Luminosidade Noturna


Escrita porSereia Laranja
Bru ZH

Revisada por Lelen


Capítulo 3

  Príncipe %Elliot%

  Passei a manhã toda observando a vista da janela dos meus aposentos; era minha melhor distração por ora. Toda aquela água se estendia por quilômetros e quilômetros, até se perder de vista, guardando para si todos os mistérios que nela existiam, todas as criaturas que a habitavam, que faziam daquela imensidão azul seu lar. O som da água batendo contra o casco do navio era a melhor melodia que meus ouvidos poderiam ouvir neste momento, um som que nunca imaginei ouvir de forma tão vívida. O cheiro da água salgada servia como um entorpecente, levando minha mente para longe desses piratas, para longe da feiticeira da morte, para longe da minha morte… longe do Capitão.
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  Tudo que planejei dizer, todos os argumentos que poderia usar, todas as lições que aprendi com meu pai sobre negociar com inimigos ou amigos, desapareceram da minha mente quando meus olhos encontraram aqueles olhos castanhos dourados na noite passada. Não estava preparado. Acredito que nenhuma preparação neste mundo me deixaria pronto para ficar diante de um homem tão… tão… Apolíneo!
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  Talvez fosse pouco compará-lo ao deus grego, aquele que apenas li em páginas amareladas e antigas, mas era o que minha mente conseguiu associar naquele momento. Nada de barba gigantesca, nada de roupas sujas e rasgadas, nada de dentes amarelos e hálito horrendo, nada de cicatrizes e tapa-olho. Ele não era como os outros piratas que vi naquela embarcação. Seus olhos vazios eram a única coisa que revelava quem ele realmente era, além, é claro, do seu jeito autoritário.
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  Minha capacidade de raciocínio estava danificada; eu estava mentalmente e emocionalmente esgotado diante de todos os acontecimentos que me ocorreram no dia anterior, mas, apesar de tudo, não consigo negar o alívio que sinto em minha alma. Sempre desejei me aventurar e sair dos muros do Palácio e tinha aceitado que esse desejo estaria para sempre enterrado.
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  Mas agora, olhando o horizonte azul pela minha janela, percebo que de fato estou vivendo um sonho que sempre desejei. A maneira como estou vivendo esse sonho é a única coisa que não me deixa tranquilo e eufórico, pois jamais imaginei explorar o mar em um navio pirata. Além disso, o fato de estar sendo levado para minha morte iminente pode ser o verdadeiro motivo pelo qual meu subconsciente não me permite relaxar.
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  Escutei o vento assobiar em minha janela, surpreso pela mudança repentina do tempo. Tiro a roupa molhada que está grudada em meu corpo, devido à onda que nos atingiu minutos atrás. Olho para minhas mãos, onde ele segurou firmemente enquanto me ajudava a guiar seu navio, e um pequeno sorriso se forma em meus lábios. Eu não deveria estar pensando nele dessa forma, mas o calor que percorre meu corpo toda vez que ele me olha está fora do meu controle. Deixei o ar sair pesadamente ao me lembrar do seu aperto em minha cintura. Se eu fechar os olhos, ainda posso sentir seus dedos em mim, sua respiração batendo contra meu rosto e sua voz rouca chamando meu nome.
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  Arremessado contra a parede ao lado da minha cama quando o navio balança violentamente e um estrondo corta o céu lá fora. Assim que o navio parece se estabilizar, me troco rapidamente, deixando meus pensamentos para depois.
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  Não sei o que devo fazer; nunca passei por nada parecido em minha vida, então fico sentado no meio da cama, assistindo a todas as coisas começarem a cair e rolar de um lado para o outro, enquanto o navio se agita com as imensas ondas.
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  O barulho da chuva se mistura ao som das ondas batendo contra o casco do navio. Ouço o Capitão do lado de fora: “Façam o aquartelamento e vamos navegar com as ondas. Lancem o drogue ou a âncora de capa; essas serão nossas opções para enfrentar essa tempestade”, dando ordens aos piratas, que gritavam mais alto que o barulho da tempestade, confirmando as instruções recebidas. Um relâmpago corta o céu, e um clarão entra pela janela, iluminando meu quarto por alguns segundos.
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  Penso em deixar o lampião aceso, mas temo que ele caia da mesa e cause um incêndio, então permaneço abraçado aos meus joelhos no escuro.
