Capítulo 1
A segunda-feira em Los Angeles amanheceu com aquele céu de um azul quase irreal, o sol da Califórnia prometendo esquentar o asfalto das avenidas antes mesmo das oito da manhã. %Layla% terminava de arrumar a mochila do %Ryan%, verificando pela terceira vez se ele não tinha esquecido o estojo de lápis de cor. Ela estava impecável, o terninho social de corte impecável que ela usava para trabalhar na Vara da Infância abraçando suas curvas com naturalidade, destacando sua silhueta cheia de curvas, feminina e imponente.
O barulho familiar de um motor potente lá fora a fez sorrir. Era Tom. Ele sempre chegava com aquela pontualidade britânica, algo que ela, em seus dias mais corridos, aprendera a apreciar como um presente.
— Vamos, pequeno, o tio Tom chegou — ela chamou, ajeitando o cabelo castanho escuro e pegando a bolsa.
%Ryan% saiu em disparada, atravessando a sala com a mochila balançando nas costas, e %Layla% o seguiu, respirando fundo o ar fresco da manhã. Quando ela abriu a porta da frente, lá estava ele, encostado no carro — um modelo sóbrio e elegante, que combinava perfeitamente com a postura de Tom. Ele vestia uma camisa de botão clara, com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os braços firmes que ela já tinha visto carregar de tudo, desde caixas de mudança até o próprio %Ryan% quando ele caía de cansaço.
— Bom dia, flores do dia! — Tom exclamou, um sorriso genuíno iluminando o rosto. Ele se abaixou para dar um abraço no menino, que riu alto antes de entrar no carro.
Tom se ergueu, seus olhos encontrando os de %Layla%. Não havia nada de diferente no olhar dele naquele momento — apenas o brilho habitual de ternura e aquele zelo protetor que ele mantinha sobre os dois desde que o mundo deles desmoronou anos atrás. Era um olhar de quem se sentia em casa ali.
— Tom, eu já disse que não precisa disso — %Layla% comentou, caminhando até ele enquanto ele abria a porta do carona para ela. — Eu tenho o meu carro, sei dirigir muito bem no trânsito de L.A., e você tem um dia cheio de compromissos e ensaios.
Ele a olhou por um instante, a mão ainda apoiada na porta do carro, numa atitude cavalheiresca que, para %Layla%, era apenas a essência de quem Tom sempre foi.
— E eu já disse que adoro dirigir — ele respondeu com aquela voz calma e aveludada, enquanto ela se acomodava no banco de couro. — Além do mais, você fica o dia todo resolvendo processos, tomando decisões difíceis sobre a vida dos outros. O mínimo que posso fazer é te poupar do estresse dessa rodovia. Vai descansando, bota uma música, aproveita o caminho. Hoje é meu dia de ser o motorista da família.
%Layla% riu, balançando a cabeça. "Família". Eles sempre brincavam com isso, e ela achava reconfortante como ele se encaixava tão bem na vida deles. Ela não percebeu o olhar dele demorar um segundo a mais do que o necessário enquanto ela se ajeitava no banco, ou como ele fechou a porta com uma delicadeza quase reverente.
Durante o trajeto, o silêncio era confortável, preenchido apenas pelo rádio num volume baixo e pelas conversas animadas de %Ryan% no banco de trás. Tom dirigia com uma mão no volante e a outra, de vez em quando, batucando levemente no console. Ele estava observando %Layla% de soslaio. Ela olhava para a paisagem urbana de Los Angeles, a luz do sol entrando pela janela e desenhando sombras suaves no seu rosto. Ele sentia uma satisfação estranha, um calor no peito que ele, racionalmente, rotulava como o prazer de estar cuidando de quem ele amava.
— Ei, %Layla% — ele começou, enquanto esperavam o sinal fechar em um cruzamento movimentado. — Estava pensando aqui... hoje você parece precisar de uma pausa decente. Por que não me deixa te buscar para almoçar? Conheço um lugar perto do seu escritório que serve uma comida bem honesta, nada daqueles pratos que você come correndo na frente do computador.
