo a criatura patética que era, gostava da sensação de aventura, do poder e do
segredo que um relacionamento
extraconjugal lhe dava. Sua insegurança — bem fundamentada, na verdade — era tão grande que a validação de uma stripper se tornou, para ele,
um vício. E quanto a Cherry? Bem, dinheiro era dinheiro, ela estava ali a trabalho, e nada mais — não dá para julgá-la só por fazer seu trabalho. Acontece que Patrick
tinha um
modus operandi, e sempre que encontrava alguém que considerava
“bom o suficiente” tratava de dar um jeito de furar a camisinha. Precoce como era, ele já teria terminado
antes que a mulher em questão sequer pudesse
pensar em sentir algum prazer — já disse que era patético, não? —, e com
Cherry não foi diferente.
Acontece que ter um filho
acabaria com a
carreira de Cherry, e ela não estava nem um pouco disposta a continuar a gravidez — às vezes imagino que ela
deveria ter prosseguido com sua decisão, teria sido mais fácil para todos, mas, novamente, a escolha não era de ninguém senão dela a ser feita —, mas desesperado para não perder seu depósito de endorfina, Patrick conseguiu convencer sua mãe a conversar com Cherry. No fim, Cherry deu à luz em um curto espaço de
meses a Siobhan, que não demorou muito a receber a conta em sua porta.
Eu, enrolada em um manto, nos braços de uma mulher desconhecida, a perfeita imagem feminina de
Patrick. Dizer que o mundo de Siobhan foi destruído em questões de segundos, seria amenizar sua dor, é algo que não desejo sob hipótese alguma será falar por ela, mas quando Cherry se apresentou e explicou sua situação, Siobhan percebeu o que
nunca havia tido; o que havia sacrificado em troca de uma fantasia medíocre de uma desculpa patética de
homem.
Patrick, sendo o covarde que era, apenas escolheu desaparecer de sua vida. Fez as malas às pressas, entrou na primeira balsa que encontrou e desapareceu em algum lugar da Escócia. Fui abandonada aos 3 meses, na porta de uma desconhecida que havia acabado de descobrir que o marido, não só havia mantido um caso extraconjugal por quase um ano inteiro, como, igualmente, a abandonado com todas as consequências de suas ações para lidar. Cherry não queria uma filha, e Patrick, bem, deste não preciso dizer nada, coube a Siobhan decidir o que fazer com a intrusa em sua vida perfeita e a memória
fixa da traição que sofrera. Suponho que a maioria das pessoas teria apenas entregado a criança para os avós paternos e deixado que
estes lidassem com a situação, mas Siobhan, não. Siobhan
sempre foi a melhor pessoa que poderia
respirar nesse mundo, e com uma expressão determinada, e um desejo por
evidenciar a todos que a conheciam que
Patrick não era
nada senão uma barata, arrumou suas malas e as de Niamh, e com nós duas nos braços, mudou-se para Londres
desperdiçar um olhar para trás.
Nos estabelecemos em
SoHo, o lar dos artistas, boêmios e forasteiros. Embora meu registro ainda estivesse conectado a Patrick, legalmente, sempre fui filha de Siobhan, e puta merda, se ela não fosse a melhor mãe do mundo. Criou a mim e Niamh em pé de igualdade, sem
jamais favorecer uma das duas, era justa — mesmo quando
eu acreditava que ela estivesse sendo injusta —, e apenas se envolvia em nossas vidas quando era necessário um conselho ou um ultimato para melhorar nossas atitudes questionáveis. Quando tínhamos 10, Siobhan se casou novamente, com um colega professor chamado Liam, um pai divorciado, com riso fácil e olhar carinhoso que nos chamava por apelidos com a facilidade que respirava — Niamh era
docinho, e eu,
amendoim —, seu filho, Virgil passava apenas os finais de semanas e férias de verão conosco, no restante do tempo morava com sua mãe e o padrasto em São Francisco, na Califórnia.