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  Não sei ao certo por quanto tempo a tempestade durou, mas foi uma longa noite de tormenta. Houve até um momento em que acreditei que o navio iria virar, pois minha cama quase se virou, mas isso não me impediu de cair no chão. Quando o navio se estabilizou, meu coração se acalmou e as vozes do outro lado da porta se silenciaram. Não estávamos totalmente em silêncio, pois a chuva ainda caía sobre o navio. Coloquei-me debaixo dos lençóis e finalmente me entreguei ao cansaço, navegando pelo mundo dos sonhos, onde havia mãos tatuadas e olhos dourados vazios.
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  Agradeci ao Spike por ter me trazido o café da manhã e me perguntei quem preparava as refeições do Capitão e da tripulação. Em minha bandeja havia um copo com suco de laranja, uma fatia de pão com manteiga e algumas frutas cortadas. Achei muito atencioso da parte de quem preparou tudo isso para mim. Quando terminei, pensei em chamar por Spike, mas também poderia levar até a ala da cozinha; isso não me custaria nada e eu não queria passar mais uma manhã trancado nesse quarto.
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  Com a bandeja em mãos, segui pelo corredor, lembrando-me da primeira noite em que Spike me levou para jantar com o Capitão %Corvane%. As portas por onde passava estavam sempre fechadas, o que despertou minha curiosidade sobre o que havia por trás delas. Empurrei a porta com a grande maçaneta de prata e encontrei a mesa impecavelmente arrumada, como se nunca tivesse sido usada. Passei por ela, admirando os três castiçais de ouro que estavam sobre a mesa, os quais combinavam perfeitamente com os detalhes da toalha abaixo deles. Caminhei até a porta do outro lado da sala, entrando na cozinha, que estava vazia naquele momento, aumentando ainda mais minha curiosidade sobre quem cozinhava no navio.
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  Fiz o mesmo caminho de volta, mas decidi subir para a parte de cima do navio e pegar um pouco de sol, já que o tempo havia mudado novamente. No entanto, parei ao ver uma porta com desenhos esculpidos. Toquei com os dedos, traçando alguns desenhos com meu dedo indicador, e a porta, que estava apenas encostada, se abriu.
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  Olhei rapidamente para os lados, temendo que alguém pensasse que eu havia forçado a porta, mas soltei o ar aliviado por estar sozinho.
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  — Oi!? Tem alguém aí dentro? — perguntei, colocando minha cabeça para dentro, e vendo que era um quarto.
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  Estava vazio, era muito luxuoso. Me fazia lembrar um pouco do meu quarto no Palácio, mas os móveis tinham sua própria beleza. Entrei e encostei a porta atrás de mim, sei que era errado estar ali, mas também queria saber de quem era aquele quarto.
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  O cheiro que estava no ar, me pareceu familiar, mas não consegui identificar onde havia sentido aquele cheiro. Um cheiro amadeirado com um frescor, como uma chuva no final de um dia quente de verão, reconfortante… inebriante. A mesa que havia mais a frente, me chamou a atenção, devido ao tanto de mapas espalhados sobre ela. Uma caligrafia fina e corrida, estava rabiscado em vários cantos dos vários mapas, com palavras que não reconheci.
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  Olhei para trás e ao lado da cama, havia algo encoberto por um pano azul escuro, entre a poltrona e uma cômoda, havia outro pano azul escuro. Uni minhas sobrancelhas e caminhei até o pano, meio receoso sobre o que poderia ter ali embaixo, que senti meu coração se acelerar em expectativa. Prendi o ar, e levei minha mão direita até tocar o tecido, e quando o puxei, um grito saiu por meus lábios quando encarei olhos verdes arregalados. Era um espelho. Fiquei tão apreensivo sobre o que poderia ser, que me assustei com meu próprio reflexo.
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  Por que o espelho estaria coberto? Isso não fazia sentido nenhum. Puxei o pano do outro, me deparando com outro espelho, mas este estava trincado, como se alguém o tivesse dado um soco bem em seu meio. Ainda não havia descoberto de quem pertencia àquele quarto, mas era de alguém que não gostava de seu próprio reflexo.
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  Me afastei dos espelhos os deixando descobertos, depois, antes de sair, os cobriria novamente. Passei meus dedos pelos diversos livros que estavam lindamente expostos em uma estante de madeira escura, quando fui puxar um livro, cujo nome na lombar dizia “As respostas para entrar no vale da morte”, duas mãos tatuadas, que eu sabia muito bem de quem eram, pousaram uma de cada lado do meu corpo, espalmadas na estante, me prendendo entre a estante e seu corpo. O cheiro amadeirado e fresco, se tornou mais forte deixando-me ciente de quem o quarto pertencia.
