Prólogo
Uma vida completa nem sempre é aquela que almejamos aos quinze, quando a meta era terminar o ensino médio, se formar na faculdade dos sonhos, conhecer alguém e se apaixonar, casar, ter a casa própria e o carro, planejar os filhos, envelhecer ao lado da pessoa amada.
Tudo isso estava na minha lista de objetivos e eu tentei cumpri-los na ordem, mas mesmo que você planeje, a vida já tem seus próprios planos.
Ainda no ensino médio, eu conheci o Ralph. Ele era o capitão do time de futebol da escola — aquele clichê de toda história —, mas eu era uma garota comum. Não posso me considerar uma nerd, mas eu mantinha as minhas notas altas o suficiente para passar de série sem recuperações.
Nos demos bem logo de cara e não foi preciso mais do que alguns dias para ele me chamar para sair. Quatro encontros depois, éramos o casal 20 da escola.
Ainda mais clichê que isso, foi ele ter sido o primeiro da minha vida. Ficamos juntos até a faculdade, ele em Contabilidade, eu em Publicidade.
No quarto período da faculdade, eu fiquei grávida.
Não posso dizer que Ralph foi um cretino porque, mesmo aos vinte anos, ele assumiu a paternidade do nosso filho e me ajudou com tudo o que pôde, mas a nossa relação tinha mudado com o fim do colegial e mesmo nos gostando e nos respeitando, aquilo precisava de um fim. Além de pais, nos tornamos amigos e a relação dele com nosso menino era a melhor das melhores e a vida era boa. Até ele receber uma proposta de emprego no exterior que cobria quatro vezes seu salário atual e ainda cobria o plano de saúde para ele e nosso menino.
E lá se foi Ralph para outro país. As ligações aconteciam duas vezes na semana, sempre para saber como %Ryan% estava e se precisava de mais dinheiro e, quando ele completou cinco anos, paramos de receber notícias dele.
Nas duas primeiras semanas achamos que o trabalho tinha tomado seu tempo, na terceira seus pais iniciaram uma busca por ele. Na quarta, a notícia de que ele havia sido confundido com um policial e assassinado no meio da rua em plena luz do dia.
Desde aquele dia tem sido apenas %Ryan% e eu. A rotina cansativa do meu dia era derrubada toda vez que eu via meu menino sorrir. Hoje, três anos depois da morte de Ralph, nós dois vivíamos muito bem sozinhos.
...
O dia da faxina em casa era sempre o melhor. Eu levava %Ryan% para casa da minha mãe ou da mãe de Ralph e usava as vinte e quatro horas livres para tirar tudo do lugar e colocar de novo, com a música no último volume, os cabelos bagunçados e a roupa mais velha que eu tinha no guarda-roupa.
Geralmente, eu a fazia sozinha ou com minha irmã Amber, mas desde o anúncio do noivado, ela mal tinha tempo de respirar, por isso precisei recrutar novas pessoas. A cada semana, um dos meus amigos da faculdade acabava vindo me ajudar depois de horas fazendo drama pelo telefone. Hoje era o dia de Tom.
— %Layla%, você tem certeza que vai tirar a TV do painel? — resmungou.
— É claro, né. Tá cheio de poeira ai atrás — eu disse pegando a chave de fenda para ajudá-lo a soltar os parafusos. — É só segurar a TV bem firme que eu solto.
— Ah, você ficou com a parte fácil. Essa TV monstruosa é pesada, sabia? — ele disse fazendo careta. Minha TV de oitenta e seis polegadas realmente era enorme e pesada. Gastei grande parte do meu aumento para comprá-la e foi um dos meus melhores investimentos.
— Para de reclamar, até a Sylvie consegue segurar. — Joguei o pano nele rindo e seu rosto mudou de impaciente para incrédulo.
— Não acredito nisso. Chama a Syl na próxima, então. — Emburrou a cara de novo me fazendo rir mais.
