Capítulo 2
O relógio do escritório parecia estar travado, arrastando os ponteiros em uma lentidão agoniante durante toda a tarde. %Layla% mal conseguia se concentrar nos processos de custódia e proteção que empilhavam sua mesa. A mente dela insistia em desviar para o convite de Tom. Por que ela tinha aceitado? Por que aquela sensação de que algo estava prestes a mudar a assombrava — ou a excitava — desde o almoço?
Ela arrumou sua pasta, fechou o computador e, antes de sair, passou o perfume novamente. Era um gesto de controle. Ela precisava se sentir ela mesma antes de enfrentar o desconhecido. Quando desceu para o estacionamento, lá estava o carro de Tom. Ele não estava encostado do lado de fora dessa vez; ele a esperava na saída privativa, com o vidro abaixado. Vestia uma jaqueta de couro escura e uma camiseta básica, um visual mais urbano e menos “astro de cinema” do que ela estava acostumada a ver.
— Pontual como um relógio suíço — ele disse, com aquele sorriso de canto que parecia ter a capacidade de desarmar qualquer defesa que ela montasse.
— Eu não gosto de fazer as pessoas esperarem, e você sabe disso — ela rebateu, entrando no carro e sentindo o cheiro familiar do interior do veículo, agora misturado com um toque sutil de um perfume amadeirado dele. — Mas temos uma parada estratégica antes de qualquer surpresa. Preciso passar na casa da minha mãe para buscar o %Ryan%. Ele vai com a gente, não esqueceu, né?
Tom riu, aquele riso travesso e cúmplice que só ela conhecia.
— Como eu poderia esquecer? Ele vai adorar o que preparei. E eu fiz questão de que ele estivesse lá.
O trajeto até a casa da mãe de %Layla% foi preenchido por uma conversa leve, mas ela sentia o olhar de Tom sobre si a cada parada no sinal vermelho. Quando estacionaram, %Ryan% já estava na varanda. Ele saltou de alegria ao ver o carro de Tom, sua mochila de Vingadores já nas costas.
— Tio Tom! Você veio! — o menino gritou, correndo para abraçar as pernas do ator antes mesmo que ele terminasse de estacionar.
Tom se abaixou, cumprimentando o afilhado com um carinho que sempre deixava o coração de %Layla% derretido.
— Pronto para a maior aventura da sua vida, pequeno? — Tom perguntou, piscando para %Layla%.
Eles deixaram a casa da avó de %Ryan%, seguidos de risadas e da empolgação contagiante do menino, e seguiram para a casa de %Layla%. Lá, ela subiu para trocar de roupa. Ela foi direto para o chuveiro, deixando a água quente lavar não apenas o cansaço, mas também a rigidez que o cargo de Promotora exigia dela. Ao se vestir, ela olhou para a própria imagem no espelho com um propósito novo. Ela optou por um jeans de lavagem escura que desenhava perfeitamente suas curvas, combinado com uma blusa tomara que caia, que imitava couro ajustada exatamente para o formato de seu busto e seios, com um decote sutil que revelava a pele na medida certa e uma jaqueta que combinava com o jeans. Nos pés, botas de cano curto.
Quando ela surgiu na calçada, Tom estava encostado na lateral do carro, e %Ryan% estava no banco de trás, cantarolando uma trilha sonora de filme de ação. Tom a viu se aproximar, e por um breve instante ele perdeu a pose de galã. O olhar dele desceu e subiu, aprovando silenciosamente cada detalhe. O brilho nos olhos dele não era mais de “melhor amigo”; era de um homem que estava muito ciente de quem ele tinha ao lado.
— Você está... deslumbrante — ele comentou, abrindo a porta do carro com uma reverência teatral. — Acho que o pessoal lá em cima não vai estar preparado para a Promotora fora do tribunal.
— Não me faça arrepender de ter vindo — ela brincou, sentindo-se confiante.
O destino era a casa de Chris Hemsworth em Malibu. Ao chegarem, a música alta, o som de risadas e o cheiro de um churrasco sofisticado indicavam que a festa estava longe de acabar. Quando entraram, %Ryan% foi o primeiro a pular do carro. Ele travou na entrada, os olhos arregalados, a boca aberta ao reconhecer cada um dos rostos ali presentes.
Para o menino, que era um fã fanático da Marvel, aquilo era o paraíso. Ele mal conseguia respirar quando viu Tom Holland e Zendaya conversando perto da piscina, mas o choque absoluto veio quando ele avistou Robert Downey Jr. sentado em uma poltrona, rindo com Chris Evans e Chris Hemsworth.