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  — O que faz no meu quarto, Alteza? — indagou com aquele mesmo tom de voz sussurrante, próximo ao meu ouvido, deixando-me sentir seu ar sendo solto diretamente no meu lóbulo.
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  — Seu quarto? — Tento me fingir de inocente, mas não consigo evitar meu corpo de se arrepiar. — Eu não sabia de quem era o quarto, Capitão.
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  — Não? — perguntou ainda perto demais do meu ouvido. — Já te falaram que você é muito xereta? — Riu soprado, fazendo até algumas mechas do meu cabelo vir pra frente.
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  Soltei meu ar, e quase deixei que um som involuntário saísse dos meus lábios. O Capitão ainda me prendia contra a estante e seu corpo, então me virei em seus braços para poder olhar em seus olhos, encontrando olhos dourados vazios.
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  — Talvez… — sussurrei e meu olhos me traíram e olharam para seus lábios, mas os forcei a voltarem para cima. — Eu gosto de explorar, e como sempre fui um pouco sozinho, era um dos meus passatempos favoritos no Palácio. — Dei um pequeno sorriso.
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  Ele umedeceu os seus lábios e me olhou da mesma forma, fazendo o mesmo caminho por todo meu rosto.
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  — Hmmm, então você é um explorador — comentou retoricamente para si mesmo. — Sabia que já é uma característica e tanto para ser um pirata? — Ergueu ambas as sobrancelhas e me olhou de um jeito mais divertido, ainda perto demais que sentia até mesmo seu hálito em meu rosto.
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  — Jura? — Não consegui segurar a euforia que tomou meu peito, por ouvir tais palavras. Meu sorriso se formou automaticamente em meu rosto. — Você não está brincando comigo, Capitão? — Desmanchei meu sorriso o encarando profundamente. — Isso seria maldade da sua parte.
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  O capitão acabou sorrindo um pouco de lado, erguendo um de seus ombros.
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  — Todo pirata precisa de um pouco ou de muita maldade também — sussurrou no meu ouvido como um segredo.
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  — Então morre aqui minha vocação para ser pirata — contei sincero para ele. — Jamais conseguiria ser mau.
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  Ele fitou meus olhos e pude ver seu olhar ficar intenso em mim, parecia que ele estava me estudando, como se eu fosse um livro que ele estivesse lendo e tentando entender o que estava escrito. Então ele me soltou, se afastando e deixando até mesmo frio o lugar que ocupava.
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  — Você deveria ler esse livro. — Indicou o livro que eu tinha pegado antes. — É para lá que estamos indo. Seria prudente você conhecer a bruxa que tanto o quer.
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  — Vou levar ele então. — Acabei pegando o livro e voltei meus olhos para ele. — Vou voltar para meu quarto, mas antes, posso lhe fazer uma pergunta? — Esperava que sua resposta fosse um “sim”, porque realmente fiquei curioso com o que vi.
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  — Pode, mas não prometo responder — foi o que respondeu ao dar a volta na mesa, pegando alguns mapas que estavam espalhados por ela.
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  — Certo. — Isso já era melhor que nada. — Por que seus espelhos ficam cobertos? — Mantive meu olhar preso nele.
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  Vi que ele travou, parou de mexer nos mapas e ficou encarando algum ponto da mesa por longos segundos. Mas logo soltou o ar, sem me olhar de volta.
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  — Porque não gosto do que vejo quando olho para eles — murmurou tão baixo que mal consegui ouvir.
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  Franzi ainda mais minhas sobrancelhas, sem entender nada do que falou. Ele era muito bonito, e o que ele via se não era a própria beleza?
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  — Obrigado pelo livro — o agradeci e caminhei até a porta, deixando-o com seus mapas. — Quando terminar de ler, peço para Spike lhe trazer — murmurei segurando a maçaneta da porta.
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  — %Elliot% — me chamou antes que eu saísse, dessa vez ergueu seu rosto e me encarou. — Você mesmo pode vir me entregar.
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  O olhei intrigado, mas sorri amável para ele, e sai do seu quarto, tentando controlar minha respiração.
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(...)