Agora, as coisas mudam um pouco. Não, eu não tive nada com Virgil, na verdade sempre o achei meio esquisito, até mesmo
nojento, cheirava a perfume caro e bala de café — odeio café. Além disso, fui
eu que ensinou ele como chupar um pau, e o cara era mais braços do que qualquer outra coisa. Acontece que enquanto Niamh seguia os passos de sua mãe, focando em seu futuro e esforçando-se para ter uma carreira impecável escolar que lhe rendesse a carta perfeita de aceitação por uma das
grandes elites, Virgil e eu não éramos assim tão ambiciosos, tínhamos uma aposta pessoal de ver o quanto de maconha poderíamos fumar no porão sem que nossos pais percebessem que estávamos chapados para porra, e na maioria das vezes, ele acabava envolvido em uma briga e sobrava para mim vingá-lo. Formamos uma
boa dupla; o que não era bom para ninguém.
No segundo ano, ele foi expulso do colégio, para não ficar atrás, tive a brilhante ideia de vandalizar o carro do diretor do colégio, o que me rendeu três dias em uma prisão e um aviso de que, em uma próxima vez, haveria consequências mais severas. Meus privilégios de sair e me divertir com coisas estúpidas foram revogados imediatamente por Liam, e tive que passar por pelo menos seis meses de terapia, porque Siobhan
sabia que havia algo de errado comigo. Virgil conseguiu para mim uma carta dispensando a necessidade de terapia, então, por uns bons quatro meses, apenas fingia que frequentava a terapia enquanto, na verdade, vagava pelas ruas sem rumo com Virgil, buscando alguma coisa que fosse me oferecer alguma sensação de pertencimento, ainda que momentaneamente — nunca deu.
Acabamos em um centro comunitário, do conhecido de um conhecido de um ex-namorado de Virgil. Lá, percebi, não era um porto seguro, mas talvez servisse de algo; foi
assim que aprendi a tocar instrumentos. A professora de música, Senhora Martinez, era severa, mas do tipo que era capaz de inspirar qualquer um a tentar ser o
melhor que podia. Foi
ela que havia despertado
aquele desejo em mim. O desejo de ser
algo; para o bem ou mal, posteriormente, nunca soube dizer se ela foi um anjo em minha vida, ou o demônio que a condenou, mas é inegável o efeito que ela
teve um impacto irreversível em minha vida. Entre bandas de quintal adolescentes e apenas passatempos, comecei a entender a atração inegável ao palco, pude compreender
por que Patrick gostava daquele lugar, e talvez
por isso eu odiasse
mais ainda; eu
também havia gostado.
Tocar
covers de músicas antigas, fazer piadas e encantar a plateia havia se tornado um vício delicioso por minha pele, toda a atenção, os olhares, os sorrisos, as cabeças e corpos se movendo, faz com que você se sinta uma deusa entre meros mortais — mal sabia eu o que viria. Você não precisa ser extremamente talentoso para conseguir a atenção dos outros, você só precisa ser seguro o suficiente, e um pouco de um bastardo charmoso, e
isso, eu havia herdado de Patrick como uma doença crônica. Ajuda também que minha aparência seja
muito próxima da de Patrick, tenho os mesmos cabelos que ele, o mesmo tom, e cachos grossos e desalinhados, a diferença é que os meus eram maiores e mais bagunçados, tenho o mesmo tom de pele, os mesmos olhos e nariz, mas a fisionomia, o corpo e os lábios são de
Cherry — uma fedelha com um corpo de stripper e atitude petulante? Faça as contas do
porquê eu recebia tanta atenção assim.