— É... é o Homem de Ferro! — %Ryan% sussurrou, a voz falhando.
Tom colocou a mão no ombro do menino, empurrando-o gentilmente para frente.
— Vai lá, campeão. Eles estão esperando por você.
A cena que se seguiu foi mágica. %Ryan%, o pequeno fã, foi recebido pelos maiores heróis do cinema como se fosse um convidado de honra. Chris Hemsworth se agachou para cumprimentar o menino, e Robert Downey Jr. abriu um sorriso largo, fazendo um sinal de “joinha” que fez %Ryan% saltar de felicidade. %Layla% ficou encostada na porta, observando tudo, com lágrimas de emoção nos olhos. Tom, que permanecia ao seu lado, olhava para ela com uma ternura imensa.
— Viu só? — ele sussurrou, a mão quente encontrando a cintura dela. — Ele merece cada segundo disso. E você também.
Dentro da festa, %Layla% foi envolvida pelo ambiente. Ela conversou com Zendaya sobre projetos sociais, enquanto Tom não a deixou solta por um segundo. Ele a apresentava a todos — desde os atores até a equipe técnica — com um orgulho indisfarçável.
Sentindo a proximidade elétrica de Tom, ela virou o rosto para ele.
— Você que parece preocupado. Algum problema com o seu “vilão”? — ela brincou, desafiadora.
Ele riu, e dessa vez o olhar dele foi profundo, direto, sem máscaras.
— O vilão está muito ocupado tentando manter o foco no resto da festa, porque a única coisa que ele realmente quer olhar hoje à noite é você.
A conversa fluiu para o planejamento do casamento de Holland e Zendaya. Em meio aos planos, Zendaya virou-se para Hiddleston:
— E você, Tom? Já decidiu quem vai ser a sua acompanhante oficial? — ela perguntou, lançando um olhar sutil para %Layla%.
Sem hesitar, Tom respondeu com uma naturalidade que, por dentro, ele não sentia:
— Eu já decidi. A %Layla% vai comigo.
Antes que %Layla% pudesse questionar, Chris Evans surgiu, tentando manter um clima de segredo com Alba Baptista. A casa estava vibrante, cheia de segredos e promessas. Elsa Pataky, percebendo o clima entre Tom e %Layla%, aproximou-se com seu sorriso radiante, guiando %Layla% e as outras mulheres para a área da piscina.
O ambiente à beira da piscina era o oposto do caos vibrante. O reflexo das luzes subaquáticas dançava no fundo da água. Elsa, com a familiaridade de quem já viu de tudo, inclinou-se na direção de %Layla%.
— Então, %Layla%... O Tom está muito mais atento hoje do que o habitual. Faz tempo que vocês estão nessa dinâmica? Ou esse interesse todo é uma novidade?
%Layla% sentiu o peso da pergunta.
— É apenas amizade, Elsa — ela respondeu, mantendo a voz firme, embora pudesse sentir as bochechas esquentarem.
Enquanto as mulheres conversavam, do outro lado do pátio, perto da mureta, a conversa entre os homens não era tão leve. Chris Hemsworth observava o amigo.
— Você está se punindo por algo que você supõe que o Ralph não gostaria que você fizesse — Chris disse, a voz baixa, quase um rosnado de conselho entre irmãos. — O Ralph se foi, Tom. Ele não gostaria de ver a %Layla% sozinha, muito menos de ver você vivendo na culpa. Fora que eles já estavam separados quando ele morreu. Você se lembra disso, não é? — Hiddleston assentiu. — Se você a ama, ou se está começando a sentir isso, você não está traindo a memória dele. Você está honrando o fato de que ele confiava em você para cuidar dela.
Tom engoliu seco. A ideia era uma faca de dois gumes: o alívio que aquela perspectiva trazia e a dor avassaladora de saber que, no fundo, ele queria ter o direito de amar %Layla% sem que a sombra do amigo pairasse sobre cada beijo que ele não dava, cada carinho que ele guardava.
— Não é tão simples, Chris — Tom respondeu, olhando para a piscina onde %Layla% conversava. — Ela me vê como um porto seguro. Se eu quebrar essa barreira e der errado... eu não perco só a mulher que me desperta algo que eu não sentia há muito tempo. Eu perco a pessoa que me mantém com os pés no chão. Eu perco a minha melhor amiga.