  Não sei quanto tempo estou encarando esse livro, mas já escureceu lá fora a algum tempo. Me levanto e vou em busca do lampião e volto a me sentar no chão, diante do livro. Cada vez que meus dedos tocam a sua capa, um arrepio percorre meu corpo e uma sensação de pânico me domina, fazendo-me ficar até mesmo sem ar. Ainda não consigo entender o que realmente a feiticeira quer comigo, e sei que talvez a resposta para essa pergunta esteja gravada nas páginas deste grosso livro.
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  Por um impulso de coragem, volto a tocar o livro e abro em sua primeira página.
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“Quando no Vale da Morte entrar, você deverá procurar, em meio às trevas e podridões, lá a encontrarão.
Nas profundezas, vestida com a elegância das almas, um sorriso dará, para quem lhe aceitar.
A beleza reluzente a você lhe dará e para si, sua plenitude tomará, seu desejo ela lhe concederá, e sua vida ficará. Apenas seu corpo retornará.
Se tiver medo de prosseguir aconselho a desistir, pois com apenas um sopro, tomará sua essência e com isso deixará de sentir.
Com esse sopro a rainha do vale sentirá e você, vagará para onde ela mandar. Mas não fique triste, pois seu desejo de alma ela atenderá.
Preste muita atenção nessas palavras e se decidir continuar tenha em mente que você poderá não voltar, e dela para sempre será.”