Seja como for, quando Niamh terminou o colégio, e Liam ofereceu-se para nos acompanhar com uma viagem para as universidades, neguei rápido demais, rápido o suficiente para receber uma sobrancelha erguida e um olhar desconfiado. Verdade seja dita, a única que
sempre havia tido um futuro entre nós três era Niamh, então, quando a oportunidade surgiu, Virgil foi obrigado a me arrastar com ele para São Francisco passar um tempo com sua mãe e seu padrasto. Foi durante um desses finais de semana, sem propósito além do desejo de apenas perder-se nas exceções que, ao subir no karaokê para cantar
minha pior versão de alguma música, Virgil e eu percebemos que não estávamos
sozinhos.
Joel Massaro estava ali, e havia visto tudo — havia
gostado.
Agora, quem diabos é Joel Massaro, você deve se questionar? Um filho da puta desgraçado, podre por dentro que não possui nenhum resquício de humanidade dentro de si; e também a porra do
melhor empresário que já havia andado por Los Angeles. O apelido entre os
shareholders e
investidores para ele é
Midas, porque através de sua orientação, ele é capaz de esculpir e moldar em
ouro qualquer um
que ele desejar. Joel Massaro
é o cara. Sabe exatamente o que funciona para o público, como atraí-lo, como criar controvérsias, como jogar aquele jogo e faturar
milhões. Então mesmo que ele seja um desgraçado, desumano e depravado do caralho, tê-lo do seu lado é bom o suficiente para que você tenha o
mundo em suas mãos. E foi o que ele nos entregou:
o mundo, aos nossos pés, a adoração, os estádios lotados e a
porra da endorfina de estar em cima de um palco ouvindo uma multidão gritar por seu nome.
Agora, quem é %Erin% %VanHelsing%? Eu lhe digo:
tudo o que Patrick Rooney jamais foi, e mais. E a melhor parte? É que eu não faço ideia de
quem ele seja, de
como ele seja, ou tenho o menor
interesse por saber. A única coisa que sei é que
ele pode me ver, que ele
me acompanha, querendo ou não, que
não pode fugir do meu rosto, não importa para onde tente desviar o olhar, não importa o que
tente fazer. Eu
sou o que ele queria ser, e que
jamais irá conseguir. Mas é Siobhan quem mora em um casarão confortável no interior de Killarney, é Niamh quem desfila ao meu lado em carpetes vermelhos e premiações. É Virgil quem berra comigo, até a voz ficar rouca, banhando-se na adoração cega de uma multidão de rostos maravilhados e desesperados por nossa atenção. Não Cherry. Não
ele. Então sim, eu
sou uma vadia sem coração, e tão rancorosa
quanto. Acredite em mim quando digo, não me contento com a mediocridade, se farei algo, então serei
a melhor a fazer, independentemente do que seja.
Agora que você
sabe exatamente quem sou, permita-me levar
você para o maldito problema em mãos. Tudo nos leva para a maldita
after party da gravadora
Altas Records. Este é o momento em que, após longas horas de sorrisos forçados, elogios disfarçados de ameaças veladas, olhares sugestivos e maneirismos calculados para impressionar os lobos em terno e gravada disfarçados sob a pele de cordeiros, falsamente preocupados com seus artistas, nos observando como pedaços de carne a disposição, nos era oferecido como
“recompensa”; uma forma enviesada de render mais algumas histórias para impulsionar ou destruir uma carreira. Para mim, sempre foram uma forma de exposição indireta para continuar o trabalho, uma vitrine para os produtores, empresários e até mesmo interessados. Mais do que o dinheiro que ganhava, Joel Massaro
gosta de exibir seus troféus como o garotinho mimado que é. E na maioria das noites, seu troféu sou
eu.
Não nesta noite, todavia. Esta noite todas as atenções estão voltadas para os malditos
novatos. Embora sejam estrangeiros, já se destacavam há um tempo nas listas de mais ouvidos mundiais, são experientes com o
showbiz, sabem como se portar e encantar, mas somente
agora haviam conseguido uma parceria deturpada com uma grande gravadora americana — é quase
notório que, para se conquistar o nível internacional de artista, é necessário conquistar o público
americano completamente, e quando digo
americano, digo
o continente americano. Movem-se por entre as pessoas com familiaridade, trocam olhares divertidos, curiosos e até mesmo flertam com alguns para manter o encanto. Alguns julgam disfarçadamente, não parecem estar acostumados com a
“promiscuidade ocidental” e sem dúvidas, isso me faz
quase rir.