Ela virou-se para ele, surpresa, mas sem desconfiança. O rosto dela estava iluminado por um sorriso terno.
— Tom, você não tem um ensaio depois das doze?
— Eu dou um jeito — ele respondeu, dando de ombros, sem desviar os olhos da estrada. — O ensaio pode esperar uma hora a mais. O almoço com você, não. É uma oportunidade de garantir que você vai comer alguma coisa sólida hoje.
%Layla% sentiu aquele afeto de sempre. Era Tom sendo Tom. O homem que nunca os deixava faltar com nada, o amigo que, desde a morte de Ralph, tinha se transformado num pilar indestrutível. Ela esticou a mão e tocou levemente o ombro dele.
— Você é muito teimoso, sabia disso? Mas... tá bom. Se você insiste tanto em ser o meu anjo da guarda pessoal hoje, eu não vou reclamar.
Tom sorriu, aquele sorriso de quem guardava um segredo, mas os olhos continuavam limpos, fixos na tarefa de levá-los em segurança. Ele não estava tentando nada; ele estava apenas ali, cumprindo o desafio que ela, inconscientemente, tinha plantado no terreno mais fértil da vida dele. E, pela primeira vez, dirigir para a escola de %Ryan% e para o trabalho de %Layla% não parecia apenas uma ajuda — parecia, para ele, o começo de uma construção.
O silêncio no carro era um companheiro antigo, mas naquela manhã parecia ter uma textura diferente. Enquanto Tom conduzia o veículo com a destreza de quem conhecia cada curva daquela rota em Los Angeles, %Layla% aproveitava o trajeto para finalizar os últimos detalhes do visual. Ela tirou um espelhinho da bolsa, ajeitando uma mecha rebelde de seu cabelo castanho escuro, e passou um brilho labial com movimentos precisos, quase mecânicos.
Tom, posicionado com a calma de quem tinha o controle de tudo, mantinha o olhar fixo na pista, mas, a cada poucos segundos, permitia que seus olhos desviassem para o banco do carona. Ele observava cada movimento de %Layla%. O jeito que ela franzia levemente a testa ao conferir a maquiagem, a forma como seus dedos deslizavam pelos fios, o contorno suave do rosto que ele já conhecia de cor, mas que, naquele momento, parecia exibir detalhes novos. Ele registrava tudo, como se estivesse memorizando uma obra de arte que ele sempre admirou, mas que agora decidia apreciar com uma atenção inédita. Era um zelo silencioso, um apreço que ele ainda não sabia nomear, mas que o fazia sentir um calor sereno no peito.
— Você está muito pensativo hoje, Tom — %Layla% comentou, sem tirar os olhos do espelho, soltando uma risada suave. — Aconteceu alguma coisa no estúdio ou o trânsito de L.A. finalmente conseguiu quebrar sua paciência?
Ele piscou, saindo do transe, e abriu um sorriso tranquilo que alcançou seus olhos.
— Nada disso, %Layla%. Só estou curtindo o caminho. Às vezes a gente esquece de olhar um pouco para o lado, né?
Ela guardou o espelho e virou o corpo levemente para ele, com um sorriso brincalhão.
— Sei... Deve ser a idade chegando, hein? — ela provocou, sabendo que ele adorava quando ela fazia graça com os dez anos de diferença entre eles.
Antes que ele pudesse retrucar, o rádio, que até então servia apenas como ruído de fundo, começou a tocar os primeiros acordes de uma música pop animada — aquela que tinha se tornado o hino oficial das viagens de %Layla% e %Ryan%. O pequeno, que estava distraído com um jogo no tablet, soltou um grito de alegria lá atrás, e %Layla%, contagiada pela energia, aumentou o volume sem nem pensar.
Em questão de segundos, o carro foi invadido pela voz dela, acompanhando o refrão com uma empolgação contagiante, enquanto %Ryan%, no banco de trás, tentava cantar junto, errando a letra e rindo das próprias trapalhadas. A descontração tomou conta do ambiente. %Layla% batia palmas no ritmo, balançando a cabeça, o sorriso radiante iluminando todo o interior do carro.