  Reli mais uma vez, sentindo meu corpo se arrepiar pela segunda vez. O aviso é claro e não tenho certeza se realmente deveria continuar a leitura. Ser conhecida como Feiticeira da Morte já me parece esclarecedor o suficiente sobre o que ela pretende fazer comigo, e como o próprio aviso diz, quem a seguir tem grandes chances de jamais voltar.
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  Fechei o livro e o joguei embaixo da cama, fui até o banheiro e entrei na água fria da minha banheira. Sentir o contato do gelo em minha pele faz com que minha mente se apague, e a única coisa que sinto no momento é vontade de gritar.
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  Tomei um banho rápido e o que mais senti falta do Palácio foram meus sais de banho. Senti falta do cheiro das rosas na minha pele, mas me contentei com o sabonete de lírios que tinha à disposição. Minhas roupas eram outra questão; não tinha nada do que usava no Palácio, mas também não eram como as dos piratas. Coloquei uma calça e uma blusa transparente de botões, fiz um meio coque no meu cabelo, deixando o resto solto.
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  Precisei respirar ar fresco, mesmo que todos já estivessem dormindo e fosse muito tarde da noite. Talvez olhar as estrelas tranquilizasse meu coração, pelo menos um pouco. Mas não esperava encontrar um corpo no escuro, encostado na borda do navio, apreciando o mar.
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  — Quem está aí? — perguntei em voz baixa, me aproximando lentamente.
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  O homem que estava de costas para mim, se virou, mas ainda não consegui ver seu rosto.
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  — Perdeu o sono? — questionou-me fazendo reconhecê-lo na mesma hora pelo som de sua voz.
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  Um sorriso se formou em meus lábios, mesmo não tendo a certeza se ele poderia vê-lo.
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  — Posso dizer que sim. E você, Capitão? — Mais perto dele, pude sentir seu cheiro amadeirado e fresco. Puxei o ar profundamente, relaxando meu corpo.
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  — Posso dizer que sim — imitou a minha resposta, mas com o tom mais melancólico. — Gosto de ver como as ondas do mar parecem valsar diante da luz do luar. — Seu rosto virou para a direção da água.
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  Me inclinei sobre a borda e olhei a água tão negra quanto a noite.
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  — Sempre gostei de apreciar o mar. Para mim soa como poesia, ver o céu se fundir ao mar no Horizonte — sussurrei mais para mim, do que para ele.
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  — O mar é como uma poesia mesmo, tanto das mais brutais, como das românticas. Perigoso, porém sedutor. Romântico, mas traiçoeiro. Sagaz e indulgente. Ele foi feito para ser admirado, de fato, mas jamais para ser compreendido. — Seu tom também era baixo, sussurrante e continha uma admiração louvável. — Você gosta de poesia? — Senti agora seu olhar em mim.
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  Precisei controlar minha respiração, meu corpo esquentou com suas palavras, com seu tom de voz e com sua sagaz observação sobre o mar.
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  — Admiração, acho que essa seria a palavra. — Não ousei olhar em seus olhos. — Admiração por quem descreve seus sentimentos tão perfeitamente, em simples palavras.
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  — De fato. Sentimentos são como o mar, não foram feitos para serem compreendidos e sim… sentidos. — Ouvi ele suspirar longamente.
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  — Não consegui ler o livro — quebrei o silêncio que nos envolveu por alguns minutos. — Não quero saber o que a feiticeira pretende fazer comigo. Como é chamada, já deixa muito claro — confessei desanimado.
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  — Acho que seria prudente conhecer seu destino, vai que você possa conhecê-la melhor para barganhar. Afinal, isso que ela é, isso que ela sabe fazer. — Ergueu seu ombro. — O desconhecido assusta até o ponto que você o conhece, jovem príncipe.
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  — E o que eu teria para lhe oferecer? Até mesmo você recusou, isso me faz acreditar que não tenha nada que lhe ofereça, que será da altura do que ela deseja. — Finalmente olhei em seus olhos, tão vazios quanto as outras vezes. — E mesmo assim, não sei o que tenho de especial, que atraiu um ser que jamais ouvi falar em minha vida.
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  — Faz um bom tempo que nada me intriga, Alteza. Eu já vi exatamente de tudo, coisas que você jamais imaginaria, coisas que existem em livros, outras que não. Então nada nesse universo é novo para mim — comentou olhando novamente o mar, soltando mais uma vez um longo tedioso suspiro antes de me olhar. — Mas você me intriga. A cada passo que eu olho para você, eu quero saber mais. Talvez eu esteja começando a entender a feiticeira. — Vi ele umedecer os seus lábios ao aprofundar seus olhos em mim.
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  — E o que você vê em mim, Capitão? — perguntei encarando seus lábios lustrosos. — Porque eu não vejo nada de intrigante ou até mesmo especial.
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  — Talvez você seja como o mar, Alteza. Não é para ser compreendido, mas sim admirado — sussurrou tão baixo que se não estivéssemos próximos, não o ouviria.
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  Busquei em seus olhos verdade, algo que realmente fosse isso mesmo que ele pensava sobre mim, mas não tinha nada. Nada além do vazio.
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  — Lindas palavras, Capitão, mas seus olhos não me dizem o mesmo que seus lábios — questionei o encarando mais perto.
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  Ele se aproximou mais ainda de mim, fazendo com que desaparecesse qualquer espaço entre nós dois. Sua respiração batia quente contra o meu rosto.
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  — O que você vê quando olha para eles? — indagou me fazendo olhar dentro daqueles orbes que estavam praticamente douradas.
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  — Nada. Vejo um vazio profundo, algo que nunca vi antes em toda minha vida — sussurrei para ele. — Diferente do que você vê em meus olhos, estou certo?
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  Seus olhos desceram pelo meu rosto, parecia desenhar cada traço em mim, até mesmo decorando. Então voltou seu olhar no meu, com mais profundidade.
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  — Você vê a verdade — contou com a voz rouca. — Não existe nada dentro de mim. Só o vazio. — Então voltou a se afastar.