— Não fica assim, você me ajuda mais do que ela — disse de braços cruzados. — Mas se ela consegue segurar a TV, você também consegue.
Tom me olhou e disse um tanto faz enquanto eu ria dele. Larguei um beijo em sua bochecha e avisei que ia começar a soltar os parafusos.
— Se essa TV cair, eu não me responsabilizo — disse rindo e segurou firme a parte debaixo do aparelho. — Sua maníaca por limpeza.
Gargalhei das reclamações do meu amigo.
— Se você se comportar, eu vou esquentar aquela lasanha que você está há semanas dizendo que quer comer.
Ouvi um suspiro de Tom e soube que ele tinha se convencido. Meu amigo era louco por lasanha e, quem fizesse uma travessa enorme conquistava seu coração e seu estômago.
— Você dá sorte que eu te adoro — Tom reclamou segurando firme o lado solto da TV.
— Para de ser falso, você adora é a lasanha que eu faço. — Ri, batendo na barriga dele.
— Eu nunca mais venho te ajudar, sério — resmungou finalmente pegando a TV\ para colocar em cima da mesa. — Eu mais apanho do que recebo carinho e você ainda se diz minha amiga.
Tom caminhou para perto do sofá e pegou o espanador.
— Tira logo o pó dessa droga pra gente colocar a TV no lugar.
Limpei o painel e a TV voltou para o suporte.
— Viu, nem demorou. — Sorri apertando as bochechas de Tom e segui para a cozinha. — Vou esquentar a lasanha e enquanto isso, você podia arrumar aquelas coisas de jardinagem lá fora, né? — Fiz a melhor cara de cachorro pidão e ele riu.
— Como eu disse, tua sorte é eu gostar de tu. — Tom passou por mim com um sorriso no rosto. — Tudo isso aí é meu. — Apontou para a travessa e saiu da cozinha.
Tom é, de todos, o meu amigo mais próximo e desde a morte do Ralph, a presença dele em minha casa tem sido cada vez mais frequente. Ele foi o último a entrar no nosso grupo na faculdade, mas foi a cola que faltava para nos manter unidos até hoje.
Coloquei a travessa no forno e abri a geladeira pegando a sacola com a alface e os complementos da salada. Lavei algumas folhas, separando as mais bonitas e cortei, fazendo o mesmo com os tomates e a cebola. Arrumei tudo na mesa e apenas esperei que o timer do forno apitasse.
Tom já estava terminando de organizar algumas pás de jardinagem no armário quando eu o chamei.
— Tem salada, arroz, batata-palha e farofa. — Apontei os itens dispostos à mesa. — Se quiser, também tem feijão e queijo ralado. — Peguei o prato e comecei a me servir. Tom continuou parado apenas me olhando.
— Quem em sã consciência coloca batata-palha, farofa e feijão junto com a lasanha? — perguntou indignado.
— O Ralph colocava. — Dei de ombros. Ele comia de tudo e dizia que tudo combinava bem. — Acho que depois de cinco anos acabou se tornando normal pra mim. — Me sentei com a comida já no prato.
— Você herdou muitas manias dele, né? — ele disse cortando um pedaço enorme de lasanha. — E antes que você reclame, esse é o tamanho de lasanha que vale aquela sua tv ridiculamente enorme.
— Eu nem ia falar nada — menti porque eu ia sim implicar com o tamanho de lasanha que ele pegou. — E sim, tenho muitas manias dele, %Ryan% também. Acredita que ele dobra os lençóis do mesmo jeito que o pai? — Ri lembrando do dia em que o peguei arrumando a cama pela primeira vez. — Parecia o Ralph mirim. — Suspirei dando a primeira garfada na comida.
Tom sentou ao meu lado e então comemos em silêncio. Sempre falávamos do Ralph como se ele ainda estivesse entre nós, mas as vezes o clima ficava estranho. Ainda era difícil para todos nós acreditar que ele tinha morrido e ainda daquela forma tão cruel.