Eles já eram um fenômeno fazia um ano inteiro — eles já deveriam ter se envolvido em
muita merda oculta das câmeras e atenções públicas, era
apenas teatro. Quase todo mundo havia ouvido falar neles a essa altura; os
BEATBOIZ, ou coisa do tipo, mesmo a pequena Grace, filha de 2 anos de Niamh, estava obcecada pelas músicas grudentas e irritantes deles. Não é como se fossem composições elaboradas, liricamente complexas e até mesmo dramáticas, tampouco protestos acalorados, ou inovadoras, são
fabricadas para serem grudentas, repetitivas e viciantes. Isso com a aparência impecável, devastadoramente atraente, era
exatamente o que
Joel Massaro gosta.
Vende.
E é por isso que
estou aqui. Sou a
puta dessa noite. Joel quer exibir suas melhores criações para os novatos, apresentar a eles o que eles podem se tornar:
lendas, realmente
alguém naquela indústria; e quer lembrar-me
quem estava no controle de
tudo,
quem havia sido o responsável por entregar o mundo em uma bandeja para minhas mãos sujas e
quem poderia retirá-lo
facilmente. Então, se quero ficar no lado bom de Joel, o que, para ser sincera, é um esforço demasiado, pelo bem do contrato e dos outros membros da banda, pelo bem do que está em risco, preciso entregar a ele
exatamente o que deseja: a putinha obediente que lhe rende
dinheiro.
Posso fazer isso, mas isso não significa que
preciso aceitar
calada. Se Joel espera que eu interprete aquele papel,
irei o fazer da
melhor forma que
sei. Serei a
melhor; darei a Joel
motivo para se lembrar
quem ele havia criado, e
por que aquilo
sempre voltaria a morder seu rabo murcho e branquelo. E começaria pelo
novo brinquedinho de Joel.
Tenho que admitir, o líder do grupo — embora suponho que não seja o
cantor principal — é
realmente bonito. Os cabelos escuros como a noite estão desalinhados a essa altura, talvez pelas tantas vezes que ele os havia ajeitado durante a noite, ainda assim, permanecem no
slideback elegante, algumas mechas pendem por seus olhos, algo que faria com que qualquer um parecesse
cansado, mas nele,
estranhamente, apenas faz parecer
relaxado, confortável, até
demais em sua própria pele. Os olhos intensos, percorrem as pessoas com um desinteresse aparente, quase
palpável, o rosto proporcional e harmonioso é
quase inexpressivo, uma postura falsa de desinteresse que se mistura com uma neutralidade programada. Age como se fosse
superior a tudo aquilo. A máscara é bem
óbvia,
fácil de quebrar, o protege e assegurava sua carreira, é claro, mas é treinada para ocultar suas reais intenções e reações diante de situações desconfortáveis. A curva do sorriso torto, charmoso, é calculada para desviar a atenção de si para outra pessoa, o flerte, planejado para distrair do tópico de interesse e dar margem para uma fuga estratégica. Fazemos isso o tempo todo em entrevistas ou interações desconfortáveis. Questiono-me se o
príncipe encantado está tão desesperado para rastejar de sua própria pele e sair dali quanto
eu me sinto. Mas há algo na postura dele que me faz ter
certeza de que ele, na verdade,
gosta da atenção. Gosta de receber os olhares interessados, admirando-o, até mesmo
desejando-o, gosta do
poder que lhe dá ao dizer
não. Gosta de ser
inalcançável,
impenetrável.
Vou quebrá-lo. E vou fazê-lo se arrepender
de cada segundo dessa noite.