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  — Porque você não se permite sentir, Capitão! — Segurei sua mão, e ela estava tão gelada quanto a água em um dia de inverno. — É isso que ela lhe dará?
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  Ele riu daquela mesma forma melancólica que muitas vezes continha em suas palavras.
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  — Sim — respondeu simplesmente. — Você em troca dos meus sentimentos. — Torceu os lábios. — Não é nada pessoal, Alteza, como eu disse.
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  Respirei fundo, soltando sua mão e me virando para o horizonte escuro daquela noite.
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  — Se isso fará bem para você, tudo bem para mim também — concluí para ele. — Isso não deve ser pior do que o que me aguarda, se eu voltasse para o Palácio. — Uma lágrima desceu por minha bochecha, mas a sequei antes que ele percebesse.
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  Sentia o capitão me encarar, em silêncio. Ele demorou um tempo para se movimentar ao meu lado, pude ouvir ele tentar falar algumas vezes, mas parecia desistir toda vez.
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  — Você é de fato o ser mais intrigante que já conheci em toda minha vida — murmurou surpreso. — Como você… como faz isso?
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  — Isso não é grande coisa, Capitão. — Me virei, ficando de frente para ele, novamente. — Na verdade me parece muito fácil. Já lhe contei que nasci para ser o que os outros esperam de mim, me adaptar às necessidades daqueles que me cercam. Isso é óbvio, você precisa que eu seja uma moeda de troca, e eu serei a moeda de troca. — Sorri fraquinho para ele. — Talvez essa feiticeira não seja tão má assim.
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  Ele se virou para mim também, ficando mais próximo, sem desviar seus olhos dos meus. O que estava disposto a fazer por ele, eu faria por outra pessoa também. Alguém precisava da minha ajuda, e eu ajudaria de bom grado.
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  — E o que você realmente deseja? — perguntou intrigado. — Qual seu desejo mais profundo e sombrio? O que o %Elliot% quer de verdade, não o que seu pai quer, o reino quer ou até mesmo eu queira.
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  — Você não entenderia. — Abaixei minha cabeça e soltei todo o ar do meu corpo, sentindo meu peito doer pelo ato.
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  Senti seu toque no meu queixo, fazendo com que eu erguesse meu rosto e voltasse a olhar para ele.
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  — Tenta — pediu ainda com a voz rouca e baixa.
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  — Ser livre… apenas isso. Nada sombrio, nada fabuloso. Amar quem meu coração um dia escolher, sorrir sem ser forçado e apenas viver sem ser forçado a nada. — Um peso saiu dos meus ombros ao confessar para ele, e por um segundo, quase acreditei ter visto um brilho em seus olhos.
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  — Você pode ser livre enquanto estiver aqui. Sei que você não está aqui por vontade própria, mas temos um tempo para chegar até a feiticeira. Por que você não se permite ser o que quer ser? Ninguém aqui neste navio o julgaria. Somos ladrões, exilados, odiados na maioria dos reinados e sabe o motivo disso? Porque somos livres, o mar nos deu essa liberdade. Podemos sorrir do que quisermos, gargalhar sem ser julgados, beber até perdermos nossa dignidade e transar com quem quisermos, com quantas pessoas quisermos. — Ele abriu os braços como se estivesse me dando o mundo. — Não precisa ser o príncipe aqui. Seja o %Elliot% que quiser ser.
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  — Mesmo se ninguém gostar do %Elliot%? Ninguém nunca viu o verdadeiro %Elliot%, nem mesmo meus pais e irmão. — Não sei se estaria pronto para deixar de ser o antigo %Elliot%, para deixar o verdadeiro amostra para todos. — Não sei nem por onde começaria.
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  — Certo, primeiro de tudo quem tem que gostar de você aqui, é você mesmo. Como alguém vai gostar de você se nem você mesmo se gosta ou se conhece — rebateu com prontidão e bem certo do que falava. — Teremos uma parada daqui um dia e meio. Vamos descer juntos e então você começará a montar quem você quer mesmo ser.
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  O capitão esticou sua mão na minha direção como se estivéssemos fazendo um acordo.
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  — Aceita?
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  — Aceito! — Sorri para ele, vendo-o pressionar seus lábios, evitando sorrir também. — Sem julgamentos, certo?
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  Ele lambeu seus lábios que estavam quase formando um sorriso de canto.
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  — Quem sou eu para julgar? — Ergueu suas sobrancelhas.
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  — Então temos um acordo, Capitão. Não reclame depois, porque você acaba de criar um monstrinho.
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  Deixei minhas covinhas amostra em meu melhor sorriso, soltei sua mão após o nosso aperto, que selou o acordo.
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  — Eu gosto de monstros — brincou, piscando seu olho para mim.
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  Com o coração acelerado, minhas mãos suando, meu corpo quente e minhas bochechas coradas, voltei para meu quarto. A sensação de que estava indo em direção a minha morte, foi dissipada de minha mente, dando lugar a novas possibilidades, novas aventuras, e talvez novos obstáculos. Com tudo, ainda assim, um sentimento novo percorreu meu corpo, algo desconhecido, algo genuinamente lindo e puro.
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  A única coisa que tinha certeza, além de estar sendo levado para uma feiticeira, era que queria explorar esse sentimento, seja como for ou com quem for, eu seria livre pelo tempo que eu pudesse.
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  Dou uma pequena gargalhada, deitado em minha cama, ao estar cogitando seguir os conselhos de um pirata que está claramente me usando.
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  Mas pela primeira vez, me senti vivo.
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Capítulo 3

Nota das autoras:
Leu? Então conta pra gente o que achou! 👀 ❤️ Cada comentário faz nossas autoras aqui surtarem um pouquinho mais. 😂
— Sereia & bru_ZH


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Lelen

AI, A GENTE VAI VER O ELLIOT FINALMENTE VIVENDO? 🥹🥹🥹
A gente já vai chegar na feiticeira, ou vamos ter mais aventuras antes? E perigos? Vamos enfrentar um kraken? HAHAHAHAH

Sereia

Meninaaa, vamos enfrentar muitas coisas por aí e uma coisa que o Elliot poderá dizer é: Pois, eu vivi! kkkkkkkkkkkkkkkk obrigada pelo comentário!!

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