Tom foi arrancado de seus devaneios profundos pelo volume e pela energia vibrante daquela cena. Ele olhou pelo retrovisor e viu o entusiasmo de %Ryan%, depois virou o rosto para %Layla%, que parecia brilhar com aquela simplicidade. O riso dela era honesto, livre, desprovido de qualquer preocupação com o trabalho na vara ou com a rotina pesada.
— Vamos, Tom! Canta aí também! — ela o chamou, dando um tapinha leve no braço dele, os olhos brilhando de diversão.
Ele riu, balançando a cabeça em negação, mas não conseguiu evitar que o sorriso abrisse mais, contagiado pela felicidade deles. Era aquela leveza que o atraía, a capacidade que ela tinha de transformar um trânsito monótono em um momento de pura alegria. Ele continuou dirigindo, mantendo o foco, mas dessa vez, ao olhar para ela, não havia apenas o zelo do amigo de longa data; havia uma faísca de algo mais, uma consciência que começava a despertar na mente dele, escondida sob aquela máscara de costume e amizade.
O carro reduziu a velocidade e estacionou suavemente diante do portão da escola. %Ryan%, ainda cantarolando o final da música que tocava minutos antes, soltou o cinto de segurança e pulou do banco. Tom desligou o motor, mas não antes de virar-se para o menino com um brilho divertido nos olhos.
— Ei, campeão! — Tom chamou, estendendo a mão.
O menino virou-se na hora, o rosto iluminado por um sorriso que refletia exatamente o carinho que sentia pelo "tio". Eles fizeram aquela sequência de movimentos ensaiada: um toque de palmas, um estalo de dedos e um aperto de mão firme que terminava com um soco leve no ombro. Era um ritual, uma marca registrada da cumplicidade que tinham construído ao longo dos anos.
— Boa aula, pequeno. Foca nos estudos e juízo no recreio, hein? — Tom disse, a voz num tom de cumplicidade que fez %Ryan% rir e sair correndo para encontrar os amigos.
Tom ficou ali por um segundo, observando o menino entrar no prédio. %Layla%, acompanhando a cena do banco do carona, sentiu aquela onda de gratidão de sempre. Era um conforto enorme saber que %Ryan% tinha essa figura masculina tão positiva, tão presente.
— Você mima demais esse menino, sabia? — ela comentou, sorrindo enquanto Tom engatava a marcha e o carro voltava a deslizar pelas ruas arborizadas de Los Angeles.
— Eu não mimo, eu apenas reconheço o potencial dele — ele retrucou, mantendo o tom descontraído enquanto manobrava pelo trânsito. — O %Ryan% é um garoto incrível, %Layla%. Você fez um trabalho excepcional. Ele tem uma percepção das coisas, uma gentileza... É raro ver isso em crianças da idade dele hoje em dia.
%Layla% olhou pela janela, vendo os reflexos das palmeiras passarem rapidamente.
— Eu tento. Às vezes acho que estou errando em tudo, que a pressão de criar alguém sozinha em uma cidade grande vai acabar me consumindo, mas aí vejo momentos como esse e... Bom, saber que ele tem você para compartilhar essas pequenas coisas torna tudo mais leve.
Tom virou o rosto por um instante, o olhar fixando no perfil de %Layla% antes de voltar para a estrada. Ele sentiu uma pontada no peito — um misto de orgulho pelo que ela construiu e um sentimento protetor que, cada vez mais, parecia transbordar os limites da amizade que ele acreditava ter.
— Não é nenhum sacrifício pra mim e se eu posso ser esse braço direito, esse tio que joga bola ou que ensina o toque de mãos especial... É um privilégio. De verdade. A gente se entende, eu e ele. É como se, em algum lugar lá no fundo, a gente falasse a mesma língua.