Ele deu um gole longo no seu drinque, o olhar fixo em %Layla%. Naquele momento, ele parecia menos o “vilão de Asgard” e mais um homem vulnerável, tentando desesperadamente decidir se o risco valia o prêmio.
Duas horas se passaram desde que a conversa com Elsa tinha deixado %Layla% com as bochechas coradas e o coração disparado. A festa em Malibu começava a mudar de ritmo; a música agitada tinha dado lugar a um som mais ambiente, e a luz das estrelas, competindo com a iluminação sofisticada da casa de Chris Hemsworth, criava uma atmosfera quase cinematográfica. %Layla% estava encostada na bancada da área gourmet, observando o movimento, sentindo a brisa fresca que vinha do oceano.
Ela sentiu o toque antes mesmo de ver quem era. O braço de Tom envolveu seus ombros com uma familiaridade possessiva, o calor do corpo dele colando-se ao dela, deixando um rastro de eletricidade por onde passava. Ele se inclinou, e o perfume dele — uma mistura inebriante de sândalo e algo que parecia couro — invadiu seus sentidos.
— Sabe, Promotora... — ele começou, a voz num sussurro rouco rente ao ouvido dela, fazendo os pelos do seu braço se arrepiarem instantaneamente. — É um crime você estar parada aqui, sendo a pessoa mais perigosa e magnética dessa festa, enquanto a pista está implorando por uma atenção que só você poderia dar. Se eu fosse o júri, eu te sentenciaria a, pelo menos, uma dança comigo.
%Layla% soltou uma risada baixa, sentindo o rosto esquentar, mas virou-se para encará-lo. O olhar de Tom estava carregado de uma intensidade que ela não via há muito tempo. A “piadinha” sexy tinha um tom de verdade que a desarmava.
— Você está abusando do seu direito de palavra hoje, Thomas — ela retrucou, o sorriso desafiador brincando nos lábios. — E eu estou começando a achar que esse seu “vilão” interior está saindo mais do que deveria.
Tom sorriu de lado, o brilho nos olhos denunciando que ele adorava o desafio. Ele deixou a mão descansar um pouco mais firme na curva do ombro dela, apertando levemente antes de se afastar um centímetro, mantendo a conexão.
— Falando nele, onde está o nosso pequeno parceiro? — Tom perguntou, olhando ao redor, procurando pela figura agitada que, até pouco tempo, dominava a atenção de todos. — Ele sumiu do meu campo de visão faz um tempo. Onde está o %Ryan%?
%Layla% apontou para a sala de estar, onde um sofá de couro imenso ocupava o centro do espaço.
— Ele simplesmente apagou — ela respondeu, com um sorriso maternal e doce. — Está lá, no sofá do Hemsworth. O menino teve a noite da vida dele. Acho que tanta emoção de ver os heróis da Marvel ao vivo acabou sugando toda a energia que ele tinha acumulado nas últimas semanas.
Tom soltou uma risada alta, um som genuíno que fez o peito de %Layla% aquecer.
— Bom, eu não culpo o garoto — ele disse, balançando a cabeça. — Passar o dia sendo bombardeado por tanta grandiosidade, autógrafos e histórias épicas... qualquer um se cansaria. É difícil manter o nível quando se está no meio de “Vingadores”. Parece que eles esgotaram o nosso pequeno herói.
Ele deu um gole no seu drinque, o olhar fixo nela, um silêncio confortável se instalando entre os dois.
— Está ficando tarde e ele tem escola amanhã cedo, né? — Tom perguntou, a voz subindo uma oitava, voltando ao tom cuidadoso que ele usava quando o assunto era o bem-estar do %Ryan%. — Você quer ir embora? Posso pedir para alguém chamar o carro, ou eu mesmo te levo, claro. A gente não precisa ficar até o último minuto.
%Layla% olhou para %Ryan%, lá no sofá, e depois para Tom. A oferta dele de sair — de abrir mão da festa para garantir o conforto dela e do filho — pesou mais do que qualquer palavra.
— Acho que é uma boa ideia. Ele vai ser um pesadelo para acordar amanhã se não for para a cama agora.
Eles começaram a rodada de despedidas, um processo lento de agradecimentos e promessas de encontros futuros. Quando finalmente chegaram à sala, Tom não hesitou. Ele se aproximou do sofá, onde %Ryan% dormia profundamente, a cabeça tombada num travesseiro de veludo. Com uma delicadeza que surpreenderia qualquer um que o conhecesse apenas pelas telas, Tom se ajoelhou e, com movimentos lentos e precisos, ergueu o menino.