— %Layla%, por que você não ficou com mais ninguém? — Tom disparou me fazendo engasgar com o arroz. — Calma, foi só uma pergunta. — Riu constrangido.
— Bem... É que eu... — Tentei responder, mas a verdade é que eu não sabia o porquê. — Sei lá, Tom. Acho que me acostumei a ter apenas %Ryan% e ele a mim. — Dei de ombros porque a resposta me parecia boa e, em parte, era verdade.
— Tudo bem, mas você não acha justo dar um pai ao seu filho? — ele disse e eu o olhei incrédula.
Larguei o garfo e o barulho que ele fez ao encontrar o prato ecoou por toda a cozinha.
— Como é que é? — perguntei ainda sem acreditar naquilo.
— Mas já levando — eu o cortei e suas bochechas assumiram um Tom rosado.
— Mas eu não tive pai, %Layla%, você sabe disso. E acredite em mim quando eu digo que ele vai sentir falta.
— Você acha que eu não dou conta? — Entrelacei meus dedos e apoiei meu queixo nelas esperando sua resposta. — Porque eu posso ser tão pai quanto eu sou mãe.
— Sei que pode, %Layla%. — Virou-se para olhar em meus olhos. — Mas não é justo que você prive %Ryan% de uma presença paterna, que por sinal vai ser ótimo para ele, só porque você tem medo de se envolver com alguém de novo.
Olhei para Tom indignada. Eu não tinha medo de me envolver com ninguém, só não queria.
— Privar %Ryan%? Ele tem a mim e meus pais, os pais de Ralph. Ele não está abandonado — disse exasperada. Qual era o problema dele?
— Não foi o que eu disse, %Layla%. — Bufou, largando minhas mãos. — Ele tem avós incríveis e uma mãe espetacular. Ninguém pode dizer o contrário. Mas ele vai sentir falta, %Layla%.
— Se ele tem tanta gente incrível, por que eu deveria colocar mais gente na vida dele? — Cruzei os braços e me senti com a idade de %Ryan%.
— %Layla%, você já parou para pensar, por um segundo que seja, que nenhuma dessas pessoas pode verdadeiramente representar a figura paterna que ele pode precisar no futuro? — Tom disse e eu permaneci em silêncio.
Por alguma razão, eu quase queria dizer que Tom estava certo, mas meu feminismo enraizado gritava que não precisávamos de nenhum homem entre nós.
Olhei para Tom que me observava pensar no assunto.
— Se você não quer deixar alguém entrar na sua vida e na de %Ryan% por medo de se apaixonar e perdê-lo, como aconteceu com Ralph... — ele disse quando percebeu que eu não queria mais falar. — Preciso te dizer que está sendo egoísta. E não é só com seu filho.
— Eu não tenho medo de me apaixonar, Tom.
— Uh, sei — ele disse rindo e me deixando furiosa.
— É verdade, Thomas, eu não tenho medo mesmo. — Bati a mão na mesa e ele riu ainda mais. — Quer saber? Eu te desafio.
— Me desafia? — Olhou-me prendendo o riso.
— Faça eu me apaixonar por você — disse simplesmente e vi o sorriso de Tom morrer.
— Foi o que você ouviu. — Levantei-me recolhendo nossos pratos vazios. — Vou te provar que não tenho medo de me apaixonar e %Ryan% finalmente vai ter um pai.
— Bae... Você endoidou? — Tom se levantou, vindo até a pia. — Isso é uma péssima ideia.
— Não. — Comecei a lavar os pratos e sorri para ele. — Que foi? Está com medo?
Era o que eu precisava. Tom dificilmente fugia de desafios e quando tentava fazê-lo, era só alguém insinuar que ele não tinha coragem ou era medroso e pronto... Tom topava qualquer coisa.
— Tudo bem, senhorita
não tenho medo de me apaixonar.
Eu topo. Empurrou-me com o ombro e sorriu. Ele realmente levaria aquilo à sério e eu provaria que não tinha medo de nada.