%Layla% sorriu, sentindo-se genuinamente emocionada com as palavras dele. Ela não via nada além de uma amizade profunda, um laço de lealdade que só cresceu desde a perda de Ralph. Para ela, aquelas palavras eram apenas a confirmação de que ela tinha feito a escolha certa ao manter Tom tão próximo. Ela não percebeu como ele apertou um pouco mais o volante ao dizer aquilo, nem o silêncio denso que se formou entre eles por alguns segundos — um silêncio que, para Tom, carregava um peso que ele ainda estava aprendendo a carregar.
— Você é um cara raro, Tom — ela disse, quebrando a tensão com um tom leve e carinhoso. — Espero que não demore em encontrar alguém que dê o devido valor a esse seu coração de manteiga.
Tom soltou uma risada curta, que não chegou a esconder um leve brilho de ironia no olhar.
— É, quem sabe, não é? — ele respondeu, voltando a focar na direção enquanto se aproximavam do centro, onde os prédios começavam a ficar mais altos e a sombra das estruturas de concreto cobria o carro. — Mas, por enquanto, o meu foco é garantir que o meu garoto favorito e a mãe dele estejam bem.
%Layla% riu, sem desconfiar que, naquele jogo de palavras, Tom estava começando a desenhar um caminho que, em breve, a levaria para fora da zona de conforto onde ela vivia.
O carro deslizou até parar diante do imponente edifício onde funcionava a Vara da Infância. Tom estacionou com precisão milimétrica, o movimento fluido de quem tinha total controle sobre aquele ambiente. Ele girou o corpo no banco do motorista, seus olhos claros fixos em %Layla% enquanto ela recolhia sua bolsa e organizava o material de trabalho.
— E como vai ser o seu dia, Tom? Muita correria entre sets de filmagem ou a vida de astro de cinema te dá um respiro hoje? — ela perguntou, com aquele sorriso de canto que sempre a deixava ainda mais encantadora aos olhos dele.
Tom deu um sorriso de lado, aquela expressão que misturava um pouco de sarcasmo com uma leve autocrítica.
— Na verdade, tenho que voltar ao estúdio para regravar algumas cenas que não ficaram boas no último projeto. O diretor quer uma nuance diferente, algo mais... Intenso. Depois disso, o resto do dia é livre.
%Layla% gargalhou, uma risada gostosa que preencheu o espaço confinado do carro.
— Ai, meu Deus, a vida é mesmo muito difícil, né? Coitado de você, tendo que repetir cenas e depois ficar à toa pelo resto do dia — ela disse, com um tom de deboche carinhoso, balançando a cabeça como se ele estivesse enfrentando o maior sofrimento do mundo.
Tom estreitou os olhos, fazendo uma expressão de ofensa fingida, a mão pousada teatralmente sobre o peito.
— Ora, veja só... Quanta injustiça! Se você acha que meu trabalho é tão moleza assim, tenho uma proposta irrecusável: você pode largar tudo, virar minha esposa troféu e cuidar de me manter no luxo enquanto eu "sofro" pelos sets de filmagem. O que acha?
%Layla% soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça levemente para trás. Era o tipo de brincadeira que só amigos que se conheciam há tanto tempo podiam ter. Ela se inclinou na direção dele, depositando um beijo demorado e carinhoso na bochecha de Tom.
— Você é uma figura, Tom Hiddleston. Mas vou ter que recusar a proposta de esposa troféu hoje, tem uma pilha de processos me esperando lá em cima.
Antes de abrir a porta, ela retirou um pequeno frasco de perfume da bolsa. Com um gesto preciso e gracioso, ela deu uma borrifada leve na curva do pescoço, o movimento revelando a pele macia sob a gola do terninho. O aroma floral, suave e inconfundível, dissipou-se rapidamente pelo ar do veículo. Era a sua mania, algo que ela fazia quase sem pensar, como uma assinatura silenciosa.
— Até mais tarde, então — ela disse, já empurrando a porta. — E juízo nessas gravações!
Tom observou cada movimento dela até que a porta se fechasse com um baque suave. Ele permaneceu ali, imóvel, vendo %Layla% caminhar em direção à entrada do prédio com aquela elegância natural. Ele não a seguiu com os olhos apenas por cavalheirismo; ele estava preso ali, inebriado. O perfume dela, agora impregnado no assento do carona e flutuando no ar, era uma presença física. Parecia que, ao sair do carro, ela tinha deixado uma parte de sua essência para trás, algo que ele, sem perceber, aspirava profundamente, sentindo o aroma gravar-se em seus sentidos como um convite silencioso.
Ele deu um suspiro lento, voltando a si apenas quando um carro atrás dele buzinou impaciente. Tom engatou a marcha e saiu, mas a expressão de quem acabava de gravar um filme de época tinha dado lugar a um olhar muito mais presente, muito mais atento.
O trajeto até o estúdio de filmagem em Manhattan Beach foi curto, mas para Tom, o silêncio no carro parecia ter mudado de natureza. O aroma de %Layla% ainda pairava ali, uma presença quase etérea que tornava o ambiente familiar um pouco mais apertado, mais denso. Quando ele finalmente estacionou e saiu do carro, o sol da Califórnia parecia um pouco mais pálido em comparação à intensidade da manhã.
Ao entrar no estúdio, o caos organizado do set de filmagem o engoliu. Era um mundo de luzes, cabos espalhados pelo chão, refletores gigantescos e a constante movimentação da equipe técnica. Tom seguiu direto para o seu trailer, onde o figurinista e a equipe de maquiagem já o aguardavam.
Minutos depois, o Loki estava ali, materializado no espelho. A armadura, com seus detalhes em dourado e o verde esmeralda característico, dava a ele uma postura quase aristocrática. O cabelo longo, penteado para trás com precisão, acentuava os ângulos do rosto de Tom, conferindo-lhe um ar de superioridade fria. Ele se olhou no espelho por um momento, ajeitando o colarinho.
— Vamos, Tom. O diretor quer intensidade hoje — um assistente de produção gritou lá de fora.
Ele foi para o set, onde a cena envolvia o confronto final entre Loki e Thor. Chris Hemsworth, imponente em sua armadura, já estava em posição. Tom respirou fundo, concentrando-se. A cena exigia que ele exibisse toda a mágoa e o ressentimento que Loki sentia pelo irmão, aquela necessidade desenfreada de ser reconhecido, de ser amado, de ser o rei.
— Ação! — o diretor bradou.
Tom transformou-se instantaneamente. O sarcasmo venenoso de Loki brilhou em seus olhos enquanto ele caminhava ao redor de Thor, cada palavra, cada gesto, carregado de uma elegância perversa.
— Você nunca viu o que eu sou, Thor! — ele rugiu, a voz ecoando pelo estúdio, cheia de uma amargura que, para Tom, parecia estranhamente fácil de acessar naquele dia.
— Corta! — o diretor interrompeu, franzindo a testa. — Tom, está ótimo, mas preciso de algo a mais. O Loki está sentindo isso, mas esconda um pouco atrás da máscara de indiferença. Quero o conflito interno, a dor de um irmão que se sente traído. Tente de novo, com menos volume, mas com mais... intenção.
Tom assentiu, ajustando a postura. Ele voltou ao ponto de partida. Fechou os olhos por um segundo, buscando a emoção necessária. Engraçado, pensou ele, como a linha entre a ficção e a realidade começava a ficar turva. A dor do Loki pela falta de reconhecimento do irmão... teria algo a ver com a forma como ele próprio escondia seus sentimentos por %Layla%, por trás dessa "máscara" de amigo fiel e zeloso?
Ele balançou a cabeça para afastar o pensamento e voltou ao papel. Na segunda tentativa, a entrega foi absoluta. O silêncio no set era palpável. Quando o diretor finalmente gritou "Corta!", houve um suspiro coletivo da equipe.
— Perfeito, Tom. É isso. Obrigado. — O diretor sorriu, satisfeito.
Tom saiu do set, desfazendo a pose de Loki aos poucos. Enquanto caminhava de volta para o trailer, ele pegou o celular. A mente, que segundos atrás estava imersa na grandiosidade de Asgard, voltou instantaneamente para a rotina de L.A., para o cheiro de perfume no carro e para o desafio que ela lhe lançara. Ele olhou a tela do aparelho, tentado a mandar uma mensagem, mas conteve-se. Ele tinha o dia todo para planejar o próximo passo desse jogo.
O ambiente no escritório de %Layla% estava tenso, com pilhas de prontuários espalhadas e o som abafado de discussões sobre diagnósticos clínicos. Ela tentava manter o foco, revisando um caso complexo, enquanto sua colega discorria fervorosamente sobre um protocolo que não parecia ter fim. De repente, a tela do celular, que estava virada para baixo sobre a mesa, iluminou-se com uma notificação, refletindo uma luz azulada na madeira.
%Layla% olhou discretamente. O nome de Tom apareceu na tela, e o estresse do dia pareceu evaporar.
Tom:
Como está indo o seu dia? Já conseguiu almoçar? Já passa da uma.
Um sorriso genuíno, daqueles que chegam aos olhos, tomou conta de seu rosto. Ela ignorou completamente a colega, que ainda falava sobre o caso, e digitou rapidamente:
%Layla%:
Ainda não, o dia aqui está uma loucura. Por quê?
A resposta veio quase instantaneamente:
Tom:
Estou na porta do prédio. Vamos almoçar?
%Layla% não conseguiu esconder o brilho no olhar, que não passou despercebido. Sua amiga interrompeu a fala e arqueou uma sobrancelha, rindo:
— Menina, que sorriso é esse? Tá brilhando mais que espelho novo! Quem é o cara que tá fazendo essa mágica toda em pleno horário de almoço?
%Layla% sentiu o rosto esquentar, tentando retomar a compostura, embora o sorriso teimasse em ficar.
— Para com isso, é só um amigo — respondeu, guardando o celular rapidamente.
— Sei... "só um amigo" — a colega brincou, lançando um olhar desconfiado enquanto %Layla% já se levantava da cadeira, apressada para sair.
Tom a esperava encostado em seu carro, mantendo a postura serena de quem está acostumado a esperar, mas com um olhar atento à porta do prédio. Assim que ele a viu, a expressão séria de "vilão" de Asgard deu lugar a um sorriso suave, daqueles que guardava apenas para momentos assim.
Eles não foram para longe. Tom a levou até o The Lobster, estrategicamente localizado na entrada do Píer de Santa Monica. Sendo quem era, o restaurante, que já é um clássico com uma das vistas mais privilegiadas da Califórnia, reservou para eles uma das mesas mais disputadas, na varanda envidraçada que oferecia uma visão panorâmica do oceano e da areia movimentada abaixo.
O cenário era de tirar o fôlego: o azul profundo do Pacífico contrastava com o céu aberto de Los Angeles, enquanto a brisa fresca do mar trazia um alívio ao calor do meio-dia. Dentro do restaurante, o clima era sofisticado, mas com aquele toque californiano descontraído. A luz do sol refletia nas taças e nos detalhes de vidro, criando um ambiente iluminado e elegante. Tom parecia em casa, deslizando entre a fama e a simplicidade de estar ali com ela, pedindo sugestões ao garçom que o tratava com a deferência reservada aos grandes nomes do cinema. Ali, sentados de frente para o horizonte, o caos do escritório parecia estar à milhas de distância.
— Relaxa agora — disse Tom, percebendo que ela ainda estava com a mente no trabalho. — O mundo pode esperar uma horinha, não pode?
A luz do meio-dia em Santa Monica tinha uma qualidade quase irreal. Refletia-se nas janelas do
The Lobster com uma intensidade que fazia tudo ao redor brilhar, como se a realidade tivesse ganhado um filtro de saturação. %Layla%, acostumada com o cinza da papelada da Vara da Infância e o trânsito caótico de Los Angeles, sentiu seus ombros relaxarem quase instantaneamente. Aquele lugar era um oásis.
Ela olhou para Tom, que estava sentado à sua frente, observando o movimento lá fora. Ele parecia perfeitamente integrado ao ambiente sofisticado, embora houvesse nele uma despretensão que quebrava qualquer rigidez. Ele estava sem o paletó, com as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos, revelando o antebraço onde as veias saltavam levemente, um detalhe que %Layla% notou sem querer, registrando como se fosse uma anotação de rodapé em sua mente.
— Você veio aqui muito rápido — %Layla% comentou, quebrando o silêncio enquanto abria o guardanapo de linho. — Sério, Tom, como é que você consegue essas mesas? Eu tentei reservar aqui para o aniversário da Amber no mês passado e eles me deram um prazo de espera que parecia uma sentença de prisão perpétua.
Tom soltou uma risada baixa, aquele som gutural e contido que ele sempre usava quando o assunto era o seu status de "astro de cinema". Ele não gostava de se vangloriar, mas também não era bobo de desperdiçar as portas que a carreira abria quando se tratava de proporcionar momentos melhores para as pessoas que ele amava.
— Digamos que eu tenha meus contatos, e o gerente daqui é um fã de carteirinha de filmes de fantasia — ele respondeu, dando de ombros com uma humildade ensaiada que ela achava engraçada. — Mas esquece o motivo. O que importa é que a gente tá aqui. Você tava precisando desse respiro, %Layla%. Eu vi a sua cara de exaustão quando te peguei hoje de manhã. Aquela olheira não é só de pouco sono, é de quem tá carregando o mundo nas costas.
Ele estendeu a mão sobre a mesa, não para tocar a dela, mas para enfatizar o que dizia. O olhar dele estava fixo, direto, aquela intensidade de ator que, na tela, faria qualquer um tremer, mas que ali, para %Layla%, era apenas o "Tom preocupado".
— Eu tô bem, Tom. É só o fluxo de processos. A Vara da Infância não descansa, e os problemas lá não têm hora marcada pra chegar. — Ela suspirou, pegando o cardápio, tentando desviar o foco daquela análise dele. — Mas, falando sério... valeu. Por tudo. Pelo almoço, pela carona, pela cumplicidade com %Ryan%. Você faz diferença.
Tom sentiu o "golpe". Era uma frase simples, carregada de gratidão, mas para ele, que tinha aceitado o desafio de fazê-la se apaixonar, soava como um obstáculo. Ela o via como um porto seguro, uma peça fundamental no quebra-cabeça da vida dela. Ele precisava ser mais. Ele precisava ser o desejo. Mas não podia ser abrupto. Ele conhecia o gênio dela; se ele tentasse forçar a barra, ela se fecharia como uma ostra. Tinha que ser estratégico, como um jogo de xadrez onde ele sabia que a vitória era a única opção.
— Eu faço o que posso, porque eu sei quem você é — ele respondeu, baixando o tom de voz, deixando-o mais aveludado, mais pessoal. — Você não é só uma advogada, %Layla%. Você é uma força da natureza. E eu só quero garantir que essa força não se desgaste antes da hora.
O garçom interrompeu o momento, trazendo uma taça de vinho branco para ela e uma água com gás para ele, pois ele ainda tinha que voltar ao set. %Layla% aproveitou a distração para bebericar o vinho, sentindo a temperatura fresca aliviar o calor interno.
Enquanto comiam — um prato de lagosta grelhada com aspargos para ela, um
Filet Mignon grelhado com purê de batatas trufado—, a conversa fluiu para o lado mais leve. Eles falaram sobre amenidades, sobre o set de filmagem, sobre como o Chris Hemsworth era um "bebezão" na vida real, ao contrário do que parecia como Thor. %Layla% ria com vontade, o som das ondas do mar se misturando às gargalhadas que ela soltava.
Tom a observava. Ele não estava apenas ouvindo; ele estava catalogando. A maneira como ela segurava o talher, a forma como ela franzia o nariz quando ria de algo que ele contava, o brilho que surgia nos olhos dela quando mencionava alguma vitória pequena no trabalho. Ele começou a notar coisas que, antes, estavam ocultas pela névoa da amizade cotidiana. Percebeu como o vestido de verão que ela usava, um modelo leve que deixava os ombros à mostra, realçava a pele dela, como o perfume — aquele que ficou no carro — parecia emanar dela de forma mais intensa agora, sob o calor do sol da tarde.
— Você tá me encarando — %Layla% disse de repente, parando com o garfo no ar. Ela não parecia ofendida, apenas curiosa, um pouco confusa. — Tem alguma coisa no meu rosto? Eu me sujei?
Tom não desviou o olhar. Ele não recuou. Ele manteve a expressão serena, o sorriso de canto que ela tanto conhecia, mas que agora parecia ter uma camada a mais de mistério.
— Não. Nada no rosto — ele disse, a voz quase um sussurro, firme e sem hesitação. — Eu só estava pensando em como é raro ver você assim, totalmente fora do papel de "advogada" ou de "mãe". Você é só... você. E é bem difícil de tirar os olhos disso.
%Layla% piscou, uma surpresa inesperada estampando seu rosto. Não sabia se era o vinho, mas não se lembrava de Tom ser assim tão... Intenso? Ela soltou uma risada nervosa, tentando manter o tom de brincadeira.
— Nossa, desde quando você ficou tão cavalheiro assim? Tá treinando falas para o próximo filme de romance, é? — ela provocou, mas não conseguiu esconder um leve rubor que subiu pelo pescoço, tingindo suas maçãs do rosto.
— Talvez — ele respondeu simplesmente, voltando a comer como se não tivesse acabado de soltar uma das frases mais carregadas de intenção que ela já tinha ouvido dele. — Um ator precisa de prática constante, não é? E quem melhor do que a minha melhor amiga para testar o meu desempenho?
%Layla% relaxou novamente, soltando o ar que nem percebeu que estava prendendo.
Claro, o desafio. O desafio que ela lançou como piada. Ela sorriu para si mesma, sentindo-se vitoriosa por ter mantido o controle da situação. Ela achou que ele estava entrando na brincadeira, levando o desafio com o mesmo espírito esportivo dela. O que ela não percebeu — e o que Tom tinha o cuidado extremo de não revelar — era que, para ele, aquela não era mais uma prática. Era o jogo real, e ele estava apenas começando a mover as peças.
Eles terminaram o almoço com um café expresso. A vista do Píer de Santa Monica começava a ficar ainda mais linda com a luz da tarde dourando a madeira velha da estrutura e o movimento das pessoas lá embaixo. Tom, de repente, pareceu lembrar-se de algo.
— Escuta, já que estamos falando de "testar desempenhos" — ele disse, colocando a xícara na mesa com precisão — hoje à noite, depois que você sair do escritório, eu vou ter um tempo livre. Consegui filmar a última cena sem erros hoje e o diretor me liberou pelo resto do dia. O que você acha de a gente dar uma volta? Sem %Ryan%, sem pressa, sem compromisso com o relógio. Só a gente.
%Layla% hesitou por um segundo. A rotina dela, o cuidado com o menino, o cansaço do tribunal... tudo isso gritou para ela dizer não. Mas então ela olhou para ele, para aquele rosto familiar, para aquele homem que, em anos de amizade, nunca a decepcionou, que estava ali, convidando-a para algo que parecia ser apenas uma extensão natural da amizade deles.
— Eu só preciso ver se minha mãe fica com %Ryan%, mas... Onde você quer ir? — ela perguntou.
— Surpresa — ele respondeu com um brilho malicioso nos olhos, o brilho do vilão de Asgard que, pela primeira vez, não estava atuando. — Eu passo na sua casa às oito. Esteja pronta para algo... diferente.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Você é um doido, Thomas William Hiddleston. Mas tudo bem. Às oito.
Ele sorriu, e para ele, aquele "sim" valia mais do que qualquer contrato assinado em Hollywood. O jogo tinha começado, e a primeira armadilha estava armada.