%Ryan% resmungou um pouco, o corpo pequeno relaxando completamente contra o peito largo de Tom. O ator ajeitou o peso com facilidade, dando um suporte firme nas costas do afilhado. %Layla% caminhou ao lado deles, observando a cena como se fosse um retrato perfeito. Tom, com %Ryan% no colo, caminhando em direção à saída da casa de Hemsworth, parecia tão natural — tão
certo — que o coração de %Layla% parecia querer sair pela boca.
Perto da porta de saída, sob a luz suave do corredor, Tom Holland e Zendaya estavam encostados em uma pilastra, observando a movimentação. O ator de Spider-Man, com os braços cruzados, viu a cena de Tom Hiddleston saindo com o menino adormecido e %Layla% ao seu lado, cuidando para que a mochila do pequeno não caísse.
Holland deu um cutucão leve na namorada, fazendo um sinal de cabeça para os três que passavam. Zendaya seguiu o olhar, um sorriso suave se formando em seus lábios enquanto observava a dinâmica deles.
— Olha só para eles — Holland murmurou para ela, a voz carregada de uma admiração sincera. — Eles formam uma família muito bonita, né?
Zendaya assentiu, observando o cuidado com que Hiddleston protegia o sono da criança.
— Sim — ela respondeu, a voz quase um suspiro. — É estranho, mas parece que eles sempre foram assim. Eles têm uma química... diferente.
Holland riu, um riso baixo e respeitoso.
— O Hiddleston é um cara de muita sorte, Zendaya. Ele não só ganhou a %Layla%, como parece que acabou de encontrar o que faltava na vida dele. É bonito de ver.
Sem ouvir a conversa, mas sentindo o peso daquele momento, Tom seguiu em frente, caminhando em direção ao carro sob o céu de Malibu, sem saber que, para os olhos de fora, o desafio que ele tinha se proposto a enfrentar já estava sendo vencido.
Tom caminhou pelo corredor da casa, os passos quase inaudíveis sobre o piso de madeira, carregando o peso leve e familiar de %Ryan% até o quarto do menino. Com a destreza de quem já conhecia cada rotina, ele acomodou o garoto sobre os lençóis macios, desvencilhando-o da mochila que ainda carregava nas costas. Ao puxar o cobertor, cobrindo-o com cuidado, Tom parou por um instante. Ele se inclinou, depositou um beijo suave na testa do pequeno e, com os dedos, afastou uma mecha de cabelo que caía sobre os olhos de %Ryan%.
— Boa noite, campeão — murmurou, sua voz tingida de uma ternura crua e genuína que ele não costumava mostrar ao mundo. — Tenha bons sonhos. — Fez um carinho lento em seus cabelos, observando-o com uma ternura que revelava o quanto aquela criança já significava para ele.
Da penumbra do corredor, %Layla% observava a cena, sentindo o coração apertar contra as costelas enquanto seus olhos marejavam com a pureza daquele momento; ela rapidamente disfarçou, limpando qualquer traço de emoção antes que ele se virasse para sair.
Ao acompanhá-lo até a porta, o clima que antes era de pura emoção transformou-se em uma leveza elétrica. Tom se virou, ajeitando a jaqueta, e deu um sorriso que misturava cansaço e satisfação.
— Acho que os Vingadores oficialmente aprovaram o novo integrante — ele brincou, fazendo %Layla% rir.
— Você foi incrível hoje, Thomas. Mesmo que tenha transformado meu filho no fã mais barulhento de Malibu — ela respondeu, com um brilho divertido no olhar. Eles trocaram mais algumas frases descontraídas sobre a reação de %Ryan% ao ver o Homem de Ferro, rindo de como a vida deles parecia ter saído de um roteiro improvável.
No momento da despedida, quando o silêncio se fez presente na varanda, Tom aproximou-se um pouco mais do que a amizade ditava. Ele se inclinou e, num gesto calculado e lento, deixou um beijo demorado exatamente no cantinho da boca de %Layla%, roçando a pele logo acima do lábio superior com um calor que a paralisou. O mundo pareceu cessar seu giro; um arrepio violento percorreu sua espinha, deixando-a tomada por uma euforia excitante e arrebatadora, enquanto ele se afastava com o mesmo ar de mistério que o acompanhava desde o primeiro momento do